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Estou chateado!

Terça-feira, 05.06.18

 

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Pois estou e bastante! Sei ainda que, ao escrever este artigo, irei ficar pior, porquanto uma chusma de amigos virão declarar a irrazoabilidade das minhas posições, trarão à superfície o meu, já consabido, pendor extremista, perorando sobre a virtude da contenção, do meio-termo e, alguns, esquecidos dos conselhos morigeradores, com os quais virão mimosear-me, deixarão mesmo de me falar ou de, em público, serem vistos na minha nefasta companhia. Paciência!

 

No entanto, teimosamente, continuarei, contra ventos e tempestades, a proclamar o forte ressentimento relativo a algumas posições deste Governo – que ainda apoio – mas que me anda a causar borborigmos intestinais cada vez que sinto fortalecerem-se os argumentos, por mim expressos em artigo aqui publicado, quando Marcelo ganhou a Presidência.

 

Dizia eu, recordando os distraídos leitores, que o seu apoio à Geringonça duraria até conseguir correr com Passos Coelho da chefia do partido, favorecer a entrada da sua gente e, a partir daí, manobrar no sentido de sintonia cada vez maior entre os partidos Socialista e Social-democrata. Claro que, entretanto, não se importaria de fazer umas selfies com o tio Jerónimo e a prima Catarina, enquanto veria, contrariado e de sorriso afivelado, caírem nas malhas da justiça alguns amigos, muito impossibilitado de lhes valer com mão segura. Enfim, contrariedades que algum dia poderão ser remediadas.

 

No entanto, instam-me vocês, porque é que estás chateado se já presumias o sentido da “coisa”. Pois, replico, além de muitas outras que poderia, fastidiosamente, transportar para aqui, vêm-me à cabeça a contagem de tempo de trabalho dos professores e a questão das reformas.

 

Primeiro, não percebo como poderão elidir-se quase dez anos de trabalho efetivo com a desculpa de, se for contado o tempo total, isso representar um custo insuportável para as finanças públicas. Vamos lá a ver se percebo. Os professores trabalharam esses quase dez anos todos os dias, ensinaram matéria, levaram alunos a exame, trataram da imensa burocracia a que os vêm sujeitando e agora vem um ministro dizer que todo esse tempo de trabalho não conta como trabalhado!? Desculpem, não percebo a lógica. Como é que se declara administrativamente inexistente um decurso temporário bem delimitado? Que passe de mágica é esse? Qual o sentido de trocar dez anos de vida por três de carreira? Abstrusa matemática esta! Que sumidade a percecionou? Depois a culpa é do Sindicato por não perceber que, na aritmética do ministro, três é igual a dez. Ah! Cabecinhas tontas incapazes de perceber o ilusório dos números. Pois então não está provado que dois mais dois são três? É somente uma questão Quântica!

 

Segundo:  as reformas antecipadas. Andava para aí em sussurro a possibilidade de retirar a penalização dos treze por cento e estudar o alívio das penalizações mensais, para permitir que gente doente e cansada pudesse reformar-se e dar o lugar a jovens os quais, por falta de trabalho, continuam a abandonar o país. Pois, andar andava, mas, quando se chegou ao momento da verdade aconteceu o inverso. Aumenta-se a idade da reforma e a penalização a desaparecer, não só não se extingue, como é aumentada.

 

A isto, e muito mais, (não curo falar do Serviço Nacional de Saúde, nem de outras questões relativas à Educação) reponde-se com o infalível argumento de não haver dinheiro e eu pasmo. Passam-me céleres pela cabeça o nome de uns tantos bancos, de somas astronómicas e até vejam lá, de um Banco Bom, já vendido a privados, no qual ter-se-á de “enfiar” mais uns milhõezitos. E, para esses, o dinheiro aparece sempre. Insondável mistério!

 

Na realidade o lado europeísta deste Governo (PIB, dívida e obediência aos ditames de uma comissão não eleita, burocrática e neoliberal) acentua-se dia a dia. Se não estou em erro foi para corrigir uns quantos males suscitados por certas opções que a Geringonça se formou e não para o contrário. Foi um passo positivo, sem dúvida, mas parece estar a seguir um caminho que só pode conduzir ao desmantelamento. Se calhar é por isso que vemos tanta gente, à espera de qualquer coisa indizível, a assobiar para o lado.

 

 Isto, sinceramente, chateia-me!

 

(Publicado in Rostos Online)

 

 

 

 

 

 

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publicado por Carlos Alberto Correia às 16:32

Por respeito a Angola

Sábado, 28.04.18

 

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Sabe-se, de ciência escrita e comprovada, que quando o leão novo expulsa o leão velho, a sua primeira ação é liquidar todos os filhotes do vencido. Este exemplo da Natureza ribomba-me na lembrança ao olhar os acontecimentos da passagem de poder em Angola.

 

Nunca lá estive nem tenho interesses, não pretendo dar, aos angolanos, lições de ética –a tal não me atreveria com os casos, em Portugal, de corrupção, falências culposas de bancos, fugas ao fisco, nebulosas imparidades, etc.… - mas não posso deixar de sentir, enquanto ser humano, a desdita a grassar por país de tantas e vastas riquezas.

 

Passando a publicidade, numa das histórias do meu romance “Momentos para inventar o amor”, no capítulo intitulado “Mande queimar a roupa velha”, teço alguns pensamentos sobre essa coisa omnipresente e fugidia que é o poder e que, mais coisa menos coisa, se encaixa no reconto da transição de poderes em Angola.

 

Como a muita gente, certamente, desgostou-me a cleptocracia instalada naquele País no seguimento da independência. Observei, estupefacto, como o guerrilheiro se transformou em capitalista e como, de forma atroz, se permitiu espoliar os compatriotas das riquezas que, equitativamente, por todos deveriam ser distribuídas.  Apesar de não podermos outorgar-nos o título de impolutos na matéria, foi golpe rude nas convicções de quantos, defendendo a independência das colónias, esperavam um tudo mais de justiça e humanidade. Mas, o mundo é o que é, e lá fomos convivendo – alguns mesmo beneficiando – com o novo estado de coisas. Sentia-se, porém, de modos múltiplos, que o regime apodrecia, o nepotismo enfraquecia a sociedade, a grande riqueza ombreava com a maior das misérias. Desse desequilíbrio alguma coisa – nada boa – haveria de resultar.

 

Talvez por se aperceberem disto, sem dúvida estribando-se em razões de impossibilidade física do ditador, os donos do regime decidiram ser a hora - ia dizer da renovação - mas arrependi-me de imediato, e transformo em mudança. É que renovação, como a palavra indica, pressuponha que muitas coisas iriam ser revistas e modificadas. Mudança apenas indicaria o aparecimento de novos rostos nos lugares de poder, mas tudo o resto continuaria na mesma.

 

Algumas vozes de lutadores antirregime pareciam dar-me lastro a essa ténue esperança. Por isso esperei, confiado.  Voou o tempo e dois casos constituir-se-ão em muro de desilusão. O primeiro centra-se na incapacidade do regime angolano em perceber a separação de poderes. Trata-se, como é evidente, da alegada corrupção de um procurador da República por personalidade angolana. Só numa democracia se percebe e permite que um ex-governante seja julgado por qualquer crime, cometido dentro ou fora do mandato, bem como no poder soberano do aparelho de justiça, cego à qualidade social dos arguidos. Angola, segundo parece, não só não o pratica, como não o entende. A segunda prende-se com a transição de poderes.  Seria e pareceu, levemente, ser o momento oportuno para uma reviravolta positiva na governança do Estado. Muita gente acreditou e, a queda dos familiares do ex-presidente, permitia admitir tal hipótese. Deu-se o benefício da dúvida. Porém, na luta de galos travada no interior do partido no poder, em vez do debate sério, aberto, democrático, para a substituição das hierarquias, optou-se, mais uma vez, pela designação do mandante, segundo o interesse e dança de cadeiras dos interessados senhores do regime. Por outras palavras, o leão novo matou as crias do leão velho e substitui-as pela suas. Pouco mais se altera. Foi grande a desilusão!

 

Com o pedido de perdão ao autor de uma frase, que ouvi ou li algures, e não me lembro do nome, uso a sua interrogação: “como é que poderemos esperar que um partido que não se democratiza internamente, venha democratizar a sociedade.”

 

É isso mesmo! É triste! Mas, acontece!

 

 

 

 

Publicado in Rostos Online

 

 

 

 

 

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publicado por Carlos Alberto Correia às 19:30

Momentos para Inventar o Amor, de Carlos Alberto Correia - Entrevista

Sábado, 21.04.18

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Posted By: Rui Freitas 0 Comment Contos, Literatura

 

 

Na última conversa com Carlos Alberto Correia, falamos sobre o seu Concerto Para Sanca João, uma obra grandiosa, de uma certa literatura ficcional, que é ao mesmo tempo histórica, já que o que tem de ficcional é quase cosmética ou uma forma de unir pontas de “um entrelaçado de histórias que são memórias reais e imaginárias sinceramente verdadeiras”, como eu escrevi na altura.

Desta vez lemos e absorvemos Momentos para Inventar o Amor, uma obra enganadoramente simples, de tão complexa. O autor fala a várias vozes, através de personagens que por sua vez falam através de outras, e mais, desmultiplicando-se num exercício quase decadentista.

Um casal de titereiros, com as suas idiossincrasias, cria o texto para as suas marionetas, um casal também, em jogos de sedução, aproximação e afastamento. Uma das marionetas escreve uma história, não de um casal, mas de um triangulo amoroso.  E pronto, aqui, o domínio das personagens, o seu “texto”, as suas ações e pensamentos, parecem ter resvalado e saído do controlo do criador que já ficara para trás, esquecido. Estas ondas de choque atingem o ponto de reflexo e retornam, aparentemente até ao autor, que fica sem muitas opções, já que as ações das personagens começam a refletir-se umas nas outras, retroativamente. Eles ou ele, falam sobretudo de amor e de afetos; de encontros e desencontros, muitos desencontros sublimados e traições conformadas; discutem a sociedade, a política, o valor da vida e a premência da morte, o suicídio; as desigualdades, as quotas, o sexo, os sexos e os géneros; falam de deuses, do Andrógino e de Deus, Yahweh, que morreu cansado no fim da criação, mais cedo do que estimara Nietzsche; falam por enigmas, por metáforas, por imagens, poeticamente, o “poeta-deus” a lembrar o rei-filósofo de Platão. Discordam em tudo, em tudo se desafiam, ele e eles e os outros dois, mais os outros dois que aparecem mais tarde…

 

 

São várias histórias de amor que poderiam caber numa só ou é uma só história contada a diversas vozes e conduzida por presumíveis éticas e abordagens filosóficas distintas?

Mas afinal o que é que uma história de amor, terreno, humano, vulgar como os das vidas reais, dos romances e das novelas tem de filosófico? Tem tudo.

Na harmonia, desencontros e peculiaridades de cada relação, as personagens dão largas aos seus fantasmas pessoais e às suas interpretações, refletindo sobre a forma como cada opção ética se reflete no eu íntimo da cada uma, envolve os outros e condiciona as relações. Como a vida assume direções ao sabor das contingências do amor.

 

“As palavras saem do arquivo da memória, passam no coador do gosto, juntam-se na epiderme da sensibilidade, prontas quase à recusa ou ao conceito do conhecimento.”
(do livro, por Cursino)

 

Artes & contextos – Este livro sai completamente do trilho do Concerto e no entanto estava “prometido”, pelo menos, desde essa nossa conversa. Isto significa que o foste criando ao longo do tempo, ou tinhas apenas a ideia e é fruto de uma nova sementeira?

Carlos Alberto Coreia – O Concerto para Sanca João é um romance épico, portanto tem um estilo de saga. Conta-se o percurso de um improvável “herói”.  O presente, para lhe arranjar uma caixinha onde nunca caberá por completo, arriscarei classificá-lo com cínico/dramático. Conforme o ponto de vista poderemos considerá-lo de fermentação lenta ou muito rápida. Não é contradição. Enquanto o Concerto foi pensado a longo prazo, escrito de fio a pavio no decorrer de cinco anos, o Momentos apenas levou seis meses a completar.

Como bem notas o livro é uma sequência de histórias contadas, na sua maioria, por Cursino, personagem de uma peça de marionetes a ser montada por Kismet e Oblata. Muitas dessas histórias já estavam escritas e algumas publicadas. Se optasse por um livro de contos – uma das decisões possíveis – alguns textos ficariam de fora e o projeto a que me propunha estaria prejudicado, não atingiria os objetivos pretendidos, chegaria coartado ao leitor. Por isso, e é o que se faz na escrita de um romance, criei uma cosmogonia onde as personagens fossem, ao mesmo tempo e em planos distintos, ativas e/ou passivas, isto é, onde se contam e são contadas.

Para complicar um pouco mais a situação, um dos eixos que sustenta o Momentos (que se pretende um livro sobre o amor) é a escrita da escrita. O que é escrever? Porque e como se escreve quem escreve ou se descreve? E, para além do que se escreve quando se escreve, o que pretende transmitir-se nesse ato? Para mim, o reconto de uma história não termina na narração. Há sempre a exsudação, não direi de uma moral, mas de um sentimento crítico não só sobre a escrita, também sobre a atuação do escrevente e das suas personagens. A mensagem raramente é explícita. Está lá, embutida na razão da história e cabe ao leitor, na sua liberdade interpretativa, traduzi-la e recriá-la.

O livro é uma sequência de contos enleados num fio condutor que os transforma numa só história. Cada conto acaba por ser quase uma declaração de princípios, cada história foca-se num assunto base de importância social ou humana profunda e que são integrantes das preocupações do dia a dia do autor. Assuntos que lhe são caros discutir.

 

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Carlos Alberto Correia

 

 

A&c – Estamos perante um manual do Carlos Alberto Correia?

C.A.C. ­– Para responder a esta questão obrigas-me a fazer um périplo, a revisitar histórias e personagens. Antes da pergunta enunciada nunca se me pôs tal problema. Depois, tive de reunir-me comigo, observar as ações praticadas pelas personagens, perceber aquilo que por detrás delas, sob a capa da movimentação e opções, existiria.

A primeira ponderação, após o incómodo sentido pela palavra “manual”, isto é, um livro de receitas, um breviário de comportamentos, levou-me à recusa dessa classificação. Ofende-me o espírito “democrático”, coloca-me em desagradável posição autoritária. Depois, mais serenamente, saltou-me à vista que o livro escrito pelo autor não é necessariamente o apercebido pelo(s) leitor(es).

É claro que, não me propondo estabelecer um catecismo dos meus valores, torná-los únicos e obrigatórios para os outros sou, em qualquer caso, porta-voz dos mesmos e eles transparecerão, necessariamente, ao leitor atento. Por isso, quem lê, pode sentir, através das ações das personagens, as linhas éticas que conformam o código de vida do autor.

Escrever é refletir sobre o humano, o social. Se não tiver uma perspetiva da minha sociedade, do meu tempo, ou me faltar a vontade de sobre tais assuntos emitir o meu parecer, escreverei para quê? Para comprazimento próprio? Mas eu sou um preguiçoso ativo. Só faço o que é imperioso executar. Se puder manter-me no “nirvana” não bulirei uma palha. Portanto escrever é incómodo, dá muito trabalho. Assim, terá de ser um imperativo inultrapassável – individual ou coletivo – a tirar-me da inatividade. Tenho de sentir que alguém terá de apresentar a questão. E esse alguém, poderei ter de ser eu. Porquê? Porque estou no sítio, conheço ou reconheço o problema, tenho ou penso ter uma possível solução, ou, pelo menos, uma perspetiva. Uso as palavras como utensílio mais que para comprazimento. Por vezes acontece a delícia da escrita. É sentimento muito procurado, raramente conseguido. Fica o trabalho, a carpintaria e, depois, o vago prazer de ter, de algum modo, feito frutificar esse labor em algo de possível aceitação pelos outros. O que escrevo, mesmo quando perentoriamente afirmado, vale, na sua facialidade, apenas para mim. Não pretendo impor. Suponho e proponho. É-me, porém, impossível assistir ao espetáculo do mundo e ficar calado ante o bem e o mal ou o que não sendo nada disto, poderá ser qualquer destas coisas, dependendo dos sentimentos e efeitos produzidos. Exemplificando. Dois homens estão apaixonados pela mesma mulher. Supostamente ela escolherá um deles. O ato de escolha é simultaneamente bom e mau. Bom para o escolhido, mau para o perdedor. Para ela? Talvez não possa ser classificado em nenhuma destas categorias. Terá sido, simplesmente, uma escolha. Tenho, para mim, que tudo na vida é causa e consequência. Cada escolha define um futuro e descarta todos quantos eram possíveis antes dela ser feita. É na escolha que reside o que de bem ou mal possa vir a acontecer.

Este romance tem, como sabes, vários níveis e instâncias narrativas, o que lhe confere, provavelmente mais que a outros de estrutura menos complexa, a possibilidade de pôr em confronto comportamentos, situações e carateres diversos. Cada um transportará uma vivência, um código muito próprio. A minha intenção é que, a partir das atitudes, recontros e recontos das personagens, seja visível a diversidade de escolhas, pretendendo apresentar as mesmas como consequência e motivadas por interesses próprios, interações e inserções sociais. Reconheço, porém, que a voz autoral, possa transparecer como mapeamento daquilo que para ela é bom ou mau, aceitável ou não, independentemente de a mesma se querer equidistante, pretender somente apresentar – não julgar – e, no final, o intento falhe e a sua marca seja apercebida como o sentido obrigatório dos actantes.

Não posso, porém, deixar de sublinhar que a minha escrita – aliás, toda a escrita – tem por fim entregar uma mensagem. É isso que eu faço, no entanto, repiso, uma mensagem é apenas a transmissão de um saber, de uma notícia. Não envolverá o recetor noutra obrigação além daquela a que se sentir impelido, nem, em último caso, poderá supor-se que o emissor pretenda, mais que informar, desviar os caminhos de quem a recebe. Pode acontecer, mas é escolha de cada um. Dá-se-lhe, comummente, o nome de liberdade.

 

O autor, através das personagens, aprofunda temas em confronto com um contraditório imaginário e que pretende deixar-nos na incerteza quanto ao seu lado da barreira.

 

A&c – As personagens têm personalidade própria, como o Cursino e a Valéria discutem repetidamente?

C.A.C. ­– Estamos perante o problema do criador. Engendra por um motivo, com uma intenção. Por vezes, como se diz nos Momentos, é apanhado na “esquina das palavras”. Significa tal que ao preferir um termo a outro poderá estar a introduzir um novo rumo na história, no caráter das personagens. Está a transformá-las fora das intenções primárias. O texto é uma construção, a bissetriz entre o pensado e o transposto para a narrativa. Dificilmente serão coincidentes. Há um termo que está mesmo a ser necessário e não ocorre. Substitui-se por outro, mas a armadilha está montada. A partir dali a história enviesa pelo caminho aberto pela palavra conseguida, pelo conceito inerente. Já está tramado o escritor. Vai ter de percorrer sendas imprevistas, induzidas pela escolha feita. Subtilmente a trama transmuta-se e lá vamos percorrendo o trilho vislumbrado até à próxima encruzilhada, à escolha seguinte.

Se notares bem, não é só o Cursino e a Valéria que mantém tal discussão. Ela perpassa igualmente nas falas de Kismet e Oblata. Todos estão inseguros sobre a questão do “querer” das personagens. É um pouco a metafísica do quem sou eu? Do ser ou não ser! Do nosso reconhecimento no espelho e da especularidade da imagem a contradizer, muitas vezes, a perceção que se tem de si próprio.  É a procura do singular, da transcendência que se pode subsumir, nunca declarar.

 

A&c – E livre arbítrio?

C.A.C. ­– Se eu pudesse responder cabalmente a esta questão, se calhar não escreveria romances. Como sabes esta controvérsia percorre toda a história das civilizações. O homem é livre ou determinado? Pode escolher ou fará o que o seu destino traça? Várias épocas e culturas responderam de forma diversificada a este problema. No entanto tudo depende do ponto de vista.  É inegável que possuímos um certo grau de liberdade nas escolhas, também não é mentira que temos condicionantes a limitar o nosso poder de decisão. Posso escolher ser o campeão olímpico de velocidade, porém se o meu corpo não possuir as características necessárias estará determinado que nunca o serei. Aqui encontramos um argumento a favor do determinismo, mas supõe, por absurdo, que apesar disso consigo participar nesses jogos e, por uma série de causas extrínsecas à competição em si, sou o único a chegar à meta. Logo tive liberdade de escolha e a minha determinação ilidiu o que de determinístico havia na impossibilidade de alcançar o meu desejo.

O problema, suponho, é pormos os termos em absoluto. Está determinado que a minha vida terá um fim, no entanto o que farei com ela dependerá, embora não totalmente, bastante de mim. Voltamos ao plano das escolhas e dos muitos futuros realizáveis, modificados em cada opção tomada.

No entanto, nesse aspeto, o tom geral do livro parece decetivo. Como se afirma logo na entrada, tudo caminha para a entropia. A desordem, a queda, o fim, parecem ser estados para onde se marcha, dos quais não poderemos fugir. Porém, tal é ter a visão curta. O fim de um caminho, uma relação, por mais importantes que sejam, são apenas isso. Do caos ficante nascerá uma nova ordem, um novo devir. Por isso, em muitas religiões o deus que destrói é também o deus criador e vice-versa.

As afirmações perentórias escondem o pedido desesperado de uma resposta, mesmo se contrária àquilo que se afirma. É o terror da incomunicabilidade. Dos meus sentimentos não se transmitirem exatamente naquilo e no como digo. Do que ouves ser incapaz de traduzir o que quero dizer-te, da quase impossibilidade de percecionares, profundamente, o significado, a força, do que quero transmitir.

Posto isto, que julgo necessário para enquadrar o problema sem cair na tua armadilha, falemos do “livre arbítrio” das personagens.

A literatura é, como bem sabes, um jogo de máscaras. O autor despe-se de si para pôr na boca de outros quanto pretende afirmar e o seu contrário. É uma das prerrogativas do ofício. É possível afirmar uma coisa e o seu oposto, porque os bonecos literários existem para isso mesmo. Uma personagem é, sem dúvida, aquilo que o autor faz dela. Neste caso é destituída de vontade. Porém, o autor usa a língua como matéria prima. Como refere, creio que Kismet, no “Momentos”, as palavras têm esquinas e armadilhas. Conjugando-as com a necessidade de verosimilhança do escrito, podem – e muitas vezes acontece – obrigar a desvios do “destino” traçado para a personagem. Parece estarmos perante uma possibilidade de “livre arbítrio”. Porém essas escolhas apenas se passam no universo do romance, fora do qual a personagem não existe e, sem existência não disporá de qualquer arbítrio. Por isso (apanhaste-me) só possui a liberdade que a voz autoral concede, mesmo quando se desvia das identidades previamente escolhidas.

Com isto desmontaste parte do meu jogo. Fizeste-me cair máscaras. É imperdoável!

 

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Carlos Alberto Correia

 

 

 

As personagens têm opiniões muito firmes acerca dos assuntos que discutem; não há espaço a incertezas ou divagações, tão pouco a maiêutica elas afirmam as suas convicções quase declarativamente.

 

A&c – É fácil por duas personagens a contrariarem-se, em alguns pontos, profundamente?

C.A.C. ­– Tão fácil como qualquer personagem se contrariar a si própria no desenvolvimento do tema. São aliás essas contradições que estabelecem, muitas vezes, a tensão dramática.  Repara como Oblata e Kismet, ambos empenhados em escreverem, em conjunto, uma peça sobre o amor, a entendem de formas tão diferenciadas. Confrontam-se nas opiniões, perspetivas de vida, modos de encarar o ofício etc… No entanto continuam ligadas, lutando pelo mesmo objetivo, cada um a seu modo. E, como na vida, nem sempre são coerentes nas afirmações e atos. Mudam quando os contextos se alteram.

 

A&c – Discutes com as tuas personagens?

C.A.C. ­– Tive grandes discussões com Cursino quando ele decidia escrever as suas histórias. Além disso, o sujeito é um pretensioso que pensa conhecer e dominar tudo. Repara como ele, enquanto Cursino, escreve quase sempre no futuro e em negrito. O tipo chega a ser insuportável no seu pretenso saber. Valéria também, várias vezes se opôs ao que sobre ela queria contar. Nem calculas a guerra que foi conseguir a história do pai. De qualquer maneira “o autor é um oportunista” – diz-se no livro – quase sempre lhes consigo dar a volta.

 

A&c – E contigo?

C.A.C. ­– Pergunta retórica, Rui. Tu, como escritor, sabe-lo bem. Mas claro, estás no papel de entrevistador e terás de fazer tua a ignorância de um possível leitor. Pois bem! Quanto de nós há em cada personagem? Quanto permitimos que elas de nós revelem? Que imagens pretendemos passar?

Essa é a perene discussão do autor consigo, do autor com as personagens e das personagens umas com as outras (com o autor escondido por detrás das afirmações que lhes permite fazer). Enfim, o tão comentado jogo das máscaras. “O poeta é um fingidor…).

Em meu entender as personagens do “Concerto” serão diferentes destas porquanto encarnam uma temporalidade a fluir – embora com ressaltos – numa linha cronológica, de quando, em vez a par com a História.

Nos Momentos, com exceção dos pares Oblata/Kismet, Valéria/Cursino, elas estão enquadradas numa parcela de tempo e lugar, num recado que vêm trazer-nos. Passada a mensagem não têm qualquer razão para ultrapassar a demarcação da história comunicada. No entanto são a estrutura em que o livro assenta, a ficção da ficção. Os dois pares serão a cobertura, o cimento, que os liga.

 

No Concerto as personagens podem ser encaradas como representativas, compósitas, como lhe chamas e sendo ou não personagens reais, são modelos, chamemos-lhe assim, de muitas pessoas que naquelas circunstâncias terão vivido histórias similares. Aqui as personagens são muito específicas e construídas com um fim pré-determinado, como uma missão.

 

A&c – Tal como o Cursino, o Carlos Alberto Correia retrata personagens, mais ou menos “arredondadas”, plasmadas de pessoas reais?

C.A.C. ­– Pela forma, conteúdo e tema estas personagens foram de mais fácil conceção. Quase todas nascidas da imaginação ou consubstanciadas em meros frutos de observação distanciada, pude fazer delas o que me deu na gana. No Concerto havia a necessidade de modificá-las, torná-las compósitas, para não deixar ninguém desconfortável, bem como para “ajeitar” a realidade à ficção. Aqui tive a possibilidade de moldá-las aos meus desígnios, desobrigado do receio de ferir alguém. É verdade e volto a referir – “o autor é um oportunista” –  que nalgumas personagens afloram leves traços de pessoas com quem me dou. São apenas apontamentos.

 

A&c – Esperas que algumas se reconheçam?

C.A.C. ­– Será quase impossível alguém referenciar-se no descrito. Já quanto às situações muita gente pode ter passado por coisas semelhantes, mas isso é problema do social, não meu.

 

A&c – Quando, no último capítulo justificas o Cursino, estás a fazê-lo por ti?

C.A.C. ­– Em minha opinião, no “Cais das Colunas”, o Cursino não pretende justificar-se. Revela-se! Desmonta o jogo. Convida a perceber o que se passa por detrás do écran que é o espetáculo da vida atual e enceta um caminho possível para fugir à disforia. Faz o que nunca fez. Abre uma porta à esperança. Apesar do visto e percebido não desiste da procura. Alerta para o grande saber sociológico que nos diz: –  se uma coisa parece tão verdadeira que não pode ser senão aquilo que aparenta é porque, de certeza, é outra coisa. Acautela-nos contra as ilusões e ensina-nos que nada é, em princípio, inultrapassável.

 

A&c – A epopeia do Cursino para publicar o livro retrata a tua com a publicação do Concerto?

C.A.C. ­– Infelizmente não só a minha. Presumo que nunca se tenham editado tantos livros como agora. Tal é positivo porquanto abre um leque de escolhas assinalável e permite que obras valiosas venham à luz do dia. Já, por outro lado cria uma cacofonia onde é difícil descortinar o durável do passageiro. Também não é de fazer grandes lamentos. Vivemos no tempo acelerado. Escrever ou ler exigem o tempo lento, de encontro interior, reflexão. Ora isto é tudo o que a moderna sociedade aponta como detestável, improdutivo.

Dizia-me um amigo que há editoras que se lá formos, levarmos a lista telefónica, pagarmos o exigido, eles a publicam com a sua chancela e o nosso nome como autor. Passe a piada, mas o panorama é um pouco esse. Nada tenho contra o facto de qualquer escritor pagar parte dos custos de edição. É decisão que cabe a cada um. Aliás, como Cursino refere, Joyce e Proust também tiveram de suportar os custos dos seus livros. No entanto o problema não é esse. É o de terem acabado os “Editores”.

Lembro-me de, ao lançar o meu primeiro livro, “Silêncio Mordido”, uma pequena brochura de umas dezenas de páginas, o editor ao aceitar o livro, sempre em consonância comigo, ter tratado de tudo. Revisão, divulgação, distribuição, acompanhamento, foi tudo trabalho seu, não me exigiu qualquer pagamento e ainda recebi a percentagem acordada sobre os livros vendidos. Onde estamos agora? Uma empresa de serviços, intitulando-se editora, produz o livro com baixa tiragem. As menos más apostam no lançamento e depois o autor que se vire. Não há as prometidas divulgações, nem distribuições. Aconteceu-me isso com o “Concerto”. Após mais de um ano de negociações e cerca de oitenta mails trocados, chegámos a acordo.  Foi uma grande desilusão. Quase nada do que constava do contrato, dos mails e reuniões foi cumprido. Por isso mudei e este livro, experiencialmente, foi produzido como e-book.

Os próximos, estou a estudar o mercado, serão lançados como livro eletrónico e impressos a pedido. Parece-me ser o futuro e corresponderá aos interesses de quem quer gastar pouco num livro e não se importa, ou mesmo gosta, de o ler num suporte eletrónico, assim como permitirá, a quem não dispensa o livro físico, poder adquiri-lo, por preço superior, a qualquer momento.

 

O desenrolar da história com todos os seus enlaces e novelos faz-me lembrar algumas coisas de Kundera ou até Calvino, estou a lembrar-me, deste último de, por exemplo de “Se numa noite de Inverno um viajante”.

 

A&c – Quais são os autores que admites de algum modo te influenciarem ou inspirarem?

C.A.C. ­– Como já tive ocasião de te dizer vou buscar raízes a Camus, Sartre, Vargas Llosa e, em Portugal, a Virgílio Ferreira. No entanto, como todos, esforço-me por atingir a minha voz própria

 

A&c – Voltando ao Concerto e aos temas musicais que ilustram os pontos chave da narrativa, faço-te um desafio: imagina a leitura desta obra como uma experiência multimédia e não uma música para cada capítulo, mas antes um álbum que colocasses como fundo à leitura deste Momentos para inventar o amor.

C.A.C. ­– Esta deu-me que pensar. Enquanto no Concerto para Sanca João a música ia acompanhando o andamento da escrita, e muitas vezes era ela a suscitá-la, o Momentos foi escrito no silêncio. Mas, já que pões a questão, dei uma volta pelos discos, outra pela cabeça e surgiu-me – se calhar para me desenvencilhar desta – o Dark Side of the Moon, dos Pink Floyd.

 

A&c – Sem querer levantar o véu ou fazer spoiling, o fim do livro, leva-nos inevitavelmente ao início e a revermos tudo o que acabamos de ler. Aquele fim sempre esteve lá ou surgiu como resposta ao que foi acontecendo?

C.A.C. ­– Pois, o livro foi composto pelo fim. Sabia como queria que acabasse, embora a ideia fosse um tanto ou quanto nebulosa, e ganhasse corpo com o crescer do romance. Precisamente o contrário do Concerto em que, como sabes, cheguei ao fim com três epílogos possíveis. Por isso foi um trabalho de desvio e retoma do caminho pretendido. Por vezes tive de forçar as personagens a fazer coisas que não queriam… olha, lá volta o jogo…

 

A&c – Faço-te, de outra forma, a pergunta que já fiz na nossa anterior conversa sobre o Concerto: Foi fácil dar este livro como concluído, ou tiveste a tentação de voltar ao início, para mostrares às tuas personagens que a história afinal é tua? Ou não é?

C.A.C. ­– Nunca é fácil dar um livro por concluído. Andando este pelo mundo, já o reli várias vezes, detetando em cada uma delas pequenas coisas a melhorar. Uma palavra que se repete em excessiva proximidade, uma vírgula mal colocada, uma frase menos explícita, uma detestável gralha que passou a toda a gente. Mas, sim. Percebi claramente quando cheguei ao fim da jornada. Aliás, no Momentos mais facilmente porquanto tinha o encerramento delineado.

 

A&c – O que se segue? O próximo já está escrito na tua cabeça?

C.A.C. ­– Bem, acabei este ano o Com o cheiro das glicínias. Em estilo semelhante ao do Concerto. Posso dizer que é um livro paralelo. Nasce no local onde decorre boa parte do “Concerto”, a Obras de Arte, só que o narrador é um administrador dessa empresa que vai relatar uma parte do outro lado das coisas.  Acabei também uma peça de teatro Nem Romeu nem Julieta e, para além de outras coisas já escritas, vou começar um novo romance A caneta infeliz. Mas deste não digo nada, porque ainda não faço grande ideia do que irá sair.

 

A&c – Aguardamos então, paciente, as matizes desse aroma floral e um motivo para irmos ao teatro.

 

“(…) na cidade junto ao mar, passou a fome, a guerra, a doença. Nada tocou o poeta. De nada se apercebeu. A obra enche-o por completo. É o trabalho mais importante do mundo.”

(do livro, por Cursino)

 

 

Publicado em eBook por Porto Alegre: Revolução eBooks-Simplíssimo, 2017

 

 

Além deste Momentos para inventar o amor, Carlos Alberto Correia publicou em 1974 Silêncio Mordido e em 1982 Penélope e outras esperas, obras poéticas, e o romance Concerto Para Sanca João em 2015.

 

 

ruifreitas.png Rui Freitas

 

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publicado por Carlos Alberto Correia às 15:04

Quem irei bombardear na próxima semana?

Domingo, 15.04.18

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Toda esta confusão que vai pelo mundo, mormente no oriente vizinho, é muito simples. No entanto, além de me sentir meio perdido em toda ela, abomino que joguem comigo, com a informação e contra informação, de molde a fazerem-me sentir perdido, estúpido.

 

Senhores mandantes do mundo, não sou cretino e sei que o não sou. Por isso parem de agir como se o fosse.

 

Entre ameaças de mísseis e mísseis ameaçadores, passámos a última semana. Ouvi declarações, acusações, defesas de toda a ordem e complexidade. Li a indignação fácil e civil, de ambos os lados, nas redes sociais e vi tratarem-se assuntos, que poderão pôr a humanidade à beira da extinção, com a paixão e o nível racional postos a contestar a derrota do meu clube de futebol, apesar de no íntimo saber que foram uns nabos, que não se esforçaram, que se estiveram nas tintas para os adeptos ou, até no limite, que possam ter sido corrompidos para atingir aquele resultado. É mais fácil acusar o árbitro.

 

Porque não quero cair nesse despautério bebi um copo de água, fiz cinco respirações profundas e dediquei-me, mais calmo, a analisar os atores do evento.

 

Comecei por Assad. Concordo com Trump. Uma besta assassina! E veio-me o desconforto desta concordância. Espera lá, o Trump não tem armazenamento de gases tóxicos? Tem sim, senhor e, de certeza, muito superiores, em quantidade e toxicidade, aos existentes na Síria. Mandou destruí-los? Não! Então quere-os para usar em qualquer eventualidade? Com certeza. Nesse caso que moral tem para atacar a Síria pela posse e uso desses venenos? Usou-os contra o próprio povo! Imperdoável, sem dúvida. E Trump não o usaria caso as minorias exóticas, existentes nos Estado Unidos, pegassem em armas contra o Governo Central? Respondam vocês.

 

Então, exalta-se um amigo, justificas o ato de Assad? Porque faria tal só por chamar a atenção para a hipocrisia do senhor Trump? Claro que não justifico Assad, claro que penso que não merece continuar à frente da Síria e claro que esperei – ó primaveras árabes – que o clã dirigente fosse derrubado pelos opositores e que se instalasse uma forma de governo mais amiga dos cidadãos, de todos, não apenas dos apoiantes e beneficiários do regime, com mais justiça e igualdade. Ingenuidade minha? Talvez, mas prefiro esta ingenuidade ao cinismo do deixa ficar porque isto já sabemos o que é e desconhecemos o que virá.

 

Portanto, de uma penada, não estou do lado de Trump, nem de Assad.

 

E da senhora May? Credo! Abrenúncio! Então só porque se debate com o fracasso do Brexit, perde apoios internos, vou permitir que em imitação de Thatcher invente outras Malvinas. Que crie um inimigo externo para obnubilar debilidades internas? Ponha o mundo à beira do abismo para resolver o impasse da reunião que terá na segunda-feira e supõe lhe seja desfavorável? Uns misseisitos contra a Síria, ao lado do “amigo” Trump, se calhar poderão facilitar-lhe a vida…

 

O mesmo para Macron. Este Passos Coelho, mais poderoso e sofisticado, está a braços com a dificuldade da aplicação de “medidas estruturais”, que como se sabe, consistem essencialmente, em cortar, cortar, cortar: nos empregos, na saúde, na educação, nos vencimentos, nas reformas e ajudar, ajudar, ajudar os grandes empresários, os bancos falidos, para enriquecimento da clique que os dirige, a capacidade de fuga ao fisco, o predomínio dos “offshores”.

 

Por aqui, abreviadamente, estamos confessados.

 

E a Rússia? Perguntam-me outros amigos confiantes em que defenderei o seu papel. A Rússia o quê? A que esmagou a Tchetchénia? A que invadiu a Crimeia? A que desestabiliza a Ucrânia? A que dizendo atacar o ISIS minou a oposição a Assad?  A que já usou gases tóxicos e assiste impassível ao seu uso na Síria? Ora vão pentear macacos e pregar moral para outro lado.

 

Mas o ataque com armas químicas pode ser uma encenação! Pode com certeza! Destes tipos espero tudo. Será, aliás, suficientemente horrível para que as boas almas desejem o castigo de tão abomináveis personagens. Porém, se não tivesse havido o caso das armas de destruição maciça no Iraque, eu poderia embarcar… mas houve e tornei-me muito desconfiado. Quero provas, provazinhas… e depois a montagem desta cena não me convence.

 

Primeiro põem-nos os nervos em pé com uma situação que poderá facilmente acabar em Armagedão entre o dois Titãs do Mundo. Personalizando, Trump e Putin. Depois assistimos a qualquer coisa que me cheira a coreografia.

 

Eu explico!

 

O inefável Trump ameaça com o envio de mísseis lindos e novos. Putin, mais cauteloso, deixa falar o seu embaixador, põe um general a anunciar o derrube dos ditos mísseis e o ataque às bases de lançamento. Entretanto, como a mesma inutilidade de sempre, discute se na ONU o que fazer ou o que poderemos ou nos deixam realizar. Acusações para lá, acusações para cá. Ataco! Nem penses nisso! E os telefones dos principais atores combinam a coisa. Já fui longe demais, não posso recuar. Atreve-te e dou-te cabo do canastro. Ó pá, deixa-te de porcarias. Isto é feito para a malta ganhar e não para perder. Então avisas-me antes do ataque, com tempo suficiente para salvar a aviação do Assad, recolhendo-as nas nossas bases. Atacas alvos específicos, putativos produtores ou armazenadores de gases, mandas uma caterva de mísseis, eu derrubo uns quantos com o meu sistema antimíssil e ficamos todos a ganhar. Não só rodamos o material, como fazemos boa publicidade aos nossos produtos. Tu porque finalmente atinges os execráveis alvos, eu porque demonstro a eficácia do meu equipamento. Combinado? OK! Vamos lá a isso. Ah! Uma coisa, limita as baixas civis. Fica mal nos noticiários. Está montada a tragicomédia, vamos ligar as televisões.

 

Que querem! A maior parte dos meus amigos, de qualquer dos lados, vai ficar furiosa comigo ao ler este texto. Uns dirão que traí os ideais revolucionários, outros, lá está o esquerdalha a “barafundir” tudo. Aceito esses julgamentos, mas desde já declaro estar-me nas tintas para os “pré-conceitos” e, recuso-me a alinhar, por paixão, quando o perigo da situação exige raciocínio e ponderação. Como afirmei no princípio, toda esta confusão é muito simples. Resume-se a não acreditar em nenhum. Ninguém está inocente! Estão todos, em nome de elevados princípios, a procurar vantagens, domínios, recursos e poder. E estão a fazê-lo com um enorme risco para mim, para ti, para todos. Não vou no jogo. Não torço por nenhum deles. São todos culpados e potenciais assassinos em massa! Apetecia-me largar uma asneira que, por decência, contenho. Mas duvido muito da integridade moral das mães desses energúmenos.

 

O problema pode ser que, de encenação em encenação, de jogo de poder em jogo de poder, de expansão em expansão, acabemos um dia, por qualquer miserável descuido de qualquer deles - e não os nomeei todos –por “não acordar vivos”. Isto, sim, é algo que me chateia! À brava!

 

 

Publicado – Rostos online

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publicado por Carlos Alberto Correia às 21:06

Quem é convidado vai…

Sábado, 24.03.18

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Um velho adágio ensinava que “a casamentos e batizados não vás sem ser convidado”. Sempre achei que este era um bom conselho para a vida e esforço-me por segui-lo o mais possível.

 

Vem isto a propósito de dois convites. Há umas semanas Passos Coelho foi solicitado a lecionar numa Universidade, com funções equiparadas a Catedrático. O coro de protesto de alguma esquerda quase foi submerso pelos cânticos laudatórios da empenhadíssima direita, apostada em denegrir tudo quanto à Geringonça diga respeito, e a glorificar a pobreza e mediocridade do liberalismo(?) passista.

 

Na passada semana um grupo de alunos, da Universidade de Coimbra, convidou Sócrates para dar uma conferência nas suas instalações. Os mesmos tenores que achavam naturalíssima a equiparação de Passos Coelho a catedrático, sem medir minimamente as distâncias entre os dois tipos de convites, entraram em fúria e desdizendo o que anteriormente afirmavam, em favor de Passos Coelho, vieram à liça bramindo contra tal ataque à dignidade académica.

 

Bando de papalvos pagos a peso de ouro para botarem comentário a favor dos interesses de quem lhes paga! Caso esses patuscos se assumissem como assalariados, nada teria a opor e consideraria mesmo o possível mérito de desempenho em relação às funções contratadas. Mas não! Querem aparecer como impolutos e equidistantes julgadores, confiando que o pessoal ande mais que distraído ou, embora nunca o venham a confessar, confiando na esperteza própria e na estupidez dos restantes, para pespegarem as suas opiniões parciais como factos comprovados, de impossível contradição. Dizendo fazer jornalismo ou comentário, formulam um discurso teológico que, em vez da verdade, busca, tão somente, demonstrar a justeza universal do seu pequeno dogma.

 

Ponhamos os pontos nos ís! Uma carreira académica faz-se através de um percurso de estudo e provas, inscreve-se numa profissão hierarquicamente definida e, neste momento, recorre a um conjunto enorme de pessoas, com provas dadas as quais, anos após anos, alguns durante décadas, esperam ansiosos se, no ano seguinte vão ou não ter o seu posto de trabalho assegurado ou se, com mais de quarenta anos de idade e muitos, muitos anos de serviço, se verão relegados para a fila das gentes muito qualificadas, sem possibilidades de pôr essa qualificação ao serviço do País e, com isso, assegurarem também o dia-a-dia das sua famílias.

 

Convidarem ex-primeiros ministros, ou qualquer outro profissional de qualquer ramo, com reconhecido mérito, para fazerem palestras nas Universidades, ou mesmo para ministrarem cadeiras temporárias, onde coloquem a experiência adquirida ao serviço dos estudantes e do País, não só não me parece mal como, se tal não for feito, considero estarmos perante um desperdício de conhecimentos, o esbanjamento de um atalho a facilitar o encontro da teoria com a prática. Já estabelecer contratos com equiparação a Catedrático, tendo em conta a longa lista de profissionais habilitados à espera, parece-me uma injustiça e um favorecimento indevido, seja ele feito a quem for.

 

Também acho injusto e fico furioso por me obrigarem a vir defender publicamente um homem por quem não tenho nenhuma simpatia e, como não estou obrigado ao segredo de Justiça, presumo seja responsável por muitos dos crimes em que está arguido. Tenho, porém, de conceder que tem sido destratado pelos média e pelo aparelho judiciário e prisional. Fizeram-lhe coisas inadmissíveis num Estado de Direito e eu tenho a veleidade de esperar que nele, todos os cidadãos sejam iguais e tratados de modo semelhante.

 

Não é o que vejo nos casos presentes e, de desigualdades, já estou farto. Sócrates foi convidado, foi só uma palestra, não tirou o lugar a ninguém, por isso foi e tem esse direito. Quem é convidado, se não recusar, vai…

 

Ou só os “amigos” têm direitos?

 

 

 

 

 

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publicado por Carlos Alberto Correia às 20:45

“Me Too”, Assédio e oportunismo

Domingo, 11.02.18

 

 

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Quanto me recordo foi assediado, em toda a vida, duas vezes. Bem, não fiquem com esse ar espantado - como deve ter ficado o Deputado Morgado quando ouviu, de Natália Correia, o poema do Truca-truca - porquanto uma coisa é ser requestado (o que é ótimo) outra, bem diferente, é assediar ou ser assediado.

 

Voltemos, porém, à afirmação inicial desta crónica.  A primeira vez foi, quantos e quantos anos já passaram, quando no Metro, uma atriszeca, ao tempo em auge de fama, pequena de corpo como, mais tarde revelou, também o ser de espírito (e não esperem que divulgue o nome pois não tenho vontade nenhuma de, além de vítima de assédio sê-lo ainda de processo judicial) tentou, entre o Saldanha e a Avenida, uma visível aproximação com o ego. Começou por uns sorrisos, os quais creio considerava sedutores e a mim só pareciam repugnantes, a que não correspondi, desviando, inclusive, o meu olhar da pessoa. Se tivesse o conhecimento, que hoje tenho, de tal ser, perceberia ser essa atitude incompreensível para ela. No íntimo, talvez convencida pela fugaz notabilidade obtida, pensaria só poder ficar agradecidíssimo pela sua atenção. Por isso abandonou o lugar onde se sentava, deslocou-se para o varão onde procurava equilibrar-me, dirigiu-me uns piropos (para mim situação inédita) a deixarem-me incomodado não pelo inédito da situação, sim pela falta de hábito. Perante o meu assombro, aproveitando o tombolear da carruagem, uma das suas mãos, acompanhada de palavras pretensamente sugestivas, colocou-se sobre a minha e, para afastar quaisquer dúvidas, a outra veio, em sugestivo apertão, enclavinhar-se-me nos glúteos – forma airosa para não escrever, na crónica, rabo. Nunca, em nenhuma das situações lhe dei assentimento às manobras, sempre lhe demonstrei, com evasões e semblante, o quanto estaria desagradado. A nada ligou até que, em desespero de causa, olhando-a de cima para baixo, lhe sussurrei, cresça e vote na CDE (ao tempo estávamos em campanha eleitoral), abandonando o Metro nessa mesma estação.

 

A segunda vez passa-se no escurinho do cinema. Embrenhado no filme fui retirado do fascínio por uma leve pressão do braço por alguém que compartilhava comigo o amparo lateral direito da cadeira. Olhei! Um homem de meia-idade, fixado no ecrã fazia parecer casual o ligeiro toque. Descontraí! Pouco depois o braço chegava-se mais e a mão descaía ligeiramente para a minha perna. Aí, já sem dúvidas, murmurei-lhe ter pago um bilhete para uma cadeira inteira e que se não se apercebesse da fronteira que tal representava e estava a ser violada, se arriscava a ter de ir ao hospital para reparação do intrusivo braço. Pouco depois desandou e foi sentar-se umas filas atrás.

 

E pronto! Por aqui ficaram as cenas de assédio, de que me dei conta, a que fui submetido e garanto não me acusar a consciência de alguma vez o ter feito a alguém.

Considero que a escolha mútua de dois parceiros são o que de mais belo, grácil, poético, enformador de vida pode acontecer-nos. É um momento mágico aquele em que a escolha e o assentimento são produzidos. Enriquecem-nos enquanto seres humanos, enquanto portadores/dadores de afetos, enquanto gente que se escolhe e acolhe. Estamos entendidos?

 

Direi também que qualquer pessoa, violentada nos seus quereres e aceitações, tem o absoluto direito de denúncia e reposição. Já me “encaganita” o bestunto o facto de, na esteira de gente corajosa e de iniciativa, uns quantos oportunistas tentarem cavalgar a onda, procurando créditos imerecidos para os mais esconsos fins.

 

Quando apareceram as primeiras denúncias, no caso Weinstein, o mundo, hipocritamente, abriu a boca de admiração e escândalo, como se não soubesse, há décadas, como as carreiras se faziam na Meca do cinema – e não só aí - mas em toda a parte onde os percursos se constroem e dependem de gente (homens ou mulheres, embora em proporções diferentes) com poderes para tal.

 

Admito mesmo que alguém, sentindo-se violentado, por míngua de escolhas, possa ter encolhido a dignidade, aceitado com repulsa a imposição e, só muitos anos depois, livres do poder que o submeteu, tomasse a coragem necessária à denúncia tardia, mas vigorosa. Penso, também, que em certas coisas mais vale tarde que nunca. O que não aceito é a torrente oportunista que daí decorre. O exagero! Só para me referir a Hollywood, saliento a caterva de estrelas em perigeu e ansiosas candidatas a acorrerem ao movimento, na busca de um pouco de holofote sobre elas. É agoniativo e conduz, no limite, às barbaridades de quebras de espontaneidades e romance, em troca de contrato revisto por advogados a atestarem o que, como e quando, cada casal pode comportar-se ao efetivar as suas relações.

 

Igualmente degradante é quando outras estrelas – na maior parte europeias – relembradas da dura e longa luta de libertação sexual apontam outros caminhos, serem ofendidas por algumas furiosas dramáticas, de um feminismo de sinal semelhante ao machismo dominador –acusando-as de serem perpetuadoras da submissão feminina. É triste! É fundamentalista e todos os fundamentalismos são perigosos e autoritários. Entre eles aqueles que, vindos da Igreja, apelam ao consentimento de não se consentir sexo entre casais de segundas núpcias.

 

Tanta estupidez e oportunismo provocam-me um nó no estômago deixando-me em acentuado risco de incivilizado vómito.

 

 

Publicado em www.rostosondline 

 

 

 

 

 

 

 

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publicado por Carlos Alberto Correia às 00:09

Momentos para inventar o amor -1

Sábado, 10.02.18

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Para aguçar a curiosidade, pré-publicação de “Momentos para inventar o amor”, e-book a sair brevemente. Editora Simplissimo, Brasil

 

 

Sentir-me-ei meio embriagado de espaço. Verei o sol a baixar no horizonte, o rio a marulhar calmo nas pedras da escadaria. Estarei sentado no murete no lado da coluna da direita do cais, pensar-me-ei lá mais abaixo, no local onde a água beija a pedra, olhando, como sempre o longo do rio. Na ponte passará o tráfego semelhante a manchas deslizantes. Tu chegarás e juro, dar-se-á uma mudança no ar. Coisa subtil, no vértice da perceção. Obrigatoriamente olhar-te-ei. Os sóis de verão ter-te-ão passado pelo corpo, morada de perfeição. Vestirás de branco, em contraste com o moreno da pele, da cor da madeixa, estreitando da frente para trás, ao correr dos cabelos pretos, apanhados no local onde o calor te perlará, de leve transpiração, a nuca. Saberei de imediato. Em ti o destino. Repararás distraidamente em mim. Ao ondular da brisa juntarei a tua mão a resguardar o leve movimento da saia. Virás porém, acompanhada e desatenta. Não poderás adivinhar as consequências deste encontro. Após o primeiro instante desviar-te-ás para os amigos, para conversas onde não estou. O teu nome será Valéria. Poderei compor a antecipação.

 

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publicado por Carlos Alberto Correia às 12:40

Desculpem lá!

Domingo, 31.12.17

 

 

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Este não será o mais apropriado tema para a noite de ano novo, porém, alguma preguiça e vários afazeres, têm-me feito procrastinar o alívio verbal de um incómodo a aguilhoar-me com persistência. No entanto, o artigo do Expresso, de ontem, de autoria de Ricardo Costa, “O caso em que Angola tem razão sem a ter”, obrigou-me a sair do casulo e a debitar palavra.

 

Em tom cauteloso de balanço, o articulista foi mostrando os prós e contras das posições de Angola e Portugal, sobre o caso no qual o ex-vice-presidente de Angola, Manuel Vicente, é arguido de corromper um magistrado do Ministério Público.  No seu todo o artigo expandia razões a favor de Portugal – a independência do Ministério público – e de Angola, nascida do putativo direito de cada país independente ser livre de habilitar qualquer dos seus representantes, com imunidade diplomática. Indiscutível qualquer um destes direitos! No entanto…

 

No entanto nem tudo o aceitável, nos campos políticos e diplomáticos, o é, em termos de ética e direitos humanos.

 

Sejamos mais explícitos!  Recordam-se do caso do embaixador do Iraque? Pois, os jovens energúmenos, habituados à cultura do posso, quero e mando, provenientes de sociedade onde os direitos humanos são uma treta e a diferença e submissão cultural campeiam, talvez tenham levado um ralhete do pai – obrigado a indemnizar, por acordo, o agredido – mas, imunes como eram, lá ficaram livres para fazer coisa semelhante em qualquer outra república das bananas, que aceite o crime civil a troco de qualquer suposta boa relação entre nações. É claro que isto, que parece ser do mais trivial bom senso, não passa de má ficção. Se bem me lembro de algumas noções básicas de ciência política, as nações não têm amigos. Negoceiam interesses e fazem alianças conformes as suas conveniências. Pode, por isso, o amigo de hoje ser o adversário amanhã, independentemente de se respeitar ou estar nas tintas para as imunidades políticas, as quais foram criadas para servir situações bem diversas de malfeitorias individuais.

 

Se levarmos ao extremo o valor imunitário de postos de mando e diplomacia, teremos de condenar os Tribunais de Nuremberga e de Haia, por desrespeito a tais prerrogativas. Soa um bocadinho absurdo, não é verdade?

 

Claro que, no caso da corrupção do magistrado, não está em jogo um crime contra a humanidade. Mas, com imunidade ou sem ela, corrupção é sempre corrupção e são somente interesses particulares que estão em jogo, independentemente da qualidade dos intervenientes. Ou por outra. Quanto maior a qualidade de representação de cada um, maior deverá ser o ónus a suportar pelo cometimento de qualquer crime.

 

E a provar-se ser verdade o suborno anunciado, estamos perante dois criminosos a tripudiarem sobre a lei por interesses particulares! Daqui ninguém me tira!

 

Portanto, sabendo ser a política a arte do possível, mas defendendo nem tudo ser aceitável, não consigo perceber porque não poderá o Estado Português, lesado no negócio entre os acima citados, perder o direito de levar a juízo quem contra a sua lei prevaricou. Ah! Dizem-me! Mas ele foi governante de Angola e nenhum país soberano gosta de ver os seus representantes alvo de arguições judiciais de qualquer outro país. Para além disso temos muitos emigrantes em Angola e um enorme montante de negócios, contratos e tratados. Isso que tem? Perguntam o Direito e a Ética. Perde-se muito dinheiro, relações e influência. Podemos mesmo ser substituídos, nos negócios, pela França ou por Espanha, respondem políticos e financeiros. Bem, bem, bem! Não sou ingénuo e conheço razoavelmente o mundo da finança. No entanto reparo que estes últimos, fazendo orelhas moucas ao Direito e à Ética, conduziram e estão a conduzir, o mundo para um futuro desgraçado. É num mundo assim que querem viver? Um negócio vale mais que um direito?

 

Então em que ficamos? Para mim é muito simples. O presumível corrompido é português e o facto ocorreu em Portugal. Ambos devem ser julgados aqui, ainda que algum à revelia. Provado o facto, condenado o homem, se Angola persistir na sua posição – e sabemos que também lá a classe dirigente não se obriga às mesmas leis dos mortais comuns – resta sempre a possibilidade de emitir um pedido de captura internacional. Desde modo, o importante senhor -  que não pode ser julgado pelos maus atos cometidos – poderá andar livre em Angola, mas, se sair para qualquer outro país, correrá o risco de passar pelo que Pinochet passou.

 

É que, meus senhores, mesmo neste tempo conturbado em que vivemos, não poderá valer tudo… mesmo tudo.

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publicado por Carlos Alberto Correia às 19:17

Falar de mim

Quinta-feira, 09.11.17

 

 

 

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Não se importam de parar um pouco o coro de protestos? Certo! Parece muito desplante de qualquer meco utilizar o espaço do jornal e a paciência dos leitores, com a arrogância de um discurso sobre si próprio, isto como se cada escrito, cada crónica, por muito que aparente distância do autor não fosse, de outra forma, o seu reflexo no espelho. Que mais não seja porque, escrevendo-se sobre coisa diversa, continuamente se estará a escrever nos moldes em que pensa o mundo, a partir de si, das suas experiências, gostos e decisões. Já lá dizia Barthes, “quem fala, fala-se”, ou, traduzindo para o assunto em causa, quem escreve, sempre se escreve.

 

Se aguentaram até aqui a discursata em que me envolvi, terão o direito absoluto a exigirem-me as razões da mesma. E o anterior pedido de acalmia nos protestos nasce do reconhecimento de que têm esse poder. Vou, pois, por ínvios caminhos, ao assunto.

 

Pertenço ainda à geração do livro! Neste momento, certamente, o coro de protestos recrudescerá em bastos, também eu, também eu! Sei muito bem ser isso verdade. Para ser sincero a maior parte de nós faz parte dela. Lembro-me de quando, em início de adolescência, conseguia uns cobres para comprar algum livro cobiçado desde há muito, correr para casa, agarrar num corta-papéis e entre emoção e nervosismo, abrir as páginas, deixando sobre a mesa as raspas de papel sobrantes ao sacrifício da abertura original. Nesse tempo o livro era assim! Comportava um ritual desvirginador garantindo, a quem o comprava, ser o seu único e primeiro possuidor. Estão a ver a semelhança com os rituais núbeis? Pois, em sociedade as coisas não só se tocam como vão mudando com os tempos. A tradição é uma grande mentira securizante!

 

O que foi de gritos e destemperos (estou a exagerar) quando os livros começaram a aparecer aparadinhos, folhinhas abertas a todos e certinhas no corte, nunca sabendo o comprador quantos mais teriam passado os dedos molhados na língua e os olhos ávidos pelas suas páginas. Os brados lancinantes, os anátemas garantidos, não mudaram o produto industrial e, vejam lá, estenderam-se às relações amorosas. A virgindade deixou de ter sentido absoluto tornando-se o objeto livro, ou a pessoa feminina, valores por si próprios, independentemente de terem, ou não, sido primordialmente tocados por outras mãos. É o efeito do tempo, a mudança de valores, a acompanhar e a produzir serventias técnicas e sociais diferenciadas. Os conservadores bramiram por muito tempo o descontentamento, mas a tradição foi-se tornando outra, fortificando, ganhando raízes, obrigando pela omnipresença à diminuição paulatina dos bramadores do antes é que estava bem.

 

Perguntar-me-ão de novo, para que serve tudo isto? Porque estou a perder o meu tempo a ler este tipo? Pois, a curiosidadezinha, o querer saber para onde os quero, docemente, conduzir. A desagradável e fria resposta é a enunciada no título: a mim!

 

Então porque fala de livros, de virgindades e absurdos congéneres? Porque, meus amigos, lhes vou dar uma notícia em primeira mão. Claro, ela importa sobretudo ao próprio, mas, para além do egoísmo demonstrado, pode ser que, por algum modo, vos venha também a interessar. Sabem, o escritor é um autocentrado megalómano. Parte do princípio que o escrito não só tem quem o procure e espere, como poderá alterar comportamentos, modos de pensar, estilos de vida. Esteja embora por provar, não deixa o escriba de, mesmo não o confessando abertamente, ter lá, muito no fundo, este bichinho de esperança a roer-lhe a expectativa.

 

Pois a notícia, estão a ver como eu estendo o mistério buscando que a curiosidade do leitor supere o tédio do discurso, é que vou mudar de paradigma!

 

Pressinto os vossos olhos a abrirem-se de admirados, na boca um sopro irónico, a pergunta desencantada: que quer ele dizer e o que tenho a ver com isto? Com mais um pouco de paciência, lá chegaremos.

 

No tempo dos livros abertos com espátula eram eles objetos caros, raros, valiosos. Não existiriam no país muitos editores. Conseguir a publicação “do Livro” exigia um percurso de artigos em revista, jornais, referências académicas e mais um rol de coisas de aborrecida enumeração. Chegados lá, porém, seria a consagração. Era assim como erigir um farol ou um altar. Haveria dissidentes? Certamente! Mas o feito estava firme nas montras das livrarias, nas estantes das bibliotecas, nos suplementos da imprensa, nos ensaios a respeito. Com o livro aparadinho chegou maior facilidade de publicação. A técnica passou da tipografia ao “offset”, as chapas podiam guardar-se para novas edições, os preços diminuíam. Muito mais gente começou a publicar e livros e autores dominaram a praça publica. Nessa altura o Editor era ainda uma figura respeitada e interessada que, escolhida a obra, a acompanhava desde a releitura e correção, passando pela impressão, divulgação e distribuição do livro. Este era o seu trabalho! A ele se dedicava a tempo inteiro, pugnando pelo êxito da obra.

 

Os tempos e as técnicas continuaram a mudar. Tornou-se fácil editar fosse lá o que fosse. O Editor dedicado transformou-se num funcionário, muitas das vezes a recibos verdes e pelo tempo de duração de um estágio, que, na ótica do patrão, procura menos, ou quase nada, a qualidade do texto, visando meramente o cálculo de quanto pode render. Tais empresas de serviços, arvoradas em editoras, fazem livros como poderiam fazer tijolos ou ensacar feijões, caso tais atividades se revelassem mais remuneratórias. Assim, em grande parte, exigem ao autor o pagamento de edição, contra a aposição de uma chancela que liberte o livro da menoridade de edição de autor, e, recebido o dinheiro, produzem meramente o número de exemplares requeridos pelo consumo imediato e declarado, deixando o autor sozinho, não distribuindo nem divulgando o livro. A edição deixou de ser sinónimo de gosto, de bem escrever e passou a estar disponível para quantos, tendo o necessário poder de compra, entreguem os originais nesses mercadores de folhas agrupadas. Por isso nunca se publicou tanto, tão mau e cada vez mais se rarefaz o mercado dos livros. Claro que outros factos haverá – tudo é mais complexo do que aparenta – mas estas são as principais razões a apontarem para a revelação que, desde inicio, vos prometo.

 

Farto de consultar e discutir com os novéis editores as condições de aparição de cada uma das obras, obrigando-me embora a perder o contacto com o objeto físico, deixando de parte a sensualidade de sentir o ruge-ruge do passar das folhas, aceitando o caminho de desmaterialização a impor-se a muitas atividades, com alguma mágoa, confesso, decidi partir para nova experiência. Retirei da Editora o meu romance “Momentos para inventar o amor” e entreguei-o, para ser publicado como ”e-book”, a uma parceria de grande credibilidade – “escritores online” – entre a Associação Portuguesa de Escritores e a CLEPUL, organização da Faculdade de Letras de Lisboa.

 

Esta era a mudança que vos queria comunicar. Lutando contra o hábito de ter o escrito corporizado em objeto físico vou entrar pelo caminho, que prevejo como o futuro, do livro a existir numa nuvem informática sabendo que, para os amantes dos livros será decisão desilusória, mas, por outro lado, fundado em organizações credíveis, saber da possibilidade de chegar a outro público, interessado, informado e, acrescendo, pelo preço que custará (2,95 euros) a possibilidade de alargar a fruição do texto a quantos não podem esportular a dezena de euros de uma publicação impressa.

 

Falei de mim, confessei aderir ao futuro, espero não me desiludir, nem desiludir os putativos leitores. Façam um esforço! Alterem hábitos! Não o podendo garantir reconheço que pode valer a pena.

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publicado por Carlos Alberto Correia às 18:00

Sobre maiorias e nem tanto

Quinta-feira, 12.10.17

 

 

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Eu, que fui candidato, na segunda posição, à Câmara do Barreiro, pelo Bloco, deveria, neste momento, estar em triste reflexão sobre a falência do intento. Não fui eleito, o que não seria expetável, nem sequer o cabeça de lista, considerado com boas probabilidades. Mas eleições são o que são e, nelas, o Povo é quem mais ordena. Isto por definição, porque a coisa é de muito maior complexidade. Tão grande que seria fastidioso estar aqui a fazer um levantamento das imensas variáveis.

 

Também não irei dizer que fiquei alegre com os acontecimentos. Antes surpreendido e observante da embrulhada que poderá vir a ser a nossa Câmara. Vejamos: O PS ganha as eleições, tem direito à presidência e guarda quatro mandatos. A CDU, perdendo a presidência, arrecada igualmente outros quatro mandatos, e, pese embora o voto de qualidade do Presidente, estamos empatados. Ou não! Porque o PSD, ao contrário da dominante eleitoral do seu partido, subiu em votos e mantém o seu vereador, o que pode bem (des)equilibrar o sistema de desempate por voto de qualidade. Temos assim o PSD na invejável posição de, sendo absolutamente minoritário, poder ser determinante.

 

No gozo frio e intelectual do momento interrogo-me. Que fará ele? Unir-se-á ao PS dando-lhe maioria e governabilidade? Assim uma geringonça mais virada para a direita? Ou, fiel aos muitos anos de aliança camarária com a CDU, manterá a “fidelidade “, juntando o seu voto a esta coligação, criando, quiçá, a inoperância da Câmara? Ou ainda, num sentido de maior liberdade ou oportunidade, vogará, em geometria variável, segundo interesses mais partidários que comunitários? Estão a ver as cogitações em que me enlevo?

 

Não é que me queixe! Muitos anos antes do meu partido erguer a bandeira do impedimento de maiorias absolutas, já eu, nestas colunas, refletia sobre o assunto. Tinha para mim que democracia representativa seria aquela que representasse a maioria da população, o que dificilmente se passará com um único vencedor, embora maioritário, a representar, tão somente, uma parte dos cidadãos. E isto, sem levar em conta a abstenção a qual, só por si, nos valores em que se encontra, faz da representação, dita maioritária, a de uma muito pequena minoria.

 

Por isso defendia, e defendo, tal como é objetivo do método de Hondt, a inexistência de maiorias absolutas e a necessidade de coordenação, coligações, geringonças, ou seja, lá o que for, entre vários partidos. Assegurar-se-á deste modo mais alargada representatividade, nenhum partido poderá arrogar-se ao direito de instituir uma ditadura democrática, onde a sua voz, de maioria sempre relativa, imperará anulando todos os quereres alheios, porque será obrigado a contínuas negociações. Isto claro, pugnado pelos partidos enquanto oposição, torna-se rapidamente no seu contrário quando se pressupõem a caminho da vitória. Então, ao princípio timidamente, aumentando o volume e exigência quando se aproximam do final da campanha e as sondagens confirmam o desejado posicionamento, passam a pedir aos eleitores o cheque em branco da maioria absoluta. A tendência do “poder” é para se auto engravidar, crescer, reproduzir, ganhar espaço. Por tal é necessário, quanto a mim, a sua limitação e contínua fiscalização por órgãos apropriados. Que me desminta quem possa!

 

Aqui chegados e voltando ao nosso território, a serem seguidas as palavras emocionadas de Jerónimo de Sousa, ainda no inesperado da vitória rosa, a CDU estaria impedida de estabelecer acordos de governação com o PS. Isto deixaria o caminho livre ao PSD que poderia, teoricamente, exigir o que quisesse para manter a operacionalidade da Câmara PS. É uma possibilidade, no entanto, com demasiados risco. Tenho para mim, no entanto, que a capacidade política e racional do PCP (partido com maior experiência organizativa no nosso país), nunca permitiria deixar o PS refém do PSD, pelo que, mesmo “engolindo sapos”, - já não seria a primeira vez - ultrapassando emoções e desilusões, perceberá que “congelar” a Câmara é mau negócio. Poderia, muito eventualmente, conduzir à sua queda e levar-nos a eleições antecipadas, onde, pese embora a volatilidade dos votos, creio que o PS teria a hipótese de ganhar com maioria absoluta. E isso é que, nem para o PS, a CDU e, no campo das miragens, o meu partido, eu quero ver acontecer.

 

Aguardo, pois, com muito interesse, aquilo que os próximos dias nos poderão revelar.

 

 

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publicado por Carlos Alberto Correia às 14:55








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