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Momentos para inventar o amor

Sexta-feira, 17.04.20

 

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G - Ai de quem

 

Chegará o momento de apresentar Andina. Tê-la-ei conhecido ao mesmo tempo de Valéria. Fará parte do grupo inicial. Distingue-a os piquinhos nos olhos, uma mordacidade latente, o feminismo militante. É gira, mas chata. Ao contrário de Valéria será ave solta. Advoga sem grande reconhecimento. Trata de pequenos casos. Divórcios, partilhas, alguma querela entre sócios de estabelecimentos comerciais. Vai dando para se sustentar e ao filho de seis anos. Apesar do discurso pressente-se que procura um pai e uma ajuda na partilha de despesas. Tal evidência afastará muitos dos possíveis pretendentes. Tal como me pôs em vigilante guarda.

Um dia virá mais picante de olhar. Pedir-me-á para irmos a minha casa. Pretende consultar a enciclopédia. Estranharei vê-la pedir a Valéria para ficar com a criança, que nunca abandona. Aceito o repto. Preparo-me para o jogo. No chão, onde será subitamente largado, repousa o volume pretendido da enciclopédia nem sequer aberto. Depois do duche pergunta-me se a acompanho no sábado ao cinema. Responderei que sim e não minto. Não saberei ainda que Valéria me virá pedir para a levar a uma ação de formação, para a qual não terá transporte. Pretende dar aulas a invisuais. Prepara-se para tal. Não mais me lembrarei do compromisso com Andina. Regressaremos muito perto da hora de jantar. No café, furiosa, Andina pergunta-me se é um pedaço de merda. Tentarei, canhestramente, a desculpa. Não terei argumentos para rebater os seus. Os factos são mais fortes. Finalmente faz-me um ultimato. Tens de te decidir. Ou pensas beneficiar dos favores das duas? Se responder não te prometi nada, levá-la-ei ao rubro da fúria. Desesperada pegará na imperial e entornando-a sobre a minha cabeça deixará a mesa e o grupo. Nunca mais saberei nada dela.

 

- Saiu boa prenda o teu Cursino.

- Não vejo porque o julgas tão duramente. Será que te sentes cúmplice de Andina pelo discurso no feminino?

- Nada disso. No entanto ela tem razão. Não existira tal discurso se esta sociedade não fosse dominada pelos homens. Não há igualdade de oportunidades entre os géneros. Vê como Andina se esforça e nada de verdadeiramente grande lhe vem parar às mãos. Quantos advogados, bem piores que ela, recebem, só por serem homens, casos bem maiores que eles e que nela caberiam a contento.

- Não contesto as tuas razões. É verdade. Isso acontece. No entanto é uma questão de tempo. Há mais universitárias, mais licenciadas, mais doutoradas. Um dia as coisas mudam.

- Não podemos esperar a mudança das coisas por si próprias. Temos que forçar os acontecimentos.

- Como?

- Através das quotas…

- Para aí. Subir por mérito próprio eu entendo. Agora assumir um lugar por se ser mulher, sem prestar provas de mérito, vai mais devagar. Definitivamente não aceito tal.

- Machismo militante…

- Qual quê! Se alguém chega a uma posição sem dar provas de tê-la alcançado pelo seu esforço, cedo ou tarde será cobrado o preço da benesse…

- Dizes benesse? Porque não direito? Se não forçarmos as coisas elas nunca mais acontecem. As quotas são um instrumento a usar.

- Instrumento perigoso. Por esse caminho um dia teremos quotas para tudo e para todos. Para brancos, para pretos, amarelos, homossexuais, heterossexuais, canhotos e dextros, cristãos, islâmicos, judeus ou adventistas, até onde se esgote a lista de diferenças e minorias.

- Não queiras comparar. As mulheres não são uma minoria.

- Pois não, mas pertencem ao género humano e deverão ter os mesmo direitos e deveres dos homens e alcançar os objetivos pelo esforço e competência.

- Isto se as deixarem, o que não é verdadeiramente o caso nos nossos tempos.

- Nada é perfeito…

- Não te escondas atrás de palavras. Se refletires bem acabas a dar-me razão.

- E se repartíssemos a razão por quotas?

- Se não queres falar a sério o melhor é mudarmos de assunto.

- Certamente, não te exaltes. Deixemos partir Andina e tornemos a Valéria e Cursino. Reparaste que citei Valéria em primeiro lugar?

- Nunca te acusei de não seres um cavalheiro. Só de seres demasiado conservador sobre a situação da mulher.

- Voltamos ao caso…

- Não, foi apenas desabafo, conta-me o que vamos fazer.

- Pois bem! Valéria é obcecada. Como já mostrámos quer ensinar invisuais. Pretende saber como é o mundo deles. Vai pedir auxílio a Cursino.

 

Quero saber como se sente um cego na rua e em casa...

Comunicar-me-á Valéria. O que pensas fazer? Olhando-me como se tivera dito o maior disparate de todos os tempos dir-me-á: pois não é óbvio? Não saberei como dizer-lhe ser-me completamente impossível perceber onde queria chegar.

 Precisarei da tua ajuda.

 Somarei perplexidade a perplexidade.

Farei o seguinte. Durante uma semana não verei nada. Na rua andarei de olhos fechados. Em casa colocarei uma venda. É para me guiares nessa noite que te necessito.

Serei apanhado de surpresa. Tal empenho obrigar-nos-ia a coabitar. Saberia que me iria sentir mal em sua casa. Para mim continuava a ser a casa deles. Todos os recantos, móveis, superfícies, estariam habitados dos seus cheiros, dos seus usos. Não estaria confortável. Impossível! Deixarei sair.

Impossível porquê?

Porque será ainda a casa de Elísio…

Não podes deixar de ser pateta? Há quanto tempo não habita lá? Não sou eu que pago a renda? Aquela casa já era minha antes de viver com ele. Em nada do que lá está comparticipou. Todos os móveis e loiças me foram oferecido pela minha mãe. Elísio, para esse efeito, foi apenas um hóspede.

Não gostarei das palavras dela. Pensarei se num dia, caso alguma vez vivêssemos juntos, diria a qualquer outro as mesmas palavras: Cursino? Foi apenas um hóspede!

Não respondes ao meu pedido?

Responderei com condições.

Quais?

Será apenas uma ajuda que te vou dar. Ficarei em tua casa, mas nada de maior proximidade que pegar-te na mão para te guiar, se passará entre nós.

És esquisito…

É pegar ou largar…

Está bem, aceito.

Habitarei a estranheza daquela situação. Apagados os relevos pela venda negra andará, nos dois primeiros dias, agarrada à minha mão. Depois, mais afoita, conhecedora da casa deslocar-se-á sozinha, primeiro cautelosa, mãos à frente tateando possíveis obstáculos, a seguir adquirindo segurança tentará, não sem alguns percalços, deslocar-se de forma normal. Perceberemos como o não ver modifica o espaço e a perceção. Descobriremos ter o simples mudar de uma cadeira para outro lado um efeito devastador na mobilidade. Até nos habituarmos cai algumas vezes, fere-se ligeiramente. Perguntar-lhe-ei se será mesmo necessária experiência tão radical. Não responderá e irá para a cozinha onde pretende fazer o almoço com um mínimo de ajuda. As facas são o meu receio. Procura-as, passa os dedos pela lâmina, descobre o fio, vai buscar uma batata. Cautelosa consegue fazer o almoço sem ajuda e sem tirar a venda. Dir-me-á ao café que me terá deixado fazer:

É misterioso o mundo sem luz!

Ao terceiro dia decidirá ser o momento de enfrentar o exterior. Troca a venda por óculos escuros. Mantém os olhos cerrados. Vai buscar a bengala sinalizadora e dirá:

Segue-me. Não me tentes ajudar senão em caso de grande dificuldade ou perigo.

Percorreremos os passeios de Lisboa sendo, muitas vezes, obrigada a sair para a zona de circulação de tráfego por obstáculos vários nos passeios. É uma manobra perigosa. Perguntar-me-ei quando não conseguirá manter os olhos fechados. Não darei por uma única mostra de fraqueza ou desistência. Mesmo quando no Largo da Misericórdia – que tem outro nome apenas conhecidos pelos taxistas – a deixo junto á berma para comprar uma cautela da lotaria, verei uma idosa, frágil na dignidade, pegar-lhe no braço, trocar umas palavras e a seguir conduzi-la ao outro lado da rua. Correrei assustado para a encontrar tranquila. Dir-me-á:

Estou a conseguir superar a prova. Faltam apenas quatro dias.

Regressaremos a casa sabendo que não aguentarei mais a situação. Sentir-me-ei preso e agoniado naquela casa. A experiência rasga-me o sistema nervoso. A proximidade, o toque sem mais consequências está a deixar-me louco.

Queres-te ir embora? De certeza? Posso chamar uma amiga para me acompanhar.

Sentir-me-ei fraco ao concordar. Inventarei a desculpa de precisar de tempo para escrever e não me ser possível concentrar ali. Deixarei a casa dela quando a amiga chegar. Para não me sentir mentiroso não sairei de minha casa até terminar a história que só passou a existir depois de lhe ter dito que a queria escrever. Pensarei então no egoísmo, nos papéis sociais, procurarei dar-lhe voz e pela noite fora, vencendo o sono a chávenas de café, num golpe de urgência começarei:

 

Sentado na varanda do seu desejo o poeta trabalha no poema. O mar em frente penetra-o pelo olhar. Ausente vai modelando no seu íntimo a mais sublime peça poética que o mundo poderá saborear. As palavras saem do arquivo da memória, passam no coador do gosto, juntam-se na epiderme da sensibilidade, prontas quase à recusa ou ao conceito do conhecimento.

Já a este poeta foram tecidas, nas praças das letras, hagiografias intocáveis. É homem de cultura e nome feitos. Fala-se dele nos jornais e outros meios de comunicação titulando-o de enorme, monstro das letras, talentoso, inspirado, um que sei mais de qualificativos em extremo. Quase se pode ficar esmagado debaixo do peso de tal fama.

Mas o nosso poeta gosta. E mais, pensa que é de menos. Considera como insuficiente a glória tida. Tal como o oceano que o contempla, ele aspira à sem razão da medida. Um infinito será talvez suficiente, mas o grande que tem é ainda pequeno. Quer muito de mais. Por tal se pende sobre o mar. Ele busca, ele constrói. Por isso, lentamente, o poema toma forma, vai crescendo. E, no mirar-se, fazendo-se poema, não pode ouvir, queixando-se solitária, a mulher que quis ser a companheira e está sozinha, atrás do poeta, atrás do mar, muito aquém da varanda do desejo, onde se busca, onde se perde, onde a memória recusa qualquer coisa que não seja o poema em escrita.

O mundo rola. Na cidade perto do mar a vida das pessoas flui. É comummente atroz e agradável. Nas marítimas ruas dessa cidade perpassam gaivotas e aromas salinos entremeados de vozes. Um mundo de gente, de barcos, de irmãos e inimigos. Nesta cidade edifica-se a glória do poeta. São aquelas mãos dadas que o leem, o fazem grande, o mitificam. Dele sabem apenas os versos. Do homem nada sabem. O poeta é uma forma de leitura. Por isso o idealizam puro como um intenção, por isso ele se pensa plano e sereno tal grande planície levemente soprada pela brisa, onde toda a calma permanece estável há séculos sem conto.

De mansinho, como entrando numa igreja sem ninguém, os medrosos dedos tateiam os ombros do poeta. Volta-se de rompão, desabrido. Malcriado grita à mulher a estupidez do momento em que lhe perturbou os sentidos quando a rede da imaginação, quase-quase, aprisionara a fúlgida borboleta da inspiração.

 

Perante o pavor expresso nos olhos da companheira ao aceitar, passiva, o sacrilégio cometido, cresce-lhe no peito o gozo do poder. Desencarnando largo gesto, olímpico na fala, teatral no todo, berra desaustinado o manso poeta dos versos tocantes e oficiais para namorados de acordo com a ordem vigente, aceite, recomendável. À companheira diz da grandeza de que está investido. Aumenta-se diminuindo-a. Ela, transida e crédula, sente a desgraça no olhar irado do deus. Amachuca-se, pede perdão. O poeta-deus, terrível, aponta no acusador índex, a saída do paraíso.

A mulher, derrotada, em vão implora a graça de um olhar, de uma palavra amiga, de um pouco da compreensão que ele esbanja por página e páginas de romances e poemas elevados à celebridade dos compêndios escolares. Nada demove a granítica vontade. A mulher desaparece da sua vida deixando o cenário um pouco mais vazio.

Intemporal o poeta continua a criação do grande poema, do último, do definitivo. Com ele encerrará a sua obra e todas as outras ainda por escrever. Será o último e o único. Ele poema. Ele poeta.

Ao que parece, na cidade junto ao mar, passou a fome, a guerra, a doença. Nada tocou o poeta. De nada se apercebeu. A Obra enche-o por completo. É o trabalho mais importante do mundo. É a esperança de toda a gente. Ele dirá tudo, ele resolverá todos os problemas. No princípio, tal como no fim, será o Verbo…

Na varanda do seu desejo o poeta, contemplando o mar, envelheceu e morreu. O último poema, unanimemente considerado obra de génio, programa de vida e o retrato daquele homem amável, humano, começava assim:

Ai de quem vive a vida instalado

na varanda do desejo virado ao mar…

 

Ai de quem egoísta e santificado

não deu de si aos outros mais que simulação

 

Ai de quem, Ai de quem, Ai de quem

estragou a vida na contemplação…

 

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publicado por Carlos Alberto Correia às 11:52