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Ploff!!

Sexta-feira, 01.08.08








Quando era miúdo contava-se a anedota de um espertalhaço que no meio de uns parvos presunçosos decidiu viver uns tempos “à grande” sem fazer nada de nada. Para tal, dirigiu-se a uma alta individualidade, afagando-lhe o ego, dizendo que só ele era suficientemente inteligente para perceber o contributo que, se apoiasse o nosso herói, poderia dar para o engrandecimento da Nação. Claro que o nome do esclarecido benfeitor seria lembrado pela eternidade e abençoado por milhões de agradecidos beneficiados.

Aliciado por tal perspectiva quis a entidade saber qual a proposta do espertalhão.

- Sou o único que no munido inteiro sabe fazer Ploff!!
- Ploff?
Pareceu surpreendida a personalidade
- Com certeza que V.Ex.ª não pertence ao número dos ignaros que desconhecem o que é fazer Ploff!!
- Evidentemente que sei, disse ufano e aflito na sua ignorância o importante senhor. Então faça lá!
-Como o Senhor sabe é necessário bastante tempo de preparação para que um tão difícil trabalho seja levado a cabo. Gostaria que me fossem concedidas as condições pessoais, financeiras e temporais para preparar a acção…

Levado no embalo concedeu-lhe o dignitário tudo o pretendido.

A história é longa, com muitos episódios de esperteza, por parte do proponente, de nata burrice por parte de quantos pretendiam saber o que era fazer Ploff!! Levados no canto da sereia, eram enrolados pelo espertíssimo oportunista. Após longos períodos de viver à conta o nosso herói lá foi forçado a demonstrar a excelência do seu Ploff!!. Reuniram-se para tanto as entidades pagantes e (in)competentes perante uma plataforma onde um pano cobria a cena. A expectativa era enorme porque o custo e a espera da experiência também o fora. Eis senão quando, chegado o espertalhão, a cortina é aberta: sobre o palco está um balde com água, uma haste acima do balde, pendendo desta uma corda com uma pedra atada. O nosso actor pega numa tesoura, corta a corda, cai a pedra na água e faz:
- Ploff!!.

Ploff!! foi o que fez, ontem, o nosso estimado Presidente.

Conhecidos os seus tabus, o nunca se pronunciar sobre nada porque ao Presidente não cabe falar destas coisas neste momento, o anúncio de que em tempo de férias, na actual conjuntura, o Presidente, saído da sua proverbial reserva, iria fazer uma comunicação ao país, caiu como trovão, forte e súbito, em dia de Verão. Toda a gente ficou expectante sobre o que teria o nosso Presidente de tão importante para comunicar que se obrigava a sair do seu plano habitual e esbatido para se alcandorar a tão descomedida ribalta.

Como eu não gosto da pessoa nem do estilo e estou sempre de pé atrás, disse cá para mim : a montanha vai parir um rato. Mas não deixei de estar às 20 horas pespegado frente ao televisor para saber qual a magna questão que afectaria as preocupações desta sisuda pessoa de forma a levá-lo a um comportamento tão inabitual. Poderia ser forte coisa! Apesar da minha descrença cheguei a temer que o homem, sempre de triste catadura, viesse comunicar a sua resignação ao cargo por qualquer incógnita doença… longe vá o agouro, mas que o pensei, pensei…

De facto, quando as primeira imagens apareceram lá estava ele, austero, com ar de muito poucos amigos, uma visível tensão em todo o corpo. Cheguei a matutar: vão chover raios e coriscos.

Começado o discurso, com a emoção a secar-lhe a boca e a criar um rasto de saliva seca nas comissuras dos lábios, lá dedilhou o seu rosário de desventuras. Pasmo dos pasmos, apenas queria justificar o seu posicionamento quanto à legislação sobre o estatuto autonómico dos Açores, apontando alguma possível perda de domínios ou, mais correctamente, a necessidade de ter de contactar mais umas quantas entidades para nomeações de postos de poder.

Quando o vi ali especado, defendendo afincadamente pequenos poderes pessoais, lembrei-me como tudo fora diferente na Madeira onde, mero Sr. Silva, tudo aturou ao inefável Alberto e, como, em todo o seu mandato, pouco dissera ou fizera sobre a difícil condição de vida actual dos portugueses. Perdoem-me, não só achei mesquinha tal preocupação, como também me pareceu estar o Presidente a mandar público recado de quebra de namoro ao nosso Primeiro, utilizando os meios de Estado.

Fosse lá o que fosse senti-me na situação da individualidade que suportou o custo de esperteza do herói da história acima contada. Quando o Presidente acabou e se retirou, nos meus ouvidos apenas ressoava um imenso, intranquilo e majestoso:

Ploff!!




Publicado in “Rostos on line” – http://rostos.pt

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publicado por Carlos Alberto Correia às 16:29








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