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Casamentos, divórcios e bispos

Sexta-feira, 04.04.08






De um ponto de vista antropológico não há casamento, há casamentos. De facto cada grupo social institui, conforme as suas vivências e conveniências, a forma de ligação homem/mulher que melhor serve os intuitos do agregado. Uma das poucas regras sociais com aceitação quase universal é a da proibição do incesto. A cedência de uma mulher de um grupo a outro estabelece uma relação de aliança fortalecedora de ambos os conjuntos.

Desta forma o casamento é, sem sombra de dúvida, um acto contratual.

Por isso o casamento dos nobres era uma questão de estado. Igualmente, quando a Revolução Industrial se implantou, o casamento dos filhos da indústria seguia estratégias nupciais de aprofundamento do poder económico-financeiro. Bom casamento era aquele que acrescentava património às famílias.

E o amor? Onde entra nesta história?

Bem, o amor-paixão é uma invenção romântica da civilização ocidental. Não sendo, muitas vezes, possível satisfazer necessidades afectivas com os casamentos contratuais, e não deixando os seres humanos de perseguir afectos, começa a enaltecer-se, na literatura, a transgressão, como acto de superação do simples registo de interesses económicos ou nobiliárquicos, através da exacerbação de uma sentimentalidade arrebatadora, a raiar o irracional e, quase sempre, com desfecho trágico. (Vide, Tristão e Isolda; Romeu e Julieta).

Não deixando de, nas sociedades modernas, existirem estratégias nupciais mais ou menos subterrâneas, o valor declarado e fundador nas nossas ligações é o afectivo. Um casamento faz-se por amor, isto é, por escolha mútua de onde, presume-se, estará afastada qualquer noção de ganho económico ou social.

O meu amigo Belegário não acredita muito nisto. De tal maneira descrê que, ainda não há muitos dias dizia-me, referindo-se à experiência pessoal observada no microcosmo da empresa onde trabalha:

- Olha, Carlos, eu não tenho dúvida nenhuma que as pessoas se casam por amor. Aliás, tenho visto isso, com alguma frequência na minha empresa. As pessoas contactam-se, conhecem-se, namoram-se e casam-se. Nada disto seria excepcional se não fosse o caso das raparigas da empresa se apaixonarem sempre por doutores ou engenheiros. Não conheço um único caso em que se tenham apaixonado por contínuos ou motoristas.

Mistérios que o Belegário encontra os quais, no essencial, não mudam as observações até agora expendidas.

Temos portanto o casamento como um contrato, uma vez que institui direitos e deveres, mas como um contrato especial fundado no afecto entre os cônjuges. Hoje nem o mais empedernido conservador ousa dizer que o casamento segue linhas de interesse contrárias à livre escolha sentimental dos nubentes. Nem mesmo quando isso é claramente visível.

Aceitamos portanto ser no casamento a livre escolha das pessoas que o institui e o torna aceitável em termos sociais. Não percebo, assim, haver tanta dificuldade em, seguindo a lógica da opção, aceitar que quando um dos componentes da díade considera já não ser possível ou desejável a continuidade da ligação seja obrigado a continuar numa convivência que se tornou penosa ou, no mínimo, desagradável. Sou pois, indefectivelmente, pela manutenção da escolha livre tanto para a celebração como para a dissolução de qualquer relação conjugal. Quanto a mim, basta um elemento do casal querer por termo ao vínculo e ele deverá poder dissolver-se sem complicações de maior. Aliás, de facto, é isto que acontece. Quando o amor acaba termina a relação real mantendo-se, embora, a mesma por arrastamento do cadáver contratual.

Em Portugal, nos tempos da outra dama, o domínio da Igreja Católica obrigava toda a gente a manter os casamentos até à morte de um dos cônjuges. A infelicidade e os prejuízos causados às pessoas e ao tecido social, por tal imposição, são por demais conhecidos para que valha a pena estar a tratá-los em pormenor. Ressalta apenas a sempre conhecida propensão da Igreja para dominar a vida social, não apenas dos seus seguidores – com todo o direito – mas mesmo daqueles que lhe são desafectos e sobre os quais nenhum direito lhe assiste, a não ser o direito de abuso, sempre reivindicado.

Apesar de ser altamente privilegiada no nosso país a Igreja Católica, pela voz autorizada dos seus bispos, vem de vez em quando carpir mágoas à boca de cena. Se tivermos em conta o que reza a constituição em termos de igualdade de tratamento das religiões verificaremos estarmos em falta grave para com todos os outros cultos. A existência do pretenso estado do Vaticano permite-lhe reivindicar o tratamento preferencial de estado a estado, ultrapassando o múnus cultual, intrinsecamente da ordem da consciência, passando de relações de culto a relações políticas. Se já isto é mau, esquecem-se com frequência os mesmo bispos que, além de deterem uma rádio, de nível nacional, com várias antenas emissoras, já possuíram um estação de TV a qual, de moto próprio e com interesses comerciais, alienaram no mercado e, escandalosamente, ainda emitem, duas horas todos os domingos, na nossa rádio principal, benesse que nenhum dos outros cultos possui.

Não estão no entanto satisfeitos porque a sociedade civil lhes diz diariamente que se mantenham nos limites traçados para a sua instituição. Mas eles querem mais. Querem manter o monopólio de serviço religioso nos hospitais, no exército, nas escolas. E querem que o Estado lho reconheça e lhes pague por isso. Como não vão obtendo o desejado fazem pressão sobre o Primeiro-ministro para que coarcte a liberdade legislativa da Assembleia da Republica e para restrição da actuação libertadora daquilo a que ousam chamar “ Estado ateu”. É, senhores bispos, a completa perda de vergonha. O vosso papel é aquele que a Constituição reserva para os credos religiosos e mais nenhum. Como nenhum outro direito vos deve ser reconhecido e, deixem-me lembrar que Jesus Cristo, que dizem seguir e evocam como fundador da vossa religião, disse acerca de dois mil anos: “Dai a César o que é de César e a Deus o que é de Deus” e, aprofundando: “ o meu reino não é deste mundo”.

Só respeitando este ditames podereis olhar para quem ainda em vós acredita e, como na Bíblia, proclamar com legitimidade e a plena voz: “Quem tem olhos que veja, quem tem ouvidos que ouça”. Caso contrário, como pessoalmente penso que acontece há muitos anos, não estareis a dar a Deus o que lhe pertence por demasiado interessados em fruir completamente tudo o que vem ou é de César.


Publicado in “Rostos on line” – http://rostos.pt/

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publicado por Carlos Alberto Correia às 10:57


7 comentários

De A-Verdadeira a 05.04.2008 às 13:12

Viva mecinho Dr.CC!

Comentei o seu artigo no "Rostos" mas não lí a sua resposta porque o SP só publicou o seu recado a dizer que tinha enviado uma resposta ao meu "comment".

Gostei do seu artigo e concordo com ele.

De Carlos Correia a 05.04.2008 às 13:29

Provavelmente por motivos técnicos não consegui, até agora, publicar no Rostos a resposta ao seu comentário. Já tinha pensado inseri-la no blogue mas estava à espera de ver o andamento da situação. Portanto, dado o seu contacto adianto serviço e publico de seguida.


Mecinha:

Eu agnóstico me confesso à imagem que criámos de Deus todo-poderoso. Fui, como todos nós, educado sob o manto pesado da Igreja Católica. Conheci, por dentro, os vícios – e alguma nobreza – das pessoas e da Instituição, compreendendo cedo estar a Fé, privada de Razão, numa luta insana pelo poder pessoal e temporal dos seus – espantemo-nos – príncipes. Não é assim que os Bispos se denominam?

A minha inclinação natural pelos fenómenos sociais levou-me a dedicar à Antropologia Social e logo à relativização dos fenómenos religiosos – enquanto Igrejas e cultos determinados – percebendo embora a grande força que detêm e ao mesmo tempo que podem outorgar a quem, para viver, necessita da bengala da Fé.

Procuro na razão a transcendência e, nunca “la ei trovato” na que também foi a minha Santa Madre Igreja.

Agora, com muitos anos e muitas observações em cima aparece-me, iluminado por uma luz muito crua, o papel social que a Igreja desempenha e quer continuar a desempenhar. Só posso dizer que fica muito mal na fotografia. Reconheço, como a Mecinha tão bem afirma, ter a Igreja um papel supletivo nas falhas do Estado Providência. Aqui estribam muito do seu poder. Ouso, no entanto dizer, não ser este o papel principal que Cristo desejaria para o seu legado. Será pretensão da minha parte querer possuir uma melhor interpretação das palavras sagradas que aquela dos que se afirmam como únicos repositores da verdade da Fé?

Penso que sim, porque, desde o Concílio de Trento – pelo menos – a Igreja tomou rumos que, usando termos bíblicos, a aproximam da imagem da Grande Prostituta.

Perdoe-me a dureza das palavras, mas foi da Bíblia que as retirei.

De A-Verdadeira a 05.04.2008 às 13:47

Concordo plenamente com a sua opinião.
A Igreja (Católica), em POrtugal, é o Segundo Estado.


Vai ver que o Sousa Pereira não publicou a sua resposta, por ter escrito "Grande Prostituta".

Saíu-me cá um púdico, aquele homem!

Está a precisar de uns "apalpões marotos" na ideologia.

De Carlos Correia a 05.04.2008 às 16:05

Vou esperar que não seja isso. A sê-lo levar-me-á a repensar a minha colaboração no Rostos.

De A-Verdadeira a 05.04.2008 às 17:53

Deve ter sido alguma falha técnica. Por vezes acontece.

De Carlos Correia a 05.04.2008 às 23:23

Depois eu digo o que foi. De qualquer modo já tenho a promessa de ingressar naquele imponente quadro de redactores (:

De A-Verdadeira a 06.04.2008 às 11:37

Já sabe que poderá ingressar como redactor-chefe.

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