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Momentos para inventar o amor

Sexta-feira, 01.05.20

 

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J - A casa do esquecimento

 

 

 

-Saiu fresco esse teu Cursino. Só lhe falta um acompanhamento à guitarra e viola, mais uns apontamentos de saudade e eis todo o espírito português. Incapaz de perceber o presente, alheio do futuro, só no passado se descobre como gente. E, como se nota, na desgraça.

- Não vejo razão para essa obstinada má vontade. Muito ao contrário, Cursino está, de momento a viver um tempo pleno de felicidade.

- Então porque não o demonstra e apenas debita textos doridos?

- Lembras-te, Oblata, da maldição do chinês ao seu inimigo? “Que vivas tempos interessantes”. Terrível, não é? Na aparência de um desejo positivo esconde-se o maior dos anátemas. Os tempos felizes não têm história. Vivem-se, recordam-se, raros se contam. Há poucas palavras para descrever a felicidade. Além disso a ventura dos outros parece ser coisa de somenos importância, de chateza total. Nada excita mais a imaginação ou a curiosidade que uma boa desgraça. Vê os jornais, a televisão. Notas de rodapé para acontecimentos ditosos, reportagens até à náusea para desastres ou guerras. O homem é um predador com vergonha de o assumir, mas não querendo, ou não podendo, deixar de o ser.

- Desculpa Kismet. Não posso deixar de me rir com a tua imagem de cavernícola vestindo peles, arrastando caça. Vê lá não faças como na banda desenhada e conquistes a tua fêmea com a paulada na cabeça. Não iria gostar muito de me ver com um lanho sangrento, arrojada pelos cabelos.

- Imaginação não te falta. Vê lá se a pões ao serviço da peça. Enquanto Cursino se embrenha nas graças de Valéria aproveitemos para o por a refletir sobre as grandes hipocrisias sociais.

- Volto a lembrar-te de que esta seria, em princípio, uma peça sobre o amor.

- Não estou esquecido. Porém apenas entendes o amor como uma relação entre um homem e uma mulher?

- Nem lá perto. Tanto pode ser assim como com dois homens ou duas mulheres, ou ainda com diferentes conjugações e número de participantes. Conforme as pessoas quiserem, gostarem, ou forem os costumes locais.

- Espírito aberto não te falta. Para mim fico-me pelo trivial. Mesmo assim não há forma de, por vezes, as relações não se complicarem. Vê lá o potencial de disfunções existentes em formas de amor divergentes dos costumes aceites.

- O que entendes como aceitável?

- A normazinha da dualidade comprometida e exclusiva.

- Atrasadinho…

- Deixa-te de bocas e entremos num acordo. Cursino escreverá algo sobre a homossexualidade. Em troca aceitas um pouco de denúncia social?

- Se tem mesmo de ser…

Acordarei sobressaltado como se tivesse faltado a um dever e soubesse que o meu pai me chamaria a contas. Ver-me-ei adulto, deitado ao lado de Valéria, compondo mentalmente histórias conflituantes. A cabeça, baralhada, pedir-me-á para a por em ordem. Mas como? Os pensamentos, as imagens, saltarão de tema em tema, borbulhando como fonte de água termal. Saberei que apenas me posso livrar desta balbúrdia sentando-me na frente do computador, debitando palavra a palavra, frase a frase, a confusão que me habita. Mais que prazer será compulsão. Forma de me desabitar destes incómodos ruídos, desta leve loucura de viver muitas vidas numa só. Levantar-me-ei devagar para não acordar Valéria, irei para a sala e começarei:

Nem me lembro como me tornei amigo de Padérnio. Certo, éramos colegas de trabalho. Relações públicas na Câmara Municipal. Aturar gentes que demandavam impossíveis, ninharias. Cheirar-lhes o suor de apreensão com que afrontavam a coisa pública, sentindo-se intimidados ante o pequeno poder que representávamos, mas que influía fortemente em suas vidas. Uns pareciam entrar em terreno sacro, baixavam a cabeça, os ombros, com pequenos passos, voz ciciada procuravam perceber o mistério que ali os conduzira. Mesmo por milagre, esperavam encontrar refrigério nas nossas vozes oraculares. Outros reagiam com rispidez ou violência. Entravam revoltados com o absurdo de alguém, por eles, ter resolvido que, logo hoje, nesta hora, tivessem de ali se confrontar com uma ordem que não provinha das suas vontades, os esmagava no ato de requerer a presença obrigatória. Era muito cansativo este pequeno mundo. Muita gente nos invejaria pensando que bela vida os gajos têm. Sentadinhos no parlapié, faça isto, dirija-se ao primeiro andar, repartição tal e tal. Era lá trabalho que se visse! Santa vida, santa vidinha. Raios de ignorantes! Não percebiam que as suas prementes passagens, perguntas, humores descarregados contra nós, se iam acumulando hora após hora, dia após dia, até à completa submersão naquele mundo de dejetos, infeções, necessidades, revoltas, aceitações e muitos perdigotos a salpicarem-nos a cara, às vezes a tombarem como alfinetadas frias nos nossos lábios ou, um pouco mais acima, a embaciar-nos os óculos.

- Estou farto, Padérnio. Fartinho até às orelhas. Tenho de mudar de trabalho.

Ele sorria com ar de Santa Maria da Grande Paciência, perdia-se num gesto vago, sonhava com a hora da saída, o tempo que faltava para a lição de canto. Este era o segredo que lhe dava ânimo para se aguentar. Educava o timbre de tenor. Aprendia colocação de voz, respirações, pausas, flutuações tonais. Um dia sairia dali, coberto de glória, para se dedicar a tempo inteiro à ambição de cantar no S. Carlos. Nem que fosse no Coro.

Por hábito, para nos limparmos do excesso de carga emocional, parávamos no café fronteiro onde, com uma imperial e um pires de tremoços, lavávamos a alma de tristezas. Num desses dias, revolvendo facas na alma, sangrando palavras, tornei-o meu confidente. Sem perceber como nem porquê a minha namorada pusera-me a milhas. Sentira-me roubado de algo que me pertencia. Olhava-me como vítima de uma injustiça e incompreensão inomináveis. Queria perceber as razões daquela decisão unilateral que de forma tão cruel me afetava. Tudo parecia ir tão bem. Padérnio ouvia-me com paciência. No fundo, eu sabia, aquela era uma história igual a milhares de outras. Mas caramba, acontecera-me a mim! Nenhuma outra, por semelhante que fosse, poderia ter o mesmo grau de profundidade e destruição. Não poderia ser, a menos que o mundo se transformasse num imenso purgatório.

- Tem calma, dizia-me. Claro que o que estás a sentir é diferente do que outros sentem. O teu mundo foi posto em causa. Por mais que te esforces não conseguirás transmitir esse sentimento a ninguém. Mesmo eu, que te oiço e tento compartilhar contigo a comoção, apenas a sinto por fora. Tento aproximar-me do que me dizes, perceber o vazio em que te encontras, mas se intento palavras para te consolar, sinto-as fracas, incapazes de chegarem ao âmago da tua dor. Só tu, ao experimentares comunicar-me o que sentes, consegues ir segurando os bordos da ferida que te atormenta. Mesmo assim será breve lenitivo. Falar ajuda, mas não cura. Isso, só o tempo.

Um dia descobri que Padérnio deixara de ir às lições de canto. Dentro dele emudecera o canário que brilhava ao sol. Perdera o sorriso, faltava-lhe a paciência que sempre lhe sobrava para atender os munícipes. Ausentava-se com muita frequência para a casa de banho. Cheguei mesmo a surpreender-lhe enxugar, com as costas da mão, alguma atrevida lágrima a furtar-se à sua vontade. Fiquei apreensivo. Tentei falar com ele. Não é nada! Faz-me o favor de me deixar em paz. Pronto, já cá não está quem falou, retraí-me. Perguntei às colegas se sabiam o que se passava. Nada, ninguém conhecia o motivo da tristeza de Padérnio. Só, dias mais tarde, Anunciata me informou. Sabes, ele é maricas. O namorado deixou-o. Agora anda para ali numas tristezas caladas que até mete dó.

Caiu-me o mundo em cima. O Padérnio era homossexual? Mas então aquelas árias tão belas e sentidas que cantava eram, no segredo do seu coração, dirigidas a um homem? Parecia-me uma espécie de sacrilégio. A primeira reação foi afastar-me. Era como se algo de contagioso me ameaçasse. Refleti e envergonhei-me. Considerava-o amigo. Contara-lhe coisas que apenas se confiam aos camaradas mais íntimos. Cobri-me de injúrias pela minha reação. Decidido a ultrapassar os preconceitos decidi ter uma conversa aberta com ele. Mostrar-lhe que o compreendia, não o julgava. Tal não foi possível. Sabendo que Anunciata divulgava por todos os seus segredos, foi-se embora para local incerto, sem se despedir do emprego ou dos amigos.

Ao olhar o seu lugar, por algum tempo vazio, mergulhava numa imensa vergonha, na sensação de inutilidade. Percebia agora ser a sua dor dupla da minha. Eu sofrera. Sem rebuços anunciara ao mundo a desdita que me coubera, recebera entendimento e lenitivo. Ele tivera de juntar à dor da separação o peso do silêncio. Como amigo, eu tinha falhado e continuei a falhar sempre que ouvia Anunciata declarar - o que é que ele queria? Isto com maricas é mesmo assim! - sem conseguir ultrapassar a cobardia, a tolher-me o sentimento de justiça, a encontrar a força para a calar respondendo-lhe: idiota, o que sabes tu sobre o amor?

 

Descansarei uns instantes satisfeito com o trabalho produzido. Ficarei surpreendido pelo caminho que a história tomara. A nada disto me propusera. Estava bem longe de inventar uma personagem como Padérnio. Inicialmente apenas seria meu confidente numa relação malsucedida. Deverei ter sido guiado pela discussão, a atravessar o país, sobre a legitimidade dos casamentos homossexuais. Nem sequer tinha percebido que já tomara partido na discussão. Mais, a posição tomada era em tudo contrária ao que, até esse momento, pensara sobre o assunto. Perguntarei a Valéria, já acordada, preparando-se para a escola: o que pensas sobre o caso? Dir-me-á, de ar espantado, para mim o amor não tem sexo, isto é, rir-se-á, tem sexo e espero que muito, mas não tem nada com o género. Sê bem-vindo ao grupo. A lei há de vingar.

Pela tardinha, no café, chegará, Dévolo, de olhos a brilhar. Leram a notícia, perguntará. Ninguém lê os jornais que Dévolo lê. Ficará radiante por poder transmitir o informe em primeira mão. Sentir-se-á o prazer a invadir o reconto.

 

Calculem que um fulano com mais de oitenta anos estrangulou a mulher e a seguir suicidou-se.

Lerá o horror nos nossos rostos. Tentará suavizar explicando, a mulher sofria de Alzheimer. Pensarei no drama daquele casal. Imaginarei o abandono, a solidão, o desespero. Talvez não tivessem filhos ou netos, ou, se calhar teriam e por impotência ou desinteresse falhassem no apoio necessário. Disso, Dévolo não sabia. A notícia omitia essa parte. Apenas explorará o macabro da situação. Sentir-me-ei agoniado, procurarei a rua tentando visualizar o quadro. Não conseguirei adormecer antes de terminar a crónica, a ser divulgado em jornal diferente do pasquim que publicara a notícia especializado em crimes e escândalos. Algum alívio terei conseguido na confissão desta incomodidade.

 

Deambulam de lado para lado sem desígnio aparente. No entanto buscam algo que não sabemos, ou não sabemos se sabem. Percebe-se apenas a inquietude resultando nas idas sem destino para lado nenhum. Recolocam-nos nos lugares que lhes estão destinados para de novo, sem qualquer prenúncio, abalarem diretos a nada ou a todos os lados que a memória já não distingue, a vontade não nomeia.

 Param, por vezes, junto de ti. Olham-te, sem ver, na busca de uma qualquer ideia de rosto ou de passado. Continuamos sem saber se procuram ou o que procuram. São perfeitos enigmas deslizando fantasmagoricamente para lado nenhum. Mesmo que sejas quem talvez eles queiram reconhecer, não te percebem no olhar onde só nadam ausências. É estranho! É aflitivo! Por vezes pensas que te vão falar e, expectante esperas. Falso alarme. A boca pareceu querer mover-se, uma pequena centelha ardeu no olhar, o corpo esforçou-se para se abrir, mas nada.

De novo a impotência e a solidão de um corpo que se desenha na incomunicabilidade. Tão sozinhos! Tão desamparados! Será que vêm? Que percebem? O que falha? Não sabem dizer-nos. Não sabemos distinguir. É um frio sem vento, um gelo sem água, um corpo quase sem amarras. A sua estranheza destrói todos quanto com eles convivem diariamente. Não nos reconhecem! Exigem, sem saber, cuidados constantes. Vive-se para eles vinte e quatro sobre vinte e quatro horas. Não sobra espaço para mais nada. Vampirizam, inconscientes, a vida de quem os rodeia.

 Sabes quem eu sou amor? Não sabem ou não sabem dizer que sabem. O desespero toma retrato nos olhos vagos, na, por vezes, doce demência da completa ausência. Parece não existir nada naqueles espíritos. Mas deverá existir, não é? A natureza, diz-se, tem horror ao vazio. Como existir para eles o tempo todo se nada dizem, ou sentem, ou transmitem?

De novo o desespero.

Onde guardá-los, a estes anjos deslizantes, se pouco sítios há para tal? E os custos do internamento sempre maiores que grandes? Volta o desespero a martelar os dias de quem com eles os vive. Mas não há nada a fazer? Que querem, não se pode chegar a tudo. Eles apenas incomodam os próximos, não é? Mas assim os próximos estão condenados ao inferno! Ora, o que se lhes há de fazer?

Segue o discurso descomprometidos de pessoas, grupos e instituições a quem o problema toca de leve. A cruz é dos atingidos. É pena! Nada podemos fazer!

Por isso, há poucos dias, um senhor na casa dos oitenta, com a esposa de idade próxima sofrendo de Alzheimer, estrangulou-a suicidando-se de seguida. A sociedade compungida pôs lutos de sofrimento, encolheu os ombros e seguiu em frente. E tu. E eu. Que vamos fazer? Provavelmente esperar até que a desgraça nos bata à porta e depois, rodeados de impossibilidades, usarmos as mãos com que nos amámos para, num derradeiro gesto de amor, encerrarmos as portas da casa do esquecimento.

 

 - Incomoda-me este texto, Kismet.

- Porquê?!

- Como pode Cursino ter a certeza se o desfecho do drama foi um ato de amor, desespero, ou saturação?

- Nunca o saberá exatamente, Oblata. Teve de fazer uma escolha, tomar uma decisão. Analisou o percurso, os atos, decidiu-se pela hipótese que lhe pareceu mais plausível, ou mais lhe agradou. É o autor. Pode decidir os movimentos das suas personagens…

- Lá voltamos à discussão do livre arbítrio...

- Nada é seguro…

- É uma boa desculpa para as tuas incoerências e para as de Cursino.

- Desculpa nenhuma. Perceção da mutabilidade da vida, do mundo. Espero demonstrar-te melhor esta questão na história seguinte.

- Oxalá possas, mas sou demasiado exigente.

- Cética, cética é o que és.

- Prefiro-o a ser crente. Toda a fé é um autoengano. Só serve para fazer aceitar o incompreensível, o inevitável.

- Dou-te todo o meu apoio nessa asserção. Portanto, vamos em frente.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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publicado por Carlos Alberto Correia às 11:58


3 comentários

De Maria Elvira Carvalho a 01.05.2020 às 18:55

Mais um episódio relido. Continuo a achar o Kismet um bocado cínico. .
Mas aqui o Cursino relata uma realidade presente a todo o momento na vida. O sofrimento só nos incomoda quando chega até nós.
Espero que o professor e sua esposa estejam bem
Abraço, saúde e bom 1º de Maio

De Maria Elvira Carvalho a 01.05.2020 às 19:24

Acabei de ler a sua resposta ao meu comentário anterior. Na verdade eu já vou com quatro cirurgias ao olho esquerdo. Já fiz o transplante da córnea, mas como entretanto começou o confinamento a minha consulta pós operatória pela equipa que fez o transplante foi desmarcada e cá estou à espera.
Na verdade eu tenho quatro blogues. O primogénito, aquele em que escrevo o que me dá na telha, é o Sexta-feira
https://6feira.blogspot.com/
Depois tenho um onde faço divulgação de poesia no feminino, poetisas de expressão portuguesa, de todos os países lusófonos e do Brasil.
Um outro em que mostrava coisas que gosto de fazer desde a pintura até aos bolos decorativos.Por causa dos olhos a minha atividade nessas habilidades parou.
E ainda um outro em que mostro fotografias de monumentos que visitei e alguma coisa do que aprendi nesses espaços.
Se algum dia quiser espreitar o Sexta-feira, terei muito gosto nisso.
Abraço

De Anónimo a 04.05.2020 às 15:24

Tem razão. O Kismet é um bocado cínico, como não poderia deixar de ser, tendo em vista que este nome, aliás como todos os outros neste romance, é simbólico. Kismet é a palavra árabe para Destino. Daí esse sentimento ambivalente em relação aos procedimentos da personagem. Tal como o futuro nem sempre é o que desejamos e, pior ainda pode ser bem nefasto. Não o será por pura maldade mas porque a casualidade, as conjunturas, encaminham as sua personagens para diferentes visões do mundo e das circunstâncias.

Espero que volte breve aos tratamentos e que tudo corra pelo melhor. Saúde!

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