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Baralhar e dar de novo

Quarta-feira, 24.02.10



Ele há coisas assim. De repente tudo o que parece firme e claro, como por artes mágicas, rebenta noutras perspectivas até aí de todo desconhecidas. O que parecia tão firme e claro era a anunciada disputa do lugar presidencial entre o verbo inspirado do poeta e a deficiente comunicação do professor de economia. A direita temia o resultado do recontro, a esquerda embandeirou em arco e precipitou-se em apoios e gritos de arraial! Arraial! Até pareciam monárquicos!

Foi o factor Nobre, de Fernando, entenda-se, que veio desestabilizar esta contenda anunciada. Entrou de rompante pelo simples facto de anunciar que iria reclamar um direito. O de, sendo português maior de 35 anos de idade, poder disputar o lugar de Presidente da República. É claro que toda a gente nos partidos sabe isso, concorda inteiramente, desde que o candidato “independente” seja um político por eles reconhecido.

Ao anúncio devastador de contas feitas correspondeu um murmurar incomodado – da direita à esquerda – de que o homem seria um cidadão notável, nada havendo, senão elogios, a apontar na sua vida, que dera provas nas mais difíceis situações de capacidades notórias de liderança e organização mas que, facto imperdoável, não tinha experiência política relevante. Quer isto dizer, em partidês, que Fernando Nobre não sabia, não quereria ou não estaria disponível para entrar nos jogos dos interesses de poder e aparecia com um perturbante e muito dispensável discurso sobre valores e ética.

Como se sabe, ao olhar o panorama nacional, nenhum dos nossos políticos de capa de jornal precisa de noções de ética. Toda a população reconhece neles os seres impolutos que são, magros de preocupação com o bem-estar geral, descuidando escabrosamente os seus interesses pessoais em prol do bem comum; inquietando-se plenamente com o conseguimento da justiça civil e da equidade social, sofrendo atrozmente nas raras vezes que tal não acontece neste país onde até o primeiro-ministro – ao contrário do que acontece pelo mundo fora - fala sempre verdade.

O Presidente Cavaco tem andado debilitado na saúde política. O Verão foi-lhe nefasto e não fora a Face Oculta ter desnudado, um tanto por acaso, uma profunda vérmina a grassar entre política, informação e finanças, poderia ser o primeiro Presidente a não bisar o acto. Graças a Sócrates e “sus muchachos” o homem arribou e viu melhorar bastante as suas perspectivas. Também temos de ser humanos. Ainda há poucos se mudou para Belém, começava agora a afeiçoar-se à casa e zumba! Uma acção de despejo. Isso não se faz! É falta de humanidade. Nenhum rancor justifica uma família sem tecto. Dizem-me vocês não ser bem assim, que ele até tem o apartamento em Lisboa e a moradia no Algarve, que está bem de vida, tomara a maioria dos portugueses ter o que ele tem, etc. etc. etc.. Pura inveja, meus caros. Alarguem as vossas vistas, não olhem para o que ele tem, mas para o que ele faz. Não se esqueçam de quem, tão acertadamente, traduziu a Lei de Gresham – aquela da má moeda expulsar de circulação a boa moeda – em termos políticos referindo-se aos notáveis desempenhos do nosso primeiro Santana. Vocês eram pessoas para chegar a tão brilhante raciocínio? Vá lá ponham a mão na consciência e reconheçam onde o saber e a grandeza estão. Se posteriormente se contradisse e o veio a apoiar não foi coisa diferente do que entre ele e o insubstituível Alberto João se passou. Portanto, amigos, existe aqui uma coerência na contradição e arrepio que nós só não compreendemos pelas nossas muito evidentes incapacidades. Felizmente lá estão os iluminados para pensar por nós e nos conduzirem ao correcto caminho. Deus os leve breve para a sua companhia porque nós, que aborrecimento, não estamos sequer perto do seu nível e somos um insuportável tédio nas suas vidas.

O candidato Manuel Alegre sonhava já com a vitória que pôde almejar nas últimas presidenciais. Não deve ter levado em linha de conta que, mau grado os anúncios da sua bem colocada voz, se foi aproximando, talvez sem se aperceber, do lamaçal existente ao redor do seu Secretário-geral. Não comunga dos benefícios que à matilha couberam? Creio bem que não! Mas não deixou de se encantar com a possibilidade (a última que lhe resta de chegar à Presidência) de, encostando-se a Sócrates – sobretudo na recta final – apoiando-o para uma vitória eleitoral que ratificaria a política que vinha invectivando, perder a força da verdade que o mantinha. Hoje, por ironia, ocupa o lugar que pertenceu a Mário Soares. Será o candidato oficial de um partido pouco interessado neste casamento e que nada fará de essencial para que a noiva seja feliz ou possa cumprir a sua missão. Apesar da sua proclamada independência terá sempre que ajustar-se à exagerada factura que o partido lhe apresentará.

O lugar da esperança, que já lhe pertenceu, passa hoje por Fernando Nobre. Estranho é ouvir, vindo de apoiantes actuais, as mesmas diatribes que contra ele foram lançadas anteriormente. Não tem aparelho de suporte, não tem dinheiro, quem é que o subsidia? A candidatura de Manuel Alegre que olhe para trás e verifique o que com ela aconteceu. Fomos nós o seu aparelho, as suas finanças, o seu poder. Hoje muitos de nós já não se reconhecem na sua atitude. Temos esse direito tal como ele tem o de seguir o caminho para si mais conveniente. Terá de conceder-nos que tal via poderá não ser a nossa. Tudo na vida tem um preço e há que pagá-lo!

Em acerto de contas de previsibilidade política é certo que as duas candidaturas poderão enfraquecer a esquerda e possibilitar a vitória da direita. Só que nem isto é absolutamente certo, nem os destinos de um povo são uma mera contabilidade de deves e haveres. Há uma esperança em dias melhores que não passa, tantas vezes, pelo que parece evidencia inelutável. Como dizia um outro poeta: “pelo sonho é que vamos” e precisamos urgentemente de um pouco de sonho neste tão viciado ar do quotidiano português. Precisamos de respirar sem que o metano do pântano nos envenene e a pressão dos interesses nos esmague.

Para já, o meu voto que seria nulo, passa a ter, de novo, expressão e eficácia!





Publicado in “Rostos on line” – http://rostos.pt

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publicado por Carlos Alberto Correia às 01:40








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