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Democracias e ciclos de Krondatiev  

Terça-feira, 12.12.23

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1 – Desilusão, medo e náusea

 

Em vésperas do quinquagésimo aniversário da queda do regime corporativo do Estado Novo (uma espécie de fascismo edulcorado), olho, com enorme perplexidade, para o País e para o Mundo e sinto a fragilidade das democracias, o seu enfraquecimento por fatores internos e externos, e o afloramento, por todo o lado, de indesejados regimes autocráticos e ditatoriais.

 

Defendendo, como Churchill, ser a Democracia “o pior de todos os regimes…exceto todos os outros”, sou, ao mesmo tempo, tomado de desilusão, medo e náusea.

 

Provém a desilusão de, tendo passado parte importante da minha vida sob alçada ditatorial, ter dificuldade em perceber como tantos parecem estar, de novo, a preferir regimes autoritários; o medo, consequência do estado de desilusão próprio e das massas, é o do retorno a sociedades onde só não curo viver, como cheguei a pensar ser impossível a volta do passado. Finalmente, a náusea chega-me com a dificuldade de explicar e explicar-me, as razões desta involução.

 

Por tanto decidi-me a tentar perceber o porquê desta insólita e degradante caminhada, lembrando-me que esta revoada pode bem ser cíclica e, aventurando-me sem rede, procurar uma explicação consequente com os ciclos de Krondatiev.

 

2 – Democracias

 

Quando falamos de Democracia, falamos de quê? Da democracia Ateniense, onde só os cidadãos de Atenas tinham direitos e os estrangeiros, ou os escravos, estavam totalmente desprotegidos, sem quaisquer direitos? Da Democracia formal, na qual o direito de voto – tantas vezes enviesado por corrupções várias dos sistemas – é garantido; da Democracia Social que visa reduzir as desigualdades e garantir, a todos, o acesso à Educação, Saúde, Habitação e Segurança; ou da Democracia Económica garantia da distribuição justa dos meios económicos, promotora da igualdade de oportunidades e da regulação do mercado?

 

É que só uma Democracia que envolva estes três planos pode ser considerada plena e justa. Na maior parte dos casos encontramos somente Democracia Política e, em situações pontuais descobrimos sociedades com maior ou menor percentagem da Social e Económica.

 

Esta situação é muito traumática. Na maior parte dos casos os povos que alcançam a Democracia esperam que o regime lhes traga os direitos, liberdades e garantias da Democracia Plena, isto é, Política, Social e Económica. Na realidade o que aporta é alguma igualdade política, poucos e periclitantes direitos sociais e um quase nada, ou mesmo nada, de participação no progresso económico. O resultado é, por norma, a frustração, seguida do descrédito no sistema. Assim, pelas suas corrupções e incapacidades, a Democracia vai-se corroendo por dentro, desencantando quantos dela esperavam liberdades várias e desaparecimento, ou no mínimo atenuação, das desigualdades sociais. Destas contradições vão-se aproveitando os defensores das democracias iliberais, das distribuições de réditos por méritos pouco transparentes, das desregulamentações dos mercados, com efeitos fatais sobre a posse dos meios de produção, a justa repartição de rendimentos, o anquilosar das instituições de solidariedade social, o favorecimento de empresas privadas a trocar, impunemente, as obrigações de bem-estar geral, pelo só daqueles que o podem pagar.

 

3 – Neoliberalismo

 

Uma destas doutrinas, mais enganadora e, atualmente com enormes repercussões negativas na dinâmica social é, sem dúvida o neoliberalismo. À partida parecem muito convincentes três das suas proclamações: a livre iniciativa, a regulação automática pelo mercado e a já citada desregulamentação, pressuposto fulcral para a implantação da livre iniciativa. Ora, este canto de sereia, a ganhar espaço há muito tempo nas instituições ocidentais, esconde uma lógica antidemocrática de exclusão, aumento das desigualdades socioeconómicas, logo de degradação democrática, conducente aos perigosos caminhos do desespero e revolta. No entanto o seu discurso não deixa de ser encantatório, fazendo crer a qualquer um que poderá atingir os seus objetivos, dependendo apenas das suas capacidades e esforço. O que ele malevolamente esconde é o contexto social, o desigual ponto de partida de cada membro da sociedade, os diferentes capitais sociais, económicos e culturais de cada qual. A resultante desta equação, como se tem vindo a observar no descalabro do mundo, é o recrudescimento das polaridades surdas a argumentos diferentes dos seus, logo dos conflitos, da violência, da guerra. E, clarinho, o aumento das preferências por políticas ultra direitistas que criam e amamentam as desgraças antes referidas.

 

4 – Ciclos de Krondatiev e Democracia

 

Os ciclos de Krondatiev, também conhecidos por ciclos económicos longos, postulam que as economias, sobretudo por motivos de alterações tecnológicas importantes, passam por fases de expansão, recessão, depressão e recuperação. Estes ciclos verificam-se, normalmente em períodos de quarenta a sessenta anos.

 

Embora não seja matéria assente é interessante, olhando para a História, verificar que também existem ciclos semelhantes nas transições entre democracia e autoritarismo e vice-versa. Daqui intuir que possa haver, senão uma correlação, pelo menos uma relação direta entre estes dois ciclos. Sabemos que as condições económicas, ao levarem a descontentamentos profundos, podem influenciar mudanças políticas. Também não é desconhecido o impacto social causado por avanços tecnológico (ex: invenção da máquina a vapor, uso do aço e eletrificação, difusão da informática e, presentemente a aceleração do uso de Inteligência Artificial).

 

Não é assim despiciendo olharmos para estes dois ciclos, ver a sua periodicidade e simultaneidade, procurando forjar antecipadamente respostas adequadas para tais ciclos disruptivos. As condições para tais existem, quanto à vontade, tendo em conta que toda a mudança implica em alteração de interesses instalados, isso já não sei bem.

Não deixo contudo de ter uma réstia de esperança, aguardando que o interesse geral prevaleça sobre os interesses egoístas e, possamos, ultrapassando os desastres que já nos assaltam, com saber e pragmatismo, evitar que o Antropoceno – era atual do mundo – não venha a ser o bem possível final da Humanidade.

 

Publicando in Rostos Oline

 

 

 

 

 

 

 

 

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publicado por Carlos Alberto Correia às 17:51