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Aquilo que penso

Domingo, 02.09.12

 

Quando na China alguém desejava mal a outro dizia-lhe, sofisticadamente, “que vivas tempos interessantes”. Algum chinês, talvez desgostado pelos negócios na EDP ou na REN, deve ter-nos rogado semelhante praga. Não vou perder tempo com cera já tão gasta como a do aumento aflitivo do desemprego, da expansão da recessão, da pobreza galopante que vai tragando vagas e vagas de antes remediados portugueses, do completo desastre da diminuição do deficit, nem sequer da gloriosa solução para a RTP que génios locais engendraram como solução mirífica para não solucionar coisa nenhuma, para além, talvez, do enriquecimento imoral de mais uns quantos amigos ou apaniguados. Não, não vou falar nisso nem sequer que espero, como aqui escrevi no início do consulado coelhista, não ser a sua duração superior a dois anos. Vamos a caminho e cá estou para ver se ganho ou perco as apostas feitas, sobre tal esbarrondamento, à direita e à esquerda.

 

Venho de facto para falar da esquerda. Mais propriamente da mais diretamente minha. Para quem não sabe, ou se esqueceu, a do Bloco da dita.

 

Deu-se pois o caso de eu, militante de base arredio das intrigas palacianas dos círculos dominantes, em tempo de férias, ser pública e noticiosamente confrontado com a possibilidade de instauração do direito de sucessão no meu partido. Isto foi coisa para me levantar os poucos cabelos restantes e mesmo, ao curtir as salsas ondas, não conseguir concentrar-me no evento porque, na mente, não cessava de bailar, como insistente mantra: Louçã, o que se passou contigo; onde puseste a cabeça? A atrapalhação era de tal ordem que, aflito, ingeri alguns pirolitos de forma tão angustiante como a do pensamento de estar a desenhar-se, ali para as bandas da Rua da Palma, inimaginável corte versalhesa. Não era o caso de esboçar-se um poder diádico com representação de género. Nada disso. Tanto se me dá que o poder seja outorgado a um, a dois ou a muitos. O importante é a forma como ele é decidido e legitimado. Muitas vezes usurpei, de Mário Soares, a forma sintética do sou republicano, socialista e laico. Acho-a notável na sua economia e elegância. E porque sou assim e assim quero continuar, é-me inaceitável qualquer propositura de poder que não passe pela assunção da conquista do mesmo pela vontade dos próprios, pela apresentação de objetivos programáticos, pela discussão em termos igualitários entre todos os proponentes e pela final legitimação obtida quer pelo percurso, quer pela decisão final nas urnas. Acrescento ainda que tenha eu a posição que tiver asseguro que vencido, não esquecendo as minhas convicções, darei ao vencedor a mais honesta colaboração; ganhador não me esquecerei nunca das formas insidiosas com que o poder tenta, continuadamente apesar das boas intenções, subverter os modos democráticos e, para obstar a tal contaminação, quererei órgãos de fiscalização independentes que defendam o eleito das armadilhas inerentes ao mando. É bom que, se vencedor, me lembre de Roma mantendo atrás de mim alguém gritando: recorda-te de quem és, e acrescento, de onde vens e o que prometeste. Será incómodo mas não vejo outra maneira do ser humano, erguido às alturas do poder, manter a sanidade pessoal e não perder de vista os direitos dos outros e as normas da democracia. A quem custar perceber estes meus receios ouso recordar o incómodo que leis e constituições, votadas em pleno direito e democracia, causam aos burocratas da Europa comunitária e aos chefes das bárbaras ordens financeiras (darwinistas de fraca formação e entendimento) que julgam ser mais apto quem maiores meios financeiros acumula e assim conquistarem um direito de domínio absoluto sobre todos os outros.

 

Esclarecidos alguns princípios, retomemos o fio do discurso. Penso a esquerda como um conjunto diversificado de caminhos que tendem para o objetivo comum de instaurar os princípios de igualdade de oportunidades e liberdades políticas para todos os seres humanos. Não sou tão ingénuo que vá cair na armadilha de pretender uma igualdade absoluta entre gentes que sempre, por isto ou por aquilo, não só se diferenciarão, como tudo fazem para tal conseguir. Esta é a força da direita. Pegar no discurso fácil de sobrevalorizar as diferenças pessoais para fazer subsistir as desigualdades sociais. É que todo o igual poderá ser diferente. Será igual nos direitos, diferente nas opções e capacidades. Uns desejam umas coisas, outros desejam outras. Alguns serão mais diligentes outros mais tardos de pensamento ou ação; mas todos semelhantes no direito à vida, à educação, à cultura, à habitação, saúde, etc. Este tipo de pensamento conseguiu o Bloco consignar a vários agrupamentos que, em nome dos caminhos, entre si se digladiavam. Trabalho a que muitos previam e outros desejavam curto percurso. É um saco de gatos, diziam. Trotskistas e albanistas a trabalhar juntos? Comunistas arrependidos a não querer dar o braço a torcer? Meramente impossível! Mas não só não o foi como, mais de dez anos passados cá estamos prontos para continuar. A nossa existência prova, só por si, que não é mirífica a ideia de uma esquerda unida na diversidade, capaz de fazer frente à direita – mais pragmática mesmo quando ferozmente ideológica – sempre capaz de se juntar para defender os seus interesses particulares contra os das grandes comunidades.

 

Por tudo isto não faz sentido, para mim, a posição expressa por Louçã. De nada serve argumentar ser apenas uma opinião, uma sugestão e não uma proposta concreta. O valor ilocutório da palavra vem de quem a profere ou da posição de onde é enunciada. Uma sugestão de Louçã nunca será um mero alvitre. Para muitos soará como palavra de ordem por muito que tal estivesse distante das instâncias do enunciador. É dever de quem ocupa posições determinantes não esquecer as possíveis implicações dos seus pronunciamentos. Que o desejo, mesmo pensando-se ser para um bem maior, de deixar influência posterior não prive o desejante da lucidez necessária para não fazer, - como acontece nas empresas de propriedade individual - do afastamento do fundador, o mais perigoso momento de crise para a manutenção dessa organização. Nada tenho contra as pessoas cujos nomes foram indicados. Poderei ou não votar nelas conforme as suas propostas ou outras concorrentes que vieram a ser lançadas, o que porém mantenho e me confrange é que não posso, sem censura, e a menos que me provem que estou literalmente enganado, aceitar que um homem que admiro e a quem todo o Bloco muito deve, saia com tal mácula na folha de serviços. Merecia mais ilustre fim o seu curriculum partidário.

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publicado por Carlos Alberto Correia às 22:25








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