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Memórias 1 - À espera de Godot

Terça-feira, 05.02.08
Posted by Picasa
(Publicado em "Democracia do Sul" 1969)


Fui ao teatro ver "À espera de Godot". Da peça e nesta nota não farei nenhuma crítica. Apenas quero dizer do texto que nos fere e intranquiliza. Do grito que nos atinge. Do absurdo que nos assalta.

- Vamos embora
- Não podemos
- Porquê?
- Estamos à espera de Godot.

Ninguém sabe quem é Godot. Só se sabe que se espera e ele nunca é nesse dia que vem. Os homens desesperam e alguns –aparentemente - deixam de esperá-lo. É fácil pensar que se deixou de esperar por Godot.
Quando isso acontece, a vida e dum cinzento morno, dum manso desespero. Não há lugar para a revolta, porque não há nada ou ninguém contra quem nos re­voltemos.

Saí entre os últimos espectadores. A rua estava quase deserta. O último táxi desertava na curva lá adiante.

No largo Trindade Coelho, sentado nos degraus do edifício da Santa Casa da Misericórdia, estava um homem. Alto, barba ruça por fazer, gabardina branca, suja, esfiapada. Ao seu lado um saco grande, de plástico, inchado de trapos velhos. Uma lata de lixo esventrada, ainda há pouco, parecia rir-se do homem, que nas mãos tinha um trapo, promovido a lenço.

Vê-lo, era pensar nas noites de calcorrear as ruas, destapando caixotes, recolhendo detritos. Talvez, arrogando-se um velho direito, os gatos lhe chamassem intruso, ou lhe agradecessem o destapar das latas onde, em conjunto, procuravam a vida.

Ele estava sentado nos degraus. Talvez cansado, talvez conformado, tal­vez…

A porta bateu violentamente e a imagem do velho deixou-me. Um corpo ro­lou na rua. Zaragata de bar. A porta escancarou-se para passar mais gente. Comentários.

- Olha o que o bruto fez ao rapaz.
- Bruto é o seu pai e casou-se.
- Oiça lá amigo

E mais, mais opiniões divididas.

O rapaz levantou-se. Chorava. As lágrimas misturavam-se com o sangue. Dois amigos amparavam-no.

Um pouco mais abaixo o agressor justificava-se:
-Vocês bem viram que ele me provocou. Eu até evitei bastante. Mas chamar isso a um homem casado, não está certo.

À sua volta assentia-se com movimentos de cabeça.

- Tem razão, sim senhor. Estes franganotes metidos a vivaços…
- Mas você deu-lhe com força …
- É verdade. Quando perco a cabeça a sou assim…
- Uma vez, vinha eu do Intendente…

Todos tinham uma história semelhante a contar. Todos eram valentes. Todos bateram, ninguém levou.

Ao descer a Calçada da Gloria misturavam-se em mim as personagens da noite.

O velho ia ao encontro do escuro remexendo caixotes. Intumescia a cara do rapaz. Gabava-se modestamente o agressor. Todos eram culpados e inocentes. Todos eram ricos e miseráveis. Todos eram agressores e agredidos. Todos afinal estavam, sem saber, à espera de Godot.

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publicado por Carlos Alberto Correia às 13:30