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Um caso de polícia...

Sábado, 08.10.05
Estás enganado (…) o importante é o resto, o que vem a seguir, por isso
é que temos de fazer um Pacto, vamos ser incómodos para muita gente.

Rafael, Manuel Alegre





Tenho uma amiga que não se chama Épsilon e que vive num lugar recatado, com alguma base arquitectural e uma envolvência bastante calma.

Ou isto é o que ela pensava…

Pois é! Numa destas madrugadas acordou subitamente – e presumo que como grande parte do bairro – com ruídos de potentes motores a toda a brida, chiar de pneus, tiros e estarrecedores sons de embates de/em viaturas.

Sobressaltou-se, como é de esperar que aconteça a quem vive em lugares onde não se esperam acontecimentos, e veio à janela que dá para a praceta dos eventos.

E viu – valha-a Deus – a GNR, em grande velocidade, em perseguição de malfeitores que, na melhor tradição dos filmes americanos, rodavam em poderoso “Jipe”, fugindo aos guardas, ao tiros e sem o mínimo respeito pelos tranquilos e estacionados carros de todos os dias de trabalho, os iam amolgando na precipitada passagem.

Azar dos portugueses, dirão… é sim senhor mas, sobretudo para a minha amiga que não se chama Épsilon, acordado pelo ruído e para o desespero de ver a sua viatura vitimada inocentemente pelas circunstâncias.

Não seria pouco se a coisa ficasse por aqui…

Então, os meliantes fizeram a guarda gastar pólvora e gasolina e…escaparam! Calculo que os guardas hão-de ter ficado frustrados. É humano, que diabo…nem sempre se pode apanhar quem tem um carro mais veloz e, mesmo havendo comunicação com outras patrulhas um “jipe” pode andar por caminhos de cabras e escapar aos agentes.

Quem não escapa com certeza é a minha amiga e os restantes proprietários de veículos amassados.

Não conseguindo agarrar quem de direito, esmeraram-se, na madrugada, a interrogatórios cerrados e exaustivos às ensonadas vítimas, como se elas fossem culpadas do seu desaire e dos prejuízos que elas próprias sofreram nos seus móveis – ali quedos e mais ou menos estropiados – pertences, só as deixando quando a sua autoridade se esvanecia com o passar da noite.

Se pensam que a aventura dos suspeitos moradores da pacata urbe termina aqui é porque não conhecem a proficiência e respeito pelo cidadão dos guardadores da nossa tranquilidade. Na noite seguinte, já passada a meia-noite, voltou a minha amiga a ser “contactada”, desta vez pelo telefone, pela simpática autoridade que queria confirmar alguns dados sobre a viatura e que não achara melhor forma e tempo de actuação que aquela…

aproveitando para informar que para ser ressarcida dos prejuízos havidos teria que levantar o auto do acontecimento – pagando-o – e que fazer um depósito, salvo erro para o Fundo de Garantia Automóvel, de cerca de sessenta contos, o qual a seu tempo decidiria de pagava ou não o arranjo do carro.

Encantadora esta estória e demonstrativa quer do respeito da “autoridade” pelos direitos e garantias dos cidadãos quer da eficiência demonstrada, neste caso, a todos os níveis.

A viatura da minha amiga lá está, amarrotada e infeliz, sem saber bem o que lhe aconteceu, à espera que ela a mande para a oficina, pague a conta e continue a aturar toda a burocracia autoritária que se segue, pagando todos os gastos e prejuízos do seu bolso, na esperança de um dia, um qualquer instituto se lembrar que existe para suprir faltas de seguro ou incidentes deste género, de molde a que o cidadão agredido, na sua pessoa ou nos seus bens, seja facilmente ressarcida e não tenha que aguentar sempre com este azar de ter nascido em Portugal.

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publicado por Carlos Alberto Correia às 14:01