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Declaração de absoluto desinteresse  

Quinta-feira, 24.08.23

 

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Nota Prévia

Tenho de confessar aos meus caros leitores, ser este item uma abusiva aleivosia da minha parte. Isto porque este artigo me foi enviado particularmente e para uso próprio, mas conhecedor da posição do remetente de que tudo, tudo, tudo, menos a privacidade, deverá ser privatizado, não consegui resistir à possibilidade de, com esta mensagem a que tive acesso, procurar traduzir para uma linguagem mais real, mais próxima das suas intenções as várias mensagens que os “direitinhas” andam a propalar, sobre o pacote Mais Habitação.

 

Não quero com isto dizer que o considere capaz de resolver o grave problema da habitação, mas “encanita-me” a hipocrisia dos intervenientes no debate que para o rechaçarem utilizam todos os argumentos – alguns a tocar as almas - exceto aquilo que verdadeiramente motiva o seu desabalado ódio contra qualquer tentativa de o Setor Público tentar arranjar, conforme manda a Constituição, um lugar condigno de alojamento para cada cidadão ou família.

Posto isto, procedamos à inconfidência de que não me arrependo e até me orgulho

 

 

Declaração de absoluto desinteresse

 

 

Eu, Desidério Recoletor, por interesse próprio e na defesa das posições gerais do CEGI (Comité de Especuladores Genéricos Internacionais), o qual legitimamente represento venho, - de alma na mão e coração aberto - insurgir-me, violentamente, contra o programa do Governo PS, “Mais Habitação”.

 

Faço-o com toda a pertinência porque não admito a qualquer governo, o direito de se imiscuir minimamente, no terreno sagrado do Mercado Livre. Desconheço de que legitimidade se socorre para se atrever a intervir, sem qualquer pudor, nas ações da “Mão Invisível”, a qual, em completo acerto e aceitação universal, equilibra de forma mais que criteriosa, as sacrossantas determinações das libérrimas ofertas e procuras.

Como é de todos sabidos só assim, na absoluta liberdade de transação lucrativa se podem defender os valores e ganhos humanos. Qualquer tentativa de intervenção, ou regulamentação de corpos governamentais, - mesmo se eleitos -, nas leis do mercado é, além de absoluta heresia, um ataque direto aos direitos da CEGI, Associação que defendo, na espoliação lucrativa de quantos nasceram para serem utilizados como máquinas de rentabilidade aumentada a favor de quantos, bafejados por capacidades que àqueloutros faltam, estão na situação ideal e têm o dever de, deles retirarem as mais-valias com que nos sobrealimentam e permitam gerar e gerir o crescimento e o Progresso.

O Mundo é, por vontades de Deus e do Mercado, necessariamente desigual.

Cabe-nos a nós, com todos os meios a propósito, seguir e aumentar essas sublimes vontades.

 

Sei que muitos detratores acusam as gentes deste pensamento “liberal” de apenas terem lido metade da frase com a qual, na Riqueza das Nações, Adam Smith se refere ao equilíbrio do mercado, através do efeito de oferta e procura (a já citada e infalível Mão Invisível) Dizem que parámos a leitura antes do esclarecimento, por ele prestado, de que esta regra apenas é aplicável em sociedades ideais de concorrência perfeita, isto é, sem monopólios e outras formas gananciosas, individualizadas ou corporativistas de arrecadação de capitais. Balelas e pormenores, é o que eu digo! Minudências que não nos devem afetar nem um pouco, dadas as naturais e absolutas desigualdades com que a Mãe Natureza nos quis diferenciar. Se nada no mundo é igual a coisa nenhuma, porque Diabo haveria de abrir-se exceção na repartição de rendimentos? Ora, não sejamos mais papista que o Papa!

 

Assim, para continuar a manifestar o meu desacordo, enuncio alguns dos princípios básicos que suportam o meu pensamento e creio vivamente serem quase universais.

 

 

Primeiro:

 O direito de propriedade deve sobrepor-se a qualquer direito, mormente ao de habitação.

Parece-me claro que se eu tenho uma ou mais casas e não as quero usar, terei todo o direito de mantê-las desocupadas, mesmo que a grande parte das pessoas e família falte um teto de abrigo. Que tenho eu a ver se a desventura, a má cabeça, a incapacidade de se apoderar de bens e cabedais os não assista? Ou, mesmo se se der o caso de terem sido afastados à força ou por injustiças várias desses bens porque me hei de sentir pessoalmente responsável ou responsabilizado. Não fui eu que fiz as leis! O governo resolva a situação!

Não me cabendo ajudá-lo, mesmo assim, por mera boa vontade e humanismo, posso sugerir a oferta de uns cobertores, no verão, para quem passe a noite ao ar livre e a abertura de estações de metro ou a guarda de uma parte das arcadas e desvãos dos prédios das cidades para se acoitarem tais infelizes ou incapazes, nas noites invernosas.

Não pensem que em mim não há sentimentos e não queira auxiliar a minoração do sofrimento desses miseráveis inábeis a gerirem os seus haveres. Também não nos opomos a que, para minorar a crise da habitação, o governo mande edificar em baldios longínquos dos locais nobres das cidades, habitações condizentes com a situação miserável de tais criaturas. No entanto, para não se habituarem mal e pensem ser seu direito o que é mera concessão, oportuno gesto caritativo, não deverão ser demasiadamente cómodas; a construção deverá ser algo deficiente; os transportes raros, caros, dificultosos.

Assim, estará o governo a agir bem em dois caminhos. No primeiro, pelas dificuldades e mal-estar gerados estará a incutir na mente desses preguiçosos que a sua má vida apenas é culpa sua, do seu desinteresse, do desapego ao trabalho, da ociosidade e vícios inerentes á pobreza que a causam e a mantém. Pelo segundo evitará que por demasiada facilidade e proximidade do centro desses alojamentos, venha a ser prejudicado o equilíbrio, confesso bastante instável, entre oferta e procura. Tal poderia fazer com que o preço das casas ou alugueres por excesso de oferta entrasse em queda e desincentivasses o interesse dos membros do Comité que represento, no investimento em novos empreendimentos de preços notáveis, a dignificarem as cidades, a afastarem dessas zonas gentes que, pelo seu comportamento, modo de ser e falta de educação pudessem dar má fama aos bairros de gente educada, desvalorizando assim os preços que se devem manter acima das possibilidades dos menos abonados. Tudo isto, apenas por uma questão de civilização e boa vizinhança!

 

Segundo:

 

 Afeta-me também a incompreensão e má vontade do governo quanto aos Alojamentos Locais.

Vivemos em grande parte do Turismo e, já se vê, é preciso dar condições a quem nos procura. Como bem sabemos um euro é um euro e não podemos desperdiçar nenhum. Por isso o Alojamento o Local atrai um público, embora com menos recursos, ainda assim possuidor de um poder de compra bastante apreciável. Parece-nos pouco apelativo que, nos bairros ditos populares, multidões idosas, decrépitas, ocupem casas velhas, de mau aspeto, quase a desmoronar. Não se espera que, para tais clientes de” rendas antigas” venham os senhorios a esportular do seu pecúlio para melhorar os habitáculos. E tudo se degrada e a Cidade vai perdendo beleza. Com o incentivo dos Alojamentos Locais, muitos membros do CEGI, estarão dispostos a investir; a reparar as casas: fazer mais um andarzito; melhorar o orçamento camarário; em suma, trazer divisas para o país, apenas com a simples expulsão dos antigos moradores, caquéticos exemplares de uma humanidade já sem lugar nas sociedades modernas, melhor entregues a misericórdias e outras associações caritativas que possam armazenar esses gastos exemplares maculadores das nossas ruas tão típicas, tão cheias de artesanato e capazes de fazerem lucros enormes em locais onde agora só a pobreza impera.

 

Terceiro:

 

 Muito mais teria a dizer sobre esta coisa incrível de um qualquer governo ter o desplante de se imiscuir – exceção feita ao atrás citado – na questão da falta de habitação – com a criação de tetos máximos nos aumentos de rendas. Mas o que é isso? Então se posso expulsar quem habita uma casa que é muito minha e me paga uma renda mais baixa e lá colocar quem possa pagar-me mais, não é crime proibirem-me esse melhoramento? Querem tudo estagnado? Quem quer casa que a pague!

Mais, não me acusem de ser avaro ou ganancioso. Não sou eu que faço os preços. É o Mercado! Eu não posso ir contra tão poderosa força. É ele que me obriga, mesmo que eu não queira, a acompanhá-lo na sua transformação. Se o não fizer corro o risco de um dia as minhas casas não pagarem aquilo que o meu nível de vida obriga. E então lá vou eu, para a defenestração social, pelo engulho de me ver coartado por leis que não me deixam especular à vontade.

 

Isso é lá coisa que se aceite?

 

Finalmente:

 

Por isso e muito mais estou contra qualquer intervenção de governos na habitação, na educação, na saúde! Cada um tem o que merece e Deus lá sabe porquê. Quanto a mim, mais terreno, só repito o que já disse. Quem quiser habitação, educação e saúde que os pague!

 

E mais não digo e o governo que se acautele se pensa que a sua função é equilibrar ou regular o mercado. Para isso estamos cá nós porque somos a CEGI e só por isso o fazemos melhor.

~

(para os nossos interesses, que fique claro!

 

 

Carlos Alberto Correia

 

Publicado in Rostos On-Line

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publicado por Carlos Alberto Correia às 14:40