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O senhor Subir Lall

Quarta-feira, 29.06.16

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O senhor Subir Lall está a descer. Quis subir muito. Funcionário de organização financeira pensou (certamente ainda pensa) que o facto de fazer parte de um dos organismos implicados no empréstimo a Portugal (o qual está a ser principescamente pago em juros) lhe dá o direito de decidir o que o País poderá/deverá fazer.

 

Por isso, nesta visita periódica de acompanhamento, não se coibiu de, contra o decidido nos órgãos nacionais legítimos, mandar para o ar recados autoritários e austeritários, tais como: baixem o salário mínimo; reduzam mais o funcionalismo público; fora com as 35 horas e aumentem a idade de reforma, deixando implícito, ao mesmo tempo, a respetiva redução dos valores.

 

O senhor Subir Lall é um ponto. De exclamação! Não me recordo de ter votado nele para qualquer cargo político, permitindo-lhe ter voz na condução da vida nacional. Não lhe reconheço, portanto, autoridade para se sobrepor às instituições portuguesas, nem consigo perceber de onde, ao empregado do FMI, vem o poder de se julgar mandatado para mandar nas decisões tomadas por aqueles que nós, para tal, mandatámos.

 

Provavelmente o senhor Subir Lall ainda não se apercebeu que o Governo de Portugal mudou, que já não é o grupo subserviente e agradecido o que agora decide, nem que o NHA (não há alternativa) que tão prestamente voltou a enunciar, por aqui já deu o que tinha a dar e foi substituído pelo muito mais democrático HSA (há sempre alternativa).

 

Parece pois que o senhor Subir Lall não se atualizou, está fora do tempo. Na minha opinião também está fora do espaço. Não é este o lugar onde deva estar, nem as suas atitudes são minimamente aceitáveis. Talvez o Sol e o calor lhe tenham perturbado o raciocínio, talvez só saiba pensar, como burocrata que é, em contas e deve/haver. Talvez não consiga perceber o que é a soberania nacional, se calhar desconhece termos instituições credíveis e se admire por não vivermos em cubatas nem fazermos danças propiciatórias quando ele, que se julga o Grande Senhor, não passa de um vulgar senhor Subir Lall, a exercer as funções que o seu empregador lhe destina. No fundo é só alguém mal-educado a não respeitar poderes e dignidades que lhe são muito superiores. É então, por inábil e míope, digno de dó.

 

Mas o senhor Subir Lall é também cobarde. Não tenham medo de usar a palavra. É mesmo medroso – eu disse medroso, não confundam - pois após arrojar estas atoardas, largadas numa entrevista em meio de comunicação social, fugiu a comparecer na reunião marcada com os Parceiros Sociais. Não justificou a falta! Apenas enviou dois subordinados mais subordinados que ele. Teve medo de ser confrontado com argumentos que destruíssem o seu sagrado não há alternativa. Sabia não ter fundamentos para defender a posição propugnada. Sentiu-se frágil na causa trazida, incapaz de demonstrar a razão que pensa (?) assistir-lhe. O senhor Subir Lall, mais uma vez desceu. Ao nível do incivilizado, do malcriado, do desprezador de quem, em Portugal, país livre e democrático, decide o que fazer, como fazer e quando fazer. Afinal, o senhor Subir Lall não é um ponto. É uma ladeira. Sempre a descer.

 

 

Publicado em Rostos On-line

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publicado por Carlos Alberto Correia às 02:23

Apresentação de Concerto para Sanca João, pela Drª Ana Garrido

Segunda-feira, 06.06.16

 

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Algumas boas razões para gostar deste livro

 

Agradeço a vossa presença. Sinto-me muito feliz por andar a apresentar este romance. Eu digo até por andar em turné. Esta é já a sexta apresentação do livro que faço e farei muitas mais se for oportuno com um grande prazer. Essa satisfação deve-se a duas ordens de razões. As primeiras afetivas: como alguns de vocês saberão, sou amiga do autor há décadas, uma amizade que agradeço aos deuses, e uma outra razão afetiva é sentir-me especialmente ligada a esta narrativa porque tive o privilégio de ir acompanhando a sua realização à medida que cada um dos seus capítulos se ia aprontando.

As outras razões são mais objetivas: em primeiro lugar trata-se de um romance com uma linguagem poderosa, emotiva e criativa, em segundo lugar o livro está povoado de dezenas de histórias interessantes, em terceiro, há um vertente de documento histórico, se o quisermos dizer, pois este livro fala da vida dos Portugueses, e em especial dos que têm agora 50, 60, 70 anos. Toca as nossas vidas. Ler este romance transporta-nos para o modo de vida nos anos 50, 60, 70 (a vida ainda sem televisão, e depois com televisão, os cafés como locais de reunião, os antepassados dos bailes de garagem, o aparecimento do gira-discos, os primeiros concertos de rock, a beatlemania, as pousadas de juventude, os contactos com estrangeiros em viagem que nos falavam de outros modos de ver a guerra e a realidade política portuguesa, a guerra do Vietname os escuteiros, a guerra colonial, a vulgarização da pílula, as leituras políticas às escondidas, a censura, a resistência antifascista em Portugal, o 25 de abril, o PREC. Cada um de nós tem as suas memórias destas décadas.

O que é fantástico é que o narrador tem uma perspetiva privilegiada. Esse horizonte que é o do narrador é uma vista especial, porque há um conhecimento por dentro e de experiências feito. Se conhecermos a biografia do autor não estranharemos que a guerra colonial, o jornalismo, a oposição ao regime sejam vistas por dentro. Concerto para Sanca João junta a vivência com a qualidade estética, o que não é muito comum. Quase apetece dizer numa mão a arma na outra a pena ou a caneta…

 

 

Apresentação do autor

 

Passo à apresentação do autor. O Carlos nasceu em 29 de setembro de 1944. Tem 71 anos, portanto. É natural de Évora. Foi seminarista. Participou na guerra colonial como comandante de um pelotão na Guiné. Regressado à metrópole veio trabalhar para a zona da grande Lisboa. Começou na Publicidade. Depois trabalhou em gestão e administração de grandes empresas entre elas as Construções Técnicas e a Parmalat. Formou-se em Antropologia Social. Foi colaborador em jornais como o Diário Popular e a Capital e Diário de Lisboa. Casou-se em 1982 com a atual mulher, a Fernanda Afonso, uma outra amiga querida aqui presente. Como é muito ativo, em criança tinha a alcunha de O Vitamina, continua a fazer imensas coisas: teatro, dá aulas de antropologia na UTIB, faz comentário político no jornal Rostos.

Este é o seu primeiro romance. Tem publicados (e esgotados) dois livros de poesia, um de 1974 e outro de 1982: Silêncio Mordido e Penélope e Outras Esperas. Porquê um romance 33 anos depois? Porquê este romance? Fui perguntar. 33 anos depois porque embora o projeto estivesse na cabeça, não havia tempo para o realizar enquanto não se aposentou. Esta obra demorou 5 anos a ser escrita. Porquê este romance? Quais as motivações? No dizer do Carlos, pretendeu mostrar como uma geração foi levada à guerra, e como o contraste entre a ideologia que era servida e o que se vivia no terreno acabou por levar a contradições e a virar o cano da espingarda para outro lado. Os cinco anos de escrita resultaram neste livro bem nutrido de 740 páginas.

 

 

O título do livro

 

Não é muito comum um romance chamar-se concerto. Mas não é inédito o contágio dos géneros musicais em títulos de romance. Temos o Fado Alexandrino do Lobo Antunes ou a Balada da Praia dos Cães do José Cardoso Pires.

Este romance que é um grande romance de amor e guerra chama-se Concerto para Sanca João mas podia chamar-se Confrontações e Afetos que é o título de um dos seus capítulos, porque é disso que fala, de lutas e de sentimentos.

Porquê para Sanca João? Sanca João é uma personagem que surge pontualmente no romance, primeiro, no conto que constitui o prólogo, onde tem a função de mensageiro, vem contar a Samba Badji que a aldeia dele, Autacunda, foi atacada pelos militares portugueses e falar dos horrores que lá se passaram, personagem que surge de novo cerca da página 400 para ficar na narrativa apenas o lapso de discurso correspondente a umas escassas duas páginas, já olhado sob a perspetiva do protagonista que é um oficial do exército português. Atacados pela guerrilha local queriam descobrir quem tinha colocado as minas que haviam feito baixas nos seus homens. O facto de este guineense, apesar de torturado, não ceder, e afirmar que a ideia na sua cabeça não irá mudar, mesmo que morra, provoca uma revolução mental e visceral no narrador.

E o primeiro texto do romance que vamos ouvir é precisamente o momento crucial que explica o título. O leitor é um amigo nosso, contador de histórias profissional, José Manuel Paula Santos.

 

Pela tardinha o Toni foi buscar Sanca. Estava preso numa cela improvisada na casa do chefe de posto. Chegou, o braço forte do Toni amparando-o a meia cintura, os pés sem ação, arrastados no chão, toda a cara um inchaço desfigurador. Se não soubesse ser ele, não o reconheceria. O corpo de homem maduro, bem desenhado, tornara-se objeto mole, sem vértebra, dobrado. Toni largou-o à entrada da tenda. Despenhou-se no pavimento. Dos lábios rebentados saiu, rouca, impercetível, a palavra água. Agarro-o pelos ombros para o erguer. É trapo mole incapaz de manter-se ereto. Seguro-o com um pouco mais de firmeza. A pele solta-se do corpo, fica-me colada às mãos. Acrescento mais duas chagas à ferida que já era. O Matias manda o Toni trazer um balde de água. Coloca-o próximo do prisioneiro. Podes beber quanta quiseres. Basta dizer-me de onde vens e para onde levavas o carregamento. Os lábios, literalmente colados pelo pus das feridas, não se abrem. Despeja um pouco da água, Toni. Por cada pergunta não respondida vai fora mais uma quantidade. Se o balde se despejar não torna a encher-se. Voltas para a choça sem água nem comida. Já não lhe batiam. Não havia sítio para tal, nem, no sofrimento onde ia durando, haveria lugar para mais dor. Só a sede tinha importância. Desde que fora amarrado à árvore não bebia. Por isso mal conseguia fazer-se ouvir. Soaram, porém, com a força de terramoto nas minhas certezas, as únicas palavras ditas naquele interrogatório. Sanca não trai companheiros. Tu vais matar-me o corpo, mas não matas a ideia na minha cabeça. Saí enjoado, vomitei na parte de trás da tenda. Nessa noite apanhei a primeira grande bebedeira da guerra.

Capítulo «A ideia na minha cabeça» pp. 414-415

Música: Valsa Lenta

 

Porquê Concerto?

 

Uma das originalidades, das várias originalidades do romance, consiste na ligação de cada um dos capítulos a um trecho musical. Alguns são canções portuguesas, italianas, francesas em voga nos anos cinquenta e sessenta, outros são árias de ópera, outros são canções revolucionárias, já na parte final, correspondente aos anos 70. O nome da peça musical aparece entre parênteses junto ao título do capítulo e no corpo da narrativa nesse capítulo, integrado num evento ou num sentimento de uma personagem. Assim por exemplo La piu bella del mondo uma música de Marino Marini é cantada pelo namorado de Luana que lhe dedica este trecho musical numa festa e é este o subtítulo do capítulo em que este evento ocorre. São esses trechos musicais que temos estado a ouvir, que constituem a primeira banda sonora deste jantar

Para além das múltiplas referências musicais no romance aos Shadows, ao Cliff Richard, aos Beatles, próprias das vivências das personagens, o romance assume-se também no seu título como um tributo e uma homenagem à personagem de Sanca João e simbolicamente a todos os que ela representa, os que sofrem de guerras que não provocaram e pelo seu exemplo nos fazem despertar para mudanças no pensamento e na ação.

 

A estrutura

 

Este romance tem uma estrutura em 4 partes….

O Prólogo é a primeira delas, é uma narrativa de 16 páginas que pode ser tomada como um conto independente. A ação situa-se na Guiné, em dois locais, numa aldeia, e na capital Bissau, o narrador desta narrativa pertenceu a uma das aldeias guineenses atacadas pelos Portugueses, viveu na mesma aldeia que Sanca João… Esta narrativa inicial permite a entrada no romance começando com a perspetiva de um jovem guineense sobre a guerra. Faz-nos olhar a mesma guerra pelo outro lado. Assim, Samba Badji é o primeiro narrador do romance. Com os seus dezasseis anos apresenta-nos a guerra colonial, em toda a sua violência. E não mais aparecerá na narrativa. O jovem que será o protagonista do primeiro capítulo é outro, é um jovem nascido no território da metrópole, como ele diz, pouco antes dos americanos lançarem os cavalos agónicos sobre Hiroxima e Nagasáqui, numa cidade do Sul, que um dia fará parte das forças portuguesas que irão atacar essas aldeias da Guiné. Esse é o protagonista do romance e seu principal narrador.

Depois do Prólogo, o romance apresenta uma série de 19 capítulos que constitui a primeira parte, que tem por título Convergência, e depois uma série de 20 capítulos que constitui a segunda parte, a que o autor chamou Divergência e que se inicia com a partida de Urbano, para a guerra colonial. Os títulos Convergência e Divergência não são inocentes pois estão ligados à atitude do protagonista face à política vigente. Na Convergência assistimos à infância de Urbano, à sua adolescência, à passagem pelo Seminário, pela Mocidade Portuguesa, pelo jornalismo regional, pelo serviço militar, aos seus primeiros amores e sobretudo ao nascimento daquele amor que o irá atirar como voluntário para a guerra na Guiné.

Na Divergência encontramos a experiência da guerra em Cacondo, relatada em duzentas páginas, doze capítulos onde não há só guerra e operações militares (se bem que estas sejam narradas com pormenores muito interessantes) há amizades, um amor que termina, costumes locais, encontros sociais e um amadurecimento político do protagonista que o levará a mudar a sua perspetiva da guerra e o fará passar-se para a oposição ao regime. Nesta terceira parte da obra surgirá um capítulo escrito em poesia, logo a seguir à rutura com Luana, que parece mostrar que nos momentos de trauma e desorientação, a poesia é forma mais capaz de exprimir do que a prosa.

Os outros oito capítulos da Divergência englobam os eventos da vida do protagonista que estão ligados ao jornalismo, à oposição ao regime, ao 25 de abril, ao PREC. É é nesta parte que surgem as referências à luta entre os jornais de Lisboa e a Censura, depois chamada Exame Prévio, e as referências a Coimbra e às lutas estudantis. O nosso leitor vai servir-nos dois excertos do romance relativos a essas lutas.

 

TEXTO

Luto académico

Havia, pelo menos, dois países em Portugal. O das gentes comuns, o maior, e o dos estudantes e intelectuais. O primeiro continuava na vida de privações pensando ser melhor ter pouco a não ter nada, temendo mudanças, convulsões, não querendo meter-se em sarilhos. Aparentava uma calma da qual se poderia duvidar, mas nunca afirmar que não existisse. O segundo vivia em sobressaltos e convulsões. Agravara-se o problema de Coimbra. Decretado luto académico estendeu-se a todas as academias perturbando a tranquilidade de aulas, governantes, famílias. De abril a junho tudo efervescia. Estudantes, apoiados por muitos professores, pelas elites do pensamento, resistiam às ordens dos ministérios. Universidades foram invadidas, reitores desfeiteados ou demitidos, ministros caíram e Coimbra sofreu a ocupação militarizada. Ao recrudescimento da luta, iniciada com pedidos de educação para todos, correspondia o alargamento das palavras de ordem, os apoios clandestinos de outras forças. As centrais de intoxicação do poder respondiam aos desejos de liberdade e igualdade com vagas de boatos. Esses privilegiados queriam era a liberdade de andarem a deitar-se uns com os outros; a igualdade resumia-se ao facto de estudantes de ambos os sexos quererem mijar juntos nas mesmas retretes; as universitárias não passavam, na maior parte, de gajas sem escrúpulos que se prostituíam para arranjar dinheiro para os vestidos, cabeleireiros e noitadas. Muito do bom povinho aceitava estas atoardas, por acreditar ou por vingança social. Por isso propalavam tais aleivosias nas ruas, nas tascas, nos cafés. A coisa cresceu e qualquer família com filha universitária perdia o orgulho dos seus progressos, temia o labéu. Foi tiro nos pés da polícia. Esqueceu-se que, embora revoltados, rapazes e raparigas pertenciam, na maior parte, ao escol apoiante do regime. Ofendidos os pais pressionaram, revoltaram-se, levaram ao anular desta campanha. Mas o mal já estava feito. O fogo do maldizer corria desenfreado e nada trava boato saboroso, interessante. Qualquer mecânico a caminho da oficina, ao passar pelo Conde Redondo, vendo as mulheres da vida no ofício, gargalhando, dizia, lá estão as universitárias a tirar o curso.

 

TEXTO

 

Final da Taça com a Académica

 

Não era de futebóis mas nada me faria faltar à final da Taça de Portugal. Defrontavam-se a Académica e o Benfica. Procedêramos a enorme e secreta mobilização. Escondidos pelas capas os cartazes esperavam o momento de serem exibidos. Aguardávamos essas imagens a passar na televisão. O primeiro desapontamento foi saber que, prevendo desacatos, nem as entidades nem a televisão estariam presentes. Apesar disso, depois do intervalo apareceram os cartazes. Entusiasmados com as palavras de ordem, com a prestação excecional da Académica, levou-se ao rubro o recinto. A honrosa derrota no campo acabou por transformar-se em estrondosa vitória, quando a polícia arremeteu contra manifestantes e espetadores. Fugi à carga, Jamor fora, com o Augusto, o Gaspar e centenas de desconhecidos. A fuga transbordava de alegria. Desse lá por onde desse, desta publicidade o regime não se safava.

 

Finalmente um epílogo de cerca de 20 páginas em que a história se conclui com um novo narrador, pois o protagonista que é simultaneamente o narrador dos capítulos anteriores desapareceu.

 

 O processo narrativo

 

Este romance tem assim três narradores, o do prólogo que é um guineense, suposto inimigo de guerra de Urbano, o da ação central que é o Urbano e o do epílogo, um amigo de Urbano, o Travassos. Muitos outros aspetos do processo narrativo seriam de salientar. Refiro só alguns.

  • No que respeita à ordem (ligação temporal do discurso à diegese) como dizia no outro dia a Fernanda, não deixa de existir um fio cronológico condutor que é o mais importante expediente de ordenação temporal. Mas os episódios vão surgindo também em prolepses, isto é o narrador vai ao futuro buscar um episódio ou uma história e integra-o no fio narrativo, como se fizesse uma laçada. Quando passar de novo nesse episódio, agora já na sequência cronológica, ele será de novo referido mas não haverá repetição de elementos. A forma como os vários episódios vão sendo costurados, os elos de ligação encontrados são, para além da progressão temporal, a da associação de ideias (por exemplo vieram-me à memória outros fatos de banho, dez anos após este dia fazia de novo as malas) ou a ligação a um mesmo espaço (Aquele largo, na quase saída da Cidade velha, com a fonte parada no tempo, parecia ter o condão de marcar encontros surpreendentes; No Pátio, eu estava longe de tudo isto. Foi, durante sete anos, o meu local de refúgio; Sonhos diferentes, noutra camarata mais tardia).  

 

  1. Verifica-se uma profusão incontável de episódios, de histórias e de personagens secundárias, um universo diegético riquíssimo. Se quiséssemos comparar o romance a uma molécula, essas histórias seriam átomos. Um romance, com muitos contos dentro, na sua barriga. A história da leiteira Carminda e do compadre Lagarto, tocador de sanfona e contrabandista, a história de Célia e do seu amante japonês, a história de Augusto e do seu casamento, a história do furriel Metelo, que já a caminho da loucura queria construir uma armadilha para apanhar os inimigos. Há dezenas de histórias de personagens secundárias.Vamos ouvir mais um excerto de uma outra história, a de um caçador de leopardos:

  Tive outros encontros com leopardos. O primeiro, indireto, foi quando fiz amizade com o Khalil. Tinha mais dois anos que eu, nacionalidade libanesa, cristão maronita. Vivia na avenida com a mãe e o pai, entre mais quatro famílias libanesas e uma dúzia de cabo-verdianos, imersos na imensidade de negros animistas ou islâmicos. Dedicava-se à caça grossa. Jiboias, jacarés, leopardos para venda de peles; antílopes, porcos do mato para alimentação e comércio de carne. Viviam bem. A caça era abundante, a concorrência pequena, os preços das peles altos. Por vezes pagavam com custos também elevados a abastança que a mãe natureza proporcionava. O pai Khalil estava paralisado. Sentado numa cadeira de braços, passava os dias no varandim da casa olhando a avenida quase sem ninguém, recebendo os negociantes para o produto do trabalho do filho. Fora ele que lhe ensinara toda a arte da caça. Em tempos atingira boa reputação como caçador. Até ao dia do encontro com aquele leopardo. Avisara o filho para jamais caçar sozinho um leopardo. Aquilo é bicho ruim, com raiva que chegue para matar meio mundo! Leva pelo menos um companheiro com lança. Coloca-te a seu lado. Ele que se baixe e a firme no chão. Encandeia a fera com a luz de caça do capacete. Dispara só quando, por encandeada, parar completamente. Ficarás a saber o momento logo que, em vez de avançar, com uma das garras começar a querer afastar a luz. Aí dispara rápido para o coração, desloca-te logo para outra posição. Se lhe restar sopro de vida saltará para o lugar donde atiraste. Então, se a coisa for bem feita, espetar-se-á na ponta da lança. Eu esqueci-me daquilo que recomendava. Enchi-me demasiado do meu saber. Matei muitos leopardos. Tantos até lhes perder o respeito. Quando naquela tarde me cruzei com ele, decidi abatê-lo. Era demasiado boa presa para deixar escapar. Encontrei-o no meio da picada tão desprotegido que era canja. Disparei. Ainda o tiro não partira, já sabia que fizera asneira. Vi-o cambalear com o impacto. Tornei-me consciente da insensatez do que fizera. Não esperei para ver. Corri a bom correr para a primeira tabanca descoberta. Lá dentro descansei. Estava a beber água quando o teto da cabana desmoronou. Caiu-me em cima a besta-fera. Consegui atravessar-lhe a espingarda na boca. Eu era muito forte. Enlacei-me nele e corri para o exterior. Na frente da porta estava a árvore a que subira para saltar. O sacana era tão esperto como eu. Seguiu-me e decidiu fazer-me pagar o ferimento. Numa luta medonha aproximei-me da árvore, encostei-lhe a coluna ao tronco. Fiz quanta força pude até ouvir o ruído da quebra da coluna do animal. Soou-me como trovão! Caí no chão inconsciente. Levaram-me para o hospital e durante muitos meses as minhas feridas cicatrizavam, voltavam a ser abertas, a serem lavadas, retirados os pelos das garras do leopardo semeados no corpo. Pensei não

 

Com tantas histórias e personagens heterogéneas, o romance pode assim dar conta do social e não apenas do individual.

 

Vamos ouvir o final da história de Carminda e Mestre Lagarto.  

 

Então aconteceu a tempestade. O mensageiro tremia. Tinha assistido a tudo. No frio da manhã, quando Carminda conduzia o seu carro de bilhas de leite, saíra-lhe ao caminho, junto à tasca do Galego, o Lagarto. Jurava que tinha fogo nos olhos e espumava pela boca. O Diabo, vizinhos, o Diabo. Agarrou a Carminda pelo braço e disse-lhe, vais fazer a escolha mais importante da tua vida. Ou és minha, ou de mais ninguém! A Carminda olhou para ele do alto. Só eu sou senhora das minhas escolhas! Se não és minha não és de mais ninguém! Rapou da ponta e mola e cortou-a na garganta. Ficou lá, com a navalha cheia de sangue na mão à espera que alguém tivesse coragem para se aproximar. Ninguém foi capaz. Ainda lá estava quando chegou a polícia. Não resistiu. Parecia até que queria ser preso. Nas minhas memórias vejo a minha mãe a chorar, levar-me para casa enquanto, lentamente, a vizinhança corria para o local do crime. Revejo agora, como não vi ao tempo, o corpo caído no negro do alcatrão, uma boca sangrenta na garganta golfando vermelhos por sobre os alvores da bata e do leite que, em sintonia com a vida da dona, se ia perdendo no solo, saindo aos borbotões das bilhas entornadas. Nunca mais no Pátio, nos bailes que se foram fazendo, voltou a dançar-se ao som da Amapola. 

 

 

Mercê dos avanços e recuos diegéticos e da multiplicidade de histórias e personagens, o leitor não pode deixar-se embalar passivamente pela narrativa. Por vezes é ele que tem que organizar o universo diegético, como num puzzle, mas como disse antes, existe sempre uma progressão cronológica que é organizadora da diegese.

 

Gostaria ainda de referir dois últimos aspetos. O primeiro concerne à perspetiva antropológica do narrador, que analisa os hábitos, os acontecimentos, comentando-os através do crivo científico, embora de forma subtil. O segundo deles será abordado largamente pelo autor na sua comunicação, mas não quero deixar de mencioná-lo porque é um dos aspetos mais interessantes e mais polémicos na análise deste romance. Trata-se da ligação entre o que é ficcionado e a realidade. Quer no que respeita à intriga principal (a história de Urbano criança, seminarista, militar, comando na Guiné, resistente, revolucionário) quer no que respeita às histórias secundárias, há uma ligação muito estreita com o real. O efeito de verosimilhança é intensíssimo. É claro que a experiência direta do autor no seminário, nos cenários de guerra, no PREC, ajuda decisivamente a esse efeito. E acaba por funcionar como uma das maiores virtudes deste romance.

Acabo esta minha intervenção como comecei, obrigada pela vossa atenção

É uma alegria estar aqui hoje.

 

 

 

 

 

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publicado por Carlos Alberto Correia às 20:32

A banalidade do mal

Quarta-feira, 25.05.16

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Este texto foi produzido, no âmbito dos colóquios/ação de formação “Conhecer a guerra, defender a paz”, e foi apresentado no dia 23 de maio, na Biblioteca da Escola Secundária dos Casquilhos, no decurso de uma apresentação do romance “Concerto para Sanca João”, de minha autoria. Considerando o debate gerado e a atualidade do tema, pareceu-me bem dar-lhe maior divulgação. Oxalá tenha razão

 

 

 

Num dado passo deste romance, o sargento Elias, veterano de quatro comissões nos três teatros da Guerra Colonial, onde vai contabilizando metros quadrados da quinta a haver para a reforma, alapado na secretaria do serviços de informações militares, em Cacondo, diz para o protagonista, Urbano da Consolação, que o estado normal da humanidade é a guerra. A paz será apenas um breve interlúdio entre duas guerras. Seria pois o conflito um estado de coisas banal.

 

Esta afirmação remete-me para Hannah Arendt e para o seu tão controverso conceito sobre a banalidade do mal.

 

Ao assistir ao julgamento de Eichemann, em Jerusalém, o que mais a admirou foi que aquele homem meio insignificante, aquela mentalidade burocrática, tivesse sido o executor logístico do brutal assassínio de muitos milhões de seres humanos. Percebeu então que o mal absoluto pode não estar representado num ser diabólico, mas sim num homem comum, escudado numa hierarquia, defendido pela necessidade de não pensar, executando acriticamente tudo quanto ao grupo a que pertence pareça necessário.

 

Se a discussão sobre este conceito da banalidade do mal, da desculpabilização do indivíduo através do ordenamento social foi vivo e ainda se mantém, observemos como ele ganha espaço no nosso mundo.

 

Vejamos o caso de um oficial, por exemplo americano, e poderá ser europeu ou de qualquer outro continente, a viver numa pequena vivenda ajardinada nos subúrbios de uma grande cidade. Pela manhã, após tomar o pequeno-almoço com a família, leva o filho à escola e dirige-se para o quartel. Lá chegado poisa a pasta por debaixo da bancada da consola do “joy stick”, abre o dossier impecável deixado no seu posto de trabalho por algum outro militar, lê as coordenadas, introdu-las no computador e, algures no mundo, um drone levanta voo e vai lançar um míssil sobre uma viatura, uma casa, um bairro, por vezes uma escola ou um hospital. Repetirá, nesse dia, tal operação quantas vezes for necessário. Terminado o horário de trabalho, vai buscar o filho à escola, janta com a família e, possivelmente, antes de deitar, jogará uma hora com o filho, na consola que lhe ofereceram pelo natal, um qualquer jogo de guerra virtual. Será, certamente, um bom pai, um bom militar, um cidadão cumpridor, provavelmente muito preocupado não só com os direitos humanos, também com os dos animais.

 

É um ser monstruoso? É um homem banal?

 

Segundo Hannah Arendt é apenas um homem vulgar que não pensa, ou se recusa a pensar sobre as origens, motivos e consequências do seu trabalho. Tal como ao carrasco a quem não interessa quem e porque executa, bastando-lhe apenas receber o condenado e a ordem de uma fonte com poder e legitimidade para tal, nunca se interrogando sobre a bondade de tal legitimidade. Cumpre as ordens com o maior zelo e eficiência possível, aproveitando-se de toda a panóplia de artefactos e distrações para afastar de si o pesado encargo de pensar, isto é, de correr o risco de uma valoração moral das suas ações.

A este respeito, introduzo, a leitura de um poema, publicado em “Silêncio Mordido”, um livrinho que publiquei em 1974.

 

pensar em não pensar

 

uma hora de lazer

sem nada para fazer

é um caso sério

 

                        obriga-me a pensar

 

e pensar é tão perigoso

como matar um ministro

ou ser anarquista

 

                        é ultrapassar

                        a forma prevista

de me comportar

 

o melhor é pensar em não pensar

 

 

 

 

 

Posto esquematicamente o problema de culpabilidades e maldades, passemos um rápido olhar sobre o que é essa coisa da guerra.

 

Inicialmente a batalha era, mesmo quando havia choque de massas humanas, um duelo a dois, multiplicado quase ao infinito. Dois antagonistas defrontavam-se, no meio da confusão da luta. Por maior força, motivação, coragem ou sorte, um eliminava o outro e passava de imediato a outra refrega. Até à exaustão ou abandono de uma das partes. Cada um por si sabia quem e quantos ferira ou matara e essa seria a sua glória, reforçando o seu estatuto no grupo. Com a capacidade acrescentada de matar mais longe, foi-se diluindo a pessoalização do combate e as mortes transformadas em acontecimentos longínquos, anónimos. O artilheiro, a quilómetros do inimigo, não sabe o que, quem ou quantos destruiu. O piloto, quando a bomba rebenta, já está a grande distância do lugar onde a explosão ocorreu e se viu algo, foi um vislumbre de um conjunto de casas ou uma coluna de veículos. Por outro lado, a capacidade de matar massivamente, sobretudo a partir da segunda grande guerra, mudou estruturalmente os objetivos a atingir. Sumariamente diremos que até aí a luta era entre exércitos. A população seria, quando muito, um dano colateral. Mas na idade moderna, destruir casas, cidades e instalações produtivas, matar as populações civis, para desmoralizar os combatentes, passou a ser o objetivo primordial. Recordemo-nos dos bombardeamentos massivos a Londres e Berlim, ou das bombas atómicas lançadas sobre Hiroxima e Nagasáqui.

 

Isto são, no entanto, as guerras de grande intensidade. Pelos seus custos vêm-se evitando, através do equilíbrio do terror. No entanto a máquina de produção de armamentos tem de continuar a laborar. Por isso, mesmo no tempo que chamamos de paz, rebentam escaramuças um pouco por todo o lado, em que os grandes contendores ganham duplamente numa só cartada. Escoam as armas obsoletas e conquistam vantagens no terreno geoestratégico.

 

Outra coisa são as guerras de libertação, o formato de guerrilhas, travadas a partir dos anos 60 em grande parte do mundo. Vietname e Colónias são as que mais marcaram a minha geração. Numa primeira fase a luta é de baixa intensidade. Grupos de guerrilha atacam esporadicamente, aqui e além, obrigando o ocupante a disponibilizar forças volumosas para controlar o território. Se a fase de guerrilha for insuficiente para obrigar o ocupante a desistir do seu domínio, passar-se-á para uma segunda fase de guerra clássica com domínio variável do território. Foi isto que se passou, um pouco por todo o lado, em África, até à conquista das independências.

 

No entanto, voltando a Hannah Arendt e à recusa de pensar, o aparelhamento ideológico e distrator do ocupante tem um tempo limitado de duração. As motivações apregoadas vão esbarrando na realidade no terreno e, o temido ato de pensar, começará a infiltrar-se por várias fendas, ganhando consistência, acabando por tornar-se numa recusa civil – caso da América em relação ao Vietname - ou militar como no caso português que veio a desembocar no 25 de Abril.

 

O protagonista deste romance “Concerto para Sanca João” passa por esse processo. Criado e educado num ambiente pró regime vai defender a pátria para a Guiné. O choque do real vai-lhe mudando as perspetivas, até o tornar no seu contrário. Apreende uma realidade diferente daquela que lhe tinham contado e sobre a qual fundara a vida. Procura caminhos e segue os seus trilhos convicto de ser aquela a via certa para si, mas não incorrendo já no erro de pensar ser a única possível, mas tão-somente aquela que, a ele, pareceu mais acertada. Porque pensa aprende a relativizar, porque descobre impõe-se-lhe a ação. Portanto, Urbano da Consolação, o protagonista, não é só ele, o personagem que se conta, é também o outro, os outros que formaram o seu tempo e que, pelos caminhos próprios, forjaram os nossos dias com tudo o que de bom e mau contêm.

 

Terminarei com um outro poema, do livro já referido, pondo em equação que “pensar” pode começar assim:

 

cupelon

 

sobre a Guiné havia brumas

de histórias sem regresso

 

na noite

em calmosas mentiras

dormiam pântanos    incêndios

e dois homens mortos

em casa do grotesco

 

Bissau    quase um pouco de nada

um corpo mulato a vários níveis de crédito

convidado para o grande réveillon do fim da vida

 

hospital militar 241 nos braços dos helicópteros

ou a surpresa de morrer em cada manhã

 

um batido de política e desportos

na arquitetura dum sorriso e perfume

para depois das cinco e meia com revistas

e pi-ups e frases que colo no cérebro

 

máquinas de fazer milagres precisam-se

ou a Cristina vai ficar sem namorado

 

 

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publicado por Carlos Alberto Correia às 18:14

Ela de coração parado

Quinta-feira, 17.03.16

 

à memoria de Elis Regina

 

elis.jpg

 

 

é sempre assim que chegam as notícias

repentinas absurdas e brutais

tudo fica parado como cartaz

em muro de silêncio

gente isolando mágoas

em fundo de ruídos de atabaques

 

todos iremos um dia e este encontro

como tu foste inesperada e breve

apartando olhos em colares noturnos

tecidos da morte de cada um de nós

 

preciso agora da dureza das palavras

para enfrentar o momento aguçar a pedra

e profanar a alma desse deus de impudica grandeza

firmada sobre o inútil de sentirmos

como se morre na lentidão dos dias

sempre mais incompletos e sós

 

acredite-se embora que na morte

continue a vida de outro modo

não se percebe porque se cala a voz

e o esquecimento se instala

amarelecendo imagens vivas e reais

 

borboletas de sombras em mar esmaecido

ou comprido nevoeiro que se adensa

a minha mágoa é mão que arrefece

na janela do comboio perante a noite

 

canto na ribalta a deceção

da hora em que se cai sobre a notícia

de um corpo abandonado

 

que desse desejar animador da voz resta ela

de coração parado

 

 

(faria hoje 71 anos)

 

 

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publicado por Carlos Alberto Correia às 17:31

Já não somos todos “Charlie”?

Sábado, 27.02.16

jesus2pais.png

 

 

Apenas para os mais desatentos recordo a onda de horror que perpassou pelo mundo quando um grupo de putativos extremistas islâmicos assassinou, fria e cobardemente, alguns jornalistas do “Charlie Hebdo”. Lembram-se? Não se esqueceram que então se discutia e apoiava o direito de liberdade de expressão, fundamentado em que os preceitos e desígnios morais de um qualquer grupo religioso, não poderiam condicionar a expressão livre, a liberdade de imprensa, nem a consciência dos autores? Não se esqueceram, pois não?

 

Então porque é que agora, perante o cartaz do Bloco de Esquerda, as mesmas consciências se revoltam e bramem contra o desaforo de um grupo de incréus por utilizarem a efígie de Cristo, numa campanha de apoio à adoção de crianças por pessoas de género idêntico? Será ainda o ressabiamento de o projeto ter passado na Assembleia? Será tentar atacar o mesmo por outro caminho? Tanta indignação! E não vejo esses indignados barafustarem contra o preconceito racista presente na maioria das imagens de Jesus. Já sei! O racismo é muito menor pecado que ser “gay” e poder adotar uma criança, que se calhar até já vivia com esses pais ou mães. O Jesus loirinho, ocidental, das imagens não é uma hipocrisia e uma clara afronta racial à história? É que Jesus, meus senhores, era bem mais escurinho. Não se sabe bem porque razões o pai celeste o fez nascer numa família semita – e aqui eu discordo do cartaz porque na verdade Cristo teria três pais (não se esqueçam do Espírito Santo que, rezam as crónicas, fertilizou a Virgem) – de certeza também trigueirinha e muito diferente dos puros arianos retratados desde as igrejas até à mais insignificantes publicações impressas.

 

É uma falta de respeito, replicam. Pois, ele não é Maomé e, muitos dos seguidores convictos do divino mestre, não têm qualquer pejo em faltar ao respeito a todos quantos não comungam da sua visão do mundo, considerando ser a sua forma de vida e moral aquela que todos terão de respeitar. Claro, o contrário seria desrespeitarem-nos a eles, senhores de toda a razão e de todo o querer. É este o tipo de pensamento autocrático que revelaram e revelam na passada discussão sobre a interrupção voluntária da gravidez e na novel sobre a morte assistida. Quando procuravam e procuram, a todo o custo, impedir a despenalização de tais atos. Reparem! As leis não os obrigam a abortar nem a pedirem a eutanásia. Apenas consideram que, em determinadas situações, tais práticas não serão consideradas crimes. Obrigará tais determinações legais que eles aceitem ou pratiquem estes preceitos? Claro que não! Então porque se opõem? Muito simplesmente porque se estão nas tintas para as éticas e comportamentos que não caibam nas normas que, com todo o direito, escolheram para as suas vidas. Mas, essa é a verdade, é um direito que é só deles, que por o ser todos terão de aceitar, cometendo assim um desrespeito continuado e bem maior que aquele de que acusam agora o Bloco de Esquerda. Precisam que lhes traga outro maior desrespeito pela vida humana? Então falemos do, agora santo, João Paulo II e do seu tão grande respeito pela vida humana que o levou a declarar ser preferível deixar continuar a grassar, sobretudo em África, a SIDA e a morte resultante, que permitir o uso do preservativo. Que respeitinho admirável, que consolo para as boas consciências.

 

Portanto, amigos e menos tal, não sendo um entusiasta, por questões de gosto pessoal por tal cartaz, defendo com unhas e dentes o direito de terem-no feito e fazê-lo difundir. É uma forma de liberdade cívica e religiosa. Nós somos um estado laico – por isso não percebo porque hei de eu ser agredido todos os domingos, de manhã, com uma transmissão de missa católica na RDP1 – isto é, um Estado que não tem qualquer escolha religiosa, mas que as permite todas e a todas dá a mesma proteção. Quer-se dizer, deveria dar e, sabemos bem, é coisa que não faz.

 

Não me venha por isso falar de respeito, ou falta dele, quem se outorga o direito de querer obrigar todos os outros a viverem segundo regras éticas, que fazendo parte do modo de vida que escolheram e apenas tendo plena validade na cultura, no tempo, de quem a tomou para si, não serão exigíveis a quem fez escolhas diferentes. Querer toda a gente de cabeça baixa por respeitinho pelas coisas religiosas que defende é, no mínimo, fascismo moral.

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publicado por Carlos Alberto Correia às 23:49

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Segunda-feira, 30.11.15

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publicado por Carlos Alberto Correia às 16:38

Inteligência, cultura, honestidade e ética

Segunda-feira, 23.11.15

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Pese embora o meu reconhecimento das qualidades da minha camarada Marisa e a certeza de que, em condições diferentes, estaria inteiramente do seu lado no prélio por qualquer lugar a que se candidatasse, desta vez não estarei com ela. Não porque discorde da sua candidatura e desejo que a mesma tenha uma excelente votação. Porém, nestas coisas da política é necessário, como diria Pessoa, por o coração de lado e deixar o pensar na cabeça.

 É por tal que tomo, abertamente, a defesa da candidatura de Sampaio da Nóvoa.

Vejamos o seu maior opositor, Marcelo Rebelo de Sousa. Sabemos que de há anos a esta parte se prepara para conquistar a Presidência da República. É um desejo legítimo e, depois de Cavaco, pode-se pensar que qualquer um tem maiores capacidades para essa alta função do que as que ele, por nossa infelicidade, demonstrou. Creio até que Marcelo não seria um presidente mau de todo. No entanto vem, quanto a mim, ferido de dois inconvenientes. O primeiro é ser, sem qualquer dúvida, um candidato de direita; o segundo é o da ambiguidade em que se envolve. O facto de ser candidato de direita, só por si, não é, numa democracia, facto impeditivo nem da candidatura, nem de um possível mandato correto. Mas, volto ao momento presente: o lugar é mais que o homem e este estará prisioneiro de apoios e dos interesses daquelas bandas. O que, para mim, conhecidas que são ações e conveniências, é inaceitável. Os quatro anos de governo Passos, os demasiados de Cavaco – como primeiro-ministro e presidente de uma República que sempre pareceu menorizar – devem levar-nos a por de lado a possível simpatia pelo comentador hábil e habitual e olhar mais para lá, para o campo ideológico e perceber como, estando no governo o PS, com o apoio do Bloco, do PCP, dos Verdes e, intermitentemente, do PAN, poderá um presidente de ligações opostas, com sentido de oportunidade, reconhecida habilidade política e de manipulação da opinião, criar zonas de fricção e rutura entre os partidos apoiantes do governo. Dirão que isto não passa de uma simples opinião e eu concedo. É porém a opinião de quem refletiu maduramente sobre estes assuntos e prefere não arriscar demasiado, tanto mais que o perigo é, por demasia, óbvio.

Por outro lado, a ambiguidade que cercará a campanha de Marcelo é notória e preocupante. Composto e em governação o executivo do PS, que fará Marcelo quando lhe for possível dissolver o Parlamento? Sabendo embora que ele se eximirá a responder a esta pergunta enquanto tal lhe for possível, avento duas hipóteses. Na primeira, sem demasiada clareza, dirá, mantenho o governo em funções enquanto demonstrar a sua sustentabilidade. Correto! Mas quem definirá essa capacidade? O Presidente, evidentemente e segundo os seus pessoalíssimos afetos. Lembremos também que o PSD de Passos, não o querendo ver nem pintado, ocorre hoje ao seu chamamento como tábua de salvação. Porque será? Que lhe irão solicitar, em troca do apoio, em primeiro lugar? Observem a frustração gritante e gritadora das bancadas da direita e logo ficarão a perceber para que caminhos tentarão conduzir a presidência. Nem é preciso ir ao astrólogo. Claro que não acredito que alguma vez, durante a campanha, Marcelo responderá a esta questão de peito aberto. Dissimulará, calará, evitará, invetivará, negará mas, mais tarde ou mais cedo, terá de ceder! Só não o pode reconhecer porque, para ganhar à primeira volta, necessita de votos para além dos da direita. Não lhe serão bastantes os trinta e tal por cento. Portanto, ver-se-á compelido a mentir ou, pelo menos a omitir.

 

Se pelo contrário ousasse dizer que manteria o Governo PS em atividade, o clamor e fuga da direita seriam imediatos e irreparáveis. Portanto, “malgré lui” Marcelo será obrigado a continuar o pântano de enganos em que executivo e presidência nos têm atolado.

 

Chego agora à minha opção. No título enuncio o que me leva a apoiar esta candidatura. Tenho saudades de ouvir um governante inteligente, de o ver tratar com conhecimento da história, das sociedades, das pessoas, as questões políticas e de governança; preciso de um banho de honestidade que me tire este mau cheiro em que tantas negociatas, enganos, declarações sem suporte e contrárias à realidade, vieram empestar o ambiente e, finalmente, porque é necessário que o prometido “não seja de vidro” – isto é, que se quebre com a maior das facilidades – seja respeitado, que a ética prevaleça sobre os interesses circundantes, de miserável mediocridade e que o juramento de defesa da Constituição seja feito por quem a respeite, não por aqueles que a traem em qualquer momento ou situação.

 

 Finalmente quero um Presidente que venha a ser a medida da justiça e da ética nas relações políticas, económicas e sociais. Em suma, quero o candidato que me parece possuir, no maior grau, as qualidades apontadas. Quero o ar mais límpido e fluido no meu País. Em suma, quero Sampaio da Nóvoa como Presidente.

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publicado por Carlos Alberto Correia às 16:01

Serei Catão? Serei Cassandra?

Terça-feira, 27.10.15

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As multidões de migrantes, exilados de guerra, continuam a aglomerar-se junto aos muros da Europa, clamando por auxílio, vituperando os ouvidos surdos e os corações empedernidos em estultas contabilizações. Uma coisa é certa: o fluxo não cessará, com o seu cortejo de horrores e mortes, enquanto os conflitos, no outro lado do mediterrâneo, não cessarem. E esses, ao que parece, estão muito longe de qualquer resolução, antes parecendo que por ali se vão criando as condições necessárias para guerras mais dilatadas, demoradas e perigosas. Assim, será bom que pensemos o que fazer com e a respeito das legiões de refugiados.

 

Como esta crónica poderá criar mal-entendidos começarei, à guisa de explicação, por informar que sendo a minha formação em Ciências Humanas, mais especificamente em Antropologia Social, encaro todas as formas sociais, religiões e culturas como realidades relativas e, no plano da análise, de equivalências quase universais. Ressalvado este princípio e pondo em evidência as formas de paridade entre povos e costumes que ele pressupõe, cabe-me, para melhor esclarecimento, enunciar quatros princípios fundamentais:

 

- primeiro: a nenhum homem ou grupo humano deverá ser negado auxílio e solidariedade, na medida das possibilidades do auxiliador, quando dele sejam carentes;

 

- segundo: nenhum uso, costume ou rito poderão manter-se sendo ofensivos das leis do país recetor.

 

- terceiro: não serão criados guetos por proveniência ou etnias, de forma a intensificar singularidades culturais, resistentes à completa e voluntária integração de quantos pretenderem continuar a permanência no País.

 

- quarto: quem se opuser ou não lhe interessar a integração deverá, recebido o auxílio, recomposta a normalidade nas suas regiões, voltar para elas o mais rapidamente possível.

 

Trocando por miúdos. Se o dever de acolher deve ser um princípio universal, não poderá o acolhido agir de modo a praticar atos, justificáveis na sua cultura, mas inadmissíveis naquela que o recebe. É o velhíssimo princípio do em Roma sê romano.

 

Para esclarecer melhor apontarei dois casos, entre tantos possíveis. Sendo embora prática corrente e aceite em muitos locais os rituais da excisão do clítoris ou infibulação dos lábios vaginais, não poderemos, a título nenhum, permitir que tais práticas se tornem usuais nas nossas sociedades. Se não temos o direito de, nas suas terras, lhe impormos as nossas visões sociais, não lhes poderá assistir a faculdade de desrespeitar os direitos humanos vigentes nas nossas. Também será inaceitável contrapor as normas de direito do imigrado – exemplo a “Sharia” – a normas legais instituídas no País que os recebe. Poderá levantar-se aqui uma questão que tem gerado larga polémica. O uso do véu no espaço público. Na minha opinião, e neste caso é só nela que me basearei, não sendo proibidos o uso de outros símbolos culturais ou religiosos, pese embora a conotação existente no uso do véu, não me parece que seja de proibir uns, possibilitando outros. Já, no entanto, não seria aceitável permitir esse uso de molde a cobrir o rosto, dificultando a identificação clara e imediata da pessoa.

 

Levanto estas questões porque os muitos milhares de refugiados ao entrarem em contacto com as nossas realidades podem sentir-se chocados e, ao reagiram, desagradarem às populações residentes, criando conflitos de muito difícil resolução. Vimos como a tentativa de sedentarização de ciganos foi um completo malogro, nascido de formas erradas e inconcebíveis de colocação em alojamentos aglomerados, sem prévia preparação, fautoras da fortificação de regras de grupo restrito, inibidoras de integração natural. Não cometamos com esta vaga migratória que influenciará sempre os modos de estar e viver de todos os mesmos erros cometidos desde sempre e raramente emendados. As razões para tal são muitas e não passam só pelo desconhecimento. Mas isso é uma conversa que nos levaria para outros campos, os quais não estão aqui em discussão. Esta incursão por terrenos tão escabrosos destina-se apenas, com o resultado exíguo que lhe caberá, a por alguma questões sobre o dever de ajudar e as possibilidades de integração, que mais não seja para mostrar àqueles que estão a aguardar que o primeiro conflito estoure para, do alto da sua resistência a tudo quanto é humano, tonitruarem: “eu bem avisei que essa malta só vinha trazer sarilhos” e venha a população, por farta ou mal informada, dar-lhes a razão que não lhes assiste e criar mais um polo de discórdia nos locais onde a humanização deveria imperar. Tal conduziria, por outro lado, a maior radicalização dos imigrantes que, parafraseando e mudando o necessário numa velha frase de um filme de que não lembro o nome, poderão afirmar “ a Europa não existe, eu sei porque estive lá”.

 

 

 

 

 

 

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publicado por Carlos Alberto Correia às 17:18

A Quadratura do círculo?

Domingo, 18.10.15

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Como qualquer português não sei ao certo, no dia em que escrevo, qual será a posição de cada partido na ronda marcada pelo presidente da República para a próxima semana. Tão pouco sei o que o presidente irá fazer com essa informação. Gostaria de deixar porém, algumas notas sobre a forma como interpreto a presente situação política.

 

O Parlamento é, por definição, o local onde os representantes eleitos pelo Povo exercem, em seu nome, a soberania. O nosso modelo eleitoral, ao recorrer ao método de Hondt, aponta para a mais larga representação do espetro político, dificultando para tal, a obtenção de maiorias absolutas. E, no meu entendimento, está muito bem pensado. Primeiro porque tende a evitar que toda a Nação seja governada por um partido com maioria de votos expressos a qual, tendo em atenção as contingências eleitorais – abstenções e votos brancos ou nulos, votação nos outros partidos e votos perdidos por formações políticas sem expressão suficiente para entrarem na Assembleia – será sempre a representação partidária/ideológica minoritária de um grupo político/social. Dificultando a obtenção de maiorias obriga os partidos a negociações – cerne da democracia - não permitindo que qualquer forma de pensamento, sempre parcial, domine, em absoluto, os destinos do País. Não sendo a fórmula perfeita vimos, por vários modos, formaram-se algumas maiorias absolutas, as quais, por norma, vieram a ser formas de governo arrogantes, autoritárias, desprezadoras das restantes opiniões e julgando-se no direito, talvez divino, de fazer ouvidos moucos aos restantes representantes que, sendo minoria no parlamento, muitas vezes representarão maiorias sociais, ficadas sem direito a outra opção que não a vontade da força dominante, permitindo que uma forma de pensamento parcial seja vista como a única com legitimidade de expressão e ação. Sou, por isso, contra qualquer maioria absoluta que, a meu ver, na embriaguez do poder, dificilmente fugirá do quero posso e mando, tornando um governo democraticamente eleito numa quase ditadura democrática, a qual só não consegue sempre os seus intentos porque outros órgãos de soberania, como o Tribunal Constitucional e, esquecendo que existe um Cavaco Silva, o Presidente da República, exercem a garantia de respeito pela Constituição.  

 

Das eleições de quatro de outubro saiu um quadro complexo. A coligação de direita ganha as eleições perdendo volume de votos e expressividade. O PS sofreu forte desaire, a esquerda de protesto sobe o número de votos e deputados. Conclusão: a coligação não tem representantes em número suficiente para manter um governo estável. Como PSD e CDS/PP já foram coligados, não têm espaço de manobra para negociar um governo à direita, a não ser que o PS lhe apare o jogo. Nas iluminadas cabeças desta gente que nos tem desgovernado a solução era simples. Como a esquerda não se entende vamos dar uns rebuçados ao PS, mesmo que no fim sejam só fel, ele embarca no jogo e nós continuaremos a governar no espírito da troika a qual, como se fosse deus, está sempre com eles. Saíram-lhe mal as contas e, de novo a arrogância, deitou-os a perder. Fizeram de imediato um acordo de governo sem convidarem o PS para a sua discussão, inebriados de vitória e cegos para a maioria perdida. Quando alguém lhe disse, façam lá as contas. A esquerda unida tem maioria parlamentar, entraram em pânico. Coitados! Nunca foram fortes em aritmética. Nunca acertaram nos valores que preconizavam e defendiam (dívida, deficit, desemprego, etc.). Sempre tudo lhes correu, matematicamente, para o torto. Claro, dominando os meios de comunicação conseguiam voltar o jogo e iludir os incautos mas, pelo desprezo que têm e demonstraram pelo Zé Povinho, lá diriam de si para si, o Piegas engole tudo! E, pelos resultados das eleições, de facto muitos engoliram como boas as patranhas do país mirífico, só existente nos discursos governamentais, desmentidos categoricamente no viver diário das famílias.

 

O desespero instalou-se quando perceberam que a esquerda decidiu deixar de lado algumas relevante bandeiras e fixar-se no mais importante: não permitir a permanência de um governo apenas interessado nos ganhos próprios, no seguimento canino das emanações do diretório político/financeiro da Europa das multinacionais, na venda e destruição desesperadas de quanto pudesse, um dia, dar ao País o direito e rumar no sentido propício para o nosso povo.

 

Aí surgiram as mais disparatadas narrativas. Foi a primeira a da ilegitimidade de um qualquer acordo maioritário à esquerda. Depressa esbarraram na Constituição que não conhecem e despreza. Afinal, nas legislativas, o que elegíamos não era um primeiro-ministro, mas uma Assembleia. Debateram-se, inventaram justificações, mas tiveram de engolir a verdade. Não só era legítimo, como desejável. Perdido esse campo avançaram para o assassínio de caráter pessoal e grupal. O Costa era um traidor e tiveram uma imensa piedade pelo acontecido ao José Seguro. O PCP não era de fiar. Provavelmente, ao enunciar como prioridade não permitir a tomada de posse de um governo vendido ao exterior, apenas se preparava para construir o “gulag” no País. Não tendo pegado esta, porque já tivemos quarenta anos para perceber que afinal os comunistas não comem criancinhas, passaram para uma inventada inconsistência do Bloco de Esquerda. Também não conseguiram o efeito premeditado. Vieram logo os seus ideólogos à carga com duas munições de peso: o PS não podia fazer qualquer aliança (a não ser com a coligação e nos estritos termos que esta quisesse) porque não anunciara na Campanha que o iria fazer; tais acordos a serem estabelecidos teriam de indicar que seriam para garantir um mandato de quatro anos.

 

Aqui, confesso-vos pasmei. Primeiro porque tal gente se arrogava a direitos que a outros sonegava. As vontades e acordos de direita eram direito absolutos em qualquer momento, bastando para tal a vontade das partes. Já o voto de esquerda seria diminuído, de menor importância. O votante de esquerda não era cidadão de pleno direito. O seu voto valia menos e a sua vontade era despicienda em relação ao querer e votos da direita. Eles tinham o direito de coligações e acordos sem aviso pré-eleitoral. A esquerda, vá-se lá saber porquê, não mereceria tal direito. Portanto, se o PS pretendia acordos com a Esquerda, teria de proclamá-los antes, ou pelo menos, durante a campanha. Por outras palavras, era inaudita a pretensão de considerar os votos do Barreiro com a mesma força e dignidade dos de Cascais. Sem palavras! Continuando na diatribe da direita não seria aceitável que a esquerda formasse coligação, ou acordo parlamentar, sem ir ao notário fazer declaração escrita de que mudasse o que mudasse, acontecesse o que acontecesse, nada se poderia refletir na política destes partidos. Assim um casamento sem direito a divórcio. Claro, para eles esta regra nunca foi válida. Nem quando PSD e CDS concorreram isolados e, sem nada ter anunciado anteriormente, fizeram uma coligação, nem sequer quando a demissão irrevogável acrescentou crise a crise, causando o disparar do valor dos juros, o problema de assinatura de pacto de estabilidade, por quatro anos, foi requerido. Aqui temos a direita em tudo o seu resplendor. Desigualdade, direitos para mim, deveres para ti, monopólio do poder, sustentáculo para bancos e banqueiros inábeis, especuladores ou corruptos, tudo com fatura apresentada a pagamento ao comum dos mortais.

 

 Andam mesmo a brincar connosco e diria, com o fogo.

 

 

 

 

 

 

 

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publicado por Carlos Alberto Correia às 18:15

Refugiados

Segunda-feira, 14.09.15

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Tenho recebido, quer em posts do Face Book, quer em mensagens de e-mail, inúmeros pedidos para apor a minha assinatura em abaixo-assinados contra a receção de refugiados em Portugal. Não me admiraria se tais pedidos viessem de gente conservadora ou da extrema-direita. Já o mesmo não posso dizer do número elevado de pessoas ligada às esquerdas, que não só navegam nesse rio, como têm o desplante de me convidarem para - é o mínimo que posso dizer - cuspir sobre as minhas convicções e nos rostos de quantos, fugidos à morte, à depredação de bens e formas de viver, se vêm obrigados a deixar para trás a sua vida e as suas gentes e partem à aventura, sem condições, desafiando a morte, nas frágeis embarcações onde, tantas vezes naufragam sem remédio, em direção ao desconhecido.

 

É sabido que o medo faz ver fantasmas onde só bailam cortinas agitadas pelo vento. Desses receios se valem algumas centrais de intoxicação para introduzirem nos espíritos o temor pelo outro, pelo diferente. Que nos grupos que procuram proteção contra as guerras que os afligem chegam terroristas, dizem. Como se os terroristas não estivessem já por cá e chegados, sem perigo, bem instalados em aviões ou mesmo serem naturais ou residentes legais dos países europeus. Além disso, ainda que viessem - tal seria apenas um problema para os serviços de segurança tratarem - existiriam tão poucos que não seria correto fazer pagar a multidão de justos pelo minguado número de elementos potencialmente perigosos.

 

Quem assina tais dislates está certamente esquecido de quando nós portugueses, nos anos sessenta, por necessidade económica ou perseguição política, demandávamos refúgio nas alemanhas e franças ou, como agora, a nossa juventude tem de procurar fora o trabalho que aqui lhe é negado. Claro, aí vem um dos argumentos, se não há trabalho para os nossos como é que o vamos dar aos outros. Se nos tiram salários e subsídios por que carga de água iremos dá-los a estranhos? Assim, racionalmente, se põe de lado a solidariedade que pedimos para nós e tão facilmente negamos aos outros e culpamos as vítimas, inocentando os carrascos.

 

O problema que bate à porta de uma Europa em vias de desmembramento não é fácil de resolver, concedo. Comporta decisões e contradições bem difíceis de arrumar e perceber. E se olhássemos para o pós-guerra e tentássemos entender como o bem-estar, o estado social, vividos na Europa, foi em grande parte conseguido pela exploração neocolonialista da África, América do Sul e boa parte da Ásia? Isto não nos faz devedores de nada? E se acrescentarmos que as causas primeiras deste êxodo, ainda a iniciar-se, foi provocado pelas guerras financiadas e travadas pela América com a cumplicidade da Europa? Continuamos a não dever-lhes nada? E, para além disso, se vimos um semelhante a sofrer não haverá em nós o pingo de humanidade suficiente para lhe minorar o mal?

 

Tudo quanto observamos são consequências de uma crise submersa, descoberta em 2008, a larvar desde quando a economia deixou de servir o homem e pôs o homem a servi-la. Nada disto vai parar e pelo contrário irá aumentar e acelerar o ritmo de degradação das sociedades humanas. Deixámos instalar a lei da selva convencidos que só afetaria os outros e que nós estávamos resguardados. Pois, como é evidente, não estamos e quanto mais se demorar a aniquilar estes monstros que, em nome do povo, escravizam os povos, não haverá lugar de paz em qualquer parte do mundo. Lembrem-se, amanhã, por qualquer acaso fortuito ou por deliberação de financeiros e vendedores de armas, poderemos ser nós, os nossos filhos, as nossas famílias a peregrinar pelos caminhos do mundo em busca de um lugar onde se possa viver com alguma segurança. Como gostariam de, nesse caso, ser tratados?

 

Então, fiquemos entendidos, não me mandem mais abaixo-assinados contra a humanidade pois não os aceito, não leio, nem subscrevo!

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publicado por Carlos Alberto Correia às 18:33








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