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MEMÓRIAS

Quarta-feira, 12.08.20

 

 

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Nota – Decorria o ano de 1969. Regressara recentemente da guerra da Guiné. Curtia lutos de amor e estranhava o quanto tanto mudara em dois anos. Na casa da Margarida Morgado – a nossa Guida – juntávamo-nos todas as noites para ouvir música proibida, falar em revolução, dizer e fazer poesia.

 

No último dia em Évora, a vinda para Lisboa parecia tão sofrida como a ida para a colónia, deu-me o estro e saiu este poema:

 

com desacordo para a elsa

 

no qual tentava expressar as contradições que permeavam o grupo, assim como a tristeza de  ter de o deixar.

 

Hoje, embora seja situação recente, já nem a Margarida, a quem foi dedicado este poema, está em Évora. Mantenho por lá, ainda, família e amigos, mas cada vez menos. É a vida!

 

Este poema faz parte do livro “silêncio mordido” onde foram publicados todos os poemas a que a censura proibiu a publicação.

 

Por isso com saudades, apesar de tudo, dessa gente e desse tempo rededicando-o à Margarida e aos amigos de então aqui vai a minha conversa com a Elsa

 

 

com desacordo para a elsa

 

                  aos amigos da casa da margarida

 

 

 

a burguesinha de burgos

tinha cabelos loiros  tinha

olhos e voz cantantes

também as pastas de dentes

anúncios  televisão

 

que tinhas burguesinha

 

sorrisos de esperança  chopin calmo

a noite e os amigos

que se tinham e não tinham

 

se soul em soul a música se criava

em manifestas barbas por cortar

 

os bailarinos de cabeça para trás

com nenúfares nos ombros cegos

e mais música música com mais lendas

e beijos e lágrimas

 

pobre pobre margarida

a intermediar polos

revoluções  as árvores sangrando vítimas

as uvas fortes das mesas antigas

 

que mais tinhas burguesinha

 

a voz que se gritava  as meias caras perdidas

sapatos convicções

boas noites ao partir

 

sonha puro burguesinha

que este mundo suja todos

 

quem é que lava mais branco

 

todo o céu do meu país é azul ou azulado

todo o mar que se descobre é um mar já batizado

 

quem disse que em burgos não havia burguesinhas

 

os saxofones  as tubas  as massas alimentícias

são a cidade

e le plus grand bonheur du monde

não é o mundo que temos

ao deixá-lo

 

tu és a burguesinha e eu não acredito

que o queiras não ser

são tuas a música  as noites  a repartição

simples dos momentos

 

tens quase o que eu quero dar aos outros

falta-te um vietnam nas sobrancelhas

nagasaki em cada poro do rosto

 

creme creme creme puff

 

penso que gravitas no arroz fácil

acima das urtigas negras

covas de braços de prostitutas

e carnavais arrastados

 

deixa-me rir burguesinha que da tua rua eras

que um dia

somos só quartos sem ar

dó maior

reproduções

e horários de comboios no terreiro do paço

 

quem foi que disse que em burgos

não havia burguesinhas

 

Carlos Alberto Correia

 

 

 

 

 

 

 

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publicado por Carlos Alberto Correia às 22:40


2 comentários

De Maria Elvira Carvalho a 13.08.2020 às 09:33

Passei, li, e à primeira vista pareceu-me uma critica mordaz a uma sociedade, simbolizada pela margarida.. Hei de voltar outro dia para reler, e talvez entender melhor, ou não.
Abraço e saúde, para si, e todos os seus.

De Anónimo a 13.08.2020 às 18:28

Olá, cara colega.

É um prazer ter notícias suas. Quanto ao poema é de facto uma crítica mordaz, como muito bem nota, a uma determinada sociedade, ou mais precisamente classe social, representada pela Elsa, estudante de Sociologia, uma componente do grupo da casa da Margarida - ela própria socióloga..Tínhamos, eu e a Elsa, grandes discussões sobre questões sociais onde estávamos em campos opostos. Ela pertencia e assumia-se como parte da aristocracia da Cidade e do País. Está a ver a "bernarda" que se levantava...

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