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Momentos para inventar o amor

Sexta-feira, 03.04.20

 

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C  - O bife

 

Encontrarei Valéria, por acaso, no bar. Acompanhada por amigas, sozinha de Elísio. Sentar-me-ei ao balcão, longe dela e do cantor esforçando-se para ser ouvido no meio do ruído dos copos, do vozear a meio tom volvido, por adição, em ensurdecedor contínuo. Pedirei uma cerveja. Sem copo. Por defesa e paranoia beber-se-á pela garrafa para evitar adições mal-intencionadas de drogas ou quaisquer outras causas artificiais de corrosões do espírito. No intervalo das cantigas, revigorar-se-ão as vozes até então mal contidas. E também os movimentos. Essa vaga transportará Valéria. Encalhará um pé na trave do meu banco, oferendo a face ao beijo de proximidade. Dirá gostei do teu conto, mas não entendi porque é que o Bruno teria de se afastar de Líria. É confuso. Percebo que se abandone alguém quando o amor acaba. É natural. Não entendo porque se há de deixar alguém enquanto se ama. À tentativa de explicar-lhe a necessidade de acentuar o efeito dramático responderá com um bocejo de incredulidade. Tal não me parece necessário, dirá, enquanto, apanhada de novo pela corrente, se deixará descair para os lados das casas de banho. Ficará perplexa quando regressar e não me encontrar no bar. Terei descido do balcão decidido a respirar um pouco de ar, livre de fumo. Resolverei não retornar. Saberei que não é tempo de esperar Valéria. Fujo ao encontro. Para mim continuará a ser a mulher de Elísio.

 

Oblata, muito séria, pergunta porque terá o Elísio de afogar-se em vinho?

- Não consegue aceitar a vida sem Valéria.

- Tretas! Romantismo obsoleto. De quantas mulheres poderá ele dispor?

- Para tal teria de estar livre para as aceitar. Não tem, no momento, espaço para tal. A ausência de Valéria atravanca-lhe o horizonte. Não consegue ver mais nada.

- É um completo exagero, Kismet. Podes muito bem aliviar-lhe os traços da depressão.

- Não é depressão. É obsessão. Depressão é aquilo de que Valéria sofre. São praticamente inúteis os seus encontros com o psiquiatra. Ausência de prazer é o veredicto. Algures, no seu cérebro, uma qualquer substância terá deixado de existir ou será produzida em tão pequenas doses que será incapaz de ligar os neurónios adequados. Não acredita que é bela e desejável. Deseja mas não consegue obter satisfação no adquirido. Está sempre à procura de algo que lhe escapa, que parecendo estar aqui, já não está mais e se deslocou para outro lado. Por isso não para. Por tal a inconstância parece ser a sua casa.

- De que cor mais negra pintas a personagem. Por isso te foge o público. Toda a gente está farta de desgraças. Procuram um pouco da felicidade que a vida lhes nega e tu, em lugar de lha proporcionares descarregas-lhe mais neurastenia em cima. És mesmo um caso perdido.

- Ainda não viste nada. Defendo a validade da minha tese. Paixão é diferente de amor. As pessoas confundem tudo. Querem estar eternamente enamoradas. Não percebem que o gasto emocional desse estado é de tal intensidade que, a durar, queimaria a vida de qualquer ser. É preciso um pouco de racionalidade. Convenhamos que a paixão é necessária como primeira aproximação. É preciso que todo o mundo se converta à presença dos amantes. Que nada mais interesse além da proximidade dos dois. Mas, continuasse isto eternamente e onde chegaríamos? Tudo seria delírios e caos. Nem sociedade haveria. Por isso é tão importante matar a paixão.

- E o que fica? O sentimento do dever? O ficamos juntos porque nos comprometemos? Onde é que está o sol que surgia quanto tu chegavas? Não achas troca muito desigual? Retirar a paixão do amor, é isso possível?

 

Elísio telefonar-me-á num momento de sobriedade

Vou deixar esta cidade. Concorri para uma escola na província. Quero afastar-me da vida de Valéria. Sinto que enlouquecerei se o não fizer.

A tua decisão será definitiva?

 Podes crer. Não posso continuar a alimentar este naufrágio. Vou para longe. Para onde o pensamento possa repousar sem o delíquio do que farei se a encontrar, ou o que acontecerá se a vir com outro.

Fugirá da ideia ou será mesmo o ponto final na relação? Não conseguirei dilucidar uma coisa da outra.

Parto definitivamente desta relação. Nem sei mesmo se quererei outra. Para as necessidades chegam as putas. Não dão preocupações. O que queres? Quanto levas? Pagas, desandas e oito dias depois nem te lembras da cara dela.

Tu saberás. Não me parece que a fuga resolva qualquer coisa. No fundo apenas foges de ti e isso, meu amigo, é coisa que nunca conseguirás.

 Vamos ver. De qualquer modo liguei-te para te dizer que não precisarás de ter mais escrúpulos a qualquer relação com Valéria. Eu saio do campo. Entra se quiseres.

 

Sentirei um incómodo terrível. Não saberei como responder a Elísio. Assim, procurando perscrutar os sentimentos de esperança e deceção, sentar-me-ei, ao sol-pôr na esplanada e, de rajada, no modo de esquecer o que me atormenta, escreverei:

 

 

 

Quis-me o autor católico e tímido. Por esses factos, aqui estou, hoje como sempre, sentado na terceira mesa da segunda fila desta esplanada, olhando o pipilar da fonte e os miúdos desnudados, em banhos mais de sol que na contida água.

 

Serei, também, no decorrer do conto, o quanto baste de ingénuo e sonhador. Adequa-se-me a ingenuidade porque, com ela, poderei correr certos riscos e aceitar alguns jogos que de outro modo poderiam passar por estultícia. Calha-me o sonhador em comple­mento desse atributo. Quem se navega pelos fumos da lógica dos sonhos e os antepõe ao que a maioria denomina de real terá toda a conveniência na estruturação de um universo à medida do romântico, que se pretende heroico e não consegue, no seu ser, força bastante.

 

Volto à água. Tomba, por enquanto, entre salpicos de relva. Logo mais, quando a noite quase de surpresa chegar, as luzes do lago acender-se-ão e tornarão mais distantes e imprecisas as árvores do outro lado. Equidistantes do meu ponto de observação ficam as duas esquinas, estas sem nenhumas árvores. Só casas, sem esses breves prenúncios de floresta que resistem no largo, do outro lado. Aquele onde nunca estou.

 

Nas casas das esquinas habitam pessoas e sei de histórias de outras que gostariam de habitar em casas e não o podem fazer. Mas isso são outros contos e, neste o autor não me deixa entrar por esses caminhos. Aliás, como se sabe, é de boa norma delimitar os assuntos e esta é uma narrativa mais ou menos romântica pelo que não deverá perder-se em desinteressantes críticas sociais.

 

Retomemos o rumo certo. A poucos metros, do meu lado direito, fica a Primeira Esquina. Ao centro, comigo dentro, está a esplanada. Alguns metros, para além do meu braço esquerdo, queda-se a Segunda Esquina.

 

Para lá das esquinas nada conheço. Todos quantos as ultrapassam saem do meu ângulo de visão e deixam de ter história. Inexistem. Quem vem da Primeira Esquina aparece sem aviso. A sua presença é impensável até que dobre a esquina e se corporize no súbito de um bico de pé, num passo inacabado obrigando a presumir o anterior, numa sequência posterior de outros que se dirigem ao presente do café, ou até à inexistência, por dobragem da outra esquina. Tudo isto resumindo-se num nada de corpo, numa existência precária, mais movimento ou fulguração que realidade.

 

Eu estou aqui, à espera. No meu estar existe certamente um objetivo, uma necessidade. Aguardo que ela dobre a Primeira Esquina, surja a emoção e se cumpra o determinado.

 

Por isso aqui me encontro, instalado no verão, sentado na terceira mesa da segunda fila da esplanada.

 

 Pelo ardor do corpo e pelo amarfanhado da pele suponho ter voltado da praia. Saboreio a imperial que poderia ter sido mais bem tirada se estivesse colocado na cervejaria. Mas a cervejaria fica lá mais em cima, a meio da avenida, enorme e plana, estendida sem surpresas e sem possibilidade de duas esquinas suficientemente distanciadas para permitir o espaço do cenário e suficientemente próximas para a passagem dela poder ser o campo entre a esperança e aquilo que, não sendo desespero nem frustração, fica no magoado da alma como música melancólica.

 

Não me desagrada, na verdade, ter vindo da praia. Se me fosse possível passaria a maior parte do meu tempo nessa fusão de sal e luz. Que tardes! Quando o saboroso cansaço nos leva a rumar para casa na busca do duche, deixar a salmoura e, antes que o sol se ponha, correr para a esplanada, procurar a mesa conveniente, sentar-me e, bebericando a cerveja, esperar, sem falta, a partir da Primeira Esquina, pedaço a pedaço, o cumprimento da promessa da sua presença.

 

Aparecerá, primeiro, uma das suas pernas, seguida de um braço. Depois a saia leve tendida pelo passo e pela brisa. Num repente solar surgirá de corpo inteiro. As mãos, os cabelos, o peito num balanço cálido de ondas dentro de ondas.

 

Muitas vezes pergunto-me o que será ela para além da esquina. Que fará na vida, fora deste caminho onde cruza o meu olhar? Como nada sei espero o seu avanço até à esplanada e tento adivinhar. Por momentos parece-me saber tudo e desejo que venha sentar-se à minha mesa. Reparo depois que nem sequer sei o seu nome, embora lhe adivinhe os passos e saiba que nunca, por si só, virá sentar-se aqui. Talvez nem sequer pare no café para tomar uma bebida ou fazer um telefonema. Seguir sempre em frente, até à Segunda Esquina, parece ser, imperiosamente, o seu destino.

 

Enquanto os passos a afastam, tento confortar as esperanças caídas. Pergunto-me quantas vezes esperastes por ela e a viste passar, sem um desvio, por pequeno que fosse, entre uma esquina e outra? Esperavas, insensato, que ela viesse ter contigo e sem mais começasse a falar dizendo-te todas as palavras que tu calas? Grande besta sou! Porque raio deveria tal coisa acontecer? Sou católico, mas não espero milagres. Olho para mim e desconforta-me o que vejo. Como esperar então que ela possa ter alguma vez sequer reparado em mim. Ela nem me conhece e não sou tão irresistível que possa tornar-me notado aos olhos de qualquer mulher, apenas por me ter entreolhado. Sou uma boa anedota. Isso é que sou!

 

Além disto, basta olhá-la para sentir a diferença. É perfeita! Nela nada há de destoante. É, verdadeira e meteoricamente, perfeita. O caminho que percorre, só porque o trilha, é mais altar que percurso. Como pensar compartilhar o meu espaço com ela? Tão anódino que sou! Insensatez, meu caro, insensatez. Querias, se calhar, a estrela polar fora da sua rota, mortinha por se instalar ao teu lado!? Não é a mesma coisa? Ai não, não é!! Estás tolinho se não percebes. Então a estrela polar não passa também todos os dias, entre dois limites? Sensivelmente à mesma hora e no mesmo local? E não é bela? E não é presente e inacessível? Os olhos não a seguem, porventura desejando-a? A outra é uma mulher!? Isso que tem? Não são ambas criaturas e igualmente perfeitas?

 

Peço o impossível? Não é esse, porventura, o meu direito? O que está à mão? Qual o merecimento?...

 

Voos… voos inconsequentes é o que fazes. Estás para aí com toda essa filosofia e nem sequer consegues convidá-la para a tua mesa. Aproveita agora. Daqui a pouco ultrapassará o café e atingirá a Segunda Esquina. Força. Um pouco mais e perderás a tua oportunidade. Mais ação. Menos filosofia.

 

Isso queria eu. Ter força para a fazer ficar. Para que o meu desejo fosse o dela. Pois é! Mas eu sou tímido. Nem me serão permitidas certas atuações. Por exemplo, neste momento, apesar da minha vontade e turbação, devo verificar se algum dos circundantes se apercebeu das minhas intenções; se os meus pensamentos se tornaram visíveis, se tomaram voz e gritaram, subitamente, o meu amor, na praça.

 

Olho em volta. Tudo continua como se não tivesse havido tempo. O meu vizinho mais próximo que, quando ela apareceu, começara a levar o copo aos lábios, nem sequer terminou o movimento. Toma agora o primeiro trago. Ela dá outro passo. Na praça o meu olhar é uma súplica. Eu, um desassossego.

 

Antes que outro passo se inicie e o bebedor desça, leve e lento, o copo sobre a mesa, procuro em mim aqueles olhos interiores de tudo sentir e perceber. Os mais completos e clarividentes olhos que ninguém reconhece fora de si e em si ninguém contesta. Iluminado por eles volto-me na direção da Primeira Esquina. Preocupo-me. Se os fechar continuará a haver esquina? Se os fechar continuará a existir o que não sei se existe, do outro lado da esquina? Se os fechar é possível que a esquina desapareça ou não mas quem garante que essa anulação a não arrastará a ela também?

 

De olhos bem abertos sei que nada sabendo dela terei de continuar, até tudo acontecer, aqui sentado, entre duas esquinas, à espera, no, concedo, aprazível local onde situaram a esplanada, desconcertado por me sentir pedaço de coisa nenhuma, títere de um ciclo de existência onde, um dia, acredito, ela terá de vir sentar-se na minha mesa.

 

Se me fosse permitido resolveria este caso rapidamente. Faria com que ela, finalmente, reparasse em mim. Que me olhasse e, nesse olhar, ficasse a saber da minha longa e repetida espera, suspendendo, só por isso a progressão para a Segunda Esquina. Eu avançaria para ela de molde a tolher-lhe o passo. Contar-lhe-ia a minha espera. Um sorriso de compreensão posar-lhe-ia nos lábios. Ver-lhe-ia despontar a emoção por se saber aguardada,  despertar-lhe-ia a reflexão sobre o inexorável de todos os dias passar, à mesma hora, de semelhante modo, no mesmo local, entre duas esquinas, perdendo-se sempre um pouco mais do outro lado, sem a certeza de que no dia seguinte a catástrofe não acontecesse e a Primeira Esquina se toldasse pela sua ausência.

 

Por mim sei. Estarei aqui todos os amanhãs deste verão esperando o seu aparecimento. Dia após dia verei morrer o sol incapaz de a chamar, incapaz de deixar de esperar. Continuarei parado tentando perceber o seu mistério. Além da esquina há possibilidades que me angustiam e a desconfiança de que tudo seja possível e tudo isto tenha um sentido, possua uma coerência. Porque eu sei. Estarei aqui, cada dia mais bronzeado, bebendo a minha cerveja, convicto que, lá mais acima, na cervejaria, seria melhor tirada mas, compreendendo que só neste lugar cumpro o meu papel e me será possível vê-la passar indiferente,  significativa.

 

Como antevia foi o verão passando. O Sol declinava. Ela aparecia na Primeira Esquina. Eu esperava que os seus passos a conduzissem até mim. Ela passava ignorando-me. Eu, desesperado, ansiava o novo dia para que, declinando o Sol, ela de novo aparecesse e eu continuasse a aguardar...

 

 Um dia ela apareceu. Na Esquina. Na Primeira. Trazia qualquer coisa de novo. Seria o ângulo do avanço ou uma subtil transparência de intenções refletidas na biqueira do sapato? Não sei. Apenas me foi percetível, de golpe, a diferença. O dia de hoje não seria como nenhum outro. Era este o dia total, por excelência.. Sobressaltei-me. Algo vai acontecer e não estou preparado. Não sei o que é nem se o desejo. É certo. A minha mansa rebelião tem ensombrado o desempenho do papel que me foi atribuído. É certo. Por vezes sonhei-me outro e quis-me diferente. Mas, por acaso não me esforcei? Não me adaptei e tentei cumprir como quiseram que cumprisse? Não me mantive pacientemente sentado, todo o verão, nesta esplanada, sempre ao fim da tarde? Esperando a mulher que nunca abordarei e me destinaram que aguardasse?

 

Neste momento limite todas as questões são igualmente irrespondíveis. Não há tempo nem vontade. Porque pela derradeira vez ela irá iluminar esta última tarde. Sei que, majestosa, infletirá a costumada marcha no sentido do café. Inicialmente indecisa avançará depois, seguida de olhares e de mim, para o interior. Sei ainda que, agora que posso queimar-me no fogo do seu sol, a tão desejada, a eternamente aguardada, a suma, a inatingível se sentará ao balcão do bar e, ai de mim, com estes ouvidos onde ainda ressoam os roçagares do seu hálito na atmosfera, a irei ouvir, naquela voz adivinhada de pétalas, pedir ao empregado:

 

 

- Dê-me um bife... em SANGUE, se faz favor

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publicado por Carlos Alberto Correia às 20:57

Momentos para inventar o amor

Terça-feira, 31.03.20

 

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B- Noite Menor

 

 

 

- Boa noite Líria venho dizer-te adeus…

 

Olhou-me e fechou o livro.

 

- Estudava a Lógica…não te podes sentar?

 

Pronto! Lá estava a sua descontração, a mania irritantemente calma de ver os problemas. Para chegar a este ponto tivera de vencer todos os meus românticos e ultrapassados sentimentos. Suponho até que devia ter um ar muito ridículo – ainda hoje me dá raiva pensar nisso – em pé, solene na minha decisão.

 

- É que vinha dizer-te adeus…

- Sim!? E isso impede que te sentes?

- De maneira nenhuma…somente me parecia… (parecia o quê? Iria dizer-lhe que era solenidade?)

- … te parecia?

-Nada! Nada de importância.

- Afinal porque partes? Tão de repente…

 

Sempre hão de existir estas perguntas, estes porquês. Ninguém será capaz de aceitar o movimento dos outros sem perguntar porque se movem. Que poderia dizer-lhe? Que me ia porque não suportava a luz dos olhos dela, a sua calma doce, a maneira como respirava, o modo como olhava, a sombra que os cabelos lhe faziam na testa? Entenderia ela se lho dissesse? Entenderia eu se me quisesse explicar?

 

- Porque mais nada é possível entre nós – acabei por dizer.

 

O coração bum-catrapum a bater, a bater e eu a fixar os olhos dela, aquela luz que abominava, não queria perder e por isso abandonava.

Nem uma lágrima ou uma crispação. Apenas um borrifo de incredulidade e ela a dizer-me:

 

- Tão convencional assim?

 

Como convencional! Não percebo francamente o valor das palavras. Que queria ela dizer nestas? Pergunto-lhe? Não, isso seria demonstrar-lhe que me interessava.

 

- Como querias que fosse?

- Não sei, esperava outra coisa de ti.

- Esperavas? Sabias?

- Nós sempre sabemos umas quantas coisas que não queremos saber e as esquecemos voluntariamente.

- Gostaria de dizer-te qualquer coisa de forte, de desolado, mas não posso.

- Amanhã tenho ponto de filosofia. Penso tirar uma boa nota.

 

Uma viravolta brusca na conversa, eu a morder os dedos, ela a morder o lápis.

 

-É!! (Não sei se disse eu)…

 

Queria voltar à conversa, mas ela fugia-me. Não podia ser assim tão simples. Como é que acabava tão facilmente algo que não podia acabar? E ela nas banalidades, como se o assunto não merecesse interesse, a falar nas suas dores de dentes.

Pensava que iria sofrer, por isso preparei o meu discurso cheio de vantagens no acabar.

 

- Visto que já não estudo mais queres acompanhar-me um pouco por aí?

- Com certeza Líria. ( Ia acrescentar “dar-me-á muito prazer” e não sei porque não o fiz).

 

Lá fora, onde eu ia, onde ela ia, onde nós íamos, era primavera. As minhas mãos iam escrevendo um poema quase solitário, um noturno sem Chopin, alguma coisa que estava comigo, mas que não era, nem podia ser, porque nunca existiria. Era como se eu pudesse cavalgar estrelas ou oferecer uma rosa ao oceano. A primavera, ou ela, iam-me dando uma força para criar (alguém diria destruir) o mundo. O meu sorriso era uma negação.

 

- Tão silencioso …

- Não me apetece falar…

 

De novo não era capaz de sair da mediocridade das palavras. Comunica, gritavam-me as vozes. E eu calado …

 

- Entendi – disse-me ela – E pela primeira vez falou.

 

Também não encontrei solenidade nas palavras. Só vazio.

 -  Deixei de ter para ti mistério e novidade. Quando te conheci compreendi-te e sabia o que arriscava. Joguei conscientemente. Nem sei se perdi...

Como retornando de um sonho... Mas tu vais-te mesmo?

Tinha pensado olhá-la nos olhos, mas no chão havia uma premência magnética.

 

- Nós sempre nos vamos, em algum dia e para alguma parte. Não somos estáticos. A nossa doçura é semeada de lanças e bicos de flechas. Por muito que nos desviemos, algumas nos tocarão.

- Sei que não devo sondar os teus motivos.

 

Uma pergunta camuflada, a maestria das seduções menores.

Um cheiro mais volátil no ar e a vontade de acariciar-lhe os cabelos. Desejo!

 

- Que são motivos, Líria? Alguém os sabe? Que me levou a ti, sabes?

- Não. Não sei.

- Foi o mesmo que nos separa.

- Só eu me revelei. Tu és o mesmo enigma. Não é uma queixa, é uma verdade.

Tens uma maneira reservada de te dares Bruno. Sei que não me enganarei se disser que foste meu sem reservas. No entanto, não te conheço. Será que alguma vez te conheci?

 

Somente eu não seria capaz de explicar sentimentos com palavras.

 

- Não será tarde para andarmos na rua?

- Não, não é. É sempre demasiado cedo para deixarmos de resolver os nossos problemas.

- Porque és tu tão friamente analisadora? Às vezes  não sei se és uma mulher se um cérebro positivo perscrutando o porquê de todos os meus atos.

- Desculpa! Se o fazia, nunca tentei desvendar intencionalmente aquilo que me fechavas.

- Não é isso que me parece...

- Muitas vezes nos enganamos. Pensaste bem na tua decisão?

- Pensei...

 

Aí estava a tentar dominar novamente. Sentia-me bem a falar com ela, com o meu mundo nos modos dela ser, até que isto sucedia e então...

 

- Sabes Líria, acontece-nos quando estamos longe, pensarmos muito em tudo o que deixámos. Os dias e as noites sucedem-se e nós não chegamos a acordar. Sempre no sonho mais lindo embarcados.

- ...

- Não, não é poesia o que te digo. É a verdade que me habita... quando um dia voltamos, tudo é diferente. Não sei se o tempo fez as coisas mudar, se fomos nós que, sonhando, nos afastámos da realidade. O facto é que, quando voltamos, não encontramos o que esperávamos. Sempre voltamos à procura de algo que não existe.

 

- Acontece somente que ainda não partiste. Segundo dizes e porque dizes acredito, vais partir. Isso é futuro e falas-me como se já tivesse acontecido. Não entendo a tua segurança.

- Que sabes tu, que sabemos nós, sobre partida? Há muitos dias que parto de ti, que me afasto de uma maneira lenta e segura. Dói-me mas sabe-me bem.

 

Finalmente falava. As palavras saíam-me saboreadas. Uma sonoridade aberta. Eram livres e cada sílaba vivia. Uma independência que formava um mundo. Vinha de mim esse mundo. Surgia da descoberta de um caminho. Sabia agora que nada era eterno. Todos os amores, todas as lutas eram luzes na demarcação de uma pista.

 

- Queres então dizer que entre nós não há nada, não houve nada? E o amor, afinal?

 

Era mais mulher na sua ansiedade descomposta. Não chegues a chorar. Serei forte enquanto não souberes isso. Não descubras agora, neste momento. Por favor! Tenho de chegar ao fim, tenho que me cumprir.

 

- O amor existe. Vendo bem as coisas eu amo-te…

-…!!

- … mas amar-te não é ficar preso a ti. É viver. Um pássaro numa gaiola, por muito bem que cante, não cumpre as suas asas. Eu sou filho de uma inquietação. Só seguindo o caminho que a cada momento faço e descubro, te poderei amar. Dantes era muito novo para o saber. Tinha egoísmos implantados no coração. Deixei de ser convencional e abri o espírito. Por isso me vou.

- Não seria mais lógico, se me amas, que ficasses comigo? Repara que não te peço nada. Apresento a defesa da minha causa. Não sou tão segura como pretendo. Por dentro sou toda incerteza e pequenos nadas de complicações. Tu és-me necessário para que também me cumpra. No fim, ambos somos egoístas. Um de nós irá perder.

 

Quase podia acrescentar que ela pensava não perder. Para não responder, mandei os olhos vaguear na placa iluminada. Um nome de rua, um nome de mulher e uma voz, incorpórea, vinda de todos os sítios, batendo na luz, ficando no escuro, triste canção que me vivia nos versos de uma praia que o outono tomava nos braços, feitos de marés e brumas.

 

Líria disse-me:

 

- Ouves?...

 

Nada disse, porque dizer seria não sentir. Encostou a cabeça no meu ombro e os cabelos tocaram-me os lábios.

 

- Para quê?

- Será necessário que todos os atos tenham obrigatoriamente um sentido racional? Não poderemos agir por impulsos? Entende-o assim.

- Desculpa…

 

e a vontade de dizer-lhe amor, de a estreitar a mim, dizer-lhe que éramos loucos, que só tínhamos uma vida…

… era aí que estava tudo. Só uma vida, uma vida para a qual não tinha uma explicação, uma coerência. Tentara encontrá-la nela, naquele amor que me surgira, julguei-me quase certo e de orgulho cheio. Um dia, igual a tantos outros de ansiedade, quando nos braços de ambos vogávamos, pensei que tudo estava terminado. Ela era  aquele corpo que vibrava junto de mim. Nada mais tinha. Sempre, pelos tempos do tempo, seríamos uns desconhecidos na ideia fácil de nos conhecermos. Teríamos filhos, dúvidas, discussões e talvez felicidade. Porém a partir daquele momento sabia que a pergunta andaria de novo dentro de mim – “Foi para isto que vim? É pouco, quero mais”. Deixei cair os braços e quando ela estranhou disse que estava doente. Notei a preocupação nascer-lhe nos olhos e fixar-se-lhe no rosto. Quando disse:

 

- Encosta a tua cabeça a mim – senti uma agonia surda e disse-lhe ríspido:

- Preciso de me ir, quero ar. Sinto-me sujo por dentro.

 

Nesse dia ela sofreu e não sei se compreendeu que me começara a perder, porque, no dia seguinte, mais cedo ainda que o habitual, a fui buscar. Era pouco depois do nascer do Sol. Do arrependimento da brusquidão viera-me uma capacidade de compreensão da felicidade tão grande que não me lembro de outro dia como aquele. Parecia que a manhã fora talhada num canteiro de flores. Nunca mais houve outra assim.

 

Depois dele a noite já não era um tempo físico. Havia-a em mim àquela hora. Uma noite completa, sem tréguas, mas que eu reduziria pouco a pouco.  A noite de chegarmos a casa de Líria, vê-la parada no umbral, ainda não acreditando e eu a afastar-me, a afastar-me…

 

… Bruno…! O grito veio-lhe da alma.

 

Julgo que deve ter subido as escadas a chorar.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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publicado por Carlos Alberto Correia às 11:43

Momentos para inventar o amor - A - A profundidade das coisas

Sábado, 28.03.20

 

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Kismet manipula fios. Debruça-se sobre o palco. Oblata segue-lhe os movimentos.

 

- Sempre procurei a profundidade das coisas.

-E encontraste-a, Kismet?

- As coisas, sim; a profundidade não! Pergunto-me se a procura seria correta ou mesmo desejável. As coisas são o que são. De nada serve buscar causas primeiras. A demanda de transcendência promete inalcançáveis, envenena a vida. Entranha desejos. O que é afinal a profundidade se não a distância entre o que se tem e o que se presume alcançar?

- Dizes tudo isso e, no entanto, parece-me nunca teres deixado de a procurá-la. Tem algum nexo esquadrinhar o propósito dos atos quando eles derivam, só e apenas, do necessário, do contingente? Nunca te cansas de estar sempre a fazer o mesmo?

- A fazer o mesmo? Como te enganas. Ainda que assim pareça, nunca o é. Há pequenas coisas que mudam. É o somatório dessas alterações, quase impercetíveis, a causa dos grandes momentos.

- Não diria tal ao ver-te continuadamente nessa posição, mexendo cordéis, fazendo movimentar os bonecos tempos sem conta, até parecerem estar vivos.

 - Supões o contrário?

- Qual é a tua ideia? Então eu não escrevo os argumentos contigo? Não sei que apenas fazem o prescrito? Só lhes concedemos as ações pretendidas.

- Isso é o que pensas ver e saber. Não te apercebes, como eles, do caminho percorrido.

- Ora, ora, queres-me fazer acreditar que os bonecos sentem e reagem ao que os pomos a dizer. Essa não! É demasiado!

 

Kismet embrenha-se mais na manipulação da cruzeta, repuxa fios, provoca movimentos, transmuta a voz, desliga-se da conversa, compenetra-se no articular do fantoche, provoca-lhes a dobragem dos joelhos, o levantar do braço até à cabeça inclinada, induzindo a sensação de alguém mergulhado no mais profundo de si. Oblata, sabendo-se dispensável no momento, abandona o recinto, levanta os panos pretos que rodeiam o pequeno palco, sai pela porta da narrativa, colocando-se, temporariamente, em oblívio.

 

 

Sentir-me-ei meio embriagado de espaço. Verei o sol a baixar no horizonte, o rio a marulhar calmo nas pedras da escadaria. Estarei sentado no murete no lado da coluna da direita do cais, pensar-me-ei lá mais abaixo, no local onde a água beija a pedra, olhando, como sempre o longo do rio. Na ponte passará o tráfego semelhante a manchas deslizantes. Tu chegarás e juro, dar-se-á uma mudança no ar. Coisa subtil, no vértice da perceção. Obrigatoriamente olhar-te-ei. Os sóis de verão ter-te-ão passado pelo corpo, morada de perfeição. Vestirás de branco, em contraste com o moreno da pele, da cor da madeixa, estreitando da frente para trás, ao correr dos cabelos pretos, apanhados no local onde o calor te perlará, de leve transpiração, a nuca. Saberei de imediato. Em ti o destino. Repararás distraidamente em mim. Ao ondular da brisa juntarei a tua mão a resguardar o leve movimento da saia. Virás porém, acompanhada e desatenta. Não poderás adivinhar as consequências deste encontro. Após o primeiro instante desviar-te-ás para os amigos, para conversas onde não estou. O teu nome será Valéria. Poderei compor a antecipação.

 

 

 

 

Kismet enxuga o suor do rosto. Naquele momento a história sofria uma aceleração. Chamou Oblata.

- Preciso de ti. Tenho as mãos ocupadas. Vou fazer entrar novas personagens em cena. Tens as falas contigo?

Oblata procura o guião e resmunga.

- Não gosto do papel do Elísio. Não o acho digno.

- Ora, ora, porque hás de refilar quando o pomos em cena? Repete apenas o papel que lhe destinámos, aquele que permite o prosseguimento da história. Além disso temos de acarrear alguma ênfase dramática para a peça. Combinámos, desde o início da composição do texto que este, por ingrato que fosse, seria o seu papel. Agora é tarde para o mudarmos. Teríamos de alterar o roteiro todo e mesmo as ações e caráter das personagens. E o que ganharíamos com todo esse trabalho? Uma peça melhor? Não o creio, nem sequer tu, posso apostar. Acordámos, desde o início que Elísio teria a mulher possível, não a desejada. Calhou-lhe porque ele estava ali, naquele lugar, naquela situação, naquele momento. Se não lha atribuísse, se a expectativa se gorasse, procuraria certamente alguém mais disponível. Ninguém está para perder muito tempo. Aceita-se o que aparece e colhem-se os melhores frutos. Tudo presta enquanto dura. Depois vai-se à vida, até à próxima e passa muito bem. Telefonas? Provavelmente!

 - Continuo a não gostar desse papel. Além disso parece haver uma certa incongruência. Se vais torná-la a musa de Cursino, se ele a vai ver como o ser excecional a iluminar-lhe a existência, como poderá ela ser tão pouco importante para Elísio?

- É aí que te enganas. Ele apenas parece despegado por defesa, insegurança. Sabe como ela é desejável, adivinhou há muito que não passa de um entreato. Da espera de uma outra coisa ainda por definir. Defende-se aparentando desinteresse, mas morre por dentro no receio de a perder. Porém, quanto mais medo tem, mais parece desprender-se.

- Eu sei, mas não aceito muito bem esse tipo de comportamento. Faze-lo parecer um frouxo e ele não o é. Mais me parece ser tranquilamente desesperado.

- És complicada nos sentimentos. Percebo a tua indignação. No fundo identificas-te com Valéria e repugna-te a inconstância, a traição.

- E não nos assemelhamos um pouco às personagens que criamos? Não sei se devemos continuar a trabalhar neste texto sem algumas alterações. Não gosto de lidar com coisas com as quais me sinto incomodada.

 

Só despertarei o teu interesse à noite, na casa de Elísio. Teremos calcorreado Alfama de ponta a ponta, bebido o suficiente para que o mundo se nos apresente com uma face mais fluida, quase sem problemas. Galhofaremos pelo caminho e cansados demais para irmos para casa, prolongaremos o encontro no quarto de cama de Elísio. Rebentado deitar-me-ei por cima da roupa no seu lugar da cama. Certamente por direito adquirido ao espaço virás estirar-te a meu lado. Poderá o teu gesto ser inocente ou propositado, mas terá consequências. Tocar-me-ás levemente com a mão. Ajeitarás melhor o corpo. A tua lateral cálida ficará encostada a mim. O resto do grupo estará sentado nas bordas da cama ou no chão onde Elísio, pálido, adivinha o a vir. Irás segredar-me, de modo audível, poderemos encontrar-nos amanhã na tua casa? Elísio desmaia. Os amigos correrão a auxiliá-lo. Lançar-te-ão olhares reprovadores e, levado no comprometimento da situação dir-te-ei, nunca me deito com mulheres de amigos.

 

- Revelas a tua preferência por Cursino. Guardas para ele os melhores atos. Deverias ser mais equitativo. Não me parece justo…

- A justiça é uma invenção. Apenas, na maior parte das vezes, para ser referida, ilustrar discursos, manter instituições, na verdade, raramente aplicada. Não há tal coisa na natureza. Vence o mais forte ou o que conseguir um mais elevado números de apoios, o que é ser, de outro modo, o mais forte.

- Isso, isso, o cinismo do criador a surgir à flor das águas. No princípio, antes do verbo, veio o oportunismo.

- Vês como sem quereres me dás razão? O criador é um oportunista. Aproveita-se do material ao seu dispor para, em nome de um qualquer bem quase sempre indemonstrável, fazer o que lhe apetece.

- É assim que te vês?

 

 

Não resisti. Dei-lhe uma bofetada. Ficou a olhar para mim, espantada. A mão, como se não fosse minha, tinha-se levantado, fez um semicírculo no ar. Antes de me aperceber estava-lhe estampada na face, furiosa, enérgica, para de repente, cair como se exausta, certamente envergonhada. Não reconhecia aquela mão. Valéria acariciou os vergões, olhou-me, não disse nada, juntou os seus pertences. Foi-se embora muda, sem uma lágrima, sem voltar a olhar-me. Não sei o que fazer. Desde que ela se deitou na minha cama a teu lado fui possuído por uma vertigem indominável. Logo que todos partiram iniciámos uma discussão que durou o resto da noite e uma boa parte da manhã. Já não tentávamos esclarecer coisa nenhuma. Agredíamo-nos com palavras impensadas, tivessem o peso que tivessem. Ficámos num estado próximo da loucura. Não, não estou a tentar desculpar-me. Sei que não tenho desculpa. Eu próprio não me a concedo. Mas está feito. Queria apenas saber se ela te procurou?

 

Estarás doido ou quê, Elísio? Sabes bem que me recusarei a qualquer encontro. Serei claro, não irei para a cama com a mulher de nenhum amigo. É princípio que defendo. Não o quebrarei por nada deste mundo. Desde aquela noite nunca mais a vi. Irás tentar reconciliar-te?

 

Não faço a mínima ideia. Não sou capaz de encará-la. No fundo espero que ela tome a iniciativa. Isso quereria dizer que me perdoou. Só depois poderei desculpar-me a mim próprio

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 E se não o fizer?

 

 Nesse caso terá o fim do nosso caminho.

 

 

-Como assim que me vejo? Faço o meu trabalho, Oblata. Desespero por vezes. Lembras-te, quando nos conhecemos? Os meus sonhos de grandeza! Esperava vencer todo o mundo, abandonar o toldozinho de robertos onde, por pancadas e gritos, arrancava as gargalhadas aos putos.

- Se me lembro. Agarraste-me sem cerimónias. Trouxeste-me para o teu sonho. Tornaste-o meu. Era grandiosa a ideia de um teatro de marionetas em tamanho natural. Onde é que isso vai. O tempo tudo mudou. Hoje já nem os mais pequenos se interessam por fantoches. Têm a televisão, os jogos vídeos, os computadores, os telemóveis. São uma juventude tecnológica. Bem se interessam por bonecos movidos por cordéis.

- Assim o sonho se despedaçou. Vamos resistindo apresentando peças para casas meio vazias, com meia dúzia de nostálgicos. Não se vai a parte nenhuma. Tantas vezes pensei desistir. Lembrar-me do poder que já tiveram as marionetas. Como foram tão operantes que, por receio do transmitido, levaram à fogueira o Judeu. Agora, houvera ainda censura e nem se dariam ao trabalho de ler os argumentos. Mas não desisto. Esta peça vai tornar-se um clássico. Tenho a certeza…

- Espero bem que sim. Como vais sair da conversa entre o Elísio e o Cursino?

- Por enquanto fica em suspenso. O Cursino vai publicar um conto num concurso literário de um jornal diário. Ganhará o prémio. Vai subir-lhe a esperança, sentir-se o dono do mundo.

- Como vais chamar a esse conto?

- Considerando o estado de dúvida em que está, entre o cumprimento de um principio ético, o desejo por Valéria, a decisão de não ceder ao desejo e de se afastar, lembrado ainda da noite em que se conheceram, da rapidez com que passou, chamar-lhe-á Noite Menor.

 - Será a narração deste caso?

- Nem por sombras. Considera que a poeticidade se dá quando o reconto ou o desfecho se afastam do esperado. É no desvio que se conta o que não é contado, mas se quer revelar.

“- Porque falas por enigmas… Kismet?

- Talvez porque os resolva todos.”

 

 

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publicado por Carlos Alberto Correia às 19:49

Reportagem Barreiro – Romance «Com o cheiro das Glicínias» de Carlos Alberto Correia

Domingo, 16.02.20


A ficção serve-se dos factos mas não é o que foi a realidade

No Auditório da Biblioetca Municipal do Barreiro decorreu a sessão de apresentação do romance «Com o cheiro das Glicínias», o novo romance do escritor barreirense Carlos Alberto Correia, com a participação de João Pintassilgo, Vive Presidente da Câmara Municipal do Barreiro.

O romance «Com o cheiro das Glicínias» foi apresentado ‘a duas mãos’ por Ana Garrido e Filomena Viegas, presidente da Associação de Professores de Português.

No Auditório da Biblioteca Municipal do Barreiro decorreu a sessão de apresentação do romance «Com o cheiro das Glicínias», o novo romance do escritor barreirense Carlos Alberto Correia.

Um intelectual que muito tem dado à cultura do Barreiro

João Pintassilgo, Vice Presidente da Câmara Municipal do Barreiro, sublinhou que o autor é uma figura conhecida, quer pela acção cívica, quer pelas suas crónicas na comunicação social, é um escritor com uma sensibilidade muito especial, de quem olha para o outro e conhece e entende no outro.
Recordou que Carlos Alberto Correia, sendo natural do Alentejo, vive há muito no Barreiro – “a capital dos alentejanos” – sendo um intelectual que muito tem dado à cultura do Barreiro.

Felicidade é ser onda

O romance «Com o cheiro das Glicínias» foi apresentado ‘a duas mãos’ por Ana Garrido e Filomena Viegas, presidente da Associação de Professores de Português.
Filomena Viegas, salientou a sua atracção pelo título do romance, recordando que a ‘glicínia’ é uma flor “significa um certo romantismo”, tem muito de frágil e de forte, e, sendo tão linda é venenosa.
Sublinhou a importância do cheiro da glicínia, o deslumbramento da glicina, um flor que permite reflectir sobre “a plenitude do ser sobre o ter”.
Por outro lado, abordou o personagem Ricardo, que é o herói do romance e protagonista da narrativa, uma conversa de 10 horas, que se estende pelo espaço-tempo de 30 anos.
Recordou que a personalidade de Ricardo é marcada por muitas inflexões, nela emerge a imunidade ao brilho da riqueza, a autoridade com os que corrompem e provocam a corrupção, as marcas do romantismo, a liberdade de expressão e critica, uma personagem para quem a “felicidade é ser onda”.

Empresa o espaço onde se reflecte o traço cultural

Ana Garrido, salientou que no romance dois fios narrativos vão-se entrelaçando entre Lisboa e Macau, numa viagem par o Oriente. O narrador a partir do mundo laboral, desvela-nos o mundo de Macau, não ficando pela superfície, proporciona um encontro com a desigualdade social, a opulência, o avanço tecnológico, a tradição cultural, a honra, o poder das tríades.
A empresa é o espaço onde se reflete o traço cultural.
Por outro lado, a propósito de uma visita do protagonista a Cantão, referiu a inversão de valores, o poder politico a reverenciar o poder económico, a gestão que é jogo e adrenalina.

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Carlos Alberto Correia, referiu todos os factos apresentados no seu romance partem da realidade, esclarecendo que a ficção serve-se dos factos, mas não significa que o romance seja aquilo que foi a realidade.
O Ricardo é um observador dos acontecimentos da sua época, desde os anos 60 até aos nossos dias, desde o conhecido ao pressentido.

No decorrer da sessão assistiu-se a uma brilhante actuação do Grupo Coral TAB, dirigido pelo Maestro Manuel Gonçalves.
De referir que Fernanda Afonso é autora do prefácio, um texto que permite ao leitor um espaço de reflexão e de contextualização do autor e da obra.
A capa, de Pedro Correia, traduz com forte expressividade sentimentos e faz desabrochar os cheiros das glicínias nas suas cores e intensidade plástica.
O livro tem o custo de 12 euros, pode ser adquirido pela KDP – Amazon.com

 

Com o cheiro das glicínias: Romance

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publicado por Carlos Alberto Correia às 16:38

Desculpa meu filho

Quinta-feira, 02.01.20

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Eis-nos chegados aos anos vinte do séc. XXI, com muitas probabilidades de eu, e muitos outros da minha geração atingirmos o término do nosso percurso nesta quase esfera onde, sem parar, rodamos parecendo que a rotação do planeta obriga a um ciclo continuamente repetido de problemas.

 

Sei bem que Marx, na senda de Hegel, anunciou que a história não se repete e, posteriormente terá enunciado que afinal o faz, só que a primeira vez como tragédia e a seguinte como comédia. Não pondo da parte a justeza do pensamento dialético, no dealbar desta década, confrontado com a visão dos acontecimentos e com os relatos do século passado (e só isto transporta a estranheza de começar a sentir ser de outro tempo), principio a aperceber-me de um sentimento de “dejá vu”, de similaridades chocantes, de um sensação de impotência face ao que parece, em interminável repetição, vir por aí quase sem remissão.

 

Se observarmos os primeiros anos do sec. XX, veremos a ebulição do mundo, onde uma classe de proprietários dominava os aparelhos ideológicos, económico, sociais e legislativos, criando e justificando uma situação de desigualdade sempre crescente entre  possuidores e despossuídos. Estes, na maior parte mão-de-obra a raiar a subsistência, eram cada vez mais e mais pobres, os outros eram cada vez menos e mais ricos. Não ouvem aqui o eco de alguma coisa?

 

As diferenças de posses tornaram-se tão extremas que, simplificando, duas guerras aconteceram, criaram-se sociedade proletárias e, perante o perigo, o capitalismo proprietarista, confrontado com o modelo comunista, “inventou” a social-democracia, válvula de escape das tensões sociais que conduziram ao descalabro da guerra, estabelecendo uma proporção mais justa na distribuição dos rendimentos. O Estado tomava em mãos, através de mecanismos distributivos como as taxas de impostos progressivas – pagava mais quem mais recebia ou possuía – do Serviço Nacional de Saúde, do acesso à educação daqueles que poderiam aspirar a ela mas, considerado o estatuto económico e a estratificação social, nunca lá chegariam, e, muito importante, do aparecimento de legislação do trabalho com concessão de direitos aos trabalhadores, da criação de institutos reguladores sobre as atividades económicas, e por aí adiante.

 

Na verdade, este capitalismo de rosto humano apenas escondia medo, hipocrisia e a exploração colonial, transferindo para os chamados países subdesenvolvidos as tensões habitualmente existentes no interior das “sociedades desenvolvidas”, diminuindo, de forma e com intensidades várias, os conflitos intra-sociedades. Nunca a classe trabalhadora destes países viveu tão bem, jamais teria sonhado com perspetivas a abrirem-se com a sua promoção a classes médias com direitos, conforto, possibilidades de consumos além dos de mera subsistência. O modelo era tão cativante que boa parte do mundo, sobretudo ocidental, americano do norte (Canadá incluído) se lhe converteram. Alguns chegaram de forma “natural” a este patamar, outros – como nós – esperaram anos e só pela força das armas conseguiram passar a estreita entrada da menor desigualdade.

 

Tudo foi no melhor do mundo até aos anos oitenta. Aí, com o desaparecer do perigo comunista – falhado ao trocar a construção da igualdade pela competição industrializadora e armamentista - introdutora de novas desigualdades, perdidas as matéria primas baratas por desmantelamentos do colonialismo e neocolonialismo – o capitalismo de rosto humano sentiu-se livre para tirar a máscara e mostrar a face real, na forma de neoliberalismo ou, noutra designação, híper capitalismo. Foram seus arautos e executores Margaret Tatcher e Donald Regan. Este, imbuído do melhor espírito capitalista e protestante clamava ser bom ser rico e demonstrá-lo publicamente. Para tanto ambos, e não sozinhos, iniciaram a destruição de quanto se havia feito no campo do direito e da construção da igualdade, gritando as palavras de ordem, desregularizar, privatizar tudo, mesmo a sobrevivência e a saúde, baixar salários e benefícios, aumentar o lucro de empresas e a riqueza dos empresários. Tudo em nome do bem comum, do investimento, do progresso tecnológico, objeto e possibilitador deste volte face social.

 

Só demasiado tarde percebemos a armadilha. O discurso ideológico que envolvia os desígnios escondidos era cativante, demonstrava-nos o contrário do pretendido e, feitos parvos, embarcámos no comboio do consumismo, deixámos livre as  feras que se alimentam das nossas vidas, demos-lhe a carne quando pensávamos acaricia-las. Foi bem feito!

 

Não nego que pensámos  agir bem. Estarmos a melhorar o mundo enquanto caíamos na falácia do eterno crescimento sem pensarmos que vivíamos num mundo de recursos finitos, lutando para possuirmos cada vez mais objetos, mais coisas inúteis, conquistámos a depressão e a falta de tempo para usufruir dos” gadgets” adquiridos, esquecemos a nossa humanidade e permitimos que a miséria voltasse a instalar-se, mesmo nos países mais ricos, deixando meio mundo a viver na penúria e na revolta.

 

Por isso falei em “dejá vu” e peço desculpa ao meu filho, e aos filhos dos pais da minha geração. Tentámos verdadeiramente diminuir as desigualdades, mas falhámos quando pensávamos estar no bom caminho. Olhem com mais atenção para o mundo. Dois mil e oito foi ontem e, apesar de todos os dramas, parece que não aconteceu. Os seus responsáveis, salvo algumas cabeças que foi necessário sacrificar para aplacar a raiva das massas sofredoras, continuam nos seus postos privilegiados, a fazer os mesmos jogos, a aumentar de forma nunca vista as diferenças sociais, as desigualdades económicas, mais uma vez desregularizando a favor do equilíbrios de mirabolantes “mercados”, de investimentos feitos para tudo melhorarem e que cada vez mais pioram os níveis de vida, as possibilidades de destruir as desigualdades que, quando levadas ao extremo, de que não estamos longe, precipitam o mundo em querelas horríveis e sangrentas. Para lá caminhamos e, alegremente, preparamos a cada vez mais previsível sexta grande extinção. A nossa! Podem ter a certeza de que o mundo não se importará. Do esgotamento de recursos naturais que fizemos, da lixeira em que tornámos o mundo, ele inventará uma outra espécie que se tiver juízo, em vez dos nossos filhos, herdará a terra.

 

Restam algumas esperanças de que a humanidade perceba o perigo e possa reinventar-se. Alguns sinais vão aparecendo por aí. Mas será difícil fugir ao holocausto. Os interesses instalados são demasiado poderosos.  Cegos pela miragem do lucro, não descansarão até tudo ter sido consumido. A não ser que as novas gerações vençam onde nós nos perdemos e plenos de uma nova inteligência percebam e consigam tornar o planeta na casa comum, demonstrando não haver almoços grátis e que todos os atos têm consequências.

 

Por te legar esta década, que será, com muitas probabilidades a última para muitos de nós ,em que se poderá definir se sobreviveremos como espécie ou se chegaremos à destruição mutuamente assegurada é que te peço  desculpa, meu filho, pelo mundo que te deixo. Oxalá possas tornar falsos os receios que me assaltam e tu, e todos os demais, consigam usufruir muitas décadas de felicidade. Para tal é premente tomar atenção e diminuir, em todo o mundo, as desigualdades, mesmo que para isso seja necessário abrir mãos de algumas comodidades, distribuir um pouco mais de conforto por todos, privando-nos de algum daquele que temos em demasia. É difícil, eu sei! Mas, é o único caminho possível.

 

E, já agora, atenção, muita atenção, à água!

 

 

Publicado in “Rostos on-line”

 

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publicado por Carlos Alberto Correia às 12:23

Falo, hoje, de Paixão…

Domingo, 26.05.19

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Ele poderia chamar-se Francisco Ferreira, ela Maria da Esperança. Nomes vulgares, fora das sonâncias doiradas de heróis de novelas amorosas. Moravam próximo e não se conheciam. Cada um vivia o seu mundo, os interesses para os quais se orientaram, ou foram orientados, por causas próprias, educação, origens sociais etc... Como desconhecidos inexistiam um para o outro até ao dia em que, por um qualquer acaso – não vamos aqui discutir esta abstrusa noção – de modo imprevisível, sem premeditação, cruzaram os caminhos. Descobriram-se e o mundo mudou. Desprendia-se dele uma melodia nova, única, inaudível para todos os outros, apenas percetível para os amantes. Magias do coração, poderia alvitrar-se!

 

Fosse como fosse os até aí indiferentemente desconhecidos tornaram-se centro do Universo. Nada existia fora deles, nada poderia ser sem eles, uma estranha completude juntou as suas vontades, sonhos, significados  e porvires. Se dúvidas houvesse o incomparável doce dos beijos, o tremor da toda a terra quando os seus lábios se procuravam, davam-lhe a certeza da convicções absoluta onde mergulharam. O mundo existia, claro! Eles estavam, indubitavelmente, nele, mas, nos momentos de maior deslumbramento, parecia-lhes permanecer apenas por eles e para eles. Que assim fosse pela eternidade, desejavam-se!

 

No entanto, na perfeita comunhão dos sentimentos, algo subterrâneo, sombrio, parecia comer o tempo. Tudo eram momentos. Uma ameaça invisível pairava sobre o sublime dos sentimentos. O que agora fora de inexcedível passava instante, deixando apenas uma leve penumbra do que fora. Sentiam-se instados a agarrar cada momento, a esvaírem-se de plenitude mal acabados de sentir. A sensação passada, manter-se-ia em memória, mas sempre no risco de ser sobrepujada por outro momento, outra impressão. Como não queriam perder nada de quanto houvessem sentido apoderaram-se, para tal, das canções. A cada momento a guardar juntavam a música que o sublinhara. A sua paixão poderia, assim, assemelhar-se a um eterno concerto. Cada melodia faria reviver um momento específico, uma recordação. Por muitos anos que vivessem, se a vida os viesse a separar – que tal não acontecesse - ao ouvir, por vontade própria, ou por sintonia de eventualidade fortuita, qualquer dessas canções, para sempre ficadas suas, fixadas no momento privilegiado do acontecido, seria um pouco como, não perdendo nada de quanto, para além disso,  tivessem vivido, regressassem, por momentos, ao doirado das sensações havidas nos tempos perdidos.

 

Como nós sabemos e Francisco e Esperança fingiam ignorar, os mandos das vidas, o percursos das pessoas, os ditames do império, as dunas das memórias, vieram, de modo vário, roubar toda a quentura das descobertas de cada um no outro, trazendo banalizações, desencontros, enganos e desenganos, até ter Francisco perdido a Esperança  e esta ter-se esvaecido do nome e da vida de Maria. De toda a glória havida restaria apenas o fugaz sentimento despertado pelas músicas e, no momento, a dúvida - somos tão vários e por vezes incomunicáveis - se aquela melodia, a colocar Francisco no auge de uma qualquer extinta felicidade, seria a mesma que Esperança associaria ao momento. Enfim, preocupações de somenos porque, mesmo sendo qualquer outra, em termos de revivência de alma, a mesma sempre seria.

 

Passados muitos, muitos anos de ausência, novas presenças, outras recordações, nem Francisco sabe onde e se vive Esperança, nem esta de Francisco jamais teve notícias e, tendo eu, brusco de vivências sólidas afirmado nada, Francisco, ganhaste com isso, ele, de sorriso melancolicamente irónico, seguramente sábio, remeteu-me para o Principezinho: “quando disse á Raposa que nada tinha ganho por ter sido por ele cativada, agora que a partida impunha a separação definitiva, que isso a faria sofrer e fazer chorar, respondeu ela ter ganho a cor do trigo. Eu não como pão, explicava, por isso o trigo não me dizia nada; agora, porém, ao observá-lo a ondular ao vento verei o louro dos teus cabelos e lembrar-me-ei eternamente de ti. E terminou, penso, dizendo, vai pois procurar a tua rosa, porque ela é única.

 

Por isso, retomou Francisco a palavra, cuidei da minha rosa e guardei um cantinho para a Raposa, que nada rouba ao quanto quero à rosa. De novo sorrindo, desta vez em enigma, foi dizendo, quem sabe se hoje, a Esperança, se ainda viva, ao dirigir-se à Mesa de Voto, não votará no mesmo partido que eu, ouvindo no coração as melodias com que nos habitámos e construímos.

 

É a vida, Carlos, disse-me Francisco, na secção de voto, ao dar-me o abraço de despedida.

 

Publicado in Rostos On Line

 

 

 

 

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publicado por Carlos Alberto Correia às 19:28

O dianho do “crowdfunding”

Terça-feira, 19.02.19

 

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A Procuradoria-Geral da República (PGR), a instâncias do Governo, produziu um parecer em que considera ferida de ilicitude, em dois pontos, a greve cirúrgica dos enfermeiros. No primeiro não me deterei por duas ordens de razão. A principal é não ter tido acesso ao texto completo do comunicado ( só o ouvi referido por membros do Governo ou vi mencionado nos meios de comunicação) e debruça-se sobre minudências de interpretação jurídica, à qual não me atrevo.

No entanto, para conhecimento geral, referirei tratar-se do putativo desacerto entre o constante no pré-aviso de greve e nas ações praticadas pelos grevistas. Já no segundo ponto me encontro em total desacordo com a posição emitida pela PGR, a qual considera ilícito o apoio monetário à greve, por não porvir dos sindicatos que a declararam.

Relembremos que a greve é, por natureza, um confronto, pelos menos entre duas partes. De um lado os trabalhadores, do outro a entidade patronal. É, assim, uma espécie de miniguerra onde cada lado pretende vergar, por meios variados, a vontade do outro. Ora acontece que as partes não têm ambas o mesmo poder económico, e não só. Assim ambas serão obrigadas a recorrer a meios que lhe possam dar vantagens sobre o oponente. Parece-me não restar dúvidas que neste embate, a parte economicamente mais débil será a dos trabalhadores. Isto reconhecido ressalta a necessidade de superar a fraqueza de molde a que ela não se torne obstáculo à consecução dos objetivos.

Todos percebemos que, regra geral, a empresa terá maiores possibilidades de aguentar um tempo mais longo sem produção, que os trabalhadores ficarem sem vencimento por período prolongado. A alimentação, a renda da casa, e muitos outros gastos lá estarão a pressionar o grevista e família, tornando-o, quase à partida, um futuro derrotado. Nem sempre é assim, mas é-o tantas vezes que foi necessário dar algum remédio a esta fraqueza de molde a desincentivar o desânimo que tal conhecimento causaria ao possível grevista, afastando-o da luta.

Sabemos, através da história, que mesmo quando as greves eram consideradas ilegais e sobre os trabalhadores caía o peso da repressão, foram utilizadas formas de solidariedade para com os grevistas e famílias. Foram elas o aporte de alimentos para o pessoal em luta, a constituição de fundos monetários por colegas e amigos, de molde a minorar o prejuízo sofrido por cada um e a proporcionar a continuidade da luta até à cedência da parte contrária. Estes atos estão na constelação dos financiamentos coletivos, o conceito que em português significa, vejam lá a coincidência, “crowdfunding”.

Alguns sindicatos, entre nós o primeiro, salvo erro, o dos Estivadores, institucionalizaram esta ajuda criando um fundo permanente de greve. Sabemos da sua força nas negociações coletivas e de como era/são temidos pelos Armadores.

Por isso o meu desacordo com a PGR quando considera ilícito o financiamento coletivo da greve cirúrgica dos enfermeiros, por não ser o mesmo gerido pelos sindicatos que a apoiam. A argumentação parece-me forçada, sobretudo quando é falácia propalada ser tal fundo uma forma enviesada de luta entre o setor particular e o Serviço Nacional de Saúde. Que a ninguém reste dúvidas do meu posicionamento por este e pretenda das minhas palavras tirar ilações que elas não comportam.

Os enfermeiros têm razão. É um escândalo o que se passa com os seus vencimentos e carreiras. O estafado argumento de que não há dinheiro cai pela base quando confrontado com o dilúvio de euros a tombarem sobre a banca. É preciso ter vergonha e perceber que a defesa do SNS passa pelo reconhecimento do valor dos seus componentes o que, nesta sociedade quer dizer melhores condições de trabalho, vencimentos adequados, carreiras estruturadas. Não o perceber é condenar o SNS à exaustão, ao declínio, à emergência de um setor privado que apenas tratará quem tiver dinheiro e doenças que deem lucro. O mais - e serão muitos - ficarão à porta desses hospitais ansiando que o SNS não tivesse sido desmantelado pela incúria e falta de visão dos responsáveis políticos.

Assim só se pode compreender o posicionamento quer da PGR, quer do Governo, como uma miopia de classe que, na prática, se recusa a reconhecer a legitimidade da constituição de um fundo que permita sustentar uma luta legítima e que pode forçar a parte contrária, falha do argumento da debilidade financeira dos grevistas, a procurar o caminho da negociação, assente em forças semelhantes.

Resta a questão, emocionalmente forte, do sofrimento dos doentes que ficam sem intervenções cirúrgicas ou as veem adiadas. É sem dúvida um argumento poderoso, mas para isso lá está a lei da greve e os serviços mínimos devidamente ponderados. Com esse instituto e na consideração dos interesses em jogo, deverão ser tomadas as decisões corretas e estas não podem passar pelo ato hipócrita, e socialmente marcado, de subtrair a um dos oponentes, a arma que poderá ser decisiva na sua luta.

É para mim seguro que, desde que transparente quanto aos financiadores, o “crowdfunding” é ,à partida, o sopro de ar fresco que faltava ao ritual de greves quase sempre condenadas ao malogro, por debilidade económica da maior parte dos participantes.

Chamemos, pois, os bois pelos nomes e percebamos que o precedente aberto pelos enfermeiros assusta as classes dirigentes, porquanto já perceberam que a novidade aportada por esta forma de sustentação de luta lhes retira espaço de manobra e fortalece, portanto, quem, contra o “status quo”, ousa levantar a voz.

 

Publicado in Rostos On-line

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publicado por Carlos Alberto Correia às 12:31

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Sexta-feira, 02.11.18

 

Urbi (Poemas Datados)

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publicado por Carlos Alberto Correia às 20:02

A UBER AGRADECE

Sexta-feira, 21.09.18

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Tenho, no meu telemóvel, a APP da Uber e, no entanto, nunca a utilizei. Talvez por hábito prefiro esperar a passagem de um táxi e nele encaminhar-me para o destino pretendido. Quer isto dizer que sou um defensor da luta dos taxistas? Se assim o pensaram desenganem-se. Não lhes retirando o direito à indignação e à luta, considero porém que, desde início, utilizaram formas erradas de contestação as quais, por violência verbal e física, retiram senão legitimidade, pelo menos simpatia ao seu movimento.

 

Debrucemo-nos primeiro sobre o serviço de táxi. Durante muitos anos foi o meio alternativo de circulação, mais ou menos rápida, nas grandes urbes ou de deslocações para e de lugarejos onde o transporte público não chega ou é insuficiente. Aqui, irei pronunciar-me, sobretudo, sobre esse meio de transporte na Grande Lisboa. Ao longo dos anos encontrei um pouco de tudo. Desde, a minoria, gente simpática e capaz de ajudar qualquer pessoa em dificuldades, até, muitos, oportunistas que após testarem o conhecimento da urbe pelo passageiro, o levam do Rossio aos Restauradores com passagem pela Ajuda. Nos tempos de antanho, dizia-se, muitos puxavam pelo descontentamento do cidadão de molde a terem matéria de delação para a PIDE. Dir-me-ão, não seriam todos nem muitos, os tempos mudaram, já não é assim. Concedo facilmente, mas, coisas como estas, não deixam de vir carregadas como peso histórico, a que poderemos juntar a má vontade e falta de cortesia de alguns, quando lhes é solicitado um percurso pequeno ou que, por qualquer motivo, não lhes convenha. Ou ainda, lembro-me de tantas, se o passageiro não tem dinheiro trocado para o pagamento a receber pelo motorista, como se não fosse obrigação dele estar munido de meios para fazer trocos, ouvir um seco não tenho retorno e vê-lo ficar, de mau modo, à espera que o passageiro resolva, de qualquer forma, o problema que a ele competiria solucionar. Recordo-me, também, de um caso, entre muitos semelhantes, passado comigo. Por questões pessoais deslocava-me frequentemente à Margem Sul e só voltava a Lisboa, noite adiantada. Na estação Sul e Sueste apanhava um táxi para me conduzir a Sapadores, mais precisamente ao início da Av. General Roçadas, onde então residia. Como é evidente conhecia o percurso a palmo, bem como o custo da corrida. Ressalto que, entre centenas de viagens, isto apenas me aconteceu uma vez, embora tenha tomado conhecimento, por vários meios, de bastantes comportamentos semelhantes. Voltando à história. O procedimento anómalo do condutor, iniciou-se com a pergunta, deslocada àquela hora de trânsito morto, por onde quer ir? Interpelação teste para aquilatar do conhecimento do percurso pela presumível vítima. Tocadas as campainhas de alarme respondi, como se desconhecesse a rota, pelo caminho mais rápido. Começou logo ali o desvio. Não vou maçá-los com pormenores, apenas adiantando que, consciente do logro que estava a sofrer, entrando na Avenida de destino pelo lado contrário ao habitual, lhe disse, siga em frente até o mandar parar. Era a zona da minha residência. Conhecia-a bem e sabia que, a alguns metros do meu destino, ficava uma esquadra de polícia. Ali o mandei parar. Foi então que, reverberando-lhe o comportamento, o informei conhecer bem o preço da deslocação, por fazê-la inúmeras vezes, e o que o taxímetro marcava era quase o triplo do valor habitual. Dei-lhe duas opções: ou eu pagava o preço normal, ou saíamos ambos para a esquadra, mesmo em frente, para resolver o problema. Com o humor como devem adivinhar decidiu ficar-se pelo que seria devido pagar. Não é minha intenção, como é evidente, fazer de casos como tais, um juízo alargado sobre a classe. Apenas pretendo demonstrar que muita gente já se sentiu incomodada, ludibriada e ofendida por alguns taxistas e que, tais desagrados, resultam numa simpatia inicial pelo serviço das novas plataformas.

 

Chegamos assim à Uber. De quantos têm utilizado os seus serviços nenhum relato me foi feito de desagrado. Pedidos atendidos rapidamente, pessoal cortês, carros limpos, percurso marcado no GPS, transparência nos preços, possibilidades de avaliação do serviço. Eficácia e cortesia a toda a prova. O que me leva, então, apesar de quanto acima escrevi, a preferir, com todos os seus malefícios, o abrupto táxi à simpatia Uber?

 

Uma questão clássica da forma de trabalho. Em termos referenciais existe uma classe que dispões dos meios de produção – os patrões – e outra que não dispondo dela aliena o único bem possuído, o tempo de vida transformado em tempo de trabalho. Sobre esta situação, estudada por marxistas e liberais até ao tutano, mais não adianto. Apenas quero referir o facto novo de, no uberismo, termos estes modos clássicos invertidos. A Uber nada possui a não ser uma plataforma informática que gere pedidos e serviços. O trabalhador é, ao mesmo tempo, o seu patrão enquanto detentor do meio de produção (o carro é seu); a plataforma apenas lhe permite chegar a quem necessita dos seus serviços, pagando, por tal, o condutor-dono, uma percentagem pela informação. Por outro lado, a plataforma, permite-se a seleção de quem usará os seus serviços e, como patrão de outro modo, tem o poder de, através das classificações dadas pelos utentes aos condutores, mantê-los em linha ou, não posso dizer despedir porquanto não há uma relação clara de subordinação, afastá-los do acesso à informação necessária para a prestação de serviço. No final, um despedimento sem custos nem indemnizações, uma precariedade vitalícia. Um trabalhador subordinado, que é ao mesmo tempo o proprietário do meio de produção, paga à plataforma o preço por um serviço que ela não poderá prestar se não houver quem disponha de viatura, tempo, conhecimento e vontade para fazer lucrar a Uber. Não é bem neste mundo de relações de trabalho que me quero ver.

 

No entanto ele está aí, é imparável, veio para ficar. Faz parte deste admirável mundo novo onde, dentro de duas ou três dezenas de anos, a maior parte dos empregos conhecidos deixará de existir. Tal como na Revolução Industrial, se não forem tomadas medidas a tempo e adequadas, o custo dos empregos a surgirem na nova sociedade será pago pelo preço do sangue. Não é imperioso que tal suceda, mas, pelo andar da carruagem, pelo nada fazer de impeditivo, é para aí que caminhamos. Com isto quero apenas dizer que, gostemos ou não, teremos de adaptar-nos às relações de trabalho trazidas pelas modernas tecnologias. É aqui que está o enorme erro dos profissionais dos táxis. Na realidade a forma uber traz consigo o modo futuro das relações de trabalho. O pessoal dos táxis, em vez de perceber a situação e atualizar-se, melhorando e adaptando o serviço, decide parar o comboio com as mãos, pondo-se, galhardamente, a meio da linha onde será destroçado. Não me parece forma de resolver o problema.

 

Só conheço a lei sobre a legitimação destas plataformas pelas notícias dos meios de comunicação. Por isso, ignoro a bondade das soluções aportadas. O que sei, é que foram discutidas, aprovadas por quem de direito e têm data marcada para entrar em vigência. Fazer manifestações de táxis parados para evitar que uma lei promulgada deixe de produzir efeitos, num Estado de Direito, é, mais uma vez, não só um erro, como voltar a querer parar o comboio, a toda a velocidade, pondo-se apenas na sua frente. Nada disto leva a nada e só um trabalho eficaz, inteligente e adaptativo das organizações de patrões e empregados desta indústria, poderá, em tempo, formas e locais corretos, introduzir alterações no legislado, avançando para a desejável normalidade e fiscalização destes serviços.

 

Tal como estão a fazer, para obstar que a Lei produza os efeitos para que foi criada, é facilitar a vida do adversário. Por cada táxi parado um uber será chamado por quem necessitar de transporte. Continuem assim companheiros taxistas. A Uber agradece!

 

Publicado em “Rostos Online”

 

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publicado por Carlos Alberto Correia às 19:28

Prioridades e importância

Quinta-feira, 02.08.18

 

 

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Para que não subsistam dúvidas começo por indicar o meu sistema de prioridades: primeiro a família, depois o prédio onde habito, segue-se-lhe   a rua, o bairro, a cidade, o partido onde estou filiado -bem como outras instituições às quais aderi -, o país e, finalmente a Europa.

 

Esclarecidas as precedências posso, sem rebuço, dedicar-me ao tema que anda a atear fogo ao eucaliptal político desta louca estação. Refiro-me, como é evidente, ao caso Robles.

 

Passando por cima das inexistentes ilegalidades fica a questão de avaliar o comportamento e escolhas do referido. Fosse ele cidadão comum e nada haveria a dizer sobre o seu comportamento. Vivemos numa sociedade de mercado, onde o lucro é não só lícito, como fortemente desejável e acariciado. Para muito boa gente não tirar o máximo proveito pecuniário de quanto se possui – ou se possa chegar – abeira-se do pecado ou heresia. Mas adiante! Na verdade, o cidadão Robles não era um simples cidadão. Foram-lhe cometidos, por eleições a que livremente concorreu, direitos e deveres de representação e defesa dos habitantes da cidade. Ao aceitar tal encargo, ficaram-lhe, de imediato, coibidos certos atos socialmente aceitáveis ao público em geral. Entre eles o de perder a coerência entre discurso e prática. Ao fazer o que fez comprometeu, irremediavelmente a validade do seu discurso, a legitimidade da sua representação. Cabia-lhe ter percebido isso e tomar, de imediato, a atitude que veio a tomar, quando já desvalorizada pela arruaça de uma direita sem esperanças nem soluções.

 

Por outro lado, vozes fortes do Bloco, considerando sob ataque a fortaleza, foram tomadas de reações instintivas (proteger o grupo) e vieram à liça defender o indefensável. Poderemos, humanamente, perceber a vontade de terçar armas por amigo ou correligionário a ser retalhado em praça publica; o que já é inaceitável é que membros responsáveis de um Partido Político, cedam à emoção e amizade, vindo a colocar o partido na desconfortável posição de parecer incoerente com as bandeiras defendidas.

 

Vamos, certamente pagar um preço elevado por termos posto as emoções à frente do racional. Infelizmente Robles errou, nas explicações e no “timing”! O Bloco, talvez surpreendido, não foi capaz de marcar a diferença que assume e deixou a ideia de ser mais um partido, igual aos outros, cego pelos laços de pertença, incapaz de aceitar que um erro é um erro e carrega consequência seja para quem for.

 

 Por mais simpático que alguém nos possa ser, por melhor trabalho que tenha ou venha a desempenhar, seria absolutamente necessário que, por mais compreensivas que fossem, essas vozes, reconhecidas como lídimas defensoras de valores constantemente sobre fogo adversário, tivessem a coragem de assumir o erro sem demora e retirar as imediatas ilações.

 

Tal não foi feito e vemos agora alguma direita, raivosa, apontando a dedo o pecado original. Não têm memória nem vergonha. Agitam este caso como se fosse o maior escândalo cometido, por políticos, em Portugal. Vendem, em altos brados, uma virtude que não têm nem sequer procuram, a não ser nos outros. Querem que comece a enumerar os muitos maiores escândalos – esses com prejuízos à escala nacional – dos quais os autores nunca se retrataram e fingem desconhecer? Querem mesmo? Não será melhor calarem-se, olhar para a casa própria e tomar as medidas que a verdade impõe? É que se o Bloco e o seu representante na Câmara erraram, ambos já assumiram culpas. O Vereador Municipal apresentou a demissão, o Bloco veio, publicamente, reconhecer o seu erro de apreciação.

 

Ó Catões estrábicos das políticas e das colunas, quantos dos vossos defendidos já fizeram isso? E que exigência, prioridade ou importância atribuirão a tais casos? Ah! Pois, eu percebo. Não precisam de o fazer em publico como O Bloco e Robles fizeram. Guardam-se para os segredos dos confessionários ou, quando a sorte é adversa, para a barra dos tribunais.

 

Publicado in Rostos Online

 

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publicado por Carlos Alberto Correia às 20:09