Saltar para: Post [1], Comentários [2], Pesquisa e Arquivos [3]



Momentos para inventar o amor

Quinta-feira, 23.04.20

 

 

cabeçalho.jfif

 

H- Yahveh

 

Dévolo era um ser desagradável. Adorava dar más notícias. Procurava com afã todos os factos desprazíveis para ser o primeiro a contá-los. Devorava tabloides e alistara-se nos bombeiros para poder contactar, em primeira mão, com as mais terríveis tragédias. Tornara-se uma autoridade na comunicação da desgraça. Kismet não gostava de o introduzir nos seus dramas. Oblata detestava-o. Chegara mesmo, em algumas representações, ela que não era de amuos, a recusar-se a interpretar tal personagem.

- É abjeto, soprava.

- Nem tudo na vida tem o perfume de rosas.

- Mas este cheira por demais a esgoto.

- Já pensaste como ele se imaginará no seu papel?

- Lá vens tu com a história das personagens ativas…

- Dévolo pode gostar ou não do seu ofício.

- Nunca me pareceu desgostoso…

- Agora és tu quem lhe atribui sentimentos próprios.

- Por vezes caio no teu engodo. Não creio, porém, nisso.

Pensava na altura em que babando-se do que parecia puro gozo, levara para a roda de amigos a notícia do suicídio de dois adolescentes. Eram vizinhos e colegas de escola. Parece que os pais tinham um contencioso antigo. Coisa de marcas de terras. Quando perceberam que ambos se procuravam a todos os momentos, que cada um vivia na vida do outro, proibiram-nos de se encontrarem. Eles não respeitavam o acordo e perante as sucessivas desobediências e respetivos castigos, sem que nenhum desistisse do outro, o pai dele decidiu mudar de bairro, mandar o filho para escola diferente. Apesar de não ser muito longa a distância sentiram-se, cada um, relegados para galáxias distantes. Entraram em desespero. Eu estava de serviço quando fomos chamados. Fui o primeiro a chegar ao pé deles. Deitados debaixo de uma laranjeira florida, estavam já mortos. Beberam inseticida ou veneno para ratos. O cheiro era ainda tão forte que nem a fragrância da laranjeira o conseguia disfarçar. No bolso da camisa do rapaz estava uma nota com a mesma frase, escrita à vez, por cada um, ninguém nos poderá separar agora. Apesar de provavelmente querem morrer ligados não o conseguiram. Devem ter-se retorcido com dores. Estavam encolhidos e demasiado apartados para quem decidira matar-se para ficar juntos.

- Lembras-te Kismet, como todo ele era gozo no esmero do reconto do acontecido?

- Má vontade tua. O prazer não lhe provinha do episódio, mas do facto de o ter presenciado, de ser o dianteiro a chegar ao local e à notícia. Para ele, poder ser o primeiro e a testemunha mais credível era a fonte de gozo. Não o acontecimento em si. É como um repórter que consegue a notícia para a sua cadeia de média antes de todos os outros.

- Insensível, alcoviteiro, corvo que bica nos mortos, é o que ele é.

- Tanta animosidade, Oblata. Um pouco de misericórdia. No fundo queres matar o mensageiro porque te desagrada o recado.

- Mensageiro, mensageiro! Cusco a rebolar-se nas desgraças dos outros é o que ele é.

- Verás que não. És injusta! Que culpa tem o portador de que as notícias sejam horríveis? Ele não as produziu. Só as transmite.

- Pois sim, mas o modo como as difunde não nos diz nada? Nunca o vi triste ou compungido ao transmitir desgraça. Apenas observei prazer e euforia. Esse Dévolo é uma peste. Mas a que propósito o foste buscar? Não precisamos desse porco nesta história.

- O caso dos adolescentes vai servir para Cursino pensar a morte e a vida.

- Vai adoecer ou vai matar alguém?

- Calma, nem tanto ou mar nem tanto à terra. Deixa o Cursino lavrar o seu terreno. Depois verás.

 

Ficarei angustiado com o suicídio dos jovens. Percebia-o e não o queria entender. Naquela idade todos os sentimentos fervem. Os fracassos parecerão ser eternos embora se procure desesperadamente a parte que nos falta e curemos descobri-la, mantê-la por toda a vida. Procura-se o Andrógino inicial. Receberei, nessa altura, a excitação de Dévolo, a correr nas palavras, a tropeçar no discurso, procurando-me. Faltar-lhe-á gritar alvíssaras, alvíssaras! Porá os olhos em mim. Disparará, está no hospital em risco de vida. Quem é que está no hospital? Valéria, despejará. Tomou uma mão cheia de comprimidos. Li a carta que deixou. Contava do desespero da vida. Tudo lhe corria mal. A depressão, os amores e, gota de água a fazer transbordar a taça, fora preterida nas aulas aos invisuais. Ficarei estarrecido perante a possibilidade da perda iminente de Valéria. Raivoso de pânico decidirei não a visitar. Se sobreviver, resolverei, nunca mais lhe irei falar. No medo da decisão procurarei abafá-lo no desvario da escrita.

 

Uma hora após terminar o sétimo dia, Yahweh reuniu o resto das energias que lhe conduziram o ser por todos os universos onde deixara o seu selo e num último esforço criou a Estranheza. A seguir, esgotado, morreu.

Então tudo o que vivia por sopro e palavra tomou corpo, submeteu-se a leis. Quem primeiro deu por isso foram os anjos. Afastados das asas, sofredores do desejo inatingível de voar, desenvolveram o voo interior o que lhes permitiu atingir, ainda em entropia, algumas partes do enorme corpo de Yahweh de onde, a energia em fuga, era apanhada como forma e conhecimento.

Alguns anjos corporizaram-se no planeta Éden, antigo nome que designava a Terra. Aqui choraram com amargura a morte do Grande Pai e se entreolharam, órfãos completos, na descoberta da missão de fazerem permanecer a memória daquele que sobre as águas nos sonhara e perecera na ânsia de se superar na sua criação. Por homenagem passaram os anjos a chamarem-se Criaturas e a Yahweh – o Ser Radiante - passaram a chamar Criador.

Destas nomeações nasceu a primeira lei para reger as Criaturas: - toda a causa produz, pelo menos, um efeito e todos os efeitos pressupõem uma causa.

Outras leis se seguiram, físicas umas, químicas ou biológicas outras, todas plenas de utilidade, todas agindo de modo a tornarem suportável a permanência em Éden.

Cerca de 1545, no Concílio de Trento, cansados da longa orfandade, os Sabedores tentaram, a golpes de ficção boca-a-boca, trazer de novo vida ao dilacerado corpo da divindade, desfeito em estrelas de uma ponta a outra do universo concebível. Desse tão grande esforço apenas resultou um códice, a manutenção de vários protestantismos e a aceitação definitiva de uma má compilação de memórias que alguns se deram ao trabalho de ir juntando nos longos tempos da queda nos corpos.

Lá muito para trás as criaturas iniciais tinham passado a chamar-se Humanidade e punham a si próprios os mais variados e despropositados problemas. Conceberam, por exemplo, a palavra Fé que queria dizer Inquisição, a qual, por sua vez significava morte ou privação de deslocação nos espaços sociais. Tudo se complicou. O Homem descobriu a loucura e a solidão. Quer dizer, começara a inventar-se enquanto homem, isto é, principiara a criar densidade.

Dizem lendas muito velhas ser a densidade o que melhor define o homem. Ora tal não deixa de ser um fenómeno interessante Se permite ao corpo possuir a massa que o faz jogo da força de gravidade – logo permitindo-lhe a vida em cima da terra – é, por outro lado impeditiva do voo. Como bem sabem todos os que adormecem em busca do conhecimento, o qual, como dizia Platão, reside no fundo da memória, era a falta de densidade que permitia voar. Ao pôr-se esta opção as criaturas – como viria a ser apanágio ao longo dos tempos – dividiram-se em dois grupos e mais uma lei. Os grupos foram: os seres humanos (os densos) e os nefelibatas (os leves). A lei rezava não se poder servir bem dois senhores, por isso, todos os pesados cairão para o interior da Terra. Além desta lei um outro conhecimento foi ainda ganho pela espécie. Qualquer opção divide o grupo. Tome-se lá o partido que se tomar ficará sempre a dúvida sobre o que aconteceria – ou mesmo se não seria melhor – ter-se tomado o partido oposto.

De qualquer modo, a densidade conquistada permitindo ao ser humano caminhar pela terra com certo conforto, instalou, sem réstia de dúvida, o princípio da solidão. Porém os Nefelibatas, seres etéreos sem tempo e sem espaço – onde eu estava tu existias – não tiveram mais consciência além da resultante de ser pertença luminosa de um todo. Homens densos, utilizadores canhestros daquela coisa algo incómoda e agradável chamada corpo, passaram a vítimas do tempo e do espaço. Onde o meu corpo se colocava apenas ele podia estar e mais nenhum. Mesmo que a minha necessidade gritasse em sangue pelo teu nome, todo o meu espaço, por mais que o quisesse, continuaria irredutível ao teu. Éramos, sem dúvida, singulares e sozinhos. Conquistáramos, sem o perceber, a bendita maldição da individualidade.

Com leves memórias desses tempos os antepassados, na incomodidade de relembrar parcialmente o esquecido, criaram o Andrógino. O filho de Hermes e Afrodite, de seu compósito nome Hermafrodito, amou, de amor-paixão, a bela ninfa Salmácis. Tanto amor ofuscou, por ciúmes, os risos de Júpiter. Ameaçado por aquela ligação, por perfeita poderia vir a destronar a sua perfeição, decidiu separá-los. Disto sabendo os amantes recorreram aos poderes dos pais de Hermafrodito, que os fundiram num ser único na semelhança do espaço sem espaço que as criaturas primordiais ocupavam. Mas Júpiter levado na insânia que frequentemente atinge os poderosos ao sentirem em perigo os poderes, perseguiu-os pelo vasto Universo tendo-os, ao que parece, encontrado adormecidos num desconhecido planeta da décima sétima galáxia no setor de Zabulon.

Aí lhes separou o corpo e raptou Salmácis. Para onde a levou nunca o confiou a ninguém. Por tanto, ainda hoje, pelo vasto universo, montado numa nave parecendo, à vista desarmada, uma estrela cadente das doces noites de agosto, Hermafrodito percorre os grandes espaços buscando, desesperado, aquela que por direito lhe pertence por ser a sua metade.

Consta que ainda a não encontrou.

 

Eu encontrarei Valéria algum tempo após sair do Hospital. Não reverberarei a tentativa de suicídio como pensara. Ela ignorou a propositada ausência no Hospital. Sem palavras abraçámo-nos. Verteu algumas lágrimas celebrando a fortuna de ter sobrevivido. Não quero voltar a deixar-te, sussurrou. Nunca mais estaremos longe, prometi. Já, nessa noite, dormiu na minha casa.

 

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado por Carlos Alberto Correia às 17:06


2 comentários

De Maria Elvira Carvalho a 23.04.2020 às 23:34

Continuo a reler este romance. De momento tenho a leitura do último parada no segundo capitulo.Com as duas netas em casa, só posso dispor de tempo para leitura depois que elas vão. Mas aí tenho vários blogues para visitar, o meu para atualizar e pronto. E depois também os olhos não me dão muitas hipóteses de abuso.
Abraço e saúde

De Anónimo a 24.04.2020 às 15:29

Agradeço à minha querida colega todos os seus comentários. Fico também muito agradado por saber que anda de volta dos meus livros. O mais preocupante são os problemas dos olhos. Têm demorado sa melhorar embora sujeitos a, pelo manos parece-me, bastantes intervenções. Só posso desejar que melhore rápido. Beijos para os netos e peço-lhe que me informe do endereço do seu blogue. Beijos.

Comentar post