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Declaração

Quarta-feira, 19.10.11

 

 

Eu, Belegário da Silva Nepomuceno, cidadão nacional, com setenta e dois anos de idade, na posse de todas as minhas aptidões físicas e intelectuais, venho, por este meio, e para que conste, produzir as seguintes declarações:

 

1 – Repudio completa e iradamente todas as comunicações, sejam de quem seja, que tentem fazer crer aos cidadão deste país, que alguma vez tenha vivido, ou viva, acima das minhas possibilidades. Pautei sempre os meus consumos, apesar das pressões contínuas de bancos, casas de empréstimos,
vendedores de carros e outros variados bens, pelas possibilidades reais que os meus rendimentos permitiam, tendo ainda o cuidado de reservar uma pequena parte para poder corresponder a despesas inesperadas.

 

2 – Afirmo solenemente que nunca fiquei a dever nada ao Estado. Ao longo de 45 anos de trabalho descontei regularmente tudo quanto me era exigido para as Finanças e Segurança Social, sendo que esta última me garantia, em contra prestação securitária, na doença ou em acidente tratamento e sustentação económica enquanto não pudesse trabalhar; apoio no desemprego e, finalmente, findo um longo período de trabalho produtivo, assegurar-me-ia um final de vida digno e tranquilo. Eu cumpri. Ela não.

 

3 – Mesmo quando comecei a ser espoliado em relação aos termos do contrato social, celebrado entre mim e o poder, ainda acreditei que
seria um pequeno sacrifício em prol do bem comum, um perder agora um pouco para assegurar o futuro sem sobressaltos de maior e assenti em, mais uma vez, dar ao país aquilo que ele necessitava para poder progredir e assegurar o bem-estar da
população em geral. Aceitei ser prejudicado – na verdade não tive outro remédio - no modo de formação do montante de reforma, o que me custou um corte de 30% no valor inicial. Senti-me espoliado mas, o que é que poderia fazer? Apesar de ser uma decisão leonina, cometida por um Estado que não respeitando os acordos firmados, não se respeitava a ele, como justificava esta medida com a necessidade de manter a segurança social sustentável por mais cem anos e me deixavam sem outras opções, lá teve de ser. Depois decidiram que o valor de IRS dos reformados deveria ser idêntico ao de quem estava no ativo. Outro corte, mas este muito aceitável. De facto não fazia sentido que, tendo eu um determinado rendimento não pagasse para o Estado a mesma quantia que qualquer outro de rendimento semelhante. Custou-me mais umas centenas de euros. Não refilei. Só que, pouco tempo passado, esquecendo o muito que descontei acharam que tinha dinheiro a mais e, bumba! congelaram-me,"sine die", o valor da pensão. Cortam-me agora metade do subsídio de Natal e, para o ano, graças a Deus, vai todo de Natal e Férias. Agradeço reconhecidamente o empenho que o Governo
demonstra com a minha saúde ao defender-me de, por excesso de sol na praia, vira contrair cancro de pele.

 

4 – Nunca tive baixa médica em todos os meus anos de trabalho assim como, igualmente desconheço os bons ou maus préstimos do serviço de medicina nos centros de saúde. Só ao fim de dezenas de anos de descontos me foi atribuído médico de família. O mais interessante é que ainda não o conheço. Nunca consegui apanhar uma vaga para, no mínimo, me apresentar ao médico que é suposto ser responsável pela minha saúde e dos meus familiares. Deste modo tenho suportado do meu bolso, todas as despesas da nossa saúde. Pagava a dobrar mas restava-me a consolação de poder descontar uma pequena parte das despesas no IRS. Pronto, já não posso e desconfio que vou continuar sem ser apresentado ao meu médico familiar. Se até aqui ele tinha a seu encargo mil e seiscentos doentes, presumam, com o empobrecimento geral do país, quantos mais irá ter. É claro que, a mortalidade dos gerontes irá crescer exponencialmente (já pensei apresentar, no Tribunal dos Direitos do Homem, queixa, por homicídio negligente, contra o Estado) e, se tiver a sorte de não ser um dos que embarcarão em primeiro lugar poderei, antes de entregar a alma ao senhor, vir a conhecer o técnico que foi, nominalmente, responsável pelo estar saudável dos meus familiares durante tanto tempo.

 

5 – Aos meus filhos, que durante anos exortei erradamente na necessidade de conhecimento, cultura e ética, peço amargamente perdão pelos erros em que os induzi. Por terem levado demasiado à risca os meus conselhos e práticas veem-se agora, entre os vinte e os trinta anos, cheios de qualificações académicas e profissionais, condenados a contar dinheiro para o senhor da Sonae, sonhando com o dia de saírem do país para poderem dar azo a tudo
o que aprenderam e querem aprofundar e aplicar; vendo, todos os dias, os chicos-espertos fazerem gato-sapato de morais e leis, subir, como foguetões, nas escalas financeira e social.

 

6 – Aos senhores do Governo, qualquer que ele seja, peço para terem um pouco menos de “coragem”. Sempre que os comentadores apontam para a afoiteza de qualquer primeiro-ministro já sei que vem bordoada forte. Assim, tenho medo da coragem deles e suplico-lhes um pouco mais de cobardia,
acompanhada de alguma competência e, sendo possível, uma réstia de sensibilidade social.

 

7 – Como sempre fui um empirista obcecado pela prova do real e não gosto de ser apanhado desprevenido, marquei ontem viagem para a Grécia para fazer um estágio “in loco” da forma como, brevemente, passaremos a viver em Portugal. Voltarei com certificado, “curriculum” e experiência. Poderei então montar um curso de formação acelerado que vos ensinará a sobreviver no caos e garantirá – vou deixar de ser contra o nepotismo – oenriquecimento rápido para mim e para os meus filhos. Já aprendi. Os outros que se lixem!

 

 

Publicado in “Rostos on line” – http://rostos.pt

 

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publicado por Carlos Alberto Correia às 14:06








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