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MEMÓRIAS

Quarta-feira, 12.08.20

 

 

carlostrave.jpg

 

 

 

Nota – Decorria o ano de 1969. Regressara recentemente da guerra da Guiné. Curtia lutos de amor e estranhava o quanto tanto mudara em dois anos. Na casa da Margarida Morgado – a nossa Guida – juntávamo-nos todas as noites para ouvir música proibida, falar em revolução, dizer e fazer poesia.

 

No último dia em Évora, a vinda para Lisboa parecia tão sofrida como a ida para a colónia, deu-me o estro e saiu este poema:

 

com desacordo para a elsa

 

no qual tentava expressar as contradições que permeavam o grupo, assim como a tristeza de  ter de o deixar.

 

Hoje, embora seja situação recente, já nem a Margarida, a quem foi dedicado este poema, está em Évora. Mantenho por lá, ainda, família e amigos, mas cada vez menos. É a vida!

 

Este poema faz parte do livro “silêncio mordido” onde foram publicados todos os poemas a que a censura proibiu a publicação.

 

Por isso com saudades, apesar de tudo, dessa gente e desse tempo rededicando-o à Margarida e aos amigos de então aqui vai a minha conversa com a Elsa

 

 

com desacordo para a elsa

 

                  aos amigos da casa da margarida

 

 

 

a burguesinha de burgos

tinha cabelos loiros  tinha

olhos e voz cantantes

também as pastas de dentes

anúncios  televisão

 

que tinhas burguesinha

 

sorrisos de esperança  chopin calmo

a noite e os amigos

que se tinham e não tinham

 

se soul em soul a música se criava

em manifestas barbas por cortar

 

os bailarinos de cabeça para trás

com nenúfares nos ombros cegos

e mais música música com mais lendas

e beijos e lágrimas

 

pobre pobre margarida

a intermediar polos

revoluções  as árvores sangrando vítimas

as uvas fortes das mesas antigas

 

que mais tinhas burguesinha

 

a voz que se gritava  as meias caras perdidas

sapatos convicções

boas noites ao partir

 

sonha puro burguesinha

que este mundo suja todos

 

quem é que lava mais branco

 

todo o céu do meu país é azul ou azulado

todo o mar que se descobre é um mar já batizado

 

quem disse que em burgos não havia burguesinhas

 

os saxofones  as tubas  as massas alimentícias

são a cidade

e le plus grand bonheur du monde

não é o mundo que temos

ao deixá-lo

 

tu és a burguesinha e eu não acredito

que o queiras não ser

são tuas a música  as noites  a repartição

simples dos momentos

 

tens quase o que eu quero dar aos outros

falta-te um vietnam nas sobrancelhas

nagasaki em cada poro do rosto

 

creme creme creme puff

 

penso que gravitas no arroz fácil

acima das urtigas negras

covas de braços de prostitutas

e carnavais arrastados

 

deixa-me rir burguesinha que da tua rua eras

que um dia

somos só quartos sem ar

dó maior

reproduções

e horários de comboios no terreiro do paço

 

quem foi que disse que em burgos

não havia burguesinhas

 

Carlos Alberto Correia

 

 

 

 

 

 

 

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publicado por Carlos Alberto Correia às 22:40

O que vamos ser depois da epidemia?

Sexta-feira, 24.07.20

 

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A cidade está mais deserta. Cafés e restaurantes, apesar do distanciamento preventivo e das desinfeções contínuas, continuam com pouca afluência. Só nos lugares obrigatórios as filas crescem nas ruas, ao correr da parede a ladear a porta, levando os utentes ao desespero de aguardar a vez, que nunca mais chega, sob os ardores do sol. São alguns efeitos visíveis da pandemia.

 

Há cerca de um ano, conversando com amigos sob as perspetivas possíveis para a nossa época, considerando as parcas expectativas de alguma solução menos gravosa, previa encaminhar-se o mundo para caminho só conducente ao desastre. Perorava sobre os dois modos principais de reequilíbrio de sociedades desestruturadas por desigualdades gritantes: a peste e a guerra. Do alto do meu orgulho civilizacional apostava ser o conflito sangrento (de alta ou baixa intensidade) o regulador dos desníveis uma vez que a doença pandémica, considerados os vastos recursos médicos na posse do mundo, estaria afastada das possibilidades. Apesar dos graves problemas ambientais as nossas cidades em nada se pareciam com os insalubres burgos da idade média, ou mesmo dos séculos pós-industriais; a evolução da medicina teria, enfim, posto travão à vulnerabilidade, existente em qualquer forma de vida, da qual, por superiores, nos tínhamos afastado em definitivo.

 

Enganei-me! O Covid veio demonstra-lo sem margem para dúvidas. De repente vimo-nos indefesos, confinados, evitando o contacto físico com familiares e amigos, conversando, através de plataformas informáticas com pais e avós internados em lares, incapazes de perceber as ausências físicas, olhando com desconfiança e desconforto as imagens remotas através de “smartphones” e “tabletes”, privados do olhar presente, do toque, da respiração.

 

Factos que pareciam peças inamovíveis de granito, na ótica do sistema vigente, foram caindo, mostrando as fragilidades de cada nação, descobrindo a destruição larvar, subterrânea, desenfreada,  disfarçada de crescimento enriquecedor, ostentando os vitoriosos (poucos), ocultando, na medida do possível os esmagados pelas muitas impossibilidades e decisões que permitem que os poucos sejam os que, sobre os muitos, os que mais ordenam. O que esta pandemia, longe de estar vencida veio demonstrar – embora muitos ainda o não queiram ou possam ver – foi a falência do sistema dominante incapaz de suster a voracidade viral.

 

Sustento esta última afirmação na ultrapassagem de quanto se disse sobre a “democraticidade do vírus”. Embora aceitando tal como mera metáfora (os vírus são uma estranha forma de vida) poderemos afirmar, com as certezas próprias das mais fundamentadas ciências, não serem portadores de conceitos de democraticidade ou tirania. Vivem simplesmente cumprido a lei básica da vida “crescei e multiplicai-vos”.

No entanto, se tal ainda fosse necessário foi um revelador cruel das desigualdades. O confinamento de quem mora numa boa casa, mesmo que não seja a vivenda com piscina, rodeada de sebes e flores, em nada foi semelhante ao da família de fracos recursos com três ou mais pessoas a viverem amontoados em pequenos apartamentos, ou, situação agravante, nos bairros de lata a circundarem a cidade.  Estas circunstâncias, mascaradas enquanto durou o confinamento, rebentaram logo que o mesmo foi dado por terminado. As condições económicas de cada agregado revelaram a consonância com a morbilidade geral. A mancha dos novos surtos situa-se nos bairros limítrofes (inacabados ou mesmo clandestinos) plantados ao correr das linhas de comboios que, todos os dias, pendularmente os transportam para os empregos que restaram e a que, nem pela força de qualquer vírus, poderão faltar para que a família não venha a morrer da doença, mas sim da cura.

 

É claro que acontecimento desta importância, com o poder modificante inerente, não poderia deixar de ser analisado a todos os níveis: sanitário, económico, social, filosófico, etc.… Vou ressaltar aqui as questões mais filosóficas porquanto as económicas têm tido sobre elas os focos da comunicação social; para as sociológicas ainda o material está a ser recolhido nas muitas formas de resposta e superação do evento; as sanitárias galopam sofregamente sobre as questões de imunização. Porém, as filosóficas já podem e estão em campo, tentando a resposta à pergunta, o que e como vamos ser depois da epidemia?

 

Dois livros, saídos recentemente, “Este vírus que nos enlouquece” de Bénard-Henri Levy (Edições Guerra e Paz) e “Vírus soberano – a asfixia capitalista” de Donatella Di Cesare (Edições 70), procuram enquadrar o acontecimento. Henri-Levy, aparentando um distanciamento da loucura de Trump e Bolsonaro, na minha opinião, cai na mesma armadilha porque, ao pretender um “pensamento libertário”, acaba a negar, em nome dos direitos individuais soberanos, o dever de defesa coletivo, considerando o facto dos poderes aproveitarem os períodos de exceção para coartarem os direitos dos cidadãos de forma definitiva. Já Di Cessar, apesar da linha predominantemente filosófica, utiliza bastantes ferramentas sociológicas fazendo um enquadramento das várias situações com recurso a análises históricas e sobretudo à utilização do medo como forma, cada vez mais presente, da destruição interna das nossas democracias.

 

Tendo em conta que a Filosofia pretende sobretudo pensar o mundo como ele deveria ser – desculpem-me os filósofos tal simplificação – considero que ambos, Levy na perspetiva individualista, Di César mais do coletivo,  produziram obras importantes para uma primeira abordagem aos tempos que ai vêm, que serão certamente diferentes e de continuidades, mas que, por enquanto, ninguém pode, com alguma certeza dizer o que e como serão.

 

Tempos “interessantes” nos aguardam.

 

 

Publicado in “Rostos On line”

 

 

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publicado por Carlos Alberto Correia às 17:52

O Distanciamento social, claro!

Sábado, 27.06.20

 

covid.jpg"imagem recolhida no Face Book"

 

 

Nós, portugueses, somos assim. Ciclotímicos! Passamos da euforia à depressão e vice-versa, mais depressa que um Ferrari vai dos 0 aos 100. Embandeirámos em arco com êxito na primeira fase da luta contra o Covid, perdemos a cabeça com o surto extemporâneo de Lisboa e Vale do Tejo. Como também é nosso apanágio mais que tentar resolver o caso partimos numa cruzada para indiciar culpados, sacudirmos a água do nosso capote.

 

Como foi profusamente informado e fez caso nos média, o primeiro ministro perdeu a serenidade. “Mandou vir” com a ministra da saúde e, desalentado por o seu discurso sobre a testagem ser contrariado pela comunidade científica, abandonou intempestivamente a reunião no Infarmed, deixando uma ministra encabulada, os técnicos perplexos, o Presidente em estupor, a pensar como resolveria a situação. Pois!  A linguagem científica não é, nem pode ser a mesma dos políticos. É difícil acomodar as dificuldades de investigação, com a leveza, feita de forçada ingenuidade, do discurso cor-de-rosa pronto a servir no noticiário das oito, para deixar o povo tranquilo, pensando menos em epidemias e custos de vida e trabalho, refastelando-se no prazer  que eu,  por estúpido, não entendo de sermos o País de estatísticas exemplares, a merecer a subida honra de albergar a mais triste final do campeonato europeu, a decorrer dentro de pouco tempo.

 

A pergunta que qualquer cidadão de bom senso fará é, certamente, como chegámos aqui. Tentemos analisar, ainda que com alguma superficialidade, o percurso seguido.

 

Embora com algum atraso, mas com coragem bastante, recolhemos a casa, vimos e apoiámos os esforços do Governo para adquirir meios, equipamentos, pessoal, para fazer frente à tempestade a desabar -  já não subitamente, beneficiários que fomos de dramáticas experiências de outros países – sobre nós. Medo e esperança constituíram os ingredientes necessários ao objetivo traçado (achatar a curva). Com os esforços de toda a gente, confinados e os que ficaram nas trincheiras a combater o invasor, fizemos um figuraço. Portámo-nos bem! Recolhemos os créditos.

 

Mas aí um fantasma agigantava-se. Estávamos em Junho. A época alta do turismo aproximava-se e muito boa gente temia perder boa parte dos réditos antecipados. Por outro lado a economia inquietava-se, ressentia-se, chamava a atenção, tinha ciúmes da saúde. As pressões dos lóbis sobre os governantes deve ter sido intensa. Tanto que, a despeito de ter sido afirmado que só desconfinaríamos quando o índice RT estivesse abaixo de 1, esquecemo-nos deste limite e lá fomos para os afazeres diários com um índice de 1,1. Poder-se-ia prever o risco inerente a esta decisão. Talvez se tivesse previsto. Dou de barato que os mandantes, pesando os termos, tivesse decidido pelo aumento marginal de casos, diminutos, controláveis. Assim, um pouco triunfalmente fomos mandados sair de casa, aconselhados a lavar as mãos, usar máscaras,  manter o distanciamento social. Tudo bem. Parecia razoável. O pessoal já não aguentava mais tempo fechado, a economia fazia sentir a sua premência e, como bem foi dito, sem produção não há saúde que aguente.

 

Até aqui nada de substancialmente errado. Podia concordar-se ou discordar-se, mas as decisões eram racionais,  compreensíveis. Mas então aconteceu o “impensável?”. A pandemia recrudesceu em força, sobretudo situando os seus malefícios em Lisboa e Vale do Tejo! Impropérios, por quem de direito, devem ter sido ouvidos nos lugares próprios. Exortações a descobrir os focos de infeção, também não devem ter faltado. No entanto, apesar de tudo isto, nada se descobria, nada dava resultado visível. Estariam os fados a conjurarem-se contra nós? Fartos da nossa “húbris” desfechariam as potestades o seu raio raivoso a atingir-nos em tempo e locais tão perigosos aos desígnios turísticos da nação que dele se alimenta?

 

Surgiram os discursos justificantes. A construção civil, as empregadas domésticas, a festa em Odiáxere, o , talvez excessivo, número de testes em relação a países menos honestos a concorrerem pela quantidade de turistas. Durante uns dias a explicação pegou. Porém, análises mais coerentes, distanciadas de interesses e poderes, vieram mostrar o peso relativo de tais explicações. A construção civil nunca confinara, as empregadas domésticas sempre trabalharam (que outro remédio teriam?), e o raio dos técnicos tiveram a ousadia de desmentirem o tão conveniente discurso da quantidade de testes a explicar tudo e mais algumas botas. Ah! Não devemos esquecer a tentativa desesperada de condenar e responsabilizar as festas (inaceitáveis) de jovens, permitindo manifestações e congéneres. Isto, por certo, baralhou um pouco o discernimento das gentes.

 

Aquilo que nunca passou pela cabeça dos nossos dirigentes, confesso que seria extraordinariamente difícil de por na equação é que, enquanto confinados, os 50% de transportes em funcionamento – com o restante pessoal em lay-off – podendo ser suficientes, seriam, após o desconfinamento, altamente deficitários. Eu entendo a extrema dificuldade desta perceção. Mesmo eu, escriba que se quer honesto, andei de cabeça tonta à volta do problema, levando tempo para descortinar esta, que é uma – não a única - das causas suficientes. Talvez, ingenuamente, o Governo tenha pensado que, ao dar ordem de soltura as empresas de transporte, eivadas de moral social acima do cálculo, chamassem o pessoal em lay-off, aumentassem o números de veículos e, sem mais, não deixassem ultrapassar os dois terços máximos de lotação, necessários à salvaguarda da saúde dos utentes. Mas, senhores ministros! Ainda não perceberam que o coração, a moral, da maioria das empresas é uma folha de cálculo? Pensavam que, de motu-próprio, acorreriam a prescindir da renda paga pelo Estado, a arriscarem menos lucros, ou mesmo alguns prejuízos, aumentando de imediato o transporte de molde a poderem cumprir o indicado, por Vexas, como máximo de lotação? Francamente, nem eu serei tão ingénuo.

 

E depois, também eram desconhecedores da cintura de pobreza e degradação habitacional dos arredores de Lisboa. Acredito! Talvez nunca por lá tenham passado e, ocupados como estão, nem têm tempo para ver telejornais. Porém eu vejo-os! Pasmava com as descobertas de positivos mandados para casas sem condições onde, na espera, infetariam todos os residentes, que iriam infetar quem se apertava com eles nos transportes, que por sua fez fariam a inseminação do vírus nos locais de trabalho e a seguir iriam infetar quem com eles se cruzassem nos tais transportes a 50%, nos supermercados, no bairro, no café, na habitação! E estão admirados de não descobrirem as origens do surto? Tivessem vocês tempo e teriam visto, uma destas noites, na Televisão, um gráfico a mostrar as regiões onde o vírus se passeava. Nunca, mas por nunca ser, me lembraria daquilo que vi. Não é que a mancha se distribuía, quase homogeneamente, ao longo do traçado da linha de Sintra? Inacreditável!

 

Bem, poderia estar a estender estas perplexidades por um ror de casos. Porque o espaço é “valioso” e a minha paciência curta, vou terminar deixando, como convém às histórias infantis, uma moralidade. Não podemos ceder à ganância de interesses privados. Entre eles o turismo, -não único, mas citado por, em minha opinião, ser um dos que mais peso teve para que o desconfinamento fosse feito de tão apressado modo, aceitando riscos demasiado grandes - o qual, no receio de perder avultadas verbas na estação alta, queria, mesmo à custa da mentira e do descalabro, manter vivo na ideia da estranja, sermos o paraíso “Covid safe”. Por isso havia de declarar-se, ainda que com indevida antecipação, a normalidade possível. Assim o quiseram, assim o impuseram e, como as cadelas apressadas parem os filhos cegos”, a cegueira desceu sobre todo o discernimento, abrimos as portas a riscos até aí evitados e glória das glórias, por receio da perda de alguns recebimentos de turistas mais receosos, por pura ganância, vamos perdê-los quase todos, estragámos o bom trabalho feito e vamos ver quanto isto vai custar-nos mais quer em termos económicos, quer em saúde, morte e infortúnio.

 

Já me esquecia! Como em todos estes casos, vão ter de aparecer responsáveis, de rolar cabeças. Conhecendo a justiça destas situações posso alvitrar que haverá mão pesada para todos os interveniente. Exceto, como é natural, para os verdadeiros culpados.

 

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publicado por Carlos Alberto Correia às 18:44

A folha de nenúfar

Terça-feira, 23.06.20

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Carl Sagan referia-se ao nosso planeta, visto do espaço, como “o pálido ponto azul”. Um astronauta, do qual não me recordo do nome, afirmou “do espaço não se veem fronteiras na Terra”.

 

Destas duas abalizadas afirmações quero partir para falar, não sei bem se de pandemias, ambiente, globalização, sociedades, civilizações, um nunca acabar de classificações redutíveis a uma única palavra: Humanidade. Pois é disto que se trata. Antes de avançar recordo um documentário, visto há muitos anos, seria pela minha longínqua adolescência, o qual me impressionou vivamente. Tratava-se de uma colónia de um qualquer inseto, semelhante a joaninhas, mas de cor verde esmeralda (algum biólogo os defina) a viver, em folha enorme de nenúfar, num lago. A ausência de predadores permitiu à colónia evoluir em número até ao momento em que o seu sucesso se transformou em tragédia. Pela quantidade, por se alimentarem dessa folha onde habitavam, a mesma perdeu a capacidade de suportar alimentação e peso, afundou-se no lago, levando com ela toda a próspera colónia que tão desequilibradamente nela progredira.

 

Se descobrem aqui alguma metáfora comparável à posição da Humanidade sobre a Terra, estão de parabéns. Acertaram completamente. Nascemos humildes mamíferos à disposição de predadores poderosos. Através da inteligência conseguimos prosperar, dominá-los, exterminá-los, domesticá-los, pô-los ao nosso serviço. Como mandava a Bíblia, povoámos a Terra, só não tivemos cuidado. Cientes de, como espécie, em todos mandarmos, tudo dominarmos, explorámos sem freios quanto estava em terra, no mar ou no ar. Crentes do nosso poder vamos esgotando o meio que nos sustenta. A consciência dos perigos advindos de tais comportamentos começa a ser visível. Muitas vozes bradaram no deserto, como habitualmente, sem serem ouvidas e quando o foram, minimizadas ou mesmo ridicularizadas. Ninguém se queria dar ao incómodo de parar, perceber o absurdo de crescimento continuado num mundo de recursos finitos, numa ânsia crescente de acumulação com vista ao domínio de poderes efémeros, pertencentes a indivíduos, prejudiciais ao conjunto. Assim vamos vivendo, ouvidos tapados, vozes incómodas amordaçadas, impantes do nosso saber, cegos às limitações.

 

Construímos coisas belas, é certo. Descobrimos saberes profundos, sem dúvida. Esquecemos porém sermos uma espécie entre muitas outras. Nunca quisemos pensar que seríamos, a continuar assim, uma praga para a Terra e o planeta, que já extinguiu noventa por cento das espécies alguma vez existentes, pouco se preocupará com a sorte que estamos a talhar para nós. No entanto, talvez por misericórdia, de vez em quando, manda-nos um aviso. Diz-nos ser o nosso saber fraco, sermos uma espécie, apesar de resistente, com fragilidades várias e não estamos isentos de nos acontecer algo semelhante aos insetos a viver na folha de nenúfar.

 

Isto conduz-nos – velozmente, com grandes hiatos narrativos – ao presente e à pandemia. Das teorias da conspiração até à estupidez de muitos governantes e gentes tentamos racionalizar e resistir a este ataque feroz a por em causa muitas das nossas formas de viver. Primeiro diz-nos que a contínua devastação de espaços naturais, de ocupação de habitats de espécie selvagens,  de utilização de recursos está errada, põe-nos em perigo, revela estarem as epidemias a aparecer cada vez mais próximas no tempo, cada vez mais alargadas no espaço. Sem querermos ser profetas da desgraça, nem sequer serem precisos grande dotes divinatórios, podemos perceber, se não mudarmos de procedimentos, outras epidemias maiores, com maior brevidade virão visitar-nos. Nem sempre seremos capazes de resistir em termos sanitários e económicos a todas. Nalguma poderemos ver a folha a afundar-se. Como alguém, com sensatez disse, isto é uma pandemia, não é um milagre.

                                                                                               

O milagre acontecido foi, durante o tempo de confinamento, o mundo recompor-se de algumas maldades feitas. As cidades desertas, os carros parados; os céus livres de aviões: O ambiente rapidamente agradeceu. Porém, se continuarmos a proceder como até aqui, com esta economia depredadora, muito brevemente voltaremos ao mesmo, ou estaremos pior. Sei ser muito problemático quebrar o ciclo de produção a reger-nos, que trouxe inúmeros benefícios em todos os campos, mas, como tudo, tem erros que é necessário emendar, limites que é imprescindível impor. Se nos mantivermos do mesmo modo nada de bom poderemos esperar. Se é difícil mudar? Certamente será, tudo tem os seus custos. Mas, somente ao correr das teclas, por exemplo, se deixássemos de fazer voos entre cidades do continente, utilizássemos comboios rápidos elétricos, guardássemos os aviões para voos intercontinentais ou para ilhas, quanto de poluição pouparíamos, quanto de qualidade de vida conseguiríamos, quantas pandemias evitaríamos.

 

Ah! Pois, os interesses! Aí reside a urgência de mudança, isto se quisermos, como espécie, sobreviver!

 

 

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publicado por Carlos Alberto Correia às 01:22

Momentos para inventar o amor

Sexta-feira, 22.05.20

 

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P - Cais das Colunas

 

Kismet ajeitou o títere, largou o manípulo, apagou a luz e fez-se noite. Seguiu Oblata, inconformada com o rumo tomado pelas histórias de Cursino. Discordava com o desvio das narrativas do projeto inicial. Sentia-se incomodada com tanta desesperança. Acreditava nos sentimentos nobres, Cursino fazia-os esmorecer em nuvem de desalento. A vida não era como ele a expunha, ou pelo menos não a queria assim. Depreendia-se, na velocidade dos passos com que se afastava de Kismet, a possibilidade de desacordo sério.

- Espera um pouco Oblata, pareces fugir.

- Parece não! Estou mesmo. Afasto-me da personagem. Não encontra nada de positivo na vida? Terá de levar à abjeção todas as situações?

- Que queres? É apenas realista. Mostra-nos o que vê à volta. Se refletires com menos paixão, verificarás que o colocámos num mundo em rápida decomposição. As pessoas perderam o sorriso. Vivem enfronhadas em problemas de emprego, saúde, mesmo liberdade. Fica-lhes pouco tempo para os afetos, para a comunhão. Se são tratadas como coisas, como queres que reajam como gente?

- Jogos de palavras, desculpas, fuga à responsabilidade de melhorar o mundo. Mesmo que ele tenha herdado uma sociedade a desfazer-se é demasiado esperar que lute, se rebele, com todas as forças, para a modificar?

- Não entendes! Este é o seu modo de fazê-lo. Ao carregar nas tintas tenta, pelo excesso, levar as pessoas ao sentimento de agonia, depois de revolta e finalmente à mudança.

- Crês consegui-lo com tão descabelado método?

- Espero bem. Antes de construir algo novo é, por vezes e sem dúvida, necessário limpar o terreno da tralha obsoleta. Mas antes é fundamental revelá-la, ir até ao mais profundo dos motivos e ações, mostrar o que fica por baixo das aparências, das primeiras sensações, das imagens com que, mesmo involuntariamente, nos apresentamos ao mundo e aceitamos que o mundo se nos apresente. É o que ele tenta fazer. Torna-se, deste modo um revolucionário descrente da revolução que, apesar dele, a dissemina. Empresta a pena à náusea. Demonstra o absurdo dominante na vida. Torna-se espelho repulsivo. Força reações. Vá lá, faz um esforço, acompanha-o até ao fim, não o julgues tão depressa.

 

Teria, ao tempo, terminado o livro. Sem saber como, o tema fugira-me das mãos, escolhera o caminho, levara-me por onde queria, tornara-me quase mero serventuário da sua escrita. Mais que escrever o texto saberia ter sido reescrito por ele. Reconhecer-me-ia ou não nas linhas a que dera vida, mas isso teria pouca importância. De qualquer maneira passaria a estar nas vidas dos outros e os outros na minha. Acabaria a obra sem a satisfação desejada, sem a plenitude com que sonhara, com a sensação de perda, de filho partido do lar, temendo que não estivesse ainda preparado para a vida. Não teria mais tempo para lhe passar conhecimentos essenciais. Haverá tanto por dizer. Saberei que, apesar dos meus receios, ele partirá na construção de caminho próprio. Encontrará gente desconhecida. Ignorarei como será recebido ou tratado. Somente, muito a espaços, terei dele alguns ecos distanciados no tempo. Com isso terei de contentar-me. O caminho estará traçado.

 

Terei dado o livro a ler a amigos. Ouvirei críticas, conselhos, sugestões. Aceitarei umas, ignorarei outras. A todos agradecerei os contributos. Depois de várias leituras, cortes, alterações, considerá-lo-ei terminado. Avançarei para a prova de força. Só terá existência real depois de publicado. Não terei qualquer dúvida sobre o interesse que despertará. Estarei certo, até ao desprezo pelos avisos cautelosos. Vai pessoalmente à editora. Não mandes por e-mail. Sobretudo não faças envio para várias ao mesmo tempo. Isso costuma dar mau resultado. Desagradecerei tais alvitres. Enviarei, para mais de vinte editoras, o original. Poucos dias depois, cinco respostas dar-me-iam razão. Serão laudatórias, tratar-me-ão por caro autor, aprazam reuniões urgentes, podendo ser alteradas segundo a minha conveniência. Desconfiarei de tanta abertura. As entrevistas confirmarão o receio. Pouco lhes importa o conteúdo do livro, desconhecem-no, nem se baterão por ele. Propõem edição paga pelo autor. Tiragem pequena, sugestões de venda em mão, longa lista de livrarias onde – se procurado - não irei encontrar qualquer exemplar das obras por eles editadas. Perguntarei aos livreiros referências sobre essas editoras. Recebem as publicações? Se algum cliente as pedir faremos a encomenda. Mesmo assim demorarão muitos dias para as enviar. Percebo! Serão para vender a conhecidos e ficar com umas fotografias do lançamento. Quase tudo morrerá aí. Apenas produzem edições de vaidade. Ficarei descoroçoado, de nada me servirá o consolo de amigos lembrando-me de que Proust e Joyce também tiveram de custear as suas obras. Não sou nenhum deles, sou Cursino. Recordar-me-ei constantemente de Ecco, no Pêndulo de Foucault, alertando para a forma como, por detrás de editora prestigiada, funcionava outra cujos propósitos eram os de sugar o dinheiro de quem, julgando-se com talento, procurava publicar criação de sua lavra.

Esperarei novos contactos. Vão chegando lentamente no espaço de sete meses. Quatro recusarão liminarmente a publicação. Dois confessarão estar em dificuldades económicas pelo que, embora interessados, não poderão publicar. Os restantes nem sequer responderão. Não estarei disposto a formas de publicação menores, nem desistirei. Voltarei a atacar decididamente o mundo editorial. Passará mais de um ano de pesquisa e tentativa com resultados idênticos. Começarei a desesperar.

Instalada a descrença, interrogar-me-ei sobre a validade do meu trabalho. À exaltação inicial seguir-se-á o sentimento de rejeição. A ninguém interessará o que escrevi? Será perfeitamente desprezível o produto de tanta luta e angústia? Em mim o desespero dos meus personagens. A tudo isto acrescerá o estranho comportamento de Valéria. Informar-me-á que irá passar o fim de semana com um amigo. Será reação por recusar-me a mudar para sua casa? Desengano por não transitarmos a estágio superior de compromisso? Apesar do terramoto interior, calando o ciúme, fingirei despegamento. Ai, vais? Rematará com o seco, pois vou! Regressará domingo à noite, como se nada tivesse acontecido. Não mantive relações com ele, diz-me. Não fui capaz. Só me lembrava de ti. Não acreditarei. Quando se insinua na cama dar-lhe-ei a resposta: mesmo sem saber quem ele é, só consigo lembrar-me dele. Manter-se-á mais uma semana em casa, dormindo sozinha na cama. Ficarei, voluntário, no sofá. Recusar-lhe-ei qualquer palavra. Partirá! Nesse doloroso silêncio Juntarei os dois desaires. Desconhecerei o que fazer. O meu mundo estará desabitado. Tudo falha, tudo foge, nada vale a pena.

 

- Temos então Cursino a provar o caldo que preparou?

- Não sejas injusta Oblata. As desilusões acontecem a toda a gente. Por vezes aparecem em catadupas. Até dá para perguntar, o que virá ainda a acontecer.

- Deste-lhe demasiada corda. Deixaste-o inteiramente à deriva no curso dos acontecimentos. Não deveria ser assim. Incomoda-me!

- És muito severa. Tenta compreendê-lo, as experiências, as falhas, o desabar das expectativas.

- Pois, pois! Desconfio teres em Cursino o teu espelho. Desagradam-me essas disposições negativas.

- Já pressupunha ser o teu malquerer a Cursino interiorização de receios. Sabia que chegarias a essa conclusão. Identificaste-te com Valéria. Temes a reprodução, em nós, das desventuras relatadas. Oblata, Oblata, não cedas tanto à emoção!

 

Estarei de novo, no murete sobreposto ao cais, em desalento absoluto. Segurarei a cópia do livro sem serventia. Folha por folha, rasgá-lo-ei atirando-o para o rio. Retalhar-me-ei com prazer e raiva. Destruirei o livro que ninguém quer, de que ninguém precisa. Os pedaços de papel vogarão na direção da ponte. Alguns, empapados, começarão a submergir. Sinto-me a afogar com eles, não me apetecerá nadar. Irei com as ondas.

 

-Kismet, Kismet, o que se passa? Porque estou a esvaecer?

 

Kismet olhá-la-á. Sentirá o tremor das águas, verá o teatro a diluir-se, a imagem de Oblata distanciada, a desaparecer no balançar da corrente. Perceberá!

 

 Somos personagens, Oblata. Criaturas de Cursino. Fomos enganados! Só vivemos nos seus pensamentos. Nada em nós é real! Não existimos Oblata. Não exist….

 

Ficarei por longo tempo a olhar os restos de páginas a encharcarem-se, afundando-se nas águas inquietas. Partirei depois, náufrago de mim, para o exílio dos lutos. Passarei dias, meses, talvez anos, a contemplar a deceção, até ao domingo das descobertas.

 Encontrá-la-ei no Jardim das Exposições no grupo ao qual, por mero acaso, me juntarei. Percebê-la-ei como tepidez, doçura, suavidade. Ir-nos-emos desvendando ao longo da tarde, na discussão sobre as obras expostas, na comunhão de interesses e ideias. Pouco a pouco, num propósito inconsciente, afastar-nos-emos dos amigos. Perdê-los-emos para nos encontrarmos. Deixaremos o dia escurecer por fora. Iremos jantar. Ao sair do restaurante, já a noite avançada no caminho, receosa da calçada deslizante, procurará apoio em mim. Acolher-me-ei na mensagem daquele corpo em consonância. Ao beijarmo-nos, com o rio por testemunha, suspirou, são tão diferentes os beijos dados no Cais das Colunas. Saberei então que o tempo havia chegado. Ela acudira ao desespero dos chamamentos calados. Estava ali, perene novidade, e para sempre já não assustava. Sabia com o corpo, o desejo, a inteligência, que viera para ficar, para resistir a todos os tombos, manter-se firme quando tudo no mundo fosse abanão ou ruína. Poderia recomeçar a reescrever o meu livro. Sim, agora com Ela, vinham o presente e o futuro. Sem qualquer dúvida, assomavam finalmente, repletos de plenitude e premência, os momentos para inventar o amor.

 

O seu nome, sem dúvida, seria Aurora.

 

 

FIM

 

 

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publicado por Carlos Alberto Correia às 12:17

...

Terça-feira, 19.05.20

 

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O - Os mortos não batem à porta

 

Revisitarei a infância, o jardim ventoso, no alto da colina, a paisagem a derramar-se por ali fora, até a terra se fundir no céu ou o céu na terra. Compreenderei como povos antigos pensaram serem os homens, os animais, as plantas, filhos da união entre terra e céu, a chuva fecundadora a dar nascimento a tudo. Verei, sobre o muro que delimita o jardim, entre tufos de ervas, atravessando arruamentos, bichos nervosos, rápidos, cauda a abanar para o lado contrário da cabeça, correndo direito a ziguezaguear, répteis minúsculos a evitarem os batalhões de formigas, rodeando um de menor porte, submergindo-o na massa castanho-febril, fazendo-o desaparecer no formigueiro. Preparar-me-ei para teclar lagartixa. De súbito a dúvida. Lagartixa, lagarticha? A palavra cheia de pasmo, num repente a concretizar-se, a adquirir corpo na boca, como se tivesse sabor. Darei comigo a soletrar, la-gar-ti-xa, la-gar-ti-cha. Visualizarei a palavra, esculpida em pedra, projetando-se do mais baixo para o mais alto a três dimensões. O vocábulo cinzelado ganha tons verdes, interstícios avermelhados, cor geral entre o cinza e o castanho. Agonia! Pesa-me a dúvida, desconheço o grafismo. Levantar-me-ei para consultar o dicionário. Nesse momento a certeza. Afinal lagartixa! Muito bem. Escreverei o resto do livro sem cuidar das lagartixas. Evitarei qualquer tema onde possam aparecer. Não voltarei a escrever a palavra. Malditas sardaniscas.

 

- Pirou de vez o Cursino?

- Longe disso. Apenas foi apanhado pela espanto das palavras. Estacou no terreno interdito onde as rotinas se negam ao costume, adquirem textura, surgem independentes do sentido habitual.

- Nunca senti tal Kismet. Em vez disso assalta-me por vezes o sentido da irrealidade. Sinto, vejo, ouço, cheiro, saboreio, mas inesperadamente pareço dissociar-me dessas sensações, ver-me de fora, agir como se não fosse eu. Chego a pensar que sou o sonho de outro sonhador que me sonha.

- Podes então compreender a reação de Cursino às palavras. É muito semelhante à tua.

- Só que não gosto de sentir isso. Assusta-me a sensação de irrealidade, de inconsistência.

- São partidas do cérebro. Por vezes as sinapses fazem ligações erráticas. O resultado é esse. Recordo-me, no fim da adolescência, acordar de algumas sestas, estremunhado, sem perceber quem era. Desejava ser eu, sentia-me existente, só aquela leve amnésia me retirava de mim. Desconhecia-me. Pouco a pouco redescobria-me, tranquilizava. Ao despertar completamente ficava feliz ao reconhecer-me na pessoa que sem dúvida era. Para ser franco temia tanto esses acordares que me coibi de dormir à tarde.

- Bem Kismet voltemos ao trabalho. O que vai fazer Cursino após a confissão de Valéria? Agora sabe da incapacidade dela para o amor físico…

- Não Oblata. Interpretas mal o que disse. Ela não é incapaz, apenas não se consente orgasmos. Pune-se pela culpa que não teve. Quando chegar a compreender isso, tudo poderá mudar. No entanto, informo-te, não é intenção de Cursino deixar que esses factos introduzam qualquer impedimento na relação. Pede-lhe apenas para não fingir o que não sente. Juntos procurarão ultrapassar o problema.

- Parece-me demasiado perfeito. Nem julgo ser coisa deste mundo. Quanto a mim tal descoberta não deixará de influenciar a relação. Como tens afirmado tudo influencia tudo.

- É verdade, mas nem sempre da maneira mais previsível.

- Continuas nos enigmas…

- Pelo contrário. Aponto pistas. Tu é que não estás suficientemente atenta. Deixemos esta conversa e passemos a palavra a Cursino. Está prestes a terminar as suas histórias de amor.

- Volto a lembrar-te que ele não escreveu praticamente nenhuma história de amor. Deriva sempre para campos obscuros. É um cínico, um descrente, um oportunista.

- Pelo contrário, todas são histórias de amor. Ou de desamor o que, continua, de outro modo a ser a mesma coisa. Cursino é realista. Viu, interrogou, elaborou, tirou conclusões. Tem culpa das experiências experimentadas? Acaso as pediu ou criou?

- Palavras, palavras para disfarçar a realidade. Pensava-o mais romântico, mais sentimentos. Não vejo perfumes nem rosas nas personagens de Cursino. São demasiado instrumentais. Nelas tudo é função. Falta-lhe o deslumbramento.

- Nem sempre é assim e tu sabe-lo bem. Se calhar não haverá muitas razões para o êxtase. Aconteça o que acontecer é preciso continuar a viver. Cante o coração ou esteja de luto. E nenhuma destas ações é perdurável. Eterna só a morte. Façamos pois Cursino debruçar-se sobre o amor e a morte.

- Mais uma vez, queres dizer.

 

 

Todos os dias, pela madrugada, fosse ela de nevoento inverno ou de límpido verão, Sentínio galgava, em passo apressado, as ruas entre as barracas do Vale Mouro e a praça do conto. Ali, especado entre muitas dezenas de iguais, esperava as escolhas dos responsáveis pelo sindicato. Eram eles quem, depois de todos os sindicalizados terem sido colocados nos melhores navios, nas melhores cargas, distribuíam pelos outros o que sobrava de estiva. A sorte era variável. Nem todos os dias encontrava trabalho. Profissão dura, quase tudo feito à forças de braço e guincho, não era mal paga. Seria mesmo muito rentável para quem conseguisse entrar para o sindicato. Nesse caso o trabalho era assegurado, o dinheiro corria certo. Para os como ele tinha dias! Claro que pensara em sindicalizar-se, mas demasiados anos volvidos, nunca o conseguira. Não só lhe faltavam padrinhos, como, por seu mal, logo que punha o pé numa embarcação era tomado de enjoo. Por isso, os companheiros chamavam-lhe Mal de Rio. Quantas vezes pretendeu mudar de vida, quantas falhou! Fechado de letras, traços rudes, só na construção civil arranjava algo para fazer. Porém recebia muito menos que nos barcos. Desse modo, malgrado os inconvenientes, por ali se foi deixando ficar.

 

Íamos a meio dos anos sessenta. Lisboa era uma cidade rodeada de bairros de lata, passagem obrigatória para quantos, fugidos dos agros, procuravam subsistência na cidade, grande demais para as suas posses, muito pequena para as oportunidades. Sentínio tinha família. A mulher, o filho e a filha. Sofria por vê-los naquela vida de faltas e promiscuidade. As tábuas da barraca deixavam passar tudo quanto de fazia ou dizia. A degradação do ambiente inscrevia-se nos modos, nos corpos dos residentes. Todos os dias, ao deixar o Bairro, ao entrar na zonas dos prédios, sentia a infelicidade de não conseguir dar outra vida aos seus. Quando o Zé Mestre lhe falou em França, depois de inicialmente ter descartado tal eventualidade, a hipótese foi ganhando força.

- Eh, pá, ali é que se ganha do bom. E com pouco esforço. O meu cunhado já emigrou há dois anos. Diz que lá o trabalho é um luxo, pesa quase nada. É tudo automático. Não têm de se esgarçar a alombar com pesos. São só guindastes e pórticos a puxar pelas cargas.

 

As palavras ficavam a repercutir-se no espírito de Sentínio. Sonhava com uma França dourada onde pudesse enfim, transformar a vida da família. Até era possível sonhar com um automóvel. O Zé bem lhe contava.

- A malta compra grandes bombas por meio tostão. Os gajos trocam de carro de dois em dois anos e vendem os que largam ao desbarato. A última vez que o meu cunhado cá esteve vinha num grande Mercedes. Parecia um construtor civil!

 

De imagem dourada passou a resolução. A filha começara a namorar. Um dia falaria em casamento e ele sem possibilidades de fazê-la sair do buraco onde se encontravam. Havia que dar solução à vida.

- Zé Mestre, o que é preciso para sair daqui para fora.

- Pouca coisa. Traz-me o bilhete de identidade, a caderneta militar e dez contos para dar ao tipo que vai arranjar a carta de chamada.

- Dez contos? Tenho lá esse dinheiro!

- Desenrasca-te. Pede emprestado. Pagas isso em dois meses. O Chibo arranja-te a massa. O juro é alto, mas o risco dele também é grande.

 

Naquele dia, a bordo do rebocador, o nevoeiro fazendo do Tejo um copo de leite entornado, Sentínio passou ao Zé Mestre o dinheiro e os documentos. Uma mistura de alívio e receio apoderou-se dele ao jogar, para aquelas mãos, o seu futuro e o da família. Se algo corresse mal não sabia como pagar a dívida. Poderia ficar mais enrascado que o que já estava. No entanto pressentia também ser esta a possibilidade de dar um pontapé na maldita sorte. Soubesse ele latim e história logo, na celebração do arrojo do passo, exclamaria “alea jacta est”. De qualquer modo a amálgama de sensações acentuou-lhe o “amalreamento”. Com a cabeça às voltas deslocou-se para a ré a aliviar-se do incómodo em que o pequeno almoço se tornara. Foi quando viu, enorme, maior que o seu tamanho, rompendo o nevoeiro, a proa do cacilheiro apontada ao meio do rebocador. Na eminência do choque agiu mecanicamente. Gritou, vamos ser abalroados, atabalhoadamente vestiu o colete salva-vidas, enquanto badalavam sinetas, uivavam sirenes e os passageiros do cacilheiro, apavorados erguiam corpos e vozes num coro de medo e lamentos. Foi apenas um instante. A vante do cacilheiros virou o rebocador, abriu-se em porta à água num abraço forte a arrastar as duas embarcações para o fundo. As barcas que acorreram ao sinistro na ânsia de diminuir os danos causaram, pela cegueira branca, ainda mais vítimas. Muitos dos que tinham conseguido colocar os coletes e flutuavam aguardando socorro, foram ceifados pelas quilhas e hélices dos que os procuravam socorrer. Por mais cuidados que tivessem, por mais devagar que procurassem, não conseguiam evitar colher os troncos e cabeças aflitos a soerguerem-se das águas, a quererem fazer-se localizar entre a chinfrineira de sons humanos e mecânicos a percorrerem as águas. Só quando, horas depois, o sol conseguiu dissipar o nevoeiro foi possível aperceber-se da magnitude do drama. O cacilheiro desaparecera nas profundidades. O rebocador, de casco alto, derramara os homens dos convés, aprisionara todos os que não conseguiram sair das zonas cobertas. No local do acidente, espalhados ao fluir da corrente, manchas de cores variadas acusavam corpos por recolher. Em ambas as margens massas frenéticas esperavam. Curiosos, aflitos, queriam saber quantos se salvaram, quem morrera. Iria ali o meu filho? Foi neste que a minha mulher embarcou? Logo tinhas de apanhar o maldito barco, pai!

Da ponte do petroleiro, cavalgando ondas no oceano aberto, soou o alarme: náufrago à vante! Correram os marinheiros desocupados das manobras de motor e leme para a amurada, fez-se o enorme casco à sumida mancha alaranjada. O corpo, com um colete salva vidas, flutuava sobre a balsa insuflável meio vazia de ar. O homem, desidratado, pústula inteira dos rigores do Sol, resistira sabe-se lá quantas horas ou dias às inclemências do oceano. Arriaram um salva vidas. A agitação do mar tornava difícil a aproximação da pequena embarcação. Poderia, caso se achegasse demasiado, a qualquer momento destroçar definitivamente aquele corpo meio destruído, sem dar acordo de si. O pau de croque, gancho enfiado no colete, arrastou o náufrago para a borda do batel. Subiram-no a bordo em maca de lona puxada pelo guindaste. Com os meios à disposição foram-no mantendo vivo até, no dia seguinte, atracarem em Argel. Entregue às autoridades foi transportado para o hospital. Dele nada se sabia. Não trazia documentos e o insuflável, bem como o colete salva vidas, não indicavam o nome da embarcação de onde provinham. Sem notícias de qualquer naufrágio apenas se podia esperar que o salvado desse acordo de si. A desidratação e os ferimentos do corpo sararam muito antes de ele voltar a ter consciência. Meses após a chegada ao hospital abriu os olhos para a imensa claridade, ouviu vozes estranhas falarem em língua desconhecida. Quando tentou perguntar quem sou eu, onde estou, as palavras reboavam no cérebro, mas alguma coisa as impedia de chegarem à boca. Assustou-se, tentou levantar-se, apenas conseguindo derrubar a haste de onde o soro pingava para a veia, voltando débil a cair no colchão, ofegando como se tivesse corrido a maratona. Esteve meses no hospital até que, por curado, foi entregue às autoridades. Não ficou preso. Incapaz de dizer quem era, de onde viera, o que lhe acontecera, enviaram-no para uma estância agrícola. Ali, meio internado, tinha casa, alimentos e ganhava-os com o trabalho destinado. Durou três anos esta provação. Aproveitava a terapia da melhor forma possível mas, sabe-se lá porquê, mesmo quando flashes de memória ocorriam no cérebro lembrando algo que se apagava de imediato, nada transmitiu aos médicos. Ocultou que sabia escrever, não pronunciava palavra. Primeiro porque não podia, depois quando tal se tornou possível por funda desconfiança. Não sabia onde estava, não conhecia ninguém, era tido como quase inválido ou demente. Pensou quanto menos souberem de mim melhor. Quedar-se mudo não foi difícil. Tantos anos patologicamente calado secaram-lhes as palavras ou a vontade de as dizer. Ao chegar à completa posse de cérebro e memórias recordou o acidente, reconheceu-se, correram loucas as saudades da família, preocupou-se com o seu estado, com o sofrimento tido pela sua presumível morte, arquitetou planos de regresso. Descontando a mudez e a falta de memória, os cuidadores consideraram-no apto para gerir a vida presente. Deram-lhe a liberdade de saída do campo de trabalho nos dias de descanso, muniram-no de documentos provisórios em nome de Pierre Rien. Aproveitou essa liberdade para se aproximar do porto. Estudou-lhe a topografia, a segurança, apercebeu-se de horários de partidas e chegadas, entendeu as rotas e esperou.

 

- Kismet não percebo que razão teria o Sentínio para ocultar a identidade e nacionalidade.

- Pois a mim afigura-se de uma clara evidência. Lembra-te que Portugal era uma potência colonial. Argel tinha conquistado a independência há pouco tempo, depois de feroz luta armada. Para ele eram terroristas e comunistas quem mandava no país. Receava que, ao identificar-se, as coisas lhe pudessem correr muito mal. Preferiu a cautela, o silêncio.

- Mesmo assim não foi pior terem-lhe atribuído um nome francês?

- Creio que o fizeram para, fosse ele para onde fosse, ficar debaixo de olho. Não se confundia com um argelino. Era demasiado caucasiano. Faz, portanto, sentido.

- E agora, o que vai acontecer?

- O óbvio. Vai tentar chegar a casa. Trabalhará no porto, nos navios, onde se sente à vontade. Após se ter tornado figura habitual partirá, clandestino, num barco para Melilha. Lá convencerá o comandante de embarcação, com pavilhão de conveniência, a embarcá-lo como tripulante…

- Espera. Ele não terá, certamente, cédula marítima. Não poderá portanto ser contratado.

- A não ser que o comandante faça vista grossa.

- E porque o havia de fazer?

- Por interesse, Oblata. Dá-lhe a viagem, deixa-o desembarcar à sorrelfa em Cádis, assume como seus os pagamentos do tripulante. É bom negócio. Saem todos a ganhar. Mas deixemos Cursino prosseguir com a história.

 

Desembarcou em Santa Apolónia, escapulindo-se do vagão de mercadorias onde se escondera em Madrid. Apanhou susto valente em Irun. Desatrelaram o vagão da composição. Levaram-no para via secundária a concluir o carregamento. Valeu-lhe estar encoberto, no lado direito, onde a carga estava completa. Os carregadores entraram colocando todos os volumes do lado esquerdo. Teve sorte. No lado onde se escondera a mercadoria estava destinada a Lisboa. Para o outro lado viu, após mais de dez horas de espera atormentadas por sede indescritível, carrearem fardos a descarregar no Porto. Acomodou-se melhor e adormeceu sem mais problemas até que o chiar dos travões, os balanços da composição, o ruído de gare tumultuosa, lhe anunciaram a chegada ao solo pátrio. Esperou ainda muito tempo embora a sede e as necessidades o atormentassem quase ao desespero. Ao sentir silenciar-se o cais, saiu do esconderijo para se deparar com um obstáculo com o qual não contara. Em Irun, após carregar as mercadorias, tinham selado a porta. Não conseguia abri-la. Ao princípio de pânico respondeu racionalmente. Pensa um bocadinho Sentínio. Já te safaste de pior. Não vai ser agora, quando estás praticamente em casa, que te vais deixar apanhar. Bem, se a carga deste lado fica em Lisboa, mais cedo ou mais tarde vão ter de a despejar. Esconde-te no lado dos volumes que vão para o Porto. Entre os movimentos de cargas e descargas terás possibilidade de saíres sem dares nas vistas. Esperou. Finalmente abriram as portas, a luz entrou cegando-o no obscurecido esconderijo. Ouviu as vozes apressadas dos carrejões lamentando só terem meia hora para retirar a carga, completá-la com novas mercadorias a embarcar para o Porto. Vão buscar os empilhadores, comecem a operação. Mal se afastaram as vozes assomou à portada do vagão. O cais estava deserto, com exceção dos três homens que ouvira falar e se afastavam. Saltou do comboio, procurou as casas de banho, deu uma arrumação ao aspeto. Faltava apenas sair da estação, subir quase até ao alto a colina. Até à Graça era um pulinho. Dali ao Vale Mouro nem cinco minutos seriam necessários.

 

Desconheceu o abarracamento de onde partira ia para quatro anos, decidido a procurar na emigração quanto de bem-estar desejava para a família. O coração rebentava-lhe de ansiedade. Tanto tempo, tanto sofrimento, tantas privações, mas agora estava ali. Mais uns metros, nem uns minutos, estaria a abraçar os seus. Foi-lhe prontamente negada a felicidade. No lugar da barraca só terreno baldio existia. O que acontecera? Onde estavam todos? Nenhuma cara conhecida ali habitava? Diga-me, por favor, conhece a família do Mal de Rio? Usou a alcunha para tornar mais fácil a identificação. Desculpe-me, não conheço. Estive no estrangeiro e procuro-os. Nada sabe deles? E as outras pessoas que aqui moravam? Não reconheço ninguém. É natural. A Câmara mandou destruir o bairro. Os habitantes partiram. Para habitação social as que tiveram sorte, a reconstruírem barracas, em local mais distante, os outros. Então estas que aqui estão? Foram sendo construídas por recém-chegados. Não conhece ninguém dos antigos moradores? Que me lembre só o Manel Gaiteiro. Está meio taralhouco. Mesmo assim, onde vive ele? Siga por este arruamento, no segundo à esquerda, ao fundo, é a barraca dele. Não tem como se enganar. Está toda pintada de vermelho, tem pregada na porta a águia do Benfica. É doentinho de todo. Sim, conhecia o Gaiteiro. Não se falavam muito, mas coscuvilheiro como era se alguém soubesse o paradeiro da família seria ele. Manel não o reconheceu. Estaria assim tão mudado? Ou seria porque o homem parecia alheado de tudo? Não ficou particularmente feliz ao ser perturbado nos cuidados que prestava à ninhada de cachorros criados para ganhar a vida. Demorou a vir à portada. Mal de Rio? Escarafunchou a orelha com a unha crescida do dedo mindinho, observou cuidadosamente o cerume aportado, limpou o dedo nas calças sebentas e disse, sei muito bem, foi o que morreu no rio. Foi a sorte da família. O seguro não foi nada mau. Veja lá que a morte dele rendeu mais do que a vida. Foram-se daqui antes do despejo. Mudaram de poiso e de vida. A mulher comprou uma casa na Amadora. Vive lá com o filho. A filha casou-se e não faço a mínima ideia onde vive. Sabe a morada da viúva? A palavra escaldou-lhe na boca. Deixe ver se me lembro. Esforçou a memória. Pouco saiu que servisse. Olhe é perto do supermercado. Numa rua mesmo ao lado. O nome não sei. Mas não será difícil lá chegar.

 

Tão diferente do bairro antigo. Prédios altos, empilhados uns sobre os outros. Supermercados havia três. Decidiu-se pelo que ficava num largo. O Manel Gaiteiro tinha frisado isso. Muitas perguntas, demandas várias, um deserto. Ninguém conhecia ninguém. Mas havia uma rua mesmo ao lado do supermercado. Postou-se de vigília. Horas desesperadas. Alguém haveria de aparecer, rezava-lhe a esperança. No segundo dia, um vulto conhecido surgiu do outro lado da rua. A minha filha! Julgou caminhar para um enfarte tal o aperto a dar-lhe no coração. Ia para lhe gritar o nome. Lembrou-se de que o pensavam morto. Achou melhor segui-la, descobrir a casa e o andar para, no recato do lar, se apresentar, dar explicações. A filha apercebeu-se de alguém a segui-la. Assustou-se ao ver o vulto sujo, desgrenhado. Acelerou o passo. Porcaria da porta que tinha o fecho avariado, não fechava. Ao ver o individuo aproximar-se galgou as escadas até ao segundo andar. Sentínio apercebeu-se do medo da filha. Estaria tão mudado que ela não o reconhecera? De que te admiras? Envelheceste, estás muito estragado, pensam-te morto. Tens de ser cuidadoso. Ouviu os passos dela parar no segundo andar, a porta abrir-se à premência da campainha, cerrar-se rapidamente. Não percebeu em qual das três portas teria entrado. Parou para tomar ar e refletir. Decidiu não bater à porta naquele momento. Poderiam não abrir por receio. Demos um pouco mais de tempo. Saiu a perambular pelo bairro durante pouco mais de uma hora. Voltou ao prédio, subiu ao andar, bateu na primeira porta. Silêncio! Nenhuma resposta. A campainha soava a casa sem gente. Na segunda ouviu a voz que ansiava. Alzira! Abre, sou eu! Um compasso de espera. Eu quem? Eu, o teu marido. O Sentínio. Percebia a perturbação. A porta mantinha-se fechada. Do outro lado só silêncio. Vais deixar-me aqui fora? Abre-me essa porta. Cochichos vibravam ténues na madeira. Viu abrir-se o óculo da porta. A voz de Alzira procurava confirmação. Sentínio, não é possível. Tu estás morto! Deixa-te de palermices, estou bem vivo. Os mortos não batem à porta!

Se a tivesse visto na rua poderia não a ter reconhecido. A Alzira que me abriu a porta parecia-se mais com a que conhecera na juventude que a deixada naquele dia sem sorte. Mudara tanto! Abandonara os vestidos sem corte, sem cor. Garrida, cabelos longos tratados, tão diferente de si. Tão distante do que esperava. O vórtice antecipado de me lançar nos seus braços, com quatro anos de saudades acumuladas, morreu no olhar que me lançou. Não era de alegria por ver-me, felicidade por saber-me vivo. Só via angústia. Em vez de correr para mim refugiou-se nos braços da filha. Reconheceram-me, mas senti-me intruso. É assim que me recebem? Nem uma palavra, um beijo? Oh, homem, que queres. Apareceres assim, deste modo. Todos te julgámos morto. Fizemos-te o funeral. Apareces do nada. Como queres que nos sintamos? Fizeram-me o funeral, indagou. Sim, o teu corpo, ou um corpo com os teus papéis de identidade, foi recolhido passado quase três semana do naufrágio. Ninguém podia reconhecer-te, mas não havia dúvidas quanto à tua identidade. Não me parecia que a conversa devesse continuar no vão da porta. Franqueei a entrada, elas recuaram um passo. Começava a exasperar-me. Não fujam. Eu não mordo. Sentei-me no sofá individual, Alzira em frente, no grande, a filha a dizer, ficas bem? Vou avisar o meu marido e o mano.

 

Estava a tornar-se doloroso aquele reencontro. Não nos sentíamos à vontade. Alzira levantava-se amiúde, ia à janela, voltava para o mesmo sítio. Perguntava-me, o que fazemos? Não me parecia problema muito difícil de resolver. Voltara! Pretendia sentir-me em casa, mas algo se interponha. Aquele não era o teto de onde partira. De qualquer modo fora o dinheiro do meu seguro a permitir a compra. O que não conseguira na vida alcançara-o na pretensa morte. Por isso tentava sentir-me à vontade, considerar aquela casa como o meu lar. Antes do resto da família chegar, nervosa, Alzira disse-me ter de dar-lhe algum tempo para se habituar à ideia do meu retorno dos mortos. Não conseguiria partilhar, de imediato, a cama comigo. Ficaria os primeiros dias a dormir no quarto que fora da filha. Tentei entender a sua lógica. Sempre lutara para o bem daquela gente. Mais um sacrifício não seria demais. Está bem, mas diz-me, vives com outro? Credo, homem, não! Fugiu para a cozinha a preparar qualquer coisa. Não gostei da pinta do meu genro. Pela agressividade demonstrada não seria eu o sogro que quereria ter. Paguei-lhe na mesma moeda. Nada tinha a ver com ele e, pelos vistos, nada teria. Já ao meu filho ser-me-ia difícil perdoar a frieza com que me brindou. Não teve palavras de amizade para me receber. A preocupação exclusiva era o que vamos fazer? Brutalmente expôs os cuidados de todos. Com o pai vivo vamos ter de devolver o dinheiro ao seguro. Vou perder o carro. A mãe a casa. A única que está segura é a mana. Então era só aquilo que valia para a família, para quem labutara tantos amargos dias? Só a preocupação pelas possíveis perdas? Que gentes eram aqueles estranhos, quase perfilados diante de mim? Ninguém pode saber que está aqui. Falava o meu genro para a minha mulher. É só alguém abrir bico, temos a companhia de seguros a ficar com tudo o que é nosso. O pilantra já se sentia também dono da casa. Pela primeira vez embruteci a voz, fi-lo calar-se. Este problema não lhe diz respeito. Só com a família tomarei as decisões necessárias. Saia! Quero ficar só com os meus. Se o meu marido não pode ficar, também não fico. Faz como quiseres e a imagem da doce menina de tranças, a trepar-me pelo corpo, desfez-se em cacos. Ficámos os três calados por muito tempo. Pensava no modo de resolver o problema. Como ninguém alvitrasse nada propus fazer-me passar por hóspede. Ninguém ali me conhecia. Comprometia-me a sair o menos possível, a evitar locais onde pudesse ser reconhecido. Quanto à subsistência haveria de conseguir qualquer coisa para ganhar as migas. Nem o meu filho, nem Alzira se opuseram abertamente. Deixaram no vago. Depois se veria. Pretextando ter um jantar com amigos o meu filho foi-se. Voltei a ficar só com Alzira. Não vos reconheço, queixei-me. Nós não éramos assim. Os tempos mudam, volveu-me. Vou arranjar-te o quarto.

 

Na manhã do dia seguinte ouvi Alzira a falar com a filha ao telefone. Vou ter contigo a tua casa. Temos de tomar providências. Fiquei alerta. Fiz-me adormecido quando ela veio espreitar-me. Deixei-a sair. Dirigi-me ao seu quarto para deparar com a porta trancada. Avolumaram-se-me as desconfianças. Foi muito fácil abrir a fechadura. No guarda-roupa estava a confirmação. Fatos de homem pendurados, mostravam-me o que todos me ocultavam. Havia outro homem em casa. Fora substituído! Voltei a repor tudo como estava. Esperei o regresso de Alzira. Mais uma vez vou perguntar-te, vives com outro homem. Credo, que ideia se te meteu na cabeça! Claro que não! Ela estava ali na minha frente, imagem ofendida da candura, mentindo com a maior desfaçatez. Não quebrei o jogo. Queria saber onde tudo aquilo nos levaria. Tocou o telefone. Apercebi-me de voz de homem. Deduzi a pergunta. Ele ainda ai está? Alzira respondeu, já está tudo combinado. Hoje ao jantar tratamos da coisa. Amanhã tudo estará nos eixos. Fulminou-me um raio. Percebi tudo. Provavelmente iriam envenenar-me. A minha vida, por mais que prometesse ser discreto, era um perigo para todos. Que mal fazia matar um morto, abandonar o seu cadáver em qualquer sítio, mandá-lo para o mar? Mesmo que aparecesse era só mais um desconhecido. Ainda não tinha pousado o telefone quando me viu prestes a sair. Desconfiou. Onde vais? Espera pela chegada do nosso filho. Não espero coisa nenhuma. Já não tenho família. Desconheço o que vocês são, desconfio do que estão a preparar. Dão-me nojo. Tem calma, não nos desgraces. Porquê? Para continuares a viver, na casa paga com o dinheiro da minha morte, com outro? Pensas continuar a enganares-me por quanto tempo? Presumo que não seja por muito. Percebo, querem-se livrar de mim. Estava disposto a todos os sacrifícios por vocês. Neste momento só sinto desprezo pela ganância que mostraram, pelas mentiras que me contas. Fui ao teu quarto. Vi as roupas! Para de te enganares pensando fazê-lo a mim. Tem calma, peço-te. Espera só até à noite para nos reunirmos todos e podermos falar. Não sei como vão falar com um morto. É tudo o que serei se ficar para o jantar. Ouvi o teu telefonema. Não me enganam mais. Vou fazer o que devo. Ficou estarrecida, incapaz de levantar-se. Bati forte com a porta e desandei para a baixa.

 

Empurrei o quebra ventos na entrada da companhia de seguros. Dirigi-me à receção. Uma boneca loira, cheia de atavios, olhou-me como se fosse extraterrestre. Que deseja? Venho esclarecer dúvidas. É para contrato ou reclamação. Não era nada disto mas, seguramente, reclamação estava mais próximo do que ali ia fazer. Reclamação, disse. Terceiro andar à esquerda, no Contencioso. Subi, foi como se não tivesse chegado. Meia dúzia de pessoas falavam, umas com as outras, de modos zangados. Uma frase ou outra davam-me a entender que, nesse dia, tinham sido informados de promoções e aumentos. Pelos vistos nada do que souberam agradara a alguém. Revoltavam-se, consideravam queixar-se ao sindicato, era tudo uma panelinha, mata-se a malta a trabalhar para quê? É sempre tudo para os mesmos. Que deseja, perguntou-me abrupto um homem bastante jovem. Quero apresentar uma reclamação. Então diga? Olhe para mim. Estou a vê-lo bem. Pois não devia. Eu estou morto e a companhia pagou o seguro à minha viúva. Nem me deixou explicar a situação. Chamou os seguranças, mandou-os expulsar-me. Encolheu os ombros e comentou, ou está bêbado ou maluco. Mais um dos que por aqui aparecem a fazer-nos perder tempo. Empurrado pelos gorilas, tentando atabalhoadamente explicar o que ninguém queria ouvir, ainda escutei a gargalhada geral a limpar a tensão do ambiente.

 

Sentínio desceu até ao rio. Sentou-se no paredão sofrendo o não ser ninguém, o nem sequer ter existência legal. Que faria? Todo o mundo desabara. A sua família era agora de outro, ele não contava. Viu atracar o cacilheiro. Tão branco. Parecia pomba a voar nas águas. Ao mesmo tempo tão igual e tão diferente daquele em que embatera no meio do nevoeiro. Hoje, fora dele, o Sol brilhava, fazia ressaltar a brancura do navio quase até à cegueira. Como era lindo. Apetecia embarcar, deixar-se ir. Entrou no cacilheiro. Não quis ficar no interior escuro semelhante à sua alma. Procurou o Sol nos varandins. Contrariamente ao hábito não enjoou. Até lhe eram agradáveis os socalcos das ondas a fazerem o barco saltitar. Apreciou o rio, olhou a outra margem. Ali, quase a meio, onde provavelmente se dera o naufrágio, aproveitou um balanço da embarcação, deixou-se ir. Tocaram frenéticos o sinos e sirene do barco. Abrandou a marcha. Os motores ronronantes puseram-no a navegar em círculos. Os marinheiros correram para as amuradas com boias nas mãos. Uma hora depois, perante a irritação dos passageiros atrasados para as suas vidas, atracava o barco em Cacilhas. Ninguém sonhava que ali, quatro anos depois de fintar a morte, Mal de Rio procurava apagar-se, definitivamente, deste mundo a que já não pertencia.

 

 

 

 

 

 

 

 

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publicado por Carlos Alberto Correia às 12:25

Momentos para inventar o amor

Sexta-feira, 15.05.20

 

 

 

 

 

 

 

 

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N - Teresa tudo bem

 

Vais ter de aguardar Cursino. Sou eu, Valéria, a tomar agora a palavra. Sei muito bem que a história é tua, tenho nela um lugar secundário, mas vais ter de ouvir-me. Percebo a insegurança que te causo. Tens dificuldade em perceber-me os humores, perturba-te o meu desejo imperioso, o esmorecimento na sequência. Vejo como lidas mal com isto, como te perguntas se a falha é tua. Podes estar descansado, o problema é, na origem, essencialmente meu. Claro, sofres com ele, não tens culpa. Reconheço o teu empenho. Estou-te grata por tentares acompanhar-me. Mas, atenta, pouco do que faças poderá ajudar-me. Questionas, sem nada me dizeres, as súbitas mudanças de disposição. Como é possível passar da imensa ternura ao mais fechado mutismo e agressividade. Também não entendes muito bem as horas gastas no psiquiatra quando, muitas vezes o disseste, não há melhoras visíveis. Tu não podes saber das áridas planícies por onde o meu pensamento voga. Indagaste, variadas vezes, a razão do divórcio dos meus pais. Porque nem eu, nem a minha mãe, mantemos a mínima relação com ele. Chegaste mesmo a presumir, dado o meu silêncio, já ter morrido. Morreu, sim, para a convivência, para o amor, para o respeito. Recordá-lo é um tormento insuportável. Consigo esquecê-lo na maior parte dos dias. Noutras ocasiões não me é possível afastá-lo da memória. Nesses momentos dói-me como lasca enterrada na carne.

Tudo começou por volta dos cinco anos. Presumo que todas as crianças dessa idade vejam no progenitor um ser tão poderoso que, se a ideia de deus pudesse ser-nos clara, teria as feições, os modos do pai. O que ele dizia era sagrado. Sabia tudo, representava toda a segurança contra os terrores noturnos, os monstros que habitavam os escuros dos quartos, as cortinas esvoaçantes. Por isso não estranhei quando, depois da casa adormecida, me acordava, sentava ao colo, acariciava. Não percebia o que se passava. Notava apenas serem essas carícias dissemelhantes de todas as diurnas, prodigalizadas na frente de toda a gente. Mesmo quando me conduziu a mão para locais interditos, para além de algo mais semelhante a estranheza que mal-estar, deixei-me conduzir docilmente. As visitas noturnas intensificaram-se, aumentando-me a perturbação. Não entendia o que se passava, nem sequer o repetido aviso, não digas nada à mãe. Quando se tornou fisicamente doloroso, chorei. Dessa vez o meu pai assustou-se, saiu apressado do quarto, mandando-me calar. Na noite seguinte voltou mais insistente, tapando-me a boca, para não fazer barulho. A incomodidade, a dor, levaram-me a contar à minha mãe. Deu-me uma chapada, mandou-me calar. Tão pequena, com uma mente tão porca. A quem sais assim, rapariga? Senti-me completamente abandonada. Roguei a meu pai que parasse. Possuído de um frenesi maléfico, em vez disso, aprofundava os contactos. Só após muitas queixas quis a minha mãe reconhecer que algo estava errado. Não sei se foram as recusas a alimentar-me, os terrores e gritos noturnos quando, mesmo sem a presença do meu pai, sonhava vê-lo entrar no quarto, se as fugas na sua chegada, ou se procurava acercar-se de mim, a alertarem a mãe. Perante as continuadas queixas decidiu levar-me ao médico. Foi perentório! Violação continuada. Desde esse dia nunca mais vi o meu pai. Muito mais tarde, já adulta, descobri as consequências desta maldição. Normal no desejo de entrega ao amado, tudo corria bem até ao momento da penetração. Aí, uma dor antiga, um frio marcante, substituía todo o desejo. Afastava-o de mim com nojo e brusquidão. Na primeira tentativa de relação física terminava, quase sempre, o relacionamento. Ouvi de tudo. Desde a compreensão piedosa à mais soez invetiva. Nunca tive à vontade para falar nestas coisas com a minha mãe. Sexo tornara-se entre nós terreno maldito. Parecia-me por vezes que, inconscientemente, a mãe me culpava pela separação. Não entendia, mas coibia-me de trocar qualquer palavra sobre o assunto. Ao fim de muitos fracassos, com vergonha inaudita, procurei terapia. Tenho conseguido alguns resultados. Poucos! Aprendi a fingir orgasmos. Na verdade, só na masturbação encontro alguma réstia de prazer. Agora sabes o meu estado, espero que percebas as minhas atitudes.

 

Não ficarei perplexo. Apenas meditativo. Recuarei à infância. Ao dia em que pela primeira vez vi o meu tio paterno mais novo levar a minha irmã para a dispensa. Estranharei a porta trancada. Pela lucerna do telhado verei despi-la, acariciá-la. Deverei ter feito algum ruído. Quando chegar, acompanhado da minha mãe, não estará lá ninguém. Pôr-me-ão de castigo por ser mentiroso, intriguista. Furioso decidirei tratar do caso. Encher-me-ei de paciência. Esperarei. Aproveitando a saída da minha mãe para compras, o meu tio tornou-se mais ousado. Desconhecedor da minha presença, escondido desde que o vira assomar à porta da rua, levou a minha irmã para o sofá da sala. Ao iniciar as manobras sairei do lugar onde me esconderei. Munido da pesada bengala do falecido avô, descarregarei a raiva, várias vezes, sobre as costas, finalmente na cabeça. Ao chegar, a minha mãe verá o rasto de sangue do irmão. Não acreditará, mais uma vez, naquilo que contarei. A minha irmã negará ter acontecido qualquer coisa com o tio. Levarei uma sova, ficarei sem jantar, no quarto. Somente o meu pai começará a desconfiar. Virá, pouco depois, a apanhá-los juntos. Perderá a cabeça, baterá desesperadamente em ambos. Serão hospitalizados. Um médico amigo atestará, por sua honra, serem os ferimentos resultantes de acidente de viação. O meu tio será banido, a minha irmã confiada, para correção, aos cuidados de instituição de confiança e eu, olhado como responsável pela descoberta, arrastando a culpa daquele escândalo familiar, que todos teriam preferido não deixar emergir, tornar-me-ei o réprobo culpado de situações degradantes, incómodas. O ordálio terminará aos dezoito anos. Deixarei a casa familiar. Jamais regressarei.

 

- Percebo! As mágoas de Valéria e de Cursino vão desencadear a próxima história.

- Excelente dedução, Oblata. Vai atiçar memórias, ajeitá-las, atribuir culpas, justificações. Alterará os papéis, os atores, fundirá atos e pessoas, construirá espelhos, máscaras. Nada muito diferente daquilo que fazemos.

- Tens razão. Há muito tempo atrás fiz uma experiência interessante. Escrevi uma história tomando por personagens uns quantos amigos. Claro! Não a escrevi literalmente. Mudei situações, atribuí ações a quem as não tinha praticado, criei figuras sincréticas, mas deixei sempre percetível o essencial dos comportamentos. A seguir dei o texto a ler, em separado, a cada um deles.

- Qual foi o resultado?

- Perturbante, Kismet.

- De que modo?

- Quase todos reconheceram, apesar dos disfarces, quem eram as personagens, a quem pertenciam as atitudes…

- Tal não me parece muito perturbante…

- Deixa-me terminar.

- Fazes favor…

- Na verdade, apesar da identificação certeira dos outros, nenhum se reconheceu a si próprio.

- Seria de facto espantoso não se desse o caso de a ideia que fazemos de nós, não se compadecer com os julgamentos alheios, da forma como nos apercebem, como nos olham e classificam.

- Tens razão, é como ouvir, pela primeira vez, a nossa voz gravada. O som que nos chega é exterior. Falta-lhe a ressonância interna, a íntima afetividade. De qualquer modo reconhecerás que, por vezes, remexemos demasiado profundamente no lixo escondido.

- Ora, se assim não fosse, qual seria o papel de psicólogos e padres?

- Deixa-me adivinhar. Vais por o Cursino a debitar uma história de padres?

- Não exatamente, ora escuta:

 

Apenas procurei ser feliz. Era tal desejo pecado? E porque o seria? Confesso! Noite após noite tentei perscrutar o sentido da minha existência, a razão dos acontecimentos. O esforço foi feito. O resultado jamais satisfez. Onde esperava encontrar resposta surgia o véu negro da negação. Nunca a explicação, a luz, o vislumbre esclarecedor.

Quase sem dormir apronto-me para mais uma manhã cinzenta, embora o sol possa ou não aparecer. São estes os meus dias. Peregrinação à volta dos mesmos sítios. Sofrimento, nem doce nem amargo, desmerecendo a revolta. Só persistir. Só manter. Apenas continuar.

Tenho vinte e sete anos, poderia ser freira. Mas não o sou. Apenas vivo como tal. E porquê? Sei-o e não o sei. Espanto-me à volta destas insignificâncias que me significam inteiramente. Perco-me no imaginado discurso de tudo justificar e não produzo palavras. Só recalcamentos. Efémeros desejos a medo perpassam por mim.

Oiço o ruído catarroso dos meus pais. É tempo de acorrer-lhe às necessidades. Para ali estão, incapazes, doloridos, dependentes, exigindo todo o momento de atenção, todo o cuidado e, se ainda for possível, o que restar, senão de amor, pelo menos de reconhecimento. Ocorrem-me, por vezes memórias de quando eram novos, poderosos. Do tempo de espera da carícia ou da reprimenda, das palavras absolutas ordenadoras do universo. Quando é que tudo se modificou? Outra coisa que não sei. Não me apercebi da mudança. Um dia o mundo transformou-se, estreitou, perdeu luz, sabor, todas as coisas que me foram novidade, relevância, feneceram. De velhas quebraram-se em irrecuperáveis cacos.

Arranja força, sai da cama. Abre mais um dia de encerramento contínuo. Conta as gotas, abre sucos, tira temperaturas, corre ao mercado, compra, esfrega, lava, cozinha e sobretudo, não te esqueças, sorri, sorri muito, sorri sempre, sorri...

E a raiva? A devastação que ela me causa será lícita? Seja-o ou não que modifica? A vida é tão só o só isto? Que pouco, que miserável pouco me contenta. Vou passando os minutos no refluxo do tédio. Interminável a lassidão instala-se universal, turva. Evitamento torpe do encarável da vida. Tudo se queda no momento eterno da suspensão do tempo.

 

 

Submisso acolho a manhã. Abro os olhos para os raios solares entrando no quarto impudicos, inconsequentes. Dormir, queria continuar a dormir enquanto me apetecesse, sem a obrigação de acordar para cumprir o ritual de todos os dias. No canto do quarto, soturna, pende a batina da sujeição. Acordar todos os dias. Vesti-la. Entrar na igreja, inóspita, com meia dúzia de velhas a acorrerem à primeira missa do dia. Sofrer a babugem da sua solidão, a fé desesperada por falta de outras ocupações ou esperanças. Apodera-se de mim o nojo, uma revolta antecipada. Conheço-lhes demasiado os rostos, as expressões falsamente humildes, os pequenos ódios acumulados, disfarçados na dócil bondade decretada pela lei da Igreja, espargidos como vómito de mentira e hipocrisia. Seriam capazes de morder as amigas que beijam, se isso lhes trouxesse um pouco mais de reconhecimento, mais um pouco da importância ou visibilidade desesperadamente procuradas. Seres mordentes, nada esperam senão a morte anunciada, vão, internamente felizes, acompanhando os passares daqueles que ao inevitável recontro se anteciparam. Morro lentamente na celebração de mistérios em que já não creio.

 

 

Terei na frente duas personagens, ainda esboços de uma ideia frágil. O que irei fazer delas, ou o que elas me irão impor é conhecimento que ainda se encontra por descobrir. Iniciarei o périplo da vida que lhes vou outorgar definindo-os como Teresa e Padre Bernardo. Duas vidas perdidas que nem sequer buscam encontrar-se. Apenas pretenderão vencer o dia-a-dia imposto ou permitido. Existem como se a vida corresse por detrás de vidros foscos, só lhes tolerando a fuligem dos sentidos. A sensação de perda, ou de não ter alcançado algo que não sabem o que seja, perturbar-lhes-á a vivência. Noutros tempos, imbuído de certezas ideológicas, remataria com o conceito de alienação. Ficaria tranquilo. Tudo estaria explicado. O problema é o de tal palavras apenas remeter para outras palavras. O sentido continuará diluído, um arzinho de vento a perpassar nos dedos. O mais será querer perceber, ou ouvir, ou dizer. Tentar, com a boca que não há, formar palavras inexistentes. Neste impiedoso modo arrojarei ao mundo estas figuras. Afirmarei: a sua vida será aquilo que eu quiser! Mas esta não será toda a verdade. Surgirá uma coerência interna à narrativa a obrigar-me a manter alguma coesão, a impor-se ao caminho inicialmente previsto. No momento primordial saberei o que lhes vai acontecer além do pensado. Tudo farei para levar a bom porto os meus desígnios. Haverá, porém, emboscadas nas dobras das palavras procuradas para o cumprimento do destino traçado. Descobrirei fins quase impercetíveis. Obrigar-me-ei a ceder a desejos latentes, embutidos nos discursos encetados. Pergunto-me se as personagens dispõem de algum livre arbítrio. Ou, pelo contrário, se o seu destino já estará inscrito no livro das coisas inamovíveis? Não o saberei! Na vaidade de autor decido que tudo acontecerá tal como eu quero. Disso, contudo, só terei a certeza quando chegar ao fim e medir o desvio em relação aos objetivos pretendidos.

 

- Onde é que ouvi este discurso, Kismet?

- Deixa o sarcasmo de lado. Cursino escreve o que eu determino. É natural a expressão de ideias análogas.

- Queres então faze-lo à tua imagem e semelhança?

- Nem penses nisso. Ele, Oblata, será o instrumento de que me sirvo para criar realidades alternativas. A partir dele posso construir todas as situações passíveis de serem vividas. Mesmo o impensável, desde que conserve um mínimo de verosimilhança.

- Verosimilhança?

- Sim, a aceitável verdade da mentira.

- Aceitas então ser a literatura o reino do embuste?

- Nem tanto ao mar, nem tanto à terra. Antes a simulação do não é, mas bem poderia ser.

- Interessante perspetiva. Afinal o autor inventa uma alternativa à sua realidade e esforça-se para que o leitor a tome como a mais lídima verdade?

- Exagero. O autor não vai querer que tomem por verdadeiras as suas construções. Apenas as deseja plausíveis, aceitáveis.

- Mesmo quando salta à vista estarmos perante algo impossível ou, pelo menos, de difícil realização?

- Como fazes quando queres fazer interagir duas personagens de forma a serem aceitáveis pelo público?

- Crio o contexto credibilizador.

- Exatamente. É o que Cursino faz. É o que eu faço quando quero que Cursino faça. Procura-se a causa, divisam-se os efeitos, pesam-se as consequências, trama-se a sequência.

- Bem dito, Kismet. Então Cursino vai tentar descobrir como tornar aceitável o drama que está a conceber?

- Não Oblata, ele já sabe o caminho que quer tomar. Falta-lhe descobrir as palavras para o tornar verosímil. O problema está na escolha. Cada uma pode aproximá-lo ou afastá-lo do seu desígnio. As palavras são insidiosas. Escondem armadilhas de sentido. Uma vez nomeadas podem levar a mudanças dramáticas.

- Não me parece grande problema. Poderá apagá-las.

- É facto aceite, porém, poderá rasurar o efeito deixado no pensamento e, por obra do entrevisto, o desvio da história?

- Complicas! Vejamos então para onde nos conduzirá Cursino.

 

 

Não há finais felizes. A velhice cai-nos em cima antes de nos apercebermos. Trabalhei toda a vida para dar uma existência serena, feliz, à minha mulher e aos meus filhos. Hoje contemplo-me deitado na incapacidade, precisando de Teresa para tudo. A invalidez tolhe-me os membros frágeis como papéis vincados. A vida passa ao lado deste esperar angustiado. Que fazer se Teresa casa, se for embora. Tremo ao pensar nesta possibilidade. Por vezes, quando consigo ser menos assustado ou mais racional, percebo ser a lei natural. Eu já o fiz! Todos o fizemos! Mas agora tal situação deixa-me de rastos. É egoísmo? Sei bem que o é, mas sem o tempo de Teresa não posso sobreviver. É culpa minha se as pernas não me obedecem, se tenho de passar os dias, ainda por durar, deitado na cama? O lá fora já não é meu. Chega-me através dos ouvidos, rumor surdo com algumas, por vezes, dissonantes notas agudas. Subsisto pelos ouvidos. A isto se reduz uma vida de trabalho. O fim inglório, o peso, que sei ser para os outros. A Leontina está melhor que eu. Ainda sai. Vai à missa. Fala com as vizinhas. Ajuda Teresa na lida da casa. Eu sou esta desgraça de corpo mirrado esperando a esmola de que o tratem, aguardando o dia em que o sopro se vá, e acabe de vez com esta maldição. Decididamente não há finais felizes.

 

Definirei o local. De costa para a igreja, em frente à direita, ficará um jardinzito onde está implantado um coreto doutros tempos. Não sei que por lá tocasse banda ou realejo. Terá sido abandonado há muito. Mesmo o jardim parecerá estar sozinho, entregue ao vento. Habitado somente, por alguns momentos, no fim das missas, se os crentes, ainda na compunção dos sagrados mistérios, o atravessarem. Voltará depois ao bucolismo periurbano. Perde-se, ali, a noção de cidade. Seremos remetidos para a aldeia que já foi, antes de ser tragado pelo avanço imparável da urbe. A aldeia resistirá, quer continuar real. Não podendo manter-se nas ruas, resistirá nas pessoas. Fecha-se dentro dos ciclos vitais, impedirá qualquer abertura para o exterior, qualquer renovamento. Exceto pela televisão, que marcará os ritmos de trabalho e lazer através das telenovelas.

 

Todos os domingos levava a minha mãe à igreja. Para mim, de nada servia o consolo religioso. Não o entendia, nem faziam sentido aqueles ritos vazios, apenas consoladores dos velhos. Com a idade aproximou-se da igreja. O envelhecimento trouxe-lhe uma religiosidade mais forte, creio de algum oportunismo. Seria o medo do absoluto que se aproximava demasiado depressa? O rescaldo religioso da infância a sobrepor-se ao pensamento póstumo do dia-a-dia? Mas que fazer, se isto a faz sentir-se, senão bem, pelo menos mais segura?

 O menos que posso fazer é acompanhá-la. Para mim é absolutamente indiferente. O bem e o mal não vinham de se frequentar, ou não, a igreja. É algo do âmago das pessoas. Nem sequer creio que haja gente boa ou má. São as circunstâncias no percurso de cada um a servir de mapa aos seus comportamentos. Se pensava mais seriamente na vida só me lembrava da lotaria. Um jogo de fortuna e azar a cair sobre nós, sem se saber como ou porquê. Sorte, reveses, tudo por acaso, acontecimentos nascidos de milhares de possibilidades, oriundas de decisões tomadas sem perceber aonde nos levam nos limites. Creio bem que o mais ínfimo gesto desempenhará, no futuro, um importante papel na definição dos acontecimentos sem que, no momento do acontecido, consigamos descortinar o caminho percorrido.

 

A igreja é pequena, branca, com um arremedo de torre sineira onde sobrevive um minúsculo sino, mal ouvido entre os ruídos do trânsito. Tudo ali é miúdo. Como se fosse uma religião em tons menores. Não tem faustos, serve só para devoções quotidianas. Sem luxos a igreja fica mais próxima dos crentes. Compete com eles na modéstia.

 

 

Reparei nela por acaso. Acompanhava a mãe. Mesmo sem querer teria de chamar-me a atenção. Uma flor fresca entre erva velha. Punha um raio de sol no interior da igreja. Não aparecia todos os dias. Ao domingo não faltava. Fui observando-a sem dar a entender. Percebi não ser a devoção a Deus a levá-la ali, mas antes o dever de acompanhar a mãe. Não me desagradou. Estava farto de beatas à espera da absolvição a permitir-lhe um lugar entre os justos. Há muito tempo que um desconsolo frio me apanhara. A Fé, tão brilhante, a levar-me ao sacerdócio fora gasta na observação de misérias e injustiças. Cheguei mesmo à heresia de pensar para que serve Deus se deixa campear a maldade, se permite florescer o predador, se não mostra compaixão pela dor da vítima. Desgostoso comigo falei com o cónego responsável pela paróquia onde exercia. Descansasse, todos passávamos por momentos de dúvida. O Senhor ponha-nos à prova de muitas maneiras. Sabe, padre, são ínvios os caminhos do Senhor. Nada de conforto veio dessa conversa. Também eu, quando não tinha esperança para dar aos que me procuravam para alívio dos males, sem nada mais poder fazer repetia, de modo mais popular, a fórmula com que pretendera tranquilizar-me. Meu filho, poucas vezes, minha filha, muitas mais, sabes, Deus escreve direito por linhas tortas. Via-os ir com o mesmo desalento com que chegaram, igual ao trazido por mim da conversa com o cónego. Na realidade não sabíamos nada, não possuíamos qualquer poder ou lenitivo para os males a afetar a congregação. No entanto estava no ofício escolhido. Ou o abandonava ou continuava fazendo o de mim esperado. Sem horizontes na vida, sem interesses motivadores, prossegui o múnus atribuído. Talvez por isso jamais passasse de padre de aldeias ou pequenas igrejas de baixa côngrua. Também nunca exigi ou fiz alguma coisa para alterar a situação. Aceitei! Procuro não falhar no passar aos outros a crença que não tenho, a esperança que não possuo.

 

Teresa não terá remédio senão reparar no Padre Bernardo. Será o ator principal do drama encenado, várias vezes ao dia, naquele palco.

 

 Veste-se de verde e ouro, de vermelho e ouro, de azul e ouro, sempre de qualquer cor e ouro. É isso que representa a igreja. Refulgências no mundo da pobreza. Não admira que as pessoas se encantem, pareçam adormecidas por todas as lindas palavras vindas dos ouropeis, diferentes daquelas obsessivas, usadas para comentar a doença, alguma alegria, um casamento, ou mesmo, aos domingos, competindo com as missas da tarde, as discussões sobre o futebol. Os padres são vendedores de ilusões. Mentirosos compulsivos a vender sujeição em nome da futura glória. Se é mais fácil um camelo passar pelo buraco de uma agulha, que um rico nos reinos dos céus, porque é que a igreja junta tanta fortuna terrena? Será que os céus vendidos não serão como o apregoado, ou não estão interessados na glória futura quando podem usufruir dos bens do momento?

 

Teresa não gostará do padre. Não por ele. Acha-o simpático, mesmo, como homem, interessante. Desgosta-a ouvir-lhe sair da boca as repetidas palavras dos evangelhos, das epístolas, das pregações cheias de boas intenções, conduzindo à carneirada. Detestará ouvi-lo apelidar-se de pastor, de considerá-la parte do rebanho.

 

 Que diabo, não sou ovelha nem cabra, não necessito de guia a conduzir-me ao redil ou ao pasto. Abomino cães de guarda a morderem-me as pernas, a obrigarem-me a rota para a qual não me pediram opinião. Não quero que a minha estrada seja a de todos. Quero ser eu a procurá-la, a seguir por ela com quantos, de livre vontade, a escolherem.

 

Portanto aborrecerá o padre. Volta e meia tentará dissuadir a mãe daquelas peregrinações espúrias. Propõe trocar a ida à missa por passeios no jardim do coreto. Revolta-se a mãe, preocupada com o encontro com Deus, cada vez mais próximo. Não lhe interessarão os argumentos da filha contra a perfídia religiosa. Deus te proteja e ilumine incrédula, rezará fazendo cruzes de esconjuro sobre a cabeça da filha. Quando chegares à minha idade perceberás a verdade da Fé.

 

Naquele dia a mãe de Teresa desmaiou na igreja. Vomitou, borrou-se, assustando os presentes. Interrompi o sagrado ofício para lhe prestar assistência. Levámo-la para a sacristia onde Teresa, mais duas mulheres, a limparam. Telefonei para os bombeiros, céleres a chegar, a estabilizar a doente, a transportá-la para o hospital. Desconhecedor da gravidade da situação levei os sagrados óleos da extrema-unção, partilhando com mãe e filha os lugares da ambulância. Nada dissemos. Pressentia, na expressão de Teresa, serem os poucos quilómetros a separarem-nos do hospital um caminho sem fim. A angústia chamava o recolhimento. Chegámos ao hospital sem a senhora dar acordo. Demorei-me a fazer companhia a Teresa, até o médico vir tranquilizá-la. O pior já passou. Ficará internada um par de dias para observação. Despedi-me de Teresa intrigado pela conversa tida. Confirmei não ser devota, o que já tinha intuído pelo comportamento alheado nas missas. Apenas acompanhava a mãe pela impossibilidade desta se deslocar sozinha. Não me fingi admirado. Comentei não ser pequeno sacrifício assistir a ritos nos quais não acreditava. Também ela assumiu com singeleza a situação. Fazemos tudo pelos pais, não é? Aquiesci respondendo, pagamos com amor a fatura que eles nunca nos apresentam. Talvez, respondeu-me recolhendo-se ao silêncio. Se não se importar passarei por sua casa para saber novidades da mãe.

 

Teresa anuirá bem como aceita, após total recuperação da mãe, a passagem esporádica do padre Bernardo pela casa a informar-se sobre a saúde da família. Deter-se-á, na maior parte do tempo em conversa com os pais de Teresa. Ela, atarefada na lida da casa, pouco tempo terá para lhe dedicar. Trocam breves comentários, despedem-se até à próxima missa. Assim, Teresa não saberá como, nem quando, começou a ansiar pelas visitas. Apressará as tarefas domésticas para estar livre quando ele chegar. Nas missas de domingo será a mãe quem, inquieta por ter deixado o marido sozinho, a apressará. Teresa entrega-se inteiramente àquela sensação de plenitude ao partilhar o tempo com Bernardo. Cada vez verá nele mais o homem que o padre.

 

Meu Deus, que se passa comigo?

 

Em frente do espelho, aterrado, interrogar-se-á o padre. Intimamente saberá que o tempo dedicado à família de Teresa não é inocente. Procurará todos os pretextos para estar na companhia dela.

 

Tento afastar os sentimentos interditos à situação sacerdotal. Não sou digno. Não posso atraiçoar os votos nem a comunidade. Muito menos almejar tudo quanto aos outros homens é permitido. Juro afastar-me da tentação para logo a seguir correr para ela em desespero de afogado. Que pretendo de Teresa? Companhia, conversa, amor? Impossível, nada lhe poderia dar em troca, não estava preparado para abandonar o sacerdócio, dedicar-se ao século, renegar todas as escolhas feitas até então. Nem sequer percebia se os seus sentimentos eram comuns a Teresa.

 

As incertezas desabarão num domingo à tarde quando Bernardo, sem se confessar o propósito, aparecerá em casa dos pais de Teresa.

 

 Estão a dormir a sesta, disse ela. Meio assustado com a ousadia pretendi recuar. Que palermice, devia ter-me lembrado disso. Num volte-face instantâneo, surpreso pelo próprio rasgo pedi, importa-se de me dar um copo de água? Está um calor de rachar. Teresa sorriu, convidou-me entrar no vestíbulo escurecido, a cortar as inclemências de julho. Entre o ir à cozinha buscar a água e retornar à entrada, pensamento ousado perpassou-me pelo espírito. Ainda bem que apareceu. Está muito ocupado? Nem por isso. Foi para aproveitar o tempo vago que decidi visitar os seus pais. Nem me lembrei da sesta. Como nunca a faço… Pois, continuou Teresa, vou colher ameixas no quintal. A esta hora? Não será melhor esperar pela tardinha? Tem de ser, mais tarde estarei ocupada com o tratamento das roupas e com o jantar. Aproveito enquanto a máquina lava. Se a Teresa resiste à torreira, fraco seria se não a acompanhasse. Trouxe dois chapéus de palha e um cesto. Debaixo da ameixeira, cujos ramos pejados rentavam o chão, as nossas mãos colhiam os frutos vermelhos a tender para o castanho. Por vezes, no afã de encher o cesto, elas tocavam-se ao colher frutos próximos. Quando tal acontecia sentia um arrepio percorrer-me o corpo. Ao susto seguiu-se a premeditação. Quase sem palavras os toques ocasionais tornaram-se carícias. Dois corpos, duas mentes, perdida a noção dos limites, juntaram-se ao coro da natureza. Passado o momento de loucura, envergonhados, vestimo-nos apressados, mal conseguindo trocar duas palavras. No chão, a cesta meio-cheia lembrava-nos o pecado. Estranhamente não sentia remorsos. Somente medo do futuro. E agora? Perguntou Teresa, despertando-me do embrulho de sentimentos e sensações. O que está feito não tem remédio. Há uma decisão para tomar. Paramos de vez ou continuamos? Timidamente Teresa pegou-me na mão. Eu continuo, assim tu o queiras.

Tão difícil encontrarmo-nos. Os trabalhos da paróquia, o controlo social, o povoado pequeníssimo. Nada poderia esconder-se muito tempo. Dávamos tratos à imaginação  para nos encontrarmos. Cada encontro tornava mais possível a descoberta, o escândalo. Na minha casa era impossível. Demasiado exposta. Na de Teresa havia o risco de sermos apanhados pelos pais, ou de algum vizinho reparar na frequência e estranheza das minhas visitas. Teresa não podia ausentar-se muito tempo. Tinha horas para ministrar medicamentos, confecionar refeições, para as saídas com a mãe. As inquietações perturbavam a felicidade permitida por algumas escapadas. Não podemos continuar assim! Ambos concordávamos. Porém nenhum assumia ser o primeiro a propor o passo para a libertação. Qualquer de nós temia que o outro sentisse o avanço como imposição. Os acontecimentos precipitaram a decisão. Ao encontrarmo-nos, por desespero, na casa mortuária, na lateral da igreja, íamos sendo apanhados pela empregada de limpeza. Tive o sangue frio para carregar Teresa com um braçado de flores velhas, conduzindo-a para o recipiente do lixo. A empregada mostrou mau modo, temendo que o voluntariado na igreja se expandisse, retirando-lhe o lugar. Eu trato disso, menina. Entre o sorriso e o enxotamento.

 

Por tal combinámos o encontro, naquela manhã, no jardinzito, junto ao coreto.

 

Estou desesperado. Porra! Outra vez atrasado. Que merda! Quando tomas juízo Xavier. Vou de novo levar no toutiço. Não tomei banho, nem o pequeno-almoço. Barba apressada meto-me no carro, arranco a boa velocidade. Preciso de ganhar tempo. A imagem do Castro, prazenteiro no sorriso, a filhadaputice estampada na cara, a repetir, isso não pode ser, Xavier, não pode ser, atravanca-lhe o pensamento. Outra vez atrasado! Que palerma o Castro! Mal foi promovido esqueceu-se da amizade de tantos anos. Não se lembrava das noitadas e bebedeiras de ainda não há muito tempo. Parecia até quer livrar-se dele, para não haver na empresa testemunha do passado. Acelerava ao ritmo de pressas e pensamentos.

 

Acordei ao despertar do dia. Silenciosa lavei-me, fiz a mala com os pertences. Bernardo tratara de tudo. Estava decidido. Iriam, para outra terra onde não fossem conhecidos, fazer a sua vida. Pé-ante-pé, para não acordar os pais, abri a porta, enchi o peito de ar, senti o cheiro diferente daquele dia e fui apanhada pelo remorso. Como ficariam os pais ao acordar, percebendo que não estava, nem voltaria a estar? Deixei os números dos meus irmãos, junto ao telefone, para eles os contactarem. Com esforço abandonei os arrependimentos. Porque estava a matutar nisto? Sempre tomara conta dos pais, sem o auxílio dos irmãos. Para eles era situação muito confortável. Desistisse da vida, entregasse-a por completo ao serviço da família. Tão conveniente. Alívio enorme. “Teresa não casou, pode bem tomar conta dos pais.” Apercebia-se, agora, do egoísmo e crueldade a que estivera sujeita. Ninguém a consultara. Irmã, ainda por cima a mais nova, era da lei. Pois agora que se entendessem. Fizessem turnos. Contratassem alguém. Ela seguiria o caminho escolhido. Partilharia a vida com Bernardo. Tentariam a felicidade. Tinha esse direito!

 

Acenava a Bernardo, vindo do lado da igreja, também com uma mala, a sorrir-lhe luminosamente.

Vê-lo-á esperar pela passagem a verde do semáforo de peões, iniciar a travessia junto ao cruzamento. Avistará também, com receio, o carro, de condutor cego para o sinal vermelho, não parar, acelerando ainda mais até bater no corpo de Bernardo, atirado como boneco desarticulado para um lado, enquanto o automóvel, desgovernado, se enfiará pelo poste do semáforo, esmagando a parede do prédio.

Correrá desesperada para o corpo inerte. Não conseguirá abraçá-lo. Mãos piedosas seguraram-na enquanto ela olhará, com horror, o sangue a sair do crânio aberto cobrindo a massa encefálica derramada pelo alcatrão. Perceberá ainda o ultimo estremeção com que Bernardo se despedirá da vida. Irão levá-la dali para o café. Dão-lhe um copo de água, não percebendo ninguém como a sua vida se tornara tragédia. Compreensivos murmurarão, é natural, o padre era muito querido da população. Consternam-se levemente contra o condutor. Perdoam-lhe a culpa, paga igualmente com a morte. Alguém conduzirá Teresa a casa. Será poupada ao recolher do corpo, às mangueiradas a limpar a via, levando no fluxo o sangue e a massa encefálica para as regueiras da estrada, caindo em vórtices pelos escoadouros.

Entrei em casa sentindo-me penetrar noutro espaço. Tudo se transformara. Os olhos espreitavam, por entre fumos, a realidade. Eu não estava ali. Ficara para sempre no jardim, junto ao coreto, emersa no sorriso de Bernardo. Continuaria a fazer o que tinha de ser feito. Trataria dos pais, conduzi-los-ia pelo caminho estreito a desembocar na morte, mas tudo seria muito frio, distante. Corri para a casa de banho, acionei o autoclismo para que o soluço contido pudesse sair, inaudível, do peito. Aproximei-me do espelho. Desconheci aquele corpo, aquele olhar, a extrema revolta a penetrar-me. Sufocando soluços, rilhando os dentes, colérica, rezei para o terrível deus das grandes vinganças.

Apenas procurei ser feliz. Era tal desejo pecado? E porque o seria? Tu tens tantos homens e mulheres para te servirem. Que diferença faria deixares aquele para mim? Acaso não poderias passar sem ele? Levaste-o por cólera ou por ciúmes? Qual é a tua grandeza para conter tanta vilania? Percebi a mensagem. Podes contar comigo. Terás a minha submissão, apenas ela, com amor não contarás. Servirei os teus propósitos com sujeição e raiva. Com a mesma com que, neste momento, te digo: eis aqui a escrava do Senhor.

Sairá aos tropeções da casa de banho. O pai acordará com o ruído.

- Há algum problema, Teresa?

 -Não pai, tubo bem!

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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publicado por Carlos Alberto Correia às 11:38

Momentos para inventar o amor

Terça-feira, 12.05.20

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M - Inefáveis

 

 

 

Valéria chegará com ar esbaforido. Sentar-se-á na cadeira de baloiço, deixando-se ficar, por instantes, em silêncio. Rematará esta entrada com, isto tem de mudar. O meu rosto será interrogação.

Venho revoltada! As coisas estão cada vez piores.

Lerá o espanto a assolar-me e dirá:

Deixa-me respirar. Já explico.

Seguir-se-á, para minha perturbação, um jorro de palavras indignadas a bailar-lhe na mente.

 

Todas as semanas vou ao peixe. É um gosto que tenho desde miúda. Já criança adorava ver em cima das bancas os pequenos e grandes seres do mar. Cada um representava uma aventura, um mistério trazido do imenso oceano. Nessa viagem a minha imaginação galopava frenética ao encontro de caravelas e atlântidas perdidas. Por isso, desde sempre, gostei de ir ao peixe.

Só hoje não!

Quando cheguei à banca já ela lá estava. Pequenina, velha, metida num casaquinho de malha que já fora azul-escuro, agora só borbotos, o qual, na sua pobreza, semelhava ténue escudo contra o mundo. Falava com o vendedor. Troquei duas brejeirices com quem me veio atender. Comecei a namorar o pescado. Perguntei preços, vi qualidades, fiz a escolha.

Ao lado, o peixeiro instava a cliente: Então D. Vitória, o que decide?

Olhei para o lado, vi-lhe o olhar doce dançar indeciso entre o carapau e a garoupa. Como éramos as únicas clientes o vendedor não pressionava muito mas, comecei a sentir que estava a ficar um tanto ou quanto impaciente. Já eu tinha comprado salmonetes, um belo pregado, ia a entrar no imperador quando, uma leve voz ciciou a meu lado:

- É que o meu Joaquim está doente. Há duas semanas só come carapaus! Já começa a estar enjoado. Pese lá duas postas de garoupa.

A garoupa tinha um ar lindo. Seria a minha próxima compra. Antecipava as postas grelhadas, a quebrarem-se em lascas plenas de sabor e o vendedor a dizer:

- Pois, é, D. Vitória. São onze euros!

Ai, meu deus, disse aflita a senhora. Só tenho dez euros e isto é para comermos toda a semana. Desculpe-me, desculpe-me! Onde é que eu tinha a cabeça? Olhando para mim pedia proteção, que a compreendesse. Não me leve a mal, mas não posso levar essas postas. Faça-me o favor, embrulhe-me apenas a mais pequena.

Pelo visível sofrimento, pela humilhação da senhora, o primeiro gesto de irritação do vendedor morreu à nascença. Ainda quis fazer uma gracinha dizendo que, com aquele dinheiro, podia comprar carapau para duas semanas, mas ficou a meio da frase, siderado pela fugaz compreensão daquele mísero drama.

Agarrou na posta de garoupa com que iria fazer brilhar o menu do seu doente, pensando possivelmente como esticar os cinco euros restantes nos dias que faltavam da semana. Arrastou-se devagar, só, frágil, acabrunhada para a porta da praça.

Ficámos uns instantes calados! Depois:

- Então o que é que vai mais hoje?

Não ia mais nada. Não poderia ir mais nada. A posta de garoupa solitária sobre a banca era espinha cravada no meu dia.

Paguei com notas a queimar os dedos e saí, atordoada, a pensar como a Maria Vitória, de seu nome, somara mais uma derrota às quantas mais calara ao longo da parca vida.

 

 

 - Isto está a descambar, Kismet. Temos de por travões a esta linha narrativa. Não vamos apresentar um panfleto. Por favor domina essa sanha justiceira. Mete mais mel na receita.

- Ainda não Oblata. Teremos de manter-nos, por enquanto, nesta via. Se quiseres debruçar-te um pouco mais sobre estes assuntos, verás como o amor não anda arredio deles. Há muitas espécies de amor.

- Não contesto, mas também não creio na eficiência da denúncia em círculos limitados. Além disso, para essas funções há órgãos mais eficientes.

- Oblata, Oblata, o teatro, mesmo de fantoches é uma representação da vida. Ou será, como por vezes penso, ser a vida a imitação rasca do teatro.

- Filosofias que não põem pão na mesa.

- Mas ajudam a criar as condições para o alimento lá chegar.

- Pronto, está bem. Só não sei como é que queres, com quatro mãos apenas, pôr em cena a manifestação popular.

- Simples, Oblata. Voltaremos a socorrer-nos da técnica. Enquanto Cursino lê o texto, faremos, por gravação, o ruído da multidão. Mostrando o orador com o som de fundo não será essencial por mais figuras em palco. A encenação viverá sobretudo das ondas sonoras.

- Vamos lá então ver como resulta.

Oblata dirigiu-se para a “régie”, ligou o gravador, apontou um holofote de recorte para a figura de Cursino, que Kismet colocara ao centro e na frente do palco. Logo que a luz incidiu sobre ele rodou lentamente a cabeça para ambos os lados, como se observando o público, criando um momento de suspensão, enquanto o ruído da multidão amainava. Com voz forte, clara, narradora, começou:

 

“O senhor engenheiro é um homem pausado, gentil, discreto. Sente-se-lhe na voz um desgosto profundo de cordeiro sacrificial. Pressente que o mundo não o entende e injustificadamente decidiu, por ilegítima maioria, sacrificá-lo. Ele, cordato sofredor estendeu, pacífico, o pescoço à imolação, qual subtil anho pascal. Eis aqui o cordeiro dos senhores e “fiat voluntas tua”.

O seu rosto sofrido é impudicamente esmiuçado pelas câmaras da televisão, o sorriso dolorido penetra, perdoativo, mais que nas nossas casas nas nossas consciências. Vós todos me condenais, lê-se nele, mas o perdão já está concedido para quando, muito mais tarde – talvez tarde de mais – chegardes à perceção do vosso tremendo engano. Será tarde demais, mas não demasiado tarde, porque eu, magnânimo, sei das vossas fraquezas, entendo-vos a tibieza mas nada, nada mesmo, poderá desviar-me do caminho da virtude que, de momento, só eu soube pressentir. É o custo da grandeza, pensará humildemente refletindo-se no espelho que, enorme, iluminará a entrada de casa.

Corre de justificação em justificação. Para seres mal-intencionados poderá parecer que tão grande ânsia de defesa revelará alguma inconsútil culpabilidade. Claro que nunca, por nunca ser, na boa alma do senhor engenheiro poderia haver qualquer arrependimento. Ele sempre agiu na melhor das fés e para os mais superiores propósitos.

Afirma-o perentório. Tudo quando fiz foi para o melhor bem de todos vós. Pode, pelas terríveis circunstâncias do tempo, parecer exatamente o contrário, mas “quem tiver ouvidos que ouça; quem tiver olhos que veja”. Do meu punho, guiado por um saber superior, brotou a assinatura que a todos, mesmo contra a vossa vontade ou parecer, há de salvar-vos. Cedesse eu a preconceitos mundanos, fenecesse-me a coragem necessária e o Armagedão social invadiria, destruidor, as mais recônditas plagas deste rincão. Primeiro arrancaria os olhos a deixar que tal sucedesse. Sobre mim, engenheiro, recai o terrível peso de vos salvar de vós próprios. Conduzi-vos à vitória sem que vocês percebessem; deixei-me queimar em fogo lento para que os vossos direitos permanecessem; se parece que perderam é apenas porque eu, sabedor de artes imemoriais, convenci os vossos adversários de que ganhavam quando, na verdade, todo o seu ganho seria, posteriormente, traduzido em perdas irreparáveis. Sei que é difícil fazer-vos perceber esta lógica. Por tanto não vos esforceis por entender aquilo que só eu posso perceber. De derrota em derrota levar-vos-ei à vitória. Isso é certo. Basta que confieis em mim.

- Mas, engenheiro, não é verdade que nos vão tirar dias de férias e feriados?

- É, sim, mas isso na verdade será um ganho vosso.

- Um ganho? Replica a plebe, ignara nos jogos de alta estratégia. Que ganho pode haver quando se subtrai tempo de descanso e se aumenta tempo de trabalho?


- Simples! Mantereis os vossos empregos o que não aconteceria se não cedêssemos nesse item. Portanto, tendo isso em conta, é uma vitória.

- Os despedimentos não irão ser ainda mais facilitados?

- Claro que vão e isso é mais uma grande vantagem para as massas trabalhadoras!

- Vantagem? Poder ser despedido por dá cá aquela palha é triunfo que se veja?


- Então não estão mesmo a ver que se os patrões puderem despedir à vontade aumenta o número de postos de trabalhos disponíveis?

- Não, não conseguimos perceber isso. A única coisa que vemos é o aumento de desemprego, a diminuição do subsídio, o corte no tempo em que o mesmo se recebe.

-Exatamente! Mais um grande troféu para a luta do povo trabalhador!


- Homessa, então perder é ganhar? Em que mundo é isso possível?

Calmo, o engenheiro ensaia um sorriso enigmático e diz: é estratégia. Deixamo-los ganhar tudo e fazemos com que nos prometam retornos e maravilhas para o futuro.


 - Engenheiro trocar factos por promessas não é embarcar em enganos?

- Não, que eu cá estou para vos defender até ao fim dos tempos. O vosso problema é a falta de confiança. Crede que muitas vezes o que parece não é e o que não parece é que é. Só tendes de seguir o que vos digo. Trabalhai, trabalhai bem, sem descanso e repousai em mim a dura tarefa de melhorar, no futuro, as vossas condições de trabalho.

Embora relutantes lá partiram os obreiros para as suas tarefas. Eles procuraram os elétricos, os autocarros ou o metro. O senhor engenheiro dos sindicatos esperou que o motorista lhe abrisse a porta de trás do seu BMW, de último modelo, e lá foi, para mais uma reunião de concertação social defender, estrenuamente, os direitos dos trabalhadores.

 

 

 

 

 

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publicado por Carlos Alberto Correia às 11:54

Momentos para inventar o amor

Sexta-feira, 08.05.20

 

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L - Breve imprecação a quatro vozes sobre as mentiras dos políticos

 

Kismet - Pronto! Já sei que neste momento qualquer político que me oiça está a ficar de muito mau humor, a jurar por todos os santinhos que mentiras não é com ele, sempre foi homem impoluto, cidadão exemplar e, na sua terra, a palavra dada vale como assinatura reconhecida no notário. Provavelmente, por ofendido, até pensaria levantar-me um processo por difamação, não fora o facto de eu não referenciar ninguém em particular e não ser possível unir toda a classe política numa ação concertada, porquanto todos, considerando-se honestos, acima de qualquer suspeita, aceitam que os adversários, esses sim, mentem e enganam o povinho despudoradamente. Honra, pois, a uma classe que não sofre de corporativismo militante. Mas, apesar disso, se perguntarmos a alguém na rua qual a sua opinião sobre os políticos em geral, desencadeamos de certeza um rol de invetivas pouco abonatórias para tais personalidades, onde a mentira não é menor pecado, nem dos menos citados.

 Oblata - O senhor político, que acaso me esteja a ler e a discordar de mim, arroje-se a um rápido inquérito de opinião. Terá então de processar a Vox populis, coisa que, por enquanto, é extraordinariamente difícil de conseguir. Por isso as muitas e ocultas tendências censórias à livre expressão, por parte dos corpos políticos democráticos. Que linda seria a democracia sem o direito de opinião do povoléu, como seria idílico o quadro de uma sociedade em que só os tribunos arregimentados pudessem apresentar os seus pareceres. Não seria o paraíso porque a divergência é natural e desejável, mas seria uma divergência entre pares, com os mesmos grandes interesses em comum, com as situações partidárias e pessoais a permitirem uma discussão motivadora, plural, mas centrada nos objetivos mais nobres que à política competem. Estão a perceber o alcance da coisa, não estão? Se aceitarmos de bom grado que na política há pessoas de bem, porque estará tão arreigada a opinião de que político é mesmo mentiroso?

Cursino - Demos então ouvidos à milenária sabedoria do mítico oriente. Naquilo que definiríamos como um possível céu budista estava Buda, distraído, observando a díspar humanidade nos seus entreténs diários, segurando na mão direita uma lindíssima bola de cristal - a Verdade – a iluminar, de modo feérico, o céu em referência. Distraído deixou a bola escapar para a terra onde se desfez em mil pedaços. Surpreendidos com tão intensa luz os homens acorreram ao local do impacto. Cada um apanhou o pedacinho da esfera que logrou alcançar. No entanto, na ignorância e orgulho, convenceram-se de que tinham recolhido toda a verdade.

Valéria - Desde esse dia, como todos pensaram de maneira semelhante, instalou-se na terra a discórdia. Tendo cada um sido contemplado com parte da verdade, todos ficaram convencidos de ter alcançado a verdade total. Deste modo espalhou-se a mais acentuada discórdia.

Cursino - Ora, os nossos políticos são assim como estes ancestrais que viram a luz. Também eles foram contemplados com uma parte da verdade (outros nem isso) e comportam-se como possuidores da verdade integral. Mas, se há muitas verdades e a Verdade é só uma, algumas terão de ser forçosamente mentiras. É muito confusa esta situação?

Valéria - Dizia-me um professor, de há muito, que a ideologia era os óculos com que se via a vida. Deste modo a realidade - coisa que não será exatamente o mesmo que a verdade - observada por duas pessoas, com quadros de referências diferenciados, mereceria, de cada um, interpretações distintas. Assim, não sendo necessariamente mentira, cada um deles, dirá do mesmo objeto coisas opostas. Para nós, dependendo igualmente dos nossos óculos, umas serão verdade e outras mentiras, sendo, no entanto, o mesmo o objeto apresentado.

Cursino - Lembro-me, mais ou menos, de uma passagem do Miguel Strogoff de Júlio Verne. Dois jornalistas avançavam, no Transiberiano, através da vasta estepe. Ia cada um do seu lado do comboio. Olhavam, pela janela, para a paisagem, descrevendo-a, em seguida, para os leitores. O que ia de um lado via os campos queimados pelo que transmitia a ideia de uma Rússia descampada e desolada. O outro, de cujo lado corria o ribeiro que fazia verdejar toda a paisagem, descrevia uma Rússia verdejante e fresca. Como nenhum deles olhou para o lado contrário, ambos ficaram convencidos que tinham sido os fiéis relatadores da realidade paisagística e que o outro era um terrível mentiroso, apenas interessado em construir uma realidade fictícia.

Kismet - Assim são os nossos políticos. Cada um com algo da verdade arroga-se ao direito de ser possuidor da Verdade única. Cada um, sentado no seu lado do comboio, descreve a paisagem que vê e não admite que, do outro lado, o horizonte possa ser diverso. Aqui temos uma explicação possível para o facto de os políticos serem considerados mentirosos. Se, no entanto, fosse só isto poderíamos filosoficamente aceitar a diferença de posições e opiniões. Mas outros factos há "de mor espanto".

Oblata - Um político é um ser que se arroga o direito de ter opiniões por nós. A partir de um ato fundador, chamado eleições, considera-se mandatado para todos os atos, dessa legislatura, de forma plena. Quer-se dizer que não mais precisa de nos consultar, que as suas posições são mais representativas da vontade do povo que a própria vontade da população.

Estranho, não é?

Kismet - Mas é assim que pensam e pouco há a fazer quanto a isto. É como se, ao lhes darmos o voto, eles recebessem a capacidade de definir, sem erros, a nossa vontade. Usando discricionariamente deste direito afastam-se, cada vez mais, do comum dos mortais. Ascendem a um plano de iluminação superior, ganham um olhar mais penetrante e analítico, recebem uma capacidade acrescida de fabricação do real. Falam-nos de coisas que não vemos, produzem realidades que não sabemos nem conseguimos, por mais que nos obriguem, percecionar. Para nós, está aí outra mentira. Esta nem sequer filosófica. É apenas cenográfica.

 Oblata - Mas há mais. Quando em campanha prometem conseguir tudo quanto os anteriores disseram fazer e não fizeram. Logo que eleitos dizem não poderem cumprir o prometido. As circunstâncias mudaram. Na verdade o que mudou foi o facto de quererem o poder e de, ao tê-lo conseguido, admitirem serem as promessas apenas isso ou que não seria possível, no mundo real, cumprir o prometido. Isto para não falar em interesses submersos, cálculos de vida e benesses superiores para a espécie.

Valéria - Assim se mentem e nos mentem levando ao descrédito das virtualidades da Democracia. Nós percebemos que os políticos são pessoas como as outras, que têm famílias para cuidar, prestações para pagar, carreira a manter. Só que, por estranhas crendices, somos sempre levados a confiar que agora é que sim, com este é que vai ser e a resposta é sempre: - ainda não é desta, com este não vai. Por isso se desacreditam e nos vingamos, com ingenuidade, falando das moscas serem outras mas não mudar a substância. Alguns de nós, menos precatados ou mais desesperados, até sonham com regressos salazarentos e coisas semelhantes. O melhor nestes casos, é fazer como Fernando Pessoa, que aconselhava a não se comer dobrada fria.

Cursino - Pensemos entretanto se será possível, a quem quer conquistar ou manter o poder, evitar a mentira. Por muito que custe, a única resposta que eu tenho é um rotundo Não! A sociedade é o que é e pobre do político que quisesse manter uma relação de verdade com o povo. Não só nunca chegaria ao poder como esse mesmo povo, ao ouvir as duras verdades da existência coletiva, tudo faria para que tal governante, de imediato apodado de mentiroso ou incapaz, fosse apeado e cedesse lugar a outro com falas mais convenientes.

Kismet - Apesar de procurar uma solução eficaz para este dilema, para ser verdadeiro, não a encontro e tenho que terminar, em disforia, pensando que os políticos mentem por não terem outra possibilidade senão continuar a mentir se querem perdurar no ofício. Pelo nosso lado, voltaremos a votar em quem, mesmo falando mentira, nos prometer mais cinco alqueires de milho ou um impossível paraíso à mão de semear.

Todos (vozes dissonantes) - Ai isso é que vamos e esse é que queremos!

 

Kismet dependurou os títeres nos ganchos, desligou a instalação sonora, abraçou Oblata e suspirando exclamou: - Finalmente disse o que queria. Não quero saber se fica bem ou mal na peça, nem me interessa a confusão entre as instâncias narrativas. Sinto-me aliviado. Oblata sorriu-lhe replicando, tudo isto é muito pouco. Kismet pareceu não ter ouvido e continuou, queres saber uma coisa? Cada vez que suspendo os bonecos sinto-me não só a interromper um pouco de mim, como me parece ver o Cursino a sorrir com ar de mofa.

Oblata acariciou-lhe os cabelos, afastou-se e já de costas rematou, és mesmo um sonhador!

 

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publicado por Carlos Alberto Correia às 12:25

Momentos para inventar o amor

Terça-feira, 05.05.20

 

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K - Mande queimar a roupa velha

 

Valéria andará febril. Será convidada para oradora numa convenção sobre a diferença social. Andará às voltas sem saber como agarrar o tema. Ficará obcecada, com medo de não conseguir passar da mediocridade que saberá ser costume revestir os discursos destes encontros. Tocar-se-á levemente nas fímbrias do problema, choverão os cumprimentos obrigatórios mesmo às mais banais participações, a eloquência na condenação da fome no mundo ficará mais vibrante, conforme os pratos e os vinhos forem sendo servidos. Poucos se lembrarão de como é fácil falar de fome com a barriga cheia. Na consciência embotada pelo bem-estar é simples resolver, em palavras, a concreta miséria dos outros. Por isso ela quererá marcar a distância de molde a ninguém deixar de perceber como nos sentimos confortáveis nestas diferenças ou fazer aparecer o terrível incómodo de sermos, pensando neles com boa consciência, parte interessada na manutenção deste nós, do qual nos esforçamos para não divisarmos fazer dele parte intrínseca. Para maçada das gentes bem pensante mostrará o preço do bem-estar.

 

Nós entramos em casa, ligamos a luz, tomamos um banho quente, vemos o noticiário na TV. Eles não têm casa ou quando a têm é de cartão, ramos de árvores ou materiais compósitos, pobres; iluminam-se com fogueiras ou velhos candeeiros; percorrem quilómetros para alcançar um ponto de água, quantas vezes insalubre. São, tantas vezes, as personagens e as vítimas dos noticiários que nos entretêm.

Nós temos automóveis potentes que nos transportam, com facilidade, aos locais de trabalho ou aos divertimentos que procuramos. Eles andam a pé, extraem dos seus solos o petróleo que faz andar os nossos carros e morrem em guerras feitas para os expropriar desses combustíveis.

Nós vivemos em democracias e achamos que temos esse direito natural, como se este fosse o estado normal do viver dos homens. Eles não têm quaisquer direitos senão o de penar sob o jugo de qualquer pequeno senhor local, que os utiliza de modo instrumental, para seu benefício imediato, visível e para um distanciado e obscuro interesse das longínquas democracias.

Nós sofremos terrivelmente com o mau funcionamento da nossa rede hospitalar e temos vidas prolongadas; eles morrem novos, já velhos de míngua, minados por doenças incontáveis e veem os filhos desaparecer com febres que, nos nossos mundos, uma aspirina curaria.

Nós vamos ao supermercado comprar produtos de toda a parte, sempre excessivamente caros, fazemos várias refeições diárias que comemos, quantas vezes, enfastiados. Eles procuram comida em matas, ribeiros, lixeiras. Não sabem quando nem se poderão matar a fome nesse dia, e produzem, por quase nenhum valor, os dispendiosos ou desperdiçados produtos que habitualmente consumimos.

Nós temos jardins-de-infância, escolas, programas de reabilitação para dependentes de várias facilidades. Eles vagueiam pelas ruas, roubam, brigam, morrem sob as balas “justiceiras” da polícia, ou qualquer outra força de ordem que nós, para eles, misericordiosamente treinamos e exportamos.

Nós inventámos e receamos a globalização, sentindo que ela põe em perigo a nossa prosperidade. Eles são o motor, os escravos dos nossos empreendedores globalizantes e morrem, de acidentes ou exaustão, nas fábricas deslocalizadas, nas minas sem possibilidades de deslocalização.

Nós embarcamos em cruzeiros de luxo, cruzamos o Mediterrâneo, demandamos os paraísos artificiais das costa de África. Eles cruzam-se connosco em velhos barcos meio desmantelados buscando, clandestinos, o eldorado da margem donde nós partimos para férias. Morrem na tentativa ou são capturados, desgraçados e famintos, pelas polícias do almejado paraíso.

Nós produzimos e vendemos as armas com que eles se matam, para garantirmos o domínio económico dos bens que as suas terras possuem, mas eles não.

Nós somos inocente ou culpadamente assim. Eles são-no, igualmente, mas em muito piores circunstâncias. Por isso, meus senhores o que esperam que venha a ocorrer, entre nós e eles, senão o mesmo que entre as hordas de bárbaros e o poderoso império romano aconteceu?

As decadências dos impérios têm todas um suave fascínio de queda e entropia!

 

- Estás satisfeita? Lá deste protagonismo a Valéria.

- Mais que merecido, não achas, Kismet?

- É o que se verá. O texto dá muitas voltas.

- Também penso assim. Parece-me porém não estarmos a imaginar o mesmo.

- Provavelmente, não. Na verdade já tracei uma boa parte do caminho de Valéria.

- Posso presumir, pelo andar da narrativa, não ser nada bom.

- O que é bom e o que é mau? Tudo são escolhas e consequências.

- Envenenadas… deixas as personagens pensar em livre arbítrio e desenhas-lhes percursos obrigatórios…

- Nem tanto assim, já falámos disto. Não vale a pena continuar a bater na mesma tecla. As personagens não sofrem. Inventamos-lhe o sofrimento como forma de o transmitir ao espetador.

- Continuas a contradizer-te. Se fogem do teu domínio como não lhes atribuir as emoções que despertam?

- É diferente. É a trama que por vezes se bifurca e abre caminhos não premeditados. Isso não é volição real. É apenas aparência. A marioneta não consegue aperceber-se dos fios que a conduz. Ainda que por vezes possa parecer-lhe que algo a domina ou carreia, não tem olhos para ver o manipulador. Pode suspeitá-lo quando algumas situações se desviam demasiado do perspetivado. Nunca terá a certeza.

- És então o destino…

- Tanto como tu, Oblata, quando decides fazer entrar qualquer personagem ou mudar a ação que lhe atribuí.

- Admito-o mas sou muito menos controladora que tu. Intervenho o menos possível. Sobretudo deixo fluir.

- Santa mãe misericordiosa…

- É preciso temperar os excessos que perpetras.

- Boa, boa, agora sou o mau da fita. Apenas procuro entreter o público.

- Atirando-lhe para cima com as dúvidas de Cursino, a depressão de Valéria? Nem sequer um pouco de comédia. Vá lá, isso também faz parte da representação.

- Que pensas ser a tragédia senão a parte da comédia onde o ator percebe o fim inevitável? Que o viva desinteressado ou na angústia da chegada é que faz a diferença. Prefiro a angústia ao desinteresse…

- Eu prefiro a paixão, o amor.

- Ficas a meio da história. É necessário chegar ao limite.

- Porquê?

- Porque temos todos de beber do cálice até à última gota. Essa é sempre, sempre, amarga. Atenta no drama do pacifista.

 

Felício era grande, poderosos músculos treinados todos os dias nas máquinas do ginásio, nas corridas na mata. Criança feliz de pais sem problemas, nunca tivera de lutar por nada. Tudo lhe vinha parar às mãos como graça devida. Mesmo as escaramuças de colégio ficavam longe dele. O aspeto poderoso afastava, só por si, quantos fiados em tamanho ou idade, faziam inferno da vida dos mais pequenos. Ele, mesmo quando mais pequeno, era maior. Cresceu, por isso, com ar bonançoso, absolutamente pacífico. Como viajando em cruzeiro aconteceu-lhe a adolescência, a faculdade e, mesmo o primeiro emprego, deslizara para ele vindo das mãos da família.

Já pelos trinta, com um filho de poucos anos, quis procurar por si o rumo da vida. Sendo engenheiro não teve dificuldades no mercado. Punha, no entanto, a si próprio uma condição: não trabalhar para empresas de armamento. Portanto servia-lhe às mil maravilhas aquela fábrica de componentes eletrónicos para máquinas hospitalares. Conseguia o emprego por si próprio, trabalharia para o bem da humanidade. Apenas a condição do mundo o afastava da perfeita felicidade. Todos os dias, em qualquer parte, a natureza ou o homem, este mais que aquela, traziam dor e miséria ao quotidiano das gentes. Que deus cruel nos criou, pensava Felício com alguma infelicidade. A natureza, sabia-o, poder-se-ia dominar. Todos os dias se inventava qualquer coisa para minorar a cegueira da natura. Imperdoavelmente só os homens teimavam em acrescentar medo a medo, insegurança a insegurança, ódio a ódio. Felício não conseguia entender o porquê de tanto mal-estar, de tanta perseverança na desventura. Prometia-se a si mesmo jamais participar de semelhante jogo.

Na abertura do telejornal viu horrorizado os bombardeamentos, com mísseis termonucleares, no médio oriente. Horror! As cidades desaparecidas, as centenas de milhar de mortos, mesmo os jornalistas que cobriam o acontecimento não seriam tão-somente defuntos adiados? E nós? Como se traduziriam nos nossos países, afastados do conflito, as sequelas daquela loucura? O mundo a vir seria seguramente muito diferente daquele onde até então vivera.

Receara que os acontecimentos viessem a perturbar completamente a sua vida. Pensara poderem fechar a fábrica ou, pior ainda, antevendo o mundo a sobrar de tão terríveis acontecimentos, que a pudessem remodelar para fabrico de armamentos. Felizmente nada aconteceu. Antes pelo contrário. As necessidades de produção aumentaram, o ritmo de fabrico cresceu. Inicialmente toda a gente se sentiu em segurança. Não pertencíamos aos países beligerantes, tínhamos abrigos capazes de resistir a ataques nucleares, havia, por todo o lado, bem protegidas, culturas hidropónicas suficientes para alimentar a população em caso de contaminação de alimentos. Sentia-se por vezes um pouco egoísta ao comparar o relativo bem-estar com o das populações a viver nos locais dos combates. Estava, simplesmente, impotente para obviar ao holocausto que percorria parte do mundo. Vencia com racionalidade o relutante remorso que teimava em instalar-se. Adormecia-o no aconchegado da família, abraçando-os na tentativa de protege-los da ameaça pendente. Foi trágica a morte do filho. Apesar dos cuidados e dos avisos consumira, num descuido parental, alimentos contaminados. Dolorosa e prolongada a agonia. Com ele iam morrendo, a pouco e pouco, os pais. Lavrava na mãe o remorso de não ter conseguido guardar o filho daquela desgraça. Felício, nada dizendo, recolhia-se na raiva do acontecimento e, muito em segredo, pensava na culpabilidade da mãe. Instalara-se o inferno na casa onde se pensava permanente a ventura. Ambos, reconhecendo o que calavam, afastavam-se continuadamente sem serem capazes de encontrar a boia salvadora.

No dia em que descobriu que, contrariamente ao declarado, as componentes que faziam não se destinavam a máquinas hospitalares mas sim ao aparelho direcional dos mísseis, Felício caiu em letargia. Nada que a mulher tentasse o retirava daquele sono negro. O mundo em acelerada degradação, o filho morto, ele, sem o saber, responsável indireto por tanto sofrimento. Não conseguiu aguentar. Deixou de ir trabalhar, perdeu direito às senhas de racionamento e habitação. Nada o fez sair da apatia! Nem sequer a mulher quando, desesperada pela pobreza anunciada, acusando-se e sabendo-se acusada pela morte do filho, sem uma palavra ou uma linha o abandonou, procurando algum lenitivo longe do desespero de Felício.

No último dia naquela casa, construída com sonhos, desabada em dores, ouviu o novo Caudilho fazer o discurso de apresentação às massas. O descalabro que reinava pelo mundo, ali chegado apenas em eco, trouxera, mais que contaminação, a loucura ditatorial. Tudo começou quando a economia mundial derruiu e a autarcia se assenhoreou dos territórios onde a democracia parecia plantada com raízes fundas. Primeiro a falência do sistema financeiro, depois o desmoronamento do comércio, a seguir o endurecimento do sistema de racionamento alimentar fizeram desaparecer, com estrondo de armas entre grupos rivais, o que ainda resistia de relativa justiça. Na televisão, a funcionar quando podia, ouviu o discurso às massas.

“Cidadãos - dizia o homem forte, de bigode farto, óculos escuros, farda e dragonas de general, ar marcial, fala fluente – a desgraça caiu sobre o nosso país. Todos tivemos conhecimento de como homens corruptos, ambiciosos se apoderaram do poder, usando-o sem rebuços, em proveito próprio e das suas cliques, contra o nosso povo. Era necessário pôr fim a esse regabofe nojento, assente sobre os cadáveres dos nossos conterrâneos. Ao fim de muito tempo de porfiada luta, quis Deus dar-nos a vitória. Não fui eu que venci. Foi Deus, repito, quem assim o determinou. E isto porque é preciso que se faça justiça. Que a cada um seja concedida a sua parte e de cada um possamos receber a doação do melhor esforço para o ressurgimento desta grande nação, do seu glorioso passado, do seu antigo esplendor. Para isso vim, por isso lutei e, felizmente, foi-me, pelo Altíssimo concedida a vitória. Por tal estou hoje aqui, perante Ele e ante vós, para por, à vossa disposição o melhor de mim próprio. Não posso prometer riquezas. Prometo muito trabalho e justiça. Justiça na repartição dos alimentos, das casas, da saúde e, não se esqueçam, da educação que poderá transformar este país, de novo, no luzeiro de cultura e prosperidade de que tanto nos orgulhávamos. Reposta a paz no país, vamos ao trabalho para, engrandecendo-o, nos engrandecermos. Infelizmente tenho de continuar, por algum tempo, a pedir-vos sacrifícios. O perigo do exterior é visível. Os nossos vizinhos espreitam, nas fronteiras, o tempo do desfalecimento para nos reduzirem à mais mísera escravatura. Temos de resistir. Para tanto, por meu desconsolo, não posso mudar de imediato, como desejava, a distribuição dos resultados. Teremos de, por algum tempo, manter a quota de três quartos de produção para o custo da defesa e desenvolvimento. Sei que muitos ficarão desiludidos. Esperavam que, ao vencermos, desfizéssemos de imediato o mal causado pelo ditador em boa hora derrubado. Infelizmente não o poderemos fazer. Ao verificarmos as contas percebemos ser a situação económica pior que a revelada por esse governo de ladrões. Mas fica prometido! Será um período transitório e breve. Confiem em mim, como eu confio em vós!”

Às bonitas palavras sucedeu um regime de discriminação e terror. Aquilo que se produzia caminhava para os celeiros e cofres de Estado. Na função distribuidora criara-se um sentido de justiça muito particular. Todos éramos iguais na pobreza. Orientações não escritas introduziam sorrateiramente a eutanásia e a eugenia. Quem não tinha trabalho fica na miséria absoluta. Se a fome o obrigava a roubar era sumariamente executado. Guardavam-se os medicamentos para os apoiantes do regime. Morria-se nas ruas, em completo abandono, por não se conseguir um antibiótico. Reservado a combatentes, era a justificação. Combatentes seriam todos quantos serviam o regime, mesmo que do fragor das batalhas nunca tivesse ouvido nada. Os velhos e doentes, bem como crianças com defeitos genéticos, eram eliminados ativa ou passivamente. Nasceu a ideia de refundar a raça. Queriam-se homens fortes, aptos para o combate fora e dentro do país. Seres racionais, desprovido de emoções, capazes de todo sacrificarem ao regime, até a si próprios, se os acontecimentos o exigissem.

Ao fugir do recrutamento compulsivo tornou-se pária. Vivia em escombros, esgotos, esperando o dia de ser apanhado na busca de alimentos e ser ali, sumariamente, abatido. Aquele que fora o pacifista pleno sentia crescer dentro de si uma raiva absoluta, o desejo imperioso de fazer alguém pagar o preço do desespero. Mas andava transviado e só. Ao amanhecer escondia-se em furnas ou recantos, esperando a cobertura misericordiosa da noite. Então galgava a cidade procurando o que precisava, tirando-o de quem calhava. Por vezes doía, mas a sobrevivência estava acima de qualquer culpa.

Nesse estado encontraram-no os membros da FUCOTI – Frente Unitária Contra o Tirano. Não foi amigável o primeiro encontro. Vinham em ação de recolha de víveres, ele estava no caminho. Apesar de forte, pela primeira vez sentiu a impotência. Travado no caminho pela autoridade armada do “Pare!”, ficou uns momentos aturdido pensando, é agora! Reparou melhor. Percebeu, pela diversidade de fardamentos não ser força governamental. Sentiu-se mais aliviado até ao momento em que pancadas violentas, vindas de todo o lado, ressoavam no corpo cada vez mais magoado, até que uma coronhada caridosa lhe apagou os sentidos. Recobrou-os, deitado na caixa de uma carrinha, o corpo acompanhando os movimentos e os socalcos da estrada, ouvindo uma voz dizer, é demasiado forte para ser entregue aos bichos. Havemos de o amaciar. Faremos dele um bom soldado.

“Entre pancadas, castigos, obediências tornaram-me guerrilheiro. A raiva comprimida em mim encontrava, nos exercícios e nas sortidas subsequentes, a via de esvaziamento. Comecei a sentir-me reconfortado quando, após algum ataque às forças do Caudilho, celebrávamos os mortos deles, homenageávamos os nossos. O exercício da violência letal passou a fazer parte de mim. Eu era aquela máquina de guerra que levava terror aos opressores do povo. Sabia falar a língua que temiam. O poder da força. Contra nós nada podiam os discursos mentirosos. Dialogávamos metralha contra metralha. A fome, o desespero, a repartição do fruto das investidas que a guerrilha partilhava com a população, faziam-nos crescer mais e mais. Já éramos exército, tomávamos cidades, tínhamos terrenos. Cultivava-se e dividia-se com a população. Em troca encobriam-nos os movimentos, davam-nos os filhos para continuar a luta. Nos tempos fui ganhando proeminência. Não temia combates nem morte. Talvez mesmo, se descesse ao fundo do poço negro da alma, sem o querer reconhecer, a desejasse. Sentia-me sujo, distante de quanto fora e quisera ser. Calava o incómodo da voz, ignorando-a, fazendo-a desaparecer no estrondos do combate. Ali não se conseguia fazer ouvir. Por isso procurava a batalha.

Descoberto o facto de ser perito em engenharia destacaram-me da zona de ação. Passei a integrar uma pequena elite onde os saberes profissionais eram mais importantes que o combate direto. Não o abandonei completamente. Fazia parte das obrigações dos comandantes participarem, com algumas precauções, em certas ações, para fortalecerem os laços com os combatentes. De vez em quando algum pagava com a vida essa diretiva. O comandante-geral, por descuido ou informações passadas ao inimigo, foi vítima de uma delas. Um pouco sem saber como, vi-me no seu lugar. Deixara escrito que se um azar de guerra lhe sucedesse o devia substituir. Outorgava-me capacidades estratégicas que não garantia possuir. Tomei o comando, intensificámos as ações ofensivas. Quando a relação de forças no terreno me pareceu favorável reuni o estado-maior. Apresentei o plano. Vamos atacar o covil da víbora. Genericamente não tive grande oposição, algumas dúvidas deste, um desaconselhamento do outro, mas a maioria esmagadora pensava como eu. É o momento de atacar, de livrar o país desta peste que o infesta e lhe tira a vitalidade. Erguemos os copos. Morte ao ditador! Viva o Povo! Viva a Liberdade!

Pouca resistência encontrámos pela parte do Caudilho. Devia sentir o inseguro da posição. Antes de tomarmos o palácio já ele estaria a bordo de um avião, partindo para onde pudesse gozar as riquezas subtraídas ao Povo. Regressava a justiça e a equidade.”

É preciso preparar-se para falar na televisão. Olhou-se no espelho. Camuflado infestado de terra, barba comprida, olhos esgazeados de sono e pólvora. Teremos de melhorar esse aspeto, não quer deixar má impressão no primeiro contacto com os cidadãos, aconselhava o mestre-de-cerimónias, do regime anterior, mantido no cargo por ser informador das nossas forças. Há que dar ao país a imagem da pujança segura,  amiga. A seu mando o barbeiro veio escanhoá-lo. Deixe o bigode, dá a imagem de masculinidade madura. Transmite confiança. Por favor dispa o camuflado. Vista esta farda. Ajudou-o a envergá-la. Afastou-se dois passos, perfilou-se, fez-lhe a continência.

 Está esplêndido meu general! Não se esqueça dos óculos escuros. Dá-lhe a imagem de proximidade longínqua que as gentes gostam de ver em quem governa. Isso, desloque-se com ar marcial. A imponência que puser no andar mostrará o quanto se sente seguro. Transmitirá essa segurança aos governados. Pigarreie e beba um gole de chá, para aclarar a voz. Assim mesmo. Enfrente as câmaras com firmeza. Ponha nas palavras a emoção de quem é companheiro, a frieza de quem tem uma missão para cumprir, doa a quem doer. Agora pronuncie o discurso sabendo que milhões o aguardam como palavra sagrada, redentora. Leia-o no ecrã que tem em frente. Ele surgirá à medida das necessidades.

Felício voltou a aclarar a voz, o ecrã acendeu-se,  as palavras começaram a surgir.

 

 

“Cidadãos -  dizia o homem forte, de bigode farto, óculos escuros, farda e dragonas de general, ar marcial, fala fluente – a desgraça caiu sobre o nosso país. Todos tivemos conhecimento de como homens corruptos, ambiciosos se apoderaram do poder, usando-o sem rebuços, em proveito próprio e das suas cliques, contra o nosso povo. Era necessário pôr fim a esse regabofe nojento, assente sobre os cadáveres dos nossos conterrâneos. Ao fim de muito tempo de porfiada luta, quis Deus dar-nos a vitória. Não fui eu que venci. Foi Deus, repito, quem assim o determinou. E isto porque é preciso que se faça justiça. Que a cada um seja concedida a sua parte e de cada um possamos receber a doação do melhor esforço para o ressurgimento desta grande nação, do seu glorioso passado, do seu antigo esplendor. Para isso vim, por isso lutei e, felizmente, foi-me, pelo Altíssimo concedida a vitória. Por tal estou hoje aqui, perante Ele e ante vós, para por, à vossa disposição o melhor de mim próprio. Não posso prometer riquezas. Prometo muito trabalho e justiça. Justiça na repartição dos alimentos, das casas, da saúde e, não se esqueçam, da educação que poderá transformar este país, de novo, no luzeiro de cultura e prosperidade de que tanto nos orgulhávamos. Reposta a paz no país, vamos ao trabalho para, engrandecendo-o, nos engrandecermos. Infelizmente tenho de continuar, por algum tempo, a pedir-vos sacrifícios. O perigo do exterior é visível. Os nossos vizinhos espreitam, nas fronteiras, o tempo do desfalecimento para nos reduzirem à mais mísera escravatura. Temos de resistir. Para tanto, por meu desconsolo, não posso mudar de imediato, como desejava, a distribuição dos resultados. Teremos de, por algum tempo, manter a quota de três quartos de produção para o custo da defesa e desenvolvimento. Sei que muitos ficarão desiludidos. Esperavam que, ao vencermos, desfizéssemos de imediato o mal causado pelo ditador em boa hora derrubado. Infelizmente não o poderemos fazer. Ao verificarmos as contas percebemos ser a situação económica pior que a revelada por esse governo de ladrões. Mas fica prometido! Será um período transitório e breve. Confiem em mim, como eu confio em vós!”

 

 

Acabado o discurso Felício saiu cercado por militares e políticos. Dirigiu-se para o quarto de onde viera. Olhou-se no espelho. Gostou daquilo que viu. Uma mancha esverdeada ensombrava a alcatifa vermelho escuro do chão. Reparou melhor. O camuflado sujo de tantas lutas olhava-o com ar interrogador. Sentiu-se incomodado. Voltou a olhar-se no espelho.  Continuou a gostar do que via. Deu um pontapé no camuflado, atirando-o para detrás de um sofá de veludo, fora do raio de visão. Chamou o mestre-de-cerimónias. Ríspido perguntou-lhe:

Por que raio não limparam o salão? Mande queimar aquela roupa velha. De imediato!

 

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publicado por Carlos Alberto Correia às 11:50