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Sexta-feira, 02.11.18

 

Urbi (Poemas Datados)

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publicado por Carlos Alberto Correia às 20:02

A UBER AGRADECE

Sexta-feira, 21.09.18

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Tenho, no meu telemóvel, a APP da Uber e, no entanto, nunca a utilizei. Talvez por hábito prefiro esperar a passagem de um táxi e nele encaminhar-me para o destino pretendido. Quer isto dizer que sou um defensor da luta dos taxistas? Se assim o pensaram desenganem-se. Não lhes retirando o direito à indignação e à luta, considero porém que, desde início, utilizaram formas erradas de contestação as quais, por violência verbal e física, retiram senão legitimidade, pelo menos simpatia ao seu movimento.

 

Debrucemo-nos primeiro sobre o serviço de táxi. Durante muitos anos foi o meio alternativo de circulação, mais ou menos rápida, nas grandes urbes ou de deslocações para e de lugarejos onde o transporte público não chega ou é insuficiente. Aqui, irei pronunciar-me, sobretudo, sobre esse meio de transporte na Grande Lisboa. Ao longo dos anos encontrei um pouco de tudo. Desde, a minoria, gente simpática e capaz de ajudar qualquer pessoa em dificuldades, até, muitos, oportunistas que após testarem o conhecimento da urbe pelo passageiro, o levam do Rossio aos Restauradores com passagem pela Ajuda. Nos tempos de antanho, dizia-se, muitos puxavam pelo descontentamento do cidadão de molde a terem matéria de delação para a PIDE. Dir-me-ão, não seriam todos nem muitos, os tempos mudaram, já não é assim. Concedo facilmente, mas, coisas como estas, não deixam de vir carregadas como peso histórico, a que poderemos juntar a má vontade e falta de cortesia de alguns, quando lhes é solicitado um percurso pequeno ou que, por qualquer motivo, não lhes convenha. Ou ainda, lembro-me de tantas, se o passageiro não tem dinheiro trocado para o pagamento a receber pelo motorista, como se não fosse obrigação dele estar munido de meios para fazer trocos, ouvir um seco não tenho retorno e vê-lo ficar, de mau modo, à espera que o passageiro resolva, de qualquer forma, o problema que a ele competiria solucionar. Recordo-me, também, de um caso, entre muitos semelhantes, passado comigo. Por questões pessoais deslocava-me frequentemente à Margem Sul e só voltava a Lisboa, noite adiantada. Na estação Sul e Sueste apanhava um táxi para me conduzir a Sapadores, mais precisamente ao início da Av. General Roçadas, onde então residia. Como é evidente conhecia o percurso a palmo, bem como o custo da corrida. Ressalto que, entre centenas de viagens, isto apenas me aconteceu uma vez, embora tenha tomado conhecimento, por vários meios, de bastantes comportamentos semelhantes. Voltando à história. O procedimento anómalo do condutor, iniciou-se com a pergunta, deslocada àquela hora de trânsito morto, por onde quer ir? Interpelação teste para aquilatar do conhecimento do percurso pela presumível vítima. Tocadas as campainhas de alarme respondi, como se desconhecesse a rota, pelo caminho mais rápido. Começou logo ali o desvio. Não vou maçá-los com pormenores, apenas adiantando que, consciente do logro que estava a sofrer, entrando na Avenida de destino pelo lado contrário ao habitual, lhe disse, siga em frente até o mandar parar. Era a zona da minha residência. Conhecia-a bem e sabia que, a alguns metros do meu destino, ficava uma esquadra de polícia. Ali o mandei parar. Foi então que, reverberando-lhe o comportamento, o informei conhecer bem o preço da deslocação, por fazê-la inúmeras vezes, e o que o taxímetro marcava era quase o triplo do valor habitual. Dei-lhe duas opções: ou eu pagava o preço normal, ou saíamos ambos para a esquadra, mesmo em frente, para resolver o problema. Com o humor como devem adivinhar decidiu ficar-se pelo que seria devido pagar. Não é minha intenção, como é evidente, fazer de casos como tais, um juízo alargado sobre a classe. Apenas pretendo demonstrar que muita gente já se sentiu incomodada, ludibriada e ofendida por alguns taxistas e que, tais desagrados, resultam numa simpatia inicial pelo serviço das novas plataformas.

 

Chegamos assim à Uber. De quantos têm utilizado os seus serviços nenhum relato me foi feito de desagrado. Pedidos atendidos rapidamente, pessoal cortês, carros limpos, percurso marcado no GPS, transparência nos preços, possibilidades de avaliação do serviço. Eficácia e cortesia a toda a prova. O que me leva, então, apesar de quanto acima escrevi, a preferir, com todos os seus malefícios, o abrupto táxi à simpatia Uber?

 

Uma questão clássica da forma de trabalho. Em termos referenciais existe uma classe que dispões dos meios de produção – os patrões – e outra que não dispondo dela aliena o único bem possuído, o tempo de vida transformado em tempo de trabalho. Sobre esta situação, estudada por marxistas e liberais até ao tutano, mais não adianto. Apenas quero referir o facto novo de, no uberismo, termos estes modos clássicos invertidos. A Uber nada possui a não ser uma plataforma informática que gere pedidos e serviços. O trabalhador é, ao mesmo tempo, o seu patrão enquanto detentor do meio de produção (o carro é seu); a plataforma apenas lhe permite chegar a quem necessita dos seus serviços, pagando, por tal, o condutor-dono, uma percentagem pela informação. Por outro lado, a plataforma, permite-se a seleção de quem usará os seus serviços e, como patrão de outro modo, tem o poder de, através das classificações dadas pelos utentes aos condutores, mantê-los em linha ou, não posso dizer despedir porquanto não há uma relação clara de subordinação, afastá-los do acesso à informação necessária para a prestação de serviço. No final, um despedimento sem custos nem indemnizações, uma precariedade vitalícia. Um trabalhador subordinado, que é ao mesmo tempo o proprietário do meio de produção, paga à plataforma o preço por um serviço que ela não poderá prestar se não houver quem disponha de viatura, tempo, conhecimento e vontade para fazer lucrar a Uber. Não é bem neste mundo de relações de trabalho que me quero ver.

 

No entanto ele está aí, é imparável, veio para ficar. Faz parte deste admirável mundo novo onde, dentro de duas ou três dezenas de anos, a maior parte dos empregos conhecidos deixará de existir. Tal como na Revolução Industrial, se não forem tomadas medidas a tempo e adequadas, o custo dos empregos a surgirem na nova sociedade será pago pelo preço do sangue. Não é imperioso que tal suceda, mas, pelo andar da carruagem, pelo nada fazer de impeditivo, é para aí que caminhamos. Com isto quero apenas dizer que, gostemos ou não, teremos de adaptar-nos às relações de trabalho trazidas pelas modernas tecnologias. É aqui que está o enorme erro dos profissionais dos táxis. Na realidade a forma uber traz consigo o modo futuro das relações de trabalho. O pessoal dos táxis, em vez de perceber a situação e atualizar-se, melhorando e adaptando o serviço, decide parar o comboio com as mãos, pondo-se, galhardamente, a meio da linha onde será destroçado. Não me parece forma de resolver o problema.

 

Só conheço a lei sobre a legitimação destas plataformas pelas notícias dos meios de comunicação. Por isso, ignoro a bondade das soluções aportadas. O que sei, é que foram discutidas, aprovadas por quem de direito e têm data marcada para entrar em vigência. Fazer manifestações de táxis parados para evitar que uma lei promulgada deixe de produzir efeitos, num Estado de Direito, é, mais uma vez, não só um erro, como voltar a querer parar o comboio, a toda a velocidade, pondo-se apenas na sua frente. Nada disto leva a nada e só um trabalho eficaz, inteligente e adaptativo das organizações de patrões e empregados desta indústria, poderá, em tempo, formas e locais corretos, introduzir alterações no legislado, avançando para a desejável normalidade e fiscalização destes serviços.

 

Tal como estão a fazer, para obstar que a Lei produza os efeitos para que foi criada, é facilitar a vida do adversário. Por cada táxi parado um uber será chamado por quem necessitar de transporte. Continuem assim companheiros taxistas. A Uber agradece!

 

Publicado em “Rostos Online”

 

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publicado por Carlos Alberto Correia às 19:28

Prioridades e importância

Quinta-feira, 02.08.18

 

 

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Para que não subsistam dúvidas começo por indicar o meu sistema de prioridades: primeiro a família, depois o prédio onde habito, segue-se-lhe   a rua, o bairro, a cidade, o partido onde estou filiado -bem como outras instituições às quais aderi -, o país e, finalmente a Europa.

 

Esclarecidas as precedências posso, sem rebuço, dedicar-me ao tema que anda a atear fogo ao eucaliptal político desta louca estação. Refiro-me, como é evidente, ao caso Robles.

 

Passando por cima das inexistentes ilegalidades fica a questão de avaliar o comportamento e escolhas do referido. Fosse ele cidadão comum e nada haveria a dizer sobre o seu comportamento. Vivemos numa sociedade de mercado, onde o lucro é não só lícito, como fortemente desejável e acariciado. Para muito boa gente não tirar o máximo proveito pecuniário de quanto se possui – ou se possa chegar – abeira-se do pecado ou heresia. Mas adiante! Na verdade, o cidadão Robles não era um simples cidadão. Foram-lhe cometidos, por eleições a que livremente concorreu, direitos e deveres de representação e defesa dos habitantes da cidade. Ao aceitar tal encargo, ficaram-lhe, de imediato, coibidos certos atos socialmente aceitáveis ao público em geral. Entre eles o de perder a coerência entre discurso e prática. Ao fazer o que fez comprometeu, irremediavelmente a validade do seu discurso, a legitimidade da sua representação. Cabia-lhe ter percebido isso e tomar, de imediato, a atitude que veio a tomar, quando já desvalorizada pela arruaça de uma direita sem esperanças nem soluções.

 

Por outro lado, vozes fortes do Bloco, considerando sob ataque a fortaleza, foram tomadas de reações instintivas (proteger o grupo) e vieram à liça defender o indefensável. Poderemos, humanamente, perceber a vontade de terçar armas por amigo ou correligionário a ser retalhado em praça publica; o que já é inaceitável é que membros responsáveis de um Partido Político, cedam à emoção e amizade, vindo a colocar o partido na desconfortável posição de parecer incoerente com as bandeiras defendidas.

 

Vamos, certamente pagar um preço elevado por termos posto as emoções à frente do racional. Infelizmente Robles errou, nas explicações e no “timing”! O Bloco, talvez surpreendido, não foi capaz de marcar a diferença que assume e deixou a ideia de ser mais um partido, igual aos outros, cego pelos laços de pertença, incapaz de aceitar que um erro é um erro e carrega consequência seja para quem for.

 

 Por mais simpático que alguém nos possa ser, por melhor trabalho que tenha ou venha a desempenhar, seria absolutamente necessário que, por mais compreensivas que fossem, essas vozes, reconhecidas como lídimas defensoras de valores constantemente sobre fogo adversário, tivessem a coragem de assumir o erro sem demora e retirar as imediatas ilações.

 

Tal não foi feito e vemos agora alguma direita, raivosa, apontando a dedo o pecado original. Não têm memória nem vergonha. Agitam este caso como se fosse o maior escândalo cometido, por políticos, em Portugal. Vendem, em altos brados, uma virtude que não têm nem sequer procuram, a não ser nos outros. Querem que comece a enumerar os muitos maiores escândalos – esses com prejuízos à escala nacional – dos quais os autores nunca se retrataram e fingem desconhecer? Querem mesmo? Não será melhor calarem-se, olhar para a casa própria e tomar as medidas que a verdade impõe? É que se o Bloco e o seu representante na Câmara erraram, ambos já assumiram culpas. O Vereador Municipal apresentou a demissão, o Bloco veio, publicamente, reconhecer o seu erro de apreciação.

 

Ó Catões estrábicos das políticas e das colunas, quantos dos vossos defendidos já fizeram isso? E que exigência, prioridade ou importância atribuirão a tais casos? Ah! Pois, eu percebo. Não precisam de o fazer em publico como O Bloco e Robles fizeram. Guardam-se para os segredos dos confessionários ou, quando a sorte é adversa, para a barra dos tribunais.

 

Publicado in Rostos Online

 

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publicado por Carlos Alberto Correia às 20:09

Textos decetivos – 2   Cada vez mais descartáveis

Domingo, 15.07.18

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Eu sou um tipo ocupado. Olho para a minha agenda e vejo um rol de coisas a que não conseguirei responder. Vejo-me compelido a procurar alternativas. Construo uma hierarquia, forço precedências, desmarco aquilo que me parece menos importante ou me apetece menos e ganho o stress que pensava ter deixado de lado com a chegada à reforma. Procuro, com mais tempo, soluções duráveis que me permitam dispor de maior liberdade para me dedicar, além das obrigações, ao prazer, aos factos lúdicos.

 

Por isso, percebendo o tempo gasto na limpeza da casa, a minha mulher com a agenda tão preenchida quanto eu, a empregada assoberbada com roupas, arrumações, cozinhas e diversos, decidi atualizar-me e ganhar tempo. Comecei por comprar uma mopa elétrica. Aparelho simples. Bateria carregada, movimentos circulo-lineares, um papel aderente que atrai a pequena sujidade e eis que, num ápice, pondo o automatozinho a rodar pelo chão vejo libertos um par de horas, assim, num piscar de olhos. Gostei da experiência e cá em casa todos aplaudiram. Mas havia um senão. Sujidades maiores o R1, como lhe chamámos, não tinha capacidade de remover. Atirava-os para os lados. Mesmo tendo de recolhê-los de vassourinha e pá, já era um adiantamento. Porém, iniciado o caminho, era preciso ir mais longe. Pesquisei o mercado e comprei o R2. Este sim. Reconhecia escadas e não caía, limpava carpetes, sugava toda a sujidade, mesmo nos cantos, com o pincel rotativo, destinado a desalojar conspurcação em defensivo acantonamento, nos recortes da casa. Júbilo geral e a empregada feliz por poder dedicar mais tempo às tarefas de arranjo que mais lhe agradavam.

 

Devo dizer que, entretanto, para poupar tempo, adquiri, passe a publicidade, a amiga Bimby. Aquilo é uma maravilha. Um mínimo de tempo gasto para preparar acepipes culinários, dando até o conforto de, usando a imaginação, produzir pães fabulosos, diferentes de quantos, mal saborosos, carregados de fermento e humidade, os nossos supermercados nos impingem. Todos ficámos encantados e as agendas e trabalhos mais leves. Pois se, para confecionar uma refeição, pouco mais era necessário que carregar em botões e pôr na máquina ingredientes previamente preparados! Estou à espera de que, em breve, apareça um robot que possa fazer as camas, substituir lâmpadas, atender telefones e à porta. Nesse dia, para grande felicidade, a minha agenda e a da minha mulher, certamente não estarão tão carregadas e talvez possa, de vez, dispensar a empregada.

 

Não estavam à espera deste desfecho? Então é porque andam muito distraídos. Prestem lá um pouco de atenção. Não se recordam, aí por volta dos anos noventa, da automatização de fábricas? Eu lembro-me como fiquei maravilhado. O grande momento, já tinha havido outros de menores dimensões, mas apanharam-me distraído, foi quando, em Itália, de visita à empresa-mãe daquela em que eu trabalhava, ao visitar a fábrica e armazéns centrais, fiquei maravilhado com a limpeza, eficiência e cadência de trabalho que observava. Na linha de montagem, eficientes robots colocavam e retiravam módulos e componentes em ritmo impressionante e cronométrico. Os produtos eram, por braços robóticos, retirados do fim de linha, transportados para plataformas rolantes, descarregados em vagonetes automáticas deslizando sobre carris, as quais, mecanicamente, colocariam os produtos nos lugares de armazenamento - também em automatismo travariam de imediato se um gatito se atravessasse na sua frente - e os retirariam, feitas as encomendas, pelas respetivas datas de chegada ao armazém. Para brilhar um pouco faço-me eco do nome da tarefa dado ao trato pelos engenheiros, “first in, first out”. Bonito, não é? Rápido, fácil, limpo, sem erros. O chato é que, por todo o lugar, além do ciciar das máquinas, não havia qualquer outro ruído. Faltavam vozes! Na verdade, naquele amplo recinto, davam-se alvíssaras a quem descobrisse figura humana. Havê-las, havia! Poucas, na verdade, encobertas em gabinetes, junto ao teto da fábrica, debruçadas sobre computadores, de onde dirigiam toda a produção. E os seres humanos que aqui trabalhavam às centenas? Tornaram-se dispensáveis. As máquinas fazem melhor. Não reclamam aumentos, durações de trabalho, não entram em greve e doença, é apenas o tempo rápido de reparação, ou um pouco mais longo, mas sempre breve, de substituição. E, quando se tornam obsoletas, reciclam-se e não pedem reforma. Maravilha! Maravilha! Maravilha!

 

Aqui chegados já vocês estão a dizer, mais um aborrecido passadista a semear distopias. Outros ainda reafirmarão, há sempre gente pronta a entravar o progresso. Efeitos do medo da mudança!

 

Estão porém enganados. Não tenho dúvidas de que a automação veio para ficar. Mais, com a Inteligência Artificial, a dar, afoita, os primeiros passos, a minha empregada, e a maior parte de todos os empregados de quase todos os ramos do fazer humano, dentro de vinte a trinta anos, estarão a mais e já substituídos por máquinas limpinhas e de eficiência mais que provada. Então, perguntarão, para quê esta palinódia?

 

Simples! Aquando da revolução industrial, como esta, inultrapassável e, sem dúvida aceleradora de grandes benefícios para a humanidade, não foram tomadas quaisquer precauções. Em termos históricos, de um dia para o outro, milhares, milhões de seres humanos tornaram-se dispensáveis, pereceram de miséria em casebres e nas ruas. Hoje conhecemos causas e efeitos. Sabemos que o mesmo irá ocorrer dentro de breve tempo e, tanto quanto sei, deixa-se correr o marfim, arrecadam-se lucros e não se acautela o futuro. E era tão simples! Bastava que, por cada máquina assente, se pagasse, em descontos, o mesmo que pagavam os trabalhadores substituídos. Poder-se-ia assim, sem grandes sobressaltos, fazer a alteração civilizacional que se aproxima, ou onde já estamos. Era mesmo tão fácil! Só que, aposto, não vai acontecer. Vamos deixar instalar o descalabro, permitir a instalação do caos, para só então, a preço de sangue, procurar a solução, nesse momento dificílima, que sempre esteve, tão fácil, na nossa frente.

 

Ah! Que chatice! Tenho de pagar o subsídio de férias à empregada. Bolas! Nunca mais comercializam o robot doméstico!

 

 

 

Publicado in “Rosto Online”

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publicado por Carlos Alberto Correia às 16:11

Isto sou eu a dizer…! Textos decetivos - 1

Domingo, 08.07.18

 

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Propalava-se, nos idos de sessenta e oito, “Deus não existe, Marx está morto e eu não me sinto lá muito bem”!

 

E, na verdade, cada vez me sinto pior.

 

Tudo na vida é precário, sabemos, mas há coisas mais precárias que outras, as quais, pelos efeitos de instabilidade aportada, se fazem sentir com maior penosidade no nosso quotidiano.

 

 Na vulgata marxista as sociedades confrontavam-se com duas grandes classes: os detentores dos meios de produção, os capitalista, e os proletários, seres despossuídos de tudo, a quem apenas restava morrer de fome ou alienar a sua força de trabalho, isto é, dispensar tempo de vida, aos primeiros. A lógica da coisa parece inatacável. Se eu tenho meios e preciso de alguma coisa, a qual não sei, não posso ou não curo produzir, parece lícito recorrer a alguém capaz de fazê-la, a troco de um qualquer outro valor. Sem problemas! Estamos perante uma troca. Dou trabalho, recebo bens. É uma equivalência.

 

O problema que Marx levanta é o de tal ser mentira. Ou por outra, defrontamos uma não reciprocidade substancial. Em qualquer altura, por variados motivos, a troca foi desequilibrada. Os meios de produção tornaram-se mais poderosos que o produzido, isto é, o resultado de um fazer ou de um conhecimento. Estava revelado o âmago das desigualdades sociais: existia, surdo, presente em toda a parte, um sistema que as perpetuava, justificava e procurava, continuamente, aprofundar. A forma era simples. Os recursos eram escassos e talvez não fossem suficientemente abundantes para todos requererem o quinhão apetecido. Era pois preciso repartir. Alguém, ou algum grupo, exigia o direito de ser o repartidor. Podia fazê-lo por convencimento dos outros ou pela força. O resultado seria o mesmo. Os repartidores ficariam com a parte de leão, deixando para a maioria apenas os resíduos. Parece monstruoso, desonesto, mas é assim que tem sido e continua a ser, pois, como diz o povo, em bovina aceitação, “quem parte e reparte e não fica com a maior parte, ou é tolo, ou não tem arte”.

 

O termo luta de classes foi criando anticorpos e, mesmo a lógica das sociedades democráticas parece não lhe deixar muito espaço, preferindo conceitos como colaboração para fins comuns, interesse nacional, redistribuição parcelada, etc.. No fim, se analisarmos bem a coisa, trata-se sempre de manter a troca desigual, com a subordinação de um grupo a outro que, com legitimidades diversas, o explora, guardando os frutos do seu labor, distribuindo uma parte, sempre a menor possível, apenas suficiente para o manter produtivo e reprodutor da força de trabalho, isto é,  trabalhar e fazer filhos que o venha substituir na cadeia de produção..

 

E assim, desigualmente viveríamos na paz dos anjos, entre pobres e ricos, contribuindo todos, a seu modo, para a riqueza das nações, como diria Adam Smith e as leis e religiões, a seu modo, consubstanciavam.

 

Porém, o sistema, contém em si o gérmen da sua destruição. A imparável ganância! Não chega ter mais. É preciso aumentar sempre esse mais, é necessário que símbolos externos demonstrem tal poder e que, os insuficientemente providos, acreditem ser possível passar ao grupo dominante, ainda que a realidade crua das suas vidas lhe grite, a todos os segundos, o caminho minado a percorrer e a quase impossibilidade de chegarem vivos ao fim do percurso. Algum conseguem, atiram-me aos olhos os plenos de esperanças. Claro! O sistema deverá ser demonstrativo de tal possibilidade. Assim como o Euromilhões! Quem é que pensa, quando mete o boletim, que as probabilidades de ganhar são de um para cento e quarenta milhões? Qual quê! Então não há sempre alguém que ganha? O que impede que me calhe a mim? Nada, evidentemente, a não ser a parva da estatística que, corroendo o sonho, demonstra ser mais fácil morrermos atingidos por um raio numa trovoada, do que sermos beneficiados por essa lotaria. A esperança é a última coisa a morrer, não é?!

 

Pois, pois, mas o Marxismo está morto e enterrado, entre outras coisas, pela União Soviética. Os tempos são outros. Essa coisa de patrões e proletários é história passada. Hoje vivemos em Democracia, temos acesso a muitos meios de produção, todos poderemos ser donos de qualquer coisa e, a informática mudou muito as forma de relação com os poderes. Verdade, não é? Claro que sim! Temos tanto poder e informação que até sabemos quem foram os causadores da crise, quem a mantém e quem com ela ganhou ou ganha. Até conseguimos saber que são os mesmos que a criaram a ser, na maioria, quem continua a beneficiar do sistema. O problema, com outros conceitos e designações, prossegue o mesmo. A maior parte das pessoas engorda, de muitas formas, um pequeno grupo detentor dos meios de valorizar as coisas. Mudam as moscas…

 

O problema desta ganância infinita é, como já se disse, a sua insanidade. Na ânsia de engolir tudo, irá, mais tarde ou mais cedo, engasgar-se e pode não haver socorro à mão. Por isso voltamos à precariedade. É precária a vida, é precária a riqueza, é precário o poder, é mesmo, cada vez mais precário o planeta em que viajamos. O resultado de toda esta precariedade, aumentada pelo monstruoso aumento de rapacidade dos dominantes, é que, de forma ínvia, a sociedade começa a responder a esta situação. As levas de migrantes, a recusa, por impossibilidade económica e sentimento de insegurança, dos jovens a procriarem, está a levar-nos, em caminho de não retorno, para precipícios inimagináveis. Ninguém nasce revoltado. A revolta é a consequência das injustiças e do desespero. Senhores mandadores, é para aí que estão a empurrar as sociedades. Têm a certeza de quererem mesmo isto, ou se, acontecendo o desastre, irão, como pensam, escapar incólumes? Quem semeia ventos colhe tempestades e a meteorologia social está, há bastante tempo, a difundir avisos urgentes.

 

Cá para mim, sem qualquer velada ameaça, penso que seria melhor dar-lhe, enquanto é tempo, ouvidos e soluções.

 

Isto sou eu a dizer…!

 

 

Publicado in “Rostos Online”

 

 

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publicado por Carlos Alberto Correia às 21:59

Estou chateado!

Terça-feira, 05.06.18

 

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Pois estou e bastante! Sei ainda que, ao escrever este artigo, irei ficar pior, porquanto uma chusma de amigos virão declarar a irrazoabilidade das minhas posições, trarão à superfície o meu, já consabido, pendor extremista, perorando sobre a virtude da contenção, do meio-termo e, alguns, esquecidos dos conselhos morigeradores, com os quais virão mimosear-me, deixarão mesmo de me falar ou de, em público, serem vistos na minha nefasta companhia. Paciência!

 

No entanto, teimosamente, continuarei, contra ventos e tempestades, a proclamar o forte ressentimento relativo a algumas posições deste Governo – que ainda apoio – mas que me anda a causar borborigmos intestinais cada vez que sinto fortalecerem-se os argumentos, por mim expressos em artigo aqui publicado, quando Marcelo ganhou a Presidência.

 

Dizia eu, recordando os distraídos leitores, que o seu apoio à Geringonça duraria até conseguir correr com Passos Coelho da chefia do partido, favorecer a entrada da sua gente e, a partir daí, manobrar no sentido de sintonia cada vez maior entre os partidos Socialista e Social-democrata. Claro que, entretanto, não se importaria de fazer umas selfies com o tio Jerónimo e a prima Catarina, enquanto veria, contrariado e de sorriso afivelado, caírem nas malhas da justiça alguns amigos, muito impossibilitado de lhes valer com mão segura. Enfim, contrariedades que algum dia poderão ser remediadas.

 

No entanto, instam-me vocês, porque é que estás chateado se já presumias o sentido da “coisa”. Pois, replico, além de muitas outras que poderia, fastidiosamente, transportar para aqui, vêm-me à cabeça a contagem de tempo de trabalho dos professores e a questão das reformas.

 

Primeiro, não percebo como poderão elidir-se quase dez anos de trabalho efetivo com a desculpa de, se for contado o tempo total, isso representar um custo insuportável para as finanças públicas. Vamos lá a ver se percebo. Os professores trabalharam esses quase dez anos todos os dias, ensinaram matéria, levaram alunos a exame, trataram da imensa burocracia a que os vêm sujeitando e agora vem um ministro dizer que todo esse tempo de trabalho não conta como trabalhado!? Desculpem, não percebo a lógica. Como é que se declara administrativamente inexistente um decurso temporário bem delimitado? Que passe de mágica é esse? Qual o sentido de trocar dez anos de vida por três de carreira? Abstrusa matemática esta! Que sumidade a percecionou? Depois a culpa é do Sindicato por não perceber que, na aritmética do ministro, três é igual a dez. Ah! Cabecinhas tontas incapazes de perceber o ilusório dos números. Pois então não está provado que dois mais dois são três? É somente uma questão Quântica!

 

Segundo:  as reformas antecipadas. Andava para aí em sussurro a possibilidade de retirar a penalização dos treze por cento e estudar o alívio das penalizações mensais, para permitir que gente doente e cansada pudesse reformar-se e dar o lugar a jovens os quais, por falta de trabalho, continuam a abandonar o país. Pois, andar andava, mas, quando se chegou ao momento da verdade aconteceu o inverso. Aumenta-se a idade da reforma e a penalização a desaparecer, não só não se extingue, como é aumentada.

 

A isto, e muito mais, (não curo falar do Serviço Nacional de Saúde, nem de outras questões relativas à Educação) reponde-se com o infalível argumento de não haver dinheiro e eu pasmo. Passam-me céleres pela cabeça o nome de uns tantos bancos, de somas astronómicas e até vejam lá, de um Banco Bom, já vendido a privados, no qual ter-se-á de “enfiar” mais uns milhõezitos. E, para esses, o dinheiro aparece sempre. Insondável mistério!

 

Na realidade o lado europeísta deste Governo (PIB, dívida e obediência aos ditames de uma comissão não eleita, burocrática e neoliberal) acentua-se dia a dia. Se não estou em erro foi para corrigir uns quantos males suscitados por certas opções que a Geringonça se formou e não para o contrário. Foi um passo positivo, sem dúvida, mas parece estar a seguir um caminho que só pode conduzir ao desmantelamento. Se calhar é por isso que vemos tanta gente, à espera de qualquer coisa indizível, a assobiar para o lado.

 

 Isto, sinceramente, chateia-me!

 

(Publicado in Rostos Online)

 

 

 

 

 

 

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publicado por Carlos Alberto Correia às 16:32

Por respeito a Angola

Sábado, 28.04.18

 

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Sabe-se, de ciência escrita e comprovada, que quando o leão novo expulsa o leão velho, a sua primeira ação é liquidar todos os filhotes do vencido. Este exemplo da Natureza ribomba-me na lembrança ao olhar os acontecimentos da passagem de poder em Angola.

 

Nunca lá estive nem tenho interesses, não pretendo dar, aos angolanos, lições de ética –a tal não me atreveria com os casos, em Portugal, de corrupção, falências culposas de bancos, fugas ao fisco, nebulosas imparidades, etc.… - mas não posso deixar de sentir, enquanto ser humano, a desdita a grassar por país de tantas e vastas riquezas.

 

Passando a publicidade, numa das histórias do meu romance “Momentos para inventar o amor”, no capítulo intitulado “Mande queimar a roupa velha”, teço alguns pensamentos sobre essa coisa omnipresente e fugidia que é o poder e que, mais coisa menos coisa, se encaixa no reconto da transição de poderes em Angola.

 

Como a muita gente, certamente, desgostou-me a cleptocracia instalada naquele País no seguimento da independência. Observei, estupefacto, como o guerrilheiro se transformou em capitalista e como, de forma atroz, se permitiu espoliar os compatriotas das riquezas que, equitativamente, por todos deveriam ser distribuídas.  Apesar de não podermos outorgar-nos o título de impolutos na matéria, foi golpe rude nas convicções de quantos, defendendo a independência das colónias, esperavam um tudo mais de justiça e humanidade. Mas, o mundo é o que é, e lá fomos convivendo – alguns mesmo beneficiando – com o novo estado de coisas. Sentia-se, porém, de modos múltiplos, que o regime apodrecia, o nepotismo enfraquecia a sociedade, a grande riqueza ombreava com a maior das misérias. Desse desequilíbrio alguma coisa – nada boa – haveria de resultar.

 

Talvez por se aperceberem disto, sem dúvida estribando-se em razões de impossibilidade física do ditador, os donos do regime decidiram ser a hora - ia dizer da renovação - mas arrependi-me de imediato, e transformo em mudança. É que renovação, como a palavra indica, pressuponha que muitas coisas iriam ser revistas e modificadas. Mudança apenas indicaria o aparecimento de novos rostos nos lugares de poder, mas tudo o resto continuaria na mesma.

 

Algumas vozes de lutadores antirregime pareciam dar-me lastro a essa ténue esperança. Por isso esperei, confiado.  Voou o tempo e dois casos constituir-se-ão em muro de desilusão. O primeiro centra-se na incapacidade do regime angolano em perceber a separação de poderes. Trata-se, como é evidente, da alegada corrupção de um procurador da República por personalidade angolana. Só numa democracia se percebe e permite que um ex-governante seja julgado por qualquer crime, cometido dentro ou fora do mandato, bem como no poder soberano do aparelho de justiça, cego à qualidade social dos arguidos. Angola, segundo parece, não só não o pratica, como não o entende. A segunda prende-se com a transição de poderes.  Seria e pareceu, levemente, ser o momento oportuno para uma reviravolta positiva na governança do Estado. Muita gente acreditou e, a queda dos familiares do ex-presidente, permitia admitir tal hipótese. Deu-se o benefício da dúvida. Porém, na luta de galos travada no interior do partido no poder, em vez do debate sério, aberto, democrático, para a substituição das hierarquias, optou-se, mais uma vez, pela designação do mandante, segundo o interesse e dança de cadeiras dos interessados senhores do regime. Por outras palavras, o leão novo matou as crias do leão velho e substitui-as pela suas. Pouco mais se altera. Foi grande a desilusão!

 

Com o pedido de perdão ao autor de uma frase, que ouvi ou li algures, e não me lembro do nome, uso a sua interrogação: “como é que poderemos esperar que um partido que não se democratiza internamente, venha democratizar a sociedade.”

 

É isso mesmo! É triste! Mas, acontece!

 

 

 

 

Publicado in Rostos Online

 

 

 

 

 

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publicado por Carlos Alberto Correia às 19:30

Momentos para Inventar o Amor, de Carlos Alberto Correia - Entrevista

Sábado, 21.04.18

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Posted By: Rui Freitas 0 Comment Contos, Literatura

 

 

Na última conversa com Carlos Alberto Correia, falamos sobre o seu Concerto Para Sanca João, uma obra grandiosa, de uma certa literatura ficcional, que é ao mesmo tempo histórica, já que o que tem de ficcional é quase cosmética ou uma forma de unir pontas de “um entrelaçado de histórias que são memórias reais e imaginárias sinceramente verdadeiras”, como eu escrevi na altura.

Desta vez lemos e absorvemos Momentos para Inventar o Amor, uma obra enganadoramente simples, de tão complexa. O autor fala a várias vozes, através de personagens que por sua vez falam através de outras, e mais, desmultiplicando-se num exercício quase decadentista.

Um casal de titereiros, com as suas idiossincrasias, cria o texto para as suas marionetas, um casal também, em jogos de sedução, aproximação e afastamento. Uma das marionetas escreve uma história, não de um casal, mas de um triangulo amoroso.  E pronto, aqui, o domínio das personagens, o seu “texto”, as suas ações e pensamentos, parecem ter resvalado e saído do controlo do criador que já ficara para trás, esquecido. Estas ondas de choque atingem o ponto de reflexo e retornam, aparentemente até ao autor, que fica sem muitas opções, já que as ações das personagens começam a refletir-se umas nas outras, retroativamente. Eles ou ele, falam sobretudo de amor e de afetos; de encontros e desencontros, muitos desencontros sublimados e traições conformadas; discutem a sociedade, a política, o valor da vida e a premência da morte, o suicídio; as desigualdades, as quotas, o sexo, os sexos e os géneros; falam de deuses, do Andrógino e de Deus, Yahweh, que morreu cansado no fim da criação, mais cedo do que estimara Nietzsche; falam por enigmas, por metáforas, por imagens, poeticamente, o “poeta-deus” a lembrar o rei-filósofo de Platão. Discordam em tudo, em tudo se desafiam, ele e eles e os outros dois, mais os outros dois que aparecem mais tarde…

 

 

São várias histórias de amor que poderiam caber numa só ou é uma só história contada a diversas vozes e conduzida por presumíveis éticas e abordagens filosóficas distintas?

Mas afinal o que é que uma história de amor, terreno, humano, vulgar como os das vidas reais, dos romances e das novelas tem de filosófico? Tem tudo.

Na harmonia, desencontros e peculiaridades de cada relação, as personagens dão largas aos seus fantasmas pessoais e às suas interpretações, refletindo sobre a forma como cada opção ética se reflete no eu íntimo da cada uma, envolve os outros e condiciona as relações. Como a vida assume direções ao sabor das contingências do amor.

 

“As palavras saem do arquivo da memória, passam no coador do gosto, juntam-se na epiderme da sensibilidade, prontas quase à recusa ou ao conceito do conhecimento.”
(do livro, por Cursino)

 

Artes & contextos – Este livro sai completamente do trilho do Concerto e no entanto estava “prometido”, pelo menos, desde essa nossa conversa. Isto significa que o foste criando ao longo do tempo, ou tinhas apenas a ideia e é fruto de uma nova sementeira?

Carlos Alberto Coreia – O Concerto para Sanca João é um romance épico, portanto tem um estilo de saga. Conta-se o percurso de um improvável “herói”.  O presente, para lhe arranjar uma caixinha onde nunca caberá por completo, arriscarei classificá-lo com cínico/dramático. Conforme o ponto de vista poderemos considerá-lo de fermentação lenta ou muito rápida. Não é contradição. Enquanto o Concerto foi pensado a longo prazo, escrito de fio a pavio no decorrer de cinco anos, o Momentos apenas levou seis meses a completar.

Como bem notas o livro é uma sequência de histórias contadas, na sua maioria, por Cursino, personagem de uma peça de marionetes a ser montada por Kismet e Oblata. Muitas dessas histórias já estavam escritas e algumas publicadas. Se optasse por um livro de contos – uma das decisões possíveis – alguns textos ficariam de fora e o projeto a que me propunha estaria prejudicado, não atingiria os objetivos pretendidos, chegaria coartado ao leitor. Por isso, e é o que se faz na escrita de um romance, criei uma cosmogonia onde as personagens fossem, ao mesmo tempo e em planos distintos, ativas e/ou passivas, isto é, onde se contam e são contadas.

Para complicar um pouco mais a situação, um dos eixos que sustenta o Momentos (que se pretende um livro sobre o amor) é a escrita da escrita. O que é escrever? Porque e como se escreve quem escreve ou se descreve? E, para além do que se escreve quando se escreve, o que pretende transmitir-se nesse ato? Para mim, o reconto de uma história não termina na narração. Há sempre a exsudação, não direi de uma moral, mas de um sentimento crítico não só sobre a escrita, também sobre a atuação do escrevente e das suas personagens. A mensagem raramente é explícita. Está lá, embutida na razão da história e cabe ao leitor, na sua liberdade interpretativa, traduzi-la e recriá-la.

O livro é uma sequência de contos enleados num fio condutor que os transforma numa só história. Cada conto acaba por ser quase uma declaração de princípios, cada história foca-se num assunto base de importância social ou humana profunda e que são integrantes das preocupações do dia a dia do autor. Assuntos que lhe são caros discutir.

 

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Carlos Alberto Correia

 

 

A&c – Estamos perante um manual do Carlos Alberto Correia?

C.A.C. ­– Para responder a esta questão obrigas-me a fazer um périplo, a revisitar histórias e personagens. Antes da pergunta enunciada nunca se me pôs tal problema. Depois, tive de reunir-me comigo, observar as ações praticadas pelas personagens, perceber aquilo que por detrás delas, sob a capa da movimentação e opções, existiria.

A primeira ponderação, após o incómodo sentido pela palavra “manual”, isto é, um livro de receitas, um breviário de comportamentos, levou-me à recusa dessa classificação. Ofende-me o espírito “democrático”, coloca-me em desagradável posição autoritária. Depois, mais serenamente, saltou-me à vista que o livro escrito pelo autor não é necessariamente o apercebido pelo(s) leitor(es).

É claro que, não me propondo estabelecer um catecismo dos meus valores, torná-los únicos e obrigatórios para os outros sou, em qualquer caso, porta-voz dos mesmos e eles transparecerão, necessariamente, ao leitor atento. Por isso, quem lê, pode sentir, através das ações das personagens, as linhas éticas que conformam o código de vida do autor.

Escrever é refletir sobre o humano, o social. Se não tiver uma perspetiva da minha sociedade, do meu tempo, ou me faltar a vontade de sobre tais assuntos emitir o meu parecer, escreverei para quê? Para comprazimento próprio? Mas eu sou um preguiçoso ativo. Só faço o que é imperioso executar. Se puder manter-me no “nirvana” não bulirei uma palha. Portanto escrever é incómodo, dá muito trabalho. Assim, terá de ser um imperativo inultrapassável – individual ou coletivo – a tirar-me da inatividade. Tenho de sentir que alguém terá de apresentar a questão. E esse alguém, poderei ter de ser eu. Porquê? Porque estou no sítio, conheço ou reconheço o problema, tenho ou penso ter uma possível solução, ou, pelo menos, uma perspetiva. Uso as palavras como utensílio mais que para comprazimento. Por vezes acontece a delícia da escrita. É sentimento muito procurado, raramente conseguido. Fica o trabalho, a carpintaria e, depois, o vago prazer de ter, de algum modo, feito frutificar esse labor em algo de possível aceitação pelos outros. O que escrevo, mesmo quando perentoriamente afirmado, vale, na sua facialidade, apenas para mim. Não pretendo impor. Suponho e proponho. É-me, porém, impossível assistir ao espetáculo do mundo e ficar calado ante o bem e o mal ou o que não sendo nada disto, poderá ser qualquer destas coisas, dependendo dos sentimentos e efeitos produzidos. Exemplificando. Dois homens estão apaixonados pela mesma mulher. Supostamente ela escolherá um deles. O ato de escolha é simultaneamente bom e mau. Bom para o escolhido, mau para o perdedor. Para ela? Talvez não possa ser classificado em nenhuma destas categorias. Terá sido, simplesmente, uma escolha. Tenho, para mim, que tudo na vida é causa e consequência. Cada escolha define um futuro e descarta todos quantos eram possíveis antes dela ser feita. É na escolha que reside o que de bem ou mal possa vir a acontecer.

Este romance tem, como sabes, vários níveis e instâncias narrativas, o que lhe confere, provavelmente mais que a outros de estrutura menos complexa, a possibilidade de pôr em confronto comportamentos, situações e carateres diversos. Cada um transportará uma vivência, um código muito próprio. A minha intenção é que, a partir das atitudes, recontros e recontos das personagens, seja visível a diversidade de escolhas, pretendendo apresentar as mesmas como consequência e motivadas por interesses próprios, interações e inserções sociais. Reconheço, porém, que a voz autoral, possa transparecer como mapeamento daquilo que para ela é bom ou mau, aceitável ou não, independentemente de a mesma se querer equidistante, pretender somente apresentar – não julgar – e, no final, o intento falhe e a sua marca seja apercebida como o sentido obrigatório dos actantes.

Não posso, porém, deixar de sublinhar que a minha escrita – aliás, toda a escrita – tem por fim entregar uma mensagem. É isso que eu faço, no entanto, repiso, uma mensagem é apenas a transmissão de um saber, de uma notícia. Não envolverá o recetor noutra obrigação além daquela a que se sentir impelido, nem, em último caso, poderá supor-se que o emissor pretenda, mais que informar, desviar os caminhos de quem a recebe. Pode acontecer, mas é escolha de cada um. Dá-se-lhe, comummente, o nome de liberdade.

 

O autor, através das personagens, aprofunda temas em confronto com um contraditório imaginário e que pretende deixar-nos na incerteza quanto ao seu lado da barreira.

 

A&c – As personagens têm personalidade própria, como o Cursino e a Valéria discutem repetidamente?

C.A.C. ­– Estamos perante o problema do criador. Engendra por um motivo, com uma intenção. Por vezes, como se diz nos Momentos, é apanhado na “esquina das palavras”. Significa tal que ao preferir um termo a outro poderá estar a introduzir um novo rumo na história, no caráter das personagens. Está a transformá-las fora das intenções primárias. O texto é uma construção, a bissetriz entre o pensado e o transposto para a narrativa. Dificilmente serão coincidentes. Há um termo que está mesmo a ser necessário e não ocorre. Substitui-se por outro, mas a armadilha está montada. A partir dali a história enviesa pelo caminho aberto pela palavra conseguida, pelo conceito inerente. Já está tramado o escritor. Vai ter de percorrer sendas imprevistas, induzidas pela escolha feita. Subtilmente a trama transmuta-se e lá vamos percorrendo o trilho vislumbrado até à próxima encruzilhada, à escolha seguinte.

Se notares bem, não é só o Cursino e a Valéria que mantém tal discussão. Ela perpassa igualmente nas falas de Kismet e Oblata. Todos estão inseguros sobre a questão do “querer” das personagens. É um pouco a metafísica do quem sou eu? Do ser ou não ser! Do nosso reconhecimento no espelho e da especularidade da imagem a contradizer, muitas vezes, a perceção que se tem de si próprio.  É a procura do singular, da transcendência que se pode subsumir, nunca declarar.

 

A&c – E livre arbítrio?

C.A.C. ­– Se eu pudesse responder cabalmente a esta questão, se calhar não escreveria romances. Como sabes esta controvérsia percorre toda a história das civilizações. O homem é livre ou determinado? Pode escolher ou fará o que o seu destino traça? Várias épocas e culturas responderam de forma diversificada a este problema. No entanto tudo depende do ponto de vista.  É inegável que possuímos um certo grau de liberdade nas escolhas, também não é mentira que temos condicionantes a limitar o nosso poder de decisão. Posso escolher ser o campeão olímpico de velocidade, porém se o meu corpo não possuir as características necessárias estará determinado que nunca o serei. Aqui encontramos um argumento a favor do determinismo, mas supõe, por absurdo, que apesar disso consigo participar nesses jogos e, por uma série de causas extrínsecas à competição em si, sou o único a chegar à meta. Logo tive liberdade de escolha e a minha determinação ilidiu o que de determinístico havia na impossibilidade de alcançar o meu desejo.

O problema, suponho, é pormos os termos em absoluto. Está determinado que a minha vida terá um fim, no entanto o que farei com ela dependerá, embora não totalmente, bastante de mim. Voltamos ao plano das escolhas e dos muitos futuros realizáveis, modificados em cada opção tomada.

No entanto, nesse aspeto, o tom geral do livro parece decetivo. Como se afirma logo na entrada, tudo caminha para a entropia. A desordem, a queda, o fim, parecem ser estados para onde se marcha, dos quais não poderemos fugir. Porém, tal é ter a visão curta. O fim de um caminho, uma relação, por mais importantes que sejam, são apenas isso. Do caos ficante nascerá uma nova ordem, um novo devir. Por isso, em muitas religiões o deus que destrói é também o deus criador e vice-versa.

As afirmações perentórias escondem o pedido desesperado de uma resposta, mesmo se contrária àquilo que se afirma. É o terror da incomunicabilidade. Dos meus sentimentos não se transmitirem exatamente naquilo e no como digo. Do que ouves ser incapaz de traduzir o que quero dizer-te, da quase impossibilidade de percecionares, profundamente, o significado, a força, do que quero transmitir.

Posto isto, que julgo necessário para enquadrar o problema sem cair na tua armadilha, falemos do “livre arbítrio” das personagens.

A literatura é, como bem sabes, um jogo de máscaras. O autor despe-se de si para pôr na boca de outros quanto pretende afirmar e o seu contrário. É uma das prerrogativas do ofício. É possível afirmar uma coisa e o seu oposto, porque os bonecos literários existem para isso mesmo. Uma personagem é, sem dúvida, aquilo que o autor faz dela. Neste caso é destituída de vontade. Porém, o autor usa a língua como matéria prima. Como refere, creio que Kismet, no “Momentos”, as palavras têm esquinas e armadilhas. Conjugando-as com a necessidade de verosimilhança do escrito, podem – e muitas vezes acontece – obrigar a desvios do “destino” traçado para a personagem. Parece estarmos perante uma possibilidade de “livre arbítrio”. Porém essas escolhas apenas se passam no universo do romance, fora do qual a personagem não existe e, sem existência não disporá de qualquer arbítrio. Por isso (apanhaste-me) só possui a liberdade que a voz autoral concede, mesmo quando se desvia das identidades previamente escolhidas.

Com isto desmontaste parte do meu jogo. Fizeste-me cair máscaras. É imperdoável!

 

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Carlos Alberto Correia

 

 

 

As personagens têm opiniões muito firmes acerca dos assuntos que discutem; não há espaço a incertezas ou divagações, tão pouco a maiêutica elas afirmam as suas convicções quase declarativamente.

 

A&c – É fácil por duas personagens a contrariarem-se, em alguns pontos, profundamente?

C.A.C. ­– Tão fácil como qualquer personagem se contrariar a si própria no desenvolvimento do tema. São aliás essas contradições que estabelecem, muitas vezes, a tensão dramática.  Repara como Oblata e Kismet, ambos empenhados em escreverem, em conjunto, uma peça sobre o amor, a entendem de formas tão diferenciadas. Confrontam-se nas opiniões, perspetivas de vida, modos de encarar o ofício etc… No entanto continuam ligadas, lutando pelo mesmo objetivo, cada um a seu modo. E, como na vida, nem sempre são coerentes nas afirmações e atos. Mudam quando os contextos se alteram.

 

A&c – Discutes com as tuas personagens?

C.A.C. ­– Tive grandes discussões com Cursino quando ele decidia escrever as suas histórias. Além disso, o sujeito é um pretensioso que pensa conhecer e dominar tudo. Repara como ele, enquanto Cursino, escreve quase sempre no futuro e em negrito. O tipo chega a ser insuportável no seu pretenso saber. Valéria também, várias vezes se opôs ao que sobre ela queria contar. Nem calculas a guerra que foi conseguir a história do pai. De qualquer maneira “o autor é um oportunista” – diz-se no livro – quase sempre lhes consigo dar a volta.

 

A&c – E contigo?

C.A.C. ­– Pergunta retórica, Rui. Tu, como escritor, sabe-lo bem. Mas claro, estás no papel de entrevistador e terás de fazer tua a ignorância de um possível leitor. Pois bem! Quanto de nós há em cada personagem? Quanto permitimos que elas de nós revelem? Que imagens pretendemos passar?

Essa é a perene discussão do autor consigo, do autor com as personagens e das personagens umas com as outras (com o autor escondido por detrás das afirmações que lhes permite fazer). Enfim, o tão comentado jogo das máscaras. “O poeta é um fingidor…).

Em meu entender as personagens do “Concerto” serão diferentes destas porquanto encarnam uma temporalidade a fluir – embora com ressaltos – numa linha cronológica, de quando, em vez a par com a História.

Nos Momentos, com exceção dos pares Oblata/Kismet, Valéria/Cursino, elas estão enquadradas numa parcela de tempo e lugar, num recado que vêm trazer-nos. Passada a mensagem não têm qualquer razão para ultrapassar a demarcação da história comunicada. No entanto são a estrutura em que o livro assenta, a ficção da ficção. Os dois pares serão a cobertura, o cimento, que os liga.

 

No Concerto as personagens podem ser encaradas como representativas, compósitas, como lhe chamas e sendo ou não personagens reais, são modelos, chamemos-lhe assim, de muitas pessoas que naquelas circunstâncias terão vivido histórias similares. Aqui as personagens são muito específicas e construídas com um fim pré-determinado, como uma missão.

 

A&c – Tal como o Cursino, o Carlos Alberto Correia retrata personagens, mais ou menos “arredondadas”, plasmadas de pessoas reais?

C.A.C. ­– Pela forma, conteúdo e tema estas personagens foram de mais fácil conceção. Quase todas nascidas da imaginação ou consubstanciadas em meros frutos de observação distanciada, pude fazer delas o que me deu na gana. No Concerto havia a necessidade de modificá-las, torná-las compósitas, para não deixar ninguém desconfortável, bem como para “ajeitar” a realidade à ficção. Aqui tive a possibilidade de moldá-las aos meus desígnios, desobrigado do receio de ferir alguém. É verdade e volto a referir – “o autor é um oportunista” –  que nalgumas personagens afloram leves traços de pessoas com quem me dou. São apenas apontamentos.

 

A&c – Esperas que algumas se reconheçam?

C.A.C. ­– Será quase impossível alguém referenciar-se no descrito. Já quanto às situações muita gente pode ter passado por coisas semelhantes, mas isso é problema do social, não meu.

 

A&c – Quando, no último capítulo justificas o Cursino, estás a fazê-lo por ti?

C.A.C. ­– Em minha opinião, no “Cais das Colunas”, o Cursino não pretende justificar-se. Revela-se! Desmonta o jogo. Convida a perceber o que se passa por detrás do écran que é o espetáculo da vida atual e enceta um caminho possível para fugir à disforia. Faz o que nunca fez. Abre uma porta à esperança. Apesar do visto e percebido não desiste da procura. Alerta para o grande saber sociológico que nos diz: –  se uma coisa parece tão verdadeira que não pode ser senão aquilo que aparenta é porque, de certeza, é outra coisa. Acautela-nos contra as ilusões e ensina-nos que nada é, em princípio, inultrapassável.

 

A&c – A epopeia do Cursino para publicar o livro retrata a tua com a publicação do Concerto?

C.A.C. ­– Infelizmente não só a minha. Presumo que nunca se tenham editado tantos livros como agora. Tal é positivo porquanto abre um leque de escolhas assinalável e permite que obras valiosas venham à luz do dia. Já, por outro lado cria uma cacofonia onde é difícil descortinar o durável do passageiro. Também não é de fazer grandes lamentos. Vivemos no tempo acelerado. Escrever ou ler exigem o tempo lento, de encontro interior, reflexão. Ora isto é tudo o que a moderna sociedade aponta como detestável, improdutivo.

Dizia-me um amigo que há editoras que se lá formos, levarmos a lista telefónica, pagarmos o exigido, eles a publicam com a sua chancela e o nosso nome como autor. Passe a piada, mas o panorama é um pouco esse. Nada tenho contra o facto de qualquer escritor pagar parte dos custos de edição. É decisão que cabe a cada um. Aliás, como Cursino refere, Joyce e Proust também tiveram de suportar os custos dos seus livros. No entanto o problema não é esse. É o de terem acabado os “Editores”.

Lembro-me de, ao lançar o meu primeiro livro, “Silêncio Mordido”, uma pequena brochura de umas dezenas de páginas, o editor ao aceitar o livro, sempre em consonância comigo, ter tratado de tudo. Revisão, divulgação, distribuição, acompanhamento, foi tudo trabalho seu, não me exigiu qualquer pagamento e ainda recebi a percentagem acordada sobre os livros vendidos. Onde estamos agora? Uma empresa de serviços, intitulando-se editora, produz o livro com baixa tiragem. As menos más apostam no lançamento e depois o autor que se vire. Não há as prometidas divulgações, nem distribuições. Aconteceu-me isso com o “Concerto”. Após mais de um ano de negociações e cerca de oitenta mails trocados, chegámos a acordo.  Foi uma grande desilusão. Quase nada do que constava do contrato, dos mails e reuniões foi cumprido. Por isso mudei e este livro, experiencialmente, foi produzido como e-book.

Os próximos, estou a estudar o mercado, serão lançados como livro eletrónico e impressos a pedido. Parece-me ser o futuro e corresponderá aos interesses de quem quer gastar pouco num livro e não se importa, ou mesmo gosta, de o ler num suporte eletrónico, assim como permitirá, a quem não dispensa o livro físico, poder adquiri-lo, por preço superior, a qualquer momento.

 

O desenrolar da história com todos os seus enlaces e novelos faz-me lembrar algumas coisas de Kundera ou até Calvino, estou a lembrar-me, deste último de, por exemplo de “Se numa noite de Inverno um viajante”.

 

A&c – Quais são os autores que admites de algum modo te influenciarem ou inspirarem?

C.A.C. ­– Como já tive ocasião de te dizer vou buscar raízes a Camus, Sartre, Vargas Llosa e, em Portugal, a Virgílio Ferreira. No entanto, como todos, esforço-me por atingir a minha voz própria

 

A&c – Voltando ao Concerto e aos temas musicais que ilustram os pontos chave da narrativa, faço-te um desafio: imagina a leitura desta obra como uma experiência multimédia e não uma música para cada capítulo, mas antes um álbum que colocasses como fundo à leitura deste Momentos para inventar o amor.

C.A.C. ­– Esta deu-me que pensar. Enquanto no Concerto para Sanca João a música ia acompanhando o andamento da escrita, e muitas vezes era ela a suscitá-la, o Momentos foi escrito no silêncio. Mas, já que pões a questão, dei uma volta pelos discos, outra pela cabeça e surgiu-me – se calhar para me desenvencilhar desta – o Dark Side of the Moon, dos Pink Floyd.

 

A&c – Sem querer levantar o véu ou fazer spoiling, o fim do livro, leva-nos inevitavelmente ao início e a revermos tudo o que acabamos de ler. Aquele fim sempre esteve lá ou surgiu como resposta ao que foi acontecendo?

C.A.C. ­– Pois, o livro foi composto pelo fim. Sabia como queria que acabasse, embora a ideia fosse um tanto ou quanto nebulosa, e ganhasse corpo com o crescer do romance. Precisamente o contrário do Concerto em que, como sabes, cheguei ao fim com três epílogos possíveis. Por isso foi um trabalho de desvio e retoma do caminho pretendido. Por vezes tive de forçar as personagens a fazer coisas que não queriam… olha, lá volta o jogo…

 

A&c – Faço-te, de outra forma, a pergunta que já fiz na nossa anterior conversa sobre o Concerto: Foi fácil dar este livro como concluído, ou tiveste a tentação de voltar ao início, para mostrares às tuas personagens que a história afinal é tua? Ou não é?

C.A.C. ­– Nunca é fácil dar um livro por concluído. Andando este pelo mundo, já o reli várias vezes, detetando em cada uma delas pequenas coisas a melhorar. Uma palavra que se repete em excessiva proximidade, uma vírgula mal colocada, uma frase menos explícita, uma detestável gralha que passou a toda a gente. Mas, sim. Percebi claramente quando cheguei ao fim da jornada. Aliás, no Momentos mais facilmente porquanto tinha o encerramento delineado.

 

A&c – O que se segue? O próximo já está escrito na tua cabeça?

C.A.C. ­– Bem, acabei este ano o Com o cheiro das glicínias. Em estilo semelhante ao do Concerto. Posso dizer que é um livro paralelo. Nasce no local onde decorre boa parte do “Concerto”, a Obras de Arte, só que o narrador é um administrador dessa empresa que vai relatar uma parte do outro lado das coisas.  Acabei também uma peça de teatro Nem Romeu nem Julieta e, para além de outras coisas já escritas, vou começar um novo romance A caneta infeliz. Mas deste não digo nada, porque ainda não faço grande ideia do que irá sair.

 

A&c – Aguardamos então, paciente, as matizes desse aroma floral e um motivo para irmos ao teatro.

 

“(…) na cidade junto ao mar, passou a fome, a guerra, a doença. Nada tocou o poeta. De nada se apercebeu. A obra enche-o por completo. É o trabalho mais importante do mundo.”

(do livro, por Cursino)

 

 

Publicado em eBook por Porto Alegre: Revolução eBooks-Simplíssimo, 2017

 

 

Além deste Momentos para inventar o amor, Carlos Alberto Correia publicou em 1974 Silêncio Mordido e em 1982 Penélope e outras esperas, obras poéticas, e o romance Concerto Para Sanca João em 2015.

 

 

ruifreitas.png Rui Freitas

 

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publicado por Carlos Alberto Correia às 15:04

Quem irei bombardear na próxima semana?

Domingo, 15.04.18

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Toda esta confusão que vai pelo mundo, mormente no oriente vizinho, é muito simples. No entanto, além de me sentir meio perdido em toda ela, abomino que joguem comigo, com a informação e contra informação, de molde a fazerem-me sentir perdido, estúpido.

 

Senhores mandantes do mundo, não sou cretino e sei que o não sou. Por isso parem de agir como se o fosse.

 

Entre ameaças de mísseis e mísseis ameaçadores, passámos a última semana. Ouvi declarações, acusações, defesas de toda a ordem e complexidade. Li a indignação fácil e civil, de ambos os lados, nas redes sociais e vi tratarem-se assuntos, que poderão pôr a humanidade à beira da extinção, com a paixão e o nível racional postos a contestar a derrota do meu clube de futebol, apesar de no íntimo saber que foram uns nabos, que não se esforçaram, que se estiveram nas tintas para os adeptos ou, até no limite, que possam ter sido corrompidos para atingir aquele resultado. É mais fácil acusar o árbitro.

 

Porque não quero cair nesse despautério bebi um copo de água, fiz cinco respirações profundas e dediquei-me, mais calmo, a analisar os atores do evento.

 

Comecei por Assad. Concordo com Trump. Uma besta assassina! E veio-me o desconforto desta concordância. Espera lá, o Trump não tem armazenamento de gases tóxicos? Tem sim, senhor e, de certeza, muito superiores, em quantidade e toxicidade, aos existentes na Síria. Mandou destruí-los? Não! Então quere-os para usar em qualquer eventualidade? Com certeza. Nesse caso que moral tem para atacar a Síria pela posse e uso desses venenos? Usou-os contra o próprio povo! Imperdoável, sem dúvida. E Trump não o usaria caso as minorias exóticas, existentes nos Estado Unidos, pegassem em armas contra o Governo Central? Respondam vocês.

 

Então, exalta-se um amigo, justificas o ato de Assad? Porque faria tal só por chamar a atenção para a hipocrisia do senhor Trump? Claro que não justifico Assad, claro que penso que não merece continuar à frente da Síria e claro que esperei – ó primaveras árabes – que o clã dirigente fosse derrubado pelos opositores e que se instalasse uma forma de governo mais amiga dos cidadãos, de todos, não apenas dos apoiantes e beneficiários do regime, com mais justiça e igualdade. Ingenuidade minha? Talvez, mas prefiro esta ingenuidade ao cinismo do deixa ficar porque isto já sabemos o que é e desconhecemos o que virá.

 

Portanto, de uma penada, não estou do lado de Trump, nem de Assad.

 

E da senhora May? Credo! Abrenúncio! Então só porque se debate com o fracasso do Brexit, perde apoios internos, vou permitir que em imitação de Thatcher invente outras Malvinas. Que crie um inimigo externo para obnubilar debilidades internas? Ponha o mundo à beira do abismo para resolver o impasse da reunião que terá na segunda-feira e supõe lhe seja desfavorável? Uns misseisitos contra a Síria, ao lado do “amigo” Trump, se calhar poderão facilitar-lhe a vida…

 

O mesmo para Macron. Este Passos Coelho, mais poderoso e sofisticado, está a braços com a dificuldade da aplicação de “medidas estruturais”, que como se sabe, consistem essencialmente, em cortar, cortar, cortar: nos empregos, na saúde, na educação, nos vencimentos, nas reformas e ajudar, ajudar, ajudar os grandes empresários, os bancos falidos, para enriquecimento da clique que os dirige, a capacidade de fuga ao fisco, o predomínio dos “offshores”.

 

Por aqui, abreviadamente, estamos confessados.

 

E a Rússia? Perguntam-me outros amigos confiantes em que defenderei o seu papel. A Rússia o quê? A que esmagou a Tchetchénia? A que invadiu a Crimeia? A que desestabiliza a Ucrânia? A que dizendo atacar o ISIS minou a oposição a Assad?  A que já usou gases tóxicos e assiste impassível ao seu uso na Síria? Ora vão pentear macacos e pregar moral para outro lado.

 

Mas o ataque com armas químicas pode ser uma encenação! Pode com certeza! Destes tipos espero tudo. Será, aliás, suficientemente horrível para que as boas almas desejem o castigo de tão abomináveis personagens. Porém, se não tivesse havido o caso das armas de destruição maciça no Iraque, eu poderia embarcar… mas houve e tornei-me muito desconfiado. Quero provas, provazinhas… e depois a montagem desta cena não me convence.

 

Primeiro põem-nos os nervos em pé com uma situação que poderá facilmente acabar em Armagedão entre o dois Titãs do Mundo. Personalizando, Trump e Putin. Depois assistimos a qualquer coisa que me cheira a coreografia.

 

Eu explico!

 

O inefável Trump ameaça com o envio de mísseis lindos e novos. Putin, mais cauteloso, deixa falar o seu embaixador, põe um general a anunciar o derrube dos ditos mísseis e o ataque às bases de lançamento. Entretanto, como a mesma inutilidade de sempre, discute se na ONU o que fazer ou o que poderemos ou nos deixam realizar. Acusações para lá, acusações para cá. Ataco! Nem penses nisso! E os telefones dos principais atores combinam a coisa. Já fui longe demais, não posso recuar. Atreve-te e dou-te cabo do canastro. Ó pá, deixa-te de porcarias. Isto é feito para a malta ganhar e não para perder. Então avisas-me antes do ataque, com tempo suficiente para salvar a aviação do Assad, recolhendo-as nas nossas bases. Atacas alvos específicos, putativos produtores ou armazenadores de gases, mandas uma caterva de mísseis, eu derrubo uns quantos com o meu sistema antimíssil e ficamos todos a ganhar. Não só rodamos o material, como fazemos boa publicidade aos nossos produtos. Tu porque finalmente atinges os execráveis alvos, eu porque demonstro a eficácia do meu equipamento. Combinado? OK! Vamos lá a isso. Ah! Uma coisa, limita as baixas civis. Fica mal nos noticiários. Está montada a tragicomédia, vamos ligar as televisões.

 

Que querem! A maior parte dos meus amigos, de qualquer dos lados, vai ficar furiosa comigo ao ler este texto. Uns dirão que traí os ideais revolucionários, outros, lá está o esquerdalha a “barafundir” tudo. Aceito esses julgamentos, mas desde já declaro estar-me nas tintas para os “pré-conceitos” e, recuso-me a alinhar, por paixão, quando o perigo da situação exige raciocínio e ponderação. Como afirmei no princípio, toda esta confusão é muito simples. Resume-se a não acreditar em nenhum. Ninguém está inocente! Estão todos, em nome de elevados princípios, a procurar vantagens, domínios, recursos e poder. E estão a fazê-lo com um enorme risco para mim, para ti, para todos. Não vou no jogo. Não torço por nenhum deles. São todos culpados e potenciais assassinos em massa! Apetecia-me largar uma asneira que, por decência, contenho. Mas duvido muito da integridade moral das mães desses energúmenos.

 

O problema pode ser que, de encenação em encenação, de jogo de poder em jogo de poder, de expansão em expansão, acabemos um dia, por qualquer miserável descuido de qualquer deles - e não os nomeei todos –por “não acordar vivos”. Isto, sim, é algo que me chateia! À brava!

 

 

Publicado – Rostos online

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publicado por Carlos Alberto Correia às 21:06

Quem é convidado vai…

Sábado, 24.03.18

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Um velho adágio ensinava que “a casamentos e batizados não vás sem ser convidado”. Sempre achei que este era um bom conselho para a vida e esforço-me por segui-lo o mais possível.

 

Vem isto a propósito de dois convites. Há umas semanas Passos Coelho foi solicitado a lecionar numa Universidade, com funções equiparadas a Catedrático. O coro de protesto de alguma esquerda quase foi submerso pelos cânticos laudatórios da empenhadíssima direita, apostada em denegrir tudo quanto à Geringonça diga respeito, e a glorificar a pobreza e mediocridade do liberalismo(?) passista.

 

Na passada semana um grupo de alunos, da Universidade de Coimbra, convidou Sócrates para dar uma conferência nas suas instalações. Os mesmos tenores que achavam naturalíssima a equiparação de Passos Coelho a catedrático, sem medir minimamente as distâncias entre os dois tipos de convites, entraram em fúria e desdizendo o que anteriormente afirmavam, em favor de Passos Coelho, vieram à liça bramindo contra tal ataque à dignidade académica.

 

Bando de papalvos pagos a peso de ouro para botarem comentário a favor dos interesses de quem lhes paga! Caso esses patuscos se assumissem como assalariados, nada teria a opor e consideraria mesmo o possível mérito de desempenho em relação às funções contratadas. Mas não! Querem aparecer como impolutos e equidistantes julgadores, confiando que o pessoal ande mais que distraído ou, embora nunca o venham a confessar, confiando na esperteza própria e na estupidez dos restantes, para pespegarem as suas opiniões parciais como factos comprovados, de impossível contradição. Dizendo fazer jornalismo ou comentário, formulam um discurso teológico que, em vez da verdade, busca, tão somente, demonstrar a justeza universal do seu pequeno dogma.

 

Ponhamos os pontos nos ís! Uma carreira académica faz-se através de um percurso de estudo e provas, inscreve-se numa profissão hierarquicamente definida e, neste momento, recorre a um conjunto enorme de pessoas, com provas dadas as quais, anos após anos, alguns durante décadas, esperam ansiosos se, no ano seguinte vão ou não ter o seu posto de trabalho assegurado ou se, com mais de quarenta anos de idade e muitos, muitos anos de serviço, se verão relegados para a fila das gentes muito qualificadas, sem possibilidades de pôr essa qualificação ao serviço do País e, com isso, assegurarem também o dia-a-dia das sua famílias.

 

Convidarem ex-primeiros ministros, ou qualquer outro profissional de qualquer ramo, com reconhecido mérito, para fazerem palestras nas Universidades, ou mesmo para ministrarem cadeiras temporárias, onde coloquem a experiência adquirida ao serviço dos estudantes e do País, não só não me parece mal como, se tal não for feito, considero estarmos perante um desperdício de conhecimentos, o esbanjamento de um atalho a facilitar o encontro da teoria com a prática. Já estabelecer contratos com equiparação a Catedrático, tendo em conta a longa lista de profissionais habilitados à espera, parece-me uma injustiça e um favorecimento indevido, seja ele feito a quem for.

 

Também acho injusto e fico furioso por me obrigarem a vir defender publicamente um homem por quem não tenho nenhuma simpatia e, como não estou obrigado ao segredo de Justiça, presumo seja responsável por muitos dos crimes em que está arguido. Tenho, porém, de conceder que tem sido destratado pelos média e pelo aparelho judiciário e prisional. Fizeram-lhe coisas inadmissíveis num Estado de Direito e eu tenho a veleidade de esperar que nele, todos os cidadãos sejam iguais e tratados de modo semelhante.

 

Não é o que vejo nos casos presentes e, de desigualdades, já estou farto. Sócrates foi convidado, foi só uma palestra, não tirou o lugar a ninguém, por isso foi e tem esse direito. Quem é convidado, se não recusar, vai…

 

Ou só os “amigos” têm direitos?

 

 

 

 

 

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publicado por Carlos Alberto Correia às 20:45








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