Saltar para: Post [1], Comentários [2], Pesquisa e Arquivos [3]



In illo tempore, Saramago

Sexta-feira, 23.10.09




Nota-se, por vezes, que na voz restante da Igreja, reside uma saudade imensa da força que teve o poder excomungante que lhe permitia calar todas as vozes insubmissas ao seu dizer “paternal”. Mais ainda, fica realmente perturbada quando o que é dito, vem de alguém cujo brado possa ser escutada e a confronte, racionalmente, com a irracionalidade do produto que coloca no mercado. Um mercado, diga-se, onde a concorrência é cada vez maior e o peso burocrático da sua máquina a impede de agir com a agilidade necessária à conquista das almas transviadas por outras seduções religiosas ou profanas. Defende-se, portanto, com a outra face da burocracia: o peso da Instituição. Entende, por isso, que quem lhe não veste o dogma, deve-se calar. O contrário será, como afirmaram várias fontes da Igreja perante este caso, ser pouco sério e ignorante.

O Vaticano, que desde o Evangelho Segundo Jesus Cristo, traz um saramago atravessado na garganta, agravado pelas declarações feitas em Roma, há poucos dias, nas quais o escritor apodava de cínico o Cardeal Ratzinger - actual Papa Bento XVI e anterior Prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé - veio, prontamente afirmar que não daria nenhuma importância ao caso conferindo-lhe, de imediato, toda a importância que pretenderia negar-lhe.

As afirmações desempoeiradas de Saramago, sobre a Bíblia, no lançamento do seu novo livro Caim, fizeram soltar na praça a ira persecutória do porta-voz da Conferência episcopal, Manuel Morujão, a arrogância de um ou outro teólogo de maior ou menor nomeada, bem como uma revoada de gente bem pensante cujo confessado desejo seria o de eliminar a fonte de tal perturbação.

Tentando discorrer com alguma serenidade no meio de tanta comoção apraz-me perguntar o que é a Bíblia? Escrito fundamental para a fundação da nossa matriz cultural, não duvido. Palavra de Deus oferecida aos mortais para seu esclarecimento e guia de vida? Vão falar com outros meninos!

As narrativas bíblicas são recolhas de mitos existentes em tradições orais e escritas de várias religiões e regiões do médio oriente, escolhidas e modificadas, de acordo com interesses e actualizações vários, ao longo dos tempos. É um edifício simbólico, não um manual de conhecimentos como os fundamentalistas querem fazer crer. Se não devemos julgar os actos descritos com os olhos morais deste tempo, também não podemos, sem prejuízo de soltar todas as crendices derrotadas pelo conhecimento, aceitar acriticamente o relato bíblico. Deverá ser encarado como um reconto de um dado momento da humanidade, com as suas grandezas e misérias, ajustado às necessidades de unificar um povo – os Hebreus – desunidos por nomadizações e guerras contínuas. A dureza e crueldade existentes no Deus bíblico é a imagem das forças necessárias para a unificação de Israel e para a derrota dos seus inimigos locais. Fazer disto o padrão moral para a nossa época é, no mínimo, risível. Mesmo há dois mil anos, o padrão já estava de tal modo ultrapassado que Cristo teve de subverter o paradigma bíblico para provocar uma mudança cultural. Transformou o terrível deus da ira em deus do amor, não conseguindo, no entanto, ultrapassar todas as contradições que essa revisão provocou. O resultado foi a ortodoxia religiosa usar o seu poder para exigir e causar a sua morte.

A Igreja, como detentora da”verdade única”, tem uma génese autocrática de que não se consegue desligar. Democracia é um conceito estranho para um corpo de sacerdotes profissionais para quem o máximo bem está no fortalecimento da sua corporação e na manutenção da diferenciação hierárquica. Que o façam em nome de um deus ou de uma qualquer outra força é irrelevante. Por isso vamos encontrar as religiões dominante sempre do lado dos poderosos e utilizadas como forças de subjugação terrena sob promessas de um bem maior a ser outorgado num qualquer paraíso posterior. São estas as ocorrências que levam a um confronto rude sempre que o progresso tenta dar um passo que seja. Por isso as igrejas são, por norma, científica e socialmente reaccionárias. O terreno que a ciência ganha perde-o sempre a crença obscurantista, para grande incomodidade dos que com esta aproveitam.

Que os próceres da Igreja tenham vindo bramar sem rebuços contra as imprecações anti-blíblicas de um ateu confessado admira-me muito quando, por estes dias, várias igrejas católicas, na América, declaram falência, num movimento sem precedentes e desgostante, com o fito de evitar pagar as indemnizações devidas, por condenação em tribunal dos seus agentes, por actos de pedofilia praticados no decorrer e com a força do seu múnus apostólico.

Senhores Cardeais, senhores Bispos, senhores Padres, para onde se escapuliu, nestes casos, a vossa indignada voz? Por favor, deixem de pretender dar lições de moral ao mundo e tratem de limpar o que de podre vai no vosso reino. Lembrai-vos que o Mestre, que dizeis seguir, afirmava ser mais fácil reparar no argueiro que entrou no olho do vizinho que aperceberem-se da trave que vos habita o olhar.


Publicado in “Rostos on line” – http://rostos.pt

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado por Carlos Alberto Correia às 01:18


2 comentários

De Domingos a 23.10.2009 às 19:45

Como eu gostava de poder ler este teu texto, em todos os jornais deste país. E ouvi-lo em todsa as TVs.
Domingos Pimenta

De maria joao soares a 08.11.2009 às 18:22

SE JESUS CRISTO TIVESSE SABIDO O USO QUE IAM DAR AS SUAS PALAVRAS, NUNCA TINHA ABERTO A BOCA!!!
IGREIJAS.... INSTITUIÇOES CADUCAS ... COM ALGUNS HOMENS BONS A TRABALHAR PARA ELAS...

Comentar post








comentários recentes