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Pedofilia

Quinta-feira, 18.03.10



(Excerto do capítulo “Boa Nova” do romance em construção “Concerto para Sanca João”)


…Que os santos me perdoem esta dúvida mas foi o seminário o primeiro plantador de suspeitas. Aconteceu no meu segundo ano. Era prefeito da camarata o Padre Lucas. Fosse embora seu mester submeter a apertada vigilância os jovens a seu cuidado, vendo se tomavam duche de calções e camisola interiores vestidos, se dormiam com as mãos fora das cobertas, cumpria a sua tarefa de forma doce como se de brincadeira se tratasse. Obrigava-o a sua função a adormecer muito depois de nós e a acordar antes. Tudo fazia por bem o santo homem e sendo o último a abandonar a camarata, era o primeiro, aos alvores da manhã, a acordar-nos com palavras bem-dispostas, tal ave madrugadora em solarengos madrigais. Todos gostávamos dele até que um dia o Zé Maria, em assustada confidência, nos disse o padre é maricas. Não pode ser! Cala-te Zé Maria. O que estás a dizer? Não cabia em nenhum de nós semelhante pensamento. Era aterrorizador. O nosso prefeito! Sim, confirmava Zé Maria. Ontem, já vocês dormiam todos senti que alguém me levantava as roupas da cama. Fiquei borradinho de medo, sobretudo quando vi que era o padre Lucas que estava a tentar desapertar-me o laço das calças do pijama. Quando abri os olhos ia gritar. Tapou-me a boca e disse chiu! Estou a ver se não te estavas a masturbar. Se gritares ou disseres alguma coisa vou informar o reitor de que te apanhei em masturbação. E tu? Calei-me e ele bateu-me uma punheta.

Se não fosse o Zé Maria a contar não íamos acreditar. Mas ele era nosso amigo já na Cidade e, filho de sacristão, não iria mentir e inventar uma coisa daquelas sobre o padre Lucas. Que vais fazer? Vou-me embora do seminário. Não estou para isto e se ele sabe que falo com vocês ainda me arranja um sarilho. Vê lá se ele conta ao meu pai. Não vais nada embora, disse o Bento, já reconciliado comigo e decidido a ser amigo porque ambos éramos estrelas, a gente resolve isso. Resolve como, perguntei. Fácil! Logo à noite fingimos que adormecemos. Quando o padre Lucas for ter com o Zé Maria ele começa a gritar ladrão, ladrão e nós pomos os cobertores por cima do padre, arriamos-lhe uma carga de porrada e vais ver que ele não é capaz de fazer nada que te lixe! Combinação feita, espera, depois do apagar da luz, que o padre viesse ao local do pecado. Veio e tudo aconteceu como o previsto. Foi tanta a algazarra que o Reitor, cujas instalações eram próximas desta camarata foi quem abriu a luz. O quadro era por demais explícito para que merecesse dúvidas. Em cima da cama, berrando com um desalmado o Zé Maria, de calças de pijama caídas, continuava a gritar ladrão, ladrão, enquanto saltava que nem um cabrito, como se histérico estivesse. Debaixo dos cobertores lançados por sete putos, em pijamas ou ceroulas, debatia-se o padre Lucas. Severo, o reitor, mandou que Zé Maria se compusesse e ordenou ao padre Lucas, já para o meu gabinete. No dia seguinte já ninguém viu o padre Lucas e, na hora de estudos, um novo prefeito transmitiu que o padre Lucas se ausentara por ter sido acometido de perturbações mentais.


Publicado in “Rostos on line” – http://rostos.pt

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publicado por Carlos Alberto Correia às 14:46








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