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As revoltas do Sr. Presidente

Sábado, 13.12.08







Se em alguma coisa este povo está de acordo é na opinião generalizada de que temos, na pessoa do Presidente da República, um cidadão íntegro e acima de qualquer suspeita. A partir daqui quebra-se a unanimidade e é cada um por si.

Apesar disto, por mim, nunca me escuso a mostrar o meu desafecto pelo Dr. Cavaco Silva, em quem nunca votei e, jamais se devendo dizer desta água não beberei, penso nunca votar. É que apesar de a sua honestidade não estar em causa, não consigo esquecer-me de que foi “por acaso” que foi fazer a rodagem do seu carro até à Figueira da Foz, onde “por acaso” decorria o Congresso do PSD e logo, “por acaso” foi eleito para a chefia do partido. Para mim, que creio pouco em acasos e questões de sorte e azar, foram acasos demais e puseram-me de sobreaviso em relação ao modo político de ser do personagem.

Vivi depois a sua maioria, o desenfreado fontismo viário e os tiques autoritários. O homem foi como uma vacina. Se eu já torcia o nariz a maiorias absolutas, ganhei a certeza de que elas são muito perigosas para uma vivência democrática. A essência da democracia – além da liberdade e responsabilidade – assenta na negociação como forma de atingir metas, sem esmagar as várias minorias que não se revêem no projecto maioritário. Para o então primeiro-ministro as minorias eram o verdadeiro entrave à sua visão grandiosa da forma de boa governança. Foram-no efectivamente no buzinão da Ponte 25 de Abril, se bem que já um pouco para o tarde.

 Ao olhar para o Presidente, na genérica rigidez corporal que o domina, na escusa constante a comentar os mais graves factos que assolam o país, na visão conservadora que envolve o secretismo dos seus contactos com o governo e outros poderes da República, percorre-me um arrepio e, mesmo sem querer, não posso deixar de recordar o perigo de, sem uma constante vigilância, decairmos em direcção ao “lago do breu” que um certo “dinossauro excelentíssimo” legou, por demasiado tempo, a Portugal. Também ele dizia querer o bem do povo, era honestíssimo e vivia numa frugalidade exemplar.

No entanto, este homem, que parece pairar acima do correr dos dias da gente vulgar que somos, é, embora por poucas vezes, arrebatado por revoltas intensíssimas. Recordo o caso dos Açores e, ultimamente a sua intempestiva declaração sobre o problema do BNP- Dias Loureiro. Estas duas situações contrastam, de forma notória, com o fugaz comprometimento público quanto a factos e situações cruciais para a boa saúde da sociedade e com a doçura e submissão com que aceitou a destituição da sua dignidade, enquanto Presidente de todos os portugueses, quando, na Madeira, foi o Sr. Silva, do Alberto João, e aceitou não ser recebido na Assembleia Regional. Enfim, critérios!

No entanto, mais uma vez, a sua revolta pareceu-me extemporânea e algo exagerada, mais parecendo defesa antecipada que efectiva resposta a alguma putativa acusação que, quanto sei, ninguém fizera. Volto a frisar: pode não se gostar do homem, mas não se desconfia da sua honestidade material. Então para quê o alarido?

Simples! Ele sabe muito bem que, no decorrer dos seus mandatos foram catapultados para enriquecimento rápido alguns serventuários de estado. Como o fizeram não o sabemos de todo. Há névoas que cobrem muitas utilizações de verbas entradas no país. Ouvimos falar de alguns escândalos. Um por outro deu entrada na Justiça, cedo se perdendo o rasto dos casos e quase nunca se sabendo de conclusões ou sancionamento de culpados. Sabe também do excessivo conluio entre o poder político e o económico-financeiro, permissivo a alternâncias suspicazes e, muito humanamente, não se quer ver metido nesses negócios em que não entra e, creio bem, não aceita, embora não lhe tenha conseguido meter travão. Talvez isso o incomode e lhe faça “saltar a tampa”. Só que não tira as necessárias consequências e em vez de mover céus e terra para se livrar de tão ruins companhias – e nos livrar a nós – enceta a fuga para a frente, toma o seu banho lustral, mostra o enfado que tais personagens lhe causam, mas não age com a força suficiente para se libertar de tais incómodos. Por tanto eles persistem ,multiplicam-se, alastrando como cancro, condenado esta sociedade à incessante menoridade a que nos querem obrigar. É isto que o presidente sabe, é isto que se recusa a ver.

Na verdade, por mais tabus que se estabeleçam, a realidade cai sempre, sem misericórdia, sobre as nossas cabeças.



Publicado em “Setúbal na Rede” http://www.setubalnarede.pt/

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publicado por Carlos Alberto Correia às 02:49


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