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Terça-feira, 19.05.20

 

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O - Os mortos não batem à porta

 

Revisitarei a infância, o jardim ventoso, no alto da colina, a paisagem a derramar-se por ali fora, até a terra se fundir no céu ou o céu na terra. Compreenderei como povos antigos pensaram serem os homens, os animais, as plantas, filhos da união entre terra e céu, a chuva fecundadora a dar nascimento a tudo. Verei, sobre o muro que delimita o jardim, entre tufos de ervas, atravessando arruamentos, bichos nervosos, rápidos, cauda a abanar para o lado contrário da cabeça, correndo direito a ziguezaguear, répteis minúsculos a evitarem os batalhões de formigas, rodeando um de menor porte, submergindo-o na massa castanho-febril, fazendo-o desaparecer no formigueiro. Preparar-me-ei para teclar lagartixa. De súbito a dúvida. Lagartixa, lagarticha? A palavra cheia de pasmo, num repente a concretizar-se, a adquirir corpo na boca, como se tivesse sabor. Darei comigo a soletrar, la-gar-ti-xa, la-gar-ti-cha. Visualizarei a palavra, esculpida em pedra, projetando-se do mais baixo para o mais alto a três dimensões. O vocábulo cinzelado ganha tons verdes, interstícios avermelhados, cor geral entre o cinza e o castanho. Agonia! Pesa-me a dúvida, desconheço o grafismo. Levantar-me-ei para consultar o dicionário. Nesse momento a certeza. Afinal lagartixa! Muito bem. Escreverei o resto do livro sem cuidar das lagartixas. Evitarei qualquer tema onde possam aparecer. Não voltarei a escrever a palavra. Malditas sardaniscas.

 

- Pirou de vez o Cursino?

- Longe disso. Apenas foi apanhado pela espanto das palavras. Estacou no terreno interdito onde as rotinas se negam ao costume, adquirem textura, surgem independentes do sentido habitual.

- Nunca senti tal Kismet. Em vez disso assalta-me por vezes o sentido da irrealidade. Sinto, vejo, ouço, cheiro, saboreio, mas inesperadamente pareço dissociar-me dessas sensações, ver-me de fora, agir como se não fosse eu. Chego a pensar que sou o sonho de outro sonhador que me sonha.

- Podes então compreender a reação de Cursino às palavras. É muito semelhante à tua.

- Só que não gosto de sentir isso. Assusta-me a sensação de irrealidade, de inconsistência.

- São partidas do cérebro. Por vezes as sinapses fazem ligações erráticas. O resultado é esse. Recordo-me, no fim da adolescência, acordar de algumas sestas, estremunhado, sem perceber quem era. Desejava ser eu, sentia-me existente, só aquela leve amnésia me retirava de mim. Desconhecia-me. Pouco a pouco redescobria-me, tranquilizava. Ao despertar completamente ficava feliz ao reconhecer-me na pessoa que sem dúvida era. Para ser franco temia tanto esses acordares que me coibi de dormir à tarde.

- Bem Kismet voltemos ao trabalho. O que vai fazer Cursino após a confissão de Valéria? Agora sabe da incapacidade dela para o amor físico…

- Não Oblata. Interpretas mal o que disse. Ela não é incapaz, apenas não se consente orgasmos. Pune-se pela culpa que não teve. Quando chegar a compreender isso, tudo poderá mudar. No entanto, informo-te, não é intenção de Cursino deixar que esses factos introduzam qualquer impedimento na relação. Pede-lhe apenas para não fingir o que não sente. Juntos procurarão ultrapassar o problema.

- Parece-me demasiado perfeito. Nem julgo ser coisa deste mundo. Quanto a mim tal descoberta não deixará de influenciar a relação. Como tens afirmado tudo influencia tudo.

- É verdade, mas nem sempre da maneira mais previsível.

- Continuas nos enigmas…

- Pelo contrário. Aponto pistas. Tu é que não estás suficientemente atenta. Deixemos esta conversa e passemos a palavra a Cursino. Está prestes a terminar as suas histórias de amor.

- Volto a lembrar-te que ele não escreveu praticamente nenhuma história de amor. Deriva sempre para campos obscuros. É um cínico, um descrente, um oportunista.

- Pelo contrário, todas são histórias de amor. Ou de desamor o que, continua, de outro modo a ser a mesma coisa. Cursino é realista. Viu, interrogou, elaborou, tirou conclusões. Tem culpa das experiências experimentadas? Acaso as pediu ou criou?

- Palavras, palavras para disfarçar a realidade. Pensava-o mais romântico, mais sentimentos. Não vejo perfumes nem rosas nas personagens de Cursino. São demasiado instrumentais. Nelas tudo é função. Falta-lhe o deslumbramento.

- Nem sempre é assim e tu sabe-lo bem. Se calhar não haverá muitas razões para o êxtase. Aconteça o que acontecer é preciso continuar a viver. Cante o coração ou esteja de luto. E nenhuma destas ações é perdurável. Eterna só a morte. Façamos pois Cursino debruçar-se sobre o amor e a morte.

- Mais uma vez, queres dizer.

 

 

Todos os dias, pela madrugada, fosse ela de nevoento inverno ou de límpido verão, Sentínio galgava, em passo apressado, as ruas entre as barracas do Vale Mouro e a praça do conto. Ali, especado entre muitas dezenas de iguais, esperava as escolhas dos responsáveis pelo sindicato. Eram eles quem, depois de todos os sindicalizados terem sido colocados nos melhores navios, nas melhores cargas, distribuíam pelos outros o que sobrava de estiva. A sorte era variável. Nem todos os dias encontrava trabalho. Profissão dura, quase tudo feito à forças de braço e guincho, não era mal paga. Seria mesmo muito rentável para quem conseguisse entrar para o sindicato. Nesse caso o trabalho era assegurado, o dinheiro corria certo. Para os como ele tinha dias! Claro que pensara em sindicalizar-se, mas demasiados anos volvidos, nunca o conseguira. Não só lhe faltavam padrinhos, como, por seu mal, logo que punha o pé numa embarcação era tomado de enjoo. Por isso, os companheiros chamavam-lhe Mal de Rio. Quantas vezes pretendeu mudar de vida, quantas falhou! Fechado de letras, traços rudes, só na construção civil arranjava algo para fazer. Porém recebia muito menos que nos barcos. Desse modo, malgrado os inconvenientes, por ali se foi deixando ficar.

 

Íamos a meio dos anos sessenta. Lisboa era uma cidade rodeada de bairros de lata, passagem obrigatória para quantos, fugidos dos agros, procuravam subsistência na cidade, grande demais para as suas posses, muito pequena para as oportunidades. Sentínio tinha família. A mulher, o filho e a filha. Sofria por vê-los naquela vida de faltas e promiscuidade. As tábuas da barraca deixavam passar tudo quanto de fazia ou dizia. A degradação do ambiente inscrevia-se nos modos, nos corpos dos residentes. Todos os dias, ao deixar o Bairro, ao entrar na zonas dos prédios, sentia a infelicidade de não conseguir dar outra vida aos seus. Quando o Zé Mestre lhe falou em França, depois de inicialmente ter descartado tal eventualidade, a hipótese foi ganhando força.

- Eh, pá, ali é que se ganha do bom. E com pouco esforço. O meu cunhado já emigrou há dois anos. Diz que lá o trabalho é um luxo, pesa quase nada. É tudo automático. Não têm de se esgarçar a alombar com pesos. São só guindastes e pórticos a puxar pelas cargas.

 

As palavras ficavam a repercutir-se no espírito de Sentínio. Sonhava com uma França dourada onde pudesse enfim, transformar a vida da família. Até era possível sonhar com um automóvel. O Zé bem lhe contava.

- A malta compra grandes bombas por meio tostão. Os gajos trocam de carro de dois em dois anos e vendem os que largam ao desbarato. A última vez que o meu cunhado cá esteve vinha num grande Mercedes. Parecia um construtor civil!

 

De imagem dourada passou a resolução. A filha começara a namorar. Um dia falaria em casamento e ele sem possibilidades de fazê-la sair do buraco onde se encontravam. Havia que dar solução à vida.

- Zé Mestre, o que é preciso para sair daqui para fora.

- Pouca coisa. Traz-me o bilhete de identidade, a caderneta militar e dez contos para dar ao tipo que vai arranjar a carta de chamada.

- Dez contos? Tenho lá esse dinheiro!

- Desenrasca-te. Pede emprestado. Pagas isso em dois meses. O Chibo arranja-te a massa. O juro é alto, mas o risco dele também é grande.

 

Naquele dia, a bordo do rebocador, o nevoeiro fazendo do Tejo um copo de leite entornado, Sentínio passou ao Zé Mestre o dinheiro e os documentos. Uma mistura de alívio e receio apoderou-se dele ao jogar, para aquelas mãos, o seu futuro e o da família. Se algo corresse mal não sabia como pagar a dívida. Poderia ficar mais enrascado que o que já estava. No entanto pressentia também ser esta a possibilidade de dar um pontapé na maldita sorte. Soubesse ele latim e história logo, na celebração do arrojo do passo, exclamaria “alea jacta est”. De qualquer modo a amálgama de sensações acentuou-lhe o “amalreamento”. Com a cabeça às voltas deslocou-se para a ré a aliviar-se do incómodo em que o pequeno almoço se tornara. Foi quando viu, enorme, maior que o seu tamanho, rompendo o nevoeiro, a proa do cacilheiro apontada ao meio do rebocador. Na eminência do choque agiu mecanicamente. Gritou, vamos ser abalroados, atabalhoadamente vestiu o colete salva-vidas, enquanto badalavam sinetas, uivavam sirenes e os passageiros do cacilheiro, apavorados erguiam corpos e vozes num coro de medo e lamentos. Foi apenas um instante. A vante do cacilheiros virou o rebocador, abriu-se em porta à água num abraço forte a arrastar as duas embarcações para o fundo. As barcas que acorreram ao sinistro na ânsia de diminuir os danos causaram, pela cegueira branca, ainda mais vítimas. Muitos dos que tinham conseguido colocar os coletes e flutuavam aguardando socorro, foram ceifados pelas quilhas e hélices dos que os procuravam socorrer. Por mais cuidados que tivessem, por mais devagar que procurassem, não conseguiam evitar colher os troncos e cabeças aflitos a soerguerem-se das águas, a quererem fazer-se localizar entre a chinfrineira de sons humanos e mecânicos a percorrerem as águas. Só quando, horas depois, o sol conseguiu dissipar o nevoeiro foi possível aperceber-se da magnitude do drama. O cacilheiro desaparecera nas profundidades. O rebocador, de casco alto, derramara os homens dos convés, aprisionara todos os que não conseguiram sair das zonas cobertas. No local do acidente, espalhados ao fluir da corrente, manchas de cores variadas acusavam corpos por recolher. Em ambas as margens massas frenéticas esperavam. Curiosos, aflitos, queriam saber quantos se salvaram, quem morrera. Iria ali o meu filho? Foi neste que a minha mulher embarcou? Logo tinhas de apanhar o maldito barco, pai!

Da ponte do petroleiro, cavalgando ondas no oceano aberto, soou o alarme: náufrago à vante! Correram os marinheiros desocupados das manobras de motor e leme para a amurada, fez-se o enorme casco à sumida mancha alaranjada. O corpo, com um colete salva vidas, flutuava sobre a balsa insuflável meio vazia de ar. O homem, desidratado, pústula inteira dos rigores do Sol, resistira sabe-se lá quantas horas ou dias às inclemências do oceano. Arriaram um salva vidas. A agitação do mar tornava difícil a aproximação da pequena embarcação. Poderia, caso se achegasse demasiado, a qualquer momento destroçar definitivamente aquele corpo meio destruído, sem dar acordo de si. O pau de croque, gancho enfiado no colete, arrastou o náufrago para a borda do batel. Subiram-no a bordo em maca de lona puxada pelo guindaste. Com os meios à disposição foram-no mantendo vivo até, no dia seguinte, atracarem em Argel. Entregue às autoridades foi transportado para o hospital. Dele nada se sabia. Não trazia documentos e o insuflável, bem como o colete salva vidas, não indicavam o nome da embarcação de onde provinham. Sem notícias de qualquer naufrágio apenas se podia esperar que o salvado desse acordo de si. A desidratação e os ferimentos do corpo sararam muito antes de ele voltar a ter consciência. Meses após a chegada ao hospital abriu os olhos para a imensa claridade, ouviu vozes estranhas falarem em língua desconhecida. Quando tentou perguntar quem sou eu, onde estou, as palavras reboavam no cérebro, mas alguma coisa as impedia de chegarem à boca. Assustou-se, tentou levantar-se, apenas conseguindo derrubar a haste de onde o soro pingava para a veia, voltando débil a cair no colchão, ofegando como se tivesse corrido a maratona. Esteve meses no hospital até que, por curado, foi entregue às autoridades. Não ficou preso. Incapaz de dizer quem era, de onde viera, o que lhe acontecera, enviaram-no para uma estância agrícola. Ali, meio internado, tinha casa, alimentos e ganhava-os com o trabalho destinado. Durou três anos esta provação. Aproveitava a terapia da melhor forma possível mas, sabe-se lá porquê, mesmo quando flashes de memória ocorriam no cérebro lembrando algo que se apagava de imediato, nada transmitiu aos médicos. Ocultou que sabia escrever, não pronunciava palavra. Primeiro porque não podia, depois quando tal se tornou possível por funda desconfiança. Não sabia onde estava, não conhecia ninguém, era tido como quase inválido ou demente. Pensou quanto menos souberem de mim melhor. Quedar-se mudo não foi difícil. Tantos anos patologicamente calado secaram-lhes as palavras ou a vontade de as dizer. Ao chegar à completa posse de cérebro e memórias recordou o acidente, reconheceu-se, correram loucas as saudades da família, preocupou-se com o seu estado, com o sofrimento tido pela sua presumível morte, arquitetou planos de regresso. Descontando a mudez e a falta de memória, os cuidadores consideraram-no apto para gerir a vida presente. Deram-lhe a liberdade de saída do campo de trabalho nos dias de descanso, muniram-no de documentos provisórios em nome de Pierre Rien. Aproveitou essa liberdade para se aproximar do porto. Estudou-lhe a topografia, a segurança, apercebeu-se de horários de partidas e chegadas, entendeu as rotas e esperou.

 

- Kismet não percebo que razão teria o Sentínio para ocultar a identidade e nacionalidade.

- Pois a mim afigura-se de uma clara evidência. Lembra-te que Portugal era uma potência colonial. Argel tinha conquistado a independência há pouco tempo, depois de feroz luta armada. Para ele eram terroristas e comunistas quem mandava no país. Receava que, ao identificar-se, as coisas lhe pudessem correr muito mal. Preferiu a cautela, o silêncio.

- Mesmo assim não foi pior terem-lhe atribuído um nome francês?

- Creio que o fizeram para, fosse ele para onde fosse, ficar debaixo de olho. Não se confundia com um argelino. Era demasiado caucasiano. Faz, portanto, sentido.

- E agora, o que vai acontecer?

- O óbvio. Vai tentar chegar a casa. Trabalhará no porto, nos navios, onde se sente à vontade. Após se ter tornado figura habitual partirá, clandestino, num barco para Melilha. Lá convencerá o comandante de embarcação, com pavilhão de conveniência, a embarcá-lo como tripulante…

- Espera. Ele não terá, certamente, cédula marítima. Não poderá portanto ser contratado.

- A não ser que o comandante faça vista grossa.

- E porque o havia de fazer?

- Por interesse, Oblata. Dá-lhe a viagem, deixa-o desembarcar à sorrelfa em Cádis, assume como seus os pagamentos do tripulante. É bom negócio. Saem todos a ganhar. Mas deixemos Cursino prosseguir com a história.

 

Desembarcou em Santa Apolónia, escapulindo-se do vagão de mercadorias onde se escondera em Madrid. Apanhou susto valente em Irun. Desatrelaram o vagão da composição. Levaram-no para via secundária a concluir o carregamento. Valeu-lhe estar encoberto, no lado direito, onde a carga estava completa. Os carregadores entraram colocando todos os volumes do lado esquerdo. Teve sorte. No lado onde se escondera a mercadoria estava destinada a Lisboa. Para o outro lado viu, após mais de dez horas de espera atormentadas por sede indescritível, carrearem fardos a descarregar no Porto. Acomodou-se melhor e adormeceu sem mais problemas até que o chiar dos travões, os balanços da composição, o ruído de gare tumultuosa, lhe anunciaram a chegada ao solo pátrio. Esperou ainda muito tempo embora a sede e as necessidades o atormentassem quase ao desespero. Ao sentir silenciar-se o cais, saiu do esconderijo para se deparar com um obstáculo com o qual não contara. Em Irun, após carregar as mercadorias, tinham selado a porta. Não conseguia abri-la. Ao princípio de pânico respondeu racionalmente. Pensa um bocadinho Sentínio. Já te safaste de pior. Não vai ser agora, quando estás praticamente em casa, que te vais deixar apanhar. Bem, se a carga deste lado fica em Lisboa, mais cedo ou mais tarde vão ter de a despejar. Esconde-te no lado dos volumes que vão para o Porto. Entre os movimentos de cargas e descargas terás possibilidade de saíres sem dares nas vistas. Esperou. Finalmente abriram as portas, a luz entrou cegando-o no obscurecido esconderijo. Ouviu as vozes apressadas dos carrejões lamentando só terem meia hora para retirar a carga, completá-la com novas mercadorias a embarcar para o Porto. Vão buscar os empilhadores, comecem a operação. Mal se afastaram as vozes assomou à portada do vagão. O cais estava deserto, com exceção dos três homens que ouvira falar e se afastavam. Saltou do comboio, procurou as casas de banho, deu uma arrumação ao aspeto. Faltava apenas sair da estação, subir quase até ao alto a colina. Até à Graça era um pulinho. Dali ao Vale Mouro nem cinco minutos seriam necessários.

 

Desconheceu o abarracamento de onde partira ia para quatro anos, decidido a procurar na emigração quanto de bem-estar desejava para a família. O coração rebentava-lhe de ansiedade. Tanto tempo, tanto sofrimento, tantas privações, mas agora estava ali. Mais uns metros, nem uns minutos, estaria a abraçar os seus. Foi-lhe prontamente negada a felicidade. No lugar da barraca só terreno baldio existia. O que acontecera? Onde estavam todos? Nenhuma cara conhecida ali habitava? Diga-me, por favor, conhece a família do Mal de Rio? Usou a alcunha para tornar mais fácil a identificação. Desculpe-me, não conheço. Estive no estrangeiro e procuro-os. Nada sabe deles? E as outras pessoas que aqui moravam? Não reconheço ninguém. É natural. A Câmara mandou destruir o bairro. Os habitantes partiram. Para habitação social as que tiveram sorte, a reconstruírem barracas, em local mais distante, os outros. Então estas que aqui estão? Foram sendo construídas por recém-chegados. Não conhece ninguém dos antigos moradores? Que me lembre só o Manel Gaiteiro. Está meio taralhouco. Mesmo assim, onde vive ele? Siga por este arruamento, no segundo à esquerda, ao fundo, é a barraca dele. Não tem como se enganar. Está toda pintada de vermelho, tem pregada na porta a águia do Benfica. É doentinho de todo. Sim, conhecia o Gaiteiro. Não se falavam muito, mas coscuvilheiro como era se alguém soubesse o paradeiro da família seria ele. Manel não o reconheceu. Estaria assim tão mudado? Ou seria porque o homem parecia alheado de tudo? Não ficou particularmente feliz ao ser perturbado nos cuidados que prestava à ninhada de cachorros criados para ganhar a vida. Demorou a vir à portada. Mal de Rio? Escarafunchou a orelha com a unha crescida do dedo mindinho, observou cuidadosamente o cerume aportado, limpou o dedo nas calças sebentas e disse, sei muito bem, foi o que morreu no rio. Foi a sorte da família. O seguro não foi nada mau. Veja lá que a morte dele rendeu mais do que a vida. Foram-se daqui antes do despejo. Mudaram de poiso e de vida. A mulher comprou uma casa na Amadora. Vive lá com o filho. A filha casou-se e não faço a mínima ideia onde vive. Sabe a morada da viúva? A palavra escaldou-lhe na boca. Deixe ver se me lembro. Esforçou a memória. Pouco saiu que servisse. Olhe é perto do supermercado. Numa rua mesmo ao lado. O nome não sei. Mas não será difícil lá chegar.

 

Tão diferente do bairro antigo. Prédios altos, empilhados uns sobre os outros. Supermercados havia três. Decidiu-se pelo que ficava num largo. O Manel Gaiteiro tinha frisado isso. Muitas perguntas, demandas várias, um deserto. Ninguém conhecia ninguém. Mas havia uma rua mesmo ao lado do supermercado. Postou-se de vigília. Horas desesperadas. Alguém haveria de aparecer, rezava-lhe a esperança. No segundo dia, um vulto conhecido surgiu do outro lado da rua. A minha filha! Julgou caminhar para um enfarte tal o aperto a dar-lhe no coração. Ia para lhe gritar o nome. Lembrou-se de que o pensavam morto. Achou melhor segui-la, descobrir a casa e o andar para, no recato do lar, se apresentar, dar explicações. A filha apercebeu-se de alguém a segui-la. Assustou-se ao ver o vulto sujo, desgrenhado. Acelerou o passo. Porcaria da porta que tinha o fecho avariado, não fechava. Ao ver o individuo aproximar-se galgou as escadas até ao segundo andar. Sentínio apercebeu-se do medo da filha. Estaria tão mudado que ela não o reconhecera? De que te admiras? Envelheceste, estás muito estragado, pensam-te morto. Tens de ser cuidadoso. Ouviu os passos dela parar no segundo andar, a porta abrir-se à premência da campainha, cerrar-se rapidamente. Não percebeu em qual das três portas teria entrado. Parou para tomar ar e refletir. Decidiu não bater à porta naquele momento. Poderiam não abrir por receio. Demos um pouco mais de tempo. Saiu a perambular pelo bairro durante pouco mais de uma hora. Voltou ao prédio, subiu ao andar, bateu na primeira porta. Silêncio! Nenhuma resposta. A campainha soava a casa sem gente. Na segunda ouviu a voz que ansiava. Alzira! Abre, sou eu! Um compasso de espera. Eu quem? Eu, o teu marido. O Sentínio. Percebia a perturbação. A porta mantinha-se fechada. Do outro lado só silêncio. Vais deixar-me aqui fora? Abre-me essa porta. Cochichos vibravam ténues na madeira. Viu abrir-se o óculo da porta. A voz de Alzira procurava confirmação. Sentínio, não é possível. Tu estás morto! Deixa-te de palermices, estou bem vivo. Os mortos não batem à porta!

Se a tivesse visto na rua poderia não a ter reconhecido. A Alzira que me abriu a porta parecia-se mais com a que conhecera na juventude que a deixada naquele dia sem sorte. Mudara tanto! Abandonara os vestidos sem corte, sem cor. Garrida, cabelos longos tratados, tão diferente de si. Tão distante do que esperava. O vórtice antecipado de me lançar nos seus braços, com quatro anos de saudades acumuladas, morreu no olhar que me lançou. Não era de alegria por ver-me, felicidade por saber-me vivo. Só via angústia. Em vez de correr para mim refugiou-se nos braços da filha. Reconheceram-me, mas senti-me intruso. É assim que me recebem? Nem uma palavra, um beijo? Oh, homem, que queres. Apareceres assim, deste modo. Todos te julgámos morto. Fizemos-te o funeral. Apareces do nada. Como queres que nos sintamos? Fizeram-me o funeral, indagou. Sim, o teu corpo, ou um corpo com os teus papéis de identidade, foi recolhido passado quase três semana do naufrágio. Ninguém podia reconhecer-te, mas não havia dúvidas quanto à tua identidade. Não me parecia que a conversa devesse continuar no vão da porta. Franqueei a entrada, elas recuaram um passo. Começava a exasperar-me. Não fujam. Eu não mordo. Sentei-me no sofá individual, Alzira em frente, no grande, a filha a dizer, ficas bem? Vou avisar o meu marido e o mano.

 

Estava a tornar-se doloroso aquele reencontro. Não nos sentíamos à vontade. Alzira levantava-se amiúde, ia à janela, voltava para o mesmo sítio. Perguntava-me, o que fazemos? Não me parecia problema muito difícil de resolver. Voltara! Pretendia sentir-me em casa, mas algo se interponha. Aquele não era o teto de onde partira. De qualquer modo fora o dinheiro do meu seguro a permitir a compra. O que não conseguira na vida alcançara-o na pretensa morte. Por isso tentava sentir-me à vontade, considerar aquela casa como o meu lar. Antes do resto da família chegar, nervosa, Alzira disse-me ter de dar-lhe algum tempo para se habituar à ideia do meu retorno dos mortos. Não conseguiria partilhar, de imediato, a cama comigo. Ficaria os primeiros dias a dormir no quarto que fora da filha. Tentei entender a sua lógica. Sempre lutara para o bem daquela gente. Mais um sacrifício não seria demais. Está bem, mas diz-me, vives com outro? Credo, homem, não! Fugiu para a cozinha a preparar qualquer coisa. Não gostei da pinta do meu genro. Pela agressividade demonstrada não seria eu o sogro que quereria ter. Paguei-lhe na mesma moeda. Nada tinha a ver com ele e, pelos vistos, nada teria. Já ao meu filho ser-me-ia difícil perdoar a frieza com que me brindou. Não teve palavras de amizade para me receber. A preocupação exclusiva era o que vamos fazer? Brutalmente expôs os cuidados de todos. Com o pai vivo vamos ter de devolver o dinheiro ao seguro. Vou perder o carro. A mãe a casa. A única que está segura é a mana. Então era só aquilo que valia para a família, para quem labutara tantos amargos dias? Só a preocupação pelas possíveis perdas? Que gentes eram aqueles estranhos, quase perfilados diante de mim? Ninguém pode saber que está aqui. Falava o meu genro para a minha mulher. É só alguém abrir bico, temos a companhia de seguros a ficar com tudo o que é nosso. O pilantra já se sentia também dono da casa. Pela primeira vez embruteci a voz, fi-lo calar-se. Este problema não lhe diz respeito. Só com a família tomarei as decisões necessárias. Saia! Quero ficar só com os meus. Se o meu marido não pode ficar, também não fico. Faz como quiseres e a imagem da doce menina de tranças, a trepar-me pelo corpo, desfez-se em cacos. Ficámos os três calados por muito tempo. Pensava no modo de resolver o problema. Como ninguém alvitrasse nada propus fazer-me passar por hóspede. Ninguém ali me conhecia. Comprometia-me a sair o menos possível, a evitar locais onde pudesse ser reconhecido. Quanto à subsistência haveria de conseguir qualquer coisa para ganhar as migas. Nem o meu filho, nem Alzira se opuseram abertamente. Deixaram no vago. Depois se veria. Pretextando ter um jantar com amigos o meu filho foi-se. Voltei a ficar só com Alzira. Não vos reconheço, queixei-me. Nós não éramos assim. Os tempos mudam, volveu-me. Vou arranjar-te o quarto.

 

Na manhã do dia seguinte ouvi Alzira a falar com a filha ao telefone. Vou ter contigo a tua casa. Temos de tomar providências. Fiquei alerta. Fiz-me adormecido quando ela veio espreitar-me. Deixei-a sair. Dirigi-me ao seu quarto para deparar com a porta trancada. Avolumaram-se-me as desconfianças. Foi muito fácil abrir a fechadura. No guarda-roupa estava a confirmação. Fatos de homem pendurados, mostravam-me o que todos me ocultavam. Havia outro homem em casa. Fora substituído! Voltei a repor tudo como estava. Esperei o regresso de Alzira. Mais uma vez vou perguntar-te, vives com outro homem. Credo, que ideia se te meteu na cabeça! Claro que não! Ela estava ali na minha frente, imagem ofendida da candura, mentindo com a maior desfaçatez. Não quebrei o jogo. Queria saber onde tudo aquilo nos levaria. Tocou o telefone. Apercebi-me de voz de homem. Deduzi a pergunta. Ele ainda ai está? Alzira respondeu, já está tudo combinado. Hoje ao jantar tratamos da coisa. Amanhã tudo estará nos eixos. Fulminou-me um raio. Percebi tudo. Provavelmente iriam envenenar-me. A minha vida, por mais que prometesse ser discreto, era um perigo para todos. Que mal fazia matar um morto, abandonar o seu cadáver em qualquer sítio, mandá-lo para o mar? Mesmo que aparecesse era só mais um desconhecido. Ainda não tinha pousado o telefone quando me viu prestes a sair. Desconfiou. Onde vais? Espera pela chegada do nosso filho. Não espero coisa nenhuma. Já não tenho família. Desconheço o que vocês são, desconfio do que estão a preparar. Dão-me nojo. Tem calma, não nos desgraces. Porquê? Para continuares a viver, na casa paga com o dinheiro da minha morte, com outro? Pensas continuar a enganares-me por quanto tempo? Presumo que não seja por muito. Percebo, querem-se livrar de mim. Estava disposto a todos os sacrifícios por vocês. Neste momento só sinto desprezo pela ganância que mostraram, pelas mentiras que me contas. Fui ao teu quarto. Vi as roupas! Para de te enganares pensando fazê-lo a mim. Tem calma, peço-te. Espera só até à noite para nos reunirmos todos e podermos falar. Não sei como vão falar com um morto. É tudo o que serei se ficar para o jantar. Ouvi o teu telefonema. Não me enganam mais. Vou fazer o que devo. Ficou estarrecida, incapaz de levantar-se. Bati forte com a porta e desandei para a baixa.

 

Empurrei o quebra ventos na entrada da companhia de seguros. Dirigi-me à receção. Uma boneca loira, cheia de atavios, olhou-me como se fosse extraterrestre. Que deseja? Venho esclarecer dúvidas. É para contrato ou reclamação. Não era nada disto mas, seguramente, reclamação estava mais próximo do que ali ia fazer. Reclamação, disse. Terceiro andar à esquerda, no Contencioso. Subi, foi como se não tivesse chegado. Meia dúzia de pessoas falavam, umas com as outras, de modos zangados. Uma frase ou outra davam-me a entender que, nesse dia, tinham sido informados de promoções e aumentos. Pelos vistos nada do que souberam agradara a alguém. Revoltavam-se, consideravam queixar-se ao sindicato, era tudo uma panelinha, mata-se a malta a trabalhar para quê? É sempre tudo para os mesmos. Que deseja, perguntou-me abrupto um homem bastante jovem. Quero apresentar uma reclamação. Então diga? Olhe para mim. Estou a vê-lo bem. Pois não devia. Eu estou morto e a companhia pagou o seguro à minha viúva. Nem me deixou explicar a situação. Chamou os seguranças, mandou-os expulsar-me. Encolheu os ombros e comentou, ou está bêbado ou maluco. Mais um dos que por aqui aparecem a fazer-nos perder tempo. Empurrado pelos gorilas, tentando atabalhoadamente explicar o que ninguém queria ouvir, ainda escutei a gargalhada geral a limpar a tensão do ambiente.

 

Sentínio desceu até ao rio. Sentou-se no paredão sofrendo o não ser ninguém, o nem sequer ter existência legal. Que faria? Todo o mundo desabara. A sua família era agora de outro, ele não contava. Viu atracar o cacilheiro. Tão branco. Parecia pomba a voar nas águas. Ao mesmo tempo tão igual e tão diferente daquele em que embatera no meio do nevoeiro. Hoje, fora dele, o Sol brilhava, fazia ressaltar a brancura do navio quase até à cegueira. Como era lindo. Apetecia embarcar, deixar-se ir. Entrou no cacilheiro. Não quis ficar no interior escuro semelhante à sua alma. Procurou o Sol nos varandins. Contrariamente ao hábito não enjoou. Até lhe eram agradáveis os socalcos das ondas a fazerem o barco saltitar. Apreciou o rio, olhou a outra margem. Ali, quase a meio, onde provavelmente se dera o naufrágio, aproveitou um balanço da embarcação, deixou-se ir. Tocaram frenéticos o sinos e sirene do barco. Abrandou a marcha. Os motores ronronantes puseram-no a navegar em círculos. Os marinheiros correram para as amuradas com boias nas mãos. Uma hora depois, perante a irritação dos passageiros atrasados para as suas vidas, atracava o barco em Cacilhas. Ninguém sonhava que ali, quatro anos depois de fintar a morte, Mal de Rio procurava apagar-se, definitivamente, deste mundo a que já não pertencia.

 

 

 

 

 

 

 

 

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publicado por Carlos Alberto Correia às 12:25


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