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O milagre económico

Terça-feira, 18.02.14

 

 

 

 

Descíamos o Chiado na hora em que o sábado se torna domingo, por entre a multidão de jovens e menos jovens, espalhados até á Rua Garrett, em demanda do Bairro Alto quando, do meio da turba, vindos de vasculhar um caixotão de lixo, frente a uma padaria, um casal de idosos me chamou a atenção. Enrugados de pele, roupas enxovalhadas deixando ainda transparecer alguns vestígios de outros tempos de melhor vida e menos humilhação, transportava, cada um deles, um atado de cartões, de que iriam fazer cama e teto, para essa noite, em qualquer local minimamente abrigado.

 

O contraste entre a turba agitada na procura do atordoamento e o passar silencioso, quase no limite da percetibilidade daquele casal, foi grito rutilante a cravar-se no coração da realidade. Fugiu-me a imaginação para os mais de oitenta anos que ambos teriam. Certamente tiveram emprego, possivelmente filhos, votaram, expenderam opiniões, ajudaram, fosse no que fosse, a construir a sociedade que agora, de tão despudorado modo, os relega para o pé de página da história. A pergunta que me surgiu de rompante foi a de como, quarenta anos após a madrugada de esperança, chegámos a isto? Veio-me à memória o tempo, ainda jovem, em que a revolta me assaltava ao ver, na soleira da porta de uma loja de luxo na Baixa, uma mulher muito velha, estendendo cartões semelhantes, num dia de forte chuva, sobre o lajedo molhados pelos pés dos transeuntes.

 

A velha agonia voltou a tomar conta de mim. Retrocedemos tanto. Não perdemos apenas bens, poder de compra. A regressão é maior, mais essencial. Em nome de interesses espúrios vamos sendo empurrados para uma perda de direitos capitais. Recordo-me de mestre Aquilino a perguntar: Quantos pobres são necessários para fazer um rico? Assalta-me a memória o aumento inusitado, no ano transato, de milionários em Portugal. Alguém aqui está interessado em transformar a nossa gente em miseráveis que vendam a força de trabalho por uma sopa aguada e um pedaço de pão. E nós não fazemos nada? Encolhemo-nos na “apagada e vil tristeza”?

 

Entenebreceu-se-me a noite até aí interessante, leve, alçada para lá do quotidiano. Bati com o corpo no chão mais duro. Os passos doíam-me ao encaminhar-me para o barco. Azar! Por cinco minutos perdi-o. Agora vou ter de esperar uma hora pelo próximo. Paciência! Que posso fazer? Resignado pus os auscultadores no ouvido. No noticiário, a voz do ministro da economia, ofensiva, vomitativa, informava-nos de que o país estava em pleno “milagre económico”. Agoniado desliguei o rádio e, por todo o tempo de espera, tentei não pensar em bombas nem em corpos dependurados dos candeeiros por uma população ofendida, famélica, sem ponta de esperança no mais distante horizonte.

 

 

Publicado in, “Rostos on-line”

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publicado por Carlos Alberto Correia às 15:26








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