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A Propósito da Fralda do Pai

Sábado, 25.03.06
Faiza Hayat escreve, na Revista Xis, de 25 de Março de 2006, uma crónica sobre o abandono da velhice. Diz em destaque, certamente da responsabilidade da Redacção “Choca-me o desprezo e o desrespeito e a ignomínia de quem assim trata os seus mais velhos”.

Á primeira vista qualquer ser humano, com um mínimo de sensibilidade, estará inteiramente de acordo com esta indignação. Então, porque é que eu, que me confesso leitor assíduo e concordante da autora, me sinto compelido a vir a pública controvérsia sobre este assunto?

É simples.

Poderemos considerar que a crónica está dividida em três partes. Na primeira versa-se o discurso oficial – e o seu eco nos média – apoiado em dados colhidos nos hospitais e em opiniões de técnicos de saúde; na segunda, em jeito crítico, apontam-se hipotéticas justificações dadas pelos familiares para não suportarem os fardos dos seus velhos e, finalmente, a autora interroga-se sobre o seu previsível comportamento em circunstâncias semelhantes.

Quanto ao discurso oficial e à sua intenção de por em andamento “um plano de assistência a idosos” só não me faz gargalhar porquanto a situação vivida pelos idosos e suas famílias é, em si, excessivamente trágica. Primeiro porque os idosos já foram jovens, já deram o seu contributo para a manutenção e evolução social e o Governo, ao estabelecer protecções para estes, ainda e sempre cidadãos, mais não fará que cumprir as obrigações que lhe cabe. Depois, olhando as variadas demagogias tecidas por outras falecidas governações e vendo a realidade do quotidiano, “entra em mim fica em mim presa” uma imensa revolta por tanta hipocrisia e menosprezo pela inteligência de cada um.

Mas disto não tem Faiza culpa nenhuma!

Onde eu penso que reside a sua culpa, embora minorada pela angustiada dúvida, é na presumível aceitação do discurso médico. Sei que é verdade que muitos idosos são abandonados nos hospitais. Sei também que é parte fácil a culpabilização das famílias e que, tantas e tantas vezes, familiares que vão até à exaustão no apoio aos seus maiores, ao tentarem obter um internamento por mais nada poder ser feito a nível familiar, deparam com o discursos culpabilizador por parte de quem muito bem sabe estar perante a solução óbvia mas que, por motivos institucionais ou económicos, não está ou não pode acolher a legítima pretensão dos familiares do idoso.

É mais fácil negar o auxílio culpabilizando o outro.

Que esta generalização me seja desculpada pelos muitos médicos e enfermeiros que lutam, todos os dias, contra a desumanização do sistema. Mas que a culpa não seja também generalizada sobre as impotentes famílias.

A mudança dos tempos alterou, como toda a gente sabe ou sente, o conceito de família, a sua organização, logo a sua capacidade de auxílio. Hoje os filhos moram, quantas vezes, em locais diferentes dos pais e distanciados por quilómetros; habitam casas reduzidas – sim isto pode ser um verdadeiro obstáculo – e têm empregos exigentes, a horas diárias de viagem da residência, que, sob pena de sérias dificuldades económicas não podem perder. Acresce ainda que na legislação nacional nada há que proteja, ou sequer permita justificar faltas de quem tenha que dar apoio a idosos. Então, porque é que os governos não legislam nesse sentido e protegem eficazmente quem quiser dedicar-se a cuidar dos seus ascendentes? Ou porque é que sendo o problema tão antigo e premente só agora, depois de terem destruído as possibilidades familiares e as instituições que as substituíam vêm, como se coisa nova fosse, falar em apoios de retaguarda a idosos?

Muita água vai correr debaixo das pontes até que tal se venha a verificar.

Entretanto todos nós vamos envelhecendo nesta sociedade de desemprego para os nossos filhos, pensando como será connosco e sabendo que eles, por mais angustiados que possam ficar, não terão qualquer possibilidade de resolver os problemas que a idade, a doença e a invalidez nos vão colocar.

Sendo as nossas famílias, cada vez mais, compostas por dois pais e um filho, que um qualquer deus nos valha já que o filho terá certamente muitas dificuldades para nos mudar as fraldas e as instituições continuarão firmemente a olhar para o lado e a produzir, apenas, abundantes e inúteis prédicas moralizantes.

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publicado por Carlos Alberto Correia às 22:45


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