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Fronteiras

Terça-feira, 08.11.22

Terra.jfif

Nunca me esqueço de duas afirmações de Carl Sagan sobre a Terra. A primeira é que, vista do espaço, a terra é um pálido (e frágil) ponto azul. A segunda e neste contexto mais importante, é que do espaço não se vêm fronteiras. E ainda, parafraseando António Sérgio – cito de cabeça – uma fronteira é o lugar mais distante a que um estado consegue levar as suas forças armadas.

 

Por isso, qualquer fronteira, é uma linha imaginária político-económica, mais ou menos estável, traçada segundo a força e os interesses de potências temporariamente dominantes. Recorde-se que na conferência de Berlim, decorrida entre 15 de novembro de 1884 e 26 de fevereiro de 1885, foi dividida, a lápis e régua, a África pelas potências, na sua maior parte Ocidentais. Como é sabido não se tiveram em conta a geografia, as tribos e clãs locais e seculares, nem tão pouco as famílias divididas por tais traçados. Esqueceram, ou não quiseram lembrar-se, um conhecimento primordial: o mapa não é o terreno. Assim se criou a confusão, que ainda hoje reina em África, porque o traçado feito em Berlim não respeitou, de forma alguma, as realidades culturais e sociais existentes no terreno. O resultado foram a discórdia e confusões fomentadas entre povos unos, artificialmente separados. Como seria de esperar, dada a mentalidade da época, os mais prejudicados por tal repartição - os residentes nessas regiões ou colónias - nem foram ouvidos, nem tiveram um único representante na conferência.

 

Portanto, idealmente, as fronteiras deveriam ser inexistentes e a Terra seria posse ininterrupta da espécie humana (deixo em aberto a discussão sobre esse direito em relação à restante vida animal). Claro, tal só seria possível se a espécie humana se permitisse elidir o papel de chefias, hierarquias, domínios e sucessões a estabelecerem continuadamente interesses, limites e separações.

 

Chegamos, deste modo, aos problemas atuais das alterações climáticas,  dos refugiados, da guerra da Rússia contra a Ucrânia, do crescimento das extremas direitas nacionalistas, de algum fascínio das massas – que não conheceram as ditaduras imperiais – pelos homens fortes, salvadores de pátrias e sempre, autoritários, a pôr em causa os avanços humanitários e democráticos, numa tendência para a barbárie  a crescer quando os esforços, para fundir voluntariamente os limites territoriais dos países em confederações, mais aptas a defenderem o bem-estar das populações, pareciam estar a ganhar terreno.

 

E isto deixa-me perplexo.

 

Não vivo apaixonado por esta União Europeia, mas acredito que precisamos dela para sobreviver. Quanto a mim - embora de união tenha por vezes muito pouco e só por vezes se lembre daquilo que pretende ser, por se deixar subordinar a valores egoístas das nações mais poderosas ou de oligarquias locais – penso que, no mundo atual, as nações já não serão unidades integradoras suficientes para a geopolítica que se desenha. A traço grosseiro estamos a caminho da criação de blocos alargados, mais consentâneos com os problemas da época em que vivemos, tal como no século XIX se caminhava para a criação de nações, unindo regiões contíguas ou com desígnios socioculturais semelhantes. Estas modificações não surgem do nada, mas são consequências das alterações tecnológicas em crescimento a transformarem possibilidades, necessidades, comunicações e aceleramento nos modos de vida das sociedades humanas.

 

No entanto estes blocos podem ser tão antagonistas entre si, como as nações o foram, dando, no século passado, origem a duas tremendas carnificinas que nunca deveriam ser esquecidas, mas que parecem agora não lembrar a muitos nos comandos das políticas internacionais.

 

É aqui que se me afigura o maquiavelismo das ações de alguns centros aglutinadores dos blocos. A traço grosseiro apontaria para um bloco Sino-Soviético (talvez com a Índia à mistura); para o Ocidental (incluindo a Europa sob gestão dos Estados Unidos) e, finalmente para o religioso/ideológico dos islamismos radicais. Ora estes blocos que visam aglutinar a si diversos povos, procuram incentivar nos outros a divisão através de nacionalismos extremos, como forma de desagregação, a permitir-lhes o domínio da Nova Ordem Mundial. O problema é que qualquer deste blocos propõem modos de vida muito diferenciados. Por isso não é indiferente, embora algumas vezes a escolha amargue, a qual ofereceremos a nossa simpatia ou adesão.

 

Sou ocidental, lutei pela democracia e é assim que quero viver. Não me servindo esta Europa completamente, entre outras coisas pelas ideias de vencedores e falhados, provenientes do nosso antigo cérebro retilíneo, disfarçadas de livre empreendedorismo, de contínua competição neoliberal, do aumento de desigualdades sociais, não me vejo a voltar a regimes autoritários como o chinês, nem a teocracias como as islâmicas. Deste modo, exorto todos a perceberem o que está por detrás de muitos discursos nacionalistas, a não se deixarem levar no simplismo de soluções que aparentam resolver de uma penada os problemas sociais, apontando as culpas a um ou mais grupos profissionais ou de crenças, e percebam que a Democracia tem um custo e um tempo. Se a autocracia apresenta soluções imediatas, a médio prazo transforma cada cidadão em súbdito, cada direito em favor e aprofunda as injustiças através da centralização de poder e atribuição de privilégios apenas aos comparsas.

 

Dirão alguns: isto é o que se passa nas Democracias. Aceito que em grande parte terão razão. No entanto podem denunciá-las e, de formas várias, lutarem modificando o que é considerado como nocivo, melhorando no médio prazo. Já nas ditaduras… traçam-se fronteiras pessoais e de grupo intransponíveis, inaceitáveis e de uma rigidez que apenas, a muito longo prazo poderão ser quebradas, com muito sofrimento, sangue e revolução.

 

Porque as fronteiras que existem na terra partem das fronteiras criadas nos nossos cérebros e todas são limitações indevidas de algo, sou, claramente, anti-fronteiras, sabendo-me, por enquanto utópico, mas acreditando que a utopia é o lugar do futuro.

 

 

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publicado por Carlos Alberto Correia às 17:03

Serviço Nacional de Saúde? Com certeza! Mas assim? Não!

Quarta-feira, 02.11.22

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Sem qualquer dúvida o Serviço Nacional de Saúde (SNS) é uma das maiores conquistas civilizacionais do nosso povo. Deverá ser acarinhado pelos utentes e estimulado pelos governantes. O serviço que presta é indispensável e, presumo, de qualidade. Deste modo há que preservá-lo, melhorá-lo e alargá-lo cada vez mais, quer em cobertura populacional, quer em especialidades e atualizações.

 

Posto isto, como não há bela sem senão, vou tentar relatar uma experiência recente, tencionando manter-me sereno e compreensivo, não entrando em diatribes negativas ou emocionais.

 

Assim recebi a informação de familiar muito chegado, a sentir-se mal, comunicando-me que iria chamar o 112 para o conduzir às urgências, com a especialidade de que necessitava, porquanto, ligando para hospitais do SNS e mesmo particulares, nesse dia, sábado 29 de outubro, nenhum disponha de especialistas, nas urgências, para o seu caso. O 112 foi rápido a responder e trazia, como seria de esperar, a informação da urgência dessa especialidade, no caso vertente o Hospital de Santa Maria, para onde estava a ser dirigido.

 

Como penso ser normal nestas situações, meti-me no carro e rumei também para esse hospital.

 

Cheguei bem depois da ambulância. Após alguma tribulação para parquear o carro, dirigi-me às Urgências, uma pequena sala repleta de bombeiros e outros serviços de transporte de doente, de pessoas chegadas por meios próprios à espera de triagem e por um sem número de gente à procura de informações sobre familiares chegados às urgências. Tirei a senha conveniente para o meu fim e aguardei a chamada. Na maior parte do tempo, que me foi dado observar, apenas um dos dois guichés tinha um atendente. Raramente os dois se encontravam presentes. Como será de esperar o tempo de espera torna-se longo, pelo tempo em si e pela angústia de cada um. Mas, enfim, lá consegui ouvir chamar pelo número da minha senha. A esperança durou pouco. Apenas me confirmaram o que eu já sabia. A pessoa tinha entrado nas urgências e aguardava diagnóstico. Perguntei como, onde e quando poderia obter informações mais detalhadas e, como resposta recebi um só aqui! Espera mais uma hora, tire então nova senha e aguarde a chamada. Assim fiz. Seria pelas treze horas. Às catorze lá estava a tirar a senha e aguardar pacientemente a chamada, um tanto ou quanto desesperado porque o número de esperantes aumentava a olhos vistos e, compreensivelmente, os transportados pelos bombeiros e os que aguardavam triagem tinham natural precedência. Quando chegou, por fim a minha vez já perto das quinze horas, disseram nada ter ainda a reportar e voltasse a repetir todos estes movimentos pelas 16 horas. Assim fiz, com os mesmos resultados. Desesperado perguntei de novo se haveria outra forma de obter qualquer informação sobre o estado, necessidades e possibilidades de contactar o doente. Não senhor, não havia. Apenas daquela forma e ali, me seriam dadas quaisquer notícias. Perante a minha exclamação, ainda contida, de que esperava à quatro horas por uma simples informação, foi-me dado um conjunto de números de telefones para, só após as vinte horas, ligar, Aí teria toda a informação pretendida. Trouxe os números, mas já em mim residia alguma desconfiança. Por isso, decidi recorrer a meios de informação alternativos – em Portugal não se consegue passar disto – e lá soube estar o meu familiar nas pequenas cirurgias, já em tratamento e à espera do cirurgião. Ainda, na noite de sábado a mesma fonte informou que a intervenção correu bem e o doente ficaria até 48 horas no SO, em observação.

 

De qualquer modo, para testar o sistema, às 20 horas comecei a ligar para o número direto das urgências. Duas situações se punham: ou o sinal era de impedido, ou quando chamava, durante longos minutos ouvia o bip constante até que a conexão se desligava automaticamente. Usando o número geral, a voz mecânica mandava-me premir a opção 1 e com o sinal de chamada a soar esperava até que a mesma voz, como se eu tivesse ligado de novo, me mandava premir a opção 1. E isto repetia-se sem parança nem atendimento. Esta manhã voltei a tentar todos os meios indicados, com o mesmíssimo resultado.

 

Concluindo, não querendo atacar os funcionários assoberbados por múltiplas tarefas, alguma coisa naquela organização está mal. Se não há gente para atender os telefones, não os entreguem, semeando esperanças sem sentido. É um perfeito suplício passar horas a tentar saber umas simples informações sobre o estado de um ente querido e esbarrar na insensibilidade dos bip-bip sem resposta. Um maior respeito pelo cidadão obrigaria a organizar esses serviços de forma a obterem-se as explicações mínimas, evitando a corrida a deslocações ao serviço, só a acrescentarem caos à confusão.

 

Sei que é um facto menor e não tenho dúvidas de que o meu familiar foi bem cuidado, porém este sistema só cria angústia e alvoroço a toda a hora. Separem a receção de doentes das informações. Tenham alguém a atender apenas os telefonemas, que presumo serem muitos, e evitarão as confusões, aglomerações, irritações e casos a derivarem para confrontações a assaltarem quem espera, sem culpa deles e da sua ansiedade, bem como dos funcionários incapacitados de atenderem todos os casos com prontidão mínima.

 

É apenas um caso menor de organização dos serviços. Façam lá um esforço senhores administradores. Se calhar, um simples serviço de SMS, para pessoa indicada pelo doente, poderia resolver estes casos, com benefícios para os funcionários, os doentes, a família e para o ambiente, por menor recurso a deslocações de carros, com as suas descargas,  a poluírem ainda mais o ar da cidade.

 

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publicado por Carlos Alberto Correia às 11:10

Do fim da História à aceleração dos acontecimentos

Domingo, 02.10.22

 

 

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Quando perante a queda do Muro de Berlim, Fukuyama declarava galvanizado o fim da História, isto é, a chegada da Humanidade ao objetivo maior do seu percurso, esquecia o essencial do ser humano, das sociedades e, mesmo do Universo. Deixava, orgulhosamente, de lado o conhecimento de que a mudança é a regra, o caminho de todas as coisas.

 

Tenho escrito que o nosso tempo é uma esquina da História. Tal como quando caminhamos em qualquer rua nunca sabemos aquilo que, passada a esquina nos espera do outro lado, o mesmo se passa neste metafórico cotovelo. Podemos especular, criar hipóteses, aventar teorias, mas tudo isto não passa de um “eu penso que…”, podendo ser contraposto, com legitimidade e força, por qualquer outra afirmação por mais oposta que seja. É ainda útil acrescentar que os acontecimentos, a História em movimento, apresenta, em momentos variados, acentuadas alterações de ritmo. Vai do parecer parado das tradições – que nunca são o que eram – até à alucinante corrida em que parecemos flutuar, em risco contínuo de afogamento, nos tempos de aceleração histórica, normalmente frutos de mudanças tecnológicas a arrastarem transições sociais e económicas inesperadas as quais, realimentando as alterações tecnológicas aceleram em círculo, mais ainda, essas transformações.

 

Assim, neste nosso tempo, ao darmos o passo para transpor o limite da esquina de onde vínhamos e ao encarar a nova extensão do outro lado do cunhal para onde nos deslocávamos, poderemos ser atingidos por situações e acontecimentos cheios da estranheza do como é possível até à sensação fulminante do afinal já esperava isto.

 

É este o sentimento que nos apanha nesta vintena de anos do século XXI, quando, ao invés da paragem da História, das águas planas de um mundo unificado perante uma ideologia absolutamente vencedora, inamovível, plena, nos deparamos com crises, pandemias e guerras consideradas impossíveis a demonstrarem a imprevisibilidade dos tempos.

 

Ainda do lado de lá da esquina, em conversa com amigos, declarava, com a mesma empáfia de Fukuyama, que a questão de excesso de população no mundo era resolvida, por norma, de três formas: a primeira seria a de uma epidemia, a ceifar vidas e a repor níveis populacionais consonantes com os meios disponíveis para a sobrevivência dos restantes; o segundo seria a plaina da guerra com o seu exército de mortos, de refugiados, de alterações fronteiriças e, finalmente, a possibilidade sempre presente, de melhoramentos tecnológicos a permitirem a ultrapassagem do problema. Havia, porém algo que, com força, eu garantia: uma única destas três possibilidades estava “absolutamente” fora de cena. Aceitava a eventualidade de guerras, o progresso tecnológico, mas, afiançava eu, os avanços imensos da ciência médica afastavam, definitivamente, os medos de qualquer epidemia. Como todos sabemos a minha convicção foi um erro astronómico.

 

Ainda não recuperávamos dos efeitos pandémicos e crises económicas deles derivados e zumba!!! Cai-nos em cima uma inacreditável guerra destruindo vidas, bens e convicções, trazendo ainda com ela a possibilidade – em que continuamos a não querer acreditar – de um possível holocausto nuclear.

 

Era aqui que queria chegar. Parece-me impossível que qualquer ser humano, ou qualquer grupo, ou nação, sabendo não haver vencedores num tal conflito, possa para ele avançar esquecendo a doutrina da destruição mútua assegurada. Mas eu disse “parece-me”. Com os exemplos atrás apontados de erros de presunção, já não estou seguro de nada e começo a aperceber-me de que, em todo o Universo, a única coisa infinita será a loucura humana alicerçada em ambição e poder. Sonhos nefastos de propagadores de desgraças cujas certezas absolutas só trazem destruição e dor ao mundo. Sou intrinsecamente contra a pena de morte, no entanto, por vezes, dou comigo a pensar se, apesar de tudo, o mundo não seria mais seguro, ou pelo menos sereno, se certas pessoas nunca tivessem existido.

 

 

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publicado por Carlos Alberto Correia às 19:39

Romance «A Caneta Infeliz», de Carlos Alberto Coreia

Sábado, 17.09.22

livros

Barreiro –

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É, talvez, isso: “movemo-nos em linha de montagem”…na sobrevivência.

Um romance que permite pensar o tempo e como na vida, entre os sonhos e o real, o acaso, as circunstâncias, deixam sempre uma porta aberta para sonhar, e perante todo e qualquer libelo que silencie a memória, restarão sempre os livros, e, talvez, a poesia que ficam como um grito para além do... “não ser da eternidade”. A morte é o infinito.
«A vida engole o Álvaro. O Álvaro engole a vida.», afinal a morte é o infinito!


Romance «A Caneta Infeliz», de Carlos Alberto Coreia. Li o romance «A Caneta Infeliz», de Carlos Alberto Coreia, já lá vai algum tempo. E só hoje, optei por escrever uma nota comentário sobre o romance. Recordo, que a seu convite participei num jantar, em Junho, ali, em Casquilhos, no Restaurante «Pega e Leva», onde o meu amigo regulamente almoça com um grupo de professores e amigos. Esse encontro-jantar teve por finalidade apresentar o romance e dar um abraço a Duarte Barreiro.

Carlos Alberto Correia, na abertura do seu romance, sublinha que Duarte Barreiro, proprietário do restaurante, num desses almoços regulares, teve dificuldades em utilizar a sua esferográfica, e, nessa situação, terá utilizado a expressão: “Eta! Caneta Infeliz!”.
E, foi assim, por um mero acaso da vida, que nasceu o título do romance : “A caneta infeliz”.


Nesse jantar, de forma espontânea, no meio de palavras que se cruzavam, escrevi um texto, através do qual pretendi expressar a minha visão da leitura do romance de Carlos Alberto Correia, que tinha acabado de ler no dia anterior, e, dessa forma dar o meu abraço de gratidão ao escritor, agradecendo-lhe de forma simbólica a agradável a leitura que me proporcionou e a viagem pelas estórias que fazem a história da condição humana.
O texto que escrevi, na tolha da mesa, e ofereci ao Carlos Alberto Correia, a propósito deste seu 3º romance, foi este que transcrevo:

O Álvaro tem um sonho.

A vida é uma tragédia.

O Álvaro vende o sonho.

A vida consome o Álvaro

O Álvaro hipoteca o sonho.

A vida engole o Álvaro

O Álvaro engole a vida

É vida!

O romance de Carlos Alberto Correia é, na verdade, uma lição de vida, sobre a vida. A vida onde somos trucidados. A vida que erguemos sempre que desobedecemos. A vida como diz Álvaro, onde, “movemo-nos em linha de montagem”. A vida é dura. As circunstâncias. Os gritos. Os sonhos. A vida nas cidades, nas empresas, na nossa rua, em cada rua feitas de estórias e de silêncios. Escolhas. Uma sociedade que, cada vez mais nos obriga a viver o tempo do já, como Álvaro recorda a sociedade moderna, não tem tempo para leitura ou escrita – “funcionamos em circuito fechado”.

O romance «A Caneta Infeliz» fala-nos de tudo o que somos e de todos os temas que fazem o tempo que somos. Talvez, cada um de nós, se encontre, em mimesis, nos contextos, nos factos, nas memórias de antes de Abril, ou até mesmo depois de Abril. Um romance que através das circunstâncias, dos sonhos do Álvaro, ou até de projectos da comunidade, de jogos políticos, de conceitos culturais, de lutas e diálogos, os partidos, as relações humanas, o prestar serviços, a submissão, os tormentos, as depressões, as prisões, as fugas, a emigração, a clandestinidade, o amor, a memória, a consciência e outras questões, afinal, um romance onde está de forma plena, em totalidade, a vida das gentes do meu país, nesse tempo que Abril estava por nascer, e, nas conversas com palavras sussurradas, a tocar nos nervos, foram-se inscrevendo no quotidiano, ao longo do tempo e das vidas vividas e matadas, todas as sementes que continuam a germinar, nos dias de hoje, nas angústias de um Portugal por cumprir e na individualidade de cada um quando pára e pensa a busca de um sentido para a vida.

 Neste romance sentimos as ideias borbulhar nas estratégias e tácticas que consomem a vida, embrulhadas em ideologias, que são meras coberturas de chocolate. Há sempre alguém que como o bolo – na resistência ou na Liberdade.

 É por tudo isso que, na realidade : “A vida engole o Álvaro. O Álvaro engole a vida.”

 O romance de Carlos Alberto Correia é sobre tudo isto, sobre o preço da vida, das vidas que se compram e se vendem, sobre as ideias que se esgotam nos esgotos, das quezílias barulhentas da sobrevivência, uma viagem pura e dura, por dentro da beleza dos sonhos e da tragédia da própria vida.

 Um romance que permite pensar o tempo e como na vida, entre os sonhos e o real, o acaso, as circunstâncias, deixam sempre uma porta aberta para sonhar, e perante todo e qualquer libelo que silencie a memória, restarão sempre os livros, e, talvez, a poesia que ficam como um grito para além do... “não ser da eternidade”. A morte é o infinito.

«A vida engole o Álvaro. O Álvaro engole a vida.», afinal a morte é o infinito!

É, talvez, isso: «movemo-nos em linha de montagem»…na sobrevivência.

 

 António Sousa Pereira

 

Nota – O romance «A Caneta Infeliz», de Carlos Correia, pode ser adquirido no Amazon.com.br  https://www.amazon.com.br/Carlos-Alberto-Correia/e/B07K14R2MS%3Fref=dbs_a_mng_rwt_scns_share<br< a="" style="box-sizing: border-box;"> /></br<>

 

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publicado por Carlos Alberto Correia às 20:45

E no futuro?

Segunda-feira, 31.01.22

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Pronto! Está feito! O PS ganhou, para espanto de muitos, eu entre eles, com maioria absoluta; o PSD, passada a girândola das sondagens portadoras de onda vitoriosa, cedeu e vai começar a enfrentar litígios internos para descobrirem o novo líder que os há de guiar à vitória; o Chega conseguiu o ambicionado terceiro lugar, mas falhou o objetivo principal, que era, como se sabe retirar o socialismo do Poder; o PCP perdeu votos, lugares e parlamentares de prestígio; o Bloco entrou em derrocada; o Livre está aí , desta vez, penso, para valer e, finalmente o PAN recolheu os frutos da ambiguidade e do autoritarismo animal.

 

Portanto o Mundo continua a girar. O que era viável ontem, hoje deixou de o ser, as perspetivas e expectativas alteraram-se e, neste momento, o sistema começa a reorganizar-se. Atónitos percebemos ser possível o impensável e que o futuro não existe! Melhor, teima em comparecer no presente, na maior parte das vezes de modo muito distante do que futurólogos, analistas, comentadores, cartomantes, astrólogos e outros mais sobre ele nos garantem.

 

Eu tenho uma teoria sobre o futuro. Ele não existe! Vai existindo! Quero com isto dizer que é verdadeiramente impossível afirmar algo de certo sobre o a vir. Pensemos um pouco. Para poder predizer o que virá a acontecer teremos de aceitar o discurso teológico de que tudo quanto venha a acontecer já estará escrito em algum lado. Esta posição traz o benefício da desculpabilização dos nossos atos porque o que tem de acontecer acontecerá e nada poderá mudar o caminho das coisas. Com pedido de desculpa para quem assim pensa, tomo a liberdade de vos dizer, estão redondamente enganados. É que, quanto a mim, o futuro vai nascendo das nossas escolhas, passadas e presentes, vai-se construindo e mudando conforme, em cada momento, tivermos uma preferência a qual irá mudar, ou condicionar, o futuro para que nos dirigíamos e que por essa e outras opções se tornou outro.

 

Ontem, nas eleições legislativas, fizemos escolhas que irão alterar o futuro. O que vier a ser será, necessariamente diferente daquilo que seria, fossem outros os resultados deste escrutínio, resultando para cada um e todos, em consequências e satisfações diferenciados. Presumo ter conseguido expressar porque afirmo que o futuro não existe, mas se vai, passo a passo, construindo. Assim, passemos com todas as cautelas que o acima explicado exige, a aplicarmo-nos na tentativa de desvendar o que as decisões coletivas, expressas em votos no dia de ontem, me suscitam.

 

Escrevi, no Rostos, há dias, não gostar de maiorias absolutas. Reafirmo o meu desgosto por elas e desejaria que não tivesse acontecido. No entanto, sendo as coisas o que são, contra ventos e marés, de modo inesperado, ela aí está. Quer queiramos ou não, teremos de lidar com ela e com as suas consequências. Esperemos que a “húbris” não venha a exercer a habitual maldição sobre os desígnios humanos e o PS consiga evitar-lhe os malefícios advindos, mantendo os ouvidos atentos ao clamor dos menos protegidos, não se esquecendo da sua matriz social, agindo de acordo com ela.

 

Pelo lado do PSD, além da complicada internalidade, um perigo, a médio prazo se avoluma. A Iniciativa Liberal, capaz de com o seu discurso encantador para jovens ingénuos, com expectativas de se tornarem poderosos empreendedores, tomarem como boas as soluções preconizadas. Contudo se quiserem estudar um pouco de história perceberão os cantos de sereia a levá-los, não às praias de sonho, mas aos baixios do egoísmo, falta de ética e solidariedade a fazerem crescer a erva daninha da desigualdade social. Sendo desnecessário ir às origens do Liberalismo, relembro apenas dois nomes e quem quiser pode ver o resultado reais das políticas neoliberais defendidas: Reagan e Margaret Tatcher.

 

 O Chega, apesar do desconforto causado pelo crescimento e pela posição ocupada, não me preocupa em demasia. Creio ser um epifenómeno a autodestruir-se pelas incoerências, personalidades e políticas antissociais. Além disso, como diz o meu amigo Jó, todos os países têm direito aos seus seis por cento de imbecis.

 

Já o Bloco me dói mais interiormente. Embora toda a sua existência tenha sido em carrossel, a hecatombe foi por demais estrondosa. Tem a ver com o chumbo do orçamento? Muito possivelmente, sim! Desaprovo que tenha tomado essa posição? Não! Na altura nem podia fazer outra coisa. Desde 2017, sensivelmente, o Bloco começou a ser marginalizado dentro da Geringonça. Não é aqui o espaço para discutir as razões de tê-lo sido, nem de como esta situação se veio agravando, sobretudo após 2019. O que podemos salientar é que foi sendo conduzido a um espaço onde fatalmente seria submerso ou rebentaria. Preferiu a segunda das escolhas. Eu também o teria feito, sabendo que o preço seria caro. Porém, não há independência sem risco e sem fatura a pagar em algum momento. Então, foi tudo culpa de outrem? Nem pensar nisso. Há culpas próprias e devem ser bem sopesadas e ultrapassadas. Caso contrário, poderá acontecer em eleições próximas, que o discurso do Livre, mais atualizado e com muito poder sobre o tipo de votantes do Bloco, venha a contribuir para a irrelevância, não desejada, deste partido.

 

Sobre o PCP nada de novo acrescentarei. A condenação demográfica, as mudanças de preocupações sociais, a formação de novas relações de trabalho, vão tornando o seu discurso menos atraente para as nova gerações. Poderá ultrapassar estas dificuldades? Poder, pode, mas quererá fazê-lo? A resposta definirá o caminho deste partido.

 

Finalizarei com a posição do PAN que irrompeu com um discurso novo a levar bastante gente a apoiá-lo. No entanto a forma autoritária como pretende afirmar as suas crenças quase religiosas, o sentimento de que pretende levar toda a gente a, queira ou não queira, compartilhar as suas convicções e modos de vida, foram criando uma antipatia generalizada pelas atuações e pretensões. Tem um problema de sobrevivência, o qual se agravará enquanto não perdem a vontade de obrigar toda a gente a almoçar seitan e a ter uma galinha como bichinho de estimação.

Pronto! Esta são as minhas previsões sobre as consequências das escolhas de ontem. Mas, como disse no início, o futuro não existe! Será criado a partir das linhas traçadas, pelas ações ou omissões, daqueles por quem ontem foi distribuído o poder representativo.

 

Espero ainda por cá andar para perceber se meti o pé na poça!

 

 

Publicado in “Rostos On Line”

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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publicado por Carlos Alberto Correia às 22:57

Foi V. quem pediu uma maioria absoluta?

Domingo, 09.01.22

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Mas que raio de absurdo vem a ser esse? Claro que não fui eu, nem tal me passaria pela cabeça. Mesmo que fosse para o seu partido, insiste! Absolutamente. Sou, em definitivo contrário a tais absurdos. Pergunta-me porquê? O amigo está cá ou anda a cirandar pelos espaços? Não faça essa cara de espanto, nem me julgue lélé da cuca. A razão porque não a quero? Simples, homem! Gosto da Democracia.

 

Sim, eu sei, essas maiorias não serão necessariamente antidemocráticas. Pois claro! Tem razão. Mas não me vai dizer que desconhece o perigo de tal formação governamental. Desconhece-o? Então senhor? A Democracia não é, putativamente, o governo do Povo? Veja bem, está inscrito na palavra: demos (povo); cracia (forma de governo, autoridade). Sabe, no regime democrático, pelo menos em teoria, a soberania está no Povo. As instituições de poder serão portanto emanações representativas desse povo. Vai fazer-me o favor de reconhecer que, apenas em regimes despóticos o “povo” vota a volta dos 100% no mesmo partido ou no mesmo candidato. Vê, já começa a entender-me? Explico melhor.

 

As sociedades atuais são muito heterogéneas. Para tudo, até para a mais simples escolha, aparecem sempre uma multitude de opiniões divergentes. É natural! A diversidade de gentes, culturas, hábitos e inserções sociais, faz variar os pontos de vista e as escolhas. Concorda? Bem, então avancemos. A nossa Democracia denomina-se representativa, certo? Se aceita, por favor, siga o meu raciocínio. Sendo representativa os seus órgãos, mormente o Parlamento, deverão refletir, o mais possível, a variedade de perceções sociais. Concorda com o pressuposto? Sim, é de preclara simplicidade. Estou de acordo. Portanto, se a instituição política não representar essas diferenças entrará em débito democrático. Está bem, reconheço o valor da maioria. Longe de mim elidir tal conceito e valia. No entanto já pensou que as maiorias conseguidas são muito relativas – pense só no universo votante e na abstenção – e pergunte-se se numa maioria absoluta estarão representados todos os quereres de uma população? Evidentemente! Os valores dominantes, e de muito difícil alteração, serão os dessa maioria que, mesmo com as melhores intenções, irá  considerar bom para todos o que, em último caso, apenas será aceitável para ela. Pois é, amigo. As Democracias sérias têm de contar também com, pelo menos, alguns desejos das minorias. Começa a ver o problema?

 

O Poder é uma coisa perigosa de apetites insaciáveis. Eu sei! Existem mecanismos para contrabalançar o desejo sôfrego de crescer que o domínio exerce sobre todos nós, mortais. É dos livros! Deste modo e considerando que a Democracia não se faz com decisões unívocas, que é diferença e conflito, a melhor maneira de evitar sujar uma alma democrática chegada ao poder, é não dar azo a que, por falta de força de oposição, esteja livre para acreditar que todas as decisões que vier a tomar serão intrinsecamente democráticas. Aliás, prevendo inteligentemente isso, os nossos constitucionalistas introduziram na Constituição alguns entravezitos à possibilidade de se formarem maiorias absolutas. E olhe que não eram nada parvos! Conheciam os perigos dos desvios totalitários, esses fungos dos governantes democráticos quando, limitados, por arrogâncias várias, à sua visão restrita, perdem a noção de a sociedade ser muito mais complexa que os pensamentos, mesmo que bem intencionados, das suas cortes.

 

Olarela! É como lhe digo. No melhor pano cai a nódoa e vale mais prevenir que remediar. Ainda não percebeu que para quem governa uma maioria absoluta é um descanso que, no mínimo conduz à preguiça, ao adormecimento? Está lá a oposição? Pois está, mas se a maioria for absoluta bem pode pregar ao vento. Os votos permitirão a passagem de quase tudo. Tudo, isto é, o que interessar a esses maioritários. Bem vê, lidamos com homens, não com anjos. O melhor é dar-lhes o desgosto de se verem obrigados a negociar os seus intentos ainda que reconheça a legitimidade de, muitas vezes, fazerem valer as suas posições. Para tal foram votados, mas, mais uma vez lhe digo, mesmo a maior maioria absoluta não representará a diversidade da nação. A não ser, claro, na Democracia de qualquer Coreia do Norte.

 

Fiz-me entender?

 

 

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publicado por Carlos Alberto Correia às 21:22

Palavras para um jornal que ainda o é!

Sábado, 18.12.21

rostos.jfif

 

 

Não há época onde os meios de informação sejam tantos e mais acessíveis, nem há tempo em que a desinformação seja de tão grandes proporções. Parece que uma coisa contraria a outra, porém tentarei deslindar, na medida do possível, este imbróglio.

 

Durante muitos anos apenas a imprensa escrita era a fonte noticiosa por excelência. Sofria porém de uma grave menoridade em termos democráticos. O custo de produção do Jornal subordinando-o a quem o sustentava. Precisava de máquinas, de jornalistas, de investidores, instalações e até dos pobres ardinas que, além dos quiosques, faziam a distribuição e divulgação dos periódicos. Isto, sendo exercício de grandes cabedais, acrescentado do baixo nível de instrução dos povos, tornavam o acesso à informação iguaria a ser servida apenas a uns quantos privilegiados.

 

Parecia - com a multiplicação de meios, rádio, televisão, internet, e não menos importante da muito maior literacia da população -  que a informação se iria democratizar, chegar a toda a gente, ganhar credibilidade. Por motivos vários que esta pequena nota não pode comportar, a perversidade das coisas (monopólios de comunicação, centros de desinformação de interesses vários) fez com que o crédito da informação se fosse degradando e, hoje, o panorama geral é o de à riqueza e diversidade de meios corresponder a pobreza, repetitividade e desconfiança popular sobre as notícias difundidas.

 

É pena que assim seja, contudo as coisas são o que são!

 

Então e nada há onde possamos repousar a curiosidade sem medo de sermos enganados? Felizmente ainda podemos encontrar ilhas de crédito neste cenário desconfortável e sombrio. Locais onde a ética é superior aos interesses parciais de gentes e grupos de pressão, onde o desaguar da informação é límpido e temos a segurança de que a democracia existe e permite a voz a todas as partes interessadas.

 

É por isso, e porque sei os custos pessoais que tal atitude comporta que me junto aos inúmeros votos de parabéns enviados ao Rostos e ao seu Diretor Sousa Pereira, por, contra tudo e contra muitos, fazerem avançar num tenebroso mar de iniquidades a força e a luz de um jornalismo sem patrões, aberto à notícia, atento à sociedade e aos seus movimentos.

 

Mais uma vez, e não é despiciendo repeti-lo muitos e muitos parabéns pelos teus 20 anos, pela maioridade e independência de que, justamente te orgulhas e, sei, irás manter enquanto durar a tua vida.

 

Obrigado Rostos! Obrigado Sousa Pereira!

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publicado por Carlos Alberto Correia às 19:17

…”E que saudades, meu Deus…”

Terça-feira, 09.11.21

vacina.jfif

 

 

Não é preciso lembrar-me. Sei muito bem que não há homens providenciais e que é demasiado arriscado sonhar com salvadores sebastiânicos… no entanto não posso deixar de sentir saudades do trabalho do Vice-Almirante Gouveia e Melo.

 

Antes de entrar no reconto propriamente dito esclareço que me sinto apavorado quando alguém, da nossa burocracia, ou mesmo de empresas privadas, anunciam qualquer programa de simplificação. A experiência diz-me que vai sair borrasca, dificuldades, irritações, para o pobre cidadão submetido às propaladas “facilidades”. Isso aconteceu com os pedidos online de Cartões de Cidadãos; marcações de consultas e até mesmo com as Apps melhoradas – de algumas instituições bancárias e outras – em nome da melhoria, facilidade e segurança. Um horror de dificuldades, frustrações e ineficácias que nos fazem ranger os dentes, desabafar com algumas palavras pouco recomendáveis e… voltar ao tratamento presencial, demorado, mas finalmente com os  resultados esperados.

 

Não me julguem por tudo isto inimigo da digitalização ou do progresso. Pelo contrário! Lastimo é que, em nome de um bem possível, a incompetência transforme aquilo que deveria ser uma rampa de facilidade num campo de obstáculos quase intransponíveis.

 

Voltando à situação em que invoquei o nome do Almirante em vão.

 

É habitual, todos os anos, na consulta de enfermagem a que compareço, quase sempre em Outubro, sem qualquer complicação, ao finalizar os exames, ministrarem-me a vacina contra a gripe. Tem sido recorrentemente assim, fácil, fácil, mas este ano não! Fui informado que a Unidade de Serviços Familiares (USF) – a sigla está bem, a descrição pode não ser exatamente essa – este ano não recebeu vacinas. Como seriam aplicadas em conjunto com a terceira dose da anticovid deveria esperar pelo anúncio de inscrição do meu grupo etário e fazê-lo através da internet. Tudo bem! Esperei e no primeiro dia em que foi publicamente anunciada a abertura, para os rapazes da minha idade, lá fui até ao computador no intuito de me inscrever para a dupla vacinação. Entrei na página e primeira deceção, embora tivesse sido anunciado a abertura das inscrições tal não era verdade. A plataforma só recebia inscrições do grupo anterior. Senti-me enganado. Então tanta propaganda nos média, afirmações de responsáveis a garantirem em público uma coisa e, na realidade a passar-se outra! Que falta de seriedade, que falta de respeito para com o público. Bem, rapaz, tem paciência, volta cá amanhã. “Eles” são mais rápidos na propaganda que nas ações. Porque estranhas? Estás em Portugal. Já devias estar habituado. Volta de novo amanhã!

 

E voltei! Agora sim, lá estava a informação de que me poderia inscrever para a vacina. A página até era clara. Informações sobre o número de utilizador, nome, data de nascimento e validar. Validei! Outra página sem, aparentemente, qualquer dificuldade. Indicação de Distrito e Concelho. Nada difícil! Lá coloquei, respetivamente, Setúbal e Barreiro. A seguir outra caixa para escolha da data e local de vacinação… só que, aparecendo a indicação de ser de preenchimento obrigatório – lógico – nem permitia escrever, nem mostrava qualquer lista para seleção do local. Mau! O que se passa? Vou esperar mais um dia e volto a tentar. Tentei mais três ou quatro dias seguidos… e mais do mesmo. Parecia que o Barreiro não existia!

 

Hoje, finalmente, tive uma epifania! Lembrei-me de ter ouvido, no Centro de Saúde, alguém em desespero dizer “com a minha idade e sem transporte como é que me vou vacinar à Moita”! Querem lá ver que, apesar de nada indicarem sobre qual concelho inscrever no formulário não é, como seria normal, o da residência que pretendem, mas o de qualquer outro local onde exista um putativo centro de vacinação? Cheio de fé, mas furioso com o facto de, se tivesse razão, estar perante uma ineficiência primária, no mínimo, dos informáticos da Direção-Geral de Saúde, lá coloquei a Moita no lugar indicado para o Concelho… e zumba! Tiro na “mouche”! Agora só estou à espera do SMS para confirmar o dia e hora da vacina.

 

Embora tudo esteja bem quando acaba bem (mais ou menos) ficam-me as seguintes agruras: o Barreiro não merece ter um centro de vacinação? Como é que idosos, sobretudo aqueles com dificuldades de locomoção e sem transportes próprios, chegam à Moita para serem vacinados? E, quando ao escrever Barreiro, concelho onde resido, não deveria ser-me mostrado um aviso indicando não pretenderem o concelho da minha residência, sim aquele onde existisse um centro de vacinação? E não deveria, ao inscrever o nome do meu Concelho aparecer a informação dos locais onde poderia escolher o dia e hora para ser vacinado?

 

É por isto, ao recordar como tudo foi diferente sob a égide do Vice-Almirante que quebrei os meus tabus sobre dons sebastiões e recordei, com saudades, a organização impecável como tudo funcionou. Por isso, a Dr.ª Graça que me desculpe, não percebo o seu contentamento, em entrevista televisiva, quando com apenas um quarto daqueles que deveriam estar vacinados na altura, dizia resplandecente estar tudo a correr bem, tudo no melhor do mundo. É mentira! Há deficiências primárias. A senhora doutora não se importa de voltar a chamar o Almirante?

 

 

Publicado in "Rostos Online"

 

 

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publicado por Carlos Alberto Correia às 22:14

Prognósticos depois do jogo

Segunda-feira, 27.09.21

urna de voto.jfif

 

 

Pois é! Aqui estou eu na facilidade de treinador de bancada a falar, acabado o prélio, sobre o que se deveria fazer, apontar o que correu mal e apresentar panaceia para males passados. Têm toda a razão, mas não resisto a reiterar o “bem te disse”, continuando refastelado na razão, repimpado no sofá a filosofar sobre os males do mundo, como se tivesse a fórmula certa para correção dos descalabros sociais. Porém, não posso esquecer e calar quanto vi na longa noite destas Autárquicas,  por isso aqui vai um pouco do meu palavreado, disfarçado de opinião independente, sobre o visto, ouvido e sentido.

 

Comecemos pelo estado de espírito realmente complexo – o qual, de certeza, não interessa a ninguém, contudo, por direito democrático, não me eximirei a tornar público –a tomar-me, ao fim da noite, talvez por alguma mirífica réstia de clarividência, talvez resultado do cansaço de tantas horas de informação recebida em catadupas, inibitórias de  pensamento sereno e esclarecido. Assim, a minha alma partidária entristeceu, a alma de esquerda ficou preocupada, enquanto a alma democrática rejubilou.

 

Eu sei que são complexo estes sentimentos, quiçá confusos, todavia era caso para isso. Vou tentar explicar-me do melhor modo sintético e descomplexado que me for possível.

 

Sabemos serem as eleições autárquicas aquela em que mais veementemente todos ganham, ou ninguém perde. E é lógico. Com tantas míni-eleições espalhadas pelo País todas as somas, qualquer perspetiva, podem ser apontadas a valorizar o desempenho de qualquer força partidária ou independente, minimizando as perdas, soprando-as para debaixo do tapete da comunicação social, lá ficando até uns tantos mais curiosos começarem a fazer comparações. No entanto, por ser “nhurro”, decidi-me a aventar já umas quantas hipótese (ou preocupações). Deste modo parece-me não ser demasiado arriscado dizer que o PS ganhou as eleições (tem mais câmaras e mais eleitos); o PSD melhorou os resultados, garantiu uma vitória política, reapareceu no cenário macro do País. Já o CDS conseguiu manter-se mais uns tempos sem resvalar para o desvanecimento e o PC e o Bloco perderam, pese embora alguns fogachos conseguidos. Por estes factos, em conjunto, a minha alma democrática rejubilou. A Democracia estava viva e dava provas de se poder reinventar, mesmo quando tudo parecia empurrar para o marasmo.

 

Já, como militante de base do Bloco vejo, com muita tristeza e alguma preocupação, não só a perda de eleitos, como o posicionamento, genérico, abaixo do Chega. Se isto me espanta? Nem por isso. O meu partido vem a seguir um rumo de fixação urbana, com especial relevância nas grandes metrópoles. Até pode vir a ter razão se considerarmos que o interior se desertifica de gentes e tudo corre para as grandes conurbações. Penso, no entanto, ser tal rumo perigoso porquanto lhe desprove as guardas. Para crescer não lhe basta o Parlamento e as Assembleias de Freguesia. Sugeria mais atenção a distritais e concelhias, mais descentralização e sobretudo que as listas autárquicas fossem constituídas por pessoas com trabalho reconhecido na comunidade durante todo o tempo. Evitaríamos assim, em cada eleição, sairmos do quase nada feito para pedir às pessoas que votem em nós. E para quê? Podem elas replicar. Que farão com os nossos votos? Onde estiveram até hoje? Bem, isto sou eu a falar, nada garante que esteja correto, mas se é assim que penso, é assim que o digo ou escrevo.

 

A preocupada alma de esquerda viu nestas eleições o facto agradável de, mais uma vez não se consubstanciar nenhuma maioria absoluta – sou absolutamente contra – porquanto a democracia não são “dictats” de partidos maioritários, mas o árduo trabalho de conseguir consensos, único meio de transformar as decisões para uns em decisões para muitos. Já muito desagradável foi verificar como continua a crescer, mesmo em eleições de proximidade, a abstenção. Esta é uma doença da democracia e vejo pouca gente a procurar-lhe remédio. Parecem apreensivos, pois parecem, mas é só papagueio. De relevante nada vejo fazer para melhorar a qualidade das políticas (e dos políticos) de molde a fazerem sentir às populações que a Política não é uma coisa para uns senhores importantes fazerem, mas o modo como elegemos alguém para administrar os nossos bens, melhorar as nossas vidas e que cada um dos atos desses senhores deverá ser ajuizado de molde a perceber o que serve, para que serve e a quem serve. Pronto! Lá me fugiu mais uma vez a veia para a “esquerdalhice”! As minhas desculpas (insinceras).

 

Poder-me-ão dizer, já o ouvi muitas vezes, estar a solução no voto obrigatório. Permitam-me discordar. O voto deverá ser sempre um direito voluntário. Porque não se perguntam porque decresce continuamente a vontade de votar? Já puseram a mão na consciência e pesaram o descrédito em que a classe política se lança ao embarcar em demagogias eleitorais, tantas de impossível cumprimento, deixando o povoléu a pensar que é tudo a mesma ganga, que o que querem é poleiro e, uma vez lá chegados, vão é tratar da vidinha? É aqui que a pedagogia da correção e ética política poderá ganhar o combate contra a abstenção. Mas isto é difícil! Sei-o bem. Porém se para chegar ao rio escolho o caminho mais fácil - que segue precisamente no sentido contrário - não só nunca lá chegarei como, diga o que diga, estarei continuadamente a afastar-me do meu objetivo. A  imagem é parva? Pois que o seja! Não deixa, porém, de ser demonstrativa.

 

Para terminar retomo a preocupação de ver o chega ultrapassar o Bloco em muitos lugares e percentagens, fazendo soar sinais de alarme, e perguntar, a toda a esquerda, o que vamos fazer – em ações, não só em palavras – para revelar o bicho horrendo que este ovo de serpente transporta, para evitar a sua dolorosa eclosão?

 

Podemos esperar para ver, ou, em conjunto, encontrar soluções convenientes. Têm a palavra, as senhoras e senhores eleitos!

 

Publicado in, “Rostos Online”

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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publicado por Carlos Alberto Correia às 19:58

Até sempre, Camarada!

Domingo, 25.07.21

otelo e cravo.jpg

 

 

(Otelo estava preso em Caxias. Uma revista publicava, como capa, uma foto de Otelo, fardado, junto às grades da cela, olhando o Tejo. O momento marcou-me de tal modo ao ver a Liberdade presa, que de chofre escrevi este poema, aqui transcrito em homenagem póstuma a um dos obreiros da nossa liberdade.)

 

desdémona alabastrina

 

            (para Otelo saraiva de Carvalho)

I

 

desdémona jaz

nos teus braços meu

capitão de mais quentes

marés

ou praias de outros tempos

 

rodeiam-te enclavinhadas piranhas

 

em excessivo gesto de amor

as mãos torneiam a ingénua humidade da vida

pérolas de dedos enegrecidos

no jeito de calar

 

tudo se fazia à escala espontânea de outros rios

cheirava o novo verde até às margens

incómodos cavalos no viço dos tempos

em que tudo era redondo e levado no alcantil dos dias

e os corpos

ruído transitório no vento magoado

era sombra de domingo no frágil dos ombros

 

olha de novo

 

II

 

desdémona jaz

 

esquecida a invenção do protesto

deixa que o olhar só por si se sobrenade

até ao limiar das mãos

 

agora

 

sob a soleira do tempo repousa no prumo do leito

descreve o estático espaço entre grades de olhar

 

que portos tocas

que estonteantes claridades acusas

na procura lancinante dos inícios

 

quem as mão te conduziu é que te acusa

 

aí estás desdémona de ti todo

onde te colocaram com a memória dos sentimentos

por estrear

 

braveza de tempestade nos trânsitos do espaço

como falar-te de gaivotas quando um corpo jaz

e tu olha o espelho das mãos distanciadas e breves

onde te perguntas

há coisa mais terrível que olhar por sobre um rio

 

III

 

uma imagem percorre o clarão do raio

a cidade adormecida espera a quietude dos grande temporais

 

olha a asa que voa

vê essa asa parada

avé ave asa ave

 

e que nos salve

e que nos salve

 

(in, Urbi – poemas datados, KDP – Amazon, 2018)

 

 

 

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publicado por Carlos Alberto Correia às 12:40