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O problema é deles?

Sexta-feira, 11.04.14

 

Palavra de honra que não queria acreditar naquilo que os meus ouvidos escutavam. De repente senti-me projetado para um mau filme de ficção científica daqueles em que, após o cataclismo, a terra fica nas mãos de um grupo a viver na opulência enquanto, fora dos muros protetores, o que resta do mundo quase extinto, a maior parte dos seres humanos, vive uma sub-vida. Claro que nesses filmes, no final, tudo se compõe com a destruição dos opressores e a reposição de um governo popular, aberto, democrático.

 

Também que poderia eu pensar de diferente ao ver e ouvir - a mais nova e bem paga reformada do País, ainda por cima com duplo emprego numa terra onde os desempregados e emigrantes arriscam a ser, em pouco tempo, mais que os empregados com algum emprego minimamente decente – dizer de forma despudorada, boca aberta em riso alarve, ar de esplêndida autossatisfação, que se o que resta dos militares que fizeram o 25 de Abril não comparecessem à cerimónia oficial das comemorações, por não lhe ser concedida a palavra naquela que devia ser a Casa do Povo e da Liberdade que eles conquistaram, “o problema era deles”.

 

Para além da raiva e do nojo sentidos por aquela personagem ridícula, pequenina (não me refiro ao tamanho físico), aquela mini-lagarde acintosa, ébria de um poder para o qual não estava obviamente preparada e que ao subir-lhe à cabeça nos faz pensar no velho ditado “se queres conhecer o vilão, mete-lhe a vara na mão”, estarreceu-me a comprovada ingratidão de quem, mais que a maioria, beneficiou do risco e do esforço daqueles que lhe deram a possibilidade das benesses que usufrui e entre elas, não menor, o direito à palavra que agora lhes nega. Seria ingratidão se não fosse, ao assim proceder, deixar claro como os oportunistas e os saudosos do fascismo, aproveitando a distração das gentes – sabiamente ministrada e inculcada por uma comunicação social subserviente aos poderes e pelos ventos europeus – montados no veículo de um suposto neoliberalismo, não procurassem destruir o legado de liberdade dos capitães e soltar novamente a fera fascista, inundando-nos com a sua baba fedorenta, obrigados que foram a esconde-la durante quarenta anos.

 

Estamos pois perante o corolário de uma vingança, arquitetada no decorrer dos anos na cave escura de imundície que são os espíritos impudicos, canalhas, hipócritas, de uma gente a quem nós, impudentemente, deixámos ir conquistando os lugares de poder. Culpa nossa, assumo! Não se pode conviver com víboras, sabíamo-lo e no entanto aninhámo-las no nosso seio, não as privámos do veneno quando lhe vimos surgir os dentes, até, por vezes, achámos alguma graça e agora sofremos, incrédulos, o efeito da peçonha. Sabíamos que isto podia acontecer, fomos descuidados e ingénuos. Eles, sentindo-se agora com força, desmascaram-se, mostram o jogo. Talvez estejam confiantes em demasia. Talvez desconheçam que o local mais calmo do mundo é um paiol de pólvora um segundo antes de rebentar. Talvez não se lembrem da segurança de Maria Antonieta antes da Revolução. Sei lá, pensam certamente muito segura a sua posição. Esqueceram-se da história e de como, os excessos de poder conduzirão, necessariamente, a fins alternativos. Tal como a Economia.

 

No entanto, se a desbragada conversa da senhora, a falta de chá na forma como respondeu aos repórteres, o sentido de vingança contra a Liberdade a transparecer na posição corporal, na quase fuga após ter dado a dentada traiçoeira, nos faz olhar para aquele ser com uma espécie de náusea, não é ela a única culpada. Foi apenas a porta-voz de uma casa onde a maioria quer celebrar um aniversário afastando o aniversariante. É o reino da representação, da mentira, do diz que faz para fazer o contrário, do pequeno artificio palerma de quem pensa os outros destituídos mentais. É o sintoma do desprezo que aqueles eleitos do Povo sentem por quem os elegeu. Hoje a Assembleia da República tenta imitar a assembleia nacional dos idos, pensava eu, tempos dos fascistas. É uma infâmia e um desgosto.

 

Por isso pergunto aos partidos que têm vergonha na cara, que defendem os ideais de abril, se irão estar presentes neste simulacro ofensivo de celebração das liberdades? Melhor fora que não. Que num gesto de orgulhosa honra e defesa da democracia aceitassem a rotura, se recusassem a semelhante jogo. Saiam da Assembleia, não participem no espetáculo apenas montado para dar às gentes uma ilusão da liberdade. Não se tornem cúmplices deste vexame. Um povo com fome, física e de justiça, não é livre. Um povo sem trabalho e cada vez com menos direitos não é livre. Um povo tiranizado pela dívida não é livre. Um povo com tais dirigentes não é livre. Um povo que aceita a afronta sem reagir não é livre. Um povo que permite que os parteiros da liberdade sejam galhofeiramente amordaçados não é livre. Um povo que continue, passivamente, a deixar que tudo isto aconteça não merece a Liberdade. Não senhora presidente da assembleia da república, o problema não é deles, é de todos nós e tenho muitas esperanças de que brevemente possa ser, sobretudo, vosso.

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publicado por Carlos Alberto Correia às 19:55








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