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Malhas que o sistema de saúde tece ou a trágica história de José

Domingo, 11.12.05
Pretende atingir a porta longínqua da saída do hospital. Porém, as pernas recusam-lhe o movimento, as dores tolhem-lhe o passo, amortalham-lhe a alma e a visão turva diz-lhe a distância longa - ainda há meses percorrida em largas passadas – a que se encontra a porta por onde passará curvado, qual hera em torno da canadiana que lhe suporta o corpo.
A história de José é breve e simples. Na verdade, todos conhecemos “Josés” que caíram na rede tecida por este sistema a que se dá o nome de serviço nacional de saúde e onde pontifica a figura do médico de família, o qual, só por ironia, tem semelhante epíteto, tantas são as famílias desamparadas que por esse país vivem sem médico que as assista Porventura não serão famílias! Efectivamente, nos centros médicos os funcionários designam-nos sem qualquer hesitação. São «os sem médico». Esqueçamos este aparte até porque José foi um felizardo já que contou sempre com médico de família, com alguns hiatos, é certo. Mas, por Deus, que qualquer cidadão “normal” o perceberá. Não há médicos que cheguem para tantos doentes e maleitas. Importa suportar o sofrimento tanto tempo quanto o necessário - o estoicismo é um valor a preservar, estou mesmo a ver! Não há como retomar os bons velhos valores da Antiguidade clássica. E os doentes aprendem. Ai, se aprendem…. Coisas do sistema que devemos entender!
Aproximemo-nos de José que atravessa lentamente o umbral que o levará ao exterior do hospital. Sempre foi um homem simples. Amava a copa das árvores de fruto, o seu quintal de hortícolas, o vinho sonhado nas videiras enfezadas, amava a ordem da sebe aparada, suspirava feliz perante a relva simétrica e verde. Além disso, tinha a sábia arte da reciclagem e, frequentemente, num velho ferro, ou num pedaço de madeira entrevia o que os outros não viam. A sua utilidade. E das mãos de José – carpinteiro como o da sagrada família – nascia algo um novo objecto. Era raro este seu dom. Com 70 e tantos anos, recusando a imobilidade de bancos de jardim, ocupava energicamente os dias. O que eu mais lhe admirava era esse modo enérgico como envelhecia. E falo no passado para o descrever porque José perdeu todo o seu vigor em quatro meses, porque em quatro meses deixou de aparar a relva, entregou o quintal à caruma, as flores aos gatos vadios, as alfaces às lagartas …
Agora é a hera que se encosta suplicante à palmeira nobre do seu jardim e lhe suplica que a deixe enroscar-se nela (a palmeira tem a idade do neto. Plantou-a ele. A trepadeira também…, tal como a nespereira que marca o nascimento da neta).
As mãos fortes, o tronco firme que domavam o jardim e o harmonizavam deram lugar a um frágil caule …! E não estaria assim se tivesse sido convenientemente tratado numa perspectiva médica de prevenção.
De facto é simples a história de José. Respeitoso para com os senhores doutores cumpriu sempre escrupulosamente as suas indicações para controlar a sua diabetes, o seu colesterol, a tensão arterial etc. Nunca lhe passou pela cabeça colocar alguma dúvida sobre prescrições ou solicitar qualquer exame pois não só depositava inteira confiança no médico, como não dispunha de saber ou capacidade expositivo-argumentativa. José era o doente ideal: «Sim, Sr. Doutor!». E lá seguia, fazendo os exames de rotina, e lá continuava acreditando piamente que tudo estava bem, desde que tomasse os medicamentos, às vezes prescritos sem que tivesse sido sequer observado. E neste passo é bom lembrar que José é um senhor idoso, e com baixa literacia, dado importante para se perceber ainda que não estranhasse tomar há quase uma vintena de anos os mesmos medicamentos, quando a ciência médica tem dado passos gigantescos.
Um dia, há cerca de dez anos, dores fortes nas pernas impediram-no de andar. Após tentativas goradas de consulta, lá foi assistido. Fez um RX e um outro exame e logo vaticinou a autoridade médica: «Reumatismo, trata-se de reumatismo». Por isso, nada mais natural que medicamentos reumatismais. José tomou-os Sempre! Ainda falou, como era habitual, da má circulação, dos pés frios … Mas se tinha reumatismo, havia que engolir as cápsulas. E de novo voltou às matutinas horas, e ainda madrugada lá estava na fila para não perder a consulta. Às vezes perdia-a. Mas regressava sempre. Aliás como se sabe, “erguer cedo” “ dá saúde e faz crescer”, desde que o indivíduo cedo se deite. Assim o fazia José como homem regrado que era, tanto mais que os ritmos agrários ainda lhe pulsavam no coração.
Contudo, maugrado os reumatismais, as dores nas pernas persistiam, levando o antigo andarilho a tornar os passeios mais curtos, mas nada confessando à família. Todavia, disse-o aos médicos, sem que estes achassem necessário investigar fosse o que fosse (o velhote estava era mal das articulações!) e avançavam - «Sabe são coisas da idade. Ande a pé e tenha paciência! E José acreditou, obedeceu sem questionar. Quanto à paciência teve em dose elevada. E o pés diabéticos? E a má circulação? Da frequência inicial com que os observavam, restava agora um leve olhar ou até um não olhar. O que, como sabemos bem, não tem importância nenhuma!.
Um dia (creio que em 2004), mais envelhecidos, ele e a mulher mudam de centro médico, buscando uma maior proximidade de casa. Tiveram muito poucas consultas, pois a médica adoeceu e, naturalmente, deixou de comparecer. E quem assegurou a observação de José e sua mulher? Ninguém!
Supor-se-ia que, identificado como diabético, tivesse José acesso facilitado a uma consulta. Ingenuidades! Espera igual para todos é o lema dos centros médicos. E não é que se afigura algo de tom igualitário? Pois é… mas a diabetes é uma doença crónica com evolução muito grave para o doente e isso foi esquecido como se ninguém num centro de saúde o soubesse. A prova disto é claramente vista na regularidade quase diária das idas de José ao seu centro na mira da almejada consulta. E o resultado? Nulo, restringindo-se às vozes desabridas ou inexpressivas dizendo o mesmo de sempre, ou seja: «Não há médico! Volte amanhã, para a semana. Para o mês que vem talvez… Que quer que lhe faça?» Por essa altura os pés enegreciam, a palidez aumentava e as dores nas pernas agudizavam. José já pouco andava … e um dia parou.
Uma unha encravada num dedo cianosado levou-o aos serviços de enfermagem do Centro de saúde uma, duas, vezes sem conta. - «Hoje não temos S.ra enfermeira, nem médica! – Venha amanhã pode ser que a doutora o veja». E nada mais! Depois veio o grito de apelo de um casal de velhinhos, aparando-se um ao outro. Este dado foi irrelevante. Mais tarde numa outra “visita” médica obtém um pouco de algodão sob a unha a desprender-se e um despachado «Volte amanhã! Essa unha é para arrancar!». Tout court!
Quanto aos encaminhamentos médicos necessários? Nenhuns. E consulta? Nenhuma.
Finalmente José percebeu que ninguém o ajudaria, o trataria no centro médico. E rendeu-se, abatido e perplexo com o facto de tal acontecer. Importa lembrar que ele sempre achou que o tratariam, mesmo que demorasse um pouquinho. Os senhores doutores lá sabiam, mas vê-lo-iam … (Pois não viram José!)
Passaram-se quatro meses de suplício, apesar de tudo medicado porque se recorreu à clínica privada. E muito se correu. E muito sofreu José pois a gangrena instalava-se a olhos vistos, a par das dores lancinantes. E muito choro correu naquela casa. José não comia já, perante o desespero da família, vomitava comida e medicamentos. Para além disto havia que fazer o penso. Nova corrida ao centro e surgiu uma enfermeira que sabia o que eram pés diabéticos. Fez mover os médicos. Encaminharam José para uma consulta de podologia, sendo visto cerca de um mês depois. Trouxe uma pomada, uns conselhos para tratar dos ferimentos e nada mais, a não ser consulta para daí a um outro mês.
E de consulta em consulta (clínica privada – geral, especialista em cirurgia vascular), de exame em exame andou José arrastando-se, até que desembocou num hospital de referência da área de Lisboa. Por lá andou em três consultas, com a indicação de que faria uma arterioscopia no dia X pois as veias não estavam assim tão más.
Em José cresceu a esperança e no seio da família também. Efémero momento! Chegado o dia, e após observação pelos cirurgiões, é a família informada de que não poderia fazer jamais tal intervenção devido ao elevado nível da sua creatinina. O que fazer? Resposta sábia do médico: «consultar um nefrologista para impedir a paragem renal e a diálise». Nova corrida em busca de um médico com reputação nesta área.
Mais tarde, saber-se-á, através de cirurgiões de dois hospitais, que a creatinina não era o problema. A microcirculação estava muito comprometida. Não havia cirurgia que salvasse as artérias de José. Ninguém lhe tiraria as dores a não ser pela amputação de membros. Isto saber-se-á muito tempo depois, já José estava internado no hospital da sua área de residência, como deveria ter sido logo feito. E por pura sorte, meus senhores!
Eu conto: acorreram José e a mulher num dia de desespero aos serviços de enfermagem do seu centro de saúde que os encaminhou para a urgência de um outro centro onde foi observado por uma médica que lhe receitou um cicatrizante ( para dedo em gangrena!!!? – estranho, mas confesso a minha ignorância …. O certo é que poucos dias depois o cirurgião vascular retirou-o). Sofreu José, sem qualquer anestésico, dores dilacerantes ao fazer o penso. De lá saiu, não para o hospital, mas para casa, com a indicação de que deveria mudar o dito penso na segunda-feira no seu centro de saúde. Assim fez. Arrastando-se lá chegou e, desta feita, a enfermeira, perante o estado do dedo, recusou-se a tratá-lo pois ultrapassava a sua esfera de competência e tratou de o enviar para o hospital. ( Houve alguém a pensar e a ser humano neste processo! Será? Até custa a crer!).
Mas não entrem, caros amigos, em euforia e nalgum sossego. É que José teve de lá chegar por meios próprios. Parece que as ambulâncias não são chamadas para “palha tão pequena”. E assim José – depois de esperar das 11 h da manhã à 01 hora do dia seguinte – foi internado e finalmente tratado com cuidado. Mas como afirmou logo um dos cirurgiões, e depois outro, e outro: «Já chegou muito tarde». E todos avançavam com a sacro-santa pergunta: «Sr. José diga lá não tem dores nas pernas? E não as tinha já antes? A primeira vez…? Aí há uns dez anos, ou menos?» - «Há dez anos senhor doutor!» balbuciou em resposta, enquanto o Doppler do momento anunciava o destino trágico de José, meu pai.
«- Pois é chegam-nos neste estado … quando já pouco há a fazer …!», comentou o cirurgião.
Eu ouvi este veredicto e soube que o meu pai perdera a sua vida, a única que existe, a que nós temos enquanto somos íntegros. Soube também que a via-crucis pela qual passa actualmente foi causada pela negligência de quem, com responsabilidades médicas, não coloca todos os cenários clínicos inerentes a um doente diabético, com agravantes, e dá o mesmo a todos pois desconhece o significado da palavra prevenção! E segundo a observação dos últimos cirurgiões vasculares (em meio hospitalar), este problema de insuficiência na circulação já era antigo e deveria ter sido tratado há muito!!

José, meu pai, grita com dores, chora como um bebé, está ligado a um aparelho a partir da coluna para ter menos dores. Mas elas não passam, apesar do empenho destes médicos que só encontrámos em «dead line». José, meu pai, morre lentamente a cada grito lancinante, a cada penso, a cada cateter, a cada droga nova que toma e não faz efeito…! E nós morremos com ele todos os dias.
É isto saúde familiar? É isto saber técnico-científico, humanidade, reconhecimento do outro enquanto pessoa? Não! Isto acontece a quem não tem dinheiro para pagar a saúde, a quem não pode recorrer a especialidades várias no domínio da medicina privada, a quem acredita no seu médico de família, esperando dele o melhor encaminhamento tanto para essas consultas, como para uma ajustada medicação. E, por fim, isto acontece porque o médico nem sequer disse, nesses tais tantos anos do passado, que exames e a que consultas o meu pai deveria fazer/ir, mesmo que o seu crédito (o médico) para requisições de exames/encaminhamentos para especialidade não o permitisse, por razões economicistas que este país segue na saúde. Esta razão eu entenderia, ou, por outra, aceitaria melhor. O meu pai tratar-se-ia em clínica privada, mas tratava-se e o alerta tinha sido dado. Seria o mínimo de ética, não? O que eu não aceito é que um profissional de saúde saiba o que deve fazer e não o faça, preferindo omitir, fingir que o problema não existe. E não quero sequer colocar a hipótese de que um clínico geral não saiba o que envolve um doente diabético em termos de sinais a detectar e a ler, em termos de especialidades pelas quais deve ser seguido.
Sei de quem é a culpa. Mas como sempre morrerá virgem e arquivada. Afinal que importa um José marido, pai, avô de ….? É apenas um velhote! Há muitos, não é?
Um grito impotente de revolta ecoa continuadamente dentro de mim, sublinhada por «e nada podes fazer…» a que se sobrepõe: «Pena, chegou aqui tarde demais …»


PS: recado a meu pai, José …

Boa-noite pai. Estamos aqui. Que os céus (e as drogas) sejam balsâmicos e te deixem dormir sossegado. Ao menos esta noite. Ao menos a outra. Sabes na consulta da dor, a médica põe-te outro cateter, mais medicamento… já falta pouco… tá?


( ele criança, eu mãe, ao lado da minha mãe soluçante mas forte, muito forte)



Um beijo da tua filha,

F.
10/12/05

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publicado por Carlos Alberto Correia às 13:16


2 comentários

De Anónimo a 11.12.2005 às 20:02

Emociono-me... Felicito-te, uma vez mais, pelo teu dom de escrita. Só lamento que, agora, o mote seja uma situação dramática que nos toca tão de perto.Comungo da tua enorme dor e revolta por vivermos neste país que tem a capacidade
"extraordinária" de, em quatro meses apenas, transformar um homem válido num ser que impressiona por tamanha fragilidade. Impõe-se "agradecer" aos responsáveis por esta política de saúde que tal permite... que nos obriga a um exercício de memória se quisermos recordar o nosso pai na força dos seus 78 anos que, diga-se, não aparentava ter.
Manocas, a ti sim, agradeço encarecidamente(sem ironias) por estares sempre presente, ao lado dos nossos pais, qual pilar de sustentação! Adoro-te como bem sabes.
Pai, mãe, amo-vos muito. Admiro a vossa força nesta luta contra ventos e marés, a vossa recusa em desistir, apesar das demasiadas dores do corpo e da alma... É só mais um bocadinho... Vamos pedir esta prenda para o nosso sapatinho deste Natal!
Carlita

De dam a 12.12.2005 às 11:35

Um texto muito comovente...e um lamento sério...quem sabe a soma de lamentos não consegue ecoar algum dia junto de quem manda...

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