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Momentos para inventar o amor

Sexta-feira, 10.04.20

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E - Por vezes o drama

 

- Faz deitar o Elísio, Oblata.

- Pensei que, com a colocação na nova escola, tivesse saído de cena.

- Pensaste bem. Essa foi a primeira ideia. No entanto, necessito dele para manter o espetador interessado, retardar o momento das decisões e dos atos cruciais que, ele sabe, deverão ser tomados, embora fique na expectativa de quando e como o serão. Um desfecho demasiado precoce, ou o prolongamento excessivo do mesmo levam ao desinteresse, ao fastio. Há que saber jogar com as emoções e esperanças.

- Por isso fazes reentrar Elísio?

- Precisamente.

- O que vais fazer com ele?

- Pô-lo a sonhar, ou melhor a ter um pesadelo.

- Isso para quê?

- Para que ele volte a contactar Cursino. Um pretexto para adensar o drama, criar ambiguidades nas relações, nos sentimentos. Empurrar, como não pode deixar de ser, as personagens para os seus destinos.

- Parece-me estares em contradição com o que defendeste sobre a vontade dos personagens, na alteração do curso dos acontecimentos.

- Nenhuma contradição. Como vês eu tinha decidido terminar o seu papel na intriga, mas aí está ele de novo, a exigir uma reentrada a dizer-me não te livras tão facilmente de mim. Sou eu a querê-lo de volta ou é ele que se impõe?

- Só tu, Kismet poderás responder a tal questão.

- Na verdade só sei que se aconselha o seu regresso ao drama. O resto fica para mais profundas interrogações, quando tivermos tempo e o propósito das personagens for cumprido.

- Que faço com Elísio, Kismet?

- Fá-lo apenas deitar. Cursino relatará o acontecido.

 

Elísio, transtornado, telefonar-me-á. Estarei com pouca paciência. A história, em escrita, não estará a correr-me bem. Precisará de um fim viável, que surpreenda o leitor. Tudo quanto virá a ocorrer-me será banal. Estarei irritadíssimo comigo e com o mundo. Tentarei esquivar-me ao continuado do telefonema. A voz de Elísio será intromissão, ambiguidade desagradável no rumo dos meus sentimentos. Quero decidir a minha relação com Valéria. Se Elísio continuar a intrometer-se não o vou conseguir fazer. Contar-me-á, de qualquer modo, o sonho.

 Estou numa praia com uma mulher que desconheço, mas pela qual sinto uma atração forte. A praia é suja, escurecida, batida pelo vento, quase deserta. A mulher, de rosto difuso, levanta-se e encaminha-se para um guarda, trajado ao jeito do século dezanove, de bastos bigodes negros, erguidos nas pontas e, sem qualquer rebuço, começa a seduzi-lo. Encosta-se a ele, procura-lhe os lábios, beija-o coleante. Quero impedir o ato, mas não consigo mexer-me. Sinto-me ofendido e revoltado por não poder fazer nada. A mulher começa a tirar as roupas ao guarda. Vai-o despindo com lentidão. O seu corpo parece ondular como as espigas sopradas pela viragem. Suo no esforço para me erguer. Com o guarda quase despido a mulher retira o sabre da bainha e corta a própria cabeça. Enquanto vai minguando, assemelhando-se aos crânios secos ostentados como troféus pelos jívaros, não deixa de falar numa linguagem incompreensível. Afrontado pelo horror consigo levantar-me, fujo por entre os paus sem panos das barracas, através do nevoeiro subitamente aparecido de terra. Sem perceber como, estou noutro tempo e lugar. Recebo um convite para me encontrar com uma estranha. Agrada-me o mistério. Decido comparecer. Ao chegar reconheço o local. A casa onde vivi com Valéria. Subo as escadas, ainda tenho as chaves. Na sala, na mesa de jantar, numa salva de prata, precisamente ao centro, está a cabeça. Antes de poder tomar qualquer atitude a cabeça principia a elevar-se, mantida sobre um corpo evanescente. Do rosto sem feições definíveis nascem as resplandecentes formas de Valéria. Fala comigo. Diz-me que a única maneira de continuarmos juntos será se eu cortar também a cabeça. Apesar da crueldade do convite o ambiente começa a ser de estranha e envolvente doçura. Sou levado a concordar com ela. Ofereço-lhe o pescoço. Ela, com o sabre, sem esforço ou sangue, separa-me a cabeça do corpo. Sei que vou morrer, mas não me importo. Sinto o crânio a secar, a tornar-se cada vez menor. O corpo de Valéria tremula ao desfazer-se e a cabeça, de novo diminuta, gargalha junto à minha. Antes de tudo se fazer escuro ainda a oiço dizer, está paga a bofetada.

Elísio perguntar-me-á, impressionado pelo sonho, que conclusão tiras disto? Apesar de me parecer evidente dir-lhe-ei não ter nenhuma. É apenas um sonho, um pesadelo. Bebeste ou comeste demais nessa noite?

 - O normal. Parece-me ser o meu inconsciente a dizer-me nada mais ser possível com Valéria.

 - Pensava já teres tomado essa decisão.

- Também eu, terminará.

 

 - Que sonho mais macabro, Kismet. Não percebo porque terás de introduzi-lo na narrativa. Podias muito simplesmente teres finalizado a relação de Valéria e Elísio sem mais acrescentos. Acabou o amor, ou a paixão e pronto. Porquê enxertar algo tão exterior à história?

- Para acentuar o dramatismo que, sem nos apercebermos, se intromete no quotidiano. A catarse só pode acontecer se os sentimentos chagarem ao paroxismo. É por isso que Cursino divagará, ao longo da tragédia dos dias sem surpresas, na construção do insólito. O sonho enriquece a vida. Tu bem sabes. Deixa o Cursino fazê-lo fluir no leve do sonho, no peso do nada acontecer ou de tudo parecer marcado pela cinza em que se extinguem as paixões.

- Fá-lo então prosseguir…                             

 

Chegou meio esbaforido. Olhou em redor. O café estava a abarro­tar. Nem uma mesa vaga. Fungou duas vezes e atirou na minha direção a flecha do olhar. Avançou decidido para esta mesa onde em calma despedaçava a tarde. Sentou-se e disparou:

 

- Por vezes o drama insinuava-se na nossa vida...

 

Alargou-se todo num sorriso cretino a ocupar-lhe a boca mais dez anos de recordações.

 

...pois era... e se eu fazia esforços para a compreender. E ela? Divertia-se inventando tudo para me fazer sair de mim. Conduzia toda a minha vida em ciclo. Um drama, muitas promessas, reconci­liação; novo drama, mais promessas, outra reconciliação...

 

Olhei para ele com aqueles olhos de acabar conversas que tu tantas vezes dizes denotar em mim. O gajo nem deve ter percebido que eu tinha olhos. Ou boca. Escolhera-me como ouvinte. Nem pela cabeça lhe passaria a possibilidade da minha recusa a semelhante papel.

 

... de tal forma que muitas vezes, esperando o passar da noite, pensava poder agarrar na nossa vida e fazer dela uma história capaz de ultrapassar esses romeus e julietas que por  aí se  contam. Não se ponha a pensar que entre nós não havia amor. Bem... pelo menos pela minha parte havia e muito. Da parte dela parecia-me haver correspondência. Agora ter a certeza... vá lá a gente saber. Como adivinhar o que se esconde no mais íntimo de alguém? Ou mesmo se os atos correspondem à sua aparência. Não lhe parece que estamos sempre encurralados? Acreditamos e corre-se o risco de sermos enganados. Não cremos, logo a solidão nos toma de emboscada. Como eu detesto a solidão! Seria capaz de fazer qualquer coisa para não estar um só momento solitário na vida...

 

Desesperado, mando o olhar à procura de outra mesa no café. Nem esperanças. Chamei o empregado para pagar a despesa e zarpar. Mirou-me, com os olhos a abarrotar de ruído e fumo, no desprezo de quem tem ainda pela frente três longas horas de trabalho duro, não percebe a pressa de alguém que só tem que estar com o rabo repimpado na cadeira e, olimpicamente, ignorou-me. Fiquei, assim, completamente à mercê da história daquele manjerico.

 

... você acha que tenho ou não razão para detestar a solidão?...

 

Pronto! Deste-me a deixa, vou despachar-te em grande velocidade!

 

... livre-se dessa peste, amigo. Livre-se dela. Onde é que eu ia? Ah! O acaso... o acaso a fazer-me sentar  nesta mesa consigo, que não conheço de nenhum lado, fez-me  encontrar Terília. O acaso é assim. O café cheio. O amigo sozinho, vê-se mesmo cheio de vontade de conversar e eu, sem nunca o ter visto antes, a descobrir-lhe a minha vida. Sabe que mais? O acaso é o destino. Não sou fatalista nem supersticioso, mas lá que Terília entrou na minha vida por acaso...

 

Se eu por acaso espetasse uma lambada no trombil deste chato o que é que dirias? Teria sido bruto? Incivilizado? Ou apenas percebido a paciência como material que se esgota com celeridade? Põe-te no meu lugar. Agirias doutro modo? Ao menos um berro no ouvido...?

 

...Recordo-me perfeitamente. Numa festa em casa de amigos. Ricos, pois claro! Ricos até criar bicho. Só o salão dava para duas famílias habitarem. Com piscina e tudo... pensa que estou a exagerar? Qual seria o gozo de lhe mentir. Não o conheço. Provavelmente nunca mais o verei...

 

Ainda bem, pensei, tentando fazer-me ouvir. Tu bem me disseras que o meu horóscopo me era desfavorável esta semana. Desculpa-me o riso de incredulidade. A tua revista tinha razão. Este gajo não me larga e o empregado já passou por aqui mais de vinte vezes e continua a não atender aos meus chamamentos. Nem sequer vaga uma mesa para zarpar daqui.

 

... uma bela festa, digo-lhe eu. Terília estava lá. Linda de se ficar sem fala. A sala brilhava de iluminada. Ela era ainda mais brilhante do que a sala. Trazia um vestido azul claro... não... creme... bem, trazia um vestido que lhe caía lindamente... disso tenho  a certeza. O amigo já me está a imaginar, como nos filmes, a avançar para ela, os outros a afastarem-se para me dar lugar, pegar-lhe pela cintura e caminhar, ao som da valsa  final, para um recanto do jardim. Imaginação sua. Imaginação... Ela nem deve ter  chegado a reparar em mim. Rodeavam-na admiradores e amigos.  Tantos que nem me consegui aproximar. Também não sou exigente. Bastou-me contemplá-la de longe. Sou muito tímido...

 

Tímido.  Tímido o marmanjo. Olha-me bem para este. Dá vontade de rir. O tipo vem de onde não se sabe, senta-se na minha mesa. Nem sequer pede licença e sem me ter visto algum dia mais gordo, desata a contar-me a história da vida dele e diz-me que é tímido.

 

... de qualquer maneira um homem não é de pau. Nessa noite ador­meci com uma telha dos diabos. Bem gostaria de ser um  esses bonitões que nem precisam de assobiar e já elas estão a cair-lhes nos braços. Cá comigo nunca é assim. Desunho-me todo para me fazer notado por uma fulana e se consigo despertar-lhe a atenção é certo e sabido... ou é coxa ou anda no psiquiatra. Tenho cá um destes azares!

 

E eu, o que é que eu tenho? Se calhar isto é sorte. O meu pai, como tu sabes, era um preconceituoso de merda, barrava-me todos os dias os ouvidos com as etiquetas sociais. Nunca me deixaria assentar arraiais na mesa de qualquer fabiano sem lhe pedir licença e sem que lá me demorasse o mínimo tempo possível. Começo a dar razão ao velho.

 

... fiquei por isso muito admirado quando, em dia tempestuoso, a fui encontrar, numa reunião clandestina, na mesa, a dirigir os trabalhos, e CÉUS, ela reconheceu-me! Não fez mais que uma piscadela de olhos e a sombra de um sorriso, mas, meu Deus, eu estremeci todo por dentro.  Ora veja, ela não só me reconhecia como me distinguia com um sinal especial. Distinguia-me, a MIM, percebe?

 

Então não percebo. A tua sorte foi ela só te conhecer de vista. Soubesse ela a chaga que és punha-te a milhas em dois segundos.

 

Não sei se o amigo se lembra como eram as coisas naquela época. Refiro-me à situação política. Como é evidente, os problemas nas relações homem/mulher era coisa que ela tinha há muito ultrapassado. Frequentara a Universidade, viajara muito. Além de ser um cérebro conhecia, de viver, uma data de países. Convivera com  muita gente importante. Era raro falar de um nome, mesmo de estrangeiros, com quem ela não tivesse convivido...

 

Bem, pensei eu, um chato e uma mentirosa com pretensões. Deviam fazer um lindo par. Ainda por cima este fulano parece convencido de ter feito sozinho a resistência ao fascismo. A propósito, se tu aqui estivesses irias franzir o nariz e com o teu ar solene e pedagógico começarias a dissertar sobre a importância de delimitar as fronteiras entre os regimes políticos. Dir-me-ias salientar-se o Estado Novo pela vertente corporativista, pondo a tónica sobre a conjugação de interesses das classes, o que, em análise, se diferenciava bastante das doutrinas dos "fascios" e nacionais-socialistas, os quais, em intensidade e extensão dos efeitos, ultrapassavam de longe a, mesmo aí, medíocre perspetiva do totalitarismo nacional. Claro que terias de contar com a minha oposição. A vida não é um exercício académico. Para os que perderam a vida, de forma literal ou em oportunidades, por divergirem do pensamento dominante, essas subtilezas não farão, no mínimo, grande sentido.

 

O amigo, com certeza, está a pensar que eu exagero. Pois está enganado. Quando depois da queda da ditadura o país foi invadido por uma quantidade de gente de quem nós ouvíamos apenas falar, eu tirei a prova da verdade dos seus conhecimentos. Olhe, em nossa casa esteve mesmo hospedado o Jean-Livoir. Não acredita? Pois posso provar-lho. Só precisa de ir até lá. Além das fotografias havia de ver todos os seus livros autografados com dedicatória.

 

Pois sim, interessa-me mesmo quem é que dormiu ou não em tua casa. A única coisa que verdadeiramente me interessaria era que fosses para lá agora. Ou fosses pentear macacos.

 

 Foi por causa de um romance do Jean-Livoir que as coisas entre nós aconteceram. Lembro-me ainda bem. Era inverno, tinha acabado de chover. Estava na porta do café pensando se entraria ou aproveitava o escampado do tempo e dava uma corrida até ao emprego. Foi quando ela chegou. Ao ver-me disse:

 

"Então a ler um livro do Jean..."

 

  ...falou dele com um conhecimento de matéria e pessoa que me deixou deslumbrado. _

 

Deslumbrado é que tu me pareces de todo e desde início. Deslumbra-te a mulher, deslumbra-te a sua escolha política, deslumbram-te os seus conhecidos,  deslumbra-te o seu saber. -Ó, meu filho, a continuares assim, não vais longe.

 

"No entanto - prosseguia ela - não é na literatura que poderá encontrar o verdadeiro Livoir. Esse só mesmo na matéria de reflexão. Pensador como esse não encontra outro. Foi capaz de ir aos clássicos, olhe que me não refiro aos gregos, mas àqueles de quem se não pode falar - sem perigo de ouvidos indiscretos se interessarem logo em demasia -  e transpor para o absurdo do estar vivos os seus ensinamentos. Para viver, diz ele, é preciso meter as mãos na merda até aos cotovelos. E sem culpas, que isso é matéria para titis de catedral."

 

Culpa tenho eu em não correr contigo daqui. A tua história não me interessa nem um bocadinho. Além do mais, nada tem de original. Até agora eu poderia contar coisas muito parecidas com essa. Bastaria mudar os nomes porque as situações, em si, parecem ser bastante reduzidas. Tenho a sensação de que alguém com pouca imaginação, ou com pouco tempo para perder com a obra, ordenou a vida de molde a que o deve-haver não se dispersasse demasiado,  tornasse  fácil o ajuste final de contas. Ademais, apesar de plausível, a história cheira-me a forjada. Basta pensar no nome da mulher. Terília... isto é lá nome de gente...

 

Eu ouvia-a e ela tomava a minha voz para dizer coisas, há muito pensadas, que não conseguia transmitir. Aliás, sempre assim aconteceu durante toda a nossa relação. Mas, nesse dia, quando nos sentámos no café, por nada deste mundo a interromperia. Penso ter feito mal! Essa passividade marcou desde logo o ritmo das nossas andanças. Se lhe disser que desde aí foi sempre ela a tomar iniciativas não lhe minto nem um bocadinho. Tinha a esquisita sensação, quando lhe propunha alguma coisa, de ser transparente.

 

Ora aí está um campo onde te percebo. Mas aqui sou eu o transparente. Ou aprendeste bem a lição ou temos uma relação onde aproveitas o não me conheceres para inverteres a polaridade. Se eu fosse mal-intencionado pensaria, como nada esperas de mim podes dar azo a tudo o que te apetece  despejar. Se com ela não o fazias, é porque esperavas  qualquer  benefício. Vês, meu menino, como o interesse gera dependência? Querias apoderar-te dos seus estatutos sem pagar o preço? Começo a perceber-te meu  pequeno. E, francamente, o que percebo agrada-me.

 

Imagine! Uma noite aparece-me toda vestida de negro, botas e calças justas, camisola de gola alta, um casacão por cima de tudo isto e sem mais aquelas diz-me: - Despacha-te! Hoje vamos fazer umas colagens de cartazes...Colagem de cartazes?! A mulher é doida, pensei. Decidi logo  pôr as coisas claras. Aquilo era já passar das marcas. Então estava a pôr-me a liberdade em perigo e nem sequer me perguntava se estava de acordo? Francamente, isto era ser mais fascista que os ditos. Enchi-me portanto de coragem e disse-lhe:

 

Está bem, onde é que vamos?

 

Grande gargalhada soltei nessa altura. Não fazes ideia do prazer que senti. Mas o gajo também tinha uma certa coragem, tive de admitir. Como deves ter percebido, a esse tempo já tinha desistido de tentar correr com ele ou sequer meter-me na conversa. Creio bem que o que ele precisava era da aparência  de um auditor. No fundo falava apenas para si...

 

Ainda hoje não consigo recordar-me bem de tudo quanto aconteceu nessa noite. Inicialmente dirigimo-nos a casa de um amigo do qual, por hábito antigo, não direi o nome. Mesmo se lho dissesse você não ia acreditar. Sim, é bem conhecido. Só que virou. Virou mesmo e deixou de morar em Campolide. Onde mora agora? Isso não lhe digo. Dou-lhe uma pista. Se correr os três sítios mais caros de Lisboa vai com certeza encontrá-lo num deles. E chega..

 

Olha-me só para isto. Dialoga comigo como se eu fosse ele. Ou, ao contrário, dialoga consigo como se ele fosse eu. Diz-me o que lhe passa pela cabeça como se lho perguntasse. Amigo, de si, não me apetece indagar nada. Por outra, apetecer-me-ia sim, interrogá-lo: quando vai desamparar-me a loja e me deixa ler o jornal em paz?

 

Na casa desse tal amigo, que você está cheio de curiosidade  de saber quem é, entregaram-nos uma braçada de cartazes, um balde de cola com pincéis,  pediram-nos para decorarmos o número de telefone onde, para o que desse e viesse, estavam de prevenção um advogado e um médico da cor. Palavra!  Arrepiei-me quando nos falaram nisto. Se até ali estivera pouco à vontade, mas ainda um pouco descrente de estar a meter naquela alhada, o número de telefone foi como um murro no peito. Você sabe, uma coisa é a gente ter cá dentro aquela indignação sufocada que nos faz chamar uns nomes à governança e outra, bem diferente, é começar a fazer coisas que os chateiem à grande. Olhe que isto de andar de noite a colar cartazes contra o governo tem que se lhe diga.

 

Ai não que não tem. Bem o sei porque me calhou em sorte...  

 

Em sorte, hein?? Puta de língua esta que até ao azar chama sorte e sem ser por ironia. Está aqui este tipo retroativamente cagado por uma coisinha de nada. Se eu fosse de contar as encrencas nas quais me meti, o gajo ficava verde. Bem, a verdade é que tu também de pouco sabes. São coisas que se fizeram. Na realidade já não contam. Deixam de contar logo que feitas produzam efeitos. Por isso  lixam-me os politicozecos de agarrar tachos, sempre de passado hasteado. O passado só conta para mandar abaixo.  Quando se faz qualquer coisa só o presente  interessa. De nada vale o que fiz se o que estou a fazer não presta.  Olha que este pensamento não é meu.  Também não o apanhei a flutuar no ar. Foi no decorrer de uma conversa com o Floral. Eu gostei e utilizo. Sim, também me sirvo, de vez em quando, de pensamentos de outros . Sem citar a  fonte, pois claro. Eu sei lá quando é que um pensamento entra no domínio público. Assim, utilizo-os quando me convém. Ponto final.

 

A noite estava preta de negra. De início tudo correu bem. A certa altura a Terília deu em armar em parva. Primeiro começou aos gritos: "abaixo o fascismo", "viva o comunismo", "proletários de todo o mundo, uni-vos". Nunca mais se calava apesar de toda a gente do grupo tentar silenciá-la. Depois, foi colar um cartaz num enorme Mercedes preto estacionado na rua. Estava ela a meio da manobra quando o condutor apareceu e começou  aos berros: - Comunista de merda, andas a cagar-me a viatura e eu é que me lixo a limpá-la. Se calhar pensas que é o meu patrão que vai estoirar o canastro a tirar a porcaria da cola de cima do carro?

 

A  malta das tascas ao ouvir estes gritos saiu toda e desatou a perseguir-nos. Corríamos a bom correr. Terília continuava a gritar, "Uni-vos proletários" enquanto, entre duas golfadas de ar, me dizia: - São todos da PIDE, disfarçam-se para se misturarem com o povo...

 

Pois  é!  Além do medo aprendeste alguma coisa de útil sobre o folclore revolucionário. Também eu aprendi com muitas dessas. Na altura usávamos uma palavra que hoje me soa esquisita para classificar os companheiros de luta. Dizia-se aquele tipo é um gajo válido. Válido, estranho, não é?  É como se nós, apregoadores da igualdade, estivéssemos de imediato a classificar as gentes em dois grupos. Os bons e os maus. Depois, com razão, em tudo quanto era sítio, revoltávamo-nos contra os "fachos"  por dividirem o pessoal entre os bons e os maus...portugueses.

 

Porra, disse-lhe, quando conseguimos parar. Fazer trabalho político é uma coisa. Provocar sarilhos é outra. Riu-se, iluminou a noite, passou o braço esquerdo sobre o  meu  ombro esticando-se um  bocadinho e de mamas encostadas às minhas costas, olhou-me um pouco admirada:

 

 - Também sabes discordar? Já ganhei a noite.

 

Não disse mais nada e nada me deixou dizer. Calou-me a boca torcendo-me o pescoço e pondo-me na boca um beijo tamanho da noite, bem maior do que o susto.

 

Pronto, pensei eu, cá está mais um com a teoria de que elas querem é um durão contrariador. Lembras-te como eu os classificava?  Eram os da porrada erótica.  Primeiro murro nos cornos, depois reconciliação na cama. Tu, como sempre avessa à crueza da linguagem, ias pondo açúcares nas expressões,  emendavas suavemente para "relação conflitual". Sempre achei graça a essa tua maneira de encarares a realidade. Dava-me a impressão que, ao mudares o registo da linguagem, pensavas alterar a dureza do real. Sim, que este mundo é bem filho de puta.

 

Dormi nessa noite com ela e continuei pelas noites seguintes. A casa onde morava não era muito grande. Um estudiozinho com um quarto, sala e cozinha comuns. Não lhe vou contar o que se passou porque detesto esses relatos minuciosos sobre as intimidades de cada um. São coisas para se guardarem, não para se exporem à curiosidade coletiva. Não, não queira insistir nesse ponto. Não lhe vou contar nada. Apenas lhe digo ter sido uma experiência única. ÚNICA, ouviu? Por muito que você esforce a imaginação nunca se aproximará da verdade. Nem mesmo eu que a vivi. Quando hoje rememoro apenas consigo ter uma representação por demais pálida do acontecido.

 

Se  eu pudesse interromper-lhe a incontinência verbal ter-lhe-ia dito que de nada me interessava a sua experiência emocional, ou erótica, ou pornográfica, fosse lá ela o que tivesse sido. Já me bastam as minhas e nem de todas me orgulho. Além do mais não considero o sexo nem como função meramente reprodutora, nem sequer como experiência religiosa ou mística. O sexo é o sexo! Como a palavra, permite estabelecer a comunicação ou a confusão. É tudo uma questão de interlocutores. Do que eles  têm para dar um ao outro. Enfim, sou pela teoria da troca.

 

Como lhe disse comecei a viver no seu apartamento. Digo bem, no seu apartamento. Não pense ser isto figura de estilo. Provavelmente esperaria que dissesse ter ficado a viver com ela. Isso também eu queria! Mas quem pode agarrar o vento? Logo nessa manhã, ao acordar, encontrei o seu lugar vazio. Procurei-a na casa de banho. Só a humidade quente dos restos de um  duche diziam da sua passagem por ali. Voltei ao quarto, sentei-me na cama. Fiz  a primeira grande e profunda meditação sobre que tipo de relacionamento seria o nosso ou se, eventualmente, haveria relacionamento ou só uma passagem episódica. Devo confessar-lhe, não sendo exatamente o modelo ideal de um bom pai de família, tão pouco tenho ganas de desenfreado libertino. À escaldante sensação da paixão, não a desconsiderando de quando em vez e com brevidade, prefiro a tepidez de uma relação segura.

 

Pois, segura. Não querias mais nada. Andas a rolar pelos espaços a uma velocidade tremenda, num grão de poeira que a qualquer momento pode chocar com outro e queres segurança! Não te apercebeste, meu parvo, sermos bolas de bilhar em mesa cósmica, nunca sabendo onde a tacada conduzirá a bola onde nos alojámos? Querias então uma relação segura. Queres dizer, estável, parada, imutável, em que o tempo deixou de existir, eterna! Meu parolo, quase me fazes ter compaixão de ti. Definitivamente és um ingénuo. Ainda não percebeste a trama onde te moves.

 

Esperei-a até à uma da tarde. Nessa altura, acossado pela fome, desesperança e raiva, fui-me embora. Tive um sarilho dos diabos no emprego para explicar o atraso, o que contribuiu para o mau humor que levava quando, sem me querer confessar, fui ao  café pensando poder encontrá-la. Com medo dela aparecer e eu não estar lá, nem jantei. Esperei, esperei…  Não apareceu. Já muito tarde passei-lhe pela rua. Não havia luz nas janelas. Tive receio de que se tocasse à porta reagisse mal, me tomasse por parvo. Sabe, na altura defendia-se muito, embora eu creia ser mais teoria que real, a relação  descomprometida. O amigo, que é da minha idade sabe bem como era. Um encontro casual, uma noite bem passada, nenhuma saudade ou remorsos e, cada um para o seu cantinho. Já vê, se ela estava numa dessas e eu lhe aparecia feito dinossauro romântico, que triste figura faria.

 

O sacana não deixa de ter razão. Também me aconteceram algumas assim. Mas era a moda. Era preciso ter aquele ar de não me ralo, de viver o presente, de vestir de negro o corpo e o futuro. Havia mesmo quem acusasse o Jean-Livoir de levar ao  suicídio por desesperança muitos adolescentes. Lá que  havia suicídios em barda, não há dúvida, mas se olhar para o presente não vejo grandes melhoras...

 

Só passados três dias a voltei a encontrar. Zangadíssima comigo. "Que não aparecia, onde é que me metera, o que  pensava dela, julgava que era mulher de se entregar sem mais aquelas, etc. etc. etc." e eu tão parvo que nem me lembrei de dizer-lhe que me podia ter telefonado para o emprego, que a esperei, que percorri a sua rua na esperança de vê-la,  que fora ela a deixar-me sozinho,  sem um pequeno recado a dizer: -

 

“Amo-te. Volto já.”

 

 ...também, para ser sincero, não vejo as coisas piorarem. Mudam, isso sim. Nós, é que nos vamos esquecendo de como elas eram e as vamos pintando de novo. Como as que agora se passam nos correm sempre ao lado, parecem-nos então menos interessantes do que as vividas. Ilusões! Formas de  reagirmos  contra o tempo e a vida que tão bem  passa sem a nossa indispensável presença. E os outros, quem nos ama?  Esses, por muito sinceros que sejam, apesar da falta que lhe façamos, seguem a lei da vida. Estamos, contam connosco, vamo-nos, duas lágrimas de dor, o tempo cicatriza a ferida e ala que se faz tarde, continuemos a passar a vida esquecendo quem partiu.  Que se  há de fazer? É assim mesmo! Poderia ser melhor se fosse de outro modo?

 

Fui de novo com ela, está mesmo a ver. Se calhar o amigo já está a pensar pois claro, porque é que este tipo, que é um palerma inveterado, havia de não ir? Se ele até bebe o ar por ela, que remédio tem senão o de aceitar o jogo. Pois está enganado. Só me deixei vencer ao fim de uma longa discussão. Disse-lhe tudo o que pensava do comportamento dela, das indecisões em que me fizera cair, da pouca importância que me parecera ter na sua vida.  Ela, senhor, ouviu-me sempre em silêncio, com um ar muito sério e no fim, larga uma gargalhada de fazer parar todo o café, agarrou-me na mão:

 

 -"Anda criança. Vou ver se te faço crescer."

 

Arrastou-me de novo para casa e fiquei lá definitivamente.  Quer dizer, fiquei até ao dia...

 

 Claro, em que ela correu contigo. Fartou-se das tuas imbecilidades, das inseguranças contínuas e pôs-te a milhas. Tinha com certeza coisas mais interessantes a ocupar-lhe o tempo. Tu sabes que uma relação entre dois adultos não é nada fácil. Duas personalidades a evoluírem em direções próprias, com a sua pessoalíssima visão do mundo, a ocuparem o mesmo espaço, fazerem coincidir, dia após dia, continuadamente, as suas vontades. É obra! Não é para qualquer um. Quantas noites passámos nós discutindo por coisas que ao alvorecer pareciam sem importância, mas se as deixássemos cavalgar a noite seriam, por essa mesma manhã, um tremendo obstáculo ou um perigosíssimo recalcamento.

 

...em que ela, sem mais aquelas, chegou-se a mim deu-me um beijo demorado nos lábios e disse-me, pela primeira vez:

 

" - Amo-te desesperadamente. Tanto que te vou deixar. Não quero perder as nossas vidas numa relação cujo futuro é o embranquecimento das cinzas. Vou amanhã para Paris com o Cirondo."

 

 E foi.

 

 Sobre a estupefação que me invadiu nem lhe falo. Depois, tudo aquilo me parecia inverosímil. Dizer que me amava para, logo em seguida, me comunicar o abandono, era coisa fora da minha lógica. A seguir invadiu-me uma revolta e uma angústia que misturadas se anulavam, apenas permitindo manter-me num aparvalhamento total. Engoli as palavras várias vezes antes de conseguir dizer-lhe:- ai vais? Então boa viagem.  Desandei escadas abaixo para que ela não me visse chorar.

Até agora nunca mais deu notícias. Nada soube dela durante anos. De repente, como se nenhum tempo houvesse passado, como se não me tivesse trocado por outro quando nada faria esperar tal coisa, sem mais aquelas, mandou-me um telegrama, seco, imperativo, comunicando-me, chego hoje de tarde no avião de Paris. Que a fosse esperar.

Por esta razão, porque me encontro numa tremenda dúvida sentei-me na sua mesa e contei-lhe a minha  história. Dê-me um conselho. Devo ir ao aeroporto ou devo ignorar a sua mensagem, riscar o seu nome da minha vida?

 

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Os passos soavam nervosos, nítidos, batidos no mármore do chão do café deserto. Dirigiram-se para o local onde isolado, um homem rabiscava sobre a toalha linhas que se cortavam, seguiam paralelas durante um breve espaço, de seguida se afastavam definitivamente no entrecruzado da trama tecida. Lá chegados dispararam de cima de si um extenso rol de razões:

 

- sempre a mesma coisa a escrava que se amole que ande todo o dia numa fona vê lá se te interessa saber que o Deco tem que pôr o aparelho nos dentes que a Italina está com problemas na escola e já fomos chamados ao diretor de turma ainda está por pagar a conta da eletricidade ninguém se lembrou de ir ao supermercado a escrava que vá que ande numa roda-viva dê de comer a horas certas e não se esqueça de nada porque senão ainda lhe caem todos em cima a criticar ai senhor que mal fiz eu para sofrer tudo isto grande pecadora devo ser para merecer tanta raiva dos céus que Deus me perdoe mas este homem dá comigo em doida todo o santo dia metido neste antro sem fazer nada só com os olhos a olhar para ontem e a riscar a toalha da mesa se eu fosse o dono do café punha-te mas era na rua podia ser que assim me ajudasses e ele não perdia nada porque fregueses de gosma como tu são de querer longe da porta quem me mandou ser parva e casar contigo um inútil um sem serventia para nada enquanto as outras anda de cu tremido nos seus automóveis eu aguento que nem uma burra com o trabalho da casa as compras os filhos e esta porcaria de homem que não tem ponta por onde se lhe pegue

 

 

Olhei para a minha mulher, para o seu ar furioso e desanimado, especada na minha frente. Com um amor cuidadoso e lento dobrei o meu drama e recolhi-o dentro de mim. Amanhã, se o tempo o permitir, estarei aqui de novo para, inventando a vida, me afastar desta coisa diária e insidiosa que me corrói.

Até amanhã sonho. Até amanhã vida...

 

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publicado por Carlos Alberto Correia às 11:43


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