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A UBER AGRADECE

Sexta-feira, 21.09.18

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Tenho, no meu telemóvel, a APP da Uber e, no entanto, nunca a utilizei. Talvez por hábito prefiro esperar a passagem de um táxi e nele encaminhar-me para o destino pretendido. Quer isto dizer que sou um defensor da luta dos taxistas? Se assim o pensaram desenganem-se. Não lhes retirando o direito à indignação e à luta, considero porém que, desde início, utilizaram formas erradas de contestação as quais, por violência verbal e física, retiram senão legitimidade, pelo menos simpatia ao seu movimento.

 

Debrucemo-nos primeiro sobre o serviço de táxi. Durante muitos anos foi o meio alternativo de circulação, mais ou menos rápida, nas grandes urbes ou de deslocações para e de lugarejos onde o transporte público não chega ou é insuficiente. Aqui, irei pronunciar-me, sobretudo, sobre esse meio de transporte na Grande Lisboa. Ao longo dos anos encontrei um pouco de tudo. Desde, a minoria, gente simpática e capaz de ajudar qualquer pessoa em dificuldades, até, muitos, oportunistas que após testarem o conhecimento da urbe pelo passageiro, o levam do Rossio aos Restauradores com passagem pela Ajuda. Nos tempos de antanho, dizia-se, muitos puxavam pelo descontentamento do cidadão de molde a terem matéria de delação para a PIDE. Dir-me-ão, não seriam todos nem muitos, os tempos mudaram, já não é assim. Concedo facilmente, mas, coisas como estas, não deixam de vir carregadas como peso histórico, a que poderemos juntar a má vontade e falta de cortesia de alguns, quando lhes é solicitado um percurso pequeno ou que, por qualquer motivo, não lhes convenha. Ou ainda, lembro-me de tantas, se o passageiro não tem dinheiro trocado para o pagamento a receber pelo motorista, como se não fosse obrigação dele estar munido de meios para fazer trocos, ouvir um seco não tenho retorno e vê-lo ficar, de mau modo, à espera que o passageiro resolva, de qualquer forma, o problema que a ele competiria solucionar. Recordo-me, também, de um caso, entre muitos semelhantes, passado comigo. Por questões pessoais deslocava-me frequentemente à Margem Sul e só voltava a Lisboa, noite adiantada. Na estação Sul e Sueste apanhava um táxi para me conduzir a Sapadores, mais precisamente ao início da Av. General Roçadas, onde então residia. Como é evidente conhecia o percurso a palmo, bem como o custo da corrida. Ressalto que, entre centenas de viagens, isto apenas me aconteceu uma vez, embora tenha tomado conhecimento, por vários meios, de bastantes comportamentos semelhantes. Voltando à história. O procedimento anómalo do condutor, iniciou-se com a pergunta, deslocada àquela hora de trânsito morto, por onde quer ir? Interpelação teste para aquilatar do conhecimento do percurso pela presumível vítima. Tocadas as campainhas de alarme respondi, como se desconhecesse a rota, pelo caminho mais rápido. Começou logo ali o desvio. Não vou maçá-los com pormenores, apenas adiantando que, consciente do logro que estava a sofrer, entrando na Avenida de destino pelo lado contrário ao habitual, lhe disse, siga em frente até o mandar parar. Era a zona da minha residência. Conhecia-a bem e sabia que, a alguns metros do meu destino, ficava uma esquadra de polícia. Ali o mandei parar. Foi então que, reverberando-lhe o comportamento, o informei conhecer bem o preço da deslocação, por fazê-la inúmeras vezes, e o que o taxímetro marcava era quase o triplo do valor habitual. Dei-lhe duas opções: ou eu pagava o preço normal, ou saíamos ambos para a esquadra, mesmo em frente, para resolver o problema. Com o humor como devem adivinhar decidiu ficar-se pelo que seria devido pagar. Não é minha intenção, como é evidente, fazer de casos como tais, um juízo alargado sobre a classe. Apenas pretendo demonstrar que muita gente já se sentiu incomodada, ludibriada e ofendida por alguns taxistas e que, tais desagrados, resultam numa simpatia inicial pelo serviço das novas plataformas.

 

Chegamos assim à Uber. De quantos têm utilizado os seus serviços nenhum relato me foi feito de desagrado. Pedidos atendidos rapidamente, pessoal cortês, carros limpos, percurso marcado no GPS, transparência nos preços, possibilidades de avaliação do serviço. Eficácia e cortesia a toda a prova. O que me leva, então, apesar de quanto acima escrevi, a preferir, com todos os seus malefícios, o abrupto táxi à simpatia Uber?

 

Uma questão clássica da forma de trabalho. Em termos referenciais existe uma classe que dispões dos meios de produção – os patrões – e outra que não dispondo dela aliena o único bem possuído, o tempo de vida transformado em tempo de trabalho. Sobre esta situação, estudada por marxistas e liberais até ao tutano, mais não adianto. Apenas quero referir o facto novo de, no uberismo, termos estes modos clássicos invertidos. A Uber nada possui a não ser uma plataforma informática que gere pedidos e serviços. O trabalhador é, ao mesmo tempo, o seu patrão enquanto detentor do meio de produção (o carro é seu); a plataforma apenas lhe permite chegar a quem necessita dos seus serviços, pagando, por tal, o condutor-dono, uma percentagem pela informação. Por outro lado, a plataforma, permite-se a seleção de quem usará os seus serviços e, como patrão de outro modo, tem o poder de, através das classificações dadas pelos utentes aos condutores, mantê-los em linha ou, não posso dizer despedir porquanto não há uma relação clara de subordinação, afastá-los do acesso à informação necessária para a prestação de serviço. No final, um despedimento sem custos nem indemnizações, uma precariedade vitalícia. Um trabalhador subordinado, que é ao mesmo tempo o proprietário do meio de produção, paga à plataforma o preço por um serviço que ela não poderá prestar se não houver quem disponha de viatura, tempo, conhecimento e vontade para fazer lucrar a Uber. Não é bem neste mundo de relações de trabalho que me quero ver.

 

No entanto ele está aí, é imparável, veio para ficar. Faz parte deste admirável mundo novo onde, dentro de duas ou três dezenas de anos, a maior parte dos empregos conhecidos deixará de existir. Tal como na Revolução Industrial, se não forem tomadas medidas a tempo e adequadas, o custo dos empregos a surgirem na nova sociedade será pago pelo preço do sangue. Não é imperioso que tal suceda, mas, pelo andar da carruagem, pelo nada fazer de impeditivo, é para aí que caminhamos. Com isto quero apenas dizer que, gostemos ou não, teremos de adaptar-nos às relações de trabalho trazidas pelas modernas tecnologias. É aqui que está o enorme erro dos profissionais dos táxis. Na realidade a forma uber traz consigo o modo futuro das relações de trabalho. O pessoal dos táxis, em vez de perceber a situação e atualizar-se, melhorando e adaptando o serviço, decide parar o comboio com as mãos, pondo-se, galhardamente, a meio da linha onde será destroçado. Não me parece forma de resolver o problema.

 

Só conheço a lei sobre a legitimação destas plataformas pelas notícias dos meios de comunicação. Por isso, ignoro a bondade das soluções aportadas. O que sei, é que foram discutidas, aprovadas por quem de direito e têm data marcada para entrar em vigência. Fazer manifestações de táxis parados para evitar que uma lei promulgada deixe de produzir efeitos, num Estado de Direito, é, mais uma vez, não só um erro, como voltar a querer parar o comboio, a toda a velocidade, pondo-se apenas na sua frente. Nada disto leva a nada e só um trabalho eficaz, inteligente e adaptativo das organizações de patrões e empregados desta indústria, poderá, em tempo, formas e locais corretos, introduzir alterações no legislado, avançando para a desejável normalidade e fiscalização destes serviços.

 

Tal como estão a fazer, para obstar que a Lei produza os efeitos para que foi criada, é facilitar a vida do adversário. Por cada táxi parado um uber será chamado por quem necessitar de transporte. Continuem assim companheiros taxistas. A Uber agradece!

 

Publicado em “Rostos Online”

 

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publicado por Carlos Alberto Correia às 19:28


2 comentários

De Maria Elvira Carvalho a 23.09.2018 às 13:34

Gostei de ler.
Abraço e bom Domingo

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