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Momentos para inventar o amor - A - A profundidade das coisas

Sábado, 28.03.20

 

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Kismet manipula fios. Debruça-se sobre o palco. Oblata segue-lhe os movimentos.

 

- Sempre procurei a profundidade das coisas.

-E encontraste-a, Kismet?

- As coisas, sim; a profundidade não! Pergunto-me se a procura seria correta ou mesmo desejável. As coisas são o que são. De nada serve buscar causas primeiras. A demanda de transcendência promete inalcançáveis, envenena a vida. Entranha desejos. O que é afinal a profundidade se não a distância entre o que se tem e o que se presume alcançar?

- Dizes tudo isso e, no entanto, parece-me nunca teres deixado de a procurá-la. Tem algum nexo esquadrinhar o propósito dos atos quando eles derivam, só e apenas, do necessário, do contingente? Nunca te cansas de estar sempre a fazer o mesmo?

- A fazer o mesmo? Como te enganas. Ainda que assim pareça, nunca o é. Há pequenas coisas que mudam. É o somatório dessas alterações, quase impercetíveis, a causa dos grandes momentos.

- Não diria tal ao ver-te continuadamente nessa posição, mexendo cordéis, fazendo movimentar os bonecos tempos sem conta, até parecerem estar vivos.

 - Supões o contrário?

- Qual é a tua ideia? Então eu não escrevo os argumentos contigo? Não sei que apenas fazem o prescrito? Só lhes concedemos as ações pretendidas.

- Isso é o que pensas ver e saber. Não te apercebes, como eles, do caminho percorrido.

- Ora, ora, queres-me fazer acreditar que os bonecos sentem e reagem ao que os pomos a dizer. Essa não! É demasiado!

 

Kismet embrenha-se mais na manipulação da cruzeta, repuxa fios, provoca movimentos, transmuta a voz, desliga-se da conversa, compenetra-se no articular do fantoche, provoca-lhes a dobragem dos joelhos, o levantar do braço até à cabeça inclinada, induzindo a sensação de alguém mergulhado no mais profundo de si. Oblata, sabendo-se dispensável no momento, abandona o recinto, levanta os panos pretos que rodeiam o pequeno palco, sai pela porta da narrativa, colocando-se, temporariamente, em oblívio.

 

 

Sentir-me-ei meio embriagado de espaço. Verei o sol a baixar no horizonte, o rio a marulhar calmo nas pedras da escadaria. Estarei sentado no murete no lado da coluna da direita do cais, pensar-me-ei lá mais abaixo, no local onde a água beija a pedra, olhando, como sempre o longo do rio. Na ponte passará o tráfego semelhante a manchas deslizantes. Tu chegarás e juro, dar-se-á uma mudança no ar. Coisa subtil, no vértice da perceção. Obrigatoriamente olhar-te-ei. Os sóis de verão ter-te-ão passado pelo corpo, morada de perfeição. Vestirás de branco, em contraste com o moreno da pele, da cor da madeixa, estreitando da frente para trás, ao correr dos cabelos pretos, apanhados no local onde o calor te perlará, de leve transpiração, a nuca. Saberei de imediato. Em ti o destino. Repararás distraidamente em mim. Ao ondular da brisa juntarei a tua mão a resguardar o leve movimento da saia. Virás porém, acompanhada e desatenta. Não poderás adivinhar as consequências deste encontro. Após o primeiro instante desviar-te-ás para os amigos, para conversas onde não estou. O teu nome será Valéria. Poderei compor a antecipação.

 

 

 

 

Kismet enxuga o suor do rosto. Naquele momento a história sofria uma aceleração. Chamou Oblata.

- Preciso de ti. Tenho as mãos ocupadas. Vou fazer entrar novas personagens em cena. Tens as falas contigo?

Oblata procura o guião e resmunga.

- Não gosto do papel do Elísio. Não o acho digno.

- Ora, ora, porque hás de refilar quando o pomos em cena? Repete apenas o papel que lhe destinámos, aquele que permite o prosseguimento da história. Além disso temos de acarrear alguma ênfase dramática para a peça. Combinámos, desde o início da composição do texto que este, por ingrato que fosse, seria o seu papel. Agora é tarde para o mudarmos. Teríamos de alterar o roteiro todo e mesmo as ações e caráter das personagens. E o que ganharíamos com todo esse trabalho? Uma peça melhor? Não o creio, nem sequer tu, posso apostar. Acordámos, desde o início que Elísio teria a mulher possível, não a desejada. Calhou-lhe porque ele estava ali, naquele lugar, naquela situação, naquele momento. Se não lha atribuísse, se a expectativa se gorasse, procuraria certamente alguém mais disponível. Ninguém está para perder muito tempo. Aceita-se o que aparece e colhem-se os melhores frutos. Tudo presta enquanto dura. Depois vai-se à vida, até à próxima e passa muito bem. Telefonas? Provavelmente!

 - Continuo a não gostar desse papel. Além disso parece haver uma certa incongruência. Se vais torná-la a musa de Cursino, se ele a vai ver como o ser excecional a iluminar-lhe a existência, como poderá ela ser tão pouco importante para Elísio?

- É aí que te enganas. Ele apenas parece despegado por defesa, insegurança. Sabe como ela é desejável, adivinhou há muito que não passa de um entreato. Da espera de uma outra coisa ainda por definir. Defende-se aparentando desinteresse, mas morre por dentro no receio de a perder. Porém, quanto mais medo tem, mais parece desprender-se.

- Eu sei, mas não aceito muito bem esse tipo de comportamento. Faze-lo parecer um frouxo e ele não o é. Mais me parece ser tranquilamente desesperado.

- És complicada nos sentimentos. Percebo a tua indignação. No fundo identificas-te com Valéria e repugna-te a inconstância, a traição.

- E não nos assemelhamos um pouco às personagens que criamos? Não sei se devemos continuar a trabalhar neste texto sem algumas alterações. Não gosto de lidar com coisas com as quais me sinto incomodada.

 

Só despertarei o teu interesse à noite, na casa de Elísio. Teremos calcorreado Alfama de ponta a ponta, bebido o suficiente para que o mundo se nos apresente com uma face mais fluida, quase sem problemas. Galhofaremos pelo caminho e cansados demais para irmos para casa, prolongaremos o encontro no quarto de cama de Elísio. Rebentado deitar-me-ei por cima da roupa no seu lugar da cama. Certamente por direito adquirido ao espaço virás estirar-te a meu lado. Poderá o teu gesto ser inocente ou propositado, mas terá consequências. Tocar-me-ás levemente com a mão. Ajeitarás melhor o corpo. A tua lateral cálida ficará encostada a mim. O resto do grupo estará sentado nas bordas da cama ou no chão onde Elísio, pálido, adivinha o a vir. Irás segredar-me, de modo audível, poderemos encontrar-nos amanhã na tua casa? Elísio desmaia. Os amigos correrão a auxiliá-lo. Lançar-te-ão olhares reprovadores e, levado no comprometimento da situação dir-te-ei, nunca me deito com mulheres de amigos.

 

- Revelas a tua preferência por Cursino. Guardas para ele os melhores atos. Deverias ser mais equitativo. Não me parece justo…

- A justiça é uma invenção. Apenas, na maior parte das vezes, para ser referida, ilustrar discursos, manter instituições, na verdade, raramente aplicada. Não há tal coisa na natureza. Vence o mais forte ou o que conseguir um mais elevado números de apoios, o que é ser, de outro modo, o mais forte.

- Isso, isso, o cinismo do criador a surgir à flor das águas. No princípio, antes do verbo, veio o oportunismo.

- Vês como sem quereres me dás razão? O criador é um oportunista. Aproveita-se do material ao seu dispor para, em nome de um qualquer bem quase sempre indemonstrável, fazer o que lhe apetece.

- É assim que te vês?

 

 

Não resisti. Dei-lhe uma bofetada. Ficou a olhar para mim, espantada. A mão, como se não fosse minha, tinha-se levantado, fez um semicírculo no ar. Antes de me aperceber estava-lhe estampada na face, furiosa, enérgica, para de repente, cair como se exausta, certamente envergonhada. Não reconhecia aquela mão. Valéria acariciou os vergões, olhou-me, não disse nada, juntou os seus pertences. Foi-se embora muda, sem uma lágrima, sem voltar a olhar-me. Não sei o que fazer. Desde que ela se deitou na minha cama a teu lado fui possuído por uma vertigem indominável. Logo que todos partiram iniciámos uma discussão que durou o resto da noite e uma boa parte da manhã. Já não tentávamos esclarecer coisa nenhuma. Agredíamo-nos com palavras impensadas, tivessem o peso que tivessem. Ficámos num estado próximo da loucura. Não, não estou a tentar desculpar-me. Sei que não tenho desculpa. Eu próprio não me a concedo. Mas está feito. Queria apenas saber se ela te procurou?

 

Estarás doido ou quê, Elísio? Sabes bem que me recusarei a qualquer encontro. Serei claro, não irei para a cama com a mulher de nenhum amigo. É princípio que defendo. Não o quebrarei por nada deste mundo. Desde aquela noite nunca mais a vi. Irás tentar reconciliar-te?

 

Não faço a mínima ideia. Não sou capaz de encará-la. No fundo espero que ela tome a iniciativa. Isso quereria dizer que me perdoou. Só depois poderei desculpar-me a mim próprio

.

 E se não o fizer?

 

 Nesse caso terá o fim do nosso caminho.

 

 

-Como assim que me vejo? Faço o meu trabalho, Oblata. Desespero por vezes. Lembras-te, quando nos conhecemos? Os meus sonhos de grandeza! Esperava vencer todo o mundo, abandonar o toldozinho de robertos onde, por pancadas e gritos, arrancava as gargalhadas aos putos.

- Se me lembro. Agarraste-me sem cerimónias. Trouxeste-me para o teu sonho. Tornaste-o meu. Era grandiosa a ideia de um teatro de marionetas em tamanho natural. Onde é que isso vai. O tempo tudo mudou. Hoje já nem os mais pequenos se interessam por fantoches. Têm a televisão, os jogos vídeos, os computadores, os telemóveis. São uma juventude tecnológica. Bem se interessam por bonecos movidos por cordéis.

- Assim o sonho se despedaçou. Vamos resistindo apresentando peças para casas meio vazias, com meia dúzia de nostálgicos. Não se vai a parte nenhuma. Tantas vezes pensei desistir. Lembrar-me do poder que já tiveram as marionetas. Como foram tão operantes que, por receio do transmitido, levaram à fogueira o Judeu. Agora, houvera ainda censura e nem se dariam ao trabalho de ler os argumentos. Mas não desisto. Esta peça vai tornar-se um clássico. Tenho a certeza…

- Espero bem que sim. Como vais sair da conversa entre o Elísio e o Cursino?

- Por enquanto fica em suspenso. O Cursino vai publicar um conto num concurso literário de um jornal diário. Ganhará o prémio. Vai subir-lhe a esperança, sentir-se o dono do mundo.

- Como vais chamar a esse conto?

- Considerando o estado de dúvida em que está, entre o cumprimento de um principio ético, o desejo por Valéria, a decisão de não ceder ao desejo e de se afastar, lembrado ainda da noite em que se conheceram, da rapidez com que passou, chamar-lhe-á Noite Menor.

 - Será a narração deste caso?

- Nem por sombras. Considera que a poeticidade se dá quando o reconto ou o desfecho se afastam do esperado. É no desvio que se conta o que não é contado, mas se quer revelar.

“- Porque falas por enigmas… Kismet?

- Talvez porque os resolva todos.”

 

 

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publicado por Carlos Alberto Correia às 19:49


2 comentários

De Maria Elvira Carvalho a 29.03.2020 às 11:29

Gostei de reler.
E embora não tenha terminado "O cheiro das Glicínias" (de dia cuido das netas, à noite os olhos não me deixam) estou a gostar muito. Sinceramente mais do que "Momentos para inventar o amor"
Espero e desejo que esteja bem, com toda a sua família.
Abraço

De Anónimo a 29.03.2020 às 15:48

Olá cara colega!

Cá vamos indo o melhor possível. Com alguns apertos de coração porque a minha nora é Tecnica Superior de Diagnóstico e está ligada aos doentes infetados com o Covid. Espero que tudo corra bem com os pequenos, que, porque pertencemos a grupo de risco, eu e a Fernanda, só vamos vendo através da Internet.

A estrutura dos "Momentos" é bem diferente das "Glicínias" Aquele é um livro mais trabalhoso de ler, com várias "Vozes" a interpenetrarem-se e a trocarem de papéis. Enfim, cada leitor faz o seu livro e adere àquele que melhor lhe "sabe".

De qualquer modo, como disse, republicar, por capítulos no blogue é uma forma de contribuir, por pouco que seja,para aliviar o aborrecimento das retenções forçadas em casa. Um beijo e melhoras para os olhos.

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