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A folha de nenúfar

Terça-feira, 23.06.20

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Carl Sagan referia-se ao nosso planeta, visto do espaço, como “o pálido ponto azul”. Um astronauta, do qual não me recordo do nome, afirmou “do espaço não se veem fronteiras na Terra”.

 

Destas duas abalizadas afirmações quero partir para falar, não sei bem se de pandemias, ambiente, globalização, sociedades, civilizações, um nunca acabar de classificações redutíveis a uma única palavra: Humanidade. Pois é disto que se trata. Antes de avançar recordo um documentário, visto há muitos anos, seria pela minha longínqua adolescência, o qual me impressionou vivamente. Tratava-se de uma colónia de um qualquer inseto, semelhante a joaninhas, mas de cor verde esmeralda (algum biólogo os defina) a viver, em folha enorme de nenúfar, num lago. A ausência de predadores permitiu à colónia evoluir em número até ao momento em que o seu sucesso se transformou em tragédia. Pela quantidade, por se alimentarem dessa folha onde habitavam, a mesma perdeu a capacidade de suportar alimentação e peso, afundou-se no lago, levando com ela toda a próspera colónia que tão desequilibradamente nela progredira.

 

Se descobrem aqui alguma metáfora comparável à posição da Humanidade sobre a Terra, estão de parabéns. Acertaram completamente. Nascemos humildes mamíferos à disposição de predadores poderosos. Através da inteligência conseguimos prosperar, dominá-los, exterminá-los, domesticá-los, pô-los ao nosso serviço. Como mandava a Bíblia, povoámos a Terra, só não tivemos cuidado. Cientes de, como espécie, em todos mandarmos, tudo dominarmos, explorámos sem freios quanto estava em terra, no mar ou no ar. Crentes do nosso poder vamos esgotando o meio que nos sustenta. A consciência dos perigos advindos de tais comportamentos começa a ser visível. Muitas vozes bradaram no deserto, como habitualmente, sem serem ouvidas e quando o foram, minimizadas ou mesmo ridicularizadas. Ninguém se queria dar ao incómodo de parar, perceber o absurdo de crescimento continuado num mundo de recursos finitos, numa ânsia crescente de acumulação com vista ao domínio de poderes efémeros, pertencentes a indivíduos, prejudiciais ao conjunto. Assim vamos vivendo, ouvidos tapados, vozes incómodas amordaçadas, impantes do nosso saber, cegos às limitações.

 

Construímos coisas belas, é certo. Descobrimos saberes profundos, sem dúvida. Esquecemos porém sermos uma espécie entre muitas outras. Nunca quisemos pensar que seríamos, a continuar assim, uma praga para a Terra e o planeta, que já extinguiu noventa por cento das espécies alguma vez existentes, pouco se preocupará com a sorte que estamos a talhar para nós. No entanto, talvez por misericórdia, de vez em quando, manda-nos um aviso. Diz-nos ser o nosso saber fraco, sermos uma espécie, apesar de resistente, com fragilidades várias e não estamos isentos de nos acontecer algo semelhante aos insetos a viver na folha de nenúfar.

 

Isto conduz-nos – velozmente, com grandes hiatos narrativos – ao presente e à pandemia. Das teorias da conspiração até à estupidez de muitos governantes e gentes tentamos racionalizar e resistir a este ataque feroz a por em causa muitas das nossas formas de viver. Primeiro diz-nos que a contínua devastação de espaços naturais, de ocupação de habitats de espécie selvagens,  de utilização de recursos está errada, põe-nos em perigo, revela estarem as epidemias a aparecer cada vez mais próximas no tempo, cada vez mais alargadas no espaço. Sem querermos ser profetas da desgraça, nem sequer serem precisos grande dotes divinatórios, podemos perceber, se não mudarmos de procedimentos, outras epidemias maiores, com maior brevidade virão visitar-nos. Nem sempre seremos capazes de resistir em termos sanitários e económicos a todas. Nalguma poderemos ver a folha a afundar-se. Como alguém, com sensatez disse, isto é uma pandemia, não é um milagre.

                                                                                               

O milagre acontecido foi, durante o tempo de confinamento, o mundo recompor-se de algumas maldades feitas. As cidades desertas, os carros parados; os céus livres de aviões: O ambiente rapidamente agradeceu. Porém, se continuarmos a proceder como até aqui, com esta economia depredadora, muito brevemente voltaremos ao mesmo, ou estaremos pior. Sei ser muito problemático quebrar o ciclo de produção a reger-nos, que trouxe inúmeros benefícios em todos os campos, mas, como tudo, tem erros que é necessário emendar, limites que é imprescindível impor. Se nos mantivermos do mesmo modo nada de bom poderemos esperar. Se é difícil mudar? Certamente será, tudo tem os seus custos. Mas, somente ao correr das teclas, por exemplo, se deixássemos de fazer voos entre cidades do continente, utilizássemos comboios rápidos elétricos, guardássemos os aviões para voos intercontinentais ou para ilhas, quanto de poluição pouparíamos, quanto de qualidade de vida conseguiríamos, quantas pandemias evitaríamos.

 

Ah! Pois, os interesses! Aí reside a urgência de mudança, isto se quisermos, como espécie, sobreviver!

 

 

Publicado in “Rostos online”

 

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publicado por Carlos Alberto Correia às 01:22


1 comentário

De Maria Elvira Carvalho a 23.06.2020 às 08:24

Um excelente texto, uma reflexão que tenho feito muitas vezes.
A humanidade colocou-se a jeito quando trocou o ser pelo ter, e se tornou escravo da ambição.
Espero e desejo que esteja bem assim como toda a sua família.
Abraço (que virtual não faz mal e eu sempre gostei de abraços)

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