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Um euro por dia

Sexta-feira, 11.01.08
Posted by Picasa

Depois de uma infância e meia adolescência vividas nos cânones da Santa Madre Igreja apercebi-me de ter o meu zelo arrefecido, não me sendo a ideia de Deus necessária, nem para a vida, nem para a explicação do mundo. Por isso abandonei totalmente a prática religiosa.

Não me interessavam, igualmente, discussões sobre a existência ou não da divindade. Os argumentos, a favor e contra, pareciam todos inteiramente pertinentes e por mais voltas que déssemos, a uma prova outra contrária sucedia, num movimento de empate permanente. Tornei-me agnóstico e pensei, para mim, que se Deus existisse o problema seria dele. Assim passei adiante com toda a leveza de espírito.

Mas se em relação à existência de Deus resolvi, de uma penada e sem azedumes, o diferendo, já o mesmo não se passou em relação à sua Igreja Militante, isto é, aos seus representantes na Terra.

Aí, a coisa piava mais fino. Primeiramente porque a Igreja, desde Constantino, abandonando a mensagem de fé e esperança para os oprimidos, assumiu a quota-parte de religião de estado, comportando-se como um apêndice do mesmo, utilizando a sua influência para gerar o conformismo nas massas despossuídas. Depois, e em Portugal nos anos cinquenta, pelo seu claro enfeudamento ao fascismo nacional, estendendo os seus ouropéis para colorir o cinzentismo institucional, assentando a sua prática na negação da doutrina propalada. Acrescente-se ainda o percurso histórico da Igreja, o qual nada abona a seu favor.

Entre as muitas coisas que me foram arrepiando estava a figura do Papa, a sua omnisciência em questões religiosas, bem como o espectáculo litúrgico de que é causa e efeito. É bem verdade que as igrejas monoteístas são por natureza espectaculares, totalitárias, centralizadoras e monopolistas. O seu deus é único, a sua fé é a verdadeira, todos os que não pensam do mesmo modo deverão ser convertidos ou, no limite, exterminados.

Inquisição dixit!

O pensamento e actuação comuns às religiões monoteístas - o princípio de exclusão das restantes - têm levado, ao longo dos séculos, a cruentas guerras em nome da verdadeira religião e, pasme-se, da manutenção da paz. Também, em nome do Céu, se diferia a felicidade humana para um mundo posterior e perfeito de forma a manter, com esta esperança, miseráveis e dominadas as populações. Sob o jugo de uma classe minoritária e rica, vivendo o paraíso possível na terra, a pregação da igreja era o esteio ideológico que permitia a alienação das populações, trocando o bem possível, por um pretenso lugar na mansão do Senhor. A garantia desse lugar era assegurada pela palavra sacrossanta da Igreja e do maior dos representantes de Deus na Terra.

É claro que a Igreja vendendo, a outros, o paraíso para depois, na realidade comungava integralmente dos bens terrenos sem problemas de consciência. Para ela o Céu podia esperar.

Vêm estas diatribes a propósito do discurso do Papa no início do ano. Com justeza zurziu a organização capitalista da sociedade, apontando o dedo, com certeza cirúrgica, para o capitalismo selvagem, no seu corolário da globalização e na indesmentível ausência de justiça na distribuição dos bens terrenos. Sábias as palavras, certo o objectivo.

Então porque é que eu reagi com tanto desagrado à bondade desta intervenção?

Bem, olhei para o monsenhor Ratzinger e lembrei-me que ele, ainda não há muitos anos, era o responsável pela manutenção da ortodoxia mais restrita no corpo da Igreja. Nesse papel, perseguiu a Teologia da Libertação e o seu apóstolo, Padre Leonardo Boff, tendo-o compelido a abandonar a Igreja para não ter de renunciar ao seu apostolado.

O que pregava a teoria da libertação? Por ironia, tudo aquilo que o Monsenhor Ratzinger perseguiu e que agora, transubstanciado em Bento XVI, no discurso proferido para o mundo, ao raiar de um novo ano, vem defender. É caso para dizer “tarde piaste” e para não se levar a sério estes desígnios, antes os incluindo no estendal de hipocrisias discursivas a que a Cúria Romana nos habituou.

Se o Santo Padre quiser ser levado a sério, peça perdão a Leonardo Boff e a todos quantos perseguiu, ponha de lado o estatuto privilegiado e ostentatório em que vive, encerre de vez esse estado artificial de que é chefe, calce as sandálias do Pescador e retorne à humildade dos fundadores do movimento religioso que diz seguir; faça penitência e viva com os pobres e para os pobres.

Enquanto tal não fizer e não se libertar das riquezas, continuadas a acumular pelo Vaticano através da globalização e do capitalismo selvagem, essa figura que se diz veneranda, mais não será que o protótipo de alguém que, como São Tomás, segue a lei do “faz como ele diz, não como ele faz”.

Para mim, que não sendo já católico, não tenho de esquecer quem fala e de que lugar fala; não temo as penas eternas pela minha heresia e, por viver numa sociedade que a Igreja já não pode dominar inteiramente, não receio igualmente a perseguição nem a fogueira, afirmo que tal discurso é hipócrita, ridículo e até patético.

Falar de pobreza, envolto em púrpuras e arminhos, é gozar com os milhões que, no mundo, sobrevivem em desespero, apenas com um euro por dia.



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publicado por Carlos Alberto Correia às 12:33


3 comentários

De Anónimo a 14.01.2008 às 19:30

diz-me o teu email. parece que o que tenho é do tempo da ota senhora.
kira

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