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As escolhas da CDU

Quarta-feira, 28.10.09



Vêm alguns dos meus amigos e companheiros de partido mostrando alguma irritação pela preferência demonstrada pela CDU, na composição de juntas de freguesia, em relação ao PSD. Os comentários feitos por putativos apoiantes dessa força política são, regra geral, de uma acrimónia que junta gasolina à fogueira. Pelo lado dos meus crê-se que se está perante uma ligação contra-natura – seja lá isso o que for – pelo facto de não ser concebível a coligação de políticas de esquerda com as vontades sociais dos eleitos pela direita. Apertados por esta lógica de difícil refutação os apoiantes da coligação vencedora partem para agressões verbais desnecessárias.

Sumariado o evento tentemos uma abordagem mais serena da questão.

Já foi mil vezes repetidos e se-lo-á até à exaustão terem as eleições autárquicas um cariz diferente de quaisquer outras. E bem que eu pense que todas as eleições são distintas umas das outras, dependendo quer do órgão a ser eleito, quer da especial conjuntura em que ocorrem ou ocorrerão, aceitemos pelo seu valor facial, para facilidade de exposição, este enunciado. A principal característica diferenciadora destas eleições seria a da extrema personalização dos candidatos. Efectivamente, a prática tem demonstrado que existe forte mutabilidade na vontade dos eleitores, os quais, tantas vezes, nestas circunstâncias, trocam o voto ideológico pelo voto afectivo.

Aceite este princípio salta aos olhos que a inelutável vencedora destas autárquicas, no Concelho do Barreiro, foi a CDU. Não só a população lhe outorgou claramente a vitória, como lhe concedeu a maioria absoluta na Câmara, e lhe proporcionou maiorias confortáveis ou absolutas em muitos outros órgãos autárquicos. Ninguém, de boa-fé, poderá pôr em causa o claro sentido do voto da população. O corolário desta situação é que, descendo genericamente a votação em todos os restantes partidos e, consolidando-se ou subindo na CDU, esta está armada de uma legitimidade intransponível.

Ultrapassando a posição pessoal de esperar que um dia a maioria sociológica de esquerda se transforme em política, bem como de considerar como perigosa qualquer maioria absoluta, de qualquer partido, em qualquer órgão de soberania, resta-me aceitar, a contra gosto que seja, que os eleitores deste concelho, declararam sem rebuços, o apoio às políticas seguidas e propostas pela autarquia.

Dessa política fazia parte a repartição de Pelouros com o Vereador, Bruno Vitorino, eleito pelo PSD e com o Vereador João Soares, PS, que aceitou o cargo à revelia da posição assumida pelo seu partido. Pelo discurso do Presidente Carlos Humberto, na tomada de posse, presume-se que nesta Câmara se irão manter os pressupostos anteriores. Ressalte-se que tendo obtido a maioria absoluta poderia a CDU fechar a vereação nos eleitos pela sua coligação e, não o fazendo, deve salientar-se a abertura democrática desta acção do Presidente Carlos Humberto.

Não havendo novidades nesta área, até porque ao BE não foi possível eleger um vereador, fica a situação das “perigosas ligações” nas freguesias.

Este ponto de vista parece-me enfermar de uma falta de lógica de continuidade. Se a Câmara disponibilizou um lugar, é certo que exigindo solidariedade institucional, ao eleito do PSD, porque é que não o poderia fazer nas Juntas de Freguesia? Parece-me óbvio que nenhum impedimento sério se pode colocar quanto à justeza desta posição. Os eleitos de qualquer partidos são, quanto a mim, pessoas estimáveis, com as quais convivemos no dia-a-dia e que, tal como nós procuram, dentro da sua perspectiva, o bem destas populações. Poderão objectar que, a nível da Assembleia da República o panorama será bem distinto. É bem verdade que aí, iremos ver, por coincidência de propostas, muitas vezes o Bloco a votar com a CDU e contra o PSD. Só que, tendo isto em vista, não é lícito aos meus camaradas derivarem estes comportamentos a nível nacional, como espelhamento de escolhas ao nível local. O Barreiro, por razões certamente históricas, tem a peculiaridade, várias vezes demonstrada, de as estruturas locais mostrarem uma independência notória em relação às directivas nacionais dos partidos. Veja-se, como exemplo, as posições sobre a Terceira Travessia do Tejo. É bastante ilustrativa e penso não ser necessário trazer mais factos à colação.

Assim sendo, dada a personalização do voto e a desiologização do mesmo, quem é escolhido para o órgão autárquico será, eventualmente, mais a pessoa que o membro do partido. São estes dois elementos que podem explicar as escolhas da CDU. Dever-se-á acrescentar mais um elemento, este sim partidário, que é o do PSD, pelas suas características, não ameaçar o terreno político da CDU e do Bloco, pelo mesmo motivo, pescar nas mesmas águas o que introduz um elemento agonístico na equação. É portanto aceitável que as escolhas havidas só possam ter sido as que foram.

Como não se faz um casamento sem a livre vontade dos nubentes, não deverão os meus camaradas de partido ficar enfadados por terem sido preteridos nas escolhas. É compreensível, pelos factos aduzidos que o tenham sido. Até me parece que tal exclusão é laudatória e deverá motivar a continuidade dos nossos esforços apresentando à população a bondade das nossas acções e programas. Se o soubermos fazer, e relembro que uma eleição se começa a ganhar no primeiro dia do novo mandato e não na campanha eleitoral, os resultados virão naturalmente. Os nossos pontos de vista são, necessariamente, diferentes dos da CDU. Não deveremos pois esperar benesses e facilidades por parte desta coligação, independentemente da qualidade das relações pessoais, devendo sim, demonstrar com clareza as nossas propostas e, como oposição legítima, apresentar, caso a caso, em que se diferenciam e se tornam mais positivas para a população, as propostas e acções que empreenderemos em todos os órgãos em que estamos representados.

O poder autárquico foi estruturado, nos inícios de Abril, com os partidos então colocados nos órgãos de poder. Não será fácil agilizar esta estrutura muito solidificada mas é possível e é esse o trabalho que nos espera. Menos agastamento com escolhas que não nos pertencem e mãos à obra, Camaradas.


Publicado in “Rostos on line” – http://rostos.pt

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publicado por Carlos Alberto Correia às 13:31








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