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bruma o tempo (poema)

Quarta-feira, 30.05.07

I

à mulher seguiu-se um ansiolítico
e o tempo ia passando ao outro lado do tempo
sem que reaparecessem as suaves mãos de grega
que tiram os colapsos dos peitos dos afogados de amar

a viagem é por vezes estender a solidão
barco clandestino por entre púrpuras galantes
punhos de espada águas da minha água
armadura grega tróia e troiana enchendo-me
o barco furando em segredo perto do meu sono
longe do meu beijo.

II

bruma avança entre o mar espesso
o silêncio cria um tempo de poema

contrária a si mesma
fresca acolhedora
espera há mais de dois mil anos
e liga-se-me sináptica e sonhadora
generosa e meiga mãe sobre todas as mães
amante prometida acima de todas as amantes

procurará o meu corpo percorrerá o meu espírito
e amalgamados entre nós dar-se-ão os dedos dos lábios
diremos os nossos secretos nomes e chamaremos poetas
para incendiar luz e abrir caminho sobre as inquietas águas

em linha tranquila bruma divide o horizonte
e paciente traça sobre a minha vida a noite e o dia
diz-me vive e os seus sorrisos são alquimia
a rolhar a solidão das fragas

III

tempo de bruma só adivinhado
vago da esperança do desejo
tempo de bruma por chegar

um dia toda a cidade acordará abraçada de bruma
todas as casas estarão no mesmo sítio
todas as pessoas estarão nos mesmos gestos
todas as águas pararão

bruma chegou de seu caminho

de repente toda a cidade parou ou será outra
entanto bruma se estende corpo inicia o gesto
suaviza as coisas que murmuram e lentas retornam iguais e diversas

e tudo é mais quieto mais quente mais produtivo

se o seu nome ressoa todo o tempo se resolve
nos espasmos de um orgasmo atlântico
ela chegou mãe primeva de todas as substâncias
entre o líquido e o orgânico corpo frutuoso
cândido e lascivo que me acalma para após
me seduzir a ainda mais me excitar

por isso acorro ao chamamento e vou
bárbaro e tranquilo voando devagar a arrulhar mansinho
sem rufos de asas para que o vento não disperse bruma


IV

diáfana bruma corpo de vestal cumprindo véus
que passas entre olhares e entardeces Penélope
tema de teia talvez no meu encalço

mas antes de mim quantos estarão
quando chegar quem me anunciará
ainda estarás à minha espera
ou o meu vento uivará através da tua sensibilidade
e nem acordarás

pode ulisses o triste pensar em penélope neste longe
pode ulisses sem barco contar os longes da viagem
pode ulisses sem arco ser o herói
que tudo vence e tudo a si domina
pode ulisses assim como o vês ser ulisses no poder
o aguardado ulisses é ainda este
que atendes no teu leito e ouve lá fora
os urros dos pretendentes-esbirros

pode ulisses deitar velas ao sonho no mar do teu consentimento

V

porque ver-te e querer-te ó pequena subtil ó perto da meia tarde
quando os cabelos se dobram nas fímbrias do vento
quando a semi-saia cortou já parte da esquina
quando tu passas e o teu amanhã me é improvável
possa eu todo desconhecido inibição inicial
ressurgir no diálogo interrompido antes das palavras mágicas
que te trazem género' igual ao meu mas de sinal diferente
prometida desde o tempo em que ainda havia deuses e se guardou
e pôs à prova apenas para que eu um dia num local
improvável no inesperado do tempo numa procura consciente
fosse tocado por um sorriso preso por um olhar
perdido por ter de ir

talvez para a próxima a bordo do barco da poesia
quando o timoneiro pintor fizer as águas
tenhamos tempo para possuir a urgência de ser pátria
de ser rio e preparar esta coisa tremenda e fatal
que é o corpo do espírito da mulher esta coisa que se sente e não
se sabe esta coisa que nos corta e que nos abre esta coisa enorme
e feminina esta coisa que nos acalma e nos atrai esta coisa
que em suma é um sonho rodopiante com o tempo e a bruma
Posted by Picasa

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publicado por Carlos Alberto Correia às 20:57


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