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Momentos para inventar o amor

Terça-feira, 05.05.20

 

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K - Mande queimar a roupa velha

 

Valéria andará febril. Será convidada para oradora numa convenção sobre a diferença social. Andará às voltas sem saber como agarrar o tema. Ficará obcecada, com medo de não conseguir passar da mediocridade que saberá ser costume revestir os discursos destes encontros. Tocar-se-á levemente nas fímbrias do problema, choverão os cumprimentos obrigatórios mesmo às mais banais participações, a eloquência na condenação da fome no mundo ficará mais vibrante, conforme os pratos e os vinhos forem sendo servidos. Poucos se lembrarão de como é fácil falar de fome com a barriga cheia. Na consciência embotada pelo bem-estar é simples resolver, em palavras, a concreta miséria dos outros. Por isso ela quererá marcar a distância de molde a ninguém deixar de perceber como nos sentimos confortáveis nestas diferenças ou fazer aparecer o terrível incómodo de sermos, pensando neles com boa consciência, parte interessada na manutenção deste nós, do qual nos esforçamos para não divisarmos fazer dele parte intrínseca. Para maçada das gentes bem pensante mostrará o preço do bem-estar.

 

Nós entramos em casa, ligamos a luz, tomamos um banho quente, vemos o noticiário na TV. Eles não têm casa ou quando a têm é de cartão, ramos de árvores ou materiais compósitos, pobres; iluminam-se com fogueiras ou velhos candeeiros; percorrem quilómetros para alcançar um ponto de água, quantas vezes insalubre. São, tantas vezes, as personagens e as vítimas dos noticiários que nos entretêm.

Nós temos automóveis potentes que nos transportam, com facilidade, aos locais de trabalho ou aos divertimentos que procuramos. Eles andam a pé, extraem dos seus solos o petróleo que faz andar os nossos carros e morrem em guerras feitas para os expropriar desses combustíveis.

Nós vivemos em democracias e achamos que temos esse direito natural, como se este fosse o estado normal do viver dos homens. Eles não têm quaisquer direitos senão o de penar sob o jugo de qualquer pequeno senhor local, que os utiliza de modo instrumental, para seu benefício imediato, visível e para um distanciado e obscuro interesse das longínquas democracias.

Nós sofremos terrivelmente com o mau funcionamento da nossa rede hospitalar e temos vidas prolongadas; eles morrem novos, já velhos de míngua, minados por doenças incontáveis e veem os filhos desaparecer com febres que, nos nossos mundos, uma aspirina curaria.

Nós vamos ao supermercado comprar produtos de toda a parte, sempre excessivamente caros, fazemos várias refeições diárias que comemos, quantas vezes, enfastiados. Eles procuram comida em matas, ribeiros, lixeiras. Não sabem quando nem se poderão matar a fome nesse dia, e produzem, por quase nenhum valor, os dispendiosos ou desperdiçados produtos que habitualmente consumimos.

Nós temos jardins-de-infância, escolas, programas de reabilitação para dependentes de várias facilidades. Eles vagueiam pelas ruas, roubam, brigam, morrem sob as balas “justiceiras” da polícia, ou qualquer outra força de ordem que nós, para eles, misericordiosamente treinamos e exportamos.

Nós inventámos e receamos a globalização, sentindo que ela põe em perigo a nossa prosperidade. Eles são o motor, os escravos dos nossos empreendedores globalizantes e morrem, de acidentes ou exaustão, nas fábricas deslocalizadas, nas minas sem possibilidades de deslocalização.

Nós embarcamos em cruzeiros de luxo, cruzamos o Mediterrâneo, demandamos os paraísos artificiais das costa de África. Eles cruzam-se connosco em velhos barcos meio desmantelados buscando, clandestinos, o eldorado da margem donde nós partimos para férias. Morrem na tentativa ou são capturados, desgraçados e famintos, pelas polícias do almejado paraíso.

Nós produzimos e vendemos as armas com que eles se matam, para garantirmos o domínio económico dos bens que as suas terras possuem, mas eles não.

Nós somos inocente ou culpadamente assim. Eles são-no, igualmente, mas em muito piores circunstâncias. Por isso, meus senhores o que esperam que venha a ocorrer, entre nós e eles, senão o mesmo que entre as hordas de bárbaros e o poderoso império romano aconteceu?

As decadências dos impérios têm todas um suave fascínio de queda e entropia!

 

- Estás satisfeita? Lá deste protagonismo a Valéria.

- Mais que merecido, não achas, Kismet?

- É o que se verá. O texto dá muitas voltas.

- Também penso assim. Parece-me porém não estarmos a imaginar o mesmo.

- Provavelmente, não. Na verdade já tracei uma boa parte do caminho de Valéria.

- Posso presumir, pelo andar da narrativa, não ser nada bom.

- O que é bom e o que é mau? Tudo são escolhas e consequências.

- Envenenadas… deixas as personagens pensar em livre arbítrio e desenhas-lhes percursos obrigatórios…

- Nem tanto assim, já falámos disto. Não vale a pena continuar a bater na mesma tecla. As personagens não sofrem. Inventamos-lhe o sofrimento como forma de o transmitir ao espetador.

- Continuas a contradizer-te. Se fogem do teu domínio como não lhes atribuir as emoções que despertam?

- É diferente. É a trama que por vezes se bifurca e abre caminhos não premeditados. Isso não é volição real. É apenas aparência. A marioneta não consegue aperceber-se dos fios que a conduz. Ainda que por vezes possa parecer-lhe que algo a domina ou carreia, não tem olhos para ver o manipulador. Pode suspeitá-lo quando algumas situações se desviam demasiado do perspetivado. Nunca terá a certeza.

- És então o destino…

- Tanto como tu, Oblata, quando decides fazer entrar qualquer personagem ou mudar a ação que lhe atribuí.

- Admito-o mas sou muito menos controladora que tu. Intervenho o menos possível. Sobretudo deixo fluir.

- Santa mãe misericordiosa…

- É preciso temperar os excessos que perpetras.

- Boa, boa, agora sou o mau da fita. Apenas procuro entreter o público.

- Atirando-lhe para cima com as dúvidas de Cursino, a depressão de Valéria? Nem sequer um pouco de comédia. Vá lá, isso também faz parte da representação.

- Que pensas ser a tragédia senão a parte da comédia onde o ator percebe o fim inevitável? Que o viva desinteressado ou na angústia da chegada é que faz a diferença. Prefiro a angústia ao desinteresse…

- Eu prefiro a paixão, o amor.

- Ficas a meio da história. É necessário chegar ao limite.

- Porquê?

- Porque temos todos de beber do cálice até à última gota. Essa é sempre, sempre, amarga. Atenta no drama do pacifista.

 

Felício era grande, poderosos músculos treinados todos os dias nas máquinas do ginásio, nas corridas na mata. Criança feliz de pais sem problemas, nunca tivera de lutar por nada. Tudo lhe vinha parar às mãos como graça devida. Mesmo as escaramuças de colégio ficavam longe dele. O aspeto poderoso afastava, só por si, quantos fiados em tamanho ou idade, faziam inferno da vida dos mais pequenos. Ele, mesmo quando mais pequeno, era maior. Cresceu, por isso, com ar bonançoso, absolutamente pacífico. Como viajando em cruzeiro aconteceu-lhe a adolescência, a faculdade e, mesmo o primeiro emprego, deslizara para ele vindo das mãos da família.

Já pelos trinta, com um filho de poucos anos, quis procurar por si o rumo da vida. Sendo engenheiro não teve dificuldades no mercado. Punha, no entanto, a si próprio uma condição: não trabalhar para empresas de armamento. Portanto servia-lhe às mil maravilhas aquela fábrica de componentes eletrónicos para máquinas hospitalares. Conseguia o emprego por si próprio, trabalharia para o bem da humanidade. Apenas a condição do mundo o afastava da perfeita felicidade. Todos os dias, em qualquer parte, a natureza ou o homem, este mais que aquela, traziam dor e miséria ao quotidiano das gentes. Que deus cruel nos criou, pensava Felício com alguma infelicidade. A natureza, sabia-o, poder-se-ia dominar. Todos os dias se inventava qualquer coisa para minorar a cegueira da natura. Imperdoavelmente só os homens teimavam em acrescentar medo a medo, insegurança a insegurança, ódio a ódio. Felício não conseguia entender o porquê de tanto mal-estar, de tanta perseverança na desventura. Prometia-se a si mesmo jamais participar de semelhante jogo.

Na abertura do telejornal viu horrorizado os bombardeamentos, com mísseis termonucleares, no médio oriente. Horror! As cidades desaparecidas, as centenas de milhar de mortos, mesmo os jornalistas que cobriam o acontecimento não seriam tão-somente defuntos adiados? E nós? Como se traduziriam nos nossos países, afastados do conflito, as sequelas daquela loucura? O mundo a vir seria seguramente muito diferente daquele onde até então vivera.

Receara que os acontecimentos viessem a perturbar completamente a sua vida. Pensara poderem fechar a fábrica ou, pior ainda, antevendo o mundo a sobrar de tão terríveis acontecimentos, que a pudessem remodelar para fabrico de armamentos. Felizmente nada aconteceu. Antes pelo contrário. As necessidades de produção aumentaram, o ritmo de fabrico cresceu. Inicialmente toda a gente se sentiu em segurança. Não pertencíamos aos países beligerantes, tínhamos abrigos capazes de resistir a ataques nucleares, havia, por todo o lado, bem protegidas, culturas hidropónicas suficientes para alimentar a população em caso de contaminação de alimentos. Sentia-se por vezes um pouco egoísta ao comparar o relativo bem-estar com o das populações a viver nos locais dos combates. Estava, simplesmente, impotente para obviar ao holocausto que percorria parte do mundo. Vencia com racionalidade o relutante remorso que teimava em instalar-se. Adormecia-o no aconchegado da família, abraçando-os na tentativa de protege-los da ameaça pendente. Foi trágica a morte do filho. Apesar dos cuidados e dos avisos consumira, num descuido parental, alimentos contaminados. Dolorosa e prolongada a agonia. Com ele iam morrendo, a pouco e pouco, os pais. Lavrava na mãe o remorso de não ter conseguido guardar o filho daquela desgraça. Felício, nada dizendo, recolhia-se na raiva do acontecimento e, muito em segredo, pensava na culpabilidade da mãe. Instalara-se o inferno na casa onde se pensava permanente a ventura. Ambos, reconhecendo o que calavam, afastavam-se continuadamente sem serem capazes de encontrar a boia salvadora.

No dia em que descobriu que, contrariamente ao declarado, as componentes que faziam não se destinavam a máquinas hospitalares mas sim ao aparelho direcional dos mísseis, Felício caiu em letargia. Nada que a mulher tentasse o retirava daquele sono negro. O mundo em acelerada degradação, o filho morto, ele, sem o saber, responsável indireto por tanto sofrimento. Não conseguiu aguentar. Deixou de ir trabalhar, perdeu direito às senhas de racionamento e habitação. Nada o fez sair da apatia! Nem sequer a mulher quando, desesperada pela pobreza anunciada, acusando-se e sabendo-se acusada pela morte do filho, sem uma palavra ou uma linha o abandonou, procurando algum lenitivo longe do desespero de Felício.

No último dia naquela casa, construída com sonhos, desabada em dores, ouviu o novo Caudilho fazer o discurso de apresentação às massas. O descalabro que reinava pelo mundo, ali chegado apenas em eco, trouxera, mais que contaminação, a loucura ditatorial. Tudo começou quando a economia mundial derruiu e a autarcia se assenhoreou dos territórios onde a democracia parecia plantada com raízes fundas. Primeiro a falência do sistema financeiro, depois o desmoronamento do comércio, a seguir o endurecimento do sistema de racionamento alimentar fizeram desaparecer, com estrondo de armas entre grupos rivais, o que ainda resistia de relativa justiça. Na televisão, a funcionar quando podia, ouviu o discurso às massas.

“Cidadãos - dizia o homem forte, de bigode farto, óculos escuros, farda e dragonas de general, ar marcial, fala fluente – a desgraça caiu sobre o nosso país. Todos tivemos conhecimento de como homens corruptos, ambiciosos se apoderaram do poder, usando-o sem rebuços, em proveito próprio e das suas cliques, contra o nosso povo. Era necessário pôr fim a esse regabofe nojento, assente sobre os cadáveres dos nossos conterrâneos. Ao fim de muito tempo de porfiada luta, quis Deus dar-nos a vitória. Não fui eu que venci. Foi Deus, repito, quem assim o determinou. E isto porque é preciso que se faça justiça. Que a cada um seja concedida a sua parte e de cada um possamos receber a doação do melhor esforço para o ressurgimento desta grande nação, do seu glorioso passado, do seu antigo esplendor. Para isso vim, por isso lutei e, felizmente, foi-me, pelo Altíssimo concedida a vitória. Por tal estou hoje aqui, perante Ele e ante vós, para por, à vossa disposição o melhor de mim próprio. Não posso prometer riquezas. Prometo muito trabalho e justiça. Justiça na repartição dos alimentos, das casas, da saúde e, não se esqueçam, da educação que poderá transformar este país, de novo, no luzeiro de cultura e prosperidade de que tanto nos orgulhávamos. Reposta a paz no país, vamos ao trabalho para, engrandecendo-o, nos engrandecermos. Infelizmente tenho de continuar, por algum tempo, a pedir-vos sacrifícios. O perigo do exterior é visível. Os nossos vizinhos espreitam, nas fronteiras, o tempo do desfalecimento para nos reduzirem à mais mísera escravatura. Temos de resistir. Para tanto, por meu desconsolo, não posso mudar de imediato, como desejava, a distribuição dos resultados. Teremos de, por algum tempo, manter a quota de três quartos de produção para o custo da defesa e desenvolvimento. Sei que muitos ficarão desiludidos. Esperavam que, ao vencermos, desfizéssemos de imediato o mal causado pelo ditador em boa hora derrubado. Infelizmente não o poderemos fazer. Ao verificarmos as contas percebemos ser a situação económica pior que a revelada por esse governo de ladrões. Mas fica prometido! Será um período transitório e breve. Confiem em mim, como eu confio em vós!”

Às bonitas palavras sucedeu um regime de discriminação e terror. Aquilo que se produzia caminhava para os celeiros e cofres de Estado. Na função distribuidora criara-se um sentido de justiça muito particular. Todos éramos iguais na pobreza. Orientações não escritas introduziam sorrateiramente a eutanásia e a eugenia. Quem não tinha trabalho fica na miséria absoluta. Se a fome o obrigava a roubar era sumariamente executado. Guardavam-se os medicamentos para os apoiantes do regime. Morria-se nas ruas, em completo abandono, por não se conseguir um antibiótico. Reservado a combatentes, era a justificação. Combatentes seriam todos quantos serviam o regime, mesmo que do fragor das batalhas nunca tivesse ouvido nada. Os velhos e doentes, bem como crianças com defeitos genéticos, eram eliminados ativa ou passivamente. Nasceu a ideia de refundar a raça. Queriam-se homens fortes, aptos para o combate fora e dentro do país. Seres racionais, desprovido de emoções, capazes de todo sacrificarem ao regime, até a si próprios, se os acontecimentos o exigissem.

Ao fugir do recrutamento compulsivo tornou-se pária. Vivia em escombros, esgotos, esperando o dia de ser apanhado na busca de alimentos e ser ali, sumariamente, abatido. Aquele que fora o pacifista pleno sentia crescer dentro de si uma raiva absoluta, o desejo imperioso de fazer alguém pagar o preço do desespero. Mas andava transviado e só. Ao amanhecer escondia-se em furnas ou recantos, esperando a cobertura misericordiosa da noite. Então galgava a cidade procurando o que precisava, tirando-o de quem calhava. Por vezes doía, mas a sobrevivência estava acima de qualquer culpa.

Nesse estado encontraram-no os membros da FUCOTI – Frente Unitária Contra o Tirano. Não foi amigável o primeiro encontro. Vinham em ação de recolha de víveres, ele estava no caminho. Apesar de forte, pela primeira vez sentiu a impotência. Travado no caminho pela autoridade armada do “Pare!”, ficou uns momentos aturdido pensando, é agora! Reparou melhor. Percebeu, pela diversidade de fardamentos não ser força governamental. Sentiu-se mais aliviado até ao momento em que pancadas violentas, vindas de todo o lado, ressoavam no corpo cada vez mais magoado, até que uma coronhada caridosa lhe apagou os sentidos. Recobrou-os, deitado na caixa de uma carrinha, o corpo acompanhando os movimentos e os socalcos da estrada, ouvindo uma voz dizer, é demasiado forte para ser entregue aos bichos. Havemos de o amaciar. Faremos dele um bom soldado.

“Entre pancadas, castigos, obediências tornaram-me guerrilheiro. A raiva comprimida em mim encontrava, nos exercícios e nas sortidas subsequentes, a via de esvaziamento. Comecei a sentir-me reconfortado quando, após algum ataque às forças do Caudilho, celebrávamos os mortos deles, homenageávamos os nossos. O exercício da violência letal passou a fazer parte de mim. Eu era aquela máquina de guerra que levava terror aos opressores do povo. Sabia falar a língua que temiam. O poder da força. Contra nós nada podiam os discursos mentirosos. Dialogávamos metralha contra metralha. A fome, o desespero, a repartição do fruto das investidas que a guerrilha partilhava com a população, faziam-nos crescer mais e mais. Já éramos exército, tomávamos cidades, tínhamos terrenos. Cultivava-se e dividia-se com a população. Em troca encobriam-nos os movimentos, davam-nos os filhos para continuar a luta. Nos tempos fui ganhando proeminência. Não temia combates nem morte. Talvez mesmo, se descesse ao fundo do poço negro da alma, sem o querer reconhecer, a desejasse. Sentia-me sujo, distante de quanto fora e quisera ser. Calava o incómodo da voz, ignorando-a, fazendo-a desaparecer no estrondos do combate. Ali não se conseguia fazer ouvir. Por isso procurava a batalha.

Descoberto o facto de ser perito em engenharia destacaram-me da zona de ação. Passei a integrar uma pequena elite onde os saberes profissionais eram mais importantes que o combate direto. Não o abandonei completamente. Fazia parte das obrigações dos comandantes participarem, com algumas precauções, em certas ações, para fortalecerem os laços com os combatentes. De vez em quando algum pagava com a vida essa diretiva. O comandante-geral, por descuido ou informações passadas ao inimigo, foi vítima de uma delas. Um pouco sem saber como, vi-me no seu lugar. Deixara escrito que se um azar de guerra lhe sucedesse o devia substituir. Outorgava-me capacidades estratégicas que não garantia possuir. Tomei o comando, intensificámos as ações ofensivas. Quando a relação de forças no terreno me pareceu favorável reuni o estado-maior. Apresentei o plano. Vamos atacar o covil da víbora. Genericamente não tive grande oposição, algumas dúvidas deste, um desaconselhamento do outro, mas a maioria esmagadora pensava como eu. É o momento de atacar, de livrar o país desta peste que o infesta e lhe tira a vitalidade. Erguemos os copos. Morte ao ditador! Viva o Povo! Viva a Liberdade!

Pouca resistência encontrámos pela parte do Caudilho. Devia sentir o inseguro da posição. Antes de tomarmos o palácio já ele estaria a bordo de um avião, partindo para onde pudesse gozar as riquezas subtraídas ao Povo. Regressava a justiça e a equidade.”

É preciso preparar-se para falar na televisão. Olhou-se no espelho. Camuflado infestado de terra, barba comprida, olhos esgazeados de sono e pólvora. Teremos de melhorar esse aspeto, não quer deixar má impressão no primeiro contacto com os cidadãos, aconselhava o mestre-de-cerimónias, do regime anterior, mantido no cargo por ser informador das nossas forças. Há que dar ao país a imagem da pujança segura,  amiga. A seu mando o barbeiro veio escanhoá-lo. Deixe o bigode, dá a imagem de masculinidade madura. Transmite confiança. Por favor dispa o camuflado. Vista esta farda. Ajudou-o a envergá-la. Afastou-se dois passos, perfilou-se, fez-lhe a continência.

 Está esplêndido meu general! Não se esqueça dos óculos escuros. Dá-lhe a imagem de proximidade longínqua que as gentes gostam de ver em quem governa. Isso, desloque-se com ar marcial. A imponência que puser no andar mostrará o quanto se sente seguro. Transmitirá essa segurança aos governados. Pigarreie e beba um gole de chá, para aclarar a voz. Assim mesmo. Enfrente as câmaras com firmeza. Ponha nas palavras a emoção de quem é companheiro, a frieza de quem tem uma missão para cumprir, doa a quem doer. Agora pronuncie o discurso sabendo que milhões o aguardam como palavra sagrada, redentora. Leia-o no ecrã que tem em frente. Ele surgirá à medida das necessidades.

Felício voltou a aclarar a voz, o ecrã acendeu-se,  as palavras começaram a surgir.

 

 

“Cidadãos -  dizia o homem forte, de bigode farto, óculos escuros, farda e dragonas de general, ar marcial, fala fluente – a desgraça caiu sobre o nosso país. Todos tivemos conhecimento de como homens corruptos, ambiciosos se apoderaram do poder, usando-o sem rebuços, em proveito próprio e das suas cliques, contra o nosso povo. Era necessário pôr fim a esse regabofe nojento, assente sobre os cadáveres dos nossos conterrâneos. Ao fim de muito tempo de porfiada luta, quis Deus dar-nos a vitória. Não fui eu que venci. Foi Deus, repito, quem assim o determinou. E isto porque é preciso que se faça justiça. Que a cada um seja concedida a sua parte e de cada um possamos receber a doação do melhor esforço para o ressurgimento desta grande nação, do seu glorioso passado, do seu antigo esplendor. Para isso vim, por isso lutei e, felizmente, foi-me, pelo Altíssimo concedida a vitória. Por tal estou hoje aqui, perante Ele e ante vós, para por, à vossa disposição o melhor de mim próprio. Não posso prometer riquezas. Prometo muito trabalho e justiça. Justiça na repartição dos alimentos, das casas, da saúde e, não se esqueçam, da educação que poderá transformar este país, de novo, no luzeiro de cultura e prosperidade de que tanto nos orgulhávamos. Reposta a paz no país, vamos ao trabalho para, engrandecendo-o, nos engrandecermos. Infelizmente tenho de continuar, por algum tempo, a pedir-vos sacrifícios. O perigo do exterior é visível. Os nossos vizinhos espreitam, nas fronteiras, o tempo do desfalecimento para nos reduzirem à mais mísera escravatura. Temos de resistir. Para tanto, por meu desconsolo, não posso mudar de imediato, como desejava, a distribuição dos resultados. Teremos de, por algum tempo, manter a quota de três quartos de produção para o custo da defesa e desenvolvimento. Sei que muitos ficarão desiludidos. Esperavam que, ao vencermos, desfizéssemos de imediato o mal causado pelo ditador em boa hora derrubado. Infelizmente não o poderemos fazer. Ao verificarmos as contas percebemos ser a situação económica pior que a revelada por esse governo de ladrões. Mas fica prometido! Será um período transitório e breve. Confiem em mim, como eu confio em vós!”

 

 

Acabado o discurso Felício saiu cercado por militares e políticos. Dirigiu-se para o quarto de onde viera. Olhou-se no espelho. Gostou daquilo que viu. Uma mancha esverdeada ensombrava a alcatifa vermelho escuro do chão. Reparou melhor. O camuflado sujo de tantas lutas olhava-o com ar interrogador. Sentiu-se incomodado. Voltou a olhar-se no espelho.  Continuou a gostar do que via. Deu um pontapé no camuflado, atirando-o para detrás de um sofá de veludo, fora do raio de visão. Chamou o mestre-de-cerimónias. Ríspido perguntou-lhe:

Por que raio não limparam o salão? Mande queimar aquela roupa velha. De imediato!

 

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publicado por Carlos Alberto Correia às 11:50


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