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Momentos para inventar o amor

Terça-feira, 14.04.20

 

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F - Grimelinda

 

Eis-me aqui, Valéria de meu nome, frente a vinte crianças irrequietas, lutando para lhes prender a atenção, transmitindo saberes que poucos deles pretendem ou percebem com alguma utilidade para o futuro. Preferem brincar, curtir o sol, rebolar-se na relva, ouvir os pássaros já que de ninhos pouco sabem. Nascidos em meio urbano trazem comportamentos díspares, conceitos e preconceitos da família, do bairro, da rua onde habitam. Terei eu de, rasoira que não me quero, aplanar todas estas excrescências e levá-los ao denominador comum que nunca serão. Cobertos com a fina demão da pretensa igualdade concedida pela escola partirão, todos os fins de tarde, para as famílias. Aí o conhecimento será traduzido para a realidade própria. Tenho bons e maus alunos mas sei que tudo isto é uma enorme mentira. Basta pegar na ficha individual, verificar as moradas, as profissões, habilitações dos pais e, com surpresas mínimas posso, banalíssima pitonisa, adivinhar quais deles entrarão nas universidades, quantos ficarão pelo caminho, ocupados em profissões menores. Se esta análise falhasse bastaria fazer uma rápida estatística sobre leituras e gostos musicais ou desportivos. Ficaria em relevo o desenho das proveniências sociais de cada um, bem como se tornaria brincadeira traçar-lhes o gráfico das possibilidades de percurso. Não acredito que isto, todos os dias a saltar-me aos olhos sem grande esforço, não seja percetível para os meus colegas, para os inspetores, para o ministério. Sinto-me assim, ao falar na igualdade de oportunidades proporcionada pelo ensino, cúmplice desta grande mentira sabendo, no entanto, que terei de lutar por ela porque, apesar da relativa ineficácia, a inexistência desta escola seria ainda pior. Sei que pouco posso modificar neste destino feito pelos homens, mas sei igualmente ser-me possível estimular uma parte, mesmo diminuta, lutar contra a inevitabilidade destes decretos nunca escritos, mas omnipresentes em cada ato docente, em cada programa escolar. Somos, muitos não o querem descobrir, reprodutores credenciados de desigualdades, convencidos de possuirmos o poder de alterar substancialmente os destinos de cada um. Penso, a ideia ecoa-me no cérebro como um eco ou um “dejà vu”, ser exercício inútil procurar a profundidade das coisas. Sinto-me Cassandra ao tentar comunicar estas reflexões à maioria dos meus colegas. Estou só ou pouco acompanhada, a pregar para quem não me quer ouvir. O manto negro da deceção cobre parte dos meus dias. Isto não faz grande bem à minha neurose.

 

Darei a palavra de honra que vou evitar encontrar-me com Valéria. Ver-nos-emos por vezes, em círculos de amigos e situações impossibilitadoras de qualquer conversa mais profunda, quer pela quantidade de gente, quer pelo alarido, as conversas trocadas e truncadas, os risos, os apartes, a confusão. Saberei, porém, ser o encontro inevitável. Eu, contrariando-me, evito-o, ela, julgo, procura-o. A ambiguidade da posição de Elísio estará a coibir-me qualquer avanço. Pergunto-me porque não me decido. Na realidade eles já não viverão juntos. Ele terá saído para outro local, certamente encontrará novas amizades, amores, espaçará gradualmente a presença entre nós e as memórias. Fará a sua vida. Por isso não compreenderei muito bem os meus escrúpulos. Se a vida fosse o jogo de xadrez que parece ser, seria agora a altura para executar o meu movimento. Saberei que o relógio está a contar, mas não conseguirei premir o botão, avançar qualquer das minhas peças. Ficarei parado pelos escrúpulos. Uma estranha lassidão cobrir-me-á a vontade. No fundo, para não ter a má consciência de precipitar uma solução definitiva espero que seja ela a, ultrapassando as regras, desligar o relógio, avançar para o próximo movimento. Estou dividido entre a lealdade aos meus princípios e o interesse por Valéria, pensado invisível apenas por mim. Todos os outros, Elísio incluído, consideram inevitável a sua consecução. Só a tentativa de retardar o que não poderá deixar de acontecer, terá levado Elísio a contar-me o sonho. Estarei perplexo, dividido, sem saber o que fazer.

 

- Chegaste a um impasse narrativo Kismet?

- Nem por sombras. Sei muito bem o que vai acontecer.

- As indecisões de Elísio e Cursino?

- São parte da teia. Elísio quer retardar o inevitável. Intui que quanto mais tarde se der o encontro de Valéria e Cursino, menos profundo será o golpe a sofrer. Percebeu a inevitabilidade. Esbraceja para que o mesmo seja o mais tarde possível.

- A demora será paliativo?

- Ele assim pensa…

- Mas não o será?

- Nem lá perto. Por mais que tente habituar-se à sensação de perda, nada poderá evitar-lhe o cumprimento do luto. A identidade atual é a que criou com Valéria. Não lhe será possível começar uma vida realmente nova sem que essa identidade seja refeita. Precisará da dor, do esforço por ultrapassá-la, para preencher a falha. Enquanto o não fizer, tudo quanto lhe aconteça será conspurcado pela ausência, por esse pântano onde tudo se afunda, desaparece.

 

- Poderias evitar-lhe, ou, pelo menos, amenizar a passagem. É demasiado cruel tal condenação. Que fez Elísio para merecer o castigo? É certo! Carrega a culpa da agressão a Valéria. Não é aceitável. No entanto, foi a tua vontade a levá-lo a isso. Bastava rasurar essa parte. A história poderia prosseguir para outro desfecho.

- Sem dúvida, Oblata, tal seria viável. Apenas essas histórias já não seriam a minha história. Seriam outras e de outros. Se tu, por exemplo, fosses a autora principal desta peça as personagens tomariam outros rumos, seria muito diferente o desenlace e com tanta validade como o meu. Só que estarias a construir outro universo, acontecimentos, relações e escatologias. Tudo é pensável, Oblata, logo possível. Nem sequer sei se, neste momento, em qualquer outro local, não estará a ser construída uma história paralela. No entanto, mesmo começadas iguais, as diferentes escolhas feitas nas bifurcações dos caminhos, nas opções tomadas, breve as tornariam dissemelhantes…

- Sabes se não será assim? Se neste momento não estarão a prosseguir narrativas diferentes pelos caminhos que desdenhaste?

- Muito provavelmente estarão. Mas que interessa isso? Não poderei ter a certeza e, de momento, só a que escrevo me importa.

- Tanto egoísmo, Kismet. Fazes-me lembrar aqueles que defendem que na conjugação de muitos egoísmos individuais poder-se-á atingir o altruísmo…

- Longe de mim tal presunção. Por muito que somemos parcelas de qualquer coisa elas somente aumentarão em substância, nunca produzirão o seu contrário.

- Se não te importas podes esclarecer-me como irá ser superado este momento?

- Sem dúvida, ora escuta:

 

Como por acaso, num dos encontros de grupo, Valéria pedir-me-á para ir à sua escola contar uma história infantil. Ficarei atrapalhado. Nunca escrevi nada semelhante. Será um universo muito distinto daquele que costumo retratar. Não saberei sequer como começar, o tema a abordar, a forma de desenvolvimento. Recusará a minha escusa. Argumentará ser um novo campo, uma experiência enriquecedora tanto para mim como para as crianças. Ver-me-ei, um pouco sem saber como, comprometido e de data marcada. Não terei muito tempo. As primeiras tentativas serão um enjoo. Não conseguirei acertar no tom, na linguagem, no tema. Escrevo, leio, apago. Assim não vou lá. Em desespero recorrerei ao Zé. Contador de histórias poderá valer-me nesta aflição. Vou ter com ele, de noite, a uma livraria cheia de gente que o ouve presa da surpresa das palavras, da entoação, da postura corporal. Provoca risos, angústias, expectativas. Toda a gente estará suspensa na espera do final da história, da volta surpreendente que a narração possa vir a tomar, da conclusão inesperada, da moral a reter. No final retirar-nos-emos para local mais recatado. O facto de ser uma história para crianças, dir-me-á, não te deverá levar a diminuir o rigor da palavra. Nem tentes adotar um tom de facilidade. As crianças não são imbecis e merecem o melhor que se possa fazer. Não facilites nem entres por lucubrações excessivamente abstratas. Trata do real e procura dar-lhe um pouco de sonho, de fantasia. Deixa que a imaginação deles construa o caminho do podia bem ser assim. Dá-lhe apenas as pistas. Nem demasiado literal nem tão afastado da realidade que possa parecer inverosímil o acontecimento. Para as crianças o imaginado é real. Não saias destes parâmetros. Ah! não te esqueças do final feliz. Ficarei confuso e esclarecido. Parecerá, no momento, não ter adiantado nada a nossa conversa. Deitar-me-ei um pouco desiludido. Acordarei no dia seguinte com um nome a retinir-me na consciência: Grimelinda, Grimelinda...

 

Vou contar-vos uma história de beleza triste. Havia, no céu, uma ave linda de cores e canto. Tinha todos os matizes possíveis e brilhava tanto que, quando o sol a olhava, de ciúmes saía de sua casa e começava o dia. Essa ave chamava-se Grimelinda, esvoaçava pelas estrelas do firmamento, confundindo os homens, muitas vezes, o deslizar da sua cauda com os brilhantes cometas. Estava encarregada de trazer a harmonia ao mundo. Sempre, após fazer levantar o dia, esvoaçava pelo planeta, saltando de ramo em ramo, indo de floresta a floresta, iluminando mesmo as cidades. Se, ainda escuro, o menino sofria no casebre e a mãe desesperada não conseguia alívio para os seus males, sussurrava-lhe baixinho, espera um pouco mais querido pela passagem da alvorada. Não te ausentes agora, ela certamente pôr-te-á muito melhor. A criança esperava o milagre. Quando soava o pipilar da ave, as dores desapareciam, as cores voltavam ao rosto, a rua tornava-se a tentação para novos jogos. Diz a lenda mais. Habitava a orla da floresta uma jovem tomada de amores por um príncipe, passando todos os dias a caminho da caça sem sequer olhar para a pobre remendona a segui-lo com o olhar e desejo. Grimelinda fez o milagre. Transformou-lhe os andrajos em ricas vestes, fez dos animais selvagens homens de corte, metamorfoseou folhas e gravetos em ouro e pedras preciosas e diligenciou que este cortejo travasse a cavalgada do Príncipe e dos seus seguidores. Ele que era audaz na guerra e certeiro no arco viu-a pela primeira vez. Apaixonou-se por ela, casaram e edificaram um castelo nas fímbrias da floresta preferida de Grimelinda. Outro reconto diz que um homem sábio, atacado de velhice, decidiu morrer. As pessoas entraram em choros e consternações. Quem agora daria os conselhos necessários ao bom rumo da cidade? Quem, com a sabedoria reconhecida, reconciliaria as famílias, os amantes desavindos? Com quem se poderia contar quando um inimigo decidisse atacar a cidade e faltasse a sua voz profunda convencendo o adversário ser o fim último da luta não lutar? Sentiam-se órfãos e perdidos. Grimelinda ouviu as imprecações e preces. Voou em rasto de luz, primeiro sobre a cidade absorvendo desgostos, deixando cair venturas, depois sobre o corpo do sábio exposto à infelicidade de todos. Os rastos da cauda espargiam pó de luz sobre o velho inanimado. Os círculos que fazia iam-se estreitando ao momento que diminuía o espaço entre eles. Finalmente, o corpo do homem coberto da poalha das cores de Grimelinda, pousada esta suavemente na testa dele, começou a voltar à vida. Grimelinda transportou aos céus os alívios da multidão reconfortada por mais um bem conseguido. Brilhou ainda mais e, por toda a terra se fez verão.

Alisava as penas, preparada para iniciar mais um dia na terra quando, numa aragem de felicidade, Deus passou por ela. Olhou-a embevecido reconhecendo-se na beleza da obra. Sorriu-lhe por meio de poeira dourada. Como suave mão a sua aragem acariciou-lhe a delicada cabeça. O coração de Grimelinda rejubilou. Tocada pelo amor de Deus esvoaçou em alegria superior, partiu para a terra veloz a espalhar a boa-nova. Fora tocada por Deus. Resplandecia. O sol compartilhou dessa alegria e deu cores mais brilhantes às coisas moventes ou paradas. A natureza agradeceu a benesse fazendo brotar verdes, amarelos, castanhos intensos. Mesmo as próprias pedras refulgiram. Tudo espelhava a felicidade de Grimelinda. Extasiada pousou num ramo perto do castelo do Príncipe. Este saía com os companheiros para a caça. Olhou para trás, despediu-se da menina, agora mulher e princesa, com um sorriso de amor. Também estava feliz. Quase a entrar no bosque olhou para árvore onde pousara Grimelinda. Ainda tocado pela ternura pensou, que lindas penas para oferecer à minha Princesa. Tirou a flecha do carcás, mediu o vento, calculou a distância, tendeu a corda do arco. Jamais falhara um alvo. Rápida como raio de sol a seta partiu de encontro ao coração de Grimelinda. Já no chão, a plumagem ganhando um novo vermelho a empapar-lhe as penas, os olhos agora baços fixados ainda no azulão do céu, conseguiu murmurar: Porquê a mim, Senhor?

Peço-vos que atendais ao facto de, apesar de milagrosa, não ser Grimelinda perita em semântica. Por pura ingenuidade não soube manter até ao fim a sua condição de escrava de deus e naquilo que pareceu, mas não poderá ser, uma espécie de revolta, antes perturbação e incredulidade, enganou-se na palavra que lhe cabia deixando transparecer sentimentos muito diferentes dos que lhe eram permitidos. O que ela teria de dizer e só isso justificaria todas as ações seria: Logo hoje, Senhor, que me beneficiaste com o teu sopro!

 

Verei Valéria a aproximar-se de olhos fuzilantes. Acutilante perguntará:

 que raio de coisa te passou pela cabeça para vires contar essa horrível história. Só descrença e infelicidade. Será a última vez que te convido para qualquer coisa…

 

Perplexo aceitarei o óbvio. Apesar de todos os esforços falhei. Não escreverei mais histórias infantis. Não saberei jamais semear a esperança. Desespero é o meu nome.

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publicado por Carlos Alberto Correia às 11:49

Momentos para inventar o amor

Sexta-feira, 10.04.20

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E - Por vezes o drama

 

- Faz deitar o Elísio, Oblata.

- Pensei que, com a colocação na nova escola, tivesse saído de cena.

- Pensaste bem. Essa foi a primeira ideia. No entanto, necessito dele para manter o espetador interessado, retardar o momento das decisões e dos atos cruciais que, ele sabe, deverão ser tomados, embora fique na expectativa de quando e como o serão. Um desfecho demasiado precoce, ou o prolongamento excessivo do mesmo levam ao desinteresse, ao fastio. Há que saber jogar com as emoções e esperanças.

- Por isso fazes reentrar Elísio?

- Precisamente.

- O que vais fazer com ele?

- Pô-lo a sonhar, ou melhor a ter um pesadelo.

- Isso para quê?

- Para que ele volte a contactar Cursino. Um pretexto para adensar o drama, criar ambiguidades nas relações, nos sentimentos. Empurrar, como não pode deixar de ser, as personagens para os seus destinos.

- Parece-me estares em contradição com o que defendeste sobre a vontade dos personagens, na alteração do curso dos acontecimentos.

- Nenhuma contradição. Como vês eu tinha decidido terminar o seu papel na intriga, mas aí está ele de novo, a exigir uma reentrada a dizer-me não te livras tão facilmente de mim. Sou eu a querê-lo de volta ou é ele que se impõe?

- Só tu, Kismet poderás responder a tal questão.

- Na verdade só sei que se aconselha o seu regresso ao drama. O resto fica para mais profundas interrogações, quando tivermos tempo e o propósito das personagens for cumprido.

- Que faço com Elísio, Kismet?

- Fá-lo apenas deitar. Cursino relatará o acontecido.

 

Elísio, transtornado, telefonar-me-á. Estarei com pouca paciência. A história, em escrita, não estará a correr-me bem. Precisará de um fim viável, que surpreenda o leitor. Tudo quanto virá a ocorrer-me será banal. Estarei irritadíssimo comigo e com o mundo. Tentarei esquivar-me ao continuado do telefonema. A voz de Elísio será intromissão, ambiguidade desagradável no rumo dos meus sentimentos. Quero decidir a minha relação com Valéria. Se Elísio continuar a intrometer-se não o vou conseguir fazer. Contar-me-á, de qualquer modo, o sonho.

 Estou numa praia com uma mulher que desconheço, mas pela qual sinto uma atração forte. A praia é suja, escurecida, batida pelo vento, quase deserta. A mulher, de rosto difuso, levanta-se e encaminha-se para um guarda, trajado ao jeito do século dezanove, de bastos bigodes negros, erguidos nas pontas e, sem qualquer rebuço, começa a seduzi-lo. Encosta-se a ele, procura-lhe os lábios, beija-o coleante. Quero impedir o ato, mas não consigo mexer-me. Sinto-me ofendido e revoltado por não poder fazer nada. A mulher começa a tirar as roupas ao guarda. Vai-o despindo com lentidão. O seu corpo parece ondular como as espigas sopradas pela viragem. Suo no esforço para me erguer. Com o guarda quase despido a mulher retira o sabre da bainha e corta a própria cabeça. Enquanto vai minguando, assemelhando-se aos crânios secos ostentados como troféus pelos jívaros, não deixa de falar numa linguagem incompreensível. Afrontado pelo horror consigo levantar-me, fujo por entre os paus sem panos das barracas, através do nevoeiro subitamente aparecido de terra. Sem perceber como, estou noutro tempo e lugar. Recebo um convite para me encontrar com uma estranha. Agrada-me o mistério. Decido comparecer. Ao chegar reconheço o local. A casa onde vivi com Valéria. Subo as escadas, ainda tenho as chaves. Na sala, na mesa de jantar, numa salva de prata, precisamente ao centro, está a cabeça. Antes de poder tomar qualquer atitude a cabeça principia a elevar-se, mantida sobre um corpo evanescente. Do rosto sem feições definíveis nascem as resplandecentes formas de Valéria. Fala comigo. Diz-me que a única maneira de continuarmos juntos será se eu cortar também a cabeça. Apesar da crueldade do convite o ambiente começa a ser de estranha e envolvente doçura. Sou levado a concordar com ela. Ofereço-lhe o pescoço. Ela, com o sabre, sem esforço ou sangue, separa-me a cabeça do corpo. Sei que vou morrer, mas não me importo. Sinto o crânio a secar, a tornar-se cada vez menor. O corpo de Valéria tremula ao desfazer-se e a cabeça, de novo diminuta, gargalha junto à minha. Antes de tudo se fazer escuro ainda a oiço dizer, está paga a bofetada.

Elísio perguntar-me-á, impressionado pelo sonho, que conclusão tiras disto? Apesar de me parecer evidente dir-lhe-ei não ter nenhuma. É apenas um sonho, um pesadelo. Bebeste ou comeste demais nessa noite?

 - O normal. Parece-me ser o meu inconsciente a dizer-me nada mais ser possível com Valéria.

 - Pensava já teres tomado essa decisão.

- Também eu, terminará.

 

 - Que sonho mais macabro, Kismet. Não percebo porque terás de introduzi-lo na narrativa. Podias muito simplesmente teres finalizado a relação de Valéria e Elísio sem mais acrescentos. Acabou o amor, ou a paixão e pronto. Porquê enxertar algo tão exterior à história?

- Para acentuar o dramatismo que, sem nos apercebermos, se intromete no quotidiano. A catarse só pode acontecer se os sentimentos chagarem ao paroxismo. É por isso que Cursino divagará, ao longo da tragédia dos dias sem surpresas, na construção do insólito. O sonho enriquece a vida. Tu bem sabes. Deixa o Cursino fazê-lo fluir no leve do sonho, no peso do nada acontecer ou de tudo parecer marcado pela cinza em que se extinguem as paixões.

- Fá-lo então prosseguir…                             

 

Chegou meio esbaforido. Olhou em redor. O café estava a abarro­tar. Nem uma mesa vaga. Fungou duas vezes e atirou na minha direção a flecha do olhar. Avançou decidido para esta mesa onde em calma despedaçava a tarde. Sentou-se e disparou:

 

- Por vezes o drama insinuava-se na nossa vida...

 

Alargou-se todo num sorriso cretino a ocupar-lhe a boca mais dez anos de recordações.

 

...pois era... e se eu fazia esforços para a compreender. E ela? Divertia-se inventando tudo para me fazer sair de mim. Conduzia toda a minha vida em ciclo. Um drama, muitas promessas, reconci­liação; novo drama, mais promessas, outra reconciliação...

 

Olhei para ele com aqueles olhos de acabar conversas que tu tantas vezes dizes denotar em mim. O gajo nem deve ter percebido que eu tinha olhos. Ou boca. Escolhera-me como ouvinte. Nem pela cabeça lhe passaria a possibilidade da minha recusa a semelhante papel.

 

... de tal forma que muitas vezes, esperando o passar da noite, pensava poder agarrar na nossa vida e fazer dela uma história capaz de ultrapassar esses romeus e julietas que por  aí se  contam. Não se ponha a pensar que entre nós não havia amor. Bem... pelo menos pela minha parte havia e muito. Da parte dela parecia-me haver correspondência. Agora ter a certeza... vá lá a gente saber. Como adivinhar o que se esconde no mais íntimo de alguém? Ou mesmo se os atos correspondem à sua aparência. Não lhe parece que estamos sempre encurralados? Acreditamos e corre-se o risco de sermos enganados. Não cremos, logo a solidão nos toma de emboscada. Como eu detesto a solidão! Seria capaz de fazer qualquer coisa para não estar um só momento solitário na vida...

 

Desesperado, mando o olhar à procura de outra mesa no café. Nem esperanças. Chamei o empregado para pagar a despesa e zarpar. Mirou-me, com os olhos a abarrotar de ruído e fumo, no desprezo de quem tem ainda pela frente três longas horas de trabalho duro, não percebe a pressa de alguém que só tem que estar com o rabo repimpado na cadeira e, olimpicamente, ignorou-me. Fiquei, assim, completamente à mercê da história daquele manjerico.

 

... você acha que tenho ou não razão para detestar a solidão?...

 

Pronto! Deste-me a deixa, vou despachar-te em grande velocidade!

 

... livre-se dessa peste, amigo. Livre-se dela. Onde é que eu ia? Ah! O acaso... o acaso a fazer-me sentar  nesta mesa consigo, que não conheço de nenhum lado, fez-me  encontrar Terília. O acaso é assim. O café cheio. O amigo sozinho, vê-se mesmo cheio de vontade de conversar e eu, sem nunca o ter visto antes, a descobrir-lhe a minha vida. Sabe que mais? O acaso é o destino. Não sou fatalista nem supersticioso, mas lá que Terília entrou na minha vida por acaso...

 

Se eu por acaso espetasse uma lambada no trombil deste chato o que é que dirias? Teria sido bruto? Incivilizado? Ou apenas percebido a paciência como material que se esgota com celeridade? Põe-te no meu lugar. Agirias doutro modo? Ao menos um berro no ouvido...?

 

...Recordo-me perfeitamente. Numa festa em casa de amigos. Ricos, pois claro! Ricos até criar bicho. Só o salão dava para duas famílias habitarem. Com piscina e tudo... pensa que estou a exagerar? Qual seria o gozo de lhe mentir. Não o conheço. Provavelmente nunca mais o verei...

 

Ainda bem, pensei, tentando fazer-me ouvir. Tu bem me disseras que o meu horóscopo me era desfavorável esta semana. Desculpa-me o riso de incredulidade. A tua revista tinha razão. Este gajo não me larga e o empregado já passou por aqui mais de vinte vezes e continua a não atender aos meus chamamentos. Nem sequer vaga uma mesa para zarpar daqui.

 

... uma bela festa, digo-lhe eu. Terília estava lá. Linda de se ficar sem fala. A sala brilhava de iluminada. Ela era ainda mais brilhante do que a sala. Trazia um vestido azul claro... não... creme... bem, trazia um vestido que lhe caía lindamente... disso tenho  a certeza. O amigo já me está a imaginar, como nos filmes, a avançar para ela, os outros a afastarem-se para me dar lugar, pegar-lhe pela cintura e caminhar, ao som da valsa  final, para um recanto do jardim. Imaginação sua. Imaginação... Ela nem deve ter  chegado a reparar em mim. Rodeavam-na admiradores e amigos.  Tantos que nem me consegui aproximar. Também não sou exigente. Bastou-me contemplá-la de longe. Sou muito tímido...

 

Tímido.  Tímido o marmanjo. Olha-me bem para este. Dá vontade de rir. O tipo vem de onde não se sabe, senta-se na minha mesa. Nem sequer pede licença e sem me ter visto algum dia mais gordo, desata a contar-me a história da vida dele e diz-me que é tímido.

 

... de qualquer maneira um homem não é de pau. Nessa noite ador­meci com uma telha dos diabos. Bem gostaria de ser um  esses bonitões que nem precisam de assobiar e já elas estão a cair-lhes nos braços. Cá comigo nunca é assim. Desunho-me todo para me fazer notado por uma fulana e se consigo despertar-lhe a atenção é certo e sabido... ou é coxa ou anda no psiquiatra. Tenho cá um destes azares!

 

E eu, o que é que eu tenho? Se calhar isto é sorte. O meu pai, como tu sabes, era um preconceituoso de merda, barrava-me todos os dias os ouvidos com as etiquetas sociais. Nunca me deixaria assentar arraiais na mesa de qualquer fabiano sem lhe pedir licença e sem que lá me demorasse o mínimo tempo possível. Começo a dar razão ao velho.

 

... fiquei por isso muito admirado quando, em dia tempestuoso, a fui encontrar, numa reunião clandestina, na mesa, a dirigir os trabalhos, e CÉUS, ela reconheceu-me! Não fez mais que uma piscadela de olhos e a sombra de um sorriso, mas, meu Deus, eu estremeci todo por dentro.  Ora veja, ela não só me reconhecia como me distinguia com um sinal especial. Distinguia-me, a MIM, percebe?

 

Então não percebo. A tua sorte foi ela só te conhecer de vista. Soubesse ela a chaga que és punha-te a milhas em dois segundos.

 

Não sei se o amigo se lembra como eram as coisas naquela época. Refiro-me à situação política. Como é evidente, os problemas nas relações homem/mulher era coisa que ela tinha há muito ultrapassado. Frequentara a Universidade, viajara muito. Além de ser um cérebro conhecia, de viver, uma data de países. Convivera com  muita gente importante. Era raro falar de um nome, mesmo de estrangeiros, com quem ela não tivesse convivido...

 

Bem, pensei eu, um chato e uma mentirosa com pretensões. Deviam fazer um lindo par. Ainda por cima este fulano parece convencido de ter feito sozinho a resistência ao fascismo. A propósito, se tu aqui estivesses irias franzir o nariz e com o teu ar solene e pedagógico começarias a dissertar sobre a importância de delimitar as fronteiras entre os regimes políticos. Dir-me-ias salientar-se o Estado Novo pela vertente corporativista, pondo a tónica sobre a conjugação de interesses das classes, o que, em análise, se diferenciava bastante das doutrinas dos "fascios" e nacionais-socialistas, os quais, em intensidade e extensão dos efeitos, ultrapassavam de longe a, mesmo aí, medíocre perspetiva do totalitarismo nacional. Claro que terias de contar com a minha oposição. A vida não é um exercício académico. Para os que perderam a vida, de forma literal ou em oportunidades, por divergirem do pensamento dominante, essas subtilezas não farão, no mínimo, grande sentido.

 

O amigo, com certeza, está a pensar que eu exagero. Pois está enganado. Quando depois da queda da ditadura o país foi invadido por uma quantidade de gente de quem nós ouvíamos apenas falar, eu tirei a prova da verdade dos seus conhecimentos. Olhe, em nossa casa esteve mesmo hospedado o Jean-Livoir. Não acredita? Pois posso provar-lho. Só precisa de ir até lá. Além das fotografias havia de ver todos os seus livros autografados com dedicatória.

 

Pois sim, interessa-me mesmo quem é que dormiu ou não em tua casa. A única coisa que verdadeiramente me interessaria era que fosses para lá agora. Ou fosses pentear macacos.

 

 Foi por causa de um romance do Jean-Livoir que as coisas entre nós aconteceram. Lembro-me ainda bem. Era inverno, tinha acabado de chover. Estava na porta do café pensando se entraria ou aproveitava o escampado do tempo e dava uma corrida até ao emprego. Foi quando ela chegou. Ao ver-me disse:

 

"Então a ler um livro do Jean..."

 

  ...falou dele com um conhecimento de matéria e pessoa que me deixou deslumbrado. _

 

Deslumbrado é que tu me pareces de todo e desde início. Deslumbra-te a mulher, deslumbra-te a sua escolha política, deslumbram-te os seus conhecidos,  deslumbra-te o seu saber. -Ó, meu filho, a continuares assim, não vais longe.

 

"No entanto - prosseguia ela - não é na literatura que poderá encontrar o verdadeiro Livoir. Esse só mesmo na matéria de reflexão. Pensador como esse não encontra outro. Foi capaz de ir aos clássicos, olhe que me não refiro aos gregos, mas àqueles de quem se não pode falar - sem perigo de ouvidos indiscretos se interessarem logo em demasia -  e transpor para o absurdo do estar vivos os seus ensinamentos. Para viver, diz ele, é preciso meter as mãos na merda até aos cotovelos. E sem culpas, que isso é matéria para titis de catedral."

 

Culpa tenho eu em não correr contigo daqui. A tua história não me interessa nem um bocadinho. Além do mais, nada tem de original. Até agora eu poderia contar coisas muito parecidas com essa. Bastaria mudar os nomes porque as situações, em si, parecem ser bastante reduzidas. Tenho a sensação de que alguém com pouca imaginação, ou com pouco tempo para perder com a obra, ordenou a vida de molde a que o deve-haver não se dispersasse demasiado,  tornasse  fácil o ajuste final de contas. Ademais, apesar de plausível, a história cheira-me a forjada. Basta pensar no nome da mulher. Terília... isto é lá nome de gente...

 

Eu ouvia-a e ela tomava a minha voz para dizer coisas, há muito pensadas, que não conseguia transmitir. Aliás, sempre assim aconteceu durante toda a nossa relação. Mas, nesse dia, quando nos sentámos no café, por nada deste mundo a interromperia. Penso ter feito mal! Essa passividade marcou desde logo o ritmo das nossas andanças. Se lhe disser que desde aí foi sempre ela a tomar iniciativas não lhe minto nem um bocadinho. Tinha a esquisita sensação, quando lhe propunha alguma coisa, de ser transparente.

 

Ora aí está um campo onde te percebo. Mas aqui sou eu o transparente. Ou aprendeste bem a lição ou temos uma relação onde aproveitas o não me conheceres para inverteres a polaridade. Se eu fosse mal-intencionado pensaria, como nada esperas de mim podes dar azo a tudo o que te apetece  despejar. Se com ela não o fazias, é porque esperavas  qualquer  benefício. Vês, meu menino, como o interesse gera dependência? Querias apoderar-te dos seus estatutos sem pagar o preço? Começo a perceber-te meu  pequeno. E, francamente, o que percebo agrada-me.

 

Imagine! Uma noite aparece-me toda vestida de negro, botas e calças justas, camisola de gola alta, um casacão por cima de tudo isto e sem mais aquelas diz-me: - Despacha-te! Hoje vamos fazer umas colagens de cartazes...Colagem de cartazes?! A mulher é doida, pensei. Decidi logo  pôr as coisas claras. Aquilo era já passar das marcas. Então estava a pôr-me a liberdade em perigo e nem sequer me perguntava se estava de acordo? Francamente, isto era ser mais fascista que os ditos. Enchi-me portanto de coragem e disse-lhe:

 

Está bem, onde é que vamos?

 

Grande gargalhada soltei nessa altura. Não fazes ideia do prazer que senti. Mas o gajo também tinha uma certa coragem, tive de admitir. Como deves ter percebido, a esse tempo já tinha desistido de tentar correr com ele ou sequer meter-me na conversa. Creio bem que o que ele precisava era da aparência  de um auditor. No fundo falava apenas para si...

 

Ainda hoje não consigo recordar-me bem de tudo quanto aconteceu nessa noite. Inicialmente dirigimo-nos a casa de um amigo do qual, por hábito antigo, não direi o nome. Mesmo se lho dissesse você não ia acreditar. Sim, é bem conhecido. Só que virou. Virou mesmo e deixou de morar em Campolide. Onde mora agora? Isso não lhe digo. Dou-lhe uma pista. Se correr os três sítios mais caros de Lisboa vai com certeza encontrá-lo num deles. E chega..

 

Olha-me só para isto. Dialoga comigo como se eu fosse ele. Ou, ao contrário, dialoga consigo como se ele fosse eu. Diz-me o que lhe passa pela cabeça como se lho perguntasse. Amigo, de si, não me apetece indagar nada. Por outra, apetecer-me-ia sim, interrogá-lo: quando vai desamparar-me a loja e me deixa ler o jornal em paz?

 

Na casa desse tal amigo, que você está cheio de curiosidade  de saber quem é, entregaram-nos uma braçada de cartazes, um balde de cola com pincéis,  pediram-nos para decorarmos o número de telefone onde, para o que desse e viesse, estavam de prevenção um advogado e um médico da cor. Palavra!  Arrepiei-me quando nos falaram nisto. Se até ali estivera pouco à vontade, mas ainda um pouco descrente de estar a meter naquela alhada, o número de telefone foi como um murro no peito. Você sabe, uma coisa é a gente ter cá dentro aquela indignação sufocada que nos faz chamar uns nomes à governança e outra, bem diferente, é começar a fazer coisas que os chateiem à grande. Olhe que isto de andar de noite a colar cartazes contra o governo tem que se lhe diga.

 

Ai não que não tem. Bem o sei porque me calhou em sorte...  

 

Em sorte, hein?? Puta de língua esta que até ao azar chama sorte e sem ser por ironia. Está aqui este tipo retroativamente cagado por uma coisinha de nada. Se eu fosse de contar as encrencas nas quais me meti, o gajo ficava verde. Bem, a verdade é que tu também de pouco sabes. São coisas que se fizeram. Na realidade já não contam. Deixam de contar logo que feitas produzam efeitos. Por isso  lixam-me os politicozecos de agarrar tachos, sempre de passado hasteado. O passado só conta para mandar abaixo.  Quando se faz qualquer coisa só o presente  interessa. De nada vale o que fiz se o que estou a fazer não presta.  Olha que este pensamento não é meu.  Também não o apanhei a flutuar no ar. Foi no decorrer de uma conversa com o Floral. Eu gostei e utilizo. Sim, também me sirvo, de vez em quando, de pensamentos de outros . Sem citar a  fonte, pois claro. Eu sei lá quando é que um pensamento entra no domínio público. Assim, utilizo-os quando me convém. Ponto final.

 

A noite estava preta de negra. De início tudo correu bem. A certa altura a Terília deu em armar em parva. Primeiro começou aos gritos: "abaixo o fascismo", "viva o comunismo", "proletários de todo o mundo, uni-vos". Nunca mais se calava apesar de toda a gente do grupo tentar silenciá-la. Depois, foi colar um cartaz num enorme Mercedes preto estacionado na rua. Estava ela a meio da manobra quando o condutor apareceu e começou  aos berros: - Comunista de merda, andas a cagar-me a viatura e eu é que me lixo a limpá-la. Se calhar pensas que é o meu patrão que vai estoirar o canastro a tirar a porcaria da cola de cima do carro?

 

A  malta das tascas ao ouvir estes gritos saiu toda e desatou a perseguir-nos. Corríamos a bom correr. Terília continuava a gritar, "Uni-vos proletários" enquanto, entre duas golfadas de ar, me dizia: - São todos da PIDE, disfarçam-se para se misturarem com o povo...

 

Pois  é!  Além do medo aprendeste alguma coisa de útil sobre o folclore revolucionário. Também eu aprendi com muitas dessas. Na altura usávamos uma palavra que hoje me soa esquisita para classificar os companheiros de luta. Dizia-se aquele tipo é um gajo válido. Válido, estranho, não é?  É como se nós, apregoadores da igualdade, estivéssemos de imediato a classificar as gentes em dois grupos. Os bons e os maus. Depois, com razão, em tudo quanto era sítio, revoltávamo-nos contra os "fachos"  por dividirem o pessoal entre os bons e os maus...portugueses.

 

Porra, disse-lhe, quando conseguimos parar. Fazer trabalho político é uma coisa. Provocar sarilhos é outra. Riu-se, iluminou a noite, passou o braço esquerdo sobre o  meu  ombro esticando-se um  bocadinho e de mamas encostadas às minhas costas, olhou-me um pouco admirada:

 

 - Também sabes discordar? Já ganhei a noite.

 

Não disse mais nada e nada me deixou dizer. Calou-me a boca torcendo-me o pescoço e pondo-me na boca um beijo tamanho da noite, bem maior do que o susto.

 

Pronto, pensei eu, cá está mais um com a teoria de que elas querem é um durão contrariador. Lembras-te como eu os classificava?  Eram os da porrada erótica.  Primeiro murro nos cornos, depois reconciliação na cama. Tu, como sempre avessa à crueza da linguagem, ias pondo açúcares nas expressões,  emendavas suavemente para "relação conflitual". Sempre achei graça a essa tua maneira de encarares a realidade. Dava-me a impressão que, ao mudares o registo da linguagem, pensavas alterar a dureza do real. Sim, que este mundo é bem filho de puta.

 

Dormi nessa noite com ela e continuei pelas noites seguintes. A casa onde morava não era muito grande. Um estudiozinho com um quarto, sala e cozinha comuns. Não lhe vou contar o que se passou porque detesto esses relatos minuciosos sobre as intimidades de cada um. São coisas para se guardarem, não para se exporem à curiosidade coletiva. Não, não queira insistir nesse ponto. Não lhe vou contar nada. Apenas lhe digo ter sido uma experiência única. ÚNICA, ouviu? Por muito que você esforce a imaginação nunca se aproximará da verdade. Nem mesmo eu que a vivi. Quando hoje rememoro apenas consigo ter uma representação por demais pálida do acontecido.

 

Se  eu pudesse interromper-lhe a incontinência verbal ter-lhe-ia dito que de nada me interessava a sua experiência emocional, ou erótica, ou pornográfica, fosse lá ela o que tivesse sido. Já me bastam as minhas e nem de todas me orgulho. Além do mais não considero o sexo nem como função meramente reprodutora, nem sequer como experiência religiosa ou mística. O sexo é o sexo! Como a palavra, permite estabelecer a comunicação ou a confusão. É tudo uma questão de interlocutores. Do que eles  têm para dar um ao outro. Enfim, sou pela teoria da troca.

 

Como lhe disse comecei a viver no seu apartamento. Digo bem, no seu apartamento. Não pense ser isto figura de estilo. Provavelmente esperaria que dissesse ter ficado a viver com ela. Isso também eu queria! Mas quem pode agarrar o vento? Logo nessa manhã, ao acordar, encontrei o seu lugar vazio. Procurei-a na casa de banho. Só a humidade quente dos restos de um  duche diziam da sua passagem por ali. Voltei ao quarto, sentei-me na cama. Fiz  a primeira grande e profunda meditação sobre que tipo de relacionamento seria o nosso ou se, eventualmente, haveria relacionamento ou só uma passagem episódica. Devo confessar-lhe, não sendo exatamente o modelo ideal de um bom pai de família, tão pouco tenho ganas de desenfreado libertino. À escaldante sensação da paixão, não a desconsiderando de quando em vez e com brevidade, prefiro a tepidez de uma relação segura.

 

Pois, segura. Não querias mais nada. Andas a rolar pelos espaços a uma velocidade tremenda, num grão de poeira que a qualquer momento pode chocar com outro e queres segurança! Não te apercebeste, meu parvo, sermos bolas de bilhar em mesa cósmica, nunca sabendo onde a tacada conduzirá a bola onde nos alojámos? Querias então uma relação segura. Queres dizer, estável, parada, imutável, em que o tempo deixou de existir, eterna! Meu parolo, quase me fazes ter compaixão de ti. Definitivamente és um ingénuo. Ainda não percebeste a trama onde te moves.

 

Esperei-a até à uma da tarde. Nessa altura, acossado pela fome, desesperança e raiva, fui-me embora. Tive um sarilho dos diabos no emprego para explicar o atraso, o que contribuiu para o mau humor que levava quando, sem me querer confessar, fui ao  café pensando poder encontrá-la. Com medo dela aparecer e eu não estar lá, nem jantei. Esperei, esperei…  Não apareceu. Já muito tarde passei-lhe pela rua. Não havia luz nas janelas. Tive receio de que se tocasse à porta reagisse mal, me tomasse por parvo. Sabe, na altura defendia-se muito, embora eu creia ser mais teoria que real, a relação  descomprometida. O amigo, que é da minha idade sabe bem como era. Um encontro casual, uma noite bem passada, nenhuma saudade ou remorsos e, cada um para o seu cantinho. Já vê, se ela estava numa dessas e eu lhe aparecia feito dinossauro romântico, que triste figura faria.

 

O sacana não deixa de ter razão. Também me aconteceram algumas assim. Mas era a moda. Era preciso ter aquele ar de não me ralo, de viver o presente, de vestir de negro o corpo e o futuro. Havia mesmo quem acusasse o Jean-Livoir de levar ao  suicídio por desesperança muitos adolescentes. Lá que  havia suicídios em barda, não há dúvida, mas se olhar para o presente não vejo grandes melhoras...

 

Só passados três dias a voltei a encontrar. Zangadíssima comigo. "Que não aparecia, onde é que me metera, o que  pensava dela, julgava que era mulher de se entregar sem mais aquelas, etc. etc. etc." e eu tão parvo que nem me lembrei de dizer-lhe que me podia ter telefonado para o emprego, que a esperei, que percorri a sua rua na esperança de vê-la,  que fora ela a deixar-me sozinho,  sem um pequeno recado a dizer: -

 

“Amo-te. Volto já.”

 

 ...também, para ser sincero, não vejo as coisas piorarem. Mudam, isso sim. Nós, é que nos vamos esquecendo de como elas eram e as vamos pintando de novo. Como as que agora se passam nos correm sempre ao lado, parecem-nos então menos interessantes do que as vividas. Ilusões! Formas de  reagirmos  contra o tempo e a vida que tão bem  passa sem a nossa indispensável presença. E os outros, quem nos ama?  Esses, por muito sinceros que sejam, apesar da falta que lhe façamos, seguem a lei da vida. Estamos, contam connosco, vamo-nos, duas lágrimas de dor, o tempo cicatriza a ferida e ala que se faz tarde, continuemos a passar a vida esquecendo quem partiu.  Que se  há de fazer? É assim mesmo! Poderia ser melhor se fosse de outro modo?

 

Fui de novo com ela, está mesmo a ver. Se calhar o amigo já está a pensar pois claro, porque é que este tipo, que é um palerma inveterado, havia de não ir? Se ele até bebe o ar por ela, que remédio tem senão o de aceitar o jogo. Pois está enganado. Só me deixei vencer ao fim de uma longa discussão. Disse-lhe tudo o que pensava do comportamento dela, das indecisões em que me fizera cair, da pouca importância que me parecera ter na sua vida.  Ela, senhor, ouviu-me sempre em silêncio, com um ar muito sério e no fim, larga uma gargalhada de fazer parar todo o café, agarrou-me na mão:

 

 -"Anda criança. Vou ver se te faço crescer."

 

Arrastou-me de novo para casa e fiquei lá definitivamente.  Quer dizer, fiquei até ao dia...

 

 Claro, em que ela correu contigo. Fartou-se das tuas imbecilidades, das inseguranças contínuas e pôs-te a milhas. Tinha com certeza coisas mais interessantes a ocupar-lhe o tempo. Tu sabes que uma relação entre dois adultos não é nada fácil. Duas personalidades a evoluírem em direções próprias, com a sua pessoalíssima visão do mundo, a ocuparem o mesmo espaço, fazerem coincidir, dia após dia, continuadamente, as suas vontades. É obra! Não é para qualquer um. Quantas noites passámos nós discutindo por coisas que ao alvorecer pareciam sem importância, mas se as deixássemos cavalgar a noite seriam, por essa mesma manhã, um tremendo obstáculo ou um perigosíssimo recalcamento.

 

...em que ela, sem mais aquelas, chegou-se a mim deu-me um beijo demorado nos lábios e disse-me, pela primeira vez:

 

" - Amo-te desesperadamente. Tanto que te vou deixar. Não quero perder as nossas vidas numa relação cujo futuro é o embranquecimento das cinzas. Vou amanhã para Paris com o Cirondo."

 

 E foi.

 

 Sobre a estupefação que me invadiu nem lhe falo. Depois, tudo aquilo me parecia inverosímil. Dizer que me amava para, logo em seguida, me comunicar o abandono, era coisa fora da minha lógica. A seguir invadiu-me uma revolta e uma angústia que misturadas se anulavam, apenas permitindo manter-me num aparvalhamento total. Engoli as palavras várias vezes antes de conseguir dizer-lhe:- ai vais? Então boa viagem.  Desandei escadas abaixo para que ela não me visse chorar.

Até agora nunca mais deu notícias. Nada soube dela durante anos. De repente, como se nenhum tempo houvesse passado, como se não me tivesse trocado por outro quando nada faria esperar tal coisa, sem mais aquelas, mandou-me um telegrama, seco, imperativo, comunicando-me, chego hoje de tarde no avião de Paris. Que a fosse esperar.

Por esta razão, porque me encontro numa tremenda dúvida sentei-me na sua mesa e contei-lhe a minha  história. Dê-me um conselho. Devo ir ao aeroporto ou devo ignorar a sua mensagem, riscar o seu nome da minha vida?

 

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Os passos soavam nervosos, nítidos, batidos no mármore do chão do café deserto. Dirigiram-se para o local onde isolado, um homem rabiscava sobre a toalha linhas que se cortavam, seguiam paralelas durante um breve espaço, de seguida se afastavam definitivamente no entrecruzado da trama tecida. Lá chegados dispararam de cima de si um extenso rol de razões:

 

- sempre a mesma coisa a escrava que se amole que ande todo o dia numa fona vê lá se te interessa saber que o Deco tem que pôr o aparelho nos dentes que a Italina está com problemas na escola e já fomos chamados ao diretor de turma ainda está por pagar a conta da eletricidade ninguém se lembrou de ir ao supermercado a escrava que vá que ande numa roda-viva dê de comer a horas certas e não se esqueça de nada porque senão ainda lhe caem todos em cima a criticar ai senhor que mal fiz eu para sofrer tudo isto grande pecadora devo ser para merecer tanta raiva dos céus que Deus me perdoe mas este homem dá comigo em doida todo o santo dia metido neste antro sem fazer nada só com os olhos a olhar para ontem e a riscar a toalha da mesa se eu fosse o dono do café punha-te mas era na rua podia ser que assim me ajudasses e ele não perdia nada porque fregueses de gosma como tu são de querer longe da porta quem me mandou ser parva e casar contigo um inútil um sem serventia para nada enquanto as outras anda de cu tremido nos seus automóveis eu aguento que nem uma burra com o trabalho da casa as compras os filhos e esta porcaria de homem que não tem ponta por onde se lhe pegue

 

 

Olhei para a minha mulher, para o seu ar furioso e desanimado, especada na minha frente. Com um amor cuidadoso e lento dobrei o meu drama e recolhi-o dentro de mim. Amanhã, se o tempo o permitir, estarei aqui de novo para, inventando a vida, me afastar desta coisa diária e insidiosa que me corrói.

Até amanhã sonho. Até amanhã vida...

 

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publicado por Carlos Alberto Correia às 11:43

Momentos para inventar o amor

Terça-feira, 07.04.20

 

 

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D - Lágrimas

 

 

Por essa altura terei catorze, não, quinze anos, e ele o cabelo crespo. A pele muito morena, quase para o negro, a mãe desolada, na soleira da porta, encomendar-lhe-á que vá pelo dinheiro ao irmão mais velho. Já não há pão para a noite. Há muito terá perdido o viço. Gastou-o com homens de curta duração. Receberá, em troca, algo sempre demais para eles, nunca o suficiente para ela. Dois filhos com dezoito anos de diferença. O primeiro, o do casamento, ficará com o pai. Fará a sua vida. O segundo, de cabelos mais que tristes, a quem, sabe-se lá porquê, chamarão o Ruivo, fruto de azares, esconderá a humilhação, ao contar-se filho de um príncipe negro de passagem por Lisboa, enquanto a mãe meteria empenhos para o encaixar na Casa Pia e recomendava: não te esqueças de pedir dinheiro ao teu irmão. Serei seu companheiro nesta breve jornada. Com ele aprenderei a dependurar-me nos elétricos, a viajar sem pagar. Emprestar-me-á os jornais sobrantes da venda. Para todos os efeitos é no cais que morará, ainda que possa dormir noutras paragens. Ficarei à porta da vivenda do irmão, na entrada de serviço, por onde ele passará. Irmão ausente, lépida, a cunhada enxotá-lo-á. Não há cá dinheiro para ninguém. Façam pela vida, trabalhem. A moto, na garagem, junto ao lugar do carro desafia-o. Cuidadoso, Ruivo tira-a do descanso, sairá empurrando-a com cautela. Vamos, dir-me-á. A medo sentar-me-ei agarrando-o pelo torso. O estrondo do motor impelirá a moto na via. Terei receio, quase pavor, mas o Ruivo, mal se vendo, deitado sobre o volante, correrá pelas ruas. Desafiará o polícia de trânsito que o mandará parar. Acelera, corre as avenidas, polícia atrás de sirene aberta, limpando-nos paradoxalmente as ruas para maior celeridade. Cada vez mais veloz embica para o Bairro Alto. Cruza as ruas estreitas com ligeireza estonteante. Continuarei assustado a ver as esquinas prolongarem-se contra nós, o polícia a perder terreno até desaparecer e só se ouvir atenuado o estrépito da sirene. Sem perseguidor sairá do bairro. Parará numa cabine telefónica. Bate na caixa, introduz um arame pela ranhura, caem moedas no aparador. Para o pão já chega. Há muitas caixas em Lisboa. Sobra para telefonar ao irmão.

Larguei a mota junto ao quiosque de S. Paulo. Vai buscá-la se quiseres. Nunca mais precisarei do teu dinheiro.

 

- Seria necessário juntar a história desse tal Ruivo? Ele voltará a aparecer na narrativa?

 

- Penso que não, Oblata. Apenas me foi necessário para insinuar o sentimento de estranheza que quero instalado em Cursino. Permito-lhe perder-se pelas memórias que lhe instilo. Descobrirá a diferença e o aviltamento. Faço com que nele cresça uma ideia de contraponto às experiências pessoais. Será levado a perceber como outros vivem, a sentir o gosto das emoções amargas; as lembranças, mesmo se de indiferença, dos próximos; a conhecer a inconformidade. Preciso que escreva a revolta, ou, pelo menos, denuncie as hipocrisias.

- Pensava que esta história seria sobre o amor.

- E não é? O amor e o ódio existem na mesma linha. Um em cada ponta. Fazem, porém, parte do mesmo contínuo. Cada um existe em relação ao outro.

- Queres então dizer que, porque me amas, me odeias? Parece-me absurdo demais para levar a sério.

- Estás a ser demasiado literal. Não te odeio porque te amo, mas porque te amo na nossa relação assoma, por vezes, a presença do ódio. Que é o ciúme mais que um pouco de raiva a deslizar para a afeição?

- Defendes não haver amor sem ciúme?

- Claramente. Se te quero não posso deixar de ter receio de te perder. Por isso odeio tudo quanto pareça poder afastar-te de mim. Não será razoável?

- Nem por sombras. Acredito mais na confiança e no afeto. Não se me afigura que possas fundar a tua narrativa nessa linha.

- Um dia falaremos melhor sobre isso. Agora, o importante é a abertura para aquilo  que passa ao lado, mal nos toca, porque só acontece aos outros. É preciso olhar para fora! Quer creias quer não, até o amor é, em parte, convenção social. É um embuste, um constructo cultural. Não o desejo, pois esse é animal sem freio a quebrar conveniências; nem o afeto, doce orvalho de suaves manhãs. Falo-te do amor como estratégia subterrânea, inconsciente talvez, mas noção férrea da forma correta de nos escolhermos, num lugar e num tempo, acreditando na força da paixão, apenas para nos submetermos aos interesses de uma filiação, de um grupo, e vê lá, sempre com olhos na sucessão e aumento de bens. Olha à tua volta ,Oblata e vai pensando na encenação desta história onde Cursino irá descobrir o outro lado das coisas.

- Ah! Voltamos à profundidade?

-Nem por sombras, apenas roçamos a superfície das águas…

 

Pretensiosamente pretendi chamar a esta história o meu barbeiro. Meditando um pouco perante o ecrã vazio - onde vai o desespero da folha de papel branco à espera da escrita e dos furiosos riscos que inutilizavam início e papel - tive de chegar à conclusão de que:

 

  1. a) não tinha, nem nunca tive um barbeiro fixo, coisa que passarei a explicar mais para diante (se me apetecer ou se o decorrer da história não me levar por outros caminhos) e,

 

  1. b) era demasiada pretensão chamar de minha a qualquer pessoa, ainda que fosse um barbeiro pobre, de revolta suave, a atingir o raiar das lágrimas.

 

Assim, vai a história chamar-se lágrimas, não porque as houvesse na conversa, mas porque, de forma vária, estavam subentendidas numa vida de esforço sem glória nem perspetivas. Há, no entanto, para ajuntar que a culpa desta conversa é da Câmara Municipal, por acaso socialista, partido em que votou o meu barbeiro e agora, com desespero, se arrenega prometendo nunca mais votar em ninguém.

 

É claro que esta prosa corre o risco de transformar-se numa lamúria fora de moda, onde o portuga escrevente – e será só ele? – se desforra da sua consciência infeliz, enforma-a de confissão e nela procura ultrapassar problemas que, por inépcia ou falta de oportunidade, não consegue resolver de outro modo.

 

Dizia o barbeiro, dentro de e voltado para um amplo estaleiro de obras em funcionamento pleno, que a Câmara lhe estava a rebentar com a vida. E ao seu patrão também. Estranha esta preocupação do servente com o dono do estabelecimento. Marx não havia de gostar desta aproximação de classes, embora, se passasse pela barbearia e ao cortar o desgrenhado cabelo, ou a aparar a furiosa barba, ouvisse a história que eu ouvi, pudesse pensar em alterar qualquer coisita na sua obra monumental. Ou, quem sabe, talvez não modificasse nada, porque uma coisa é a mudança encarada do ponto de vista sociológico, outra bem diferente é o drama do indivíduo apanhado nas teias dos volte-faces sociais.

 

Pois é verdade, o patrão da barbearia ficou estarrecido quando, numa segunda-feira, vai para abrir o seu estabelecimento e verifica que todo o largo tinha sido, durante o fim de semana, cercado por imponente paliçada, cheia de anúncios de empresas de construção pedindo desculpas pelo incómodo, clamando que iriam ser breves, que trabalhavam para o bem-estar de todos e ali, do seu esforço e engenho, iria nascer um magnífico parque subterrâneo para automóveis para, de vez, resolver todos os problemas de trânsito daquela muito importante zona da cidade. No entanto, o problema para o dono da barbearia é que não só não tinha qualquer acesso à sua loja, como nem sequer a avistava, tapada que estava com proteções e andaimes. Em desespero balbuciava:

 

- ... mas nunca me disseram nada...

 

e ao pretender entrar teve que dar uma enorme volta para descobrir uma porta, onde foi esbarrar num serventuário negro, interposto à sua frente, mal falante do português, o qual, obstrutivo e repetidor, dizia: -sinhor non. Empresa e Câmara não querer ninguém de fora dentro...

 

 Estupefação transformada em raiva. O sentimento de impotência a subir pelo corpo todo, começando nas mãos, estendendo-se pelos braços, ocupando o peito e um berro a sair e a explodir dentro do coração. Tudo vermelho por fora e por dentro como a ambulância onde o transportaram para o hospital, com um ataque cardíaco, conquistado naquele preciso momento e local.

 

Dizia-me o barbeiro que, ao tomar conhecimento deste triste evento, a Câmara fora companheira impecável. Acorreu em peso em visita ao hospital, acompanhada dos órgãos de informação, para pedir desculpas ao patrão, o qual por acaso não tinha morrido, apenas ficara tolhido dos braços - o que não é de somenos para um barbeiro - prometendo-lhe passagem livre, quando quisesse, para a sua loja, desde que, evidentemente, o estaleiro estivesse aberto, porque como sabe, por causa do ruído não se pode trabalhar à noite, e as máquinas existentes, de valiosas, não podem ficar abandonadas ao sabor das malquerenças de algum energúmeno, além do perigo acrescido ao atravessar um local de obras para alguém desabituado de tais andanças. O senhor bem sabe como são estas coisas dos acidentes na Construção Civil…

 

…O que se tinha passado é que todos os Bancos e Empresas da zona tinham sido avisadas com tempo e a Câmara, que não é descuidada, tivera mesmo reuniões com representantes dessas firmas e quantos problemas -meu Deus!! - não foram resolvidos. Só a questão da garagem do Banco Enfisema fora uma dor de cabeça...mas felizmente tudo se resolvera. Agora, a questão é que no meio de tanto afã, passou despercebida a questão da barbearia. Também, o senhor sabe, é só você e o seu empregado. Aquilo está para ali esquecido a um canto, tem pouco movimento, vocês não se atualizaram e assim, não é que sirva de desculpa, ninguém se lembrou de vos avisar desta coisa...

 

Mas como é que eu vou viver? Tartamudeou, em espanto, o patrão.

 

Pois, pois!  É complicado, disse o Sr. Presidente. Agora não temos solução nenhuma. As coisas estão muito em cima do acontecimento. Teremos de estudar o caso. Mas não se preocupe, dê tempo ao tempo,...algo se há de conseguir...

 

E conseguiu mesmo. Logo ali o patrão teve uma recaída - também quem é que espera que um patrão tenha um tão delicado coração - obrigando à rápida evacuação dos meios de comunicação social, para não perturbar o doente. A câmara de uma televisão independente, a cirandar atrás do presidente, dada ao desplante de filmar despudoradamente todo o episódio, teve o azar de chocar de frente com um homem da segurança, ido a correr chamar o médico - já à cabeceira do doente - ficou toda partidinha no chão. No entanto, como o segurança era homem de boa índole, parou de imediato para ajudar o operador a levantar-se e a recuperar a câmara. O que o desgraçado nunca recuperou foi a cassete sumida ninguém sabe para onde. Coisas....

 

Assim o meu barbeiro refletia em voz alta, dando curso à sua mansa indignação, utilizando-me para psicoterapia.

 

Pois é - dizia ele - por causa destas obras vou agora de férias. O senhor já viu o que é ir de férias no pico do inverno?

 

Tentando amenizar as coisas lá lhe fui dizendo, as férias de inverno têm os seus encantos e méritos. Por exemplo, não se perdia tempo a esperar por um lugar nos restaurantes, era-se mais bem tratado nos hotéis e, para quem gostasse de neve, umas férias na montanha era o que era.

 

Pois sim, ripostou-me. Para mim férias são sempre no mesmo local. Em casa! Como é que quer que eu passe férias noutro lado? Repare, ganho apenas o mínimo nacional, fora as gorjetas, evidentemente,

 

-Já te percebi meu marau.- pensei eu! Estás-te a fazer ao piso...

 

e com isso tenho de pagar a renda do barraco, os remédios da mulher que é doente como o caraças, os transportes, a alimentação e a pouca roupa que vestimos.

 

A raiva desta situação infeliz fez-se sentir na minha nuca. Zás! A navalha a entrar fina, dolorosamente, na minha carne.

 

-Cuidado homem! Ainda me tira um bife do pescoço.

 

- Peço-lhe desculpas...mas quando penso na minha vida dá-me cá uma raiva!

 

Não é que eu não percebesse a razão da sua fúria. Com sessenta anos, sem dinheiro, sem nunca ter sabido o que era um gozo real de férias, dava para rebentar com tudo. No entanto eu não tinha, objetivamente culpa nenhuma desta situação e a navalha, quase tão velha como ele, já tinha com certeza cortado centenas de pescoços (à superfície, é claro) e, valha-me Deus, se algum pertencesse a alguém contaminado com sida? Estremeci. Solícito pergunta-me o barbeiro:

 

- Tem frio? Eu fecho já a porta. Como isto está nem se tem ganho para comprar uma garrafa de gás para o esquentador, quanto mais para o aquecedor.

 

Isso já tinha notado. Levara um duche de água fria ao lavar da cabeça. Como sou pacato e não gosto de levantar questões, nem disse nada. Pensei que o esquentador não tivesse ainda aquecido, no entanto disse-lhe:

 

-Podia ter-me avisado antes. Assim evitaria o frio que passei.

 

Pois é, objetou, o serviço já é tão pouco! Se eu avisar, o cliente não lava a cabeça. E são uns euritos a irem-se à vida. A verdade fica muito cara. Não me posso dar ao luxo de ser verdadeiro. Se agora lhe falo nisto é porque já lavou a cabeça e é o meu último cliente. Quando acabar este cabelo vou fechar as portas, entro de férias e já não volto. Não tenho dinheiro para ser patrão, o dono da barbearia nunca voltará ao ofício e consegui a reforma por causa da artrite. O dinheiro não é muito. Mas com as economias em transportes e roupas, mais umas cabeças que arranje lá pelo bairro, cá me hei de governar.

 

Chegado o serviço ao fim escovou-me as costas, recebeu o dinheiro e a gorjeta, fez-me um sorriso e mal saí, fechou, para sempre, as portas da barbearia.

 

 

Vivia-se ao tempo a euforia construtiva do Sr. Presidente. Pelo sorriso permanente, de alvos dentes em riste, pela mania de mandar azulejar de branco tudo quanto fosse de retretes a estações de metro ou comboios tinha sido Sua Excelência apodado - claro, pela oposição - de Brancolejo.

 

Dizia-se que as sessões na Câmara eram tumultuosas e inúteis. Discutisse-se o que quer que se discutisse, tomassem-se quais decisões fossem, era certo e sabido apenas vingarem aquelas que o Sr. Presidente já trouxesse encasquetadas no bestunto. Era um homem de grande inteireza - diziam os apoiantes - era um burro teimoso - contestavam os outros. O certo porém é o seu mandato ir de vento em popa, assim, como de vento em popa foi o dia da inauguração do parqueamento.

 

O que parecia não ter remédio era a desgraçada barbearia. Para além da disfunção obtida pelo patrão, da compelida reforma do empregado, erguera-se agora, comemorativamente, mesmo em frente da portada, um imponente monumento, a ocultá-la completamente aos passantes, destruindo qualquer possibilidade de o patrão obter trespasse que merecesse a pena. Saído do hospital,  confrontada a Câmara com a possibilidade de um processo em tribunal, a cair mesmo em cheio no período eleitoral, foram convocados sábios consultantes.

 

Arranjassem uma solução – clamou o Sr. Presidente.

 

Assim, no dia da inauguração do parque, entre bombeiros de retoque e desfile, meninas de flor e beijinho, fitas cortadas, discursos como o deveriam ser, tudo ao jeito do antigo regime só com mais populares na corrida, o patrão - agora tetraplégico, de cadeirinha de rodas empurrada por zeloso funcionário da Câmara -, engrossava a fila de convidados importantes e, pasmem, ele que nunca tivera carro, nem poderia agora pretender conduzir, receberia, de modo estatutário, o direito a um lugar de parqueamento vitalício e não endossável…

 

Mas, dir-me-ão, que foi feito do empregado?

 

E perguntam bem porquanto, como todos somos iguais, detentores dos mesmos direitos, não poderemos cometer o feio pecado de falar de presidentes, de bancos, mesmo de barbearias e abandonar, como coisa sem interesse, o destino desse anónimo fazedor das coisas reais.

 

Pois bem, não deixem de ter em conta que falamos de um município, de presidência consabidamente democrática e socialista, onde o povo miúdo é sempre tido na devida conta. Foi assim que no dia da inauguração, impante, garbosamente fardado, dentro de um cubículo de vidro, o meu barbeiro recebera a importante missão de cobrar os pagamentos e passar talões aos utentes do novíssimo parque.

 

A história poderia ficar por aqui, com honra, glória e proveito para todos se, no meio da felicidade do meu barbeiro, não caísse a dúvida cruel de um futuro ameaçado. Não nos podemos esquecer vivermos numa época de grandes, progressivas mudanças e o nosso presidente ser dinâmico, homem de larga visão do futuro. Sobretudo muito viajado. Assim, dissertando sobre melhorias e desenvolvimento, por mero descuido, próximo ao recém-reciclado barbeiro, comentou, para a sua comitiva, que um parque assim tão moderno, dentro de todas as convenções das normas europeias, não ficaria completo sem um atualizado sistema de cobranças e controlos automáticos. Como se fazia lá fora...

 

- “Vocês bem veem, isto de ter uns velhotes caquéticos nas portagens de instalações tão modernas não dá lá muito bom aspeto...”

 

Por isto ter ouvido é que o meu barbeiro, quando lhe fui dar os parabéns pela resolução do problema de emprego, esboçou um esforçado sorriso e disse:

 

- Não sei bem... não sei bem...

 

...deixando que duas pequeninas lágrimas ensombrassem a luz daquele grande dia.

 

 

 

 

 

 

 

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publicado por Carlos Alberto Correia às 12:29

Momentos para inventar o amor

Sexta-feira, 03.04.20

 

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C  - O bife

 

Encontrarei Valéria, por acaso, no bar. Acompanhada por amigas, sozinha de Elísio. Sentar-me-ei ao balcão, longe dela e do cantor esforçando-se para ser ouvido no meio do ruído dos copos, do vozear a meio tom volvido, por adição, em ensurdecedor contínuo. Pedirei uma cerveja. Sem copo. Por defesa e paranoia beber-se-á pela garrafa para evitar adições mal-intencionadas de drogas ou quaisquer outras causas artificiais de corrosões do espírito. No intervalo das cantigas, revigorar-se-ão as vozes até então mal contidas. E também os movimentos. Essa vaga transportará Valéria. Encalhará um pé na trave do meu banco, oferendo a face ao beijo de proximidade. Dirá gostei do teu conto, mas não entendi porque é que o Bruno teria de se afastar de Líria. É confuso. Percebo que se abandone alguém quando o amor acaba. É natural. Não entendo porque se há de deixar alguém enquanto se ama. À tentativa de explicar-lhe a necessidade de acentuar o efeito dramático responderá com um bocejo de incredulidade. Tal não me parece necessário, dirá, enquanto, apanhada de novo pela corrente, se deixará descair para os lados das casas de banho. Ficará perplexa quando regressar e não me encontrar no bar. Terei descido do balcão decidido a respirar um pouco de ar, livre de fumo. Resolverei não retornar. Saberei que não é tempo de esperar Valéria. Fujo ao encontro. Para mim continuará a ser a mulher de Elísio.

 

Oblata, muito séria, pergunta porque terá o Elísio de afogar-se em vinho?

- Não consegue aceitar a vida sem Valéria.

- Tretas! Romantismo obsoleto. De quantas mulheres poderá ele dispor?

- Para tal teria de estar livre para as aceitar. Não tem, no momento, espaço para tal. A ausência de Valéria atravanca-lhe o horizonte. Não consegue ver mais nada.

- É um completo exagero, Kismet. Podes muito bem aliviar-lhe os traços da depressão.

- Não é depressão. É obsessão. Depressão é aquilo de que Valéria sofre. São praticamente inúteis os seus encontros com o psiquiatra. Ausência de prazer é o veredicto. Algures, no seu cérebro, uma qualquer substância terá deixado de existir ou será produzida em tão pequenas doses que será incapaz de ligar os neurónios adequados. Não acredita que é bela e desejável. Deseja mas não consegue obter satisfação no adquirido. Está sempre à procura de algo que lhe escapa, que parecendo estar aqui, já não está mais e se deslocou para outro lado. Por isso não para. Por tal a inconstância parece ser a sua casa.

- De que cor mais negra pintas a personagem. Por isso te foge o público. Toda a gente está farta de desgraças. Procuram um pouco da felicidade que a vida lhes nega e tu, em lugar de lha proporcionares descarregas-lhe mais neurastenia em cima. És mesmo um caso perdido.

- Ainda não viste nada. Defendo a validade da minha tese. Paixão é diferente de amor. As pessoas confundem tudo. Querem estar eternamente enamoradas. Não percebem que o gasto emocional desse estado é de tal intensidade que, a durar, queimaria a vida de qualquer ser. É preciso um pouco de racionalidade. Convenhamos que a paixão é necessária como primeira aproximação. É preciso que todo o mundo se converta à presença dos amantes. Que nada mais interesse além da proximidade dos dois. Mas, continuasse isto eternamente e onde chegaríamos? Tudo seria delírios e caos. Nem sociedade haveria. Por isso é tão importante matar a paixão.

- E o que fica? O sentimento do dever? O ficamos juntos porque nos comprometemos? Onde é que está o sol que surgia quanto tu chegavas? Não achas troca muito desigual? Retirar a paixão do amor, é isso possível?

 

Elísio telefonar-me-á num momento de sobriedade

Vou deixar esta cidade. Concorri para uma escola na província. Quero afastar-me da vida de Valéria. Sinto que enlouquecerei se o não fizer.

A tua decisão será definitiva?

 Podes crer. Não posso continuar a alimentar este naufrágio. Vou para longe. Para onde o pensamento possa repousar sem o delíquio do que farei se a encontrar, ou o que acontecerá se a vir com outro.

Fugirá da ideia ou será mesmo o ponto final na relação? Não conseguirei dilucidar uma coisa da outra.

Parto definitivamente desta relação. Nem sei mesmo se quererei outra. Para as necessidades chegam as putas. Não dão preocupações. O que queres? Quanto levas? Pagas, desandas e oito dias depois nem te lembras da cara dela.

Tu saberás. Não me parece que a fuga resolva qualquer coisa. No fundo apenas foges de ti e isso, meu amigo, é coisa que nunca conseguirás.

 Vamos ver. De qualquer modo liguei-te para te dizer que não precisarás de ter mais escrúpulos a qualquer relação com Valéria. Eu saio do campo. Entra se quiseres.

 

Sentirei um incómodo terrível. Não saberei como responder a Elísio. Assim, procurando perscrutar os sentimentos de esperança e deceção, sentar-me-ei, ao sol-pôr na esplanada e, de rajada, no modo de esquecer o que me atormenta, escreverei:

 

 

 

Quis-me o autor católico e tímido. Por esses factos, aqui estou, hoje como sempre, sentado na terceira mesa da segunda fila desta esplanada, olhando o pipilar da fonte e os miúdos desnudados, em banhos mais de sol que na contida água.

 

Serei, também, no decorrer do conto, o quanto baste de ingénuo e sonhador. Adequa-se-me a ingenuidade porque, com ela, poderei correr certos riscos e aceitar alguns jogos que de outro modo poderiam passar por estultícia. Calha-me o sonhador em comple­mento desse atributo. Quem se navega pelos fumos da lógica dos sonhos e os antepõe ao que a maioria denomina de real terá toda a conveniência na estruturação de um universo à medida do romântico, que se pretende heroico e não consegue, no seu ser, força bastante.

 

Volto à água. Tomba, por enquanto, entre salpicos de relva. Logo mais, quando a noite quase de surpresa chegar, as luzes do lago acender-se-ão e tornarão mais distantes e imprecisas as árvores do outro lado. Equidistantes do meu ponto de observação ficam as duas esquinas, estas sem nenhumas árvores. Só casas, sem esses breves prenúncios de floresta que resistem no largo, do outro lado. Aquele onde nunca estou.

 

Nas casas das esquinas habitam pessoas e sei de histórias de outras que gostariam de habitar em casas e não o podem fazer. Mas isso são outros contos e, neste o autor não me deixa entrar por esses caminhos. Aliás, como se sabe, é de boa norma delimitar os assuntos e esta é uma narrativa mais ou menos romântica pelo que não deverá perder-se em desinteressantes críticas sociais.

 

Retomemos o rumo certo. A poucos metros, do meu lado direito, fica a Primeira Esquina. Ao centro, comigo dentro, está a esplanada. Alguns metros, para além do meu braço esquerdo, queda-se a Segunda Esquina.

 

Para lá das esquinas nada conheço. Todos quantos as ultrapassam saem do meu ângulo de visão e deixam de ter história. Inexistem. Quem vem da Primeira Esquina aparece sem aviso. A sua presença é impensável até que dobre a esquina e se corporize no súbito de um bico de pé, num passo inacabado obrigando a presumir o anterior, numa sequência posterior de outros que se dirigem ao presente do café, ou até à inexistência, por dobragem da outra esquina. Tudo isto resumindo-se num nada de corpo, numa existência precária, mais movimento ou fulguração que realidade.

 

Eu estou aqui, à espera. No meu estar existe certamente um objetivo, uma necessidade. Aguardo que ela dobre a Primeira Esquina, surja a emoção e se cumpra o determinado.

 

Por isso aqui me encontro, instalado no verão, sentado na terceira mesa da segunda fila da esplanada.

 

 Pelo ardor do corpo e pelo amarfanhado da pele suponho ter voltado da praia. Saboreio a imperial que poderia ter sido mais bem tirada se estivesse colocado na cervejaria. Mas a cervejaria fica lá mais em cima, a meio da avenida, enorme e plana, estendida sem surpresas e sem possibilidade de duas esquinas suficientemente distanciadas para permitir o espaço do cenário e suficientemente próximas para a passagem dela poder ser o campo entre a esperança e aquilo que, não sendo desespero nem frustração, fica no magoado da alma como música melancólica.

 

Não me desagrada, na verdade, ter vindo da praia. Se me fosse possível passaria a maior parte do meu tempo nessa fusão de sal e luz. Que tardes! Quando o saboroso cansaço nos leva a rumar para casa na busca do duche, deixar a salmoura e, antes que o sol se ponha, correr para a esplanada, procurar a mesa conveniente, sentar-me e, bebericando a cerveja, esperar, sem falta, a partir da Primeira Esquina, pedaço a pedaço, o cumprimento da promessa da sua presença.

 

Aparecerá, primeiro, uma das suas pernas, seguida de um braço. Depois a saia leve tendida pelo passo e pela brisa. Num repente solar surgirá de corpo inteiro. As mãos, os cabelos, o peito num balanço cálido de ondas dentro de ondas.

 

Muitas vezes pergunto-me o que será ela para além da esquina. Que fará na vida, fora deste caminho onde cruza o meu olhar? Como nada sei espero o seu avanço até à esplanada e tento adivinhar. Por momentos parece-me saber tudo e desejo que venha sentar-se à minha mesa. Reparo depois que nem sequer sei o seu nome, embora lhe adivinhe os passos e saiba que nunca, por si só, virá sentar-se aqui. Talvez nem sequer pare no café para tomar uma bebida ou fazer um telefonema. Seguir sempre em frente, até à Segunda Esquina, parece ser, imperiosamente, o seu destino.

 

Enquanto os passos a afastam, tento confortar as esperanças caídas. Pergunto-me quantas vezes esperastes por ela e a viste passar, sem um desvio, por pequeno que fosse, entre uma esquina e outra? Esperavas, insensato, que ela viesse ter contigo e sem mais começasse a falar dizendo-te todas as palavras que tu calas? Grande besta sou! Porque raio deveria tal coisa acontecer? Sou católico, mas não espero milagres. Olho para mim e desconforta-me o que vejo. Como esperar então que ela possa ter alguma vez sequer reparado em mim. Ela nem me conhece e não sou tão irresistível que possa tornar-me notado aos olhos de qualquer mulher, apenas por me ter entreolhado. Sou uma boa anedota. Isso é que sou!

 

Além disto, basta olhá-la para sentir a diferença. É perfeita! Nela nada há de destoante. É, verdadeira e meteoricamente, perfeita. O caminho que percorre, só porque o trilha, é mais altar que percurso. Como pensar compartilhar o meu espaço com ela? Tão anódino que sou! Insensatez, meu caro, insensatez. Querias, se calhar, a estrela polar fora da sua rota, mortinha por se instalar ao teu lado!? Não é a mesma coisa? Ai não, não é!! Estás tolinho se não percebes. Então a estrela polar não passa também todos os dias, entre dois limites? Sensivelmente à mesma hora e no mesmo local? E não é bela? E não é presente e inacessível? Os olhos não a seguem, porventura desejando-a? A outra é uma mulher!? Isso que tem? Não são ambas criaturas e igualmente perfeitas?

 

Peço o impossível? Não é esse, porventura, o meu direito? O que está à mão? Qual o merecimento?...

 

Voos… voos inconsequentes é o que fazes. Estás para aí com toda essa filosofia e nem sequer consegues convidá-la para a tua mesa. Aproveita agora. Daqui a pouco ultrapassará o café e atingirá a Segunda Esquina. Força. Um pouco mais e perderás a tua oportunidade. Mais ação. Menos filosofia.

 

Isso queria eu. Ter força para a fazer ficar. Para que o meu desejo fosse o dela. Pois é! Mas eu sou tímido. Nem me serão permitidas certas atuações. Por exemplo, neste momento, apesar da minha vontade e turbação, devo verificar se algum dos circundantes se apercebeu das minhas intenções; se os meus pensamentos se tornaram visíveis, se tomaram voz e gritaram, subitamente, o meu amor, na praça.

 

Olho em volta. Tudo continua como se não tivesse havido tempo. O meu vizinho mais próximo que, quando ela apareceu, começara a levar o copo aos lábios, nem sequer terminou o movimento. Toma agora o primeiro trago. Ela dá outro passo. Na praça o meu olhar é uma súplica. Eu, um desassossego.

 

Antes que outro passo se inicie e o bebedor desça, leve e lento, o copo sobre a mesa, procuro em mim aqueles olhos interiores de tudo sentir e perceber. Os mais completos e clarividentes olhos que ninguém reconhece fora de si e em si ninguém contesta. Iluminado por eles volto-me na direção da Primeira Esquina. Preocupo-me. Se os fechar continuará a haver esquina? Se os fechar continuará a existir o que não sei se existe, do outro lado da esquina? Se os fechar é possível que a esquina desapareça ou não mas quem garante que essa anulação a não arrastará a ela também?

 

De olhos bem abertos sei que nada sabendo dela terei de continuar, até tudo acontecer, aqui sentado, entre duas esquinas, à espera, no, concedo, aprazível local onde situaram a esplanada, desconcertado por me sentir pedaço de coisa nenhuma, títere de um ciclo de existência onde, um dia, acredito, ela terá de vir sentar-se na minha mesa.

 

Se me fosse permitido resolveria este caso rapidamente. Faria com que ela, finalmente, reparasse em mim. Que me olhasse e, nesse olhar, ficasse a saber da minha longa e repetida espera, suspendendo, só por isso a progressão para a Segunda Esquina. Eu avançaria para ela de molde a tolher-lhe o passo. Contar-lhe-ia a minha espera. Um sorriso de compreensão posar-lhe-ia nos lábios. Ver-lhe-ia despontar a emoção por se saber aguardada,  despertar-lhe-ia a reflexão sobre o inexorável de todos os dias passar, à mesma hora, de semelhante modo, no mesmo local, entre duas esquinas, perdendo-se sempre um pouco mais do outro lado, sem a certeza de que no dia seguinte a catástrofe não acontecesse e a Primeira Esquina se toldasse pela sua ausência.

 

Por mim sei. Estarei aqui todos os amanhãs deste verão esperando o seu aparecimento. Dia após dia verei morrer o sol incapaz de a chamar, incapaz de deixar de esperar. Continuarei parado tentando perceber o seu mistério. Além da esquina há possibilidades que me angustiam e a desconfiança de que tudo seja possível e tudo isto tenha um sentido, possua uma coerência. Porque eu sei. Estarei aqui, cada dia mais bronzeado, bebendo a minha cerveja, convicto que, lá mais acima, na cervejaria, seria melhor tirada mas, compreendendo que só neste lugar cumpro o meu papel e me será possível vê-la passar indiferente,  significativa.

 

Como antevia foi o verão passando. O Sol declinava. Ela aparecia na Primeira Esquina. Eu esperava que os seus passos a conduzissem até mim. Ela passava ignorando-me. Eu, desesperado, ansiava o novo dia para que, declinando o Sol, ela de novo aparecesse e eu continuasse a aguardar...

 

 Um dia ela apareceu. Na Esquina. Na Primeira. Trazia qualquer coisa de novo. Seria o ângulo do avanço ou uma subtil transparência de intenções refletidas na biqueira do sapato? Não sei. Apenas me foi percetível, de golpe, a diferença. O dia de hoje não seria como nenhum outro. Era este o dia total, por excelência.. Sobressaltei-me. Algo vai acontecer e não estou preparado. Não sei o que é nem se o desejo. É certo. A minha mansa rebelião tem ensombrado o desempenho do papel que me foi atribuído. É certo. Por vezes sonhei-me outro e quis-me diferente. Mas, por acaso não me esforcei? Não me adaptei e tentei cumprir como quiseram que cumprisse? Não me mantive pacientemente sentado, todo o verão, nesta esplanada, sempre ao fim da tarde? Esperando a mulher que nunca abordarei e me destinaram que aguardasse?

 

Neste momento limite todas as questões são igualmente irrespondíveis. Não há tempo nem vontade. Porque pela derradeira vez ela irá iluminar esta última tarde. Sei que, majestosa, infletirá a costumada marcha no sentido do café. Inicialmente indecisa avançará depois, seguida de olhares e de mim, para o interior. Sei ainda que, agora que posso queimar-me no fogo do seu sol, a tão desejada, a eternamente aguardada, a suma, a inatingível se sentará ao balcão do bar e, ai de mim, com estes ouvidos onde ainda ressoam os roçagares do seu hálito na atmosfera, a irei ouvir, naquela voz adivinhada de pétalas, pedir ao empregado:

 

 

- Dê-me um bife... em SANGUE, se faz favor

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publicado por Carlos Alberto Correia às 20:57

Momentos para inventar o amor

Terça-feira, 31.03.20

 

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B- Noite Menor

 

 

 

- Boa noite Líria venho dizer-te adeus…

 

Olhou-me e fechou o livro.

 

- Estudava a Lógica…não te podes sentar?

 

Pronto! Lá estava a sua descontração, a mania irritantemente calma de ver os problemas. Para chegar a este ponto tivera de vencer todos os meus românticos e ultrapassados sentimentos. Suponho até que devia ter um ar muito ridículo – ainda hoje me dá raiva pensar nisso – em pé, solene na minha decisão.

 

- É que vinha dizer-te adeus…

- Sim!? E isso impede que te sentes?

- De maneira nenhuma…somente me parecia… (parecia o quê? Iria dizer-lhe que era solenidade?)

- … te parecia?

-Nada! Nada de importância.

- Afinal porque partes? Tão de repente…

 

Sempre hão de existir estas perguntas, estes porquês. Ninguém será capaz de aceitar o movimento dos outros sem perguntar porque se movem. Que poderia dizer-lhe? Que me ia porque não suportava a luz dos olhos dela, a sua calma doce, a maneira como respirava, o modo como olhava, a sombra que os cabelos lhe faziam na testa? Entenderia ela se lho dissesse? Entenderia eu se me quisesse explicar?

 

- Porque mais nada é possível entre nós – acabei por dizer.

 

O coração bum-catrapum a bater, a bater e eu a fixar os olhos dela, aquela luz que abominava, não queria perder e por isso abandonava.

Nem uma lágrima ou uma crispação. Apenas um borrifo de incredulidade e ela a dizer-me:

 

- Tão convencional assim?

 

Como convencional! Não percebo francamente o valor das palavras. Que queria ela dizer nestas? Pergunto-lhe? Não, isso seria demonstrar-lhe que me interessava.

 

- Como querias que fosse?

- Não sei, esperava outra coisa de ti.

- Esperavas? Sabias?

- Nós sempre sabemos umas quantas coisas que não queremos saber e as esquecemos voluntariamente.

- Gostaria de dizer-te qualquer coisa de forte, de desolado, mas não posso.

- Amanhã tenho ponto de filosofia. Penso tirar uma boa nota.

 

Uma viravolta brusca na conversa, eu a morder os dedos, ela a morder o lápis.

 

-É!! (Não sei se disse eu)…

 

Queria voltar à conversa, mas ela fugia-me. Não podia ser assim tão simples. Como é que acabava tão facilmente algo que não podia acabar? E ela nas banalidades, como se o assunto não merecesse interesse, a falar nas suas dores de dentes.

Pensava que iria sofrer, por isso preparei o meu discurso cheio de vantagens no acabar.

 

- Visto que já não estudo mais queres acompanhar-me um pouco por aí?

- Com certeza Líria. ( Ia acrescentar “dar-me-á muito prazer” e não sei porque não o fiz).

 

Lá fora, onde eu ia, onde ela ia, onde nós íamos, era primavera. As minhas mãos iam escrevendo um poema quase solitário, um noturno sem Chopin, alguma coisa que estava comigo, mas que não era, nem podia ser, porque nunca existiria. Era como se eu pudesse cavalgar estrelas ou oferecer uma rosa ao oceano. A primavera, ou ela, iam-me dando uma força para criar (alguém diria destruir) o mundo. O meu sorriso era uma negação.

 

- Tão silencioso …

- Não me apetece falar…

 

De novo não era capaz de sair da mediocridade das palavras. Comunica, gritavam-me as vozes. E eu calado …

 

- Entendi – disse-me ela – E pela primeira vez falou.

 

Também não encontrei solenidade nas palavras. Só vazio.

 -  Deixei de ter para ti mistério e novidade. Quando te conheci compreendi-te e sabia o que arriscava. Joguei conscientemente. Nem sei se perdi...

Como retornando de um sonho... Mas tu vais-te mesmo?

Tinha pensado olhá-la nos olhos, mas no chão havia uma premência magnética.

 

- Nós sempre nos vamos, em algum dia e para alguma parte. Não somos estáticos. A nossa doçura é semeada de lanças e bicos de flechas. Por muito que nos desviemos, algumas nos tocarão.

- Sei que não devo sondar os teus motivos.

 

Uma pergunta camuflada, a maestria das seduções menores.

Um cheiro mais volátil no ar e a vontade de acariciar-lhe os cabelos. Desejo!

 

- Que são motivos, Líria? Alguém os sabe? Que me levou a ti, sabes?

- Não. Não sei.

- Foi o mesmo que nos separa.

- Só eu me revelei. Tu és o mesmo enigma. Não é uma queixa, é uma verdade.

Tens uma maneira reservada de te dares Bruno. Sei que não me enganarei se disser que foste meu sem reservas. No entanto, não te conheço. Será que alguma vez te conheci?

 

Somente eu não seria capaz de explicar sentimentos com palavras.

 

- Não será tarde para andarmos na rua?

- Não, não é. É sempre demasiado cedo para deixarmos de resolver os nossos problemas.

- Porque és tu tão friamente analisadora? Às vezes  não sei se és uma mulher se um cérebro positivo perscrutando o porquê de todos os meus atos.

- Desculpa! Se o fazia, nunca tentei desvendar intencionalmente aquilo que me fechavas.

- Não é isso que me parece...

- Muitas vezes nos enganamos. Pensaste bem na tua decisão?

- Pensei...

 

Aí estava a tentar dominar novamente. Sentia-me bem a falar com ela, com o meu mundo nos modos dela ser, até que isto sucedia e então...

 

- Sabes Líria, acontece-nos quando estamos longe, pensarmos muito em tudo o que deixámos. Os dias e as noites sucedem-se e nós não chegamos a acordar. Sempre no sonho mais lindo embarcados.

- ...

- Não, não é poesia o que te digo. É a verdade que me habita... quando um dia voltamos, tudo é diferente. Não sei se o tempo fez as coisas mudar, se fomos nós que, sonhando, nos afastámos da realidade. O facto é que, quando voltamos, não encontramos o que esperávamos. Sempre voltamos à procura de algo que não existe.

 

- Acontece somente que ainda não partiste. Segundo dizes e porque dizes acredito, vais partir. Isso é futuro e falas-me como se já tivesse acontecido. Não entendo a tua segurança.

- Que sabes tu, que sabemos nós, sobre partida? Há muitos dias que parto de ti, que me afasto de uma maneira lenta e segura. Dói-me mas sabe-me bem.

 

Finalmente falava. As palavras saíam-me saboreadas. Uma sonoridade aberta. Eram livres e cada sílaba vivia. Uma independência que formava um mundo. Vinha de mim esse mundo. Surgia da descoberta de um caminho. Sabia agora que nada era eterno. Todos os amores, todas as lutas eram luzes na demarcação de uma pista.

 

- Queres então dizer que entre nós não há nada, não houve nada? E o amor, afinal?

 

Era mais mulher na sua ansiedade descomposta. Não chegues a chorar. Serei forte enquanto não souberes isso. Não descubras agora, neste momento. Por favor! Tenho de chegar ao fim, tenho que me cumprir.

 

- O amor existe. Vendo bem as coisas eu amo-te…

-…!!

- … mas amar-te não é ficar preso a ti. É viver. Um pássaro numa gaiola, por muito bem que cante, não cumpre as suas asas. Eu sou filho de uma inquietação. Só seguindo o caminho que a cada momento faço e descubro, te poderei amar. Dantes era muito novo para o saber. Tinha egoísmos implantados no coração. Deixei de ser convencional e abri o espírito. Por isso me vou.

- Não seria mais lógico, se me amas, que ficasses comigo? Repara que não te peço nada. Apresento a defesa da minha causa. Não sou tão segura como pretendo. Por dentro sou toda incerteza e pequenos nadas de complicações. Tu és-me necessário para que também me cumpra. No fim, ambos somos egoístas. Um de nós irá perder.

 

Quase podia acrescentar que ela pensava não perder. Para não responder, mandei os olhos vaguear na placa iluminada. Um nome de rua, um nome de mulher e uma voz, incorpórea, vinda de todos os sítios, batendo na luz, ficando no escuro, triste canção que me vivia nos versos de uma praia que o outono tomava nos braços, feitos de marés e brumas.

 

Líria disse-me:

 

- Ouves?...

 

Nada disse, porque dizer seria não sentir. Encostou a cabeça no meu ombro e os cabelos tocaram-me os lábios.

 

- Para quê?

- Será necessário que todos os atos tenham obrigatoriamente um sentido racional? Não poderemos agir por impulsos? Entende-o assim.

- Desculpa…

 

e a vontade de dizer-lhe amor, de a estreitar a mim, dizer-lhe que éramos loucos, que só tínhamos uma vida…

… era aí que estava tudo. Só uma vida, uma vida para a qual não tinha uma explicação, uma coerência. Tentara encontrá-la nela, naquele amor que me surgira, julguei-me quase certo e de orgulho cheio. Um dia, igual a tantos outros de ansiedade, quando nos braços de ambos vogávamos, pensei que tudo estava terminado. Ela era  aquele corpo que vibrava junto de mim. Nada mais tinha. Sempre, pelos tempos do tempo, seríamos uns desconhecidos na ideia fácil de nos conhecermos. Teríamos filhos, dúvidas, discussões e talvez felicidade. Porém a partir daquele momento sabia que a pergunta andaria de novo dentro de mim – “Foi para isto que vim? É pouco, quero mais”. Deixei cair os braços e quando ela estranhou disse que estava doente. Notei a preocupação nascer-lhe nos olhos e fixar-se-lhe no rosto. Quando disse:

 

- Encosta a tua cabeça a mim – senti uma agonia surda e disse-lhe ríspido:

- Preciso de me ir, quero ar. Sinto-me sujo por dentro.

 

Nesse dia ela sofreu e não sei se compreendeu que me começara a perder, porque, no dia seguinte, mais cedo ainda que o habitual, a fui buscar. Era pouco depois do nascer do Sol. Do arrependimento da brusquidão viera-me uma capacidade de compreensão da felicidade tão grande que não me lembro de outro dia como aquele. Parecia que a manhã fora talhada num canteiro de flores. Nunca mais houve outra assim.

 

Depois dele a noite já não era um tempo físico. Havia-a em mim àquela hora. Uma noite completa, sem tréguas, mas que eu reduziria pouco a pouco.  A noite de chegarmos a casa de Líria, vê-la parada no umbral, ainda não acreditando e eu a afastar-me, a afastar-me…

 

… Bruno…! O grito veio-lhe da alma.

 

Julgo que deve ter subido as escadas a chorar.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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publicado por Carlos Alberto Correia às 11:43

Momentos para inventar o amor - A - A profundidade das coisas

Sábado, 28.03.20

 

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Kismet manipula fios. Debruça-se sobre o palco. Oblata segue-lhe os movimentos.

 

- Sempre procurei a profundidade das coisas.

-E encontraste-a, Kismet?

- As coisas, sim; a profundidade não! Pergunto-me se a procura seria correta ou mesmo desejável. As coisas são o que são. De nada serve buscar causas primeiras. A demanda de transcendência promete inalcançáveis, envenena a vida. Entranha desejos. O que é afinal a profundidade se não a distância entre o que se tem e o que se presume alcançar?

- Dizes tudo isso e, no entanto, parece-me nunca teres deixado de a procurá-la. Tem algum nexo esquadrinhar o propósito dos atos quando eles derivam, só e apenas, do necessário, do contingente? Nunca te cansas de estar sempre a fazer o mesmo?

- A fazer o mesmo? Como te enganas. Ainda que assim pareça, nunca o é. Há pequenas coisas que mudam. É o somatório dessas alterações, quase impercetíveis, a causa dos grandes momentos.

- Não diria tal ao ver-te continuadamente nessa posição, mexendo cordéis, fazendo movimentar os bonecos tempos sem conta, até parecerem estar vivos.

 - Supões o contrário?

- Qual é a tua ideia? Então eu não escrevo os argumentos contigo? Não sei que apenas fazem o prescrito? Só lhes concedemos as ações pretendidas.

- Isso é o que pensas ver e saber. Não te apercebes, como eles, do caminho percorrido.

- Ora, ora, queres-me fazer acreditar que os bonecos sentem e reagem ao que os pomos a dizer. Essa não! É demasiado!

 

Kismet embrenha-se mais na manipulação da cruzeta, repuxa fios, provoca movimentos, transmuta a voz, desliga-se da conversa, compenetra-se no articular do fantoche, provoca-lhes a dobragem dos joelhos, o levantar do braço até à cabeça inclinada, induzindo a sensação de alguém mergulhado no mais profundo de si. Oblata, sabendo-se dispensável no momento, abandona o recinto, levanta os panos pretos que rodeiam o pequeno palco, sai pela porta da narrativa, colocando-se, temporariamente, em oblívio.

 

 

Sentir-me-ei meio embriagado de espaço. Verei o sol a baixar no horizonte, o rio a marulhar calmo nas pedras da escadaria. Estarei sentado no murete no lado da coluna da direita do cais, pensar-me-ei lá mais abaixo, no local onde a água beija a pedra, olhando, como sempre o longo do rio. Na ponte passará o tráfego semelhante a manchas deslizantes. Tu chegarás e juro, dar-se-á uma mudança no ar. Coisa subtil, no vértice da perceção. Obrigatoriamente olhar-te-ei. Os sóis de verão ter-te-ão passado pelo corpo, morada de perfeição. Vestirás de branco, em contraste com o moreno da pele, da cor da madeixa, estreitando da frente para trás, ao correr dos cabelos pretos, apanhados no local onde o calor te perlará, de leve transpiração, a nuca. Saberei de imediato. Em ti o destino. Repararás distraidamente em mim. Ao ondular da brisa juntarei a tua mão a resguardar o leve movimento da saia. Virás porém, acompanhada e desatenta. Não poderás adivinhar as consequências deste encontro. Após o primeiro instante desviar-te-ás para os amigos, para conversas onde não estou. O teu nome será Valéria. Poderei compor a antecipação.

 

 

 

 

Kismet enxuga o suor do rosto. Naquele momento a história sofria uma aceleração. Chamou Oblata.

- Preciso de ti. Tenho as mãos ocupadas. Vou fazer entrar novas personagens em cena. Tens as falas contigo?

Oblata procura o guião e resmunga.

- Não gosto do papel do Elísio. Não o acho digno.

- Ora, ora, porque hás de refilar quando o pomos em cena? Repete apenas o papel que lhe destinámos, aquele que permite o prosseguimento da história. Além disso temos de acarrear alguma ênfase dramática para a peça. Combinámos, desde o início da composição do texto que este, por ingrato que fosse, seria o seu papel. Agora é tarde para o mudarmos. Teríamos de alterar o roteiro todo e mesmo as ações e caráter das personagens. E o que ganharíamos com todo esse trabalho? Uma peça melhor? Não o creio, nem sequer tu, posso apostar. Acordámos, desde o início que Elísio teria a mulher possível, não a desejada. Calhou-lhe porque ele estava ali, naquele lugar, naquela situação, naquele momento. Se não lha atribuísse, se a expectativa se gorasse, procuraria certamente alguém mais disponível. Ninguém está para perder muito tempo. Aceita-se o que aparece e colhem-se os melhores frutos. Tudo presta enquanto dura. Depois vai-se à vida, até à próxima e passa muito bem. Telefonas? Provavelmente!

 - Continuo a não gostar desse papel. Além disso parece haver uma certa incongruência. Se vais torná-la a musa de Cursino, se ele a vai ver como o ser excecional a iluminar-lhe a existência, como poderá ela ser tão pouco importante para Elísio?

- É aí que te enganas. Ele apenas parece despegado por defesa, insegurança. Sabe como ela é desejável, adivinhou há muito que não passa de um entreato. Da espera de uma outra coisa ainda por definir. Defende-se aparentando desinteresse, mas morre por dentro no receio de a perder. Porém, quanto mais medo tem, mais parece desprender-se.

- Eu sei, mas não aceito muito bem esse tipo de comportamento. Faze-lo parecer um frouxo e ele não o é. Mais me parece ser tranquilamente desesperado.

- És complicada nos sentimentos. Percebo a tua indignação. No fundo identificas-te com Valéria e repugna-te a inconstância, a traição.

- E não nos assemelhamos um pouco às personagens que criamos? Não sei se devemos continuar a trabalhar neste texto sem algumas alterações. Não gosto de lidar com coisas com as quais me sinto incomodada.

 

Só despertarei o teu interesse à noite, na casa de Elísio. Teremos calcorreado Alfama de ponta a ponta, bebido o suficiente para que o mundo se nos apresente com uma face mais fluida, quase sem problemas. Galhofaremos pelo caminho e cansados demais para irmos para casa, prolongaremos o encontro no quarto de cama de Elísio. Rebentado deitar-me-ei por cima da roupa no seu lugar da cama. Certamente por direito adquirido ao espaço virás estirar-te a meu lado. Poderá o teu gesto ser inocente ou propositado, mas terá consequências. Tocar-me-ás levemente com a mão. Ajeitarás melhor o corpo. A tua lateral cálida ficará encostada a mim. O resto do grupo estará sentado nas bordas da cama ou no chão onde Elísio, pálido, adivinha o a vir. Irás segredar-me, de modo audível, poderemos encontrar-nos amanhã na tua casa? Elísio desmaia. Os amigos correrão a auxiliá-lo. Lançar-te-ão olhares reprovadores e, levado no comprometimento da situação dir-te-ei, nunca me deito com mulheres de amigos.

 

- Revelas a tua preferência por Cursino. Guardas para ele os melhores atos. Deverias ser mais equitativo. Não me parece justo…

- A justiça é uma invenção. Apenas, na maior parte das vezes, para ser referida, ilustrar discursos, manter instituições, na verdade, raramente aplicada. Não há tal coisa na natureza. Vence o mais forte ou o que conseguir um mais elevado números de apoios, o que é ser, de outro modo, o mais forte.

- Isso, isso, o cinismo do criador a surgir à flor das águas. No princípio, antes do verbo, veio o oportunismo.

- Vês como sem quereres me dás razão? O criador é um oportunista. Aproveita-se do material ao seu dispor para, em nome de um qualquer bem quase sempre indemonstrável, fazer o que lhe apetece.

- É assim que te vês?

 

 

Não resisti. Dei-lhe uma bofetada. Ficou a olhar para mim, espantada. A mão, como se não fosse minha, tinha-se levantado, fez um semicírculo no ar. Antes de me aperceber estava-lhe estampada na face, furiosa, enérgica, para de repente, cair como se exausta, certamente envergonhada. Não reconhecia aquela mão. Valéria acariciou os vergões, olhou-me, não disse nada, juntou os seus pertences. Foi-se embora muda, sem uma lágrima, sem voltar a olhar-me. Não sei o que fazer. Desde que ela se deitou na minha cama a teu lado fui possuído por uma vertigem indominável. Logo que todos partiram iniciámos uma discussão que durou o resto da noite e uma boa parte da manhã. Já não tentávamos esclarecer coisa nenhuma. Agredíamo-nos com palavras impensadas, tivessem o peso que tivessem. Ficámos num estado próximo da loucura. Não, não estou a tentar desculpar-me. Sei que não tenho desculpa. Eu próprio não me a concedo. Mas está feito. Queria apenas saber se ela te procurou?

 

Estarás doido ou quê, Elísio? Sabes bem que me recusarei a qualquer encontro. Serei claro, não irei para a cama com a mulher de nenhum amigo. É princípio que defendo. Não o quebrarei por nada deste mundo. Desde aquela noite nunca mais a vi. Irás tentar reconciliar-te?

 

Não faço a mínima ideia. Não sou capaz de encará-la. No fundo espero que ela tome a iniciativa. Isso quereria dizer que me perdoou. Só depois poderei desculpar-me a mim próprio

.

 E se não o fizer?

 

 Nesse caso terá o fim do nosso caminho.

 

 

-Como assim que me vejo? Faço o meu trabalho, Oblata. Desespero por vezes. Lembras-te, quando nos conhecemos? Os meus sonhos de grandeza! Esperava vencer todo o mundo, abandonar o toldozinho de robertos onde, por pancadas e gritos, arrancava as gargalhadas aos putos.

- Se me lembro. Agarraste-me sem cerimónias. Trouxeste-me para o teu sonho. Tornaste-o meu. Era grandiosa a ideia de um teatro de marionetas em tamanho natural. Onde é que isso vai. O tempo tudo mudou. Hoje já nem os mais pequenos se interessam por fantoches. Têm a televisão, os jogos vídeos, os computadores, os telemóveis. São uma juventude tecnológica. Bem se interessam por bonecos movidos por cordéis.

- Assim o sonho se despedaçou. Vamos resistindo apresentando peças para casas meio vazias, com meia dúzia de nostálgicos. Não se vai a parte nenhuma. Tantas vezes pensei desistir. Lembrar-me do poder que já tiveram as marionetas. Como foram tão operantes que, por receio do transmitido, levaram à fogueira o Judeu. Agora, houvera ainda censura e nem se dariam ao trabalho de ler os argumentos. Mas não desisto. Esta peça vai tornar-se um clássico. Tenho a certeza…

- Espero bem que sim. Como vais sair da conversa entre o Elísio e o Cursino?

- Por enquanto fica em suspenso. O Cursino vai publicar um conto num concurso literário de um jornal diário. Ganhará o prémio. Vai subir-lhe a esperança, sentir-se o dono do mundo.

- Como vais chamar a esse conto?

- Considerando o estado de dúvida em que está, entre o cumprimento de um principio ético, o desejo por Valéria, a decisão de não ceder ao desejo e de se afastar, lembrado ainda da noite em que se conheceram, da rapidez com que passou, chamar-lhe-á Noite Menor.

 - Será a narração deste caso?

- Nem por sombras. Considera que a poeticidade se dá quando o reconto ou o desfecho se afastam do esperado. É no desvio que se conta o que não é contado, mas se quer revelar.

“- Porque falas por enigmas… Kismet?

- Talvez porque os resolva todos.”

 

 

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publicado por Carlos Alberto Correia às 19:49

Reportagem Barreiro – Romance «Com o cheiro das Glicínias» de Carlos Alberto Correia

Domingo, 16.02.20


A ficção serve-se dos factos mas não é o que foi a realidade

No Auditório da Biblioetca Municipal do Barreiro decorreu a sessão de apresentação do romance «Com o cheiro das Glicínias», o novo romance do escritor barreirense Carlos Alberto Correia, com a participação de João Pintassilgo, Vive Presidente da Câmara Municipal do Barreiro.

O romance «Com o cheiro das Glicínias» foi apresentado ‘a duas mãos’ por Ana Garrido e Filomena Viegas, presidente da Associação de Professores de Português.

No Auditório da Biblioteca Municipal do Barreiro decorreu a sessão de apresentação do romance «Com o cheiro das Glicínias», o novo romance do escritor barreirense Carlos Alberto Correia.

Um intelectual que muito tem dado à cultura do Barreiro

João Pintassilgo, Vice Presidente da Câmara Municipal do Barreiro, sublinhou que o autor é uma figura conhecida, quer pela acção cívica, quer pelas suas crónicas na comunicação social, é um escritor com uma sensibilidade muito especial, de quem olha para o outro e conhece e entende no outro.
Recordou que Carlos Alberto Correia, sendo natural do Alentejo, vive há muito no Barreiro – “a capital dos alentejanos” – sendo um intelectual que muito tem dado à cultura do Barreiro.

Felicidade é ser onda

O romance «Com o cheiro das Glicínias» foi apresentado ‘a duas mãos’ por Ana Garrido e Filomena Viegas, presidente da Associação de Professores de Português.
Filomena Viegas, salientou a sua atracção pelo título do romance, recordando que a ‘glicínia’ é uma flor “significa um certo romantismo”, tem muito de frágil e de forte, e, sendo tão linda é venenosa.
Sublinhou a importância do cheiro da glicínia, o deslumbramento da glicina, um flor que permite reflectir sobre “a plenitude do ser sobre o ter”.
Por outro lado, abordou o personagem Ricardo, que é o herói do romance e protagonista da narrativa, uma conversa de 10 horas, que se estende pelo espaço-tempo de 30 anos.
Recordou que a personalidade de Ricardo é marcada por muitas inflexões, nela emerge a imunidade ao brilho da riqueza, a autoridade com os que corrompem e provocam a corrupção, as marcas do romantismo, a liberdade de expressão e critica, uma personagem para quem a “felicidade é ser onda”.

Empresa o espaço onde se reflecte o traço cultural

Ana Garrido, salientou que no romance dois fios narrativos vão-se entrelaçando entre Lisboa e Macau, numa viagem par o Oriente. O narrador a partir do mundo laboral, desvela-nos o mundo de Macau, não ficando pela superfície, proporciona um encontro com a desigualdade social, a opulência, o avanço tecnológico, a tradição cultural, a honra, o poder das tríades.
A empresa é o espaço onde se reflete o traço cultural.
Por outro lado, a propósito de uma visita do protagonista a Cantão, referiu a inversão de valores, o poder politico a reverenciar o poder económico, a gestão que é jogo e adrenalina.

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Carlos Alberto Correia, referiu todos os factos apresentados no seu romance partem da realidade, esclarecendo que a ficção serve-se dos factos, mas não significa que o romance seja aquilo que foi a realidade.
O Ricardo é um observador dos acontecimentos da sua época, desde os anos 60 até aos nossos dias, desde o conhecido ao pressentido.

No decorrer da sessão assistiu-se a uma brilhante actuação do Grupo Coral TAB, dirigido pelo Maestro Manuel Gonçalves.
De referir que Fernanda Afonso é autora do prefácio, um texto que permite ao leitor um espaço de reflexão e de contextualização do autor e da obra.
A capa, de Pedro Correia, traduz com forte expressividade sentimentos e faz desabrochar os cheiros das glicínias nas suas cores e intensidade plástica.
O livro tem o custo de 12 euros, pode ser adquirido pela KDP – Amazon.com

 

Com o cheiro das glicínias: Romance

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publicado por Carlos Alberto Correia às 16:38

Desculpa meu filho

Quinta-feira, 02.01.20

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Eis-nos chegados aos anos vinte do séc. XXI, com muitas probabilidades de eu, e muitos outros da minha geração atingirmos o término do nosso percurso nesta quase esfera onde, sem parar, rodamos parecendo que a rotação do planeta obriga a um ciclo continuamente repetido de problemas.

 

Sei bem que Marx, na senda de Hegel, anunciou que a história não se repete e, posteriormente terá enunciado que afinal o faz, só que a primeira vez como tragédia e a seguinte como comédia. Não pondo da parte a justeza do pensamento dialético, no dealbar desta década, confrontado com a visão dos acontecimentos e com os relatos do século passado (e só isto transporta a estranheza de começar a sentir ser de outro tempo), principio a aperceber-me de um sentimento de “dejá vu”, de similaridades chocantes, de um sensação de impotência face ao que parece, em interminável repetição, vir por aí quase sem remissão.

 

Se observarmos os primeiros anos do sec. XX, veremos a ebulição do mundo, onde uma classe de proprietários dominava os aparelhos ideológicos, económico, sociais e legislativos, criando e justificando uma situação de desigualdade sempre crescente entre  possuidores e despossuídos. Estes, na maior parte mão-de-obra a raiar a subsistência, eram cada vez mais e mais pobres, os outros eram cada vez menos e mais ricos. Não ouvem aqui o eco de alguma coisa?

 

As diferenças de posses tornaram-se tão extremas que, simplificando, duas guerras aconteceram, criaram-se sociedade proletárias e, perante o perigo, o capitalismo proprietarista, confrontado com o modelo comunista, “inventou” a social-democracia, válvula de escape das tensões sociais que conduziram ao descalabro da guerra, estabelecendo uma proporção mais justa na distribuição dos rendimentos. O Estado tomava em mãos, através de mecanismos distributivos como as taxas de impostos progressivas – pagava mais quem mais recebia ou possuía – do Serviço Nacional de Saúde, do acesso à educação daqueles que poderiam aspirar a ela mas, considerado o estatuto económico e a estratificação social, nunca lá chegariam, e, muito importante, do aparecimento de legislação do trabalho com concessão de direitos aos trabalhadores, da criação de institutos reguladores sobre as atividades económicas, e por aí adiante.

 

Na verdade, este capitalismo de rosto humano apenas escondia medo, hipocrisia e a exploração colonial, transferindo para os chamados países subdesenvolvidos as tensões habitualmente existentes no interior das “sociedades desenvolvidas”, diminuindo, de forma e com intensidades várias, os conflitos intra-sociedades. Nunca a classe trabalhadora destes países viveu tão bem, jamais teria sonhado com perspetivas a abrirem-se com a sua promoção a classes médias com direitos, conforto, possibilidades de consumos além dos de mera subsistência. O modelo era tão cativante que boa parte do mundo, sobretudo ocidental, americano do norte (Canadá incluído) se lhe converteram. Alguns chegaram de forma “natural” a este patamar, outros – como nós – esperaram anos e só pela força das armas conseguiram passar a estreita entrada da menor desigualdade.

 

Tudo foi no melhor do mundo até aos anos oitenta. Aí, com o desaparecer do perigo comunista – falhado ao trocar a construção da igualdade pela competição industrializadora e armamentista - introdutora de novas desigualdades, perdidas as matéria primas baratas por desmantelamentos do colonialismo e neocolonialismo – o capitalismo de rosto humano sentiu-se livre para tirar a máscara e mostrar a face real, na forma de neoliberalismo ou, noutra designação, híper capitalismo. Foram seus arautos e executores Margaret Tatcher e Donald Regan. Este, imbuído do melhor espírito capitalista e protestante clamava ser bom ser rico e demonstrá-lo publicamente. Para tanto ambos, e não sozinhos, iniciaram a destruição de quanto se havia feito no campo do direito e da construção da igualdade, gritando as palavras de ordem, desregularizar, privatizar tudo, mesmo a sobrevivência e a saúde, baixar salários e benefícios, aumentar o lucro de empresas e a riqueza dos empresários. Tudo em nome do bem comum, do investimento, do progresso tecnológico, objeto e possibilitador deste volte face social.

 

Só demasiado tarde percebemos a armadilha. O discurso ideológico que envolvia os desígnios escondidos era cativante, demonstrava-nos o contrário do pretendido e, feitos parvos, embarcámos no comboio do consumismo, deixámos livre as  feras que se alimentam das nossas vidas, demos-lhe a carne quando pensávamos acaricia-las. Foi bem feito!

 

Não nego que pensámos  agir bem. Estarmos a melhorar o mundo enquanto caíamos na falácia do eterno crescimento sem pensarmos que vivíamos num mundo de recursos finitos, lutando para possuirmos cada vez mais objetos, mais coisas inúteis, conquistámos a depressão e a falta de tempo para usufruir dos” gadgets” adquiridos, esquecemos a nossa humanidade e permitimos que a miséria voltasse a instalar-se, mesmo nos países mais ricos, deixando meio mundo a viver na penúria e na revolta.

 

Por isso falei em “dejá vu” e peço desculpa ao meu filho, e aos filhos dos pais da minha geração. Tentámos verdadeiramente diminuir as desigualdades, mas falhámos quando pensávamos estar no bom caminho. Olhem com mais atenção para o mundo. Dois mil e oito foi ontem e, apesar de todos os dramas, parece que não aconteceu. Os seus responsáveis, salvo algumas cabeças que foi necessário sacrificar para aplacar a raiva das massas sofredoras, continuam nos seus postos privilegiados, a fazer os mesmos jogos, a aumentar de forma nunca vista as diferenças sociais, as desigualdades económicas, mais uma vez desregularizando a favor do equilíbrios de mirabolantes “mercados”, de investimentos feitos para tudo melhorarem e que cada vez mais pioram os níveis de vida, as possibilidades de destruir as desigualdades que, quando levadas ao extremo, de que não estamos longe, precipitam o mundo em querelas horríveis e sangrentas. Para lá caminhamos e, alegremente, preparamos a cada vez mais previsível sexta grande extinção. A nossa! Podem ter a certeza de que o mundo não se importará. Do esgotamento de recursos naturais que fizemos, da lixeira em que tornámos o mundo, ele inventará uma outra espécie que se tiver juízo, em vez dos nossos filhos, herdará a terra.

 

Restam algumas esperanças de que a humanidade perceba o perigo e possa reinventar-se. Alguns sinais vão aparecendo por aí. Mas será difícil fugir ao holocausto. Os interesses instalados são demasiado poderosos.  Cegos pela miragem do lucro, não descansarão até tudo ter sido consumido. A não ser que as novas gerações vençam onde nós nos perdemos e plenos de uma nova inteligência percebam e consigam tornar o planeta na casa comum, demonstrando não haver almoços grátis e que todos os atos têm consequências.

 

Por te legar esta década, que será, com muitas probabilidades a última para muitos de nós ,em que se poderá definir se sobreviveremos como espécie ou se chegaremos à destruição mutuamente assegurada é que te peço  desculpa, meu filho, pelo mundo que te deixo. Oxalá possas tornar falsos os receios que me assaltam e tu, e todos os demais, consigam usufruir muitas décadas de felicidade. Para tal é premente tomar atenção e diminuir, em todo o mundo, as desigualdades, mesmo que para isso seja necessário abrir mãos de algumas comodidades, distribuir um pouco mais de conforto por todos, privando-nos de algum daquele que temos em demasia. É difícil, eu sei! Mas, é o único caminho possível.

 

E, já agora, atenção, muita atenção, à água!

 

 

Publicado in “Rostos on-line”

 

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publicado por Carlos Alberto Correia às 12:23

Falo, hoje, de Paixão…

Domingo, 26.05.19

Paixão.jpg

 

 

 

Ele poderia chamar-se Francisco Ferreira, ela Maria da Esperança. Nomes vulgares, fora das sonâncias doiradas de heróis de novelas amorosas. Moravam próximo e não se conheciam. Cada um vivia o seu mundo, os interesses para os quais se orientaram, ou foram orientados, por causas próprias, educação, origens sociais etc... Como desconhecidos inexistiam um para o outro até ao dia em que, por um qualquer acaso – não vamos aqui discutir esta abstrusa noção – de modo imprevisível, sem premeditação, cruzaram os caminhos. Descobriram-se e o mundo mudou. Desprendia-se dele uma melodia nova, única, inaudível para todos os outros, apenas percetível para os amantes. Magias do coração, poderia alvitrar-se!

 

Fosse como fosse os até aí indiferentemente desconhecidos tornaram-se centro do Universo. Nada existia fora deles, nada poderia ser sem eles, uma estranha completude juntou as suas vontades, sonhos, significados  e porvires. Se dúvidas houvesse o incomparável doce dos beijos, o tremor da toda a terra quando os seus lábios se procuravam, davam-lhe a certeza da convicções absoluta onde mergulharam. O mundo existia, claro! Eles estavam, indubitavelmente, nele, mas, nos momentos de maior deslumbramento, parecia-lhes permanecer apenas por eles e para eles. Que assim fosse pela eternidade, desejavam-se!

 

No entanto, na perfeita comunhão dos sentimentos, algo subterrâneo, sombrio, parecia comer o tempo. Tudo eram momentos. Uma ameaça invisível pairava sobre o sublime dos sentimentos. O que agora fora de inexcedível passava instante, deixando apenas uma leve penumbra do que fora. Sentiam-se instados a agarrar cada momento, a esvaírem-se de plenitude mal acabados de sentir. A sensação passada, manter-se-ia em memória, mas sempre no risco de ser sobrepujada por outro momento, outra impressão. Como não queriam perder nada de quanto houvessem sentido apoderaram-se, para tal, das canções. A cada momento a guardar juntavam a música que o sublinhara. A sua paixão poderia, assim, assemelhar-se a um eterno concerto. Cada melodia faria reviver um momento específico, uma recordação. Por muitos anos que vivessem, se a vida os viesse a separar – que tal não acontecesse - ao ouvir, por vontade própria, ou por sintonia de eventualidade fortuita, qualquer dessas canções, para sempre ficadas suas, fixadas no momento privilegiado do acontecido, seria um pouco como, não perdendo nada de quanto, para além disso,  tivessem vivido, regressassem, por momentos, ao doirado das sensações havidas nos tempos perdidos.

 

Como nós sabemos e Francisco e Esperança fingiam ignorar, os mandos das vidas, o percursos das pessoas, os ditames do império, as dunas das memórias, vieram, de modo vário, roubar toda a quentura das descobertas de cada um no outro, trazendo banalizações, desencontros, enganos e desenganos, até ter Francisco perdido a Esperança  e esta ter-se esvaecido do nome e da vida de Maria. De toda a glória havida restaria apenas o fugaz sentimento despertado pelas músicas e, no momento, a dúvida - somos tão vários e por vezes incomunicáveis - se aquela melodia, a colocar Francisco no auge de uma qualquer extinta felicidade, seria a mesma que Esperança associaria ao momento. Enfim, preocupações de somenos porque, mesmo sendo qualquer outra, em termos de revivência de alma, a mesma sempre seria.

 

Passados muitos, muitos anos de ausência, novas presenças, outras recordações, nem Francisco sabe onde e se vive Esperança, nem esta de Francisco jamais teve notícias e, tendo eu, brusco de vivências sólidas afirmado nada, Francisco, ganhaste com isso, ele, de sorriso melancolicamente irónico, seguramente sábio, remeteu-me para o Principezinho: “quando disse á Raposa que nada tinha ganho por ter sido por ele cativada, agora que a partida impunha a separação definitiva, que isso a faria sofrer e fazer chorar, respondeu ela ter ganho a cor do trigo. Eu não como pão, explicava, por isso o trigo não me dizia nada; agora, porém, ao observá-lo a ondular ao vento verei o louro dos teus cabelos e lembrar-me-ei eternamente de ti. E terminou, penso, dizendo, vai pois procurar a tua rosa, porque ela é única.

 

Por isso, retomou Francisco a palavra, cuidei da minha rosa e guardei um cantinho para a Raposa, que nada rouba ao quanto quero à rosa. De novo sorrindo, desta vez em enigma, foi dizendo, quem sabe se hoje, a Esperança, se ainda viva, ao dirigir-se à Mesa de Voto, não votará no mesmo partido que eu, ouvindo no coração as melodias com que nos habitámos e construímos.

 

É a vida, Carlos, disse-me Francisco, na secção de voto, ao dar-me o abraço de despedida.

 

Publicado in Rostos On Line

 

 

 

 

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publicado por Carlos Alberto Correia às 19:28

O dianho do “crowdfunding”

Terça-feira, 19.02.19

 

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A Procuradoria-Geral da República (PGR), a instâncias do Governo, produziu um parecer em que considera ferida de ilicitude, em dois pontos, a greve cirúrgica dos enfermeiros. No primeiro não me deterei por duas ordens de razão. A principal é não ter tido acesso ao texto completo do comunicado ( só o ouvi referido por membros do Governo ou vi mencionado nos meios de comunicação) e debruça-se sobre minudências de interpretação jurídica, à qual não me atrevo.

No entanto, para conhecimento geral, referirei tratar-se do putativo desacerto entre o constante no pré-aviso de greve e nas ações praticadas pelos grevistas. Já no segundo ponto me encontro em total desacordo com a posição emitida pela PGR, a qual considera ilícito o apoio monetário à greve, por não porvir dos sindicatos que a declararam.

Relembremos que a greve é, por natureza, um confronto, pelos menos entre duas partes. De um lado os trabalhadores, do outro a entidade patronal. É, assim, uma espécie de miniguerra onde cada lado pretende vergar, por meios variados, a vontade do outro. Ora acontece que as partes não têm ambas o mesmo poder económico, e não só. Assim ambas serão obrigadas a recorrer a meios que lhe possam dar vantagens sobre o oponente. Parece-me não restar dúvidas que neste embate, a parte economicamente mais débil será a dos trabalhadores. Isto reconhecido ressalta a necessidade de superar a fraqueza de molde a que ela não se torne obstáculo à consecução dos objetivos.

Todos percebemos que, regra geral, a empresa terá maiores possibilidades de aguentar um tempo mais longo sem produção, que os trabalhadores ficarem sem vencimento por período prolongado. A alimentação, a renda da casa, e muitos outros gastos lá estarão a pressionar o grevista e família, tornando-o, quase à partida, um futuro derrotado. Nem sempre é assim, mas é-o tantas vezes que foi necessário dar algum remédio a esta fraqueza de molde a desincentivar o desânimo que tal conhecimento causaria ao possível grevista, afastando-o da luta.

Sabemos, através da história, que mesmo quando as greves eram consideradas ilegais e sobre os trabalhadores caía o peso da repressão, foram utilizadas formas de solidariedade para com os grevistas e famílias. Foram elas o aporte de alimentos para o pessoal em luta, a constituição de fundos monetários por colegas e amigos, de molde a minorar o prejuízo sofrido por cada um e a proporcionar a continuidade da luta até à cedência da parte contrária. Estes atos estão na constelação dos financiamentos coletivos, o conceito que em português significa, vejam lá a coincidência, “crowdfunding”.

Alguns sindicatos, entre nós o primeiro, salvo erro, o dos Estivadores, institucionalizaram esta ajuda criando um fundo permanente de greve. Sabemos da sua força nas negociações coletivas e de como era/são temidos pelos Armadores.

Por isso o meu desacordo com a PGR quando considera ilícito o financiamento coletivo da greve cirúrgica dos enfermeiros, por não ser o mesmo gerido pelos sindicatos que a apoiam. A argumentação parece-me forçada, sobretudo quando é falácia propalada ser tal fundo uma forma enviesada de luta entre o setor particular e o Serviço Nacional de Saúde. Que a ninguém reste dúvidas do meu posicionamento por este e pretenda das minhas palavras tirar ilações que elas não comportam.

Os enfermeiros têm razão. É um escândalo o que se passa com os seus vencimentos e carreiras. O estafado argumento de que não há dinheiro cai pela base quando confrontado com o dilúvio de euros a tombarem sobre a banca. É preciso ter vergonha e perceber que a defesa do SNS passa pelo reconhecimento do valor dos seus componentes o que, nesta sociedade quer dizer melhores condições de trabalho, vencimentos adequados, carreiras estruturadas. Não o perceber é condenar o SNS à exaustão, ao declínio, à emergência de um setor privado que apenas tratará quem tiver dinheiro e doenças que deem lucro. O mais - e serão muitos - ficarão à porta desses hospitais ansiando que o SNS não tivesse sido desmantelado pela incúria e falta de visão dos responsáveis políticos.

Assim só se pode compreender o posicionamento quer da PGR, quer do Governo, como uma miopia de classe que, na prática, se recusa a reconhecer a legitimidade da constituição de um fundo que permita sustentar uma luta legítima e que pode forçar a parte contrária, falha do argumento da debilidade financeira dos grevistas, a procurar o caminho da negociação, assente em forças semelhantes.

Resta a questão, emocionalmente forte, do sofrimento dos doentes que ficam sem intervenções cirúrgicas ou as veem adiadas. É sem dúvida um argumento poderoso, mas para isso lá está a lei da greve e os serviços mínimos devidamente ponderados. Com esse instituto e na consideração dos interesses em jogo, deverão ser tomadas as decisões corretas e estas não podem passar pelo ato hipócrita, e socialmente marcado, de subtrair a um dos oponentes, a arma que poderá ser decisiva na sua luta.

É para mim seguro que, desde que transparente quanto aos financiadores, o “crowdfunding” é ,à partida, o sopro de ar fresco que faltava ao ritual de greves quase sempre condenadas ao malogro, por debilidade económica da maior parte dos participantes.

Chamemos, pois, os bois pelos nomes e percebamos que o precedente aberto pelos enfermeiros assusta as classes dirigentes, porquanto já perceberam que a novidade aportada por esta forma de sustentação de luta lhes retira espaço de manobra e fortalece, portanto, quem, contra o “status quo”, ousa levantar a voz.

 

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publicado por Carlos Alberto Correia às 12:31