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A respeito das reformas

Domingo, 26.03.17

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Confesso o meu “despeito a (des) respeito” das propostas apresentadas pelo Ministro do Trabalho. Ingenuidade? Talvez! No entanto aguardava documento mais humano, considerando a vida concreta dos portugueses.

Para obviar a intenções retilíneas informo que me encontro reformado desde 2007, com a totalidade de 43 anos de trabalho, dos quais três ou quatro são de serviço militar. Desde o seu início ficou “congelada”, com exceção dos cortes e reposições aplicados a qualquer português. Foi uma reforma bem ganha e o Estado não faz mais que a sua obrigação ao pagar-me com pontualidade, devendo ainda, o que não cumpre, atualizá-la anualmente, no mínimo, pelo nível da inflação. Durante todo esse tempo descontei e raramente, apesar de em quase toda a duração me chamarem beneficiário (pura ironia), pouco ou nada recebi em troca. Mesmo a assistência médica era tão precária que sempre me vi confrontado com a necessidade de consultar médicos e hospitais particulares, pagos do meu bolso. Por isso, pelo direito que me cabe, estamos conversados.

Voltemos, portanto ao despeito. Ao ouvir as propostas senti-me injuriado. Estavam certamente - através das esperanças suscitadas e ora negadas a outros com longas carreiras contributivas - a gozar connosco. Então alguém que tivesse 48 anos de desconto (ou inscrição) poderia reformar-se antecipadamente (?), sem penalizações, desde que tivesse mais de sessenta anos? Máquina na mão subtrai-o 48 de 60! Vejo com espanto que esse alguém teria de ter começado a trabalhar aos 12 anos de idade. Tendo em conta o espírito da época (estaríamos em 1969) não espanta que muita gente, com essa idade e com menos, já trabalhasse no duro. O que me deixa boquiaberto – aqui o ingénuo será o governante ou então é mal-intencionado – é que, o senhor ministro e assessores, se tenham esquecido do facto comezinho de que talvez nenhum desses trabalhadores estaria inscrito na “Caixa”. Basta ler algo sobre esse tempo para se saber que a fuga à inscrição era enorme e mesmo, em muitos casos, nem sequer era obrigatória. Estou errado, senhor ministro?

Que me seja perdoada a inanidade de insistir em algo que deverá ser, para espíritos neoliberais, atentatório ao eterno direito à servidão das massas populares. Então, independentemente da idade tida, qualquer cidadão que tenha dado à comunidade quarenta anos de vida de trabalho, não será merecedor do reconhecimento do seu esforço? Não lhe deverá ser reconhecido o direto e lídimo direito à reforma? Estarão a fazer-lhe algum favor? Ah! Já sei, a regra da extensão da vida humana. Pois, é! Se considerarmos os nossos tempos, qualquer jovem, e beneficio muito as contas, só começará a ter trabalho e descontos lá para os 27 anos (não disse que favorecia?). Assim só completará 40 anos de trabalho quando perfizer sessenta e sete anos, isto é, mais alguns meses da idade necessária para se reformar nesta altura. Tendo em conta o índice de esperança de vida e seguindo a lógica de contínua progressão da idade de reforma, sem exageros, esse pretérito jovem terá a possibilidade de se reformar… quando estiver morto! Vá lá, sei que estou a exagerar, mas é tão-somente para tornar visível a hipocrisia do sistema. Para não ser chato nem sequer vou referir as momentosas questões das reformas por incapacidade ou a cegueira de juntas médicas, a mandar apresentar ao serviço gente em tratamentos violentos e desgastantes, incluindo terapias anticancerígenas em estado avançado, como, bastantes vezes, os noticiários televisivos nos mostram.

Quero apenas a terminar, esclarecendo ter sido substancialmente informado de o dito documento ser tão-somente uma base de trabalho, demonstrar a minha desconfiança. Já estou queimado e, como se dizia na minha terra, pelo andar da carruagem se vê quem lá vai dentro.

Por tanto, não só estou completamente contra o formulado no documento apresentado como, por experiência adquirida, não espero substanciais melhorias em sede de (des)concertação social, nem, Sua Excelência me desculpe, acredito na boa vontade deste ministro.

Resta-me a esperança de ver o meu partido (BE) não o subscrever quando passar pela Assembleia da República. Assim o espero e assim o quero!

 

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publicado por Carlos Alberto Correia às 11:49








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