Memórias XVIII – trago um país
(Gráfico de Pedro Correia)
trago comigo
um país achado em Portugal
trago um país meu
por final
trago comigo um país de mel e poesia
um país de vinho
um país amargo
trago um país que há muito não havia
e que foi encontrado ao largo
de si mesmo
trago um país repartido a esmo
um país vizinho e longe
em vento e tortura abandonado
num país de novo construído
de novo este país foi encontrado
levo comigo um país de tempos idos
um país que não volta
sem saudades
trago num sorriso à rédea solta
um país que me fala de verdades
digo trigo e pão e primavera
o sol nasce
digo tempo era
e hoje faz-se
o país que em mim trago ousadamente
tenho uma pátria trago um país agora
enormemente
Lisboa, Primavera de 1974
