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Manuel Alegre - Reconciliação...

Domingo, 25.09.05
Escrever para depois não sei escrever.
Meu tempo é hoje. Tudo o mais é não ser.
Correio - O Canto e as Armas (1967) Manuel Alegre
1 - Lembrar
Nos idos anos sessenta Portugal era um país carregado de tristeza. Por essa altura, em Évora, um pequeno mas heterogeneo grupo reunia-se, pelas caladas noites, em casa da Guida. Falávamos, pondo o rádio junto à janela não fosse um bufo da PIDE estar de esculca armada, e sonhávamos, em conjunto, com um país onde o sol brilhasse na efectiva liberdade de todos.
Com fundado receio aproveitávamos esses encontros para conseguir alguma esperança. Era o tempo de se ouvir, clandestinamente,as vozes que a transportavam: Zeca Afonso, Adriano Correia de Oliveira e sobretudo o Manuel Alegre e a sua Praça da Canção e O Canto e as Armas.
Assim fomos estando, resistindo e acordámos, subitamente, numa manhã de Abril.
A liberdade chegou e nós esfomeados e ingénuos utilizámo-la da maneira que sabíamos e podíamos. Cometemos erros e excessos. Pensámos ser inimigos quem apenas discordava. Era o insconciente fascista a trabalhar dentro de nós, mesmo daqueles que mais se pretendiam da libertários.
Assim chegámos a 1977 com a luta acérrima pelo domínio da sociedade e da comunicação social.
Aí separei-me do meu ídolo Manuel Alegre e amargamente publiquei o poema que abaixo trancrevo:
carta a manel


I
houve um tempo em que estavas longe
e mesmo ao pé da mão cantavas
eis senão
quando trocas a canção da cotovia
pelo ondular do pássaro secretário

é uma pena e um fadário
dos políticos desta terra quem desterra
é desterrado e desta feita
quando roda a roda da fortuna
é possível que o poeta venha a ser
contemplado com um ministério
ou um secretariado

no entanto houvera a praça da canção
um desembarque no rossio há muito prometido
o correio
e a maria do brás sempre menina em ti
houvera o sena e um bairro clandestino
e guitarras a tocar nas aldeias com amigos dentro

mas houve nambuangongos que tu não viste
quando da poesia te serviste usurário
para chegares a poeta secretário ourives da
palavra e construtor de frases preciosas

mas daquela triste e leda madrugada
já nem resta uma mão a acenar
nem o comboio que em frança te deixou
tão longe da partida

II

pobre manel-poeta-secretário com modos de ministro
pobre poeta-doente-marcial
com a poesia embrulhada como um quisto
em papel de jornal
estás feito em oito ouvistes
estás feito em vinte
estás feito em mil
mas já não és o cantor da nossa terra
alegre-secretário
nem deves ler os poemas do manel-poeta
o manel-otário

o que dava a voz pela justiça
e tinha uma arma carregada de poemas
sendo a seu modo próprio guerrilheiro

senão como seria ao encontrares
à esquina das palavras
o rosto velho velho desse desconhecido

talvez lhe instaurasses um processo
por ser subversivo ou melhor
através de subsídio comprovado
o levasses a poeta-oficial

pois é a vida custa caro
e comer em restaurantes conhecidos
não está ao alcance de qualquer poesia

mas do magistral soneto
de torneada frase
de sempre belo efeito
saída dum poeta
que faça a preceito
rima ministerial

como estás mudado alegre
que se fez triste e tão triste não resiste e é
manel-contente manel-parente
manel sempre presente
à recepção na embaixada americana
num requintado gosto socialeiro
já foste manel sério manel pantomineiro


III

é uma desgraça que as mulheres
do teu país te hajam conhecido
assim enfatuado
como peru para a matança
desesperado por não entrar na dança
que agitava a populaça
e ameaçava os teus louros no alto da carcaça
que o tempo há-de comer
e a estátua conservar
se não manel
onde é que os pombos da
edilidade irão cagar

IV

ai esta carta já vai tão longa
como a desilusão que nos deixaste
quando repentinamente te mudaste

não foi por mal a gente sabe
só querias ser governo
não eras oposição mas desespero
de te não deixarem subir
para o poleiro

por isso manel não perdoo
teres traído a praça da canção
e nos cavalos do vento que perdeste
voarei ao coração de cada português
a implantar a semente da bandeira
que camões de todo cego tu não vês

é o fim manel a minha despedida
só para te lembrar que não há ministério
que dure toda a vida
2 - E hoje?

Não sei se serei um português, como tantos outros, desiludido. O mundo sócio-politico apodreceu. São as felgueiras, os "majores", os avelinos, esta sociedade que se perde em mentiras e descrenças e me deixa de novo com a necessidade de arejar os trapos da casa.

Não sendo já nenhum crédulo na bondade intrínseca das pessoas ou dos sistemas, revoltou-me tudo quanto venho a ver sobre as movimentações políticas, autárquicas e presidenciais, sobretudo nas designações, activas ou previsíveis, para as candidaturas à presidência da República.

Confesso que não levei, de inicío, muito a sério a candidatura de Manuel Alegre. Mas depois do que vi, desejo ardentemente que essa candidatura avance. No mínimo para arejar o pântano.

Manuel Alegre disse estar preparado para avançar e confessou que não tinha aparelho que o apoiasse. E de facto não o terá se nós não decidirmos o contrário.

Podemos organizar-nos em comissões de rua, bairro ou cidade. Podemos contactar uns com os outros e promover acções de apoio, propaganda e recolha de fundos. Podemos dizer assim que o país também é nosso e que estamos a ficar fartos da sopa que nos dão a comer.

Isto é connosco. Ou ficamos quietos e merecemos tudo o que venha a acontecer, ou dizemos basta e metemos mão à obra.

Eu estou pronto! Apareçam por cá!

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publicado por Carlos Alberto Correia às 14:47


3 comentários

De Admin a 25.09.2005 às 15:47

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De Henrique a 25.09.2005 às 18:30

Carlos.
Lembro-me deste poema como se estivesse hoje a viver o que vivi quando o li pela primeira vez. O Manel desse tempo era outro, como, sendo os mesmos, outros eramos nós, também.
Acho que a republicação do poema, nestas circunstâncias merecia um explicação das circunstâncias em que foi escrito, ou pensarão que andamos a apoiar um qualquer "manel poeta secretário".

De dam a 27.09.2005 às 09:19

Magnífico este poema, bem ao jeito do humor mordaz e inteligente do seu Autor. Um abraço.

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