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“É a estatística, estúpido!”

Sexta-feira, 16.11.07







No início da década de 70 do passado século, Bourdieu e Passeron, sociólogos franceses, publicaram um livro, que veio a fazer doutrina, chamado La reproduction.

Nestes estudos os autores partiam da hipótese de que a escola, apesar de reclamar para si a capacidade de introduzir na sociedade factores de ascensão social, unicamente baseados no mérito individual, assentava hipocritamente na reprodução social, isto é, na transmissão, de pais para filhos, de posições equivalentes na estrutura societária.

O método utilizado foi o da observação do percurso escolar de um grupo de jovens entrado em determinado ano no sistema escolar. Assim, e sumariamente, os autores verificaram que uma grande percentagem de alunos abandonava a escola no fim da instrução primária, que os restantes avançavam para o ensino secundário e que só uma muito pequena parte seguia para estudos superiores.

Até aqui nada de novo, dirão os meus possíveis leitores, desiludidos com este arrazoado e possivelmente pensarão que estou a fazê-los perder o seu rico tempo afirmando o que é facilmente descortinável a qualquer um mesmo sem a mínima preparação sociológica.

O interessante é que os autores em referência decidiram dissecar os percursos escolares e profissionais dos pais dos componentes do grupo em análise.

Surpresa das surpresas, ou talvez não, verificaram que aqueles que abandonavam o ensino no final da instrução primária eram filhos de famílias operárias e onde a instrução primária era a dominante; já os que seguiam para o secundário tinham como pais pequenos comerciantes, funcionários públicos, encarregados oficinais e por aí adiante; os poucos que chegavam ao ensino superior eram, “inesperadamente!!!”, filhos de licenciados e das classes dominantes na sociedade.

Deste modo, os nossos autores desmontaram o discurso hipócrita da democracia e do mérito e mostraram que a escola era, como tantos afirmaram antes e depois, um instrumento ideológico visando a manutenção da estratificação social existente, alterando apenas o suficiente para que tudo se mantivesse igual.

Por alturas deste estudo, ainda em Portugal, o ensino não era massificado. As divisões sociais eram demasiado marcadas e evidentes através de extenso número de analfabetos e da cisão do secundário em estudos práticos – escolas comerciais e industriais - para os filhos das classes menos classificadas, liceus para a classe dos futuros funcionários e universidades para a esmagadora minoria dos possidentes ou equiparados. A inquietação pelo ocultamento do fenómeno da reprodução social viria apenas com o 25 de Abril e as sucessivas reviravoltas dos diferentes projectos sociais.

No entanto não devemos esquecer a preocupação de Salazar, tentando igualar-nos às nações europeias em número de alfabetizados, ao “conceder no mínimo a terceira classe” à maioria dos cidadãos nacionais. Seria ideia louvável se se traduzisse no efectivo apoderamento de conhecimentos por parte dos atingidos mas, como foi patente, apesar da camuflagem, tratava-se apenas de uma operação cosmética, visando uma movimentação quantitativa e meramente estatística. Depois da campanha nem os portugueses liam e escreviam melhor, nem tinham adquiridos novos conhecimentos ou hábitos, mas as comparações numéricas em sede internacional demonstraram o grande salto em frente do nosso país na valorização das aprendizagens e na aproximação ao nível de escolaridade das populações europeias.

O actual Governo, mormente através da sua ministra da educação, apresentou-se com um discurso de valorização do ensino, fautor de modificação e aumento de competências, de incremento do mérito, do esforço e do interesse.

Discurso interessante, prática decepcionante.

Não vale a pena insistir muito mais sobre o relacionamento instaurado pelo Ministério da Educação em relação aos “seus professores”. Onde se queria valoração apareceu humilhação; onde era de esperar reforço de poderes disciplinares e tempo para a aplicação de pedagogias ajustadas e reconhecimento de métodos, estatuiu-se burocracia; em vez de apoio aos melhores profissionais orientaram-se as mentes para processos administrativos e do parece ser…

Enfim, continuamos com mais do mesmo.

Um professor tem necessidade absoluta de se dedicar, no seu tempo de trabalho, por inteiro, aos seus alunos. Seja por atenção directa em sala de aula; seja por tempo dedicado a actualização e pesquisa; seja por correcção e acompanhamento de trabalhos ou por abertura de diálogo com os encarregados de educação, de molde a que o ensino não se torne um abstracto descarregar de conceitos estranhos à vida e que a maior parte, por não se aperceber para que servem, somente atura e quase sempre rejeita.

Colocar o professor trinta e cinco horas semanalmente na escola poderia ser uma boa decisão se lá houvesse estruturas tais como gabinetes, bibliotecas actualizadas e outros meios de trabalho em quantidade e qualidade suficiente para que o professor, terminado o tempo lectivo, pudesse então preparar aulas, corrigir testes, acompanhar alunos, atender pais. No entanto, como sabemos, não é isto que acontece e os professores, de castigo por qualquer indizível culpa, permanecem nas suas escolas, ocupando o seu tempo em miríades funções, algumas desviadas do papel docente, e terão de ir para casa - roubados do merecido descanso e do apoio à sua família - passar horas e fins-de-semana, a tratar de actividades exclusivamente dedicadas aos vários actos a que bem ensinar obriga, sem remuneração por este trabalho extra e nem sequer reconhecimento dos órgãos ministeriais.

Para tornar ainda o discurso ministerial , sobre mérito, mais absurdo e distanciado do mundo real, aparece agora a peregrina ideia de retirar às escolas a possibilidade de reprovar por faltas os alunos, tão desinteressados do acto de aprender, que nem sequer o esforço mínimo requerível – estar presente na aula – estão dispostos a despender. Para eles, será, provavelmente quando lhes apetecer, feito um especial exame de recuperação!

A minha alma pasma!

Exame de recuperação de quê? Se o aluno não está interessado, se por faltar frequentemente às aulas não pode captar os conhecimentos que lá são transmitidos, o que e onde pode ele recuperar? Espera-se talvez que por um acto mágico, repentinamente, o trânsfuga tenha um sopro de iluminação e debite o que não sabe nem nunca se esforçou por aprender?

Ou será outra coisa pior?

Então se todos tiverem oportunidade de atingir o décimo segundo ano, mas se esse grau de ensino for, subtilmente, desvalorizado nuns alunos e valorizado, por efectividade de saberes ou prosseguimento de estudos noutros, não estaremos a acentuar uma distinção social que virá facilitar a continuidade de reprodução da estratificação existente?

É evidente que não. Tal enormidade não poderá deixar de ser um acto perverso do meu modo de encarar as claras e eficientes medidas da Ministra da Educação, a qual, por opção ideológica, está obrigatoriamente imersa num pensamento socialista de inclusão igualitária por mérito próprio e nunca, por nunca ser, tenderá a perpetuar diferenças pelo acaso de uma mais elevada capacidade socioeconómica mantendo, ao mesmo tempo, o favorável evoluir das estatísticas de literacia nacional.

A propósito parece-me que nos melhores colégios particulares esta disposição sobre faltas não irá ser acolhida e que os mesmos continuarão, apesar da perda de propinas, a expulsar os alunos desinteressados e faltosos.

Que estranhas razões enformarão este tão grande altruísmo?



Publicado in “Rostos on line” – http://rostos.pt

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publicado por Carlos Alberto Correia às 23:57


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