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Momentos para inventar o amor

Terça-feira, 28.04.20

 

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I - Vólia

 

Como Sérvulo me explicou, havia quatro níveis de engraxadores. O primeiro, constituindo uma aristocracia olhava, como todas, com superioridade e desprezo para os restantes. Eram os graxas dos cafés. Para eles não havia mudanças climatéricas nem dias em que não pudessem trabalhar. A clientela era fixa. Chamavam-nos pelos nomes. Conheciam a maioria dos clientes. Recebiam boas gorjetas e chegavam mesmo a desprezar qualquer par de sapatos, de passagem fortuita, a solicitar-lhe os serviços. Muitas vezes nem se davam ao trabalho de os atender. Diziam, venho assim que servir os cinco clientes que estão à frente. Por norma o putativo freguês desistia. Vinham depois os que trabalhavam nas ruas, mas com poiso certo. Pagavam a contribuição à Câmara. Alguém, nas imediações, guardava-lhe o banco do ofício e, mais importante, o estrado e a imponente cadeira de braços, qual trono, onde o cliente se sentia, por momentos, um rei a ver passar, em nível inferior, os apressados súbditos. Alguns deles mantinham-se, na verdade, sujeitos às carrancas do tempo. Outros, porém, não eram afetados. Trabalhavam em átrios de prédios ou protegidos pelas arcadas. O terceiro nível, aquele onde Sérvulo se situava, vivia à mercê da sorte. Que o tempo permitisse o trabalho, que o cliente o procurasse, que o polícia não viesse enxotá-lo ou, muito mais grave, confiscar-lhe o material de trabalho, constituído pelo mínimo de tralha, de molde a poder bazar, com perdas materiais diminuídas, mal a farda surgisse no horizonte. Urgia sobretudo salvar a caixa onde, além de guardar os humilíssimos fatores de produção, também se sentava. O banquinho leve, de equilíbrio instável sobre o pavimento irregular, onde colocava o cliente era muitas vezes abandonado no local da debandada. Vozes diziam ser conveniente deixá-lo no sítio porque, muitas cozinhas e casas de banho dos respeitáveis servidores das leis, enfeitavam-se com a utilidade desses banquinhos. Como era evidente, preocupado em não deixar o assento a atravancar a via pública o polícia, no melhor sentido do resguardo do bem e decidido a não permitir qualquer acidente a peão menos cuidadoso a tropeçar no obstáculo, desistia da perseguição e levava o objeto. Mas disto Sérvulo não tinha a certeza. Eram dizeres do povo. Porém, pelo sim pelo não, quando lhe calhava a sorte de ser distinguido por algum zeloso servidor da lei, nunca se preocupava em levar o banco. É melhor prevenir… dizia. Finalmente o último degrau desta hierarquia, mal apercebida pelo utente ou passante, constituía-se pelos ultra proletários da engraxadoria. Não dispunham dos meios imprescindíveis à execução dos trabalhos. Por isso recorriam ao aluguer. Podiam pagar uma verba fixa por dia ou uma percentagem sobre o trabalho efetuado. Era deles a escolha. Sabiam, no entanto, que fosse qual fosse a opção tomada, ficariam sempre com menos dinheiro que o alugador de meios. Para além do risco de, se a força pública os despojasse da caixa, terem de remir, fosse como fosse, até ao último tostão o prejuízo do dono do material. Era por tal, lamentava-se Sérvulo, que muitos, para não pagarem com o corpo a desgraçada sina, recorriam ao assalto por esticão ou ao arrombamento de carros estacionados em locais de parca visibilidade.

Neste momento estão vocês a interrogar-se, como diabo sabe este tipo estas coisas? Será mentiroso ou omnisciente? Tranquilizem-se, nada disto está certo. Acontece que sendo embora Sérvulo engraxador de posto incerto, entre o Terreiro do Paço e a Praça da Figueira, nem estando muito perto de ser engraxador de excelência, sobressaía, de entre a concorrência, pela delicadeza de modos e propriedade de linguagem. Servia com a tinta, a pomada, as escovas e o pano lustroso com que punha a brilhar os sapatos, os mais diversos e acertados comentários sobre uma multitude de acontecimentos e problemas. Juízo afinado, capacidade crítica, clareza na exposição. Deixava-me perplexo. Não era como a maioria dos seus companheiros de profissão. Por isso, por aqueles momentos de são relaxamento, enquanto o cheiro dos produtos me inundavam as narinas, as escovas faziam piruetas sobre os sapatos e a pano guinchava e estalava fazendo ressaltar brilhos insuspeitos, perdia passos a procurá-lo. Mesmo passando por outros engraxadores mais à mão, não desistia até o encontrar. A nossa relação aprofundou-se numa manhã a ameaçar chuva, quase a desistir da busca e a guardar para outro dia o brilho dos sapatos. Encontrei-o naquela rua pequena, a seguir à Suíça, que liga o Rossio à Praça da Figueira. Saudou-me nervoso. Percebia estar a prepara-se para arrumar o estojo. Pode engraxar? Perguntei-lhe. Após ligeira hesitação, sabendo-me fiel cliente, recolocou todo o aparato em ordem. Faz favor de sentar-se. Percebia-se querer despachar-se. Os gestos, de habitual expressivos, eram sacudidos, pouco controlados. Não tarda vai cair uma abada de água, preveniu-me. Depois, este sítio é perigoso. Já vi rondar o bófia. Está não está, vai cair-me em cima. Mas não podia deixar de servir um cliente certo. Percebi-lhe o dilema. Porém já batia com o gargalo do frasco, a aproveitar as últimas gotas, sobre o sapato direito. Não foi suficiente. Vou ter de abrir outro vidro. Mandando para os lados as portas horizontais da frente do estojo, procurou um ainda não encetado. A demora punha-o mais agitado. Tão nervoso que ao forçar a tampa renitente o frasco lhe escapou das mãos. Esgargalado, largou a tinta sobre a minha maleta de couro cru, pousada ao lado do banco. A mancha castanha gritou forte sobre o desmaiado da pele. Aflito sacou de um pano encardido e esfregou a mancha. A intenção era boa mas, quanto mais friccionava, mais a mácula alastrava. Ai a minha vida, choramingou. Como vou puder pagar-lhe o prejuízo. Dinheiro não tenho. Aceita um ano de graxa sem pagar? Passados os primeiros minutos de irritação, o estado aflitivo do homem levou-me à compreensão. Deixe estar, não tem importância. Foi um acidente, você não teve culpa. É a porca da vida a voltar-se contra mim, tudo me corre mal. Olhe, tenho aqui um vigésimo de lotaria. Gastei nele o dinheiro do dia, mas é cá uma fezada! Faça-me o favor, aceite-o. Oh! Homem, e se a sua expectativa se concretizar? Quero lá o bilhete para alguma coisa. Não me sentirei bem se não o aceitar, respondeu-me. Certo, disse-lhe. Aceito-o numa condição. Se sair alguma coisa dividimos o prémio ao meio. Apertou-me a mão nem se lembrando como estavam sujas. Diabo, exclamou, hoje é mesmo o meu dia de desastre.

 

Não nos saiu nada na lotaria, a convicção era mesmo só fé. Encolheu os ombros. Pobre é só pobre e mais nada. Rico só em sonhos e desejos. Ganhei porém, com estes episódios a sua confiança. Ficámos amigos? Vá lá, nada de exageros. Apenas passámos a conversar mais, a prolongar a sessão de limpeza dos sapatos. Nessas conversas foi-me desvendando a vida. Nada tinha de seu, era pobre entre os mais pobres, mas já tivera. Vida atribulada, senhor, não encontro outra como a minha. Órfão de mãe, falecida em trabalho de parto, o pai não descansara enquanto não o colocara numa instituição. Não podia mantê-lo, não tinha com quem o deixar para ir trabalhar, não havia jeito que lhe chegasse para tratar daquela minúscula e perturbante vida. Alguma razão havia de ter porque lá o recolheram numa instituição para adoção. Pelos visto não deveria ser criança de encantar. Os anos foram passando e ninguém o quis resgatar. Já na idade da razão transferiram-no para a Casa Pia. Nem me lembro da cara do meu pai. Se o vi cinco vezes foram muitas. Nunca me deu um beijo ou me presenteou com qualquer prenda. Eu via e invejava os meninos a quem os pais procuravam, mimavam e, por vezes, levavam nos fins de semana. Nunca me aconteceu. Nasci azarado. Penso-me como criança dócil, amiga de aprender. Tanto assim que após a instrução primária me mandaram para a Escola Comercial. Sim senhor, fiz o quinto ano com boas notas. Não era como o desgraçado do Ferrel, meu companheiro de Casa Pia e escola. Não gostava de aprender. Queria fazer coisas com as mãos. Carpinteiro, serralheiro, qualquer empreendimento em que pudesse mexer em materiais, transformá-los, fazer nascer novos objetos ou serventias. A escolha não nos pertencia. Por mais que pedisse mudança para a Escola Industrial tal não lhe foi permitido. A decisão fora tomada por quem de direito. Era irrevogável. Não tenho dúvidas de que era inteligente. Só estava no local errado. Lembro-me como causava o desespero do mestre de contabilidade. Achava e dizia-o claramente, a contabilização de partidas dobradas como uma enorme palermice. Não estava para aqueles jogos. Quem recebe deve, quem paga tem a haver? Que imbecilidade era esta? A uma invetiva mais agreste do mestre, vaticinando nunca serás nada em contabilidade, serás sempre um zero à esquerda, replicou, entre agastado e divertido, nada haver para saber na contabilidade. Classifica-se o documento, lança-se a débito ou a crédito, se estiver mal estorna-se! Sem palavras para replicar, o mestre riscou-o completamente das suas preocupações. Só deixei a Casa quando fui para a tropa. Um luxo! Pelas habilitações fui mandado para o curso de Sargentos Milicianos. Outro luxo! Mas sentia-me isolado. Todos se revoltavam contra os sargentos e oficiais, o rancho, a instrução. Eu senti-me a descobrir um outro universo. A disciplina não me era estranha. Sempre vivera com ela. A alimentação era melhor que a que tivera durante toda a vida. A liberdade de mandar em mim nunca, como ali, conhecera maior. Além disso, passados aqueles meses, seria promovido e eu, que sempre obedecera, poderia, pela primeira vez, mandar em alguém ou nalguma coisa. Não exagero se disser que me aproximava da felicidade. Ensombrava-me essa ventura duas coisas. Os colegas não simpatizavam comigo. Achavam-me estranho, deslocado. Chamavam-me lateiro. O ar de contentamento, o apetite com que devorava as refeições, comunicavam-lhe que não crescera como eles. Não era da sua igualha. Sofri grande isolamento, não obstante não ser o suficiente para apagar o brilho da vida que descobria. A outra era a ausência de uma namorada. De meu tinha o miserável pré pago ao fim do mês. Não chegava para o tabaco e, no entanto, não deixava de sobre ele serem feitos descontos. Veja que até as fotografias para o cadastro fui obrigado a pagar. Nesse mês apenas me deu para comprar um maço de cigarros. Com enorme esforço de vontade fui-o fumando, meio cigarro por dia, para chegar até ao novo pré. Por isso não os podia acompanhar em fins de semana e farras. Isolava-me ou isolaram-me. Saía sozinho, passeava pelas ruas. Via os camaradas sentados em cafés, bebendo com as namoradas de ocasião, afastando-me por desgosto e receio de possível chacota. A vida mudou com a ida para África. Soube então o que era ter dinheiro. Gastei como um doido. Experimentei tudo o que até aí me tinha sido vedado. Gostei mas, no fundo, um ratinho roía. Não conhecia o que era ter família. Estava obcecado por isso. Claro, nas colónias não o poderia saber. Não era bom partido. Não recebia convites para bailes e convívios. Deveria ostentar qualquer marca, a avisar pais e filhas, este não tem bens para dar uma boa vida ao teu rebento. Contentava-me com as mulheres que poderia pagar.

No regresso tive sorte. Ainda não gastara todo o dinheiro da desmobilização quando fui chamado para uma entrevista. Empresa média de export-import, agradável, apetecia ficar. Apesar do número de inscrições escolheram-me. Secção de Contabilidade. Sabe trabalhar com máquinas mecanográficas? Não sabia. Não faz mal, esse nem será o seu trabalho, o importante é que sabe contabilidade, pode classificar documentos, vigiar os lançamentos feitos pelas escriturárias e preparar os balanços para o revisor de contas. O trabalho com as máquinas aprenderá depois. Recebemos boas informações do seu Batalhão. Sabemos que toda a contabilidade era de sua responsabilidade e sempre cumpriu bem. Venha amanhã. Vou apresentar-lhe as suas colegas.

Não há fome que não dê em fartura. Quatro mulheres, eu, o único homem. Fiquei baralhado. Ouvi-lhes o nome, não consegui fixá-los. Há tempo para isso, pensei. Tens de tomar atenção é ao trabalho. A tua vida depende da boa prestação. Foram correndo os tempos, passámos da inibição inicial para relações de companheirismo ou, como acontecia com Lália, de profundo desagrado e evitação. Sentia-se deslocada naquele escritório. Sonhava com o teatro. A sua vida começava à noite, no ensaio de grupo amador, quando podia representar as existências que achava ser seu direito pertencerem-lhe. Olhava-nos com desdém, como se olha para as coisas rasca com as quais somos, em desprazer e revolta, obrigados a conviver. Mal nos falava e saía, ao fim da tarde, altaneira, direita à rua escusa onde, no automóvel, a esperava o filho do patrão. Vestida de preto carregado pelo luto da mãe, também era esperada, na rua da frente, pelo namorado, obeso, bovino, a palidez da pele de Sónia.Com os cabelos escuros, apanhados atrás, avançavam oficialmente para o casamento que se podia prever oficial, chato, rotineiro. Por sua vez Anerva, mal soada a campainha de fim de jornada, largava tudo como estava, pegava nos livros, corria para o externato onde se preparava para o exame final do complementar. Hei de ir para a faculdade. Não passarei a vida toda em espeluncas como esta. Terei um destino maior. Finalmente Vólia! O meu encanto. Mal fizera dezoito anos. Vestida como para festa, cabelos quase palha, esguios, parecia desadequada no ambiente. Vivia com os avós. Pais falecidos num desastre, ficara-lhe um ar dorido, ausente. Ria pouco, sorria docemente, possuía o mais lindo par de pernas que me fora dado ver. Perdi-me de desejos. Timidamente correspondeu aos meus pedidos. Vólia mostra-me os joelhos. Corava, eximia-se ao pedido. As colegas reforçava-nos. Anda lá, o que é bom é para se ver. Não resistindo à pressão, exercida mesmo pela distante Lália, com ambas as mão de cada lado, elevava a saia até ao logo acima dos joelhos. Extasiado dizia-lhe, és muito bonita. As colegas riam e tudo era galhofa. Vá. Só mais um bocadinho. Não era eu quem o pedia mas a insossa Sónia, saindo, por momentos da apática placidez das suas horas. Nem pensem nisso, recusava-se. Olha a pudica! Até parece que não usas biquíni na praia. É outra coisa, desculpava-se, não sendo capaz de alinhar razões, mas sentindo serem diferentes as cargas eróticas entre as duas situações. Não desisti dos rogos para levantar um pouco mais a saia. Quando estávamos sozinhos era mais pronta a aceitar as minhas solicitações, mais generosa no pedaço de corpo mostrado. Começámos a procurar menos companhia. Ao almoço, comido rapidamente o conteúdo das lancheiras, esgueirávamo-nos para um café ou jardim onde presumíssemos não ser encontrados. Falávamos, sentíamo-nos ecos um do outro. Permitiu que as suas mãos fossem acariciadas pelas minhas. Quando o esconso de sebes e a ausência de gente o permitiam oferecia-me os lábios, franqueava-me, com leves suspiros, o corpo. O que fomos de descoberta um para o outro! Por qualquer estranha razão quanto mais me ligava a Vólia, mais as nossas colegas, apoiantes iniciais dos meus avanços, pareciam ficar irritadas com as nossas escapadelas. Não entendia. Nenhuma delas teria qualquer interesse em mim. Vólia era não só a mais jovem como a mais descomprometida de todas elas. Porquê aquela raivinha surda a germinar naquele pequeno grupo? Até Lália, descendo à terra, foi fazer queixa ao patrão. Era indecente, um namoro pegado no local de trabalho. Talvez porque o patrão não gostasse das escapadelas do filho com a empregada ou temesse ter uma nora que não queria, talvez para mostrar que quem mandava era ele, despediu Lália – não queria intriguistas a estragar o ambiente de camaradagem no escritório – e promoveu-me a chefe da secção de Contabilidade. Olhando-me fixamente confidenciou-me, acredito que todos os homens nascem iguais, que são as condições de vida a criarem o destino que parece caber-lhes. Em cada um de nós há uma força que pode opor-se àquela que o quer obrigar a seguir o destino traçado pelo seu nascimento e enculturação. Leio muito Bourdieu. Talvez você não saiba quem é, mas, neste momento, por meu intermédio, ele está a dar-lhe trunfos para fugir da sua condição. Já me demonstrou sobejamente a sua inteligência e capacidade. Falta-lhe a legitimação. Inscreva-se no Instituo Comercial. Estude, melhor os conhecimentos, a cultura. A firma suportará os gastos.

Vólia nem queria acreditar. O patrão disse-te mesmo isso? Ora que diabo, tinha necessidade de mentir-te? Tu verás quando começarem as aulas. No segundo ano do Instituto casei com Vólia. Ninguém se admirou. Parecia predestinado. Tinha finalmente o que desejava. Uma mulher, mais um pouco e seríamos uma família, um emprego estável com boa remuneração, a previsão de um futuro, senão brilhante, muito aconchegante.

Na família de Vólia gostei sobretudo do avô. De aparência rude e mãos grossas, mesmo parecendo impossível, tocava violino numa orquestra sinfónica. Viera das serranias beirãs, muito novo. Sobrevivera trabalhando nos estaleiros navais. Assim que lhe foi possível dedicou-se à grande paixão: a música. Provas feitas no conservatório passara por um triz. Aquelas mãos eram demasiados grosseiras. Faltar-lhe-ia certamente sensibilidade para premir com subtileza as cordas no local exato. Os movimentos eram pouco suaves para o deslizar do arco… e não fora o examinador, por causas ficadas para todo o sempre desconhecidas, apesar de lhe dizer: - meu filho, entre as notas dadas e as que falhastes, fazia-se outra partitura, mas há qualquer coisa em ti que me leva a apostar. Admito-te!

Treinara-se também nas habilidades do jogo do pau. A culpa foi da leitura do Malhadinhas, contou-me. A mulher, ao seu lado, iluminou os olhos e confiou –me, foi assim que o conheci. Tinha ido ao baile, acompanhada pela minha mãe e avó. Dancei uma vez com o avô. Senti que não me era indiferente. No entanto as coisas só se definiram quando, quase no fim do baile, um grupo de estroinas entrou a desrespeitar toda a gente. Eram mais de meia dúzia. Quando um deles tentou levar-me à força para o meio da sala, o avô saiu de onde estava, agarrou o meliante pelo casaco, perguntou-lhe se não percebia o que queria dizer não. Acobardado o faia nem respondeu. Só tomou coragem quando viu avançar o resto da matilha. O teu avô ficou sozinho. O resto da rapaziada, sentido o perigo, desandou como se não visse nada. Estava aflitinha. Não sabia como poderia o avô desenvencilhar-se daquilo. De repente saiu em correria à frente do grupo. Confesso que fiquei mais descansada, mas um pouco desiludida. Correu em direção à casa dos arrumos. Tirou uma vassoura de piaçaba. Retirou-lhe a escova ficando apenas com o pau. Voltou-se para eles. Em menos tempo que levo a contar-te, paulada nas canelas, golpe na cabeça, meia-volta rápida, pau entre duas pernas galopantes a fazerem-nas estatelar, tinha o grupo de farsantes caído no chão ou a desaparecerem a boa velocidade. Desde aí foi o meu herói e nunca me desiludiu.

Conto isto porque, ainda antes de casar-me com Vólia, o avô, numa madrugada, adoeceu. A família levou-o ao hospital. Diagnosticaram-lhe cólica renal. Consideraram ser melhor passar lá a noite para uma observação mais cuidada. No dia seguinte levassem roupa e fossem-no buscar. Aproveitando a minha disponibilidade e posse de meio de transporte, pediram-me que o trouxesse para casa. Chegado ao hospital, dirigi-me à receção. Espere um pouco. O médico já vem falar consigo. Alguma complicação? O médico já vem.

É familiar do senhor? Quase, esclareci. Caso-me brevemente com a neta que vive com ele. Ah! Está bem. Parecia um pouco incomodado. Passa-se alguma coisa? Sabe, nunca vi homem como aquele. Durante a noite voltou a ter uma recaída. Fomos buscá-lo de maca para fazer novos exames. Recusou-se a ir na maca. Vou a pé, afirmou. Dada a urgência do caso e a firme determinação acompanhei-o. Perto da sala de radiologia apoiou-se a mim, estremeceu e disse-me: - Já lá vou…, morreu-me ali nos braços. Ainda estou impressionado com a força moral daquele homem.

Olhei para a trouxa de roupa que trouxera. Já não fazia falta. Perguntei ao médico se a podia deixar ali. Teria de dar a novidade à família. Se me vissem chegar de roupa devolvida a verdade cairia como raio. Era preciso preparar as pessoas. Tem razão, disse o médico. Senhora enfermeira guarde os pertences do senhor até virem buscar o corpo.

Daquilo que lembro, penso não ser muito distante da verdade, procurei com mil cautelas, sobretudo à avó, dar a notícia o mais suave possível. No entanto, as interpretações variam completamente. A primeira pessoa a quem me dirigi foi, como não podia deixar de ser, a Vólia. Contei-lhe o sucedido. Rebentou em choro. Durante muito tempo, soluçou abraçada a mim, molhando-me a cara com as lágrimas. Combinámos sermos os dois a falar, primeiro com a tia, depois com a avó. Afirmava a tia, a quem a queria ouvir, ele chegou num estado desesperado. A cara banhada de lágrimas, um desespero na voz. Até parecia que fora o pai que lhe morrera. Eram muito amigos. A avó, após recobrar do desmaio surgido a meio da revelação por antecipação do resto, comentava, sem que ninguém alguma vez lho tivesse contado, que, tal como ela, ao ter conhecimento do falecimento do marido através do médico, eu tinha caído redondo no chão. Valera-me estar no hospital e ter sido prontamente socorrido. Estava de tal modo que precisara que Vólia viesse a amparar-me para lhe dar a notícia. Por sua vez Vólia dizia-me foste muito sóbrio e sensível a contar a morte do avô à família. Quero-te mais por isso. Alheio a tudo isto, vestido de fato preto, o morto lá estava, na capela, entre orações, círios e choros, entregue, completamente  sozinho, à sua própria morte.

Fora este contratempo vivíamos completamente entre nuvens de algodão. Claro, como se está mesmo a prever, tanta felicidade não podia durar muito. No terceiro ano do curso, assoberbados por trabalho na empresa, provas, exames para o término da graduação, deixei de ter tempo para dedicar a Vólia. Bem lhe sentia o desagrado. Chamava-a à razão. É tudo por nosso bem. Passamos agora um bocado desagradável em nome daquilo que virá, será melhor e perene. Parecendo não acreditar muito, nem dar grande valor aos esforços dolorosos que me assoberbavam, respondia com um monossílabo e parecia-me terem as palavras resvalado pela parede de vidro que entre nós se erguia. Isto durou até ao dia em que, por falta do professor, aflito com o trabalho atrasado na firma, em vez de voltar a casa me dirigi para o emprego. Levava-me o caminho pela rua esconsa onde o filho do patrão se encontrava com Lália. O carro estava, de novo, lá estacionado. Ao lado do condutor, em estreito abraço e beijo delirante, Vólia esquecia-se de mim, da nossa vida, do projeto de um filho quando, nesse ano, acabasse o curso. Perdi as estribeiras. Urrando, espumando saliva e raiva, com força que me desconhecia, retirei-os do carro. Bati, mais com ódio de que com pés e punhos no gajo. Vólia tentou defendê-lo o que mais me acirrou a raiva. Agredia-a enquanto o fulano, meio desmaiado se rojava no solo. Quando ela gritou, para besta, matas o homem que amo, perdi-me por completo. Já nem me lembro se a estrangulei primeiro que a ele. No alvoroço os vizinhos chamaram a polícia. Algemaram-me. Tudo se passava como se não fosse comigo. No fundo do meu cérebro só um pensamento rodava obscurecendo todos os outros: ainda bem que o patrão não me viu matar-lhe o filho.

Foi assim que perdi o filho que não tive, a mulher que amava, a casa e a liberdade. Quando cumpri a pena, atenuada pelas circunstância e falta de premeditação, nada me restava ou apetecia. Ninguém daria trabalho de responsabilidade e  confiança a um cadastrado. Também não percebia para que raio me serviria ter esperança em qualquer coisa. Vivo, estava já mais que morto. Nada de esperanças. Sobrevive enquanto as coisas durarem. Nada esperes. Aprendi e agora já não quero  nada. Sou até capaz de, na recusa, ter descoberto algum tipo de felicidade.

 

Vólia atirará o manuscrito para longe, na mesa.

Não serás capaz de escrever uma história com um final feliz?

Final feliz? Interrogar-me-ei mais a mim que a ela. Tudo quanto via, sentia ou acontecia, nada mais era que o avanço da entropia. Uma interminável, inútil luta contra a segunda lei da termodinâmica. Sentiria isto dentro de mim como uma verdade irrefutável. No entanto, se o ousava dizer, a densidade do conhecimento diluía-se, restando apenas uma banalidade enfática a fazer torcer o nariz de qualquer arguente. Não tinha dúvidas de que um princípio de destruição grassava em nós continuada e progressivamente. Como dizia começamos a morrer logo que nascemos. Só conseguiria gargalhadas e gracejos para este pessimismo que eu sabia, era a mais consumada verdade. Como poderia supor qualquer final feliz? Tudo tende para a desagregação, dir-lhe-ei.

Condenas então o nosso amor à morte?

Não exatamente como pensarás, direi para mim, mas não poderá ter outro destino. Decidirás não querer perder tempo com pensamentos negativos, abanarás a cabeça, procurarás a minha boca e levar-me-ás para a cama. Satisfeita dirás entre humores e suores, a vida é mais forte que todo o pessimismo. Sou o princípio criador. Ao enunciares isto, por dentro e por fora de ti, sem que de tal te apercebas, as células estarão a morrer, o teu corpo subtilmente a mudar. Lá fora o sol anunciará o ocaso. Perguntarás:

-  onde vamos jantar?

 

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publicado por Carlos Alberto Correia às 11:45


1 comentário

De Maria Elvira Carvalho a 28.04.2020 às 21:07

Acabei de reler mais um capitulo. Como vai o Professor? E a esposa?. Espero que estejam bem.
Abraço e saúde.

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