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Cultivar, pescar, alimentar

Quarta-feira, 04.06.08
Posted by Picasa



O mundo está com fome e a fome vai aumentar!

O Belegário espuma de raiva ao ler, em jornal nenhum, este título de arrasar. Pergunta-se como é possível, num mundo tecnologicamente evoluído, onde a produção pode ser elevada ao nível quase que se quiser, haver algum ser humano com fome.

No entanto, são milhões. Há fome na África, há fome na Ásia, há fome na América Latina e na outra também e, admiração geral, descobriu-se que também havia fome em Portugal.

A pergunta que se impõe é: Então porquê?

A simplicidade da resposta arrepia.

Porque o interesse particular de alguns homens e corporações ganha imenso com isso. Porque o pensamento liberal só o é para uns quantos seres economicamente dominantes e é, simultaneamente, escravizador para amplas massas humanas, assim o querendo ser e assim se impondo. Porque a globalização arrecada, em poucos bolsos, os benefícios e exporta, para todos os restantes, os prejuízos. Porque são precisos muitos pobres para fazer um rico.

Na verdade, a mãozinha invisível, do Sr. Adam Smith, anda um tanto ou quanto anquilosada. Sempre atarefada no difícil trabalho de assegurar a muito propalada bondade do mercado, através da lei da oferta e da procura, desorienta-se sempre que é mais necessária e vá de correr – a seu favor - ao hospital da intervenção de Estado, o tal que, quando as coisas correm bem, não pára de invectivar para que desapareça do nosso dia-a-dia, deixando-os comer o que querem e como lhes apetece. Foi assim em 1929 com os frutos que se viu e parece que, globalizantemente, caminha para um novo surto de perigosíssima, se não mesmo mortal, artrite diferencial.

O liberalismo dá-se mal com a realidade e com a equidade. A concorrência real não é perfeita, o mercado tem desvios consideráveis, nunca considerados, e os prometidos bons resultados dessa enorme liberdade de compra e venda, nunca chegam e, pelo contrário, a miséria, a doença e a guerra estão sempre ao fim da rua onde mora a artrítica mãozinha, invisível nos benefícios para a comunidade, muito apercebida nas desgraças que lhe causa.

- Isto pode lá ser – regouga o Belegário - só porque os chineses e os indianos começaram a beber leite e a comer carne entra o mundo todo em polvorosa. Quando se abriram as fronteiras do comércio isto não era já previsível? E não se tomaram medidas?

Claro que se tomaram, respondo eu. Então as grandes corporações não fizeram armazenamentos de bens essenciais para os retirar do mercado e conseguirem assim, artificialmente, a subida dos preços? Não se pagou rios de dinheiro para que os campos ficassem incultos, as pescas paradas, para manter num valor excessivamente elevado os bens alimentares?

- Valor alto? Isso dizes tu. Os agricultores e os pescadores queixam-se de que vendem extremamente barato o fruto do seu trabalho...

-...e que nós pagamos caro como o diabo.

Por isso o Belegário rói as unhas no desespero de não perceber a lógica destas coisas. Dá um murro na mesa e desesperado diz:

- Isto só lá vai à porrada!

Perdoem ao Belegário este tom agreste. Não é ele a falar, é o desespero de sentir-se tolhido, de querer tocar a vida para diante com dignidade e ver todo o construído com tanta esperança e esforço, a esboroar-se velozmente à sua volta, sentindo que não tem mãos para agarrar a desgraça que se aproxima. Vê os preços dos combustíveis a trepar incessantemente e apercebe-se que esta civilização, assente em movimentações fáceis, pode ruir de um momento para o outro, arrastando na voragem todas as coisas e as gentes, sem que se possa fazer mais que soltar um longo gemido ou um arrepiante estertor final.

- Raios! Mas não se pode fazer nada?


Claro que pode. A esperança é a última coisa a morrer. Podemos unir-nos contra o pensamento único dominante. Podemos pará-lo, obrigando os governos a racionalizar a distribuição. Porque os bens não são, ao contrário do que dizem, tão escassos assim. Estão é muito mal repartidos. Neste momento a crise não é de falta de produção. É de míngua de distribuição. É de açambarcamento e ganância. Se nada for feito para contrariar esta conjuntura, deixemos de lado o complexo de Cassandra, caminhamos alegremente para o descalabro social e económico. Ai isso é que caminhamos.

- Então e o Povo de Esquerda, que é dominante neste país, está quieto? Não faz nada para inverter este estado de coisas?

Ai Belegário, Belegário! O povo de esquerda és tu e eu e todos os outros. Se nós nos mexermos todo o povo de mobilizará. Começa por ti. Faz o teu trabalho correctamente e exige a recompensa do esforço cometido e do produto conseguido. Deixa de lado distribuições de trabalho que não visem o bem-estar das pessoas. Diz à Economia que não é ela que dirige as sociedades, mas que existe para a servir. Liberta a política do domínio dos grupos de interesse e, como sempre fizeste, como sempre fizemos, cultiva, pesca, estuda e distribui equitativamente o produto alcançado. Não precisarás de maiores estratégias...

- Tudo bem, tudo bem! Mas como é que fazemos isso se toda a gente anda dividida e todos contra todos?

Observa os sinais. As sociedades nunca se põem problemas que não possam resolver. Tu és parte da solução. Deixa que as partes se juntem e a solução aparecerá clarinha e por inteiro. Está atento ao que nos une, ultrapassa as divisões e vais ver que resulta.

Estás pronto para isto, Belegário?

Publicado in “Rostos on line” – http://rostos.pt/









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publicado por Carlos Alberto Correia às 19:52


2 comentários

De jorge fagundes a 09.06.2008 às 10:46

Que se passa com o Kira?
Há dias que o blog está parado.

De Carlos Alberto Correia a 09.06.2008 às 18:00

Não sei nada dele.
Vou por-me em campo.

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