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Quem irei bombardear na próxima semana?

Domingo, 15.04.18

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Toda esta confusão que vai pelo mundo, mormente no oriente vizinho, é muito simples. No entanto, além de me sentir meio perdido em toda ela, abomino que joguem comigo, com a informação e contra informação, de molde a fazerem-me sentir perdido, estúpido.

 

Senhores mandantes do mundo, não sou cretino e sei que o não sou. Por isso parem de agir como se o fosse.

 

Entre ameaças de mísseis e mísseis ameaçadores, passámos a última semana. Ouvi declarações, acusações, defesas de toda a ordem e complexidade. Li a indignação fácil e civil, de ambos os lados, nas redes sociais e vi tratarem-se assuntos, que poderão pôr a humanidade à beira da extinção, com a paixão e o nível racional postos a contestar a derrota do meu clube de futebol, apesar de no íntimo saber que foram uns nabos, que não se esforçaram, que se estiveram nas tintas para os adeptos ou, até no limite, que possam ter sido corrompidos para atingir aquele resultado. É mais fácil acusar o árbitro.

 

Porque não quero cair nesse despautério bebi um copo de água, fiz cinco respirações profundas e dediquei-me, mais calmo, a analisar os atores do evento.

 

Comecei por Assad. Concordo com Trump. Uma besta assassina! E veio-me o desconforto desta concordância. Espera lá, o Trump não tem armazenamento de gases tóxicos? Tem sim, senhor e, de certeza, muito superiores, em quantidade e toxicidade, aos existentes na Síria. Mandou destruí-los? Não! Então quere-os para usar em qualquer eventualidade? Com certeza. Nesse caso que moral tem para atacar a Síria pela posse e uso desses venenos? Usou-os contra o próprio povo! Imperdoável, sem dúvida. E Trump não o usaria caso as minorias exóticas, existentes nos Estado Unidos, pegassem em armas contra o Governo Central? Respondam vocês.

 

Então, exalta-se um amigo, justificas o ato de Assad? Porque faria tal só por chamar a atenção para a hipocrisia do senhor Trump? Claro que não justifico Assad, claro que penso que não merece continuar à frente da Síria e claro que esperei – ó primaveras árabes – que o clã dirigente fosse derrubado pelos opositores e que se instalasse uma forma de governo mais amiga dos cidadãos, de todos, não apenas dos apoiantes e beneficiários do regime, com mais justiça e igualdade. Ingenuidade minha? Talvez, mas prefiro esta ingenuidade ao cinismo do deixa ficar porque isto já sabemos o que é e desconhecemos o que virá.

 

Portanto, de uma penada, não estou do lado de Trump, nem de Assad.

 

E da senhora May? Credo! Abrenúncio! Então só porque se debate com o fracasso do Brexit, perde apoios internos, vou permitir que em imitação de Thatcher invente outras Malvinas. Que crie um inimigo externo para obnubilar debilidades internas? Ponha o mundo à beira do abismo para resolver o impasse da reunião que terá na segunda-feira e supõe lhe seja desfavorável? Uns misseisitos contra a Síria, ao lado do “amigo” Trump, se calhar poderão facilitar-lhe a vida…

 

O mesmo para Macron. Este Passos Coelho, mais poderoso e sofisticado, está a braços com a dificuldade da aplicação de “medidas estruturais”, que como se sabe, consistem essencialmente, em cortar, cortar, cortar: nos empregos, na saúde, na educação, nos vencimentos, nas reformas e ajudar, ajudar, ajudar os grandes empresários, os bancos falidos, para enriquecimento da clique que os dirige, a capacidade de fuga ao fisco, o predomínio dos “offshores”.

 

Por aqui, abreviadamente, estamos confessados.

 

E a Rússia? Perguntam-me outros amigos confiantes em que defenderei o seu papel. A Rússia o quê? A que esmagou a Tchetchénia? A que invadiu a Crimeia? A que desestabiliza a Ucrânia? A que dizendo atacar o ISIS minou a oposição a Assad?  A que já usou gases tóxicos e assiste impassível ao seu uso na Síria? Ora vão pentear macacos e pregar moral para outro lado.

 

Mas o ataque com armas químicas pode ser uma encenação! Pode com certeza! Destes tipos espero tudo. Será, aliás, suficientemente horrível para que as boas almas desejem o castigo de tão abomináveis personagens. Porém, se não tivesse havido o caso das armas de destruição maciça no Iraque, eu poderia embarcar… mas houve e tornei-me muito desconfiado. Quero provas, provazinhas… e depois a montagem desta cena não me convence.

 

Primeiro põem-nos os nervos em pé com uma situação que poderá facilmente acabar em Armagedão entre o dois Titãs do Mundo. Personalizando, Trump e Putin. Depois assistimos a qualquer coisa que me cheira a coreografia.

 

Eu explico!

 

O inefável Trump ameaça com o envio de mísseis lindos e novos. Putin, mais cauteloso, deixa falar o seu embaixador, põe um general a anunciar o derrube dos ditos mísseis e o ataque às bases de lançamento. Entretanto, como a mesma inutilidade de sempre, discute se na ONU o que fazer ou o que poderemos ou nos deixam realizar. Acusações para lá, acusações para cá. Ataco! Nem penses nisso! E os telefones dos principais atores combinam a coisa. Já fui longe demais, não posso recuar. Atreve-te e dou-te cabo do canastro. Ó pá, deixa-te de porcarias. Isto é feito para a malta ganhar e não para perder. Então avisas-me antes do ataque, com tempo suficiente para salvar a aviação do Assad, recolhendo-as nas nossas bases. Atacas alvos específicos, putativos produtores ou armazenadores de gases, mandas uma caterva de mísseis, eu derrubo uns quantos com o meu sistema antimíssil e ficamos todos a ganhar. Não só rodamos o material, como fazemos boa publicidade aos nossos produtos. Tu porque finalmente atinges os execráveis alvos, eu porque demonstro a eficácia do meu equipamento. Combinado? OK! Vamos lá a isso. Ah! Uma coisa, limita as baixas civis. Fica mal nos noticiários. Está montada a tragicomédia, vamos ligar as televisões.

 

Que querem! A maior parte dos meus amigos, de qualquer dos lados, vai ficar furiosa comigo ao ler este texto. Uns dirão que traí os ideais revolucionários, outros, lá está o esquerdalha a “barafundir” tudo. Aceito esses julgamentos, mas desde já declaro estar-me nas tintas para os “pré-conceitos” e, recuso-me a alinhar, por paixão, quando o perigo da situação exige raciocínio e ponderação. Como afirmei no princípio, toda esta confusão é muito simples. Resume-se a não acreditar em nenhum. Ninguém está inocente! Estão todos, em nome de elevados princípios, a procurar vantagens, domínios, recursos e poder. E estão a fazê-lo com um enorme risco para mim, para ti, para todos. Não vou no jogo. Não torço por nenhum deles. São todos culpados e potenciais assassinos em massa! Apetecia-me largar uma asneira que, por decência, contenho. Mas duvido muito da integridade moral das mães desses energúmenos.

 

O problema pode ser que, de encenação em encenação, de jogo de poder em jogo de poder, de expansão em expansão, acabemos um dia, por qualquer miserável descuido de qualquer deles - e não os nomeei todos –por “não acordar vivos”. Isto, sim, é algo que me chateia! À brava!

 

 

Publicado – Rostos online

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publicado por Carlos Alberto Correia às 21:06

Quem é convidado vai…

Sábado, 24.03.18

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Um velho adágio ensinava que “a casamentos e batizados não vás sem ser convidado”. Sempre achei que este era um bom conselho para a vida e esforço-me por segui-lo o mais possível.

 

Vem isto a propósito de dois convites. Há umas semanas Passos Coelho foi solicitado a lecionar numa Universidade, com funções equiparadas a Catedrático. O coro de protesto de alguma esquerda quase foi submerso pelos cânticos laudatórios da empenhadíssima direita, apostada em denegrir tudo quanto à Geringonça diga respeito, e a glorificar a pobreza e mediocridade do liberalismo(?) passista.

 

Na passada semana um grupo de alunos, da Universidade de Coimbra, convidou Sócrates para dar uma conferência nas suas instalações. Os mesmos tenores que achavam naturalíssima a equiparação de Passos Coelho a catedrático, sem medir minimamente as distâncias entre os dois tipos de convites, entraram em fúria e desdizendo o que anteriormente afirmavam, em favor de Passos Coelho, vieram à liça bramindo contra tal ataque à dignidade académica.

 

Bando de papalvos pagos a peso de ouro para botarem comentário a favor dos interesses de quem lhes paga! Caso esses patuscos se assumissem como assalariados, nada teria a opor e consideraria mesmo o possível mérito de desempenho em relação às funções contratadas. Mas não! Querem aparecer como impolutos e equidistantes julgadores, confiando que o pessoal ande mais que distraído ou, embora nunca o venham a confessar, confiando na esperteza própria e na estupidez dos restantes, para pespegarem as suas opiniões parciais como factos comprovados, de impossível contradição. Dizendo fazer jornalismo ou comentário, formulam um discurso teológico que, em vez da verdade, busca, tão somente, demonstrar a justeza universal do seu pequeno dogma.

 

Ponhamos os pontos nos ís! Uma carreira académica faz-se através de um percurso de estudo e provas, inscreve-se numa profissão hierarquicamente definida e, neste momento, recorre a um conjunto enorme de pessoas, com provas dadas as quais, anos após anos, alguns durante décadas, esperam ansiosos se, no ano seguinte vão ou não ter o seu posto de trabalho assegurado ou se, com mais de quarenta anos de idade e muitos, muitos anos de serviço, se verão relegados para a fila das gentes muito qualificadas, sem possibilidades de pôr essa qualificação ao serviço do País e, com isso, assegurarem também o dia-a-dia das sua famílias.

 

Convidarem ex-primeiros ministros, ou qualquer outro profissional de qualquer ramo, com reconhecido mérito, para fazerem palestras nas Universidades, ou mesmo para ministrarem cadeiras temporárias, onde coloquem a experiência adquirida ao serviço dos estudantes e do País, não só não me parece mal como, se tal não for feito, considero estarmos perante um desperdício de conhecimentos, o esbanjamento de um atalho a facilitar o encontro da teoria com a prática. Já estabelecer contratos com equiparação a Catedrático, tendo em conta a longa lista de profissionais habilitados à espera, parece-me uma injustiça e um favorecimento indevido, seja ele feito a quem for.

 

Também acho injusto e fico furioso por me obrigarem a vir defender publicamente um homem por quem não tenho nenhuma simpatia e, como não estou obrigado ao segredo de Justiça, presumo seja responsável por muitos dos crimes em que está arguido. Tenho, porém, de conceder que tem sido destratado pelos média e pelo aparelho judiciário e prisional. Fizeram-lhe coisas inadmissíveis num Estado de Direito e eu tenho a veleidade de esperar que nele, todos os cidadãos sejam iguais e tratados de modo semelhante.

 

Não é o que vejo nos casos presentes e, de desigualdades, já estou farto. Sócrates foi convidado, foi só uma palestra, não tirou o lugar a ninguém, por isso foi e tem esse direito. Quem é convidado, se não recusar, vai…

 

Ou só os “amigos” têm direitos?

 

 

 

 

 

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publicado por Carlos Alberto Correia às 20:45

“Me Too”, Assédio e oportunismo

Domingo, 11.02.18

 

 

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Quanto me recordo foi assediado, em toda a vida, duas vezes. Bem, não fiquem com esse ar espantado - como deve ter ficado o Deputado Morgado quando ouviu, de Natália Correia, o poema do Truca-truca - porquanto uma coisa é ser requestado (o que é ótimo) outra, bem diferente, é assediar ou ser assediado.

 

Voltemos, porém, à afirmação inicial desta crónica.  A primeira vez foi, quantos e quantos anos já passaram, quando no Metro, uma atriszeca, ao tempo em auge de fama, pequena de corpo como, mais tarde revelou, também o ser de espírito (e não esperem que divulgue o nome pois não tenho vontade nenhuma de, além de vítima de assédio sê-lo ainda de processo judicial) tentou, entre o Saldanha e a Avenida, uma visível aproximação com o ego. Começou por uns sorrisos, os quais creio considerava sedutores e a mim só pareciam repugnantes, a que não correspondi, desviando, inclusive, o meu olhar da pessoa. Se tivesse o conhecimento, que hoje tenho, de tal ser, perceberia ser essa atitude incompreensível para ela. No íntimo, talvez convencida pela fugaz notabilidade obtida, pensaria só poder ficar agradecidíssimo pela sua atenção. Por isso abandonou o lugar onde se sentava, deslocou-se para o varão onde procurava equilibrar-me, dirigiu-me uns piropos (para mim situação inédita) a deixarem-me incomodado não pelo inédito da situação, sim pela falta de hábito. Perante o meu assombro, aproveitando o tombolear da carruagem, uma das suas mãos, acompanhada de palavras pretensamente sugestivas, colocou-se sobre a minha e, para afastar quaisquer dúvidas, a outra veio, em sugestivo apertão, enclavinhar-se-me nos glúteos – forma airosa para não escrever, na crónica, rabo. Nunca, em nenhuma das situações lhe dei assentimento às manobras, sempre lhe demonstrei, com evasões e semblante, o quanto estaria desagradado. A nada ligou até que, em desespero de causa, olhando-a de cima para baixo, lhe sussurrei, cresça e vote na CDE (ao tempo estávamos em campanha eleitoral), abandonando o Metro nessa mesma estação.

 

A segunda vez passa-se no escurinho do cinema. Embrenhado no filme fui retirado do fascínio por uma leve pressão do braço por alguém que compartilhava comigo o amparo lateral direito da cadeira. Olhei! Um homem de meia-idade, fixado no ecrã fazia parecer casual o ligeiro toque. Descontraí! Pouco depois o braço chegava-se mais e a mão descaía ligeiramente para a minha perna. Aí, já sem dúvidas, murmurei-lhe ter pago um bilhete para uma cadeira inteira e que se não se apercebesse da fronteira que tal representava e estava a ser violada, se arriscava a ter de ir ao hospital para reparação do intrusivo braço. Pouco depois desandou e foi sentar-se umas filas atrás.

 

E pronto! Por aqui ficaram as cenas de assédio, de que me dei conta, a que fui submetido e garanto não me acusar a consciência de alguma vez o ter feito a alguém.

Considero que a escolha mútua de dois parceiros são o que de mais belo, grácil, poético, enformador de vida pode acontecer-nos. É um momento mágico aquele em que a escolha e o assentimento são produzidos. Enriquecem-nos enquanto seres humanos, enquanto portadores/dadores de afetos, enquanto gente que se escolhe e acolhe. Estamos entendidos?

 

Direi também que qualquer pessoa, violentada nos seus quereres e aceitações, tem o absoluto direito de denúncia e reposição. Já me “encaganita” o bestunto o facto de, na esteira de gente corajosa e de iniciativa, uns quantos oportunistas tentarem cavalgar a onda, procurando créditos imerecidos para os mais esconsos fins.

 

Quando apareceram as primeiras denúncias, no caso Weinstein, o mundo, hipocritamente, abriu a boca de admiração e escândalo, como se não soubesse, há décadas, como as carreiras se faziam na Meca do cinema – e não só aí - mas em toda a parte onde os percursos se constroem e dependem de gente (homens ou mulheres, embora em proporções diferentes) com poderes para tal.

 

Admito mesmo que alguém, sentindo-se violentado, por míngua de escolhas, possa ter encolhido a dignidade, aceitado com repulsa a imposição e, só muitos anos depois, livres do poder que o submeteu, tomasse a coragem necessária à denúncia tardia, mas vigorosa. Penso, também, que em certas coisas mais vale tarde que nunca. O que não aceito é a torrente oportunista que daí decorre. O exagero! Só para me referir a Hollywood, saliento a caterva de estrelas em perigeu e ansiosas candidatas a acorrerem ao movimento, na busca de um pouco de holofote sobre elas. É agoniativo e conduz, no limite, às barbaridades de quebras de espontaneidades e romance, em troca de contrato revisto por advogados a atestarem o que, como e quando, cada casal pode comportar-se ao efetivar as suas relações.

 

Igualmente degradante é quando outras estrelas – na maior parte europeias – relembradas da dura e longa luta de libertação sexual apontam outros caminhos, serem ofendidas por algumas furiosas dramáticas, de um feminismo de sinal semelhante ao machismo dominador –acusando-as de serem perpetuadoras da submissão feminina. É triste! É fundamentalista e todos os fundamentalismos são perigosos e autoritários. Entre eles aqueles que, vindos da Igreja, apelam ao consentimento de não se consentir sexo entre casais de segundas núpcias.

 

Tanta estupidez e oportunismo provocam-me um nó no estômago deixando-me em acentuado risco de incivilizado vómito.

 

 

Publicado em www.rostosondline 

 

 

 

 

 

 

 

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publicado por Carlos Alberto Correia às 00:09

Momentos para inventar o amor -1

Sábado, 10.02.18

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Para aguçar a curiosidade, pré-publicação de “Momentos para inventar o amor”, e-book a sair brevemente. Editora Simplissimo, Brasil

 

 

Sentir-me-ei meio embriagado de espaço. Verei o sol a baixar no horizonte, o rio a marulhar calmo nas pedras da escadaria. Estarei sentado no murete no lado da coluna da direita do cais, pensar-me-ei lá mais abaixo, no local onde a água beija a pedra, olhando, como sempre o longo do rio. Na ponte passará o tráfego semelhante a manchas deslizantes. Tu chegarás e juro, dar-se-á uma mudança no ar. Coisa subtil, no vértice da perceção. Obrigatoriamente olhar-te-ei. Os sóis de verão ter-te-ão passado pelo corpo, morada de perfeição. Vestirás de branco, em contraste com o moreno da pele, da cor da madeixa, estreitando da frente para trás, ao correr dos cabelos pretos, apanhados no local onde o calor te perlará, de leve transpiração, a nuca. Saberei de imediato. Em ti o destino. Repararás distraidamente em mim. Ao ondular da brisa juntarei a tua mão a resguardar o leve movimento da saia. Virás porém, acompanhada e desatenta. Não poderás adivinhar as consequências deste encontro. Após o primeiro instante desviar-te-ás para os amigos, para conversas onde não estou. O teu nome será Valéria. Poderei compor a antecipação.

 

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publicado por Carlos Alberto Correia às 12:40

Desculpem lá!

Domingo, 31.12.17

 

 

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Este não será o mais apropriado tema para a noite de ano novo, porém, alguma preguiça e vários afazeres, têm-me feito procrastinar o alívio verbal de um incómodo a aguilhoar-me com persistência. No entanto, o artigo do Expresso, de ontem, de autoria de Ricardo Costa, “O caso em que Angola tem razão sem a ter”, obrigou-me a sair do casulo e a debitar palavra.

 

Em tom cauteloso de balanço, o articulista foi mostrando os prós e contras das posições de Angola e Portugal, sobre o caso no qual o ex-vice-presidente de Angola, Manuel Vicente, é arguido de corromper um magistrado do Ministério Público.  No seu todo o artigo expandia razões a favor de Portugal – a independência do Ministério público – e de Angola, nascida do putativo direito de cada país independente ser livre de habilitar qualquer dos seus representantes, com imunidade diplomática. Indiscutível qualquer um destes direitos! No entanto…

 

No entanto nem tudo o aceitável, nos campos políticos e diplomáticos, o é, em termos de ética e direitos humanos.

 

Sejamos mais explícitos!  Recordam-se do caso do embaixador do Iraque? Pois, os jovens energúmenos, habituados à cultura do posso, quero e mando, provenientes de sociedade onde os direitos humanos são uma treta e a diferença e submissão cultural campeiam, talvez tenham levado um ralhete do pai – obrigado a indemnizar, por acordo, o agredido – mas, imunes como eram, lá ficaram livres para fazer coisa semelhante em qualquer outra república das bananas, que aceite o crime civil a troco de qualquer suposta boa relação entre nações. É claro que isto, que parece ser do mais trivial bom senso, não passa de má ficção. Se bem me lembro de algumas noções básicas de ciência política, as nações não têm amigos. Negoceiam interesses e fazem alianças conformes as suas conveniências. Pode, por isso, o amigo de hoje ser o adversário amanhã, independentemente de se respeitar ou estar nas tintas para as imunidades políticas, as quais foram criadas para servir situações bem diversas de malfeitorias individuais.

 

Se levarmos ao extremo o valor imunitário de postos de mando e diplomacia, teremos de condenar os Tribunais de Nuremberga e de Haia, por desrespeito a tais prerrogativas. Soa um bocadinho absurdo, não é verdade?

 

Claro que, no caso da corrupção do magistrado, não está em jogo um crime contra a humanidade. Mas, com imunidade ou sem ela, corrupção é sempre corrupção e são somente interesses particulares que estão em jogo, independentemente da qualidade dos intervenientes. Ou por outra. Quanto maior a qualidade de representação de cada um, maior deverá ser o ónus a suportar pelo cometimento de qualquer crime.

 

E a provar-se ser verdade o suborno anunciado, estamos perante dois criminosos a tripudiarem sobre a lei por interesses particulares! Daqui ninguém me tira!

 

Portanto, sabendo ser a política a arte do possível, mas defendendo nem tudo ser aceitável, não consigo perceber porque não poderá o Estado Português, lesado no negócio entre os acima citados, perder o direito de levar a juízo quem contra a sua lei prevaricou. Ah! Dizem-me! Mas ele foi governante de Angola e nenhum país soberano gosta de ver os seus representantes alvo de arguições judiciais de qualquer outro país. Para além disso temos muitos emigrantes em Angola e um enorme montante de negócios, contratos e tratados. Isso que tem? Perguntam o Direito e a Ética. Perde-se muito dinheiro, relações e influência. Podemos mesmo ser substituídos, nos negócios, pela França ou por Espanha, respondem políticos e financeiros. Bem, bem, bem! Não sou ingénuo e conheço razoavelmente o mundo da finança. No entanto reparo que estes últimos, fazendo orelhas moucas ao Direito e à Ética, conduziram e estão a conduzir, o mundo para um futuro desgraçado. É num mundo assim que querem viver? Um negócio vale mais que um direito?

 

Então em que ficamos? Para mim é muito simples. O presumível corrompido é português e o facto ocorreu em Portugal. Ambos devem ser julgados aqui, ainda que algum à revelia. Provado o facto, condenado o homem, se Angola persistir na sua posição – e sabemos que também lá a classe dirigente não se obriga às mesmas leis dos mortais comuns – resta sempre a possibilidade de emitir um pedido de captura internacional. Desde modo, o importante senhor -  que não pode ser julgado pelos maus atos cometidos – poderá andar livre em Angola, mas, se sair para qualquer outro país, correrá o risco de passar pelo que Pinochet passou.

 

É que, meus senhores, mesmo neste tempo conturbado em que vivemos, não poderá valer tudo… mesmo tudo.

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publicado por Carlos Alberto Correia às 19:17

Falar de mim

Quinta-feira, 09.11.17

 

 

 

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Não se importam de parar um pouco o coro de protestos? Certo! Parece muito desplante de qualquer meco utilizar o espaço do jornal e a paciência dos leitores, com a arrogância de um discurso sobre si próprio, isto como se cada escrito, cada crónica, por muito que aparente distância do autor não fosse, de outra forma, o seu reflexo no espelho. Que mais não seja porque, escrevendo-se sobre coisa diversa, continuamente se estará a escrever nos moldes em que pensa o mundo, a partir de si, das suas experiências, gostos e decisões. Já lá dizia Barthes, “quem fala, fala-se”, ou, traduzindo para o assunto em causa, quem escreve, sempre se escreve.

 

Se aguentaram até aqui a discursata em que me envolvi, terão o direito absoluto a exigirem-me as razões da mesma. E o anterior pedido de acalmia nos protestos nasce do reconhecimento de que têm esse poder. Vou, pois, por ínvios caminhos, ao assunto.

 

Pertenço ainda à geração do livro! Neste momento, certamente, o coro de protestos recrudescerá em bastos, também eu, também eu! Sei muito bem ser isso verdade. Para ser sincero a maior parte de nós faz parte dela. Lembro-me de quando, em início de adolescência, conseguia uns cobres para comprar algum livro cobiçado desde há muito, correr para casa, agarrar num corta-papéis e entre emoção e nervosismo, abrir as páginas, deixando sobre a mesa as raspas de papel sobrantes ao sacrifício da abertura original. Nesse tempo o livro era assim! Comportava um ritual desvirginador garantindo, a quem o comprava, ser o seu único e primeiro possuidor. Estão a ver a semelhança com os rituais núbeis? Pois, em sociedade as coisas não só se tocam como vão mudando com os tempos. A tradição é uma grande mentira securizante!

 

O que foi de gritos e destemperos (estou a exagerar) quando os livros começaram a aparecer aparadinhos, folhinhas abertas a todos e certinhas no corte, nunca sabendo o comprador quantos mais teriam passado os dedos molhados na língua e os olhos ávidos pelas suas páginas. Os brados lancinantes, os anátemas garantidos, não mudaram o produto industrial e, vejam lá, estenderam-se às relações amorosas. A virgindade deixou de ter sentido absoluto tornando-se o objeto livro, ou a pessoa feminina, valores por si próprios, independentemente de terem, ou não, sido primordialmente tocados por outras mãos. É o efeito do tempo, a mudança de valores, a acompanhar e a produzir serventias técnicas e sociais diferenciadas. Os conservadores bramiram por muito tempo o descontentamento, mas a tradição foi-se tornando outra, fortificando, ganhando raízes, obrigando pela omnipresença à diminuição paulatina dos bramadores do antes é que estava bem.

 

Perguntar-me-ão de novo, para que serve tudo isto? Porque estou a perder o meu tempo a ler este tipo? Pois, a curiosidadezinha, o querer saber para onde os quero, docemente, conduzir. A desagradável e fria resposta é a enunciada no título: a mim!

 

Então porque fala de livros, de virgindades e absurdos congéneres? Porque, meus amigos, lhes vou dar uma notícia em primeira mão. Claro, ela importa sobretudo ao próprio, mas, para além do egoísmo demonstrado, pode ser que, por algum modo, vos venha também a interessar. Sabem, o escritor é um autocentrado megalómano. Parte do princípio que o escrito não só tem quem o procure e espere, como poderá alterar comportamentos, modos de pensar, estilos de vida. Esteja embora por provar, não deixa o escriba de, mesmo não o confessando abertamente, ter lá, muito no fundo, este bichinho de esperança a roer-lhe a expectativa.

 

Pois a notícia, estão a ver como eu estendo o mistério buscando que a curiosidade do leitor supere o tédio do discurso, é que vou mudar de paradigma!

 

Pressinto os vossos olhos a abrirem-se de admirados, na boca um sopro irónico, a pergunta desencantada: que quer ele dizer e o que tenho a ver com isto? Com mais um pouco de paciência, lá chegaremos.

 

No tempo dos livros abertos com espátula eram eles objetos caros, raros, valiosos. Não existiriam no país muitos editores. Conseguir a publicação “do Livro” exigia um percurso de artigos em revista, jornais, referências académicas e mais um rol de coisas de aborrecida enumeração. Chegados lá, porém, seria a consagração. Era assim como erigir um farol ou um altar. Haveria dissidentes? Certamente! Mas o feito estava firme nas montras das livrarias, nas estantes das bibliotecas, nos suplementos da imprensa, nos ensaios a respeito. Com o livro aparadinho chegou maior facilidade de publicação. A técnica passou da tipografia ao “offset”, as chapas podiam guardar-se para novas edições, os preços diminuíam. Muito mais gente começou a publicar e livros e autores dominaram a praça publica. Nessa altura o Editor era ainda uma figura respeitada e interessada que, escolhida a obra, a acompanhava desde a releitura e correção, passando pela impressão, divulgação e distribuição do livro. Este era o seu trabalho! A ele se dedicava a tempo inteiro, pugnando pelo êxito da obra.

 

Os tempos e as técnicas continuaram a mudar. Tornou-se fácil editar fosse lá o que fosse. O Editor dedicado transformou-se num funcionário, muitas das vezes a recibos verdes e pelo tempo de duração de um estágio, que, na ótica do patrão, procura menos, ou quase nada, a qualidade do texto, visando meramente o cálculo de quanto pode render. Tais empresas de serviços, arvoradas em editoras, fazem livros como poderiam fazer tijolos ou ensacar feijões, caso tais atividades se revelassem mais remuneratórias. Assim, em grande parte, exigem ao autor o pagamento de edição, contra a aposição de uma chancela que liberte o livro da menoridade de edição de autor, e, recebido o dinheiro, produzem meramente o número de exemplares requeridos pelo consumo imediato e declarado, deixando o autor sozinho, não distribuindo nem divulgando o livro. A edição deixou de ser sinónimo de gosto, de bem escrever e passou a estar disponível para quantos, tendo o necessário poder de compra, entreguem os originais nesses mercadores de folhas agrupadas. Por isso nunca se publicou tanto, tão mau e cada vez mais se rarefaz o mercado dos livros. Claro que outros factos haverá – tudo é mais complexo do que aparenta – mas estas são as principais razões a apontarem para a revelação que, desde inicio, vos prometo.

 

Farto de consultar e discutir com os novéis editores as condições de aparição de cada uma das obras, obrigando-me embora a perder o contacto com o objeto físico, deixando de parte a sensualidade de sentir o ruge-ruge do passar das folhas, aceitando o caminho de desmaterialização a impor-se a muitas atividades, com alguma mágoa, confesso, decidi partir para nova experiência. Retirei da Editora o meu romance “Momentos para inventar o amor” e entreguei-o, para ser publicado como ”e-book”, a uma parceria de grande credibilidade – “escritores online” – entre a Associação Portuguesa de Escritores e a CLEPUL, organização da Faculdade de Letras de Lisboa.

 

Esta era a mudança que vos queria comunicar. Lutando contra o hábito de ter o escrito corporizado em objeto físico vou entrar pelo caminho, que prevejo como o futuro, do livro a existir numa nuvem informática sabendo que, para os amantes dos livros será decisão desilusória, mas, por outro lado, fundado em organizações credíveis, saber da possibilidade de chegar a outro público, interessado, informado e, acrescendo, pelo preço que custará (2,95 euros) a possibilidade de alargar a fruição do texto a quantos não podem esportular a dezena de euros de uma publicação impressa.

 

Falei de mim, confessei aderir ao futuro, espero não me desiludir, nem desiludir os putativos leitores. Façam um esforço! Alterem hábitos! Não o podendo garantir reconheço que pode valer a pena.

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publicado por Carlos Alberto Correia às 18:00

Sobre maiorias e nem tanto

Quinta-feira, 12.10.17

 

 

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Eu, que fui candidato, na segunda posição, à Câmara do Barreiro, pelo Bloco, deveria, neste momento, estar em triste reflexão sobre a falência do intento. Não fui eleito, o que não seria expetável, nem sequer o cabeça de lista, considerado com boas probabilidades. Mas eleições são o que são e, nelas, o Povo é quem mais ordena. Isto por definição, porque a coisa é de muito maior complexidade. Tão grande que seria fastidioso estar aqui a fazer um levantamento das imensas variáveis.

 

Também não irei dizer que fiquei alegre com os acontecimentos. Antes surpreendido e observante da embrulhada que poderá vir a ser a nossa Câmara. Vejamos: O PS ganha as eleições, tem direito à presidência e guarda quatro mandatos. A CDU, perdendo a presidência, arrecada igualmente outros quatro mandatos, e, pese embora o voto de qualidade do Presidente, estamos empatados. Ou não! Porque o PSD, ao contrário da dominante eleitoral do seu partido, subiu em votos e mantém o seu vereador, o que pode bem (des)equilibrar o sistema de desempate por voto de qualidade. Temos assim o PSD na invejável posição de, sendo absolutamente minoritário, poder ser determinante.

 

No gozo frio e intelectual do momento interrogo-me. Que fará ele? Unir-se-á ao PS dando-lhe maioria e governabilidade? Assim uma geringonça mais virada para a direita? Ou, fiel aos muitos anos de aliança camarária com a CDU, manterá a “fidelidade “, juntando o seu voto a esta coligação, criando, quiçá, a inoperância da Câmara? Ou ainda, num sentido de maior liberdade ou oportunidade, vogará, em geometria variável, segundo interesses mais partidários que comunitários? Estão a ver as cogitações em que me enlevo?

 

Não é que me queixe! Muitos anos antes do meu partido erguer a bandeira do impedimento de maiorias absolutas, já eu, nestas colunas, refletia sobre o assunto. Tinha para mim que democracia representativa seria aquela que representasse a maioria da população, o que dificilmente se passará com um único vencedor, embora maioritário, a representar, tão somente, uma parte dos cidadãos. E isto, sem levar em conta a abstenção a qual, só por si, nos valores em que se encontra, faz da representação, dita maioritária, a de uma muito pequena minoria.

 

Por isso defendia, e defendo, tal como é objetivo do método de Hondt, a inexistência de maiorias absolutas e a necessidade de coordenação, coligações, geringonças, ou seja, lá o que for, entre vários partidos. Assegurar-se-á deste modo mais alargada representatividade, nenhum partido poderá arrogar-se ao direito de instituir uma ditadura democrática, onde a sua voz, de maioria sempre relativa, imperará anulando todos os quereres alheios, porque será obrigado a contínuas negociações. Isto claro, pugnado pelos partidos enquanto oposição, torna-se rapidamente no seu contrário quando se pressupõem a caminho da vitória. Então, ao princípio timidamente, aumentando o volume e exigência quando se aproximam do final da campanha e as sondagens confirmam o desejado posicionamento, passam a pedir aos eleitores o cheque em branco da maioria absoluta. A tendência do “poder” é para se auto engravidar, crescer, reproduzir, ganhar espaço. Por tal é necessário, quanto a mim, a sua limitação e contínua fiscalização por órgãos apropriados. Que me desminta quem possa!

 

Aqui chegados e voltando ao nosso território, a serem seguidas as palavras emocionadas de Jerónimo de Sousa, ainda no inesperado da vitória rosa, a CDU estaria impedida de estabelecer acordos de governação com o PS. Isto deixaria o caminho livre ao PSD que poderia, teoricamente, exigir o que quisesse para manter a operacionalidade da Câmara PS. É uma possibilidade, no entanto, com demasiados risco. Tenho para mim, no entanto, que a capacidade política e racional do PCP (partido com maior experiência organizativa no nosso país), nunca permitiria deixar o PS refém do PSD, pelo que, mesmo “engolindo sapos”, - já não seria a primeira vez - ultrapassando emoções e desilusões, perceberá que “congelar” a Câmara é mau negócio. Poderia, muito eventualmente, conduzir à sua queda e levar-nos a eleições antecipadas, onde, pese embora a volatilidade dos votos, creio que o PS teria a hipótese de ganhar com maioria absoluta. E isso é que, nem para o PS, a CDU e, no campo das miragens, o meu partido, eu quero ver acontecer.

 

Aguardo, pois, com muito interesse, aquilo que os próximos dias nos poderão revelar.

 

 

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publicado por Carlos Alberto Correia às 14:55

Da tristeza em Passos Coelho

Terça-feira, 26.09.17

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Tudo parte de um princípio!

 

 Por exemplo, para mim, o simples nascimento de um ser humano, neste mundo de homens/mulheres, deveria, só por si, ser o suficiente para que a sua vida, o seu bem-estar, estivessem, tanto quanto é humanamente possível fazê-lo, completamente assegurados. Isto porque cada ser é único e como tal insubstituível. Na realidade, dir-me-ão muitos, tal não passará de impossível utopia, dada a diversidade de recursos e ideologias imperantes no mundo. Terão a sua razão e, volto a dizê-lo, tudo parte de um princípio.

 

Para Passos Coelho, presumo, o ser humano valerá na medida daquilo que dele se possa haver. Isto é, vales o que tens, respeito-te na razão de quanto possas ser útil ao meu plano. Fora disso és perfeitamente descartável, inútil. Possuis apenas o valor que o sapiente mercado te conceder.

 

Ele terá como despiciendo o que para mim é fundamental.

 

Aquele conjunto de genes, desejos, dores, afeições, desesperos e por aí adiante que é o ser-se gente, pouco significará para o meu referido. Terá de acrescentar-lhe o peso social, a possibilidade visível, imediata, de modificar ou arregimentar coisas e pessoas à  sua volta para adquirir peso especifico, importância. Talvez só muito subliminarmente se recorde de que também ele está na tômbola, também ele poderá passar a irrelevante. Mas, pelo menos nos seus sonhos, tal perpassará e, aqui, teremos o primeiro momento da sua tristeza.

 

Por outro lado, chegou demasiado cedo aos cumes de um certo poder. Não estava, nem podia estar preparado. Pouco tinha feito na vida. A experiência era escassa. Talvez, à parte as facilidades do cartão e amigos do partido, se submetido a entrevista para cargo médio numa empresa bem organizada, para maior tristeza e desilusão, tivesse sido a sua candidatura preterida por alguém mais experiente, ou com maiores capacidades. Isto poder-lhe-ia ter dado outra visão sobre o querido modo de olhar o Estado, a Sociedade, como macro empresas, a serem geridas por estritos princípios técnicos, suscetíveis de serem colocados, de forma simples, em relatórios sucintos com regras de execução imediata e posterior avaliação contabilística.

 Poderá, eventualmente, tal ideia perpassar-lhe no pensamento, criando, na dúvida, meteórica a penugem de tristeza.

 

Com alegria enorme, confiança total nas capacidades próprias, subiu ao poder que pretendeu, que lutou para obter, sabendo bem o que se passava no Paíse aproveitando o sabê-lo como alimento da "sede ao pote". Mal se sentou na cadeira do poder, quase de imediato, descobriu os alfinetes escondidos na almofada. Que sim, senhor! Ora essa! Tão pequena dor valeria bem os altos feitos a cometer e aceitou da troika todos os dislates. Contra a maioria do seu Povo foi conivente e majorador das iniquidades propostas. De moto próprio ultrapasso-as. Isso com maior tristeza nossa que dele. Alegria breve lhe assistiu. Sem perceber bem porquê, tudo começou a resistir-lhe. Os sindicatos? Sim! Esperava por tal. Os partidos de esquerda? A oposição  que fizessem seria benção! Mas, os seus correligionários mais experimentados principiando a, surdamente, criticá-lo; abandonando-o posteriormente e logo a seguir juntarem-se às vozes da desesperante oposição? Isso, confundia-o e, secretamente, permeava-o de sombria tristeza. Até o Constitucional lhe dava desgostos, a ele, que assentado no poder, não concebia vontades além da sua (ou que Bruxelas ou outro centro difusor autorizado ordenasse)! A disforia passava a raiva e mordia qualquer mão que se lhe estendesse em moldes de moderação. Foi juntado à  tristeza, solidão. Trocou camaradas por seguidores, membros respeitados por apaniguados. Não o sabia, mas estava a construir a senda da mais profunda tristeza.

 

Venceu as eleições, não conseguiu formar governo. Estupefacto viu a maldita esquerda tomar-lhe o lugar. Rugiu ao ver desfazer-se, passo a passo, a teia de miséria lançada sobre o povo irrelevante. Não encontrou na banca estimável a retribuição do afeto e benesses concedidos. Tristeza relevante lhe toldou a alma. Falou, oráculo vazio, em quantos desastres esperava tal governação. Abriu-se-lhe a boca, em descrédito, ao reparar que quem lhe encomendara as tristes açõespraticadas contra o seu povo, dava agora encómios aos inversos do que fizera; via as mais negras profecias transmudarem-se no contrário. Sentiu-se traído e mais tristeza se lhe colou na alma. Esperava a qualquer momento um descalabro a justificar-lhe as anteriores decisões, as atuais previsões. Tudo lhe saiu mal. O País prosperava sem si e contra as medidas que tomara. Uma qualquer injustiça, alguns escondidos inimigos, teceriam intrigas, moviam interesses, para o fazer cair em desgraça. O sentimento viscoso de inauditas traições plantara-se no âmago da tristeza, a envolvê-lo. O Sol haveria de brilhar. Seria redimido, reconduzido Éà  capacidade de ação, aos cortes salvadores e preferidos. Teria ainda o seu dia.

 

Então caiu-lhe na tristeza a Presidência da República. Quem ele queria não havia. Havia quem ele nunca quisera e ousara, imprudente, dizê-lo. Deve ter passados horas bem amargas, plenas de raivosa tristeza em desolação de desertos interiores, nunca poupado pelos Fados, que continuavam a ser faustos para o inimigo, o qual lhe roubara o que só a ele, por direito, pertencia. Claro, na sua inexperiência nunca prestara grande atenção àquela coisa esquisita chamada Constituição e ela, vindicativa, pregara-lhe várias partidas. Alguns próximos bem o tinham avisado: Cuidado com a Constituição! Não é menina com quem se brinque! Como poderia ligar-lhes? Ele era o poder! Ele sabia! Tínhamos um País de velhos! Era preciso reverter isto com ferocidade. Ataquem-se os velhos! Passagem para os novos (desde que fossem para as privadas). Esses amigos torceram o nariz! Pois que o mantenham assim! E foram afastados! Alguns com tristeza, outros lamentando, antecipadamente, o futuro do chefe.

 

Agora, autárquicas à porta, vai de comício em comício, jantar em jantar, desdizendo tudo quanto se pode inteligentemente ver ou perceber sobre os efeitos da nova governação. Nuns locais diz o contrário sobre o mesmo assunto, noutros, talvez esquecido do anteriormente propalado, reivindicando para si o resultado de medidas opostas às suas.  Assim o vemos e   entendemos "numa apagada e vil tristeza" onde, nem ele já se deve reconhecer e muito menos aos desmandos que permitiu e praticou. É uma tristeza!

 

Vê-lo, bufão de si mesmo - apesar de reconhecer ter o castigo que merece - perceber-lhe o terror de maus resultados eleitorais a ameaçarem-lhe o emprego - tal como o fez a milhares de concidadãos - não deixa de influenciar o meu estado de alma a seu respeito. Porque, a seu contrário, lhe reconheço, como ser humano, o direito a esperanças e aflições, ponho-me no seu lugar, sinto a tristeza que emana e, muito sinceramente - por ele no momento, pelo ele no a vir - aperta-se-me o coração e, com a tristeza dele me enfeito.

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publicado por Carlos Alberto Correia às 10:40

Demita-se a “Providência”

Domingo, 02.07.17

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A palavra providência é um tanto ou quanto ambígua. Tanto pode referir-se a previsão de situações futuras, como a não antever evento nenhum, não tomar qualquer precaução e confiar que o sagrado conduza, sem nossa inquietação e mínimo de esforço, coisas e seres a fins benéficos. Embora se possa confundir e seja muitas vezes considerada sinónimo, convém diferenciar de “Previdência”, nome primitivo atribuído ao que hoje chamamos de Segurança Social e que, no espírito da época e na nossa especial relação com as divindades, estava muito bem-posto. É que no que toca a prevenção, o tuga sente-se dispensado de tal esforço.

 

E tem razão!

 

Primeiro somos uma cultura de desenrasca, de guarda para o último momento, do alguma coisa há de aparecer. Isto porque somos muito mimados. Somos o povo de Nossa Senhora de Fátima e dos três pastorinhos (agora reduzidos a dois, por eclipse de Lúcia, que deve ter cometido o feio pecado de viver demais e, se calhar, deixar-se tomar por algumas pecaminosas dúvidas, ou talvez os segredos fossem menos valiosos ou menos segredos do que o esperado). De qualquer modo, quem dispõe de semelhantes proteções, pode bem passar sem prestar culto a algo tão pragmático e rasteirinho como dar-se ao trabalho de prevenir acontecimentos desagradáveis, os quais podem bem nunca ocorrer. Estão a ver o desperdício, a subida do deficit, o nervoso miudinho dos mercados!

 

Por isso confiamos e deixamos ao céu a obrigação de nos proteger. Compreende-se assim as surpresas, os gritos estridentes de quantos, desinvestindo fortemente em quanto é social, apenas apoquentados pela subida do PIB e a descida do deficit, esperam que os nossos santos protetores façam o seu trabalho, nos livrem de maleitas, furacões, tremores de terra e outras coisas mais, enquanto nós, no ripanço, vivemos o dia-a-dia sem preocupações de acontecimentos futuros, além dos citados indicadores económicos.

 

Depois, quando o céu não nos responde ou se distrai e deixa cair-nos em cima qualquer calamidade é o aqui d’el-rei. Pedem-se cabeças de ministros, castigos dos responsáveis, tomadas enérgicas de medidas e políticas corretivas. Durante dias, talvez semanas, não se fala, não se ouve, nem se vê mais nada. O País foca-se na desgraça, arrepela-se, entra de luto e depois… esquece.

 

Devo esclarecer que o papel do luto é precisamente o de atenuar a lembrança, permitindo ao vivente, estabelecer nova identidade onde o já acontecido vá perdendo força e permita reestruturar a vida, ajeitando o sistema, à existência com tal falta. Por isso não nos escandalizamos com os sucessivos esquecimentos e nos admiramos que anteriores responsáveis, com bastas culpas no cartório, venham a terreiro feitos virgens inocentes, a clamar pelas cabeças de quem apenas deu continuidade aos seus feitos.

 

De repente, talvez haja excesso de trabalho no céu, estejam as tarefas a ser executadas por estagiários – os nossos pastorinhos (dois) só agora obtiveram contrato definitivo – Nossa Senhora de Fátima esteja absorvida por tarefas domésticas ou ensinando os novéis santos a milagrar – caíram em cima duas faíscas de alto lá com elas. O fogo de Pedrógão, com as mortes a lamentar, e o caso vexatório do rato ir comer ao prato do gato, em Tancos. E pronto! Foi a exclamação geral, os enérgicos protestos dirigidos a todos e ninguém, o afasta-te que a culpa é tua, eu fiz tudo bem, a gargalhada de assumir responsabilidades políticas sem que aconteça coisa alguma (a propósito e antes que alguém venha fazer mais ruído não se esqueçam que a primeira vez – que me lembre – que tal aconteceu foi com a então ministra da justiça Paula Teixeira da Cruz no grande plof! do encerramento dos tribunais).

 

O que pouco se fala ou se vê é como, com o verão a caminhar, a humidade a descer, o vento a soprar, os pinhais e eucaliptos por emparcelar, os sirespes por funcionar, vamos arrostar com o período de incêndios caso os nossos protetores celestes se mantenham distraídos ou cansados de aturar tanta imprevidência. E já agora, que dizer de um chefe do estado-maior que exonera os comandantes de batalhões ou regimentos e se esquece, como primeiro responsável, de apresentar, honrosamente, a sua demissão?

 

“Ah! Se calhar estará a preparar uma providência cautelar”!

 

E para o ano, amigos, companheiros, camaradas, concidadãos, compatriotas e visitantes, por esta altura, aposto, estaremos de novo a discutir as mesmas coisas, ou outras semelhantes. Como diz o velho ditado: “só se lembram de Santa Bárbara quando faz trovões.”

 

Oh! Diabo, a santa que me perdoe, mas tinha-me esquecido desta.

 

 

 

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publicado por Carlos Alberto Correia às 19:43

O muro

Quinta-feira, 15.06.17

 

 

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Vim viver para o Barreiro nos inícios dos anos oitenta. Não me recordo exatamente do ano, mas sei que coincidiu com um dos mais lindos e brilhantes outonos de que me lembro. Os dias eram explosões de Sol e, no jardim, entre o moinho do Jim e o Clube de Vela deleitava-me nesse fulgor, apaziguado pela leve neblina a fazer de Lisboa um quadro quase impressionista. Escrevia, pensava e apercebia-me do quanto valia ser uma península dentro de outra península, esta abraçada pelo Tejo e o Coina, em termos de ambiente, paisagem e claridades.

 

Recordo ainda, por esses tempos escrevia texto para um programa da Rádio Comercial, FM, que, não me apetecendo ir para aquele que era o meu emprego efetivo e burocrático, antes querendo continuar a gozar a maravilha daqueles dias, me deixei ficar olhando o Tejo, vendo o movimentos das embarcações, o pontilhado de pequenas velas brancas a competirem, na subtileza, com as parcas névoas. Escrevi, a propósito, uma justificação de falta, em poesia, que deixou estupefacto e sem saber como agir o meu Diretor de Serviços.

 

Para quem aguentou até aqui o meu palavreado e se pergunta o propósito de tais rememorações confesso-lhes nascerem de um misto de desapontamento e receio, provindos de ter tido conhecimento da ideia abstrusa de colocarem um muro de contentores entre a Avenida da Praia e o alongamento do Tejo. Vi-me obrigado a repetir a leitura da notícia para perceber a enormidade do sacrilégio pretendido. Claro que defendo a colocação do Porto de Contentores no Barreiro. Precisamos de alargar os préstimos da cidade e os postos de trabalho. É evidente que sei e me disponho a aceitar alguns impactos socioambientais. Não há progresso sem transformação! Mas isto, senhores?! Que mente retorcida pode pensar em tapar a respiração da Cidade? Que cálculos económicos valerão o emparedamento da população? Com tantos quilómetros de rio disponíveis na antiga zona industrial, para quê construir um muro de contentores mesmo defronte dos nossos olhos, condenando-nos ao isolamento de uma cegueira inadmissível? Volto a perguntar: cálculos económicos abstrusos ou vontade de mudar a instalação para qualquer outro local procurando o pretexto no afrontamento da população?

 

Desconheço a quem pertence a decisão final, assim como não sei que e quantos interesses, dos mais aos menos legítimos, nela se jogam; sei apenas que deveremos defender a instalação do Porto nesta cidade, ao mesmo tempo que não poderemos permitir a sua colocação sem a mínima salvaguarda dos direitos ambientais e de qualidade de vida dos nossos concidadãos.

 

Câmara, Assembleia Municipal, Juntas de Freguesia, Coletividades, gentes do poder e comuns, juntemo-nos para impedir que, neste tempo de muros impiedosos, seja, perante a nossa indignação, colocado um outro no campo de deleite dos nossos olhos. Não nos deixemos emparedar. Que o único muro possível de aceitar seja o da defesa dos nossos interesses legítimos e da paisagem onde descansamos o olhar. Sigamos livres pela margem de um rio observado em plena liberdade.

 

 

Publicado em Rostos on-line

 

 

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publicado por Carlos Alberto Correia às 21:20