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setembros II

Terça-feira, 01.09.20

 

 

 

I

 

aguardo agora a passagem da paz sobre o colibri do tempo

tumultuosos de imensidão doem-me os espaços

 

aqui te espero e me perfaço

 

alguém me disse

a hora de partir é um inverso sorriso

dolorido no momento

em que prantos mordem por dentro das vozes

tal um substantivo estala lentamente no real dos dentes

e adormece recalcando a luz e o olhar

 

aguardo calmo o tempo

de parar

 

II

 

estudas vagamente o lento traçar das pernas

espontâneas as coxas sobrenadam

recolhidas nas memórias

 

resides nessa messe subtil e recortas o recôndito do sexo

pleno exercício de perfeccionismo

quando te dás e és meiga generosa e pensativa

 

encontro-te por vezes no todo onde resisto

lugar de movimentos e recusas

procura imediata de tudo quanto é novo

inocente e pleno e montado na loucura das palavras

setembro avança e as notícias vagamente vão chegando

 

III

 

há quanto tempo espero o teu sinal

égua de vento carrossel de chuva

e preparo as imagens que se perdem nos amados setembros

entre as muitas águas da realidade

 

dizes-me

em setembro meu amor iremos aos campos

onde as borboletas se amaram com doçura e se extinguiram

pequeno fogo que ilude as madrugadas e o céu é pasto

de mansas estrelas iniciais

pedes-me mudamente que te espere

contas histórias incompletas e heroicas

produzindo os alicerces da minha catedral

 

porque me falas de setembro

se todas as sombras estão paradas

e desmoronadas pelas frinchas da tristeza

as paredes escurecem em prematuros invernos

vesperais

 

que nada tivesses dito por setembro

e me fosses interdita meu amor

nem teimasses em parecer possível

ó irrealizável alvorada de azul transparente e completa

tonta gazela que te esvais nos moinhos das palavras

quando desapaixonada comentas

 

em setembro lembro-me da morte

 

e fechas os olhos contra a almofada

e calas o medo das tardes

por enquanto doces e doiradas

e do vento fresco nos ocasos

pensados em abismos sobre os olhos

melancólicos e trágicos de nuvens

plantadas à porta dos sorrisos

 

 

IV

 

em setembro longe das promessas por fazer

ou dos sonhos por cortar

construí esta história nas asas dos ventos minerais

 

em setembro não vieste o sonho desfazia

em setembro entre raivas e esperanças

o tempo por demais se consumia

 

carlos alberto correia, "penélope e outras esperas", ANES, Lisboa, 1982

 

 

 

 

 

 

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publicado por Carlos Alberto Correia às 00:38