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(h) a via romântica

Quarta-feira, 02.11.05
E a Maria do Brás que ficou sempre menina
Dentro de mim em Águeda há vinte anos.

Correio, O Canto e as armas, Manuel Alegre


(h) a via romântica


o amor romântico é uma inovação
tardia da civilização ocidental



I - meditação de inês
em janeiro de 1355

nunca desconfiei que o peso do tempo caísse
como vento no local da voz
olho o meu corpo
investigo os passos do silêncio
crescendo na planura do vestido

através das águas sobe o murmúrio dos prados
e sobre o nó do corpo fitam-se
os limites da crisálida

acode-me o instante transparente de todos os caminhos

II - início dos anos 60
em évora

nasceu em 1944
de pai bêbedo e desempregado crónico

a mãe
que nascera morta
continuou a morrer
até que muito nova concretizou
definitivamente
o seu estado

cresceu solto e descalço
entre janeiro e agosto saltavam-lhe
os pés
no fogo aberto das pedras

quando fez 14 anos foi dar
serventia a pedreiros e ficou
tal como o trabalho
duro e rapace

por vezes
no largo de s. mamede provocava a zanga
e batia nos estudantes mais fracos
era a raiva dirigida ao acaso
de quem não percebe a coacção
das regras sociais

nele

nada suscitava a hipótese
de um amor romântico



III - fala de pedro
e do futuro

é na pedra que preservarás a máscara
arcadas e volutas de vento uivarão a garganta
e nos olhos trarás choros de punhais

"que amor mate os matadores
na justiça dos silêncios sepulcrais"

cruel te chamarão por teu serviço
provocar a dor e o dia em que teu dia ressurgir
seja o de ouvir tremenda a tua voz

"é na pedra que pedro pensará a morte
e que amor mate os matadores
na justiça dos silêncios sepulcrais"

IV - continuação da narrativa
em évora

também ela se apaixonou por ele
pomba e gavião
voando
escandalosamente juntos

pessoas

certamente bem-intencionadas
levaram o recado ao pai
acelerando mais ainda a roda da paixão

negou-lhe então a cidade o seu abrigo
voara mais alto que a sua condição

V - de novo medita inês
em 1355

sei que em algum dia e por alguma coisa fui
e sempre d'esse ser me investi
no apartar das águas que sem nome
trazem o pássaro de vento e neve
onde se obscurece tudo

quanto se poderia abrir a oriente
no exercício de morte que soletro
fronteira proibida há que cumpri-la com rigor
e ser precisa nos gestos que ao tempo
outro tempo seguirá

VI - rápida mudança de évora
para lisboa

ela acabou por casar com um
engenheiro agrónomo que foi tratar
das propriedades do pai e montou casa
em lisboa

ele acreditando ainda que o amor era possível
foi-lhe na esteira e um dia
encontrou-a na baixa com algumas
novas amizades

ela fez que o não viu

VII - pedro diz

eu hei-de cantar sob os choupais
uma outra lua que agonia não mereça
em cada pedra selarei a flor de um mosteiro
feito de fuga e arco

quem se atreverá a abater o vulto que sustento
enquanto a vida vai

a ti meu pai lançarei as vísceras de todos
quantos não convenceram choros e armado
por quanto disse e vivo
abro a lura onde o lobo se constrói

eu matarei um dia
já que matar-se não pôde a minha voz

VIII - complemento da passagem

por isso ao olhar para si
compreendeu as margens
e viu
que de seu braço só partiam rios
de separar

então
em 7 de janeiro de 1967
612 anos precisos após a morte
de inês de castro
o meu amigo sentou-se no
banco do hospital de s. josé
e
por desesperado amor
assassinou-se

se ele se chamasse pedro
estaria paga a morte de inês

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publicado por Carlos Alberto Correia às 17:30