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Até sempre, Camarada!

Domingo, 25.07.21

otelo e cravo.jpg

 

 

(Otelo estava preso em Caxias. Uma revista publicava, como capa, uma foto de Otelo, fardado, junto às grades da cela, olhando o Tejo. O momento marcou-me de tal modo ao ver a Liberdade presa, que de chofre escrevi este poema, aqui transcrito em homenagem póstuma a um dos obreiros da nossa liberdade.)

 

desdémona alabastrina

 

            (para Otelo saraiva de Carvalho)

I

 

desdémona jaz

nos teus braços meu

capitão de mais quentes

marés

ou praias de outros tempos

 

rodeiam-te enclavinhadas piranhas

 

em excessivo gesto de amor

as mãos torneiam a ingénua humidade da vida

pérolas de dedos enegrecidos

no jeito de calar

 

tudo se fazia à escala espontânea de outros rios

cheirava o novo verde até às margens

incómodos cavalos no viço dos tempos

em que tudo era redondo e levado no alcantil dos dias

e os corpos

ruído transitório no vento magoado

era sombra de domingo no frágil dos ombros

 

olha de novo

 

II

 

desdémona jaz

 

esquecida a invenção do protesto

deixa que o olhar só por si se sobrenade

até ao limiar das mãos

 

agora

 

sob a soleira do tempo repousa no prumo do leito

descreve o estático espaço entre grades de olhar

 

que portos tocas

que estonteantes claridades acusas

na procura lancinante dos inícios

 

quem as mão te conduziu é que te acusa

 

aí estás desdémona de ti todo

onde te colocaram com a memória dos sentimentos

por estrear

 

braveza de tempestade nos trânsitos do espaço

como falar-te de gaivotas quando um corpo jaz

e tu olha o espelho das mãos distanciadas e breves

onde te perguntas

há coisa mais terrível que olhar por sobre um rio

 

III

 

uma imagem percorre o clarão do raio

a cidade adormecida espera a quietude dos grande temporais

 

olha a asa que voa

vê essa asa parada

avé ave asa ave

 

e que nos salve

e que nos salve

 

(in, Urbi – poemas datados, KDP – Amazon, 2018)

 

 

 

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publicado por Carlos Alberto Correia às 12:40

Oumuamua

Quinta-feira, 08.07.21

oumuamua2.jpg

 

(palavra havaiana que significa “o mensageiro de longe que chega primeiro”, designação dada pelos astrónomos ao objeto em causa.)

 

Duas perguntas assolam os seres humanos, provavelmente, desde a sua tomada de consciência como seres pensantes: “o que é a vida?” e “estaremos sós no Universo?” As respostas vão variando consoante os tempos, a ciência e as crenças. Certezas só de fé porque as ciências e as filosofias ainda não conseguiram resposta cabal a qualquer destas incógnitas.

 

Interrogar-se-ão os leitores sobre a razão que me leva a, num tempo em que os problemas abundam na nossa sociedade, estar a queimar o vosso e o meu tempo com coisas que, podendo ter interesse para alguns não o terão, ou serão de somenos importância, para a maioria. Dar-lhes-ia razão não fosse este ser um pensamento errado. Com efeito conhecer a origem e a finalidade(s) da vida e se somos a única espécie senciente no Universo são questões que, a serem sabidas e compreendidas poderão alterar substancialmente os nossos propósitos e a forma de vivermos o tempo de vida que nos cabe.

 

Não me debruçarei agora sobre a primeira questão “o que é a vida?” e vou interessar-me apenas na segunda. Há mais vida no Universo? E poderão existir outras civilizações?

 

Comecemos por referir Carl Sagan quando declarava não poder afirmar a existência de vida inteligente em outros lugares, mas considerar a sua inexistência como um desperdício. Por isso, coloco já, em evidência a minha posição. Estou convicto da existência de vida em muitos planetas de distantes estrelas e, quase aposto, em bastantes deles terem aparecido, ou existem ainda, civilizações em vários estádios de desenvolvimento. Por tal crer, durante muitos anos, participei no programa da Universidade de Berkeley - SETI (sigla em inglês para Search for Extraterrestrial Intelligence, que significa Busca por Inteligência Extraterrestre).

 

 Peço, a quem tiver a pachorra de continuar a ler, que não me coloque no grupo daqueles que, em tudo e nada, veem a mão de extraterrestres e ÓVNIS em toda a parte.

 

No entanto um aparecimento insólito no nosso sistema solar, em setembro de 2017, traz as comunidades de astrónomos, astrofísicos e parelhos em agitada discussão. Nessa data e pelo período de onze dias entrou, à velocidade de 168.000 Km/hora, no sistema solar um objeto proveniente do espaço extrassolar. Toda a gente foi apanhada desprevenida e todos os telescópios do mundo foram apontados para a “anomalia”, a qual, pelas excentricidades demonstradas, tiveram dificuldades de catalogar. Primeiro consideraram-no um cometa, a seguir, observadas discrepâncias de comportamento, foi classificado como asteroide. Porém por pouco tempo. Dado não preencher as características necessárias a essa classificação, voltaram, por falta de hipóteses a cobrirem o comportamento do objeto, a considerarem-no, de novo, um cometa. No entanto, a forma, o movimento, a modificação do sentido orbital, em conjunto com a impossibilidade de detetarem a coma ou a cauda característicos de um cometa (possibilitadoras de explicar a mudança de direção), voltaram a pôr tudo aos gritos e a aparecer, como melhor hipótese, a de ser um objeto fabricado, sonda ou lixo espacial, de alguma civilização interstelar.

 

O astrónomo-chefe da Universidade de Harvard,  o conhecidíssimo Avi Loeb - e a sua equipa - defensor acérrimo do objeto não natural, publicou, sobre o assunto, um livro muito interessante: “Extraterrestres”, editado em Portugal pela Oficina do livro, cuja leitura recomendo vivamente. Por minha parte “devorei” o livro, procurei informação de todos os lados, ouvi opiniões, vi vídeos e decidi, rusticamente, construir uma matriz numérica que me orientasse no meio da balbúrdia. As conclusões, claro possíveis de serem outras se  as características notadas ou os seus valores forem alterados, mostrou-me a possibilidade  percentual de estarmos perante o produto de um inteligência intra ou extragalática na ordem dos 64%.

 

E mais não acrescento. Tirem as vossas conclusões, façam, se interessados, a vossa pesquisa.

 

Publicado in Rostos Online

 

 

 

 

 

 

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publicado por Carlos Alberto Correia às 22:35

O parvo serei eu?

Segunda-feira, 31.05.21

ingleses na ribeira.jpg

 

 

O Secretário de Estado do Desporto veio à televisão chamar-me parvo!

 

Sem qualquer pudor comunicou ao País  ter sido a final  da Champions um êxito organizativo, enquanto, desde sexta-feira e mesmo no momento em que o distinto senhor cumpria o ritual de desmentir o real, tentava condicionar, de forma canhestra, aquilo que os olhos viam e os ouvidos não podiam ignorar: As imagens da grande balbúrdia, da enorme barafunda, do caos instituído pelos adeptos ingleses, nas ruas do Porto, mormente na Ribeira.

 

Se o dito senhor tivesse dois dedos de respeito, por si e por nós, ter-se-ia negado a tão humilhante papel. Vir, perante uma população marcada pelos sacrifícios de Estados de Emergência e confinamentos vários, justificar a exceção comportamental de uma multidão de díscolos, rasgando impunemente todas as indicações dos poderes públicos sobre comportamentos sociais, em tempo de pandemia, com total impunidade, perante os olhares benevolentes de forças mais habituadas ao confronto, à bastonada, que à complacência, deixou-me revoltado.

 

Não é que eu não entenda a necessidade do turismo, a circulação monetária que produz, as urgências de hotelaria e restauração em crise. Compreendo o desespero de proprietários, gerentes e empregados desses estabelecimentos e sei que muitos correm o risco de falência próxima. Nem, apesar de perceber a ausência de público dos nossos estádios, levaria muito a mal se, perante este panorama, fosse aproveitada qualquer possibilidade de minorar as dores de que esta sociedade sofre, desde que respeitado o anunciado critério de chegada, permanência e partida, em bolha. Embora o futebol me seja, não digo indiferente, porquanto não aceito o ambiente  escusos em que se envolvem os negociadores, negociatas e participantes desta enorme feira de vaidades, mas me interessa pouco como espetáculo dado o seu alto poder alienante sobre as multidões, o aproveitamento político proporcionado a personagens equívocas que, por vezes, chegam ao domínio de importantes clubes, posso fazer o esforço para perceber que, conforme nos foi “vendido”, seria uma ação coordenada, em condições previstas e condicionadas não ofendendo, em nada, as regras de comportamento pandémico impostas ao cidadão comum.

 

Porém, ao contrário das palavras da Ministra da Presidência não houve bolha. Hordas bárbaras invadiram a cidade, causaram perturbações e distúrbios. Apenas faltou puxarem-lhe fogo (isto se, por puro acaso, não nos fizeram a oferta de algum corona vírus, estirpe indiana, que nos faça gastar em sofrimento, vidas e pecúnia, muito mais que todo o dinheiro despendido nos rios de cerveja, ao que parece mais volumosos que o Douro).

 

Dói-me, enquanto cidadão, a subserviência ao poder do futebol e do estrangeiro. Revolta-me ser obrigado a cumprir aquilo que a eles é completamente relevado. Tenho o péssimo hábito de exigir igualdade de tratamento em qualquer sítio, em qualquer situação.

 

E não foi isso que vi!

 

Não sou cego nem parvo, senhor Secretario de estado do Desporto. Indignaram-me as suas palavras, o ar bacoco de que irão engolir mais esta sem bufar. Veja lá se se engana e lhe vai rebentar a esperteza no bolso. Deixem de tratar o povo, em geral, e a mim em particular, como deficientes mentais. Eu sei o que vi, sei aquilo que - justamente – me pedem e a todos os outros para fazer em público, a favor da saúde geral. E tenho cumprido!

 

Faça-me o favor, senhor Secretário e todos quanto consigo gizaram tão inusitada atuação, de não me julgarem destituído cerebral e sem qualquer vergonha me venha querer convencer de que não vi aquilo que foi “claramente visto”. Não me considere estúpido e, a propósito, lembrei-me de quando, na escola primária, perante uma ofensa a resposta era, inevitavelmente, “quem o diz é que é”!

 

Publicado in "Rostos On line"

 

 

 

 

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publicado por Carlos Alberto Correia às 19:37

elogio dos estúpidos

Terça-feira, 09.02.21

capaurbi.jpg

 

I

 

vejo-os passar no seu ar alheado

parecem-me felizes

 

meus olhos longos e doces de trabalhar mágoas

recordam paisagens onde habitava a tua companhia

 

era nesse tempo suficiente e completo

tomava por verdade o que os olhos vêem

e a razão do momento pelo momento da razão

 

II

 

como é pesada a vida quando tudo é desconhecido

e nada do que temos é suficiente

e as saudades nos assaltam até às lágrimas

ficando agarrados à possível dignidade

noção vaga inoportuna irreal indemonstrável mas

de tal forma necessária que nos desgarra em contínuas escolhas

 

atacados da mansa loucura da solidão

procuramos o rosto amigo o peito amante

que venha reaquecer o nosso sol

 

ninguém entende quanto estamos sós

ninguém entende como esta injustiça universal

cai sobre o fogo sagrado que ardendo em nós

nos faz maiores mais vulneráveis solitários e noturnos

 

 

III

 

há nesta obsessão da noite neste sentimento de falta

um resto de desejo da tua presença que não quero

 

tudo está de rastos

 

terramoto interior que nada poupou

deixou-me sobrevivente de mim

violento e teimoso de pé sobre os

escombros a reconstruir

 

por isso escrevo para ti estas palavras que não lerás

compor-te-ei ainda versos e não serão teus

habitar-te-ei das minhas palavras fazendo-te bela e

amante como nunca conseguiste e forte da força que não possuis

 

no entanto tudo isto é insubstancial

a tua imagem descrita nunca

poderá ser molhada pela chuva de outono

ou beijada nas horas em que o fogo anima o coração

 

dentro de mim é que serás real e estrangeira

dentro de mim continuarei a procurar-te e a banir-te

por plainos longos e monótonos onde apenas

um estático ribeiro chora

 

 

 

 

IV

 

o que dizer mais de mim

coração magoado que espera

 

ó céus que coisa grande é a dor que conseguimos

que pena tenho de nós

não só de mim que sou náufrago

mas também de quem afundou o meu navio

 

é que tu canhoneira dos meus hábitos

és algoz e vítima deste jogo cósmico que ninguém criou

mas onde todos somos à uma caça e caçador

e nada nos é poupado e a nada somos estranhos

 

V

 

é isso sou um erro crasso

apareci na vida pela porta errada

compareci no mundo quando não era a minha vez

 

p'ró raio que as parta as filosofias requintadas

quero ser estúpido e viver o dia-a-dia cumprindo

a leve obrigação de estar vivo somente porque como

ou ejaculo

 

quem me dera que eu fosse estúpido

e conhecesse a vida através dos programas de televisão

e pudesse ser feliz por ser o melhor dançarino da "boite"

estar bem visto no emprego

cumprir ordens sem as discutir

ter uma mulher certa matronal estúpida

distantemente carinhosa e de horizontes limitados

à ancestralidade da família

 

quem me dera puder ser feliz assim

 

ser o perfeito pai de família dominador

circunspecto que ao domingo sai apascentando as filhas

que ocupa os sábados a dar lustro ao carro

e que tem encontros clandestinos com uma colega

e pensam por isso ter descoberto os limites da aventura

a fronteira onde os homens assumem a divindade

e acabam molhados e langorosos numa ressaca de remorsos

citadina e poluída dizendo foi tão bom e mentindo

por dentro como se mente por fora ímpios enganadores

da morte com máscaras de cartão

 

quem me dera ser tudo isto que não sou

 

VI

 

em vez disso procuro conhecer

as razões de sentir tudo íntima e analiticamente

para com este conhecimento fazer

coisa nenhuma

 

por isso a mim tudo me dói mais tudo tem a crueza de ser aquilo que é

e não haver razões nem desculpas para ser outra coisa

 

sim eu que não enjeito culpas

nem atiro às costas do destino

as causas dos meus efeitos

sei que seria mais feliz sendo estúpido

 

por isso é tão urgente fazer o elogio dos cretinos

daqueles a quem todas as coisas passam mais ao lado

ou reagem instintivamente com violência ou crueldade

e ficam limpos e nada lhes acerta com jeito de ficar

porque se estão nas tintas para todas as culturas

vivendo tão naturalmente como uma glândula

segrega os seus humores

 

VII

 

após este elogio aos estúpidos

descarreguei a minha bílis contra

esta ocasião de vida

 

sinto-me mais aliviado

um pouco mais reconciliado

quase agradecido à pequenez da memória

e à doçura das ondas contornando a praia

 

mas faço um esforço de vontade

quebro o adormecimento que me embala

e a realidade esmurra-me nas ventas

 

porque na verdade estou fundamentalmente só

porque na verdade me sinto defraudado

e a vida que eu vivo não é melhor que a dos estúpidos

e aquilo que eu sinto não justifica coisa nenhuma

e o esquecimento que procuro é igual ao de toda a gente

 

por isso num pôr-de-sol repleto de cansaços

acabo o poema deixo cair os braços

 

 

in "Urbi - poemas datados"

Edição - KDP-AMAZON

 

 

 

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publicado por Carlos Alberto Correia às 20:37

A Covid segue dentro de momentos

Domingo, 10.01.21

voto.jpg

 

 

Eu já esperava… mas não queria acreditar.

 

Via e ouvia as notícias. O número de infetados galopava, os mortos acumulavam-se, os hospitais mandavam angustiantes apelos de socorro – faltavam camas, o pessoal de saúde estava, desde à muito, em esgotamento – não se via forma de parar a epidemia e, como se podia observar, o sistema de saúde chegara ao limite das capacidades.

 

Perante isto começaram a ouvir-se as entidades responsáveis a sugerirem um novo confinamento, mais restritivo, semelhante ao de Março/Abril do ano passado.

 

Nada a obstar.

 

Parecia sensata a medida. Sabemos que um dia recolhido, sem exposição pública, mesmo estando infetados e sem sintomas, é uma derrota para o vírus que, sem possibilidades de se transmitir a outros, morrerá aos milhões.  Apesar de aborrecido com as contínuas contenções de movimentos defendia, e defendo, tais medidas profiláticas.

 

Aquilo que não entendo é a inconsistência de algumas posições tomadas pelo governo, contrariando as suas políticas gerais.  Sabiam, sabíamos, que o período pós-natal, traria um agravamento dos surtos pandémicos. Toda a gente falou nisso, foram prometidas medidas suplementares de defesa e, depois dos pregões botados, nada se fez, ficámos à espera de que o que tivesse de acontecer, acontecesse. Ora, isto sou eu a pensar, a razão porque alienamos uma parte da nossa liberdade e, para a gerir, elegemos governos, deputados, autarquias, é para que, em momentos de aperto, prevejam, adaptem, ajam. Prever, vemos prever, o resto é só conversa.

 

Gritantemente alarve é esta tentativa de, no dia 24, decretarmos a suspensão do vírus para irmos votar. Ou quem manda é inapto ou incoerente, ou se está nas tintas para o comum dos mortais. Demos  um pouco de atenção a este caso. Sabia-se, há muito tempo, que estas eleições iriam cair no mês de janeiro. Não havia bicho careta a desconhecer a enorme possibilidade de, nesse mês, a pandemia ter um crescimento exponencial. Também não seriam desconhecidas as dificuldades de resposta do sistema de saúde. Pois bem, o que seria espetável? No mínimo um planeamento rigoroso visando responder às necessidades aumentadas, precavendo meios técnicos e humanos. Falou-se muito nisso, especularam-se números, os técnicos fizeram advertências angustiadas, prometeu-se resposta adequada e deixou-se correr, continuando a garantir medidas que nunca foram tomadas. É habitual em nós. Aconteceu o mesmo com as escolas, no ano passado. Falou-se, legislou-se… está o trabalho feito. As ações reais, no terreno… não são connosco. Nós só temos de governar. Nunca param para pensar que o feito, deste modo, é só meio governo. De nada serve prever ou prevenir se, no terreno, essas decisões não tiverem continuidade e acompanhamento. Portanto, em pleno período de confinamento agravado, por a seu tempo nada ter sido feito para evitar este disparate, vamos suspender a propagação da Covid, para irmos às urnas. Estão a ver a cena?

 

Para lá aí, escrevente soturno e mal-intencionado. É verdade que é impossível adiar as eleições para mais tarde, quando a virulência do contágio for menor, os hospitais estiverem mais libertos e funcionais. A Constituição não permite! Qual Constituição? Aquela que é lida e relida de modo a proporcionar tudo quanto os mandantes pretendem fazer e ela “parece” não permitir? Além disso, dada a previsibilidade da situação não seria de esperar que fossem tomadas providências para ultrapassar este obstáculo, evitando novas possibilidades de contágio em período tão perigoso? Por inépcia, cálculos, desinteresses, negligência, preguiça, ou fosse lá porque fosse, evitou-se até falar no assunto. Quando se discursava sobre o novo confinamento e se percebia ir cair, certinho, nas eleições, aos poucos jornalistas a fazerem perguntas sobre tal situação, não se respondia, faziam-se circunlóquios e nós ficávamos a perceber que a decisão já estava tomada, que iria ser mesmo assim, que o vírus era uma chatice, mas mais chato seria fazer qualquer coisa para salvaguardar a saúde pública. Dava muito trabalho.

 

É por isso que estou furioso. Furibundo por ter adivinhado o que se iria passar, enfurecido por ter tido razão, exasperado ao pressentir o desastre criado por esta decisão, mormente em termos de aumento previsível do já demasiado grande abstencionismo. Posso apostar no seu crescimento quer por medo de contágio, por algum comodismo ou como forma de protesto contra mais esta incongruência. Não podemos visitar pais ou filhos, aguentamos com esforço, o tanto tempo de confinamento e, de repente, por milagre político, o vírus deixa de ser perigoso para exercermos o direito de voto. Apetece-me mandar todos os decisores para um sítio que a decência não permite.

 

Já estou a ver o panorama. Marcelo está, de qualquer modo eleito com elevada percentagem (só contam para isso os votos entrados nas urnas); a abstenção subirá em flecha, tal como o Corona; os apoiantes de Ventura, mais mobilizados e mobilizáveis neste momento, dar-lhe-ão uma vantagem pouco crível em situação normal e, os outros candidatos bem podem mandar os seus esforços eleitorais às urtigas.

Estamos todos de parabéns. Deste modo veremos, um dia destes, o Ventura no poder!

 

 

Publicado in “Rostos On-line”

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publicado por Carlos Alberto Correia às 18:24

A propósito das Presidenciais (ou as razões de um Bloquista)

Quarta-feira, 30.12.20

carlosebow.jpg

 

 

 

1 . Declaração de interesses

 

Sou apoiante de Marisa Matias e só, por meros incidentes pessoais não entreguei em tempo os documentos para passar de apoiante a proponente. Também não terá feito grande mossa! Antes de ter possibilidades de fazer o envio da papelada, já a candidatura estava a ser entregue. Ainda bem! Depois disto, talvez de forma incompreensível para alguns, ou mesmo muitos, decidi não votar na minha candidata. Explico porquê.

 

2 . Da democracia e das suas fragilidades

 

Como já tenho referido noutros locais e de modo vário, preocupam-me os perigosos  caminhos trilhados por algumas democracias, pela ameaça constante de uma direita trauliteira, populista, enganadora e simplista. Para não citar os casos, por demais conhecidos de Trump, Bolsonaro e de Viktor Orbán, viro-me para a prata caseira. Pela primeira vez, em qualquer intervenção citarei o nome de André Ventura. Abstenho-me frequentemente de o citar ou contrariar para, de qualquer modo evitar oferecer-lhe o que ele quer. Palco e altifalante!

 

As democracias são regimes frágeis. Durante bastante tempo parecemos ignorar esta verdade. Apareciam-nos como administrações fortes, bem consubstanciadas, até sem concorrentes credíveis no mundo. Tal segurança, pós-guerra fria e queda do muro de Berlim, apenas veio proporcionar, aos seus inimigos, maiores facilidades no trabalho de sombras com o qual foram socavando os alicerces onde se fundava. Como bem defendem em “Como morrem as democracias”, Steven Levitsky e Daniel Ziblatt, na época moderna já não são necessários golpes de estado ou revoluções. Elas morrem por dentro, minadas pelo aproveitamento oportunístico de quantos, utilizando as suas imperfeições e limitações, vão fazendo apodrecer as raízes da árvore democrática. Para não me estender muito sobre este assunto, remeto melhor explicação para os casos clássicos de Mussolini e Hitler. Nenhum chegou ao poder por revoluções (aliás, os golpes tentados por eles sempre falharam). Tomaram o poder a convite da direita, hegemónica, governante, a qual, com receio dos avanços das esquerdas, tentaram travá-las aproveitando as forças das extremas-direitas. O seu raciocínio era de uma simplicidade atroz e, como sempre foi demonstrado, falso e perigoso: Precisamos deles para termos o números de votos necessários para mantermos a governança. Nós somos maioritários, eles são apena meia dúzia de rufiões que rapidamente, conquistado o poder, meteremos na ordem. Porém tal raciocínio sempre se revelou falácia. Na realidade, o que aconteceu, foi essa minoria caceteira ter corrido com a direita clássica, através de promessas populares e slogans mobilizadores contra elites e corrupções - que nunca pensaram eliminar ou mesmo combater – levando com eles a população crédula e insatisfeita com a incapacidade, tantas vezes revelada, das democracias liberais não só não conseguirem eliminar o fosso das desigualdades sociais, como, tantas vezes, de proporcionarem o seu alargamento. O mal, efetivamente existe, a cura populista é que não é o remédio para tais males, mas sim o seu superalimento.

 

  1. Porque altero a intenção de voto

 

Se nada se modificar teremos em Janeiro, pelo menos, seis candidatos a concorrer às presidenciais. Três de direita, três de esquerda. A presidência, a não ser que “Cristo venha à Terra”, está ganha por Marcelo Rebelo de Sousa. As restantes candidaturas virão a terreno para garantir o direito à palavra e posicionarem-se, no espetro político, na grelha de partida para as próximas eleições. Parece-me correto e um direito de cada um deles. Portanto, por isto, nada a contestar e ficaria muito tranquilo, guardando o voto para a minha candidata do coração, não fora, nos Açores, o PSD, na ânsia de conquistar o poder ter aberto as portas do inferno. Ao aliar-se com o Chega para derrubar os socialistas, e ao abrir hipóteses de repetir o jogo no continente, está a criar as condições para a subversão do nosso regime democrático. Volto a relembrar os casos italianos e alemães…

 

Assim, perante jogo tão leviano e perigoso restam-me duas posições para o contrariar, na medida das minhas forças e possibilidades. Ou a esquerda, aproveitando embora, individualmente, o tempo de campanha, se une ao redor de um candidato com melhores possibilidades de obter votação expressiva, ou, tendo em conta que o mais relevante será distanciar o/a candidata de esquerda do da extrema-direita, terei de, pessoalmente, tomar a decisão de votar eu, naquele que estiver nessa situação.

 

Até ao momento e nada me diz que venhamos a assistir a alteração de monta, esse lugar é ocupado por Ana Gomes. Que me desculpe Marisa, mas, pelas razões aduzidas, o meu voto não poderá ser para ela.

 

 

Publicado in "Rostos On Line"

 

 

 

 

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publicado por Carlos Alberto Correia às 20:17

Sobre o direito ao posicionamento próprio

Quarta-feira, 28.10.20

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Andava muito tranquilo, algo distanciado de políticas partidárias – que não da Política da qual não me demito – quando sou confrontado com o discurso violento, destrutivo, do PS contra o Bloco de Esquerda, fundamentando-se sobretudo em duas acusações: - desertou da Esquerda, vai votar ao lado da Direita - por este ter decidido votar, na generalidade, contra o Orçamento para 2021,

 

Não sou tão ingénuo que espere dos partidos políticos qualquer análise racional sobre o comportamento dos outros partidos. A racionalidade é pesada, a emoção, mesmo que desvirtue a realidade, vende melhor as propostas partidárias. Peço que, antes de rebentarem em desaforos impensados, tenham a bondade de reparar que falei “nos partidos” não tendo excluído nenhum. Estes, tal como as nações não têm amigos, têm interesses e aliados. Os partidos regem-se por programas e vontades de eleitores. A esses têm de responder.

 

Postos estes prolegómenos entremos no âmago da questão.

 

Fui, desde o princípio, apoiante do Governo do PS, com o apoio da Esquerda. É meu desejo que tal continue a ser possível por muito tempo, no entanto, não desejo, nem espero, que essa unidade seja feita a qualquer preço. Mais, aguardo que, com respeito e interesses mútuos, se fortaleçam laços, se procurem caminhos comuns. Tais opções, como é evidente, supõem cedências mútuas tendo em vista os propósitos dos partidos e as conjunturas sociais.

 

Assim, após a lua de mel na “Geringonça”, com o início do Governo atual, sentiu-se que as posições, sobretudo do primeiro ministro, começaram a ser, no mínimo, pouco simpáticas para o Bloco. Era como se dissesse, fizemos um bom trabalho, mas agora, ganhei as eleições, nada tenho a negociar convosco, passem muito bem, vão à vossa vida. Perfeito! Nada a obstar. Apenas este discurso pressupunha uma coisa que não aconteceu. O PS não obtivera maioria absoluta. No entanto, comportava-se como se a tivesse tido. Recusou a renovação dos acordos à Esquerda, decidindo-se por um sistema de navegação à vista e de alianças deslizantes. Tudo bem, estava no seu direito. Talvez até conseguisse levar o barco a bom porto, não fora o inesperado da pandemia lhe ter desabado em cima. Sem rebuços aceito que, perante a gravidade do caso, o Governo se esforçou para fazer frente ao perigo e, pese embora cada um pensar que poderia ter feito mais ou melhor, desempenhou as suas funções com capacidade e sensibilidade bastantes. Afirmo mesmo que seria um pesadelo esta situação com o Governo anterior.

 

No entanto, voltemos à vaca fria, o PS, o Governo, confrontados com a enormidade da tarefa, iniciaram uma mudança de discurso, um jogo de sedução à esquerda, bem nítido com o PCP, balançante com o Bloco. As questões trazidas pela Covid-19 obrigaram a um orçamento retificativo no qual, o Bloco apoiou o Governo.

 

Para o orçamento de 2021 as conversações foram longas e quanto me apercebi difíceis. Tão difíceis que não foi possível o acordo, pelo Governo requerido ao Bloco e este, considerando serem insuficientes as medidas que considera como inultrapassáveis, decidiu votar contra o Orçamento, na especialidade. Que crime cometeu o Bloco, ao proclamar esta posição, explicando divergências de fundo com opções que reputava intransponíveis nesse documento? Negociaram, discutiram, não houve acordo. Se o Governo têm o direito de dizer não, porque quer recusar o mesmo ao Bloco? Será que pensa ser este Partido de tal menoridade que não poderá ter como vontade e expressão senão aquilo que o PS, ou o Governo, quiserem  permitir? Será esta decisão de não alinhar em algo com que se não concorda alguma Heresia?

Se não é – e não é mesmo – tal não parece ao ouvir os discursos inflamados, durante a discussão do OE, nestes dois dias de debate na Assembleia da República. O PS, que tem votado tantas vezes, mesmo nesta legislatura, ao lado da Direita, esqueceu-se disso e veio reprovar moralmente o facto de o Bloco votar contra, ombreando com a Direita, ficando, para todo o sempre, na fotografia com ela. Senhores! Será que o Governo já mandou queimar o álbum onde está de pé, contra a Esquerda, a votar ao lado da Direita?

 

Outra acusação é de “ter desertado da esquerda”. Fico estupefacto! Querer mais condições para o Serviço Nacional de Saúde; garantir o mínimo de dignidade a desempregados e precários, bem como a possibilidade de poderem superar os perigos que a pandemia acrescenta a quem tem falta de meios; retirar do pescoço de quem trabalha o cutelo das leis antiemprego da Troika , é desertar da Esquerda ou manter a coerência perante as promessas feitas, não só pelo Bloco, mas pela “ideia” da “Geringonça”?

 

Haja decência senhores! Deixem a demagogia culpabilizante de lado. Aproveitem este período até à votação na especialidade e sejam de “esquerda” nos atos, não só nas imerecidas palavras e pérfidas intenções trazidas aos ouvidos das gentes, sobretudo neste dois últimos dias. Não se pode afirmar: há sempre alternativas, e pensar, mas só a minha é válida!

 

Publicado in Rostos on line

 

 

 

 

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publicado por Carlos Alberto Correia às 21:32

Está proibido o Covid nas Escolas

Sexta-feira, 11.09.20

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Estou tranquilo. O Ministério da Educação deve ter feito sair um Decreto que proíbe, definitivamente, o Covid de entrar nas escolas.

 

É isso que depreendo, após os anúncios de extensão do estado de contingência a todo o país, da proibição de ajuntamentos de mais de dez pessoas, do máximo de quatro clientes em pastelarias, cafés ou restaurantes, nas proximidades das escolas.

 

Também me agrada, sobremaneira, a decisão de expurgar os professores do teletrabalho, embora se pense em reativar e alargar ao ensino secundário a tele-escola. Sou, como todos sabem a favor das discriminações e acho bem que todas as classes profissionais possam ter acesso ao teletrabalho e os calões dos professores, de grupos de risco, se quiserem tomar precauções – para eles, no pensamento(?) do Ministério verdadeiramente excessivas – deem faltas, metam baixa, percam remuneração. Está correto! Como todos sabemos trabalham pouco e ganham bem.

 

Depois do trabalho insano do Governo em reduzir o número de alunos por turma, para cumprir o estatuído sobre distanciação pela Direção-Geral de Saúde; do aumento exponencial de pessoal auxiliar para fazer frente ao acréscimo de trabalho trazido pelas necessárias e contínuas higienizações; dos milhares de testes prévios feitos a alunos, professores e restantes funcionários, é muito má vontade dos docentes pretenderem defender a sua saúde,  as suas vidas e de familiares. Quem se julgam eles?

 

Apesar do número de infetados estar a aumentar diariamente, de sabermos que muitas escolas ou partes delas irão encerrar nos próximos tempos para contenção epidémica, devemos estar tranquilos. O Ministério, ao arrepio das normas que diz recomendar, fará nelas absolutamente o contrário, na certeza de que, as precauções definidas para todo o país, serão ali desnecessárias, quer por as escolas serem, por sua natureza imunes a tais minudências, quer porque o Ministério, como disse no princípio já fez certamente sair o decreto a proibir o Covid de lá entrar. Se algum aluno aparecer contaminado terá sido seguramente por não ter tomado as devidas precauções em casa, no café, nos transportes ou porque, vá-se lá saber porquê, fugindo â regre de distanciamento nos recreios, de forma inesperada o quebraram para cumprimentar amigos ou respirar um pouco melhor, sem o cheiro a desinfetante da máscara.

Sejamos sérios. A epidemia está a crescer. As escolas não foram preparadas para esta situação excecional; o Ministério, cujo ministro é uma constante ausência, confia desabaladamente em Nossa Senhora de Fátima para proteger as inocentes criancinhas. Ao contrário do que poderão pensar, julgo necessário o retorno a aulas presenciais. No entanto, volto a cingir-me às diretivas governamentais e da DGS, não me parece que tais medidas tenham sido, ou venham, a ser implementadas nas escolas. Numa espécie de tudo ao molho e fé em Deus, mandam-se os alunos, professores e restante pessoal para a fogueira e logo se vê no que dará.

 

Depois, se tudo correr mal, como é muito possível, tomaremos as medidas adequadas, culparemos as direções, lamentaremos profundamente as vítimas e estaremos livres duma série de professores envelhecidos e doente a preços módicos. Além disso, nesta altura, mesmo que diminuíssemos o número de infetados já não vinha a tempo de salvar o Turismo.

 

 

Publicado in “Rostos On Line”

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publicado por Carlos Alberto Correia às 17:56

Sobre a Festa do Avante

Quinta-feira, 03.09.20

 

 

 

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Para que não haja dúvidas informo os putativos leitores de que não sou parte diretamente interessada neste “caso”. Fui a todas as festas até à mudança para o recinto onde hoje decorrem. Desde aí nunca mais as frequentei. Não tentem encontrar nisto algo de ideológico ou de repúdio pela Festa. Ela foi um dos mais valiosos eventos culturais do País durante muito tempo. Depois, com a proliferação de festivais e concertos terá perdido um pouco esses louros, mas continuou a ser muito importante, como acontecimento cultural, e não apenas para os comunistas. A razão para deixar de participar tem apenas a ver com o pouco gosto que tenho pela condução e porque, no primeiro ano de Atalaia me vi metido em engarrafamentos monstruosos e na dificuldade de estacionamento. Assim, por este desgosto, por preguiça, por substituição e pela recordação do difícil trânsito, desabituei-me e nunca mais fui.

 

Desculpem-me esta longa justificação, porém ela é importante para me situarem na posição que tomo.

 

Primeiro o PCP tem toda a legitimidade para fazer a sua Festa. Terá, contudo , de limitá-la às prescrições da Direção Geral de Saúde, as quais parece está a acatar.

 

Segundo discute-se a sensatez de se a deveria fazer neste momento de Covid-19.

 

A discussão é justa, faz sentido e, teremos de considerar que o perigo de ali nascer qualquer surto é real. No entanto, também o é nas praias, nos transportes, nos restaurantes e no trabalho, assim como em inúmeros locais por onde transitamos e que seria fastidioso enumerar.

 

Por quê então tanto ruído. Se pensarmos que muitos dos que se revoltam contra a efetivação destas festas são aqueles que defendem a assistência a futebóis, touradas e outros eventos, bem como da revolta contra a prescrição do uso de máscaras, ficamos desconfiados que tudo isto resulta  apenas por ser o PCP a realizá-la. E aí somos transportados para a desconfiança de que razões obscuras (ou nem por isso), diferentes das sanitárias apresentadas, estarão por detrás desses clamores.

 

O Covid veio para ficar. Enquanto vacinas e medicamentos atuantes não sejam produzidos e distribuídos, teremos, em qualquer passo da vida, mesmo em nossa casa, de conviver com o risco. Sabem, a vida é tão perigosa que até conduz à morte. É  e será sempre uma questão de cálculo entre o risco a correr e o benefício a usufruir. Isso é coisa que dependerá do juízo de cada um.

 

Na minha opinião – e nada vale além disso – teria havido sensatez se o PCP se tivesse decidido por qualquer outra forma de festividade e participação. No entanto tal é decisão que só às suas estruturas cabe tomar. Por elas terá o prémio ou castigo que o povo considerar merecerem. O PCP tem toda a legitimidade de levar a sua festa Avante! As pessoas têm o direito de ir ou não ir, assim como podem continuar a viver ou, por medo, enterrarem-se em casa cortando todos os laços sociais, porque hoje, até respirar é perigoso.

 

 

 

 

 

 

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publicado por Carlos Alberto Correia às 18:16

setembros II

Terça-feira, 01.09.20

 

 

 

I

 

aguardo agora a passagem da paz sobre o colibri do tempo

tumultuosos de imensidão doem-me os espaços

 

aqui te espero e me perfaço

 

alguém me disse

a hora de partir é um inverso sorriso

dolorido no momento

em que prantos mordem por dentro das vozes

tal um substantivo estala lentamente no real dos dentes

e adormece recalcando a luz e o olhar

 

aguardo calmo o tempo

de parar

 

II

 

estudas vagamente o lento traçar das pernas

espontâneas as coxas sobrenadam

recolhidas nas memórias

 

resides nessa messe subtil e recortas o recôndito do sexo

pleno exercício de perfeccionismo

quando te dás e és meiga generosa e pensativa

 

encontro-te por vezes no todo onde resisto

lugar de movimentos e recusas

procura imediata de tudo quanto é novo

inocente e pleno e montado na loucura das palavras

setembro avança e as notícias vagamente vão chegando

 

III

 

há quanto tempo espero o teu sinal

égua de vento carrossel de chuva

e preparo as imagens que se perdem nos amados setembros

entre as muitas águas da realidade

 

dizes-me

em setembro meu amor iremos aos campos

onde as borboletas se amaram com doçura e se extinguiram

pequeno fogo que ilude as madrugadas e o céu é pasto

de mansas estrelas iniciais

pedes-me mudamente que te espere

contas histórias incompletas e heroicas

produzindo os alicerces da minha catedral

 

porque me falas de setembro

se todas as sombras estão paradas

e desmoronadas pelas frinchas da tristeza

as paredes escurecem em prematuros invernos

vesperais

 

que nada tivesses dito por setembro

e me fosses interdita meu amor

nem teimasses em parecer possível

ó irrealizável alvorada de azul transparente e completa

tonta gazela que te esvais nos moinhos das palavras

quando desapaixonada comentas

 

em setembro lembro-me da morte

 

e fechas os olhos contra a almofada

e calas o medo das tardes

por enquanto doces e doiradas

e do vento fresco nos ocasos

pensados em abismos sobre os olhos

melancólicos e trágicos de nuvens

plantadas à porta dos sorrisos

 

 

IV

 

em setembro longe das promessas por fazer

ou dos sonhos por cortar

construí esta história nas asas dos ventos minerais

 

em setembro não vieste o sonho desfazia

em setembro entre raivas e esperanças

o tempo por demais se consumia

 

carlos alberto correia, "penélope e outras esperas", ANES, Lisboa, 1982

 

 

 

 

 

 

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publicado por Carlos Alberto Correia às 00:38