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paisagem com maçã rio e um carneiro adventício (poema)

Sexta-feira, 11.05.07
I

este poema é cheio de boas intenções
por isso vai em prosa
será todavia possuidor de um corpo diáfano
essencialmente virado para a poesia

por tanto este poema é de seu bastante
poético

conta-se que um investigador aventou
a hipótese mais que arrojada de ser a fome
a causa fundamental do canto do poetas

um outro
mais arguto ou menos nefelibata contrapôs
após rigorosa observação de quinze
mil gerontes esfomeados que em nenhum
estoirou qualquer pedaço
de estro poético

de aqui concluiu tal observador
a lei que passo a transcrever

"não é a fome a origem da poesia
são os actos sucessivos e poéticos
que originam a fome"

por isso

II

há uma árvore sobre um rio
um peixe perplexo
um animal de frio

confronta-se dezembro no interior das casas
insistentemente clamo pela palavra
e o pôr-de-sol
caminha pelos invernos estabelecendo os dentes
na carne das maçãs

recordo vagamente o paraíso
e as plumas cor de rosa da celestial democracia
nos meles do pleno emprego sem tensões laboriais
apenas interdita a maçons esses neo-criadores de
bicharocos esquisitos nos bestuntos de tanta gente
com dificuldades em perceber que os pedreiros possam ser
livres ou os livres possam ser pedreiros

III

a propósito de seriedade lembrei-me
de uma história onde uma criança com fome contracena com um senhor condoído


entra o senhor e diz

tens fome criança
e num repente emocionado levando a
dextra ao bolso

toma lá pinhões

e assim se percebe o longo e amoroso olhar
que el-rei dinis lançou ao seu pinhal
futuro refeitório de crianças pobres
que o nosso esmoler henrique de pé descalço
mandou descobrir por tudo o mundo onde
pudesse chegar o cheiro que as rosas do milagre
fizeram desabar nas praias da linha de cascais

IV

como é para todos perceptível este poema
é - além de sério - tremendamente moral

relembremos

há uma paisagem com rio
uma árvore uma maçã um carneiro eventual
uma criança com fome

ou como diria um provável opositor
o que sobressai é a mania de dizer mal
de uns senhores ditos intelectuais
que só servem para perturbar os momentos em
que a inspiração se furta consciente ao raciocínio
da indignação

V

a inspiração a inspiração a inspiração
uva que não é quotidiana
parra do curto-circuito da gestação do pensável
acne da terra horizonte em sentido figurado
maçã carneiro e rio ou pluma de corista

é inspiração é aspiração é sofreguidão por aspirar
a culpa a bíblia a analogia

pois fique o eufrates lá onde ficar
o que de momento mais me apoquenta
é saber que em portugal um sargento
das américas vale muito mais que um de cá
general

portanto
abaixo a américa e o custo de vida
as armas nucleares e as outras se possível
e pensemos que fazer dos tectos
da habitação e salarial

pois é assim que deve terminar um poema bom e moral

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publicado por Carlos Alberto Correia às 21:33








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