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O Ponto dos Médicos

Quarta-feira, 03.01.07
A gente ouve, vê e pasma!

O Ministério da Saúde, no uso das suas prerrogativas legais e administrativas, decide instaurar um processo de fiscalização de pontualidade e assiduidade através de meios electrónicos em consonância, penso eu, com as regras do actualíssimo choque tecnológico.

Os médicos, e restante pessoal em serviço nos hospitais, todos os dias, à saída e à entrada do trabalho vão ter de pôr o dedinho no identificador, o qual, como frio polícia indicará à puridade a que horas o funcionário entrou e saiu do seu local de trabalho.

Esta prática, com defensores e atacantes, é, de variados modos, aplicada em inúmeras empresas. Serve como simples meio de controlo de presenças e pontualidade e nada diz sobre a quantidade e qualidade do trabalho prestado.

Que eu saiba, no caso vertente, também nada mais se pretende e poderá obter com ela, sendo simplesmente a mudança de controlo por ancestral livro de ponto, por meio mais jovem, mais sofisticado e possivelmente mais actuante.

Daí qual o motivo para esta vaga de indignação, protesto, ameaças subjacentes e demissões reais de chefes de serviço clínico no Hospital onde a prática entrou em experiência? Têm razão os médicos, está certo o Governo, é justo o bramido vingador da população?

Como escriba, no momento, distanciado dos interesses em jogo, em olímpica posição de autor omnisciente, olho do meu alto pedestal para a agitação do formigueiro e decido-me pela análise clínica dos actores sociais em causa.

Deixemos portanto os prolegómenos e vamos à substância.

Andou bem o Governo ao ordenar esta forma de controlo? Quanto à legitimidade do acto, já afirmámos acima, nada a declarar. Está nas suas competências organizar os serviços e o seu controlo. Quanto ao método, também pouco há para dizer. Adquiriu meios, procede a uma implementação experimental num local para tal escolhido e, alegadamente, procura medir os efeitos desta remodelação para posterior alargamento sustentado e corrigido. Admirável!

Os médicos espumeceram. Que não! Inominável afronta! Qual dedo nem meio dedo! Se entrarem à hora certa terão inevitavelmente que sair à hora certa podendo, ho! impensável, deixar uma cirurgia a meio, adiar a vida do paciente, deixá-lo pendurado no limbo com meio órgão restaurado, guardando para amanhã o restante, quando a nova marcação de ponto obrigar a equipa a entrar de novo ao serviço. O Bastonário da Ordem fez-se eco mediático destas posições!

Os doentes e os possíveis doentes - quer dizer, uma boa parte da população que, com a minha anunciada e majestosa exclusão, somos - obrigada a horários, a relógios de ponto, por vezes a ritmos de trabalho diários muito intensos e vigiados, a contragosto habituados a angustiantes e desesperadas esperas em Centros de Saúde e Hospitais, sentiu uma ânsia vingadora e, de alma e coração, desagravando anos de sentida humilhação pela arrogância e frieza de algum pessoal dos serviços médicos, veio apoiar com vigor a fiscalização daqueles malandros. Em nome da igualdade de direitos e deveres entre cidadãos, anote-se!

Que tem então o distante observador para acrescentar a este tão sumário como equilibrado e douto levantamento?

Nada de muito especial. Apenas algumas observações de mero senso comum.

Aconselhado pela sabedoria popular – que tantas vezes o não é – cito o velhíssimo ditado “casa onde não há pão todos ralham e nenhum tem razão”.

Senão vejamos!

É verdade que nos Serviços de Saúde, como em outros serviços e nas empresas privadas, há prevaricadores que deixam nódoas no tecido a que pertencem e que por abusivas generalizações são estendidas a toda a gente. É um erro, mas muito comum. Será no entanto a questão da marcação de ponto o maior ou mais urgente problema dos nossos serviços de saúde. Como é claro e evidente, não é! Bem mais grave são a falta de meios humanos, técnicos e financeiros que estrangulam e tornam, por vezes, desumanos e deficientes o tratamento que as pessoas conseguem nos hospitais. É bem mais fácil introduzir relógios de ponto que reformular o sistema hospitalar. É uma medida imediata, muito visível e que terá, certamente, o apoio da população que olha os médicos com a admiração de quem do seu saber precisa e a ira do seu sentimento de incapacidade perante o que, com ou sem razão, considera a prepotência e desprezo dos médicos frente aos doentes e ao seu sofrimento. Portanto, jogada política mais que tentativa de resolução séria de problemas.

Por sua vez, os médicos morderam o anzol. Percebemos! Não são políticos. São técnicos de saúde. Alguém quis demonstrar que todos os cidadãos são iguais, sem ter de fazer um profundo trabalho de estruturação de direitos. Neste momento os médicos, como em outros os juízes e os professores, vieram mesmo a calhar. O desemprego campeia? Os orçamentos das instituições são curtos? A economia não arranca? Então lá vai distracção para a populaça olvidar suas agruras. Pão e circo, entenderam? Os problemas continuam ou mesmo aumentam, pouco ou nada se resolve mas, enquanto o espectáculo dura há alguém que folga. Portanto a classe médica não se deveria prestar a esta manipulação. É instruída, tem poder real, melhor faria em se repensar nas suas práticas e relacionamentos, deixar de parte a cegueira corporativa e disciplinar quantos, por seus comportamentos, permitem a adesão entusiástica de tanta gente as estas não medidas.

E nós? Agora também me incluo.

Pagamos impostos, sofremos esperas em tudo o que é serviço público, somos desprezados pelas instituições que mantemos com o nosso dinheiro e trabalho, aguentamos tudo isto com ressentimentos mudos e em vez de reclamarmos, exigirmos os nossos direitos com energia e civilidade, contentamo-nos com a vingança possível quando, demagogicamente, são tomadas medidas, apenas paliativas, contra as corporações que, é verdade, muitas vezes nos subjugam.

Acordemos pois, para o que vale a pena e é real. Deixemos o ponto dos médicos, as férias dos juízes e as faltas dos professores e passemos a exigir dos nossos eleitos um sistema de saúde compatível com o grau de desenvolvimento das sociedades europeias, melhor e mais rápida justiça e uma educação atenta às idiossincrasias locais, ao interesse nacional e ao desenvolvimento contínuo dos conhecimentos e das pessoas.

Como é que isto pode ser conseguido? Bem, isso já é outra história. Mas comecemos por não nos deixarmos distrair com o ponto dos médicos…

Publicado in “Rostos on line” – http://rostos.pt/

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publicado por Carlos Alberto Correia às 00:33


1 comentário

De Henrique a 16.01.2007 às 11:16

Carlos
compreenderás que "isso não é outra história". Isso é o cerne da história. Sem isso, falar de um "novo sistema de saúde" como "dizer que "é preciso menos estado e melhor estado" são apenas frases que soam bem e não querem dizer nada.

Sob o ponto de vista do número de médicos, o nosso sistema de saúde não é carente. E não tenho a menor dúvida que os médicos têm poder a mais no sistema e abusam dele. É evidente que as coisas não funcionam mal porque o hospital Pedro Hispano não tem ou não tinha um controlo de horários para os médicos, mas não entendo porque é que os médicos não têm que cumprir um horário como toda a gente. E sabes tão bem como eu que muitos deles estão noutro local em vez de estarem ali.

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