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habitualmente zeloso e cumpridor (poema)

Sexta-feira, 26.01.07
I

estás tramado meu lírico burocrata
de empresa quase falida neste tempo de terceiro-mundo
em vésperas de europa

estás bem lixado com tudo quanto inopinado sobre ti desaba
e te afugenta as sonhadas planícies do lazer
seguidas até ao servilismo

lá se vai o teu sossegado apartamento entranhado
de pequenas cobardias apenas choradas quando
as tuas asas de anjo cumpridor se abatem
na imagem de eunuco pálido habilmente alimentado a restos
de ilusão por imagens coloridas tal
a superfície fria e inabitável por detrás da luz
efémera com absolutos sentimentos de realidade
vultejando no horizonte de uma chuva de jardim
espalhando outonos e restos de jornais

adivinhas no passado o trânsito onde foste transviado
e te transformou nessa máquina de obrigações e ordens
mineral que abdicou de si para naufragar no
estrume colorido de uma hierarquia que

passeava o brilho da sua eternidade na sombra esmoler
da tua sombra caverna degenerada de desejo
no todo circunspecto de quem sempre viu o que foi grande
o que foi belo o que foi tudo
feito pelos outros e
apenas existia porque se enquadrava no sagrado organograma
de um regime de uma empresa ou de um partido

III

meu palerma em psicatto pústula de raiva que casaste com uma
genoveva
com paixão adquirida por empréstimo no coração do fastio
que já dez dias antes do casamento te predispunhas ao sacrifício
e te quiseste heróico e aguentaste o patau pensando sobretudo
no que os outros diriam no momento em que
por te saberem tão nabo
alinhavam escárnios na tua frente e tu
no estoicismo barato do teu comportamento
tentavas a vingança dominando o espelho de tédio
nos olhos de uma prostituta quando

os americanos desciam na lua e acertavas
com um doze no totobola acreditando que
em nome da humanidade
pousavas sobre o corpo de selene sondavas um discurso
enquanto passeavas pelo vídeo a tua refeição de aparências
sorrindo com raivinhas fundas por um dia
por qualquer distracção um qualquer jardineiro nem sequer
mal-intencionado ter
podado a haste da vida que em ti crescia

na verdade enquanto a vida perpassas linear
outros requerem o incómodo das coisas transgressoras
das iniquidades num interior de força
procurada nas origens do ribeiro que está
no outro lado da infância e aparentes e loucos
colocam todos os dias um padrão de fogo
no interior das estrelas

III

num destes dias pequenos e pacatos
meu cidadão do nada envolvido subtilmente nos brancos
de um consórcio mantido à força de regulamentos
por entre rendas e preceitos vigentes

morrerás com

a) um padre à cabeceira da extrema-unção

b) o oficialmente incontrolável choro da tua viúva imersa nos
tranquilizantes
recomendados para situações congéneres

c) inquietos no seu enquadramento
os filhos e
os netos
buscadores de testamentos e legais benesses

d) as flores
os lutos
as mulheres da casa preparando
o momento do trespasse
que se quer
composto
digno
em família
mas letal

contudo latente a intriga rodeia os herdeiros

porque

cá fora a vida segue noutras máquinas
cumpridoras zelosas e pacatas
escondedoras do ódio que as consome
que já cobriram o espaço que deixaste
e arrastam o teu cadáver sem peso e sem remorsos
até ao dia em que súbito aos seus ouvidos
alguém murmurar as insofridas palavras

"estás tramado meu lírico burocrata"

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publicado por Carlos Alberto Correia às 23:50


1 comentário

De Henrique a 27.01.2007 às 23:38

Boa. Já não te via assim, há muito tempo.

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