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Momentos para inventar o amor

Sexta-feira, 15.05.20

 

 

 

 

 

 

 

 

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N - Teresa tudo bem

 

Vais ter de aguardar Cursino. Sou eu, Valéria, a tomar agora a palavra. Sei muito bem que a história é tua, tenho nela um lugar secundário, mas vais ter de ouvir-me. Percebo a insegurança que te causo. Tens dificuldade em perceber-me os humores, perturba-te o meu desejo imperioso, o esmorecimento na sequência. Vejo como lidas mal com isto, como te perguntas se a falha é tua. Podes estar descansado, o problema é, na origem, essencialmente meu. Claro, sofres com ele, não tens culpa. Reconheço o teu empenho. Estou-te grata por tentares acompanhar-me. Mas, atenta, pouco do que faças poderá ajudar-me. Questionas, sem nada me dizeres, as súbitas mudanças de disposição. Como é possível passar da imensa ternura ao mais fechado mutismo e agressividade. Também não entendes muito bem as horas gastas no psiquiatra quando, muitas vezes o disseste, não há melhoras visíveis. Tu não podes saber das áridas planícies por onde o meu pensamento voga. Indagaste, variadas vezes, a razão do divórcio dos meus pais. Porque nem eu, nem a minha mãe, mantemos a mínima relação com ele. Chegaste mesmo a presumir, dado o meu silêncio, já ter morrido. Morreu, sim, para a convivência, para o amor, para o respeito. Recordá-lo é um tormento insuportável. Consigo esquecê-lo na maior parte dos dias. Noutras ocasiões não me é possível afastá-lo da memória. Nesses momentos dói-me como lasca enterrada na carne.

Tudo começou por volta dos cinco anos. Presumo que todas as crianças dessa idade vejam no progenitor um ser tão poderoso que, se a ideia de deus pudesse ser-nos clara, teria as feições, os modos do pai. O que ele dizia era sagrado. Sabia tudo, representava toda a segurança contra os terrores noturnos, os monstros que habitavam os escuros dos quartos, as cortinas esvoaçantes. Por isso não estranhei quando, depois da casa adormecida, me acordava, sentava ao colo, acariciava. Não percebia o que se passava. Notava apenas serem essas carícias dissemelhantes de todas as diurnas, prodigalizadas na frente de toda a gente. Mesmo quando me conduziu a mão para locais interditos, para além de algo mais semelhante a estranheza que mal-estar, deixei-me conduzir docilmente. As visitas noturnas intensificaram-se, aumentando-me a perturbação. Não entendia o que se passava, nem sequer o repetido aviso, não digas nada à mãe. Quando se tornou fisicamente doloroso, chorei. Dessa vez o meu pai assustou-se, saiu apressado do quarto, mandando-me calar. Na noite seguinte voltou mais insistente, tapando-me a boca, para não fazer barulho. A incomodidade, a dor, levaram-me a contar à minha mãe. Deu-me uma chapada, mandou-me calar. Tão pequena, com uma mente tão porca. A quem sais assim, rapariga? Senti-me completamente abandonada. Roguei a meu pai que parasse. Possuído de um frenesi maléfico, em vez disso, aprofundava os contactos. Só após muitas queixas quis a minha mãe reconhecer que algo estava errado. Não sei se foram as recusas a alimentar-me, os terrores e gritos noturnos quando, mesmo sem a presença do meu pai, sonhava vê-lo entrar no quarto, se as fugas na sua chegada, ou se procurava acercar-se de mim, a alertarem a mãe. Perante as continuadas queixas decidiu levar-me ao médico. Foi perentório! Violação continuada. Desde esse dia nunca mais vi o meu pai. Muito mais tarde, já adulta, descobri as consequências desta maldição. Normal no desejo de entrega ao amado, tudo corria bem até ao momento da penetração. Aí, uma dor antiga, um frio marcante, substituía todo o desejo. Afastava-o de mim com nojo e brusquidão. Na primeira tentativa de relação física terminava, quase sempre, o relacionamento. Ouvi de tudo. Desde a compreensão piedosa à mais soez invetiva. Nunca tive à vontade para falar nestas coisas com a minha mãe. Sexo tornara-se entre nós terreno maldito. Parecia-me por vezes que, inconscientemente, a mãe me culpava pela separação. Não entendia, mas coibia-me de trocar qualquer palavra sobre o assunto. Ao fim de muitos fracassos, com vergonha inaudita, procurei terapia. Tenho conseguido alguns resultados. Poucos! Aprendi a fingir orgasmos. Na verdade, só na masturbação encontro alguma réstia de prazer. Agora sabes o meu estado, espero que percebas as minhas atitudes.

 

Não ficarei perplexo. Apenas meditativo. Recuarei à infância. Ao dia em que pela primeira vez vi o meu tio paterno mais novo levar a minha irmã para a dispensa. Estranharei a porta trancada. Pela lucerna do telhado verei despi-la, acariciá-la. Deverei ter feito algum ruído. Quando chegar, acompanhado da minha mãe, não estará lá ninguém. Pôr-me-ão de castigo por ser mentiroso, intriguista. Furioso decidirei tratar do caso. Encher-me-ei de paciência. Esperarei. Aproveitando a saída da minha mãe para compras, o meu tio tornou-se mais ousado. Desconhecedor da minha presença, escondido desde que o vira assomar à porta da rua, levou a minha irmã para o sofá da sala. Ao iniciar as manobras sairei do lugar onde me esconderei. Munido da pesada bengala do falecido avô, descarregarei a raiva, várias vezes, sobre as costas, finalmente na cabeça. Ao chegar, a minha mãe verá o rasto de sangue do irmão. Não acreditará, mais uma vez, naquilo que contarei. A minha irmã negará ter acontecido qualquer coisa com o tio. Levarei uma sova, ficarei sem jantar, no quarto. Somente o meu pai começará a desconfiar. Virá, pouco depois, a apanhá-los juntos. Perderá a cabeça, baterá desesperadamente em ambos. Serão hospitalizados. Um médico amigo atestará, por sua honra, serem os ferimentos resultantes de acidente de viação. O meu tio será banido, a minha irmã confiada, para correção, aos cuidados de instituição de confiança e eu, olhado como responsável pela descoberta, arrastando a culpa daquele escândalo familiar, que todos teriam preferido não deixar emergir, tornar-me-ei o réprobo culpado de situações degradantes, incómodas. O ordálio terminará aos dezoito anos. Deixarei a casa familiar. Jamais regressarei.

 

- Percebo! As mágoas de Valéria e de Cursino vão desencadear a próxima história.

- Excelente dedução, Oblata. Vai atiçar memórias, ajeitá-las, atribuir culpas, justificações. Alterará os papéis, os atores, fundirá atos e pessoas, construirá espelhos, máscaras. Nada muito diferente daquilo que fazemos.

- Tens razão. Há muito tempo atrás fiz uma experiência interessante. Escrevi uma história tomando por personagens uns quantos amigos. Claro! Não a escrevi literalmente. Mudei situações, atribuí ações a quem as não tinha praticado, criei figuras sincréticas, mas deixei sempre percetível o essencial dos comportamentos. A seguir dei o texto a ler, em separado, a cada um deles.

- Qual foi o resultado?

- Perturbante, Kismet.

- De que modo?

- Quase todos reconheceram, apesar dos disfarces, quem eram as personagens, a quem pertenciam as atitudes…

- Tal não me parece muito perturbante…

- Deixa-me terminar.

- Fazes favor…

- Na verdade, apesar da identificação certeira dos outros, nenhum se reconheceu a si próprio.

- Seria de facto espantoso não se desse o caso de a ideia que fazemos de nós, não se compadecer com os julgamentos alheios, da forma como nos apercebem, como nos olham e classificam.

- Tens razão, é como ouvir, pela primeira vez, a nossa voz gravada. O som que nos chega é exterior. Falta-lhe a ressonância interna, a íntima afetividade. De qualquer modo reconhecerás que, por vezes, remexemos demasiado profundamente no lixo escondido.

- Ora, se assim não fosse, qual seria o papel de psicólogos e padres?

- Deixa-me adivinhar. Vais por o Cursino a debitar uma história de padres?

- Não exatamente, ora escuta:

 

Apenas procurei ser feliz. Era tal desejo pecado? E porque o seria? Confesso! Noite após noite tentei perscrutar o sentido da minha existência, a razão dos acontecimentos. O esforço foi feito. O resultado jamais satisfez. Onde esperava encontrar resposta surgia o véu negro da negação. Nunca a explicação, a luz, o vislumbre esclarecedor.

Quase sem dormir apronto-me para mais uma manhã cinzenta, embora o sol possa ou não aparecer. São estes os meus dias. Peregrinação à volta dos mesmos sítios. Sofrimento, nem doce nem amargo, desmerecendo a revolta. Só persistir. Só manter. Apenas continuar.

Tenho vinte e sete anos, poderia ser freira. Mas não o sou. Apenas vivo como tal. E porquê? Sei-o e não o sei. Espanto-me à volta destas insignificâncias que me significam inteiramente. Perco-me no imaginado discurso de tudo justificar e não produzo palavras. Só recalcamentos. Efémeros desejos a medo perpassam por mim.

Oiço o ruído catarroso dos meus pais. É tempo de acorrer-lhe às necessidades. Para ali estão, incapazes, doloridos, dependentes, exigindo todo o momento de atenção, todo o cuidado e, se ainda for possível, o que restar, senão de amor, pelo menos de reconhecimento. Ocorrem-me, por vezes memórias de quando eram novos, poderosos. Do tempo de espera da carícia ou da reprimenda, das palavras absolutas ordenadoras do universo. Quando é que tudo se modificou? Outra coisa que não sei. Não me apercebi da mudança. Um dia o mundo transformou-se, estreitou, perdeu luz, sabor, todas as coisas que me foram novidade, relevância, feneceram. De velhas quebraram-se em irrecuperáveis cacos.

Arranja força, sai da cama. Abre mais um dia de encerramento contínuo. Conta as gotas, abre sucos, tira temperaturas, corre ao mercado, compra, esfrega, lava, cozinha e sobretudo, não te esqueças, sorri, sorri muito, sorri sempre, sorri...

E a raiva? A devastação que ela me causa será lícita? Seja-o ou não que modifica? A vida é tão só o só isto? Que pouco, que miserável pouco me contenta. Vou passando os minutos no refluxo do tédio. Interminável a lassidão instala-se universal, turva. Evitamento torpe do encarável da vida. Tudo se queda no momento eterno da suspensão do tempo.

 

 

Submisso acolho a manhã. Abro os olhos para os raios solares entrando no quarto impudicos, inconsequentes. Dormir, queria continuar a dormir enquanto me apetecesse, sem a obrigação de acordar para cumprir o ritual de todos os dias. No canto do quarto, soturna, pende a batina da sujeição. Acordar todos os dias. Vesti-la. Entrar na igreja, inóspita, com meia dúzia de velhas a acorrerem à primeira missa do dia. Sofrer a babugem da sua solidão, a fé desesperada por falta de outras ocupações ou esperanças. Apodera-se de mim o nojo, uma revolta antecipada. Conheço-lhes demasiado os rostos, as expressões falsamente humildes, os pequenos ódios acumulados, disfarçados na dócil bondade decretada pela lei da Igreja, espargidos como vómito de mentira e hipocrisia. Seriam capazes de morder as amigas que beijam, se isso lhes trouxesse um pouco mais de reconhecimento, mais um pouco da importância ou visibilidade desesperadamente procuradas. Seres mordentes, nada esperam senão a morte anunciada, vão, internamente felizes, acompanhando os passares daqueles que ao inevitável recontro se anteciparam. Morro lentamente na celebração de mistérios em que já não creio.

 

 

Terei na frente duas personagens, ainda esboços de uma ideia frágil. O que irei fazer delas, ou o que elas me irão impor é conhecimento que ainda se encontra por descobrir. Iniciarei o périplo da vida que lhes vou outorgar definindo-os como Teresa e Padre Bernardo. Duas vidas perdidas que nem sequer buscam encontrar-se. Apenas pretenderão vencer o dia-a-dia imposto ou permitido. Existem como se a vida corresse por detrás de vidros foscos, só lhes tolerando a fuligem dos sentidos. A sensação de perda, ou de não ter alcançado algo que não sabem o que seja, perturbar-lhes-á a vivência. Noutros tempos, imbuído de certezas ideológicas, remataria com o conceito de alienação. Ficaria tranquilo. Tudo estaria explicado. O problema é o de tal palavras apenas remeter para outras palavras. O sentido continuará diluído, um arzinho de vento a perpassar nos dedos. O mais será querer perceber, ou ouvir, ou dizer. Tentar, com a boca que não há, formar palavras inexistentes. Neste impiedoso modo arrojarei ao mundo estas figuras. Afirmarei: a sua vida será aquilo que eu quiser! Mas esta não será toda a verdade. Surgirá uma coerência interna à narrativa a obrigar-me a manter alguma coesão, a impor-se ao caminho inicialmente previsto. No momento primordial saberei o que lhes vai acontecer além do pensado. Tudo farei para levar a bom porto os meus desígnios. Haverá, porém, emboscadas nas dobras das palavras procuradas para o cumprimento do destino traçado. Descobrirei fins quase impercetíveis. Obrigar-me-ei a ceder a desejos latentes, embutidos nos discursos encetados. Pergunto-me se as personagens dispõem de algum livre arbítrio. Ou, pelo contrário, se o seu destino já estará inscrito no livro das coisas inamovíveis? Não o saberei! Na vaidade de autor decido que tudo acontecerá tal como eu quero. Disso, contudo, só terei a certeza quando chegar ao fim e medir o desvio em relação aos objetivos pretendidos.

 

- Onde é que ouvi este discurso, Kismet?

- Deixa o sarcasmo de lado. Cursino escreve o que eu determino. É natural a expressão de ideias análogas.

- Queres então faze-lo à tua imagem e semelhança?

- Nem penses nisso. Ele, Oblata, será o instrumento de que me sirvo para criar realidades alternativas. A partir dele posso construir todas as situações passíveis de serem vividas. Mesmo o impensável, desde que conserve um mínimo de verosimilhança.

- Verosimilhança?

- Sim, a aceitável verdade da mentira.

- Aceitas então ser a literatura o reino do embuste?

- Nem tanto ao mar, nem tanto à terra. Antes a simulação do não é, mas bem poderia ser.

- Interessante perspetiva. Afinal o autor inventa uma alternativa à sua realidade e esforça-se para que o leitor a tome como a mais lídima verdade?

- Exagero. O autor não vai querer que tomem por verdadeiras as suas construções. Apenas as deseja plausíveis, aceitáveis.

- Mesmo quando salta à vista estarmos perante algo impossível ou, pelo menos, de difícil realização?

- Como fazes quando queres fazer interagir duas personagens de forma a serem aceitáveis pelo público?

- Crio o contexto credibilizador.

- Exatamente. É o que Cursino faz. É o que eu faço quando quero que Cursino faça. Procura-se a causa, divisam-se os efeitos, pesam-se as consequências, trama-se a sequência.

- Bem dito, Kismet. Então Cursino vai tentar descobrir como tornar aceitável o drama que está a conceber?

- Não Oblata, ele já sabe o caminho que quer tomar. Falta-lhe descobrir as palavras para o tornar verosímil. O problema está na escolha. Cada uma pode aproximá-lo ou afastá-lo do seu desígnio. As palavras são insidiosas. Escondem armadilhas de sentido. Uma vez nomeadas podem levar a mudanças dramáticas.

- Não me parece grande problema. Poderá apagá-las.

- É facto aceite, porém, poderá rasurar o efeito deixado no pensamento e, por obra do entrevisto, o desvio da história?

- Complicas! Vejamos então para onde nos conduzirá Cursino.

 

 

Não há finais felizes. A velhice cai-nos em cima antes de nos apercebermos. Trabalhei toda a vida para dar uma existência serena, feliz, à minha mulher e aos meus filhos. Hoje contemplo-me deitado na incapacidade, precisando de Teresa para tudo. A invalidez tolhe-me os membros frágeis como papéis vincados. A vida passa ao lado deste esperar angustiado. Que fazer se Teresa casa, se for embora. Tremo ao pensar nesta possibilidade. Por vezes, quando consigo ser menos assustado ou mais racional, percebo ser a lei natural. Eu já o fiz! Todos o fizemos! Mas agora tal situação deixa-me de rastos. É egoísmo? Sei bem que o é, mas sem o tempo de Teresa não posso sobreviver. É culpa minha se as pernas não me obedecem, se tenho de passar os dias, ainda por durar, deitado na cama? O lá fora já não é meu. Chega-me através dos ouvidos, rumor surdo com algumas, por vezes, dissonantes notas agudas. Subsisto pelos ouvidos. A isto se reduz uma vida de trabalho. O fim inglório, o peso, que sei ser para os outros. A Leontina está melhor que eu. Ainda sai. Vai à missa. Fala com as vizinhas. Ajuda Teresa na lida da casa. Eu sou esta desgraça de corpo mirrado esperando a esmola de que o tratem, aguardando o dia em que o sopro se vá, e acabe de vez com esta maldição. Decididamente não há finais felizes.

 

Definirei o local. De costa para a igreja, em frente à direita, ficará um jardinzito onde está implantado um coreto doutros tempos. Não sei que por lá tocasse banda ou realejo. Terá sido abandonado há muito. Mesmo o jardim parecerá estar sozinho, entregue ao vento. Habitado somente, por alguns momentos, no fim das missas, se os crentes, ainda na compunção dos sagrados mistérios, o atravessarem. Voltará depois ao bucolismo periurbano. Perde-se, ali, a noção de cidade. Seremos remetidos para a aldeia que já foi, antes de ser tragado pelo avanço imparável da urbe. A aldeia resistirá, quer continuar real. Não podendo manter-se nas ruas, resistirá nas pessoas. Fecha-se dentro dos ciclos vitais, impedirá qualquer abertura para o exterior, qualquer renovamento. Exceto pela televisão, que marcará os ritmos de trabalho e lazer através das telenovelas.

 

Todos os domingos levava a minha mãe à igreja. Para mim, de nada servia o consolo religioso. Não o entendia, nem faziam sentido aqueles ritos vazios, apenas consoladores dos velhos. Com a idade aproximou-se da igreja. O envelhecimento trouxe-lhe uma religiosidade mais forte, creio de algum oportunismo. Seria o medo do absoluto que se aproximava demasiado depressa? O rescaldo religioso da infância a sobrepor-se ao pensamento póstumo do dia-a-dia? Mas que fazer, se isto a faz sentir-se, senão bem, pelo menos mais segura?

 O menos que posso fazer é acompanhá-la. Para mim é absolutamente indiferente. O bem e o mal não vinham de se frequentar, ou não, a igreja. É algo do âmago das pessoas. Nem sequer creio que haja gente boa ou má. São as circunstâncias no percurso de cada um a servir de mapa aos seus comportamentos. Se pensava mais seriamente na vida só me lembrava da lotaria. Um jogo de fortuna e azar a cair sobre nós, sem se saber como ou porquê. Sorte, reveses, tudo por acaso, acontecimentos nascidos de milhares de possibilidades, oriundas de decisões tomadas sem perceber aonde nos levam nos limites. Creio bem que o mais ínfimo gesto desempenhará, no futuro, um importante papel na definição dos acontecimentos sem que, no momento do acontecido, consigamos descortinar o caminho percorrido.

 

A igreja é pequena, branca, com um arremedo de torre sineira onde sobrevive um minúsculo sino, mal ouvido entre os ruídos do trânsito. Tudo ali é miúdo. Como se fosse uma religião em tons menores. Não tem faustos, serve só para devoções quotidianas. Sem luxos a igreja fica mais próxima dos crentes. Compete com eles na modéstia.

 

 

Reparei nela por acaso. Acompanhava a mãe. Mesmo sem querer teria de chamar-me a atenção. Uma flor fresca entre erva velha. Punha um raio de sol no interior da igreja. Não aparecia todos os dias. Ao domingo não faltava. Fui observando-a sem dar a entender. Percebi não ser a devoção a Deus a levá-la ali, mas antes o dever de acompanhar a mãe. Não me desagradou. Estava farto de beatas à espera da absolvição a permitir-lhe um lugar entre os justos. Há muito tempo que um desconsolo frio me apanhara. A Fé, tão brilhante, a levar-me ao sacerdócio fora gasta na observação de misérias e injustiças. Cheguei mesmo à heresia de pensar para que serve Deus se deixa campear a maldade, se permite florescer o predador, se não mostra compaixão pela dor da vítima. Desgostoso comigo falei com o cónego responsável pela paróquia onde exercia. Descansasse, todos passávamos por momentos de dúvida. O Senhor ponha-nos à prova de muitas maneiras. Sabe, padre, são ínvios os caminhos do Senhor. Nada de conforto veio dessa conversa. Também eu, quando não tinha esperança para dar aos que me procuravam para alívio dos males, sem nada mais poder fazer repetia, de modo mais popular, a fórmula com que pretendera tranquilizar-me. Meu filho, poucas vezes, minha filha, muitas mais, sabes, Deus escreve direito por linhas tortas. Via-os ir com o mesmo desalento com que chegaram, igual ao trazido por mim da conversa com o cónego. Na realidade não sabíamos nada, não possuíamos qualquer poder ou lenitivo para os males a afetar a congregação. No entanto estava no ofício escolhido. Ou o abandonava ou continuava fazendo o de mim esperado. Sem horizontes na vida, sem interesses motivadores, prossegui o múnus atribuído. Talvez por isso jamais passasse de padre de aldeias ou pequenas igrejas de baixa côngrua. Também nunca exigi ou fiz alguma coisa para alterar a situação. Aceitei! Procuro não falhar no passar aos outros a crença que não tenho, a esperança que não possuo.

 

Teresa não terá remédio senão reparar no Padre Bernardo. Será o ator principal do drama encenado, várias vezes ao dia, naquele palco.

 

 Veste-se de verde e ouro, de vermelho e ouro, de azul e ouro, sempre de qualquer cor e ouro. É isso que representa a igreja. Refulgências no mundo da pobreza. Não admira que as pessoas se encantem, pareçam adormecidas por todas as lindas palavras vindas dos ouropeis, diferentes daquelas obsessivas, usadas para comentar a doença, alguma alegria, um casamento, ou mesmo, aos domingos, competindo com as missas da tarde, as discussões sobre o futebol. Os padres são vendedores de ilusões. Mentirosos compulsivos a vender sujeição em nome da futura glória. Se é mais fácil um camelo passar pelo buraco de uma agulha, que um rico nos reinos dos céus, porque é que a igreja junta tanta fortuna terrena? Será que os céus vendidos não serão como o apregoado, ou não estão interessados na glória futura quando podem usufruir dos bens do momento?

 

Teresa não gostará do padre. Não por ele. Acha-o simpático, mesmo, como homem, interessante. Desgosta-a ouvir-lhe sair da boca as repetidas palavras dos evangelhos, das epístolas, das pregações cheias de boas intenções, conduzindo à carneirada. Detestará ouvi-lo apelidar-se de pastor, de considerá-la parte do rebanho.

 

 Que diabo, não sou ovelha nem cabra, não necessito de guia a conduzir-me ao redil ou ao pasto. Abomino cães de guarda a morderem-me as pernas, a obrigarem-me a rota para a qual não me pediram opinião. Não quero que a minha estrada seja a de todos. Quero ser eu a procurá-la, a seguir por ela com quantos, de livre vontade, a escolherem.

 

Portanto aborrecerá o padre. Volta e meia tentará dissuadir a mãe daquelas peregrinações espúrias. Propõe trocar a ida à missa por passeios no jardim do coreto. Revolta-se a mãe, preocupada com o encontro com Deus, cada vez mais próximo. Não lhe interessarão os argumentos da filha contra a perfídia religiosa. Deus te proteja e ilumine incrédula, rezará fazendo cruzes de esconjuro sobre a cabeça da filha. Quando chegares à minha idade perceberás a verdade da Fé.

 

Naquele dia a mãe de Teresa desmaiou na igreja. Vomitou, borrou-se, assustando os presentes. Interrompi o sagrado ofício para lhe prestar assistência. Levámo-la para a sacristia onde Teresa, mais duas mulheres, a limparam. Telefonei para os bombeiros, céleres a chegar, a estabilizar a doente, a transportá-la para o hospital. Desconhecedor da gravidade da situação levei os sagrados óleos da extrema-unção, partilhando com mãe e filha os lugares da ambulância. Nada dissemos. Pressentia, na expressão de Teresa, serem os poucos quilómetros a separarem-nos do hospital um caminho sem fim. A angústia chamava o recolhimento. Chegámos ao hospital sem a senhora dar acordo. Demorei-me a fazer companhia a Teresa, até o médico vir tranquilizá-la. O pior já passou. Ficará internada um par de dias para observação. Despedi-me de Teresa intrigado pela conversa tida. Confirmei não ser devota, o que já tinha intuído pelo comportamento alheado nas missas. Apenas acompanhava a mãe pela impossibilidade desta se deslocar sozinha. Não me fingi admirado. Comentei não ser pequeno sacrifício assistir a ritos nos quais não acreditava. Também ela assumiu com singeleza a situação. Fazemos tudo pelos pais, não é? Aquiesci respondendo, pagamos com amor a fatura que eles nunca nos apresentam. Talvez, respondeu-me recolhendo-se ao silêncio. Se não se importar passarei por sua casa para saber novidades da mãe.

 

Teresa anuirá bem como aceita, após total recuperação da mãe, a passagem esporádica do padre Bernardo pela casa a informar-se sobre a saúde da família. Deter-se-á, na maior parte do tempo em conversa com os pais de Teresa. Ela, atarefada na lida da casa, pouco tempo terá para lhe dedicar. Trocam breves comentários, despedem-se até à próxima missa. Assim, Teresa não saberá como, nem quando, começou a ansiar pelas visitas. Apressará as tarefas domésticas para estar livre quando ele chegar. Nas missas de domingo será a mãe quem, inquieta por ter deixado o marido sozinho, a apressará. Teresa entrega-se inteiramente àquela sensação de plenitude ao partilhar o tempo com Bernardo. Cada vez verá nele mais o homem que o padre.

 

Meu Deus, que se passa comigo?

 

Em frente do espelho, aterrado, interrogar-se-á o padre. Intimamente saberá que o tempo dedicado à família de Teresa não é inocente. Procurará todos os pretextos para estar na companhia dela.

 

Tento afastar os sentimentos interditos à situação sacerdotal. Não sou digno. Não posso atraiçoar os votos nem a comunidade. Muito menos almejar tudo quanto aos outros homens é permitido. Juro afastar-me da tentação para logo a seguir correr para ela em desespero de afogado. Que pretendo de Teresa? Companhia, conversa, amor? Impossível, nada lhe poderia dar em troca, não estava preparado para abandonar o sacerdócio, dedicar-se ao século, renegar todas as escolhas feitas até então. Nem sequer percebia se os seus sentimentos eram comuns a Teresa.

 

As incertezas desabarão num domingo à tarde quando Bernardo, sem se confessar o propósito, aparecerá em casa dos pais de Teresa.

 

 Estão a dormir a sesta, disse ela. Meio assustado com a ousadia pretendi recuar. Que palermice, devia ter-me lembrado disso. Num volte-face instantâneo, surpreso pelo próprio rasgo pedi, importa-se de me dar um copo de água? Está um calor de rachar. Teresa sorriu, convidou-me entrar no vestíbulo escurecido, a cortar as inclemências de julho. Entre o ir à cozinha buscar a água e retornar à entrada, pensamento ousado perpassou-me pelo espírito. Ainda bem que apareceu. Está muito ocupado? Nem por isso. Foi para aproveitar o tempo vago que decidi visitar os seus pais. Nem me lembrei da sesta. Como nunca a faço… Pois, continuou Teresa, vou colher ameixas no quintal. A esta hora? Não será melhor esperar pela tardinha? Tem de ser, mais tarde estarei ocupada com o tratamento das roupas e com o jantar. Aproveito enquanto a máquina lava. Se a Teresa resiste à torreira, fraco seria se não a acompanhasse. Trouxe dois chapéus de palha e um cesto. Debaixo da ameixeira, cujos ramos pejados rentavam o chão, as nossas mãos colhiam os frutos vermelhos a tender para o castanho. Por vezes, no afã de encher o cesto, elas tocavam-se ao colher frutos próximos. Quando tal acontecia sentia um arrepio percorrer-me o corpo. Ao susto seguiu-se a premeditação. Quase sem palavras os toques ocasionais tornaram-se carícias. Dois corpos, duas mentes, perdida a noção dos limites, juntaram-se ao coro da natureza. Passado o momento de loucura, envergonhados, vestimo-nos apressados, mal conseguindo trocar duas palavras. No chão, a cesta meio-cheia lembrava-nos o pecado. Estranhamente não sentia remorsos. Somente medo do futuro. E agora? Perguntou Teresa, despertando-me do embrulho de sentimentos e sensações. O que está feito não tem remédio. Há uma decisão para tomar. Paramos de vez ou continuamos? Timidamente Teresa pegou-me na mão. Eu continuo, assim tu o queiras.

Tão difícil encontrarmo-nos. Os trabalhos da paróquia, o controlo social, o povoado pequeníssimo. Nada poderia esconder-se muito tempo. Dávamos tratos à imaginação  para nos encontrarmos. Cada encontro tornava mais possível a descoberta, o escândalo. Na minha casa era impossível. Demasiado exposta. Na de Teresa havia o risco de sermos apanhados pelos pais, ou de algum vizinho reparar na frequência e estranheza das minhas visitas. Teresa não podia ausentar-se muito tempo. Tinha horas para ministrar medicamentos, confecionar refeições, para as saídas com a mãe. As inquietações perturbavam a felicidade permitida por algumas escapadas. Não podemos continuar assim! Ambos concordávamos. Porém nenhum assumia ser o primeiro a propor o passo para a libertação. Qualquer de nós temia que o outro sentisse o avanço como imposição. Os acontecimentos precipitaram a decisão. Ao encontrarmo-nos, por desespero, na casa mortuária, na lateral da igreja, íamos sendo apanhados pela empregada de limpeza. Tive o sangue frio para carregar Teresa com um braçado de flores velhas, conduzindo-a para o recipiente do lixo. A empregada mostrou mau modo, temendo que o voluntariado na igreja se expandisse, retirando-lhe o lugar. Eu trato disso, menina. Entre o sorriso e o enxotamento.

 

Por tal combinámos o encontro, naquela manhã, no jardinzito, junto ao coreto.

 

Estou desesperado. Porra! Outra vez atrasado. Que merda! Quando tomas juízo Xavier. Vou de novo levar no toutiço. Não tomei banho, nem o pequeno-almoço. Barba apressada meto-me no carro, arranco a boa velocidade. Preciso de ganhar tempo. A imagem do Castro, prazenteiro no sorriso, a filhadaputice estampada na cara, a repetir, isso não pode ser, Xavier, não pode ser, atravanca-lhe o pensamento. Outra vez atrasado! Que palerma o Castro! Mal foi promovido esqueceu-se da amizade de tantos anos. Não se lembrava das noitadas e bebedeiras de ainda não há muito tempo. Parecia até quer livrar-se dele, para não haver na empresa testemunha do passado. Acelerava ao ritmo de pressas e pensamentos.

 

Acordei ao despertar do dia. Silenciosa lavei-me, fiz a mala com os pertences. Bernardo tratara de tudo. Estava decidido. Iriam, para outra terra onde não fossem conhecidos, fazer a sua vida. Pé-ante-pé, para não acordar os pais, abri a porta, enchi o peito de ar, senti o cheiro diferente daquele dia e fui apanhada pelo remorso. Como ficariam os pais ao acordar, percebendo que não estava, nem voltaria a estar? Deixei os números dos meus irmãos, junto ao telefone, para eles os contactarem. Com esforço abandonei os arrependimentos. Porque estava a matutar nisto? Sempre tomara conta dos pais, sem o auxílio dos irmãos. Para eles era situação muito confortável. Desistisse da vida, entregasse-a por completo ao serviço da família. Tão conveniente. Alívio enorme. “Teresa não casou, pode bem tomar conta dos pais.” Apercebia-se, agora, do egoísmo e crueldade a que estivera sujeita. Ninguém a consultara. Irmã, ainda por cima a mais nova, era da lei. Pois agora que se entendessem. Fizessem turnos. Contratassem alguém. Ela seguiria o caminho escolhido. Partilharia a vida com Bernardo. Tentariam a felicidade. Tinha esse direito!

 

Acenava a Bernardo, vindo do lado da igreja, também com uma mala, a sorrir-lhe luminosamente.

Vê-lo-á esperar pela passagem a verde do semáforo de peões, iniciar a travessia junto ao cruzamento. Avistará também, com receio, o carro, de condutor cego para o sinal vermelho, não parar, acelerando ainda mais até bater no corpo de Bernardo, atirado como boneco desarticulado para um lado, enquanto o automóvel, desgovernado, se enfiará pelo poste do semáforo, esmagando a parede do prédio.

Correrá desesperada para o corpo inerte. Não conseguirá abraçá-lo. Mãos piedosas seguraram-na enquanto ela olhará, com horror, o sangue a sair do crânio aberto cobrindo a massa encefálica derramada pelo alcatrão. Perceberá ainda o ultimo estremeção com que Bernardo se despedirá da vida. Irão levá-la dali para o café. Dão-lhe um copo de água, não percebendo ninguém como a sua vida se tornara tragédia. Compreensivos murmurarão, é natural, o padre era muito querido da população. Consternam-se levemente contra o condutor. Perdoam-lhe a culpa, paga igualmente com a morte. Alguém conduzirá Teresa a casa. Será poupada ao recolher do corpo, às mangueiradas a limpar a via, levando no fluxo o sangue e a massa encefálica para as regueiras da estrada, caindo em vórtices pelos escoadouros.

Entrei em casa sentindo-me penetrar noutro espaço. Tudo se transformara. Os olhos espreitavam, por entre fumos, a realidade. Eu não estava ali. Ficara para sempre no jardim, junto ao coreto, emersa no sorriso de Bernardo. Continuaria a fazer o que tinha de ser feito. Trataria dos pais, conduzi-los-ia pelo caminho estreito a desembocar na morte, mas tudo seria muito frio, distante. Corri para a casa de banho, acionei o autoclismo para que o soluço contido pudesse sair, inaudível, do peito. Aproximei-me do espelho. Desconheci aquele corpo, aquele olhar, a extrema revolta a penetrar-me. Sufocando soluços, rilhando os dentes, colérica, rezei para o terrível deus das grandes vinganças.

Apenas procurei ser feliz. Era tal desejo pecado? E porque o seria? Tu tens tantos homens e mulheres para te servirem. Que diferença faria deixares aquele para mim? Acaso não poderias passar sem ele? Levaste-o por cólera ou por ciúmes? Qual é a tua grandeza para conter tanta vilania? Percebi a mensagem. Podes contar comigo. Terás a minha submissão, apenas ela, com amor não contarás. Servirei os teus propósitos com sujeição e raiva. Com a mesma com que, neste momento, te digo: eis aqui a escrava do Senhor.

Sairá aos tropeções da casa de banho. O pai acordará com o ruído.

- Há algum problema, Teresa?

 -Não pai, tubo bem!

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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publicado por Carlos Alberto Correia às 11:38