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memórias 10 - oração

Quinta-feira, 11.09.08



senhor

não acredito em ti mas
obrigado por me teres dado
a poesia

posso acreditar nela
porque me fala
das vidas que se perdem
dos homens em geral

tu sabes como nos fizeste

perdoo-te porque ao ser poeta
também quero criar
e condeno
as minhas obras a viver

desculpa-me tu a imodéstia
mas entre camaradas
vê como te estou a incluir numa
esfera social
mas entre camaradas
não deve haver ressentimentos

também sabes somo loucos
tu porque me fizeste
eu porque te faço em cada momento
te erijo igrejas
me esqueço de ti quando me pedes
te obrigo a existir quando te peço

no outro dia fiz-te um concílio
para discutir as tuas razões
isto faz-me lembrar uma formiga
que chama gigantes aos anões
e olha a coisa não deu nada

parece-me não tenho lido os jornais
ultimamente que os homens continuam a matar-se
eu também os mato mas nessa altura não sou eu
abdico de mim e mando a minha carga
para as tuas costas

nós estávamos tão bem no paraíso
lembras-te das suecadas que batíamos durante a noite

é isso o raio desse teu espírito irrequieto
tenho a certeza de que no-lo deixaste porque
te era incómodo

se um dia te deres ao trabalho de olhar
cá para baixo
não te esqueças de por uma roda dentada
em lugar do coração

se o não fizeres vão enganar-te
e subjugar até que te tornes uma máquina
como eu

os homens são já tão evoluídos
que nem discutem
contabilizam

por isso te estou a dizer que sejas
esperto e não te deixes embarrilar
por aqueles que dizem que acreditam em ti

se não te importas vou deixar de te escrever
é que não te acredito nem posso compreender
a tua tão estranha maneira de ser
por todos os séculos dos séculos

aleluia
Bissau, Setembro de 1968

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publicado por Carlos Alberto Correia às 13:58


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