Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]



Momentos para inventar o amor

Sexta-feira, 22.05.20

 

cabeçalho.jfif

 

P - Cais das Colunas

 

Kismet ajeitou o títere, largou o manípulo, apagou a luz e fez-se noite. Seguiu Oblata, inconformada com o rumo tomado pelas histórias de Cursino. Discordava com o desvio das narrativas do projeto inicial. Sentia-se incomodada com tanta desesperança. Acreditava nos sentimentos nobres, Cursino fazia-os esmorecer em nuvem de desalento. A vida não era como ele a expunha, ou pelo menos não a queria assim. Depreendia-se, na velocidade dos passos com que se afastava de Kismet, a possibilidade de desacordo sério.

- Espera um pouco Oblata, pareces fugir.

- Parece não! Estou mesmo. Afasto-me da personagem. Não encontra nada de positivo na vida? Terá de levar à abjeção todas as situações?

- Que queres? É apenas realista. Mostra-nos o que vê à volta. Se refletires com menos paixão, verificarás que o colocámos num mundo em rápida decomposição. As pessoas perderam o sorriso. Vivem enfronhadas em problemas de emprego, saúde, mesmo liberdade. Fica-lhes pouco tempo para os afetos, para a comunhão. Se são tratadas como coisas, como queres que reajam como gente?

- Jogos de palavras, desculpas, fuga à responsabilidade de melhorar o mundo. Mesmo que ele tenha herdado uma sociedade a desfazer-se é demasiado esperar que lute, se rebele, com todas as forças, para a modificar?

- Não entendes! Este é o seu modo de fazê-lo. Ao carregar nas tintas tenta, pelo excesso, levar as pessoas ao sentimento de agonia, depois de revolta e finalmente à mudança.

- Crês consegui-lo com tão descabelado método?

- Espero bem. Antes de construir algo novo é, por vezes e sem dúvida, necessário limpar o terreno da tralha obsoleta. Mas antes é fundamental revelá-la, ir até ao mais profundo dos motivos e ações, mostrar o que fica por baixo das aparências, das primeiras sensações, das imagens com que, mesmo involuntariamente, nos apresentamos ao mundo e aceitamos que o mundo se nos apresente. É o que ele tenta fazer. Torna-se, deste modo um revolucionário descrente da revolução que, apesar dele, a dissemina. Empresta a pena à náusea. Demonstra o absurdo dominante na vida. Torna-se espelho repulsivo. Força reações. Vá lá, faz um esforço, acompanha-o até ao fim, não o julgues tão depressa.

 

Teria, ao tempo, terminado o livro. Sem saber como, o tema fugira-me das mãos, escolhera o caminho, levara-me por onde queria, tornara-me quase mero serventuário da sua escrita. Mais que escrever o texto saberia ter sido reescrito por ele. Reconhecer-me-ia ou não nas linhas a que dera vida, mas isso teria pouca importância. De qualquer maneira passaria a estar nas vidas dos outros e os outros na minha. Acabaria a obra sem a satisfação desejada, sem a plenitude com que sonhara, com a sensação de perda, de filho partido do lar, temendo que não estivesse ainda preparado para a vida. Não teria mais tempo para lhe passar conhecimentos essenciais. Haverá tanto por dizer. Saberei que, apesar dos meus receios, ele partirá na construção de caminho próprio. Encontrará gente desconhecida. Ignorarei como será recebido ou tratado. Somente, muito a espaços, terei dele alguns ecos distanciados no tempo. Com isso terei de contentar-me. O caminho estará traçado.

 

Terei dado o livro a ler a amigos. Ouvirei críticas, conselhos, sugestões. Aceitarei umas, ignorarei outras. A todos agradecerei os contributos. Depois de várias leituras, cortes, alterações, considerá-lo-ei terminado. Avançarei para a prova de força. Só terá existência real depois de publicado. Não terei qualquer dúvida sobre o interesse que despertará. Estarei certo, até ao desprezo pelos avisos cautelosos. Vai pessoalmente à editora. Não mandes por e-mail. Sobretudo não faças envio para várias ao mesmo tempo. Isso costuma dar mau resultado. Desagradecerei tais alvitres. Enviarei, para mais de vinte editoras, o original. Poucos dias depois, cinco respostas dar-me-iam razão. Serão laudatórias, tratar-me-ão por caro autor, aprazam reuniões urgentes, podendo ser alteradas segundo a minha conveniência. Desconfiarei de tanta abertura. As entrevistas confirmarão o receio. Pouco lhes importa o conteúdo do livro, desconhecem-no, nem se baterão por ele. Propõem edição paga pelo autor. Tiragem pequena, sugestões de venda em mão, longa lista de livrarias onde – se procurado - não irei encontrar qualquer exemplar das obras por eles editadas. Perguntarei aos livreiros referências sobre essas editoras. Recebem as publicações? Se algum cliente as pedir faremos a encomenda. Mesmo assim demorarão muitos dias para as enviar. Percebo! Serão para vender a conhecidos e ficar com umas fotografias do lançamento. Quase tudo morrerá aí. Apenas produzem edições de vaidade. Ficarei descoroçoado, de nada me servirá o consolo de amigos lembrando-me de que Proust e Joyce também tiveram de custear as suas obras. Não sou nenhum deles, sou Cursino. Recordar-me-ei constantemente de Ecco, no Pêndulo de Foucault, alertando para a forma como, por detrás de editora prestigiada, funcionava outra cujos propósitos eram os de sugar o dinheiro de quem, julgando-se com talento, procurava publicar criação de sua lavra.

Esperarei novos contactos. Vão chegando lentamente no espaço de sete meses. Quatro recusarão liminarmente a publicação. Dois confessarão estar em dificuldades económicas pelo que, embora interessados, não poderão publicar. Os restantes nem sequer responderão. Não estarei disposto a formas de publicação menores, nem desistirei. Voltarei a atacar decididamente o mundo editorial. Passará mais de um ano de pesquisa e tentativa com resultados idênticos. Começarei a desesperar.

Instalada a descrença, interrogar-me-ei sobre a validade do meu trabalho. À exaltação inicial seguir-se-á o sentimento de rejeição. A ninguém interessará o que escrevi? Será perfeitamente desprezível o produto de tanta luta e angústia? Em mim o desespero dos meus personagens. A tudo isto acrescerá o estranho comportamento de Valéria. Informar-me-á que irá passar o fim de semana com um amigo. Será reação por recusar-me a mudar para sua casa? Desengano por não transitarmos a estágio superior de compromisso? Apesar do terramoto interior, calando o ciúme, fingirei despegamento. Ai, vais? Rematará com o seco, pois vou! Regressará domingo à noite, como se nada tivesse acontecido. Não mantive relações com ele, diz-me. Não fui capaz. Só me lembrava de ti. Não acreditarei. Quando se insinua na cama dar-lhe-ei a resposta: mesmo sem saber quem ele é, só consigo lembrar-me dele. Manter-se-á mais uma semana em casa, dormindo sozinha na cama. Ficarei, voluntário, no sofá. Recusar-lhe-ei qualquer palavra. Partirá! Nesse doloroso silêncio Juntarei os dois desaires. Desconhecerei o que fazer. O meu mundo estará desabitado. Tudo falha, tudo foge, nada vale a pena.

 

- Temos então Cursino a provar o caldo que preparou?

- Não sejas injusta Oblata. As desilusões acontecem a toda a gente. Por vezes aparecem em catadupas. Até dá para perguntar, o que virá ainda a acontecer.

- Deste-lhe demasiada corda. Deixaste-o inteiramente à deriva no curso dos acontecimentos. Não deveria ser assim. Incomoda-me!

- És muito severa. Tenta compreendê-lo, as experiências, as falhas, o desabar das expectativas.

- Pois, pois! Desconfio teres em Cursino o teu espelho. Desagradam-me essas disposições negativas.

- Já pressupunha ser o teu malquerer a Cursino interiorização de receios. Sabia que chegarias a essa conclusão. Identificaste-te com Valéria. Temes a reprodução, em nós, das desventuras relatadas. Oblata, Oblata, não cedas tanto à emoção!

 

Estarei de novo, no murete sobreposto ao cais, em desalento absoluto. Segurarei a cópia do livro sem serventia. Folha por folha, rasgá-lo-ei atirando-o para o rio. Retalhar-me-ei com prazer e raiva. Destruirei o livro que ninguém quer, de que ninguém precisa. Os pedaços de papel vogarão na direção da ponte. Alguns, empapados, começarão a submergir. Sinto-me a afogar com eles, não me apetecerá nadar. Irei com as ondas.

 

-Kismet, Kismet, o que se passa? Porque estou a esvaecer?

 

Kismet olhá-la-á. Sentirá o tremor das águas, verá o teatro a diluir-se, a imagem de Oblata distanciada, a desaparecer no balançar da corrente. Perceberá!

 

 Somos personagens, Oblata. Criaturas de Cursino. Fomos enganados! Só vivemos nos seus pensamentos. Nada em nós é real! Não existimos Oblata. Não exist….

 

Ficarei por longo tempo a olhar os restos de páginas a encharcarem-se, afundando-se nas águas inquietas. Partirei depois, náufrago de mim, para o exílio dos lutos. Passarei dias, meses, talvez anos, a contemplar a deceção, até ao domingo das descobertas.

 Encontrá-la-ei no Jardim das Exposições no grupo ao qual, por mero acaso, me juntarei. Percebê-la-ei como tepidez, doçura, suavidade. Ir-nos-emos desvendando ao longo da tarde, na discussão sobre as obras expostas, na comunhão de interesses e ideias. Pouco a pouco, num propósito inconsciente, afastar-nos-emos dos amigos. Perdê-los-emos para nos encontrarmos. Deixaremos o dia escurecer por fora. Iremos jantar. Ao sair do restaurante, já a noite avançada no caminho, receosa da calçada deslizante, procurará apoio em mim. Acolher-me-ei na mensagem daquele corpo em consonância. Ao beijarmo-nos, com o rio por testemunha, suspirou, são tão diferentes os beijos dados no Cais das Colunas. Saberei então que o tempo havia chegado. Ela acudira ao desespero dos chamamentos calados. Estava ali, perene novidade, e para sempre já não assustava. Sabia com o corpo, o desejo, a inteligência, que viera para ficar, para resistir a todos os tombos, manter-se firme quando tudo no mundo fosse abanão ou ruína. Poderia recomeçar a reescrever o meu livro. Sim, agora com Ela, vinham o presente e o futuro. Sem qualquer dúvida, assomavam finalmente, repletos de plenitude e premência, os momentos para inventar o amor.

 

O seu nome, sem dúvida, seria Aurora.

 

 

FIM

 

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado por Carlos Alberto Correia às 12:17