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Democracias

Sexta-feira, 07.10.11

 

 

 

 

Dizer-se que a democracia é a melhor das piores formas de governo é coisa que já não passa
de irónica banalidade. Se, porém, atentarmos melhor nesta afirmação veremos que
nela se expressa uma desconfiança visceral sobre toda a governação, entendida
como mal indispensável, e a submissão a uma inevitabilidade, a qual, como tudo
o que é necessário, tem muita força.

 

De facto, pese embora todas as frustrações que o exercício possível da dita nos
proporciona, basta-me lembrar o cinzentismo opressivo dos tempos salazarentos
para que a mais desbotada democracia surja como sol brilhante num horizonte de
esperanças. Mas a democracia, ou melhor, as democracias – porque são várias e
de diferentes profundidades – são plantas frágeis passíveis de sucumbir a
qualquer golpe de vento mais desabrido.

 

Façamos um breve périplo pelos países terceiro mundistas das décadas de 60 a 90 e vejamos
como tantas tentativas democráticas foram estranguladas à nascença por,
imagine-se, a nação “mais democrática” do mundo e pelas instituições por ela
apadrinhadas. Refiro-me, para quem esteja distraído, aos Estados Unidos da
América e, aos seus apêndices liberais Banco Mundial e Fundo Monetário
Internacional.

 

Nessa época, países afogados pela dívida foram “ajudados” por aquelas instituições de molde
a saírem do subdesenvolvimento e a saldarem a dívida aos países do primeiro
mundo. Os então denominados Programas de Ajustamento Estrutural não passavam de
um figurino a aplicar, de forma semelhante, em todos os países, independentemente
da conjuntura e especificidade de cada um. A coisa passava-se, mais ou menos
assim: ao pedido de “auxílio” seguia-se uma missão que pretensamente estudaria
os entraves e possibilidades daquela economia. Depois do “estudo” o Fundo
avançava com um programa que, no essencial se definia pelo corte de regalias
aos trabalhadores, aumento exponencial do desemprego (normalmente já elevado),
entrega a corporações externas das empresas nacionais, com especial relevo para
companhias de aviação, banca, energia, água, pescas, petróleo, melhores terras
de cultivo e, quando necessário, o país emprestador e as sua corporações não se
coibiam de, em nome do desenvolvimento e da democracia, instaurar ou segurar as
mais ferozes ditaduras e acobertarem, por via do juro e do lucro, as mais
gritantes quebras dos direitos humanos em nome dos quais se apresentavam ao
mundo.

 

As respostas várias a este estado de coisas passaram por manifestações de massa
sangrentamente reprimidas, rebeliões e guerrilhas que puseram um continente a
ferro e fogo. Destruíram o que restava das indústrias nacionais e impuseram
importações que aumentavam, sempre e cada vez mais, a sacrossanta dívida
constituída em instrumento de dominação política exercida por gente estranha
que ninguém conhecia e em quem ninguém tinha votado. Mas como tudo tem neste
mundo um final um dia a mina sul-americana, por vontade própria ou exaustão de
recursos, tornou-se desinteressante. Quer isto dizer que o esforço
político-militar para manter em submissão esses povos já custava mais que o
lucro retirado. Nas suas esclarecias racionalidades as forças vivas do capital
reconheceram já não valer a pena o gasto de cera com tão ruim defunto.
Mudaram-se para o sul da Ásia onde, a exploração da mão-de-obra barata e sem
direitos aparecia como um novo farol de oportunidades. Como apesar de tudo os
avanços militares, à América do Sul, foram por lá, de uma maneira ou outra,
falhando, inventaram a deslocalização, empobrecendo e levando ao desemprego as
até aí classes médias dos seus países. À baixa de rendimentos que forçaram
responderam, para não se dar logo pela coisa, com facilidades de crédito.
Assim, quem já não ganhava o suficiente para manter o padrão de vida a que se
habituara, iniciou-se na obtenção de empréstimos fáceis e a juro baixo, para
colmatar o quanto lhe faltava em salário.

 

Entrámos deste modo num torvelinho em que ao conceder crédito a qualquer mortal, qualquer
banco comercial e não emissor, produzia, diretamente e sem suporte material,
moeda em circulação. Bestial! O que é que poderia falhar em esquema tão bem
montado? Crédito atrás de crédito o poder de compra crescia e uma declaração de
dívida a um banco podia ser depositada, como garantia e capital, num outro que,
por sua vez, poderia fazer o mesmo em outro criando valor até quase ao
infinito. O problema foi quando alguém foi ao banco e pediu, dos seus
depósitos, cem euros para comprar uma camisa. Azar dos azares. Não havia
liquidez, isto é, moeda corrente e o vendedor da camisa, teimoso que era,
queria mesmo dinheiro vivo que o banco não possuía. Ao saber-se disto
depositantes e tomadores de ações entraram em pânico e foram ao sistema
financeiro pedir o que eles não tinham para lhes dar: dinheiro forte ou valores
reais. Pânico, escândalo, falta de confiança e… crise do subprime.

 

Como todos sabemos o mundo ocidental pauta-se pelos valores morais das suas sociedades.
Acabámos com as ditaduras, desenvolvemos as indústrias e as ciências, possuímos
direitos civis e de trabalho bem estruturados e os nossos governos, bons ou
maus, são da nossa inteira responsabilidade, consoante as nossas opções políticas,
assentes no direito ao voto livre e consciente. Aqui, certamente não conseguirá
o FMI e quejandos aplicar os famigerados Ajustamentos Estruturais, nem será
permitido que financeiros sem rosto venham a dominar, pelos seus interesses, os
órgãos e governos livremente eleitos. Tão pouco, ao trazerem-nos a desinteressada
ajuda, que se espera de tão magnânimas instituições, veremos algum ataque, por
mínimo que seja, a direitos sociais. Nem sequer quererão espoliar os países das
suas empresas mais importantes. Disso estamos, felizmente, livres. Sabemos que
o seu único objetivo é, com a solidariedade que os caracteriza, livrar os
países do espetro da miséria e do desemprego, dando-lhes, generosamente, meios
para se desenvolverem no caminho democrático que escolheram. Sabemos que
defendem, até ao limite, a felicidade dos povos e caso tenham de escolher entre
o enriquecimento injusto de uma camada de especuladores e o bem-estar de uma
qualquer população, não hesitarão, pelos seus proclamados sentimentos
democráticos, em ajustar as suas políticas a favor desta última. Não teremos,
deste modo, qualquer receio de que da ajuda, tão solidariamente prestada, possam
nascer dores como as que os sul-americanos passaram. Aqui não irão sustentar
despedimentos, compra de empresas fulcrais, nem exigir juros que nunca podendo
ser pagos, por exagerados, tenham como efeito aumentar apenas a dívida que
seria seu intuito extinguir, provocar recessão e conduzir o país numa espiral
de desespero que possa vir a terminar em oceanos de sangue. Ainda bem que
contamos com o seu desinteressado apoio. Vejam só o que está a acontecer na
Grécia por não ter recorrido aos seus serviços e não quer por em prática o
exercício recomendado de uma austeridade salvadora.

 

 

Publicado in “Rostos
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http://rostos.pt

 

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publicado por Carlos Alberto Correia às 14:45








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