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Momentos para inventar o amor

Sexta-feira, 08.05.20

 

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L - Breve imprecação a quatro vozes sobre as mentiras dos políticos

 

Kismet - Pronto! Já sei que neste momento qualquer político que me oiça está a ficar de muito mau humor, a jurar por todos os santinhos que mentiras não é com ele, sempre foi homem impoluto, cidadão exemplar e, na sua terra, a palavra dada vale como assinatura reconhecida no notário. Provavelmente, por ofendido, até pensaria levantar-me um processo por difamação, não fora o facto de eu não referenciar ninguém em particular e não ser possível unir toda a classe política numa ação concertada, porquanto todos, considerando-se honestos, acima de qualquer suspeita, aceitam que os adversários, esses sim, mentem e enganam o povinho despudoradamente. Honra, pois, a uma classe que não sofre de corporativismo militante. Mas, apesar disso, se perguntarmos a alguém na rua qual a sua opinião sobre os políticos em geral, desencadeamos de certeza um rol de invetivas pouco abonatórias para tais personalidades, onde a mentira não é menor pecado, nem dos menos citados.

 Oblata - O senhor político, que acaso me esteja a ler e a discordar de mim, arroje-se a um rápido inquérito de opinião. Terá então de processar a Vox populis, coisa que, por enquanto, é extraordinariamente difícil de conseguir. Por isso as muitas e ocultas tendências censórias à livre expressão, por parte dos corpos políticos democráticos. Que linda seria a democracia sem o direito de opinião do povoléu, como seria idílico o quadro de uma sociedade em que só os tribunos arregimentados pudessem apresentar os seus pareceres. Não seria o paraíso porque a divergência é natural e desejável, mas seria uma divergência entre pares, com os mesmos grandes interesses em comum, com as situações partidárias e pessoais a permitirem uma discussão motivadora, plural, mas centrada nos objetivos mais nobres que à política competem. Estão a perceber o alcance da coisa, não estão? Se aceitarmos de bom grado que na política há pessoas de bem, porque estará tão arreigada a opinião de que político é mesmo mentiroso?

Cursino - Demos então ouvidos à milenária sabedoria do mítico oriente. Naquilo que definiríamos como um possível céu budista estava Buda, distraído, observando a díspar humanidade nos seus entreténs diários, segurando na mão direita uma lindíssima bola de cristal - a Verdade – a iluminar, de modo feérico, o céu em referência. Distraído deixou a bola escapar para a terra onde se desfez em mil pedaços. Surpreendidos com tão intensa luz os homens acorreram ao local do impacto. Cada um apanhou o pedacinho da esfera que logrou alcançar. No entanto, na ignorância e orgulho, convenceram-se de que tinham recolhido toda a verdade.

Valéria - Desde esse dia, como todos pensaram de maneira semelhante, instalou-se na terra a discórdia. Tendo cada um sido contemplado com parte da verdade, todos ficaram convencidos de ter alcançado a verdade total. Deste modo espalhou-se a mais acentuada discórdia.

Cursino - Ora, os nossos políticos são assim como estes ancestrais que viram a luz. Também eles foram contemplados com uma parte da verdade (outros nem isso) e comportam-se como possuidores da verdade integral. Mas, se há muitas verdades e a Verdade é só uma, algumas terão de ser forçosamente mentiras. É muito confusa esta situação?

Valéria - Dizia-me um professor, de há muito, que a ideologia era os óculos com que se via a vida. Deste modo a realidade - coisa que não será exatamente o mesmo que a verdade - observada por duas pessoas, com quadros de referências diferenciados, mereceria, de cada um, interpretações distintas. Assim, não sendo necessariamente mentira, cada um deles, dirá do mesmo objeto coisas opostas. Para nós, dependendo igualmente dos nossos óculos, umas serão verdade e outras mentiras, sendo, no entanto, o mesmo o objeto apresentado.

Cursino - Lembro-me, mais ou menos, de uma passagem do Miguel Strogoff de Júlio Verne. Dois jornalistas avançavam, no Transiberiano, através da vasta estepe. Ia cada um do seu lado do comboio. Olhavam, pela janela, para a paisagem, descrevendo-a, em seguida, para os leitores. O que ia de um lado via os campos queimados pelo que transmitia a ideia de uma Rússia descampada e desolada. O outro, de cujo lado corria o ribeiro que fazia verdejar toda a paisagem, descrevia uma Rússia verdejante e fresca. Como nenhum deles olhou para o lado contrário, ambos ficaram convencidos que tinham sido os fiéis relatadores da realidade paisagística e que o outro era um terrível mentiroso, apenas interessado em construir uma realidade fictícia.

Kismet - Assim são os nossos políticos. Cada um com algo da verdade arroga-se ao direito de ser possuidor da Verdade única. Cada um, sentado no seu lado do comboio, descreve a paisagem que vê e não admite que, do outro lado, o horizonte possa ser diverso. Aqui temos uma explicação possível para o facto de os políticos serem considerados mentirosos. Se, no entanto, fosse só isto poderíamos filosoficamente aceitar a diferença de posições e opiniões. Mas outros factos há "de mor espanto".

Oblata - Um político é um ser que se arroga o direito de ter opiniões por nós. A partir de um ato fundador, chamado eleições, considera-se mandatado para todos os atos, dessa legislatura, de forma plena. Quer-se dizer que não mais precisa de nos consultar, que as suas posições são mais representativas da vontade do povo que a própria vontade da população.

Estranho, não é?

Kismet - Mas é assim que pensam e pouco há a fazer quanto a isto. É como se, ao lhes darmos o voto, eles recebessem a capacidade de definir, sem erros, a nossa vontade. Usando discricionariamente deste direito afastam-se, cada vez mais, do comum dos mortais. Ascendem a um plano de iluminação superior, ganham um olhar mais penetrante e analítico, recebem uma capacidade acrescida de fabricação do real. Falam-nos de coisas que não vemos, produzem realidades que não sabemos nem conseguimos, por mais que nos obriguem, percecionar. Para nós, está aí outra mentira. Esta nem sequer filosófica. É apenas cenográfica.

 Oblata - Mas há mais. Quando em campanha prometem conseguir tudo quanto os anteriores disseram fazer e não fizeram. Logo que eleitos dizem não poderem cumprir o prometido. As circunstâncias mudaram. Na verdade o que mudou foi o facto de quererem o poder e de, ao tê-lo conseguido, admitirem serem as promessas apenas isso ou que não seria possível, no mundo real, cumprir o prometido. Isto para não falar em interesses submersos, cálculos de vida e benesses superiores para a espécie.

Valéria - Assim se mentem e nos mentem levando ao descrédito das virtualidades da Democracia. Nós percebemos que os políticos são pessoas como as outras, que têm famílias para cuidar, prestações para pagar, carreira a manter. Só que, por estranhas crendices, somos sempre levados a confiar que agora é que sim, com este é que vai ser e a resposta é sempre: - ainda não é desta, com este não vai. Por isso se desacreditam e nos vingamos, com ingenuidade, falando das moscas serem outras mas não mudar a substância. Alguns de nós, menos precatados ou mais desesperados, até sonham com regressos salazarentos e coisas semelhantes. O melhor nestes casos, é fazer como Fernando Pessoa, que aconselhava a não se comer dobrada fria.

Cursino - Pensemos entretanto se será possível, a quem quer conquistar ou manter o poder, evitar a mentira. Por muito que custe, a única resposta que eu tenho é um rotundo Não! A sociedade é o que é e pobre do político que quisesse manter uma relação de verdade com o povo. Não só nunca chegaria ao poder como esse mesmo povo, ao ouvir as duras verdades da existência coletiva, tudo faria para que tal governante, de imediato apodado de mentiroso ou incapaz, fosse apeado e cedesse lugar a outro com falas mais convenientes.

Kismet - Apesar de procurar uma solução eficaz para este dilema, para ser verdadeiro, não a encontro e tenho que terminar, em disforia, pensando que os políticos mentem por não terem outra possibilidade senão continuar a mentir se querem perdurar no ofício. Pelo nosso lado, voltaremos a votar em quem, mesmo falando mentira, nos prometer mais cinco alqueires de milho ou um impossível paraíso à mão de semear.

Todos (vozes dissonantes) - Ai isso é que vamos e esse é que queremos!

 

Kismet dependurou os títeres nos ganchos, desligou a instalação sonora, abraçou Oblata e suspirando exclamou: - Finalmente disse o que queria. Não quero saber se fica bem ou mal na peça, nem me interessa a confusão entre as instâncias narrativas. Sinto-me aliviado. Oblata sorriu-lhe replicando, tudo isto é muito pouco. Kismet pareceu não ter ouvido e continuou, queres saber uma coisa? Cada vez que suspendo os bonecos sinto-me não só a interromper um pouco de mim, como me parece ver o Cursino a sorrir com ar de mofa.

Oblata acariciou-lhe os cabelos, afastou-se e já de costas rematou, és mesmo um sonhador!

 

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publicado por Carlos Alberto Correia às 12:25