Saltar para: Posts [1], Pesquisa e Arquivos [2]


elogio dos estúpidos

Terça-feira, 09.02.21

capaurbi.jpg

 

I

 

vejo-os passar no seu ar alheado

parecem-me felizes

 

meus olhos longos e doces de trabalhar mágoas

recordam paisagens onde habitava a tua companhia

 

era nesse tempo suficiente e completo

tomava por verdade o que os olhos vêem

e a razão do momento pelo momento da razão

 

II

 

como é pesada a vida quando tudo é desconhecido

e nada do que temos é suficiente

e as saudades nos assaltam até às lágrimas

ficando agarrados à possível dignidade

noção vaga inoportuna irreal indemonstrável mas

de tal forma necessária que nos desgarra em contínuas escolhas

 

atacados da mansa loucura da solidão

procuramos o rosto amigo o peito amante

que venha reaquecer o nosso sol

 

ninguém entende quanto estamos sós

ninguém entende como esta injustiça universal

cai sobre o fogo sagrado que ardendo em nós

nos faz maiores mais vulneráveis solitários e noturnos

 

 

III

 

há nesta obsessão da noite neste sentimento de falta

um resto de desejo da tua presença que não quero

 

tudo está de rastos

 

terramoto interior que nada poupou

deixou-me sobrevivente de mim

violento e teimoso de pé sobre os

escombros a reconstruir

 

por isso escrevo para ti estas palavras que não lerás

compor-te-ei ainda versos e não serão teus

habitar-te-ei das minhas palavras fazendo-te bela e

amante como nunca conseguiste e forte da força que não possuis

 

no entanto tudo isto é insubstancial

a tua imagem descrita nunca

poderá ser molhada pela chuva de outono

ou beijada nas horas em que o fogo anima o coração

 

dentro de mim é que serás real e estrangeira

dentro de mim continuarei a procurar-te e a banir-te

por plainos longos e monótonos onde apenas

um estático ribeiro chora

 

 

 

 

IV

 

o que dizer mais de mim

coração magoado que espera

 

ó céus que coisa grande é a dor que conseguimos

que pena tenho de nós

não só de mim que sou náufrago

mas também de quem afundou o meu navio

 

é que tu canhoneira dos meus hábitos

és algoz e vítima deste jogo cósmico que ninguém criou

mas onde todos somos à uma caça e caçador

e nada nos é poupado e a nada somos estranhos

 

V

 

é isso sou um erro crasso

apareci na vida pela porta errada

compareci no mundo quando não era a minha vez

 

p'ró raio que as parta as filosofias requintadas

quero ser estúpido e viver o dia-a-dia cumprindo

a leve obrigação de estar vivo somente porque como

ou ejaculo

 

quem me dera que eu fosse estúpido

e conhecesse a vida através dos programas de televisão

e pudesse ser feliz por ser o melhor dançarino da "boite"

estar bem visto no emprego

cumprir ordens sem as discutir

ter uma mulher certa matronal estúpida

distantemente carinhosa e de horizontes limitados

à ancestralidade da família

 

quem me dera puder ser feliz assim

 

ser o perfeito pai de família dominador

circunspecto que ao domingo sai apascentando as filhas

que ocupa os sábados a dar lustro ao carro

e que tem encontros clandestinos com uma colega

e pensam por isso ter descoberto os limites da aventura

a fronteira onde os homens assumem a divindade

e acabam molhados e langorosos numa ressaca de remorsos

citadina e poluída dizendo foi tão bom e mentindo

por dentro como se mente por fora ímpios enganadores

da morte com máscaras de cartão

 

quem me dera ser tudo isto que não sou

 

VI

 

em vez disso procuro conhecer

as razões de sentir tudo íntima e analiticamente

para com este conhecimento fazer

coisa nenhuma

 

por isso a mim tudo me dói mais tudo tem a crueza de ser aquilo que é

e não haver razões nem desculpas para ser outra coisa

 

sim eu que não enjeito culpas

nem atiro às costas do destino

as causas dos meus efeitos

sei que seria mais feliz sendo estúpido

 

por isso é tão urgente fazer o elogio dos cretinos

daqueles a quem todas as coisas passam mais ao lado

ou reagem instintivamente com violência ou crueldade

e ficam limpos e nada lhes acerta com jeito de ficar

porque se estão nas tintas para todas as culturas

vivendo tão naturalmente como uma glândula

segrega os seus humores

 

VII

 

após este elogio aos estúpidos

descarreguei a minha bílis contra

esta ocasião de vida

 

sinto-me mais aliviado

um pouco mais reconciliado

quase agradecido à pequenez da memória

e à doçura das ondas contornando a praia

 

mas faço um esforço de vontade

quebro o adormecimento que me embala

e a realidade esmurra-me nas ventas

 

porque na verdade estou fundamentalmente só

porque na verdade me sinto defraudado

e a vida que eu vivo não é melhor que a dos estúpidos

e aquilo que eu sinto não justifica coisa nenhuma

e o esquecimento que procuro é igual ao de toda a gente

 

por isso num pôr-de-sol repleto de cansaços

acabo o poema deixo cair os braços

 

 

in "Urbi - poemas datados"

Edição - KDP-AMAZON

 

 

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado por Carlos Alberto Correia às 20:37

A Covid segue dentro de momentos

Domingo, 10.01.21

voto.jpg

 

 

Eu já esperava… mas não queria acreditar.

 

Via e ouvia as notícias. O número de infetados galopava, os mortos acumulavam-se, os hospitais mandavam angustiantes apelos de socorro – faltavam camas, o pessoal de saúde estava, desde à muito, em esgotamento – não se via forma de parar a epidemia e, como se podia observar, o sistema de saúde chegara ao limite das capacidades.

 

Perante isto começaram a ouvir-se as entidades responsáveis a sugerirem um novo confinamento, mais restritivo, semelhante ao de Março/Abril do ano passado.

 

Nada a obstar.

 

Parecia sensata a medida. Sabemos que um dia recolhido, sem exposição pública, mesmo estando infetados e sem sintomas, é uma derrota para o vírus que, sem possibilidades de se transmitir a outros, morrerá aos milhões.  Apesar de aborrecido com as contínuas contenções de movimentos defendia, e defendo, tais medidas profiláticas.

 

Aquilo que não entendo é a inconsistência de algumas posições tomadas pelo governo, contrariando as suas políticas gerais.  Sabiam, sabíamos, que o período pós-natal, traria um agravamento dos surtos pandémicos. Toda a gente falou nisso, foram prometidas medidas suplementares de defesa e, depois dos pregões botados, nada se fez, ficámos à espera de que o que tivesse de acontecer, acontecesse. Ora, isto sou eu a pensar, a razão porque alienamos uma parte da nossa liberdade e, para a gerir, elegemos governos, deputados, autarquias, é para que, em momentos de aperto, prevejam, adaptem, ajam. Prever, vemos prever, o resto é só conversa.

 

Gritantemente alarve é esta tentativa de, no dia 24, decretarmos a suspensão do vírus para irmos votar. Ou quem manda é inapto ou incoerente, ou se está nas tintas para o comum dos mortais. Demos  um pouco de atenção a este caso. Sabia-se, há muito tempo, que estas eleições iriam cair no mês de janeiro. Não havia bicho careta a desconhecer a enorme possibilidade de, nesse mês, a pandemia ter um crescimento exponencial. Também não seriam desconhecidas as dificuldades de resposta do sistema de saúde. Pois bem, o que seria espetável? No mínimo um planeamento rigoroso visando responder às necessidades aumentadas, precavendo meios técnicos e humanos. Falou-se muito nisso, especularam-se números, os técnicos fizeram advertências angustiadas, prometeu-se resposta adequada e deixou-se correr, continuando a garantir medidas que nunca foram tomadas. É habitual em nós. Aconteceu o mesmo com as escolas, no ano passado. Falou-se, legislou-se… está o trabalho feito. As ações reais, no terreno… não são connosco. Nós só temos de governar. Nunca param para pensar que o feito, deste modo, é só meio governo. De nada serve prever ou prevenir se, no terreno, essas decisões não tiverem continuidade e acompanhamento. Portanto, em pleno período de confinamento agravado, por a seu tempo nada ter sido feito para evitar este disparate, vamos suspender a propagação da Covid, para irmos às urnas. Estão a ver a cena?

 

Para lá aí, escrevente soturno e mal-intencionado. É verdade que é impossível adiar as eleições para mais tarde, quando a virulência do contágio for menor, os hospitais estiverem mais libertos e funcionais. A Constituição não permite! Qual Constituição? Aquela que é lida e relida de modo a proporcionar tudo quanto os mandantes pretendem fazer e ela “parece” não permitir? Além disso, dada a previsibilidade da situação não seria de esperar que fossem tomadas providências para ultrapassar este obstáculo, evitando novas possibilidades de contágio em período tão perigoso? Por inépcia, cálculos, desinteresses, negligência, preguiça, ou fosse lá porque fosse, evitou-se até falar no assunto. Quando se discursava sobre o novo confinamento e se percebia ir cair, certinho, nas eleições, aos poucos jornalistas a fazerem perguntas sobre tal situação, não se respondia, faziam-se circunlóquios e nós ficávamos a perceber que a decisão já estava tomada, que iria ser mesmo assim, que o vírus era uma chatice, mas mais chato seria fazer qualquer coisa para salvaguardar a saúde pública. Dava muito trabalho.

 

É por isso que estou furioso. Furibundo por ter adivinhado o que se iria passar, enfurecido por ter tido razão, exasperado ao pressentir o desastre criado por esta decisão, mormente em termos de aumento previsível do já demasiado grande abstencionismo. Posso apostar no seu crescimento quer por medo de contágio, por algum comodismo ou como forma de protesto contra mais esta incongruência. Não podemos visitar pais ou filhos, aguentamos com esforço, o tanto tempo de confinamento e, de repente, por milagre político, o vírus deixa de ser perigoso para exercermos o direito de voto. Apetece-me mandar todos os decisores para um sítio que a decência não permite.

 

Já estou a ver o panorama. Marcelo está, de qualquer modo eleito com elevada percentagem (só contam para isso os votos entrados nas urnas); a abstenção subirá em flecha, tal como o Corona; os apoiantes de Ventura, mais mobilizados e mobilizáveis neste momento, dar-lhe-ão uma vantagem pouco crível em situação normal e, os outros candidatos bem podem mandar os seus esforços eleitorais às urtigas.

Estamos todos de parabéns. Deste modo veremos, um dia destes, o Ventura no poder!

 

 

Publicado in “Rostos On-line”

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado por Carlos Alberto Correia às 18:24

A propósito das Presidenciais (ou as razões de um Bloquista)

Quarta-feira, 30.12.20

carlosebow.jpg

 

 

 

1 . Declaração de interesses

 

Sou apoiante de Marisa Matias e só, por meros incidentes pessoais não entreguei em tempo os documentos para passar de apoiante a proponente. Também não terá feito grande mossa! Antes de ter possibilidades de fazer o envio da papelada, já a candidatura estava a ser entregue. Ainda bem! Depois disto, talvez de forma incompreensível para alguns, ou mesmo muitos, decidi não votar na minha candidata. Explico porquê.

 

2 . Da democracia e das suas fragilidades

 

Como já tenho referido noutros locais e de modo vário, preocupam-me os perigosos  caminhos trilhados por algumas democracias, pela ameaça constante de uma direita trauliteira, populista, enganadora e simplista. Para não citar os casos, por demais conhecidos de Trump, Bolsonaro e de Viktor Orbán, viro-me para a prata caseira. Pela primeira vez, em qualquer intervenção citarei o nome de André Ventura. Abstenho-me frequentemente de o citar ou contrariar para, de qualquer modo evitar oferecer-lhe o que ele quer. Palco e altifalante!

 

As democracias são regimes frágeis. Durante bastante tempo parecemos ignorar esta verdade. Apareciam-nos como administrações fortes, bem consubstanciadas, até sem concorrentes credíveis no mundo. Tal segurança, pós-guerra fria e queda do muro de Berlim, apenas veio proporcionar, aos seus inimigos, maiores facilidades no trabalho de sombras com o qual foram socavando os alicerces onde se fundava. Como bem defendem em “Como morrem as democracias”, Steven Levitsky e Daniel Ziblatt, na época moderna já não são necessários golpes de estado ou revoluções. Elas morrem por dentro, minadas pelo aproveitamento oportunístico de quantos, utilizando as suas imperfeições e limitações, vão fazendo apodrecer as raízes da árvore democrática. Para não me estender muito sobre este assunto, remeto melhor explicação para os casos clássicos de Mussolini e Hitler. Nenhum chegou ao poder por revoluções (aliás, os golpes tentados por eles sempre falharam). Tomaram o poder a convite da direita, hegemónica, governante, a qual, com receio dos avanços das esquerdas, tentaram travá-las aproveitando as forças das extremas-direitas. O seu raciocínio era de uma simplicidade atroz e, como sempre foi demonstrado, falso e perigoso: Precisamos deles para termos o números de votos necessários para mantermos a governança. Nós somos maioritários, eles são apena meia dúzia de rufiões que rapidamente, conquistado o poder, meteremos na ordem. Porém tal raciocínio sempre se revelou falácia. Na realidade, o que aconteceu, foi essa minoria caceteira ter corrido com a direita clássica, através de promessas populares e slogans mobilizadores contra elites e corrupções - que nunca pensaram eliminar ou mesmo combater – levando com eles a população crédula e insatisfeita com a incapacidade, tantas vezes revelada, das democracias liberais não só não conseguirem eliminar o fosso das desigualdades sociais, como, tantas vezes, de proporcionarem o seu alargamento. O mal, efetivamente existe, a cura populista é que não é o remédio para tais males, mas sim o seu superalimento.

 

  1. Porque altero a intenção de voto

 

Se nada se modificar teremos em Janeiro, pelo menos, seis candidatos a concorrer às presidenciais. Três de direita, três de esquerda. A presidência, a não ser que “Cristo venha à Terra”, está ganha por Marcelo Rebelo de Sousa. As restantes candidaturas virão a terreno para garantir o direito à palavra e posicionarem-se, no espetro político, na grelha de partida para as próximas eleições. Parece-me correto e um direito de cada um deles. Portanto, por isto, nada a contestar e ficaria muito tranquilo, guardando o voto para a minha candidata do coração, não fora, nos Açores, o PSD, na ânsia de conquistar o poder ter aberto as portas do inferno. Ao aliar-se com o Chega para derrubar os socialistas, e ao abrir hipóteses de repetir o jogo no continente, está a criar as condições para a subversão do nosso regime democrático. Volto a relembrar os casos italianos e alemães…

 

Assim, perante jogo tão leviano e perigoso restam-me duas posições para o contrariar, na medida das minhas forças e possibilidades. Ou a esquerda, aproveitando embora, individualmente, o tempo de campanha, se une ao redor de um candidato com melhores possibilidades de obter votação expressiva, ou, tendo em conta que o mais relevante será distanciar o/a candidata de esquerda do da extrema-direita, terei de, pessoalmente, tomar a decisão de votar eu, naquele que estiver nessa situação.

 

Até ao momento e nada me diz que venhamos a assistir a alteração de monta, esse lugar é ocupado por Ana Gomes. Que me desculpe Marisa, mas, pelas razões aduzidas, o meu voto não poderá ser para ela.

 

 

Publicado in "Rostos On Line"

 

 

 

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado por Carlos Alberto Correia às 20:17

Sobre o direito ao posicionamento próprio

Quarta-feira, 28.10.20

bloco.jpg

 

 

 

Andava muito tranquilo, algo distanciado de políticas partidárias – que não da Política da qual não me demito – quando sou confrontado com o discurso violento, destrutivo, do PS contra o Bloco de Esquerda, fundamentando-se sobretudo em duas acusações: - desertou da Esquerda, vai votar ao lado da Direita - por este ter decidido votar, na generalidade, contra o Orçamento para 2021,

 

Não sou tão ingénuo que espere dos partidos políticos qualquer análise racional sobre o comportamento dos outros partidos. A racionalidade é pesada, a emoção, mesmo que desvirtue a realidade, vende melhor as propostas partidárias. Peço que, antes de rebentarem em desaforos impensados, tenham a bondade de reparar que falei “nos partidos” não tendo excluído nenhum. Estes, tal como as nações não têm amigos, têm interesses e aliados. Os partidos regem-se por programas e vontades de eleitores. A esses têm de responder.

 

Postos estes prolegómenos entremos no âmago da questão.

 

Fui, desde o princípio, apoiante do Governo do PS, com o apoio da Esquerda. É meu desejo que tal continue a ser possível por muito tempo, no entanto, não desejo, nem espero, que essa unidade seja feita a qualquer preço. Mais, aguardo que, com respeito e interesses mútuos, se fortaleçam laços, se procurem caminhos comuns. Tais opções, como é evidente, supõem cedências mútuas tendo em vista os propósitos dos partidos e as conjunturas sociais.

 

Assim, após a lua de mel na “Geringonça”, com o início do Governo atual, sentiu-se que as posições, sobretudo do primeiro ministro, começaram a ser, no mínimo, pouco simpáticas para o Bloco. Era como se dissesse, fizemos um bom trabalho, mas agora, ganhei as eleições, nada tenho a negociar convosco, passem muito bem, vão à vossa vida. Perfeito! Nada a obstar. Apenas este discurso pressupunha uma coisa que não aconteceu. O PS não obtivera maioria absoluta. No entanto, comportava-se como se a tivesse tido. Recusou a renovação dos acordos à Esquerda, decidindo-se por um sistema de navegação à vista e de alianças deslizantes. Tudo bem, estava no seu direito. Talvez até conseguisse levar o barco a bom porto, não fora o inesperado da pandemia lhe ter desabado em cima. Sem rebuços aceito que, perante a gravidade do caso, o Governo se esforçou para fazer frente ao perigo e, pese embora cada um pensar que poderia ter feito mais ou melhor, desempenhou as suas funções com capacidade e sensibilidade bastantes. Afirmo mesmo que seria um pesadelo esta situação com o Governo anterior.

 

No entanto, voltemos à vaca fria, o PS, o Governo, confrontados com a enormidade da tarefa, iniciaram uma mudança de discurso, um jogo de sedução à esquerda, bem nítido com o PCP, balançante com o Bloco. As questões trazidas pela Covid-19 obrigaram a um orçamento retificativo no qual, o Bloco apoiou o Governo.

 

Para o orçamento de 2021 as conversações foram longas e quanto me apercebi difíceis. Tão difíceis que não foi possível o acordo, pelo Governo requerido ao Bloco e este, considerando serem insuficientes as medidas que considera como inultrapassáveis, decidiu votar contra o Orçamento, na especialidade. Que crime cometeu o Bloco, ao proclamar esta posição, explicando divergências de fundo com opções que reputava intransponíveis nesse documento? Negociaram, discutiram, não houve acordo. Se o Governo têm o direito de dizer não, porque quer recusar o mesmo ao Bloco? Será que pensa ser este Partido de tal menoridade que não poderá ter como vontade e expressão senão aquilo que o PS, ou o Governo, quiserem  permitir? Será esta decisão de não alinhar em algo com que se não concorda alguma Heresia?

Se não é – e não é mesmo – tal não parece ao ouvir os discursos inflamados, durante a discussão do OE, nestes dois dias de debate na Assembleia da República. O PS, que tem votado tantas vezes, mesmo nesta legislatura, ao lado da Direita, esqueceu-se disso e veio reprovar moralmente o facto de o Bloco votar contra, ombreando com a Direita, ficando, para todo o sempre, na fotografia com ela. Senhores! Será que o Governo já mandou queimar o álbum onde está de pé, contra a Esquerda, a votar ao lado da Direita?

 

Outra acusação é de “ter desertado da esquerda”. Fico estupefacto! Querer mais condições para o Serviço Nacional de Saúde; garantir o mínimo de dignidade a desempregados e precários, bem como a possibilidade de poderem superar os perigos que a pandemia acrescenta a quem tem falta de meios; retirar do pescoço de quem trabalha o cutelo das leis antiemprego da Troika , é desertar da Esquerda ou manter a coerência perante as promessas feitas, não só pelo Bloco, mas pela “ideia” da “Geringonça”?

 

Haja decência senhores! Deixem a demagogia culpabilizante de lado. Aproveitem este período até à votação na especialidade e sejam de “esquerda” nos atos, não só nas imerecidas palavras e pérfidas intenções trazidas aos ouvidos das gentes, sobretudo neste dois últimos dias. Não se pode afirmar: há sempre alternativas, e pensar, mas só a minha é válida!

 

Publicado in Rostos on line

 

 

 

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado por Carlos Alberto Correia às 21:32

Está proibido o Covid nas Escolas

Sexta-feira, 11.09.20

covid1.jpg

 

 

 

Estou tranquilo. O Ministério da Educação deve ter feito sair um Decreto que proíbe, definitivamente, o Covid de entrar nas escolas.

 

É isso que depreendo, após os anúncios de extensão do estado de contingência a todo o país, da proibição de ajuntamentos de mais de dez pessoas, do máximo de quatro clientes em pastelarias, cafés ou restaurantes, nas proximidades das escolas.

 

Também me agrada, sobremaneira, a decisão de expurgar os professores do teletrabalho, embora se pense em reativar e alargar ao ensino secundário a tele-escola. Sou, como todos sabem a favor das discriminações e acho bem que todas as classes profissionais possam ter acesso ao teletrabalho e os calões dos professores, de grupos de risco, se quiserem tomar precauções – para eles, no pensamento(?) do Ministério verdadeiramente excessivas – deem faltas, metam baixa, percam remuneração. Está correto! Como todos sabemos trabalham pouco e ganham bem.

 

Depois do trabalho insano do Governo em reduzir o número de alunos por turma, para cumprir o estatuído sobre distanciação pela Direção-Geral de Saúde; do aumento exponencial de pessoal auxiliar para fazer frente ao acréscimo de trabalho trazido pelas necessárias e contínuas higienizações; dos milhares de testes prévios feitos a alunos, professores e restantes funcionários, é muito má vontade dos docentes pretenderem defender a sua saúde,  as suas vidas e de familiares. Quem se julgam eles?

 

Apesar do número de infetados estar a aumentar diariamente, de sabermos que muitas escolas ou partes delas irão encerrar nos próximos tempos para contenção epidémica, devemos estar tranquilos. O Ministério, ao arrepio das normas que diz recomendar, fará nelas absolutamente o contrário, na certeza de que, as precauções definidas para todo o país, serão ali desnecessárias, quer por as escolas serem, por sua natureza imunes a tais minudências, quer porque o Ministério, como disse no princípio já fez certamente sair o decreto a proibir o Covid de lá entrar. Se algum aluno aparecer contaminado terá sido seguramente por não ter tomado as devidas precauções em casa, no café, nos transportes ou porque, vá-se lá saber porquê, fugindo â regre de distanciamento nos recreios, de forma inesperada o quebraram para cumprimentar amigos ou respirar um pouco melhor, sem o cheiro a desinfetante da máscara.

Sejamos sérios. A epidemia está a crescer. As escolas não foram preparadas para esta situação excecional; o Ministério, cujo ministro é uma constante ausência, confia desabaladamente em Nossa Senhora de Fátima para proteger as inocentes criancinhas. Ao contrário do que poderão pensar, julgo necessário o retorno a aulas presenciais. No entanto, volto a cingir-me às diretivas governamentais e da DGS, não me parece que tais medidas tenham sido, ou venham, a ser implementadas nas escolas. Numa espécie de tudo ao molho e fé em Deus, mandam-se os alunos, professores e restante pessoal para a fogueira e logo se vê no que dará.

 

Depois, se tudo correr mal, como é muito possível, tomaremos as medidas adequadas, culparemos as direções, lamentaremos profundamente as vítimas e estaremos livres duma série de professores envelhecidos e doente a preços módicos. Além disso, nesta altura, mesmo que diminuíssemos o número de infetados já não vinha a tempo de salvar o Turismo.

 

 

Publicado in “Rostos On Line”

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado por Carlos Alberto Correia às 17:56

Sobre a Festa do Avante

Quinta-feira, 03.09.20

 

 

 

festa do avante.jpg

 

 

Para que não haja dúvidas informo os putativos leitores de que não sou parte diretamente interessada neste “caso”. Fui a todas as festas até à mudança para o recinto onde hoje decorrem. Desde aí nunca mais as frequentei. Não tentem encontrar nisto algo de ideológico ou de repúdio pela Festa. Ela foi um dos mais valiosos eventos culturais do País durante muito tempo. Depois, com a proliferação de festivais e concertos terá perdido um pouco esses louros, mas continuou a ser muito importante, como acontecimento cultural, e não apenas para os comunistas. A razão para deixar de participar tem apenas a ver com o pouco gosto que tenho pela condução e porque, no primeiro ano de Atalaia me vi metido em engarrafamentos monstruosos e na dificuldade de estacionamento. Assim, por este desgosto, por preguiça, por substituição e pela recordação do difícil trânsito, desabituei-me e nunca mais fui.

 

Desculpem-me esta longa justificação, porém ela é importante para me situarem na posição que tomo.

 

Primeiro o PCP tem toda a legitimidade para fazer a sua Festa. Terá, contudo , de limitá-la às prescrições da Direção Geral de Saúde, as quais parece está a acatar.

 

Segundo discute-se a sensatez de se a deveria fazer neste momento de Covid-19.

 

A discussão é justa, faz sentido e, teremos de considerar que o perigo de ali nascer qualquer surto é real. No entanto, também o é nas praias, nos transportes, nos restaurantes e no trabalho, assim como em inúmeros locais por onde transitamos e que seria fastidioso enumerar.

 

Por quê então tanto ruído. Se pensarmos que muitos dos que se revoltam contra a efetivação destas festas são aqueles que defendem a assistência a futebóis, touradas e outros eventos, bem como da revolta contra a prescrição do uso de máscaras, ficamos desconfiados que tudo isto resulta  apenas por ser o PCP a realizá-la. E aí somos transportados para a desconfiança de que razões obscuras (ou nem por isso), diferentes das sanitárias apresentadas, estarão por detrás desses clamores.

 

O Covid veio para ficar. Enquanto vacinas e medicamentos atuantes não sejam produzidos e distribuídos, teremos, em qualquer passo da vida, mesmo em nossa casa, de conviver com o risco. Sabem, a vida é tão perigosa que até conduz à morte. É  e será sempre uma questão de cálculo entre o risco a correr e o benefício a usufruir. Isso é coisa que dependerá do juízo de cada um.

 

Na minha opinião – e nada vale além disso – teria havido sensatez se o PCP se tivesse decidido por qualquer outra forma de festividade e participação. No entanto tal é decisão que só às suas estruturas cabe tomar. Por elas terá o prémio ou castigo que o povo considerar merecerem. O PCP tem toda a legitimidade de levar a sua festa Avante! As pessoas têm o direito de ir ou não ir, assim como podem continuar a viver ou, por medo, enterrarem-se em casa cortando todos os laços sociais, porque hoje, até respirar é perigoso.

 

 

 

 

 

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado por Carlos Alberto Correia às 18:16

setembros II

Terça-feira, 01.09.20

 

 

 

I

 

aguardo agora a passagem da paz sobre o colibri do tempo

tumultuosos de imensidão doem-me os espaços

 

aqui te espero e me perfaço

 

alguém me disse

a hora de partir é um inverso sorriso

dolorido no momento

em que prantos mordem por dentro das vozes

tal um substantivo estala lentamente no real dos dentes

e adormece recalcando a luz e o olhar

 

aguardo calmo o tempo

de parar

 

II

 

estudas vagamente o lento traçar das pernas

espontâneas as coxas sobrenadam

recolhidas nas memórias

 

resides nessa messe subtil e recortas o recôndito do sexo

pleno exercício de perfeccionismo

quando te dás e és meiga generosa e pensativa

 

encontro-te por vezes no todo onde resisto

lugar de movimentos e recusas

procura imediata de tudo quanto é novo

inocente e pleno e montado na loucura das palavras

setembro avança e as notícias vagamente vão chegando

 

III

 

há quanto tempo espero o teu sinal

égua de vento carrossel de chuva

e preparo as imagens que se perdem nos amados setembros

entre as muitas águas da realidade

 

dizes-me

em setembro meu amor iremos aos campos

onde as borboletas se amaram com doçura e se extinguiram

pequeno fogo que ilude as madrugadas e o céu é pasto

de mansas estrelas iniciais

pedes-me mudamente que te espere

contas histórias incompletas e heroicas

produzindo os alicerces da minha catedral

 

porque me falas de setembro

se todas as sombras estão paradas

e desmoronadas pelas frinchas da tristeza

as paredes escurecem em prematuros invernos

vesperais

 

que nada tivesses dito por setembro

e me fosses interdita meu amor

nem teimasses em parecer possível

ó irrealizável alvorada de azul transparente e completa

tonta gazela que te esvais nos moinhos das palavras

quando desapaixonada comentas

 

em setembro lembro-me da morte

 

e fechas os olhos contra a almofada

e calas o medo das tardes

por enquanto doces e doiradas

e do vento fresco nos ocasos

pensados em abismos sobre os olhos

melancólicos e trágicos de nuvens

plantadas à porta dos sorrisos

 

 

IV

 

em setembro longe das promessas por fazer

ou dos sonhos por cortar

construí esta história nas asas dos ventos minerais

 

em setembro não vieste o sonho desfazia

em setembro entre raivas e esperanças

o tempo por demais se consumia

 

carlos alberto correia, "penélope e outras esperas", ANES, Lisboa, 1982

 

 

 

 

 

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado por Carlos Alberto Correia às 00:38

MEMÓRIAS

Quarta-feira, 12.08.20

 

 

carlostrave.jpg

 

 

 

Nota – Decorria o ano de 1969. Regressara recentemente da guerra da Guiné. Curtia lutos de amor e estranhava o quanto tanto mudara em dois anos. Na casa da Margarida Morgado – a nossa Guida – juntávamo-nos todas as noites para ouvir música proibida, falar em revolução, dizer e fazer poesia.

 

No último dia em Évora, a vinda para Lisboa parecia tão sofrida como a ida para a colónia, deu-me o estro e saiu este poema:

 

com desacordo para a elsa

 

no qual tentava expressar as contradições que permeavam o grupo, assim como a tristeza de  ter de o deixar.

 

Hoje, embora seja situação recente, já nem a Margarida, a quem foi dedicado este poema, está em Évora. Mantenho por lá, ainda, família e amigos, mas cada vez menos. É a vida!

 

Este poema faz parte do livro “silêncio mordido” onde foram publicados todos os poemas a que a censura proibiu a publicação.

 

Por isso com saudades, apesar de tudo, dessa gente e desse tempo rededicando-o à Margarida e aos amigos de então aqui vai a minha conversa com a Elsa

 

 

com desacordo para a elsa

 

                  aos amigos da casa da margarida

 

 

 

a burguesinha de burgos

tinha cabelos loiros  tinha

olhos e voz cantantes

também as pastas de dentes

anúncios  televisão

 

que tinhas burguesinha

 

sorrisos de esperança  chopin calmo

a noite e os amigos

que se tinham e não tinham

 

se soul em soul a música se criava

em manifestas barbas por cortar

 

os bailarinos de cabeça para trás

com nenúfares nos ombros cegos

e mais música música com mais lendas

e beijos e lágrimas

 

pobre pobre margarida

a intermediar polos

revoluções  as árvores sangrando vítimas

as uvas fortes das mesas antigas

 

que mais tinhas burguesinha

 

a voz que se gritava  as meias caras perdidas

sapatos convicções

boas noites ao partir

 

sonha puro burguesinha

que este mundo suja todos

 

quem é que lava mais branco

 

todo o céu do meu país é azul ou azulado

todo o mar que se descobre é um mar já batizado

 

quem disse que em burgos não havia burguesinhas

 

os saxofones  as tubas  as massas alimentícias

são a cidade

e le plus grand bonheur du monde

não é o mundo que temos

ao deixá-lo

 

tu és a burguesinha e eu não acredito

que o queiras não ser

são tuas a música  as noites  a repartição

simples dos momentos

 

tens quase o que eu quero dar aos outros

falta-te um vietnam nas sobrancelhas

nagasaki em cada poro do rosto

 

creme creme creme puff

 

penso que gravitas no arroz fácil

acima das urtigas negras

covas de braços de prostitutas

e carnavais arrastados

 

deixa-me rir burguesinha que da tua rua eras

que um dia

somos só quartos sem ar

dó maior

reproduções

e horários de comboios no terreiro do paço

 

quem foi que disse que em burgos

não havia burguesinhas

 

Carlos Alberto Correia

 

 

 

 

 

 

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado por Carlos Alberto Correia às 22:40

O que vamos ser depois da epidemia?

Sexta-feira, 24.07.20

 

pandemia.jpg

 

 

A cidade está mais deserta. Cafés e restaurantes, apesar do distanciamento preventivo e das desinfeções contínuas, continuam com pouca afluência. Só nos lugares obrigatórios as filas crescem nas ruas, ao correr da parede a ladear a porta, levando os utentes ao desespero de aguardar a vez, que nunca mais chega, sob os ardores do sol. São alguns efeitos visíveis da pandemia.

 

Há cerca de um ano, conversando com amigos sob as perspetivas possíveis para a nossa época, considerando as parcas expectativas de alguma solução menos gravosa, previa encaminhar-se o mundo para caminho só conducente ao desastre. Perorava sobre os dois modos principais de reequilíbrio de sociedades desestruturadas por desigualdades gritantes: a peste e a guerra. Do alto do meu orgulho civilizacional apostava ser o conflito sangrento (de alta ou baixa intensidade) o regulador dos desníveis uma vez que a doença pandémica, considerados os vastos recursos médicos na posse do mundo, estaria afastada das possibilidades. Apesar dos graves problemas ambientais as nossas cidades em nada se pareciam com os insalubres burgos da idade média, ou mesmo dos séculos pós-industriais; a evolução da medicina teria, enfim, posto travão à vulnerabilidade, existente em qualquer forma de vida, da qual, por superiores, nos tínhamos afastado em definitivo.

 

Enganei-me! O Covid veio demonstra-lo sem margem para dúvidas. De repente vimo-nos indefesos, confinados, evitando o contacto físico com familiares e amigos, conversando, através de plataformas informáticas com pais e avós internados em lares, incapazes de perceber as ausências físicas, olhando com desconfiança e desconforto as imagens remotas através de “smartphones” e “tabletes”, privados do olhar presente, do toque, da respiração.

 

Factos que pareciam peças inamovíveis de granito, na ótica do sistema vigente, foram caindo, mostrando as fragilidades de cada nação, descobrindo a destruição larvar, subterrânea, desenfreada,  disfarçada de crescimento enriquecedor, ostentando os vitoriosos (poucos), ocultando, na medida do possível os esmagados pelas muitas impossibilidades e decisões que permitem que os poucos sejam os que, sobre os muitos, os que mais ordenam. O que esta pandemia, longe de estar vencida veio demonstrar – embora muitos ainda o não queiram ou possam ver – foi a falência do sistema dominante incapaz de suster a voracidade viral.

 

Sustento esta última afirmação na ultrapassagem de quanto se disse sobre a “democraticidade do vírus”. Embora aceitando tal como mera metáfora (os vírus são uma estranha forma de vida) poderemos afirmar, com as certezas próprias das mais fundamentadas ciências, não serem portadores de conceitos de democraticidade ou tirania. Vivem simplesmente cumprido a lei básica da vida “crescei e multiplicai-vos”.

No entanto, se tal ainda fosse necessário foi um revelador cruel das desigualdades. O confinamento de quem mora numa boa casa, mesmo que não seja a vivenda com piscina, rodeada de sebes e flores, em nada foi semelhante ao da família de fracos recursos com três ou mais pessoas a viverem amontoados em pequenos apartamentos, ou, situação agravante, nos bairros de lata a circundarem a cidade.  Estas circunstâncias, mascaradas enquanto durou o confinamento, rebentaram logo que o mesmo foi dado por terminado. As condições económicas de cada agregado revelaram a consonância com a morbilidade geral. A mancha dos novos surtos situa-se nos bairros limítrofes (inacabados ou mesmo clandestinos) plantados ao correr das linhas de comboios que, todos os dias, pendularmente os transportam para os empregos que restaram e a que, nem pela força de qualquer vírus, poderão faltar para que a família não venha a morrer da doença, mas sim da cura.

 

É claro que acontecimento desta importância, com o poder modificante inerente, não poderia deixar de ser analisado a todos os níveis: sanitário, económico, social, filosófico, etc.… Vou ressaltar aqui as questões mais filosóficas porquanto as económicas têm tido sobre elas os focos da comunicação social; para as sociológicas ainda o material está a ser recolhido nas muitas formas de resposta e superação do evento; as sanitárias galopam sofregamente sobre as questões de imunização. Porém, as filosóficas já podem e estão em campo, tentando a resposta à pergunta, o que e como vamos ser depois da epidemia?

 

Dois livros, saídos recentemente, “Este vírus que nos enlouquece” de Bénard-Henri Levy (Edições Guerra e Paz) e “Vírus soberano – a asfixia capitalista” de Donatella Di Cesare (Edições 70), procuram enquadrar o acontecimento. Henri-Levy, aparentando um distanciamento da loucura de Trump e Bolsonaro, na minha opinião, cai na mesma armadilha porque, ao pretender um “pensamento libertário”, acaba a negar, em nome dos direitos individuais soberanos, o dever de defesa coletivo, considerando o facto dos poderes aproveitarem os períodos de exceção para coartarem os direitos dos cidadãos de forma definitiva. Já Di Cessar, apesar da linha predominantemente filosófica, utiliza bastantes ferramentas sociológicas fazendo um enquadramento das várias situações com recurso a análises históricas e sobretudo à utilização do medo como forma, cada vez mais presente, da destruição interna das nossas democracias.

 

Tendo em conta que a Filosofia pretende sobretudo pensar o mundo como ele deveria ser – desculpem-me os filósofos tal simplificação – considero que ambos, Levy na perspetiva individualista, Di César mais do coletivo,  produziram obras importantes para uma primeira abordagem aos tempos que ai vêm, que serão certamente diferentes e de continuidades, mas que, por enquanto, ninguém pode, com alguma certeza dizer o que e como serão.

 

Tempos “interessantes” nos aguardam.

 

 

Publicado in “Rostos On line”

 

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado por Carlos Alberto Correia às 17:52

O Distanciamento social, claro!

Sábado, 27.06.20

 

covid.jpg"imagem recolhida no Face Book"

 

 

Nós, portugueses, somos assim. Ciclotímicos! Passamos da euforia à depressão e vice-versa, mais depressa que um Ferrari vai dos 0 aos 100. Embandeirámos em arco com êxito na primeira fase da luta contra o Covid, perdemos a cabeça com o surto extemporâneo de Lisboa e Vale do Tejo. Como também é nosso apanágio mais que tentar resolver o caso partimos numa cruzada para indiciar culpados, sacudirmos a água do nosso capote.

 

Como foi profusamente informado e fez caso nos média, o primeiro ministro perdeu a serenidade. “Mandou vir” com a ministra da saúde e, desalentado por o seu discurso sobre a testagem ser contrariado pela comunidade científica, abandonou intempestivamente a reunião no Infarmed, deixando uma ministra encabulada, os técnicos perplexos, o Presidente em estupor, a pensar como resolveria a situação. Pois!  A linguagem científica não é, nem pode ser a mesma dos políticos. É difícil acomodar as dificuldades de investigação, com a leveza, feita de forçada ingenuidade, do discurso cor-de-rosa pronto a servir no noticiário das oito, para deixar o povo tranquilo, pensando menos em epidemias e custos de vida e trabalho, refastelando-se no prazer  que eu,  por estúpido, não entendo de sermos o País de estatísticas exemplares, a merecer a subida honra de albergar a mais triste final do campeonato europeu, a decorrer dentro de pouco tempo.

 

A pergunta que qualquer cidadão de bom senso fará é, certamente, como chegámos aqui. Tentemos analisar, ainda que com alguma superficialidade, o percurso seguido.

 

Embora com algum atraso, mas com coragem bastante, recolhemos a casa, vimos e apoiámos os esforços do Governo para adquirir meios, equipamentos, pessoal, para fazer frente à tempestade a desabar -  já não subitamente, beneficiários que fomos de dramáticas experiências de outros países – sobre nós. Medo e esperança constituíram os ingredientes necessários ao objetivo traçado (achatar a curva). Com os esforços de toda a gente, confinados e os que ficaram nas trincheiras a combater o invasor, fizemos um figuraço. Portámo-nos bem! Recolhemos os créditos.

 

Mas aí um fantasma agigantava-se. Estávamos em Junho. A época alta do turismo aproximava-se e muito boa gente temia perder boa parte dos réditos antecipados. Por outro lado a economia inquietava-se, ressentia-se, chamava a atenção, tinha ciúmes da saúde. As pressões dos lóbis sobre os governantes deve ter sido intensa. Tanto que, a despeito de ter sido afirmado que só desconfinaríamos quando o índice RT estivesse abaixo de 1, esquecemo-nos deste limite e lá fomos para os afazeres diários com um índice de 1,1. Poder-se-ia prever o risco inerente a esta decisão. Talvez se tivesse previsto. Dou de barato que os mandantes, pesando os termos, tivesse decidido pelo aumento marginal de casos, diminutos, controláveis. Assim, um pouco triunfalmente fomos mandados sair de casa, aconselhados a lavar as mãos, usar máscaras,  manter o distanciamento social. Tudo bem. Parecia razoável. O pessoal já não aguentava mais tempo fechado, a economia fazia sentir a sua premência e, como bem foi dito, sem produção não há saúde que aguente.

 

Até aqui nada de substancialmente errado. Podia concordar-se ou discordar-se, mas as decisões eram racionais,  compreensíveis. Mas então aconteceu o “impensável?”. A pandemia recrudesceu em força, sobretudo situando os seus malefícios em Lisboa e Vale do Tejo! Impropérios, por quem de direito, devem ter sido ouvidos nos lugares próprios. Exortações a descobrir os focos de infeção, também não devem ter faltado. No entanto, apesar de tudo isto, nada se descobria, nada dava resultado visível. Estariam os fados a conjurarem-se contra nós? Fartos da nossa “húbris” desfechariam as potestades o seu raio raivoso a atingir-nos em tempo e locais tão perigosos aos desígnios turísticos da nação que dele se alimenta?

 

Surgiram os discursos justificantes. A construção civil, as empregadas domésticas, a festa em Odiáxere, o , talvez excessivo, número de testes em relação a países menos honestos a concorrerem pela quantidade de turistas. Durante uns dias a explicação pegou. Porém, análises mais coerentes, distanciadas de interesses e poderes, vieram mostrar o peso relativo de tais explicações. A construção civil nunca confinara, as empregadas domésticas sempre trabalharam (que outro remédio teriam?), e o raio dos técnicos tiveram a ousadia de desmentirem o tão conveniente discurso da quantidade de testes a explicar tudo e mais algumas botas. Ah! Não devemos esquecer a tentativa desesperada de condenar e responsabilizar as festas (inaceitáveis) de jovens, permitindo manifestações e congéneres. Isto, por certo, baralhou um pouco o discernimento das gentes.

 

Aquilo que nunca passou pela cabeça dos nossos dirigentes, confesso que seria extraordinariamente difícil de por na equação é que, enquanto confinados, os 50% de transportes em funcionamento – com o restante pessoal em lay-off – podendo ser suficientes, seriam, após o desconfinamento, altamente deficitários. Eu entendo a extrema dificuldade desta perceção. Mesmo eu, escriba que se quer honesto, andei de cabeça tonta à volta do problema, levando tempo para descortinar esta, que é uma – não a única - das causas suficientes. Talvez, ingenuamente, o Governo tenha pensado que, ao dar ordem de soltura as empresas de transporte, eivadas de moral social acima do cálculo, chamassem o pessoal em lay-off, aumentassem o números de veículos e, sem mais, não deixassem ultrapassar os dois terços máximos de lotação, necessários à salvaguarda da saúde dos utentes. Mas, senhores ministros! Ainda não perceberam que o coração, a moral, da maioria das empresas é uma folha de cálculo? Pensavam que, de motu-próprio, acorreriam a prescindir da renda paga pelo Estado, a arriscarem menos lucros, ou mesmo alguns prejuízos, aumentando de imediato o transporte de molde a poderem cumprir o indicado, por Vexas, como máximo de lotação? Francamente, nem eu serei tão ingénuo.

 

E depois, também eram desconhecedores da cintura de pobreza e degradação habitacional dos arredores de Lisboa. Acredito! Talvez nunca por lá tenham passado e, ocupados como estão, nem têm tempo para ver telejornais. Porém eu vejo-os! Pasmava com as descobertas de positivos mandados para casas sem condições onde, na espera, infetariam todos os residentes, que iriam infetar quem se apertava com eles nos transportes, que por sua fez fariam a inseminação do vírus nos locais de trabalho e a seguir iriam infetar quem com eles se cruzassem nos tais transportes a 50%, nos supermercados, no bairro, no café, na habitação! E estão admirados de não descobrirem as origens do surto? Tivessem vocês tempo e teriam visto, uma destas noites, na Televisão, um gráfico a mostrar as regiões onde o vírus se passeava. Nunca, mas por nunca ser, me lembraria daquilo que vi. Não é que a mancha se distribuía, quase homogeneamente, ao longo do traçado da linha de Sintra? Inacreditável!

 

Bem, poderia estar a estender estas perplexidades por um ror de casos. Porque o espaço é “valioso” e a minha paciência curta, vou terminar deixando, como convém às histórias infantis, uma moralidade. Não podemos ceder à ganância de interesses privados. Entre eles o turismo, -não único, mas citado por, em minha opinião, ser um dos que mais peso teve para que o desconfinamento fosse feito de tão apressado modo, aceitando riscos demasiado grandes - o qual, no receio de perder avultadas verbas na estação alta, queria, mesmo à custa da mentira e do descalabro, manter vivo na ideia da estranja, sermos o paraíso “Covid safe”. Por isso havia de declarar-se, ainda que com indevida antecipação, a normalidade possível. Assim o quiseram, assim o impuseram e, como as cadelas apressadas parem os filhos cegos”, a cegueira desceu sobre todo o discernimento, abrimos as portas a riscos até aí evitados e glória das glórias, por receio da perda de alguns recebimentos de turistas mais receosos, por pura ganância, vamos perdê-los quase todos, estragámos o bom trabalho feito e vamos ver quanto isto vai custar-nos mais quer em termos económicos, quer em saúde, morte e infortúnio.

 

Já me esquecia! Como em todos estes casos, vão ter de aparecer responsáveis, de rolar cabeças. Conhecendo a justiça destas situações posso alvitrar que haverá mão pesada para todos os interveniente. Exceto, como é natural, para os verdadeiros culpados.

 

Publicado in “Rostos on line”

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado por Carlos Alberto Correia às 18:44