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A banalidade do mal

Quarta-feira, 25.05.16

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Este texto foi produzido, no âmbito dos colóquios/ação de formação “Conhecer a guerra, defender a paz”, e foi apresentado no dia 23 de maio, na Biblioteca da Escola Secundária dos Casquilhos, no decurso de uma apresentação do romance “Concerto para Sanca João”, de minha autoria. Considerando o debate gerado e a atualidade do tema, pareceu-me bem dar-lhe maior divulgação. Oxalá tenha razão

 

 

 

Num dado passo deste romance, o sargento Elias, veterano de quatro comissões nos três teatros da Guerra Colonial, onde vai contabilizando metros quadrados da quinta a haver para a reforma, alapado na secretaria do serviços de informações militares, em Cacondo, diz para o protagonista, Urbano da Consolação, que o estado normal da humanidade é a guerra. A paz será apenas um breve interlúdio entre duas guerras. Seria pois o conflito um estado de coisas banal.

 

Esta afirmação remete-me para Hannah Arendt e para o seu tão controverso conceito sobre a banalidade do mal.

 

Ao assistir ao julgamento de Eichemann, em Jerusalém, o que mais a admirou foi que aquele homem meio insignificante, aquela mentalidade burocrática, tivesse sido o executor logístico do brutal assassínio de muitos milhões de seres humanos. Percebeu então que o mal absoluto pode não estar representado num ser diabólico, mas sim num homem comum, escudado numa hierarquia, defendido pela necessidade de não pensar, executando acriticamente tudo quanto ao grupo a que pertence pareça necessário.

 

Se a discussão sobre este conceito da banalidade do mal, da desculpabilização do indivíduo através do ordenamento social foi vivo e ainda se mantém, observemos como ele ganha espaço no nosso mundo.

 

Vejamos o caso de um oficial, por exemplo americano, e poderá ser europeu ou de qualquer outro continente, a viver numa pequena vivenda ajardinada nos subúrbios de uma grande cidade. Pela manhã, após tomar o pequeno-almoço com a família, leva o filho à escola e dirige-se para o quartel. Lá chegado poisa a pasta por debaixo da bancada da consola do “joy stick”, abre o dossier impecável deixado no seu posto de trabalho por algum outro militar, lê as coordenadas, introdu-las no computador e, algures no mundo, um drone levanta voo e vai lançar um míssil sobre uma viatura, uma casa, um bairro, por vezes uma escola ou um hospital. Repetirá, nesse dia, tal operação quantas vezes for necessário. Terminado o horário de trabalho, vai buscar o filho à escola, janta com a família e, possivelmente, antes de deitar, jogará uma hora com o filho, na consola que lhe ofereceram pelo natal, um qualquer jogo de guerra virtual. Será, certamente, um bom pai, um bom militar, um cidadão cumpridor, provavelmente muito preocupado não só com os direitos humanos, também com os dos animais.

 

É um ser monstruoso? É um homem banal?

 

Segundo Hannah Arendt é apenas um homem vulgar que não pensa, ou se recusa a pensar sobre as origens, motivos e consequências do seu trabalho. Tal como ao carrasco a quem não interessa quem e porque executa, bastando-lhe apenas receber o condenado e a ordem de uma fonte com poder e legitimidade para tal, nunca se interrogando sobre a bondade de tal legitimidade. Cumpre as ordens com o maior zelo e eficiência possível, aproveitando-se de toda a panóplia de artefactos e distrações para afastar de si o pesado encargo de pensar, isto é, de correr o risco de uma valoração moral das suas ações.

A este respeito, introduzo, a leitura de um poema, publicado em “Silêncio Mordido”, um livrinho que publiquei em 1974.

 

pensar em não pensar

 

uma hora de lazer

sem nada para fazer

é um caso sério

 

                        obriga-me a pensar

 

e pensar é tão perigoso

como matar um ministro

ou ser anarquista

 

                        é ultrapassar

                        a forma prevista

de me comportar

 

o melhor é pensar em não pensar

 

 

 

 

 

Posto esquematicamente o problema de culpabilidades e maldades, passemos um rápido olhar sobre o que é essa coisa da guerra.

 

Inicialmente a batalha era, mesmo quando havia choque de massas humanas, um duelo a dois, multiplicado quase ao infinito. Dois antagonistas defrontavam-se, no meio da confusão da luta. Por maior força, motivação, coragem ou sorte, um eliminava o outro e passava de imediato a outra refrega. Até à exaustão ou abandono de uma das partes. Cada um por si sabia quem e quantos ferira ou matara e essa seria a sua glória, reforçando o seu estatuto no grupo. Com a capacidade acrescentada de matar mais longe, foi-se diluindo a pessoalização do combate e as mortes transformadas em acontecimentos longínquos, anónimos. O artilheiro, a quilómetros do inimigo, não sabe o que, quem ou quantos destruiu. O piloto, quando a bomba rebenta, já está a grande distância do lugar onde a explosão ocorreu e se viu algo, foi um vislumbre de um conjunto de casas ou uma coluna de veículos. Por outro lado, a capacidade de matar massivamente, sobretudo a partir da segunda grande guerra, mudou estruturalmente os objetivos a atingir. Sumariamente diremos que até aí a luta era entre exércitos. A população seria, quando muito, um dano colateral. Mas na idade moderna, destruir casas, cidades e instalações produtivas, matar as populações civis, para desmoralizar os combatentes, passou a ser o objetivo primordial. Recordemo-nos dos bombardeamentos massivos a Londres e Berlim, ou das bombas atómicas lançadas sobre Hiroxima e Nagasáqui.

 

Isto são, no entanto, as guerras de grande intensidade. Pelos seus custos vêm-se evitando, através do equilíbrio do terror. No entanto a máquina de produção de armamentos tem de continuar a laborar. Por isso, mesmo no tempo que chamamos de paz, rebentam escaramuças um pouco por todo o lado, em que os grandes contendores ganham duplamente numa só cartada. Escoam as armas obsoletas e conquistam vantagens no terreno geoestratégico.

 

Outra coisa são as guerras de libertação, o formato de guerrilhas, travadas a partir dos anos 60 em grande parte do mundo. Vietname e Colónias são as que mais marcaram a minha geração. Numa primeira fase a luta é de baixa intensidade. Grupos de guerrilha atacam esporadicamente, aqui e além, obrigando o ocupante a disponibilizar forças volumosas para controlar o território. Se a fase de guerrilha for insuficiente para obrigar o ocupante a desistir do seu domínio, passar-se-á para uma segunda fase de guerra clássica com domínio variável do território. Foi isto que se passou, um pouco por todo o lado, em África, até à conquista das independências.

 

No entanto, voltando a Hannah Arendt e à recusa de pensar, o aparelhamento ideológico e distrator do ocupante tem um tempo limitado de duração. As motivações apregoadas vão esbarrando na realidade no terreno e, o temido ato de pensar, começará a infiltrar-se por várias fendas, ganhando consistência, acabando por tornar-se numa recusa civil – caso da América em relação ao Vietname - ou militar como no caso português que veio a desembocar no 25 de Abril.

 

O protagonista deste romance “Concerto para Sanca João” passa por esse processo. Criado e educado num ambiente pró regime vai defender a pátria para a Guiné. O choque do real vai-lhe mudando as perspetivas, até o tornar no seu contrário. Apreende uma realidade diferente daquela que lhe tinham contado e sobre a qual fundara a vida. Procura caminhos e segue os seus trilhos convicto de ser aquela a via certa para si, mas não incorrendo já no erro de pensar ser a única possível, mas tão-somente aquela que, a ele, pareceu mais acertada. Porque pensa aprende a relativizar, porque descobre impõe-se-lhe a ação. Portanto, Urbano da Consolação, o protagonista, não é só ele, o personagem que se conta, é também o outro, os outros que formaram o seu tempo e que, pelos caminhos próprios, forjaram os nossos dias com tudo o que de bom e mau contêm.

 

Terminarei com um outro poema, do livro já referido, pondo em equação que “pensar” pode começar assim:

 

cupelon

 

sobre a Guiné havia brumas

de histórias sem regresso

 

na noite

em calmosas mentiras

dormiam pântanos    incêndios

e dois homens mortos

em casa do grotesco

 

Bissau    quase um pouco de nada

um corpo mulato a vários níveis de crédito

convidado para o grande réveillon do fim da vida

 

hospital militar 241 nos braços dos helicópteros

ou a surpresa de morrer em cada manhã

 

um batido de política e desportos

na arquitetura dum sorriso e perfume

para depois das cinco e meia com revistas

e pi-ups e frases que colo no cérebro

 

máquinas de fazer milagres precisam-se

ou a Cristina vai ficar sem namorado

 

 

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publicado por Carlos Alberto Correia às 18:14








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