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Duas ou três lagartas

Quinta-feira, 24.01.08
Posted by Picasa



A humilde crónica que Vexas podem neste momento apreciar anunciava-se colérica e apocalíptica. Olhava eu para os acontecimentos que na Pátria se vem a tornar constantes e memoráveis, irritava-me com eles até ao tutano, preparava-me para endireitar o mundo com o poderoso verbo justiceiro, quando, confessando estas intenções ao Belegário, ele sorriu e pacata e sensatamente recomendou-me um pouco de paciência para com as imperfeições dos outros.

Na imensa serenidade do seu estar foi derrubando as ponderosas razões da minha fúria.

Falei-lhe da saúde, do calamitoso estado da mesma, nas diabruras do ministro da dita, na sua falta de jeito para implementar reformas, se calhar necessárias e inadiáveis, mas sempre feitas apressadamente, meio coxas, a descambar para o desastrado. Então cabe lá na cabeça de alguém fechar urgências e SAPes, sem primeiro ter arranjado alternativas e quando porventura as tinha não as sabia explicar?

Pois, dizia-me ele, se calhar isso até é um benefício. Vê o meu caso. Estou na Segurança Social há mais de trinta anos e ainda não tenho médico de família. Houve tempos em que me aborreci e chateei o pessoal do centro, fiz esperas ao Director, mandei cartas, mails e demais formas de pressão para o centro, para os ministérios, para as ordens e népias. Se de início me aborreci, depois até fiquei contente com as vantagens da coisa. Na verdade, não tendo médico nenhum, tinha todos os médicos disponíveis. Bastava apenas que fosse para a fila de espera às quatro horas da manhã e tinha o assunto resolvido. Para além disso fiz conhecimentos e amizades com outros esperantes, os quais, de outra forma, nunca teria tido a oportunidade de conhecer. Foi isso que me valeu quando me divorciei. Nunca tive, por mor destas permanências, um só dia de solidão. Havia sempre um conhecido das filas de espera com que trocar uma palavra, beber um copo, jogar uma bisca lambida. Como vês, tem as suas vantagens. Por outro lado também não percebo a diferença de morrer num hospital sem condições e pessoal, ou numa ambulância, lançada a alta velocidade, na expectativa de chegar a uma urgência, distante mas bem equipada, onde a espera para atendimento, por sobrelotação, te matará na mesma.

Não conseguindo destruir esta barreira de impecável lógica repliquei, com uma nota vitoriosa na voz: -e a Educação, que me dizes da educação?

- Vai de vento em popa! Sorriu.

Lembras-te de quando éramos miúdos o medo que tínhamos dos professores? É pá, a escola era mesmo um regime marcial. Mas saíamos de lá direitinhos, prontos para a vida e para o exército. Vê agora a rebaldaria. Ninguém respeita ninguém, os putos são uns malcriados e é preciso dar-lhes nas orelhas. Os professores são uns baldas que só inventam palermices para atafulhar o cérebro dos ganapos. È preciso que alguém meta ordem nesta confusão. Venham os Directores, venham ministros como esta e ponham no seu sítio estes professores sem nervo que se deixam dominar pelos putos. Cá para mim voltava à lei da régua.

- Eh! Belegário, nunca te vi tão reaça. O que é que andas a comer para ficares tão farpado?

- Nada, se calhar estou um bocadinho azedo.. Tenho andado a meditar no que vai acontecendo mas como a minha ex é professora, votei no Sócrates e tenho um fraquinho pela ministra, sinto-me obrigado a apoiar a sua política…

Aproveitei a brecha e disparei: - E o que me dizes do BCP?

- O que querias tu que eu dissesse. És cliente desse banco? És por acaso accionistas? Então o que te preocupa. O Jardim Gonçalves, o Teixeira Pinto? Ora deixa-te de tretas, tu não queres saber, a sério, de nada disto. Que te importa que o Jardim tenha vindo a demonstrar na prática o síndrome do fundador. Não sabes o que é? Eu digo-te. Quando o fundador de uma determinada empresa excede o seu período de validade e não se retira a tempo, começa a inverter o seu papel na organização levando-a, se não forem tomadas as necessárias precauções, à derrocada. Como viste, apesar do barulho as decisões foram tomadas e o homem acabou por ser afastado. Esta gente do dinheiro não deixa os seus créditos por mãos alheias. O Teixeira Pinto? Estavas com medo que ao perder o emprego não tivesse direito a subsídio de desemprego e arranjasse um problema de subsistência para a família? Como vês, podes estar descansado. Com a indemnização que levou e a “reformita” vitalícia que lhe foi concedida, é capaz de não ter grandes angústias existenciais. Além disso, foi uma lição bem dada as pequenos accionistas que se pensam donos do banco. Não queriam mais nada? Capitalismo popular? Nem na China! Agora já ficaram a perceber que o seu papel é só deixar o dinheirinho nas mãos dos grandões que eles saberão muito bem como aplicá-lo ao serviço dos seus interesses. Sabes que mais, dá tempo ao tempo, que tudo isto não passa das duas ou três lagartas necessárias para conhecermos as borboletas. Dá tempo ao tempo rapaz e descontrai.

Certo, Belegário, vou descontrair acreditando que tens razão e que um destes dias as borboletas aí estarão a dar cor ao depressivo cinzento dominante. Mas também te digo, se as lagartas continuarem a comer as nossas couves e as borboletas não surgirem, forem débeis ou tardias, não deixará, por certo, de haver já, em algum lugar e tempo, uma bota cardada pronta não só a esmagar as lagartas como as couves também.




Publicado in “Rostos on line” – http://rostos.pt

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publicado por Carlos Alberto Correia às 23:27








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